sexta-feira, 5 de novembro de 2021

Dissolução

Marcelo Rebelo de Sousa confirmou o que já tinha antecipado e marcou as eleições para 30 de Janeiro de 2022. Nesta decisão está implícita a dissolução da Assembleia da República, faltando apenas a divulgação da data em que isso acontecerá. Os deputados estão, neste momento, a prazo incerto, sem saberem quando deixarão de receber o ordenado. Deve ser uma angústia profunda, que poderá levar alguns à depressão e a terem dificuldades no final do mês para liquidarem os compromissos.

"É preciso que mude alguma coisa nem que seja para que tudo fique na mesma"

PSD e CDS vão aproveitar estes tempos para tentarem arrumar a casa, muito embora seja uma tarefa ciclópica  e para a qual não parece existir mão-de-obra suficiente em número e muito menos em qualidade. PCP e BE ainda estão a digerir a "refeição" e a desejar ardentemente que o tempo "lave" o acontecido e limpe a memória. O PS anseia que o desgaste natural de seis anos de poder, com "cabritadas" várias e "habilidades" desnecessárias, não aleije muito e permita continuar as tarefas normais e as que a "bazuca" proporcionará. Os outros contam pouco, se não chegarem surpresas de última hora.

Não há qualquer drama por haver eleições. Dramático seria se voltássemos aos tempos em que não existiam ou eram meros simulacros, como era norma no antigamente. Espera-se que as "guerras" aqueçam e "piquem" para a deslocação às urnas todos aqueles que têm votado no partido Abstenção. Seria bom para todos, ganhadores e derrotados.

Depois ... ver-se-ão os resultados!

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

Lisboa

Um passeio junto ao Tejo, com visita à renovada estação fluvial do Terreiro do Paço, uma almoçarada num excelente restaurante junto a Santa Apolónia, um convívio com amigos e o último livro de Germano Almeida autografado pelo próprio, no final do repasto. Eis o resumo de um dia bem passado na capital, marcada pelo imenso trânsito e pelas longas filas para os autocarros. O Metro esteve de greve e assim permanecerá até ao final do dia, talvez para que todos os trabalhadores possam ouvir a comunicação ao país do PR, Marcelo Rebelo de Sousa.

Germano de Almeida, simpático como sempre, informou, sem tabus, que vai regressar dentro de dias a Cabo Verde e só voltará a Portugal lá para a Primavera de 2022. Talvez nessa altura traga notícias sobre um novo livro que, por enquanto, ainda nem em pensamento existe.

quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Notas

Havia a preocupação de separar todas as notas que se apresentassem deterioradas, escritas, borratadas, e de as retirar da circulação. Na maior parte das vezes os clientes nem se apercebiam desse trabalho, a não ser que o estado das mesmas fosse de tal maneira catastrófico que surgissem dúvidas sobre a sua valorização na totalidade pelo Banco de Portugal. Quando tal acontecia, a nota era contabilizada numa conta de transição e, posteriormente, o cliente seria ressarcido pelo montante atribuído pelo Banco de Portugal, normalmente valores entre os 50 e os 80 por cento, consoante a degradação.

Apareciam as situações mais díspares: rasgadas nas pontas, coladas com fita-cola, descoloridas pela acção das máquinas de lavar, cosidas com linha, com nódoas de óleo ou de azeite, com uma variedade imensa de frases, mensagens de amor, votos religiosos, preces e desejos.

Recordo, ainda hoje, uma quadra que deu brado, quando surgiu ao ser efectuada a recontagem de um maço de notas de 20 escudos. Tinha passado despercebida no recebimento do depósito, por a nota estar em excelente estado. A quadra estava escrita no branco da marca de água, com letra pequenina e bem desenhada. O poeta escreveu o seu desejo e pretendia que a nota servisse para o proclamar aos sete ventos:

" Vai-te, nota ingrata,
Por esse mundo sem fim ...
E diz às notas de mil
Que não se esqueçam de mim! 

A nota não cumpriu a missão, mas o verso ficou bem guardado na memória.

terça-feira, 2 de novembro de 2021

Melros

Os melros são, desde sempre, o meu pássaro de eleição, como já por aqui referi várias vezes.

O preto das suas penas, o amarelo do bico, a forma como voam, a subtileza com que se deslocam no solo, o seu cantar, tudo me delicia. E esse prazer compensa o ódio que tenho aos que, indevidamente também chamados de melros, são oportunistas, vigaristas, crápulas e todos os adjectivos que cada um saiba para definir gente sem escrúpulos. Mas vamos ao que interessa ...

A oliveira está carregadinha de azeitonas, como nunca tinha acontecido. O dono não as apanha e o vento encarrega-se de as ir atirando para o chão, à medida que amadurecem. Os melros deliciam-se, primeiro a medo, depois e à medida que confirmam que o sossego permanece, a tranquilidade instala-se e o repasto acentua-se. Se se aproxima alguém, a pé ou de carro, levantam voo com o silvo característico do aviso para algum mais distraído. 

Passado algum tempo, eles aí estão de volta ao "lagar", para continuar a festa. Lembro-me dos "ataques" que sofriam as bagas dos loureiros, mas às azeitonas nunca tinha visto e a satisfação é a mesma de sempre. Só me falta perceber se a azeitona é comida inteira ou se lhe retiram o caroço.

Até os melros que voam estão diferentes, ao contrário dos outros, que continuam iguais ou ainda mais refinados.

