quarta-feira, 6 de abril de 2022

Recauchutagem

Começou (e acabou) ontem a azáfama de tapar os móveis que ainda permaneciam nas salas que irão receber pintura nova. Deu, até, para uma notabilíssima aventura de um escadote, mas ficará para outra altura o registo dos seus detalhes. Não há aventura sem aventureiro e até para isso pode ser necessária uma licença especial, que previna todos e quaisquer enredos.

Hoje, bem cedo, os dois profissionais cobriram o chão, colocaram fita onde a tinta está impedida de tocar, taparam alguns buraquinhos que por ali andavam esquecidos, prepararam tudo e foram à procura do almoço, que o estômago já o determinava e, à tarde, a tarefa, outra. Só voltarão amanhã. Com tudo já bem sequinho e limpinho, pegarão nos pincéis, nos rolos e na tinta, claro. Darão uma vida nova ao escritório e à sala pequena e deixarão tudo sem rugas, sem manchas, sem mazelas, com as paredes a ficarem recauchutadas e rejuvenescidas. Usarão o escadote com os cuidados devidos para não haver surpresas e tornarão os tectos tão belos quanto as paredes que os suportam. 

Apesar de todo este saber da experiência feito, não conhecem tinta que possa ser utilizada na recauchutagem humana, garantiram-me, quando lhes coloquei a questão. E acrescentaram: em lado nenhum do mundo há tinta ou pincel que façam esse trabalho. Muito menos rolo ...

Querias!!!

terça-feira, 5 de abril de 2022

segunda-feira, 4 de abril de 2022

Livros (lidos ou em vias disso)

Morreu ontem, com 98 anos, a escritora brasileira Lygia Fagundes Telles. Na estante cá de casa há quatro livros comprados e lidos já há alguns bons anos. Peguei num deles, abri e resolvi deixar por aqui este pequeno excerto, em memória da "grande dama da literatura brasileira".

"(...) Ana Clara fazendo amor. Lião fazendo comício. Mãezinha fazendo análise. As freirinhas fazendo doce, sinto daqui o cheiro quente de doce de abóbora. Faço filosofia. Ser ou estar. Não, não é ser ou não ser, essa já existe, não confundir com a minha que acabei de inventar agora. Originalíssima. Se eu sou, não estou porque para que eu seja é preciso que eu não esteja. Mas não esteja onde? Muito boa a pergunta, não esteja onde. Fora de mim, é lógico. Para que eu seja assim inteira (essencial e essência) é preciso que não esteja em outro lugar senão em mim. Não me desintegro na natureza porque ela me toma e me devolve na íntegra: não há competição mas identificação dos elementos. Apenas isso. Na cidade me desintegro porque na cidade eu não sou, eu estou: estou competindo e como dentro das regras do jogo (milhares de regras) preciso competir bem, tenho consequentemente de estar bem para competir o melhor possível. Para competir o melhor possível acabo sacrificando o ser (próprio ou alheio, o que vem a dar no mesmo). Ora, se sacrifico o ser para apenas estar, acabo me desintegrando (essencial e essência) até a pulverização total. Vaidade das vaidades. Apenas vaidade. A conclusão é bíblica mas responde a todas as perguntas deste mundo desintegrado e confuso. Os loucos reinando sobre os vivos e os mortos. Dominarão os poucos que conseguirem segurar as rédeas da loucura, quais? Pulmões e mentes poluídas. (...)"

As meninas
Lygia Fagundes Telles
Editorial Presença (2005)

domingo, 3 de abril de 2022

Estaladas

A cerimónia de atribuição dos Óscares de Hollywood deste ano ficou marcada por um actor galardoado - Will Smith - ter dado uma estalada no apresentador da festa - Chris Rock -. por este ter feito uma piada acerca da sua mulher. 

A repulsa pela atitude do actor foi notória mas muitos outros acharam bem, com o argumento simplista do "ele pôs-se a jeito". E isso bastava para que o estalo ficasse justificado. São opiniões destas que abrem o caminho censório, que não precisa de ser posto em lei e que não terá bom fim. 

As piadas, os escritos, as opiniões, o que não gostamos, deve ser combatido com aquilo que são as nossas ideias e as razões que nos levam a não gostar, esclarecendo, justificando, salientando as diferenças e o que nos leva a pensar diferente. Não há nada que justifique o acto de violência, sob pena de castrarmos o pensamento e a criatividade e, no limite, admitir que a entrada da Rússia na Ucrânia, ou qualquer outra situação similar, tem justificação apenas porque, na opinião de uns, os outros se estão a portar mal e devem levar uns açoites.

Saibamos defender a liberdade de todos e o direito de cada um pensar como bem lhe aprouver, mesmo que seja burro e diga que a Terra é plana.

Um pouco de lirismo, no final de um Domingo com céu azul e um cheiro enorme à Primavera que se vai instalando, talvez não fique muito mal ...

sábado, 2 de abril de 2022

Saiba ...

... que, apesar das muitas diligências que as notícias nos informam acontecerem diariamente, por parte das mais variadas personalidades mundiais, do Vaticano à Índia, da China à Turquia, a guerra continua sem sinais de abrandar. Muitos já sofreram as consequências, muitos outros estão a caminho de as sentir e de certeza que os dissabores chegarão ao nosso cantinho. 

- O óleo aumentou cem por cento ... está bonito!

E, apesar das conversas, das sanções e das evidências, ninguém consegue convencer o "indígena" de que ele não é o dono do mundo, por muito poder que tenha ou pretenda exibir.

sexta-feira, 1 de abril de 2022

Obrigações

Tal como no ano passado, confirmei a minha declaração de IRS, relativa ao ano de 2021, na noite de ontem, ainda antes do dia previsto pela Autoridade Tributária se ter iniciado.

Seja a pressa de velho ou a ganância de receber cedo, qualquer um dos apodos me pode ser aplicado sem que me cause qualquer comichão ou vergonha. 

A cada ano que passa, esta obrigação fiscal melhora, torna-se mais simples e sempre mais intuitiva. Quem cuida da actividade informática do fisco tem tido um trabalho digno de destaque e de aplauso. 

Para quem já tem uma certa idade, lembrar o suplício que era preencher a declaração do Imposto Profissional do tempo das calendas, do que obrigava a do Imposto Complementar e dos primórdios declarativos do IRS, fazer, ou melhor, confirmar a declaração é, agora, quase uma brincadeira. Ninguém hoje se imagina a colocar o papel químico (muita gente nem sabe o que é) entre as folhas, com dois clips, pequenos, a segurar, para produzir original e duplicado, depois ir para a fila da Repartição, esperar um bom bocado para ser atendido, aguardar a verificação, datar e assinar, e receber o duplicado carimbado "Recebi o original". Guardar religiosamente esse importante duplicado, garantir que todos os documentos que suportavam os valores nele incluídos não desapareciam, ter a pasta à mão para exibir ao fiscal, se tivesse a "sorte" de a fiscalização lhe bater à porta. E aconteceu duas ou três vezes ...

Agora - bendita informatização - olha-se para o ecran, verifica-se por alto, carrega-se no botão do rato e, serviço cumprido. Há meia dúzia, vá lá, uma dezena de anos, era serviço bem comprido.

Aguardemos que o Medina não tenha dificuldades de adaptação e ponha o dinheirinho na conta, para que a inflação o leve rapidamente. É a guerra de sempre!

quinta-feira, 31 de março de 2022

Vespas

A vespa é um insecto muito semelhante à abelha que produz esse alimento extraordinariamente bom e nutritivo chamado mel. Porém, ao contrário da obreira, a vespa a única coisa que sabe e gosta de fazer é picar, estando sempre disponível para o fazer, não distinguindo nada nem ninguém. 