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Dia de Todos os Santos

Há alguém a quem passe pela cabeça ser este dia consagrado a mim e a muitos outros tão "diabinhos" quanto eu. 

domingo, 31 de outubro de 2021

Poupar e gastar

- Se tens cinco, gasta só quatro ...

Tempos houve em que a poupança era fomentada de forma enérgica, principalmente por aqueles que auferiam mais baixos salários. A certeza de que qualquer impedimento para trabalhar significava deixar de ter rendimentos, a convicção de que a necessidade de cuidados de saúde tinha subjacente dinheiro na carteira, levava a essa cultura do poupar, por muito pouco que fosse, para fazer face a um qualquer imponderável.

O desenvolvimento da sociedade de consumo, a facilidade no acesso à banca, o advento dos cartões com crédito associado, as contas ordenado e outras, criaram em todos a sensação de facilidade e a confiança de que, quaisquer que sejam os problemas, haverá sempre alguém com uma solução.

Apesar de ainda se manter a efeméride do Dia Mundial da Poupança, que hoje se comemora, falar da dita é quase pré-histórico. A máxima no poupar é que está o ganho foi substituída, com as vantagens bem visíveis para todos, por no gastar é que está o ganho. Sem isso, o PIB manter-se-á estagnado e a dívida pública aumentará em percentagem, quando com ele comparada.

Viva a sociedade de consumo! Compre agora e pague depois! Pague em suaves prestações mensais! Compre o colchão! Nós oferecemos o edredão!

sábado, 30 de outubro de 2021

A praça

- Vamos pelo meio da feira. É mais engraçado!

Para quem ouve, sendo daqui, faz alguma confusão. Nunca se utiliza mercado, muito menos feira. Ao escutar isto, logo ficamos a saber que são visitantes. Para nós é e será sempre "a praça", por vezes "praça da fruta", para distinguir da outra, a do "peixe", que ainda continua a ser assim conhecida, embora já por lá não haja peixe há vários anos.

Hoje, logo pela manhã, dois visitantes estavam indecisos entre passar pelo meio dos vendedores e clientes, ou seguirem pelas ruas laterais que delimitam a praça. Após a primeira hesitação, lá chegaram a acordo e "internaram-se" no bulício da venda, utilizando as ruelas criadas entre as bancas. Não faço ideia se gostaram, se compraram, se sentiram o pulsar da vida do sábado de manhã. Não os voltei a ver.

Enquanto assisti à conversa e à tomada de decisão, naturalmente que não fiz quaisquer comentários. Era o que faltava! Ainda podiam acusar-me de ser burro, ao chamar praça a um simples mercado ou a uma mera feira. Para quem nos visita pode ser isso tudo mas, para nós, é a "praça", assim conhecida por toda a gente e onde vão dar todos os caminhos.

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

José Afonso

Numa época em que tudo é e não é, onde se grita com a mesma força o isto e o seu contrário, aparecem, finalmente, resolvidos os problemas que impediam a reedição das obras de José Afonso. Assim, a obra do genial autor e intérprete terá divulgação nas plataformas digitais e o acesso, fácil, pelas novas gerações.

Cá por casa isso não vai ser necessário, uma vez que há muito tempo elas aqui residem e continuam a ser ouvidas com a regularidade e a necessidade que, muitas vezes, não as deixa esquecer. Apesar de já ter decorrido mais de meio século sobre os primeiros discos, a obra permanece actual e é sempre ouvida com deleite.

Espero que o trabalho, meritório, que a família e a Associação tiveram para aqui chegar, ponha as novas gerações a curtirem bué a obra de Zeca Afonso.

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Primeiro dia

Hoje é o primeiro dia de um conjunto deles que hão-de levar-nos até às eleições antecipadas.

O Presidente da República, que divulgou a decisão ainda antes de ela se justificar, terá de cumprir uma série de procedimentos constitucionais até à marcação do dia em que voltaremos às urnas. Nesse dia, a maioria decidirá o que nos reservará o futuro e, goste-se ou não, façamos parte dos vencedores ou dos vencidos, esta é a grande qualidade de vivermos em democracia.

Por vezes, na vida, vale a pena cair para nos levantarmos com mais vigor.

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

A arte do possível

O circo é uma actividade cultural e recreativa com largas tradições em Portugal e no mundo, com áreas e formas de estar e de ser as mais diversas. Dos palhaços aos músicos, dos ginastas aos bailarinos, o espectáculo é diversificado, procura chegar a todos na diversidade de propostas, nas diferenças de gosto.

E, com maior ou menor dificuldade, lá vai conseguindo manter a tenda a funcionar, para gáudio de muitos, críticas de alguns e rejeição de outros. Para isso, todos os intervenientes, do mais importante ao mais humilde, tentam contribuir, procurando as melhores soluções para que o espectáculo seja o melhor e agrade à grande maioria.

Todos os artistas têm a convicção de que o óptimo é inimigo do bom e muito difícil de alcançar, principalmente se, no espectáculo, houver quem fuja às responsabilidades ou se balde ao trabalho. Todavia, no circo, o horizonte mantém-se e a força de o conquistar renova-se.

A queda de um equilibrista, a ausência da risada na piada que falhou, não impedem que o esforço continue, se possível se intensifique.

Se os princípios do circo passassem por S. Bento, talvez não tivéssemos espectáculo tão deprimente e conseguíssemos fazer um país melhor.