Imita a abelha, saltitando de flor em flor, voando sempre com mais velocidade para chegar primeiro, não vá o pólen acabar. Não produz mel, talvez faça cera, da outra, e nunca está satisfeita com a produção acontecida.

- É doce, é verdade, mas podia ser muito melhor ... se fosse de rosmaninho, seria muito mais saboroso.

 - Mas não há rosmaninho disponível por aqui!?

- Podia ser urze, ou buganvília, ou hibisco. Ficava melhor de certeza.

Por mais evidentes que sejam as escolhas da abelha, por melhores que sejam os resultados obtidos, a vespa continua a achar que está mal e que seriam muito melhores se fosse ouvida. Ela, sim, sabe bem e nem precisa de estudar. Vem-lhe do berço!

Não conhece o trabalho nem a forma de o mesmo se concretizar. Nunca o fez, não o faz nem pensa algum dia ter essa desdita. Paira acima, como Deus omnipresente e omnisciente, com o respeito devido por Deus que, ao que sei, detesta as vespas. Sabe, porém, fazer uma coisa, uma apenas: morder. Com violência, e sempre com a escapadela na mira, não vá o diabo tecê-las.

- O mel não é suficientemente doce. Até está um pouco escuro ...

- Nesta altura não há flores que o façam mais claro.

- Há, há. Não procuraste bem, mas também não te vou ensinar.

A saga continua e não parará nunca. É a lei da vida: a abelha trabalha, a vespa morde. Daqui não saímos. A abelha executa o que sabe, sempre com a preocupação de produzir o melhor mel para todos. Nem sempre consegue, mas o esforço é contínuo. Ao contrário, a vespa sabe tudo de tudo, apesar de nunca ter feito nada. E morde, morde, sem cessar e sem se cansar. Pudera!

Nota: qualquer semelhança entre as vespas e os sapientes "paineleiros" das televisões e das redes ditas sociais não é mera coincidência.

quarta-feira, 30 de março de 2022

Livros (lidos ou em vias disso)

Acabei de ler o diário que Gonçalo M. Tavares escreveu, de 23 de Março de 2020 a 20 de Junho do mesmo ano, com entradas diárias sobre a pandemia que assolou o mundo e que, nesta altura, estará em hibernação, porque outros valores mais altos se alevantam. Para além da qualidade, há muito reconhecida, da escrita do autor, é um documento que perdurará para o futuro e para a história.

"20 de Junho de 2020
Diante do acontecimento, ficar atento e em pé

Dia de solstício. O Verão começou este sábado às 22H44.
Dia e biologia cronometrados com este falso rigor.
Podemos falar assim da partida de um foguetão da NASA, mas não das coisas vivas.
Noventa dias, hoje. Diário da Peste, fim.
2020, ano suspenso, nuvem. Nem cai nem sobe.
Ritmo destes diários, corrente eléctrica debaixo do texto.
Por vezes de manhã, outras à noite: uma excitação diante da notícia: notícia como curto-circuito.
Energia primeiro fechada em casa. Mas, se a energia não sai em texto, essa energia torna fraco e demente quem a tem.
Necessidade absoluta, diário.
Diante do acontecimento, ficar atento e em pé.
Força contra o muito mais forte.
Ou estás presente nos dias fortes ou foges. Ou de boca aberta fazes um ohh como som, resposta e pasmo.
Diário da Peste como companheiro nos dias duros e nos dias feitos para ver. Necessidade e tensão.
E tentativa de documento para que a memória bamba deixe um vestígio mais claro.
(...)
Não vai apenas haver um depois disto, mas um grande depois.
Um trágico, leve, pesado, terrível, efusivo, faminto, debochado, perverso, egoísta, incerto, tremido, assustador: um depois que será tudo isto e mais.
Um depois ambíguo, brutal e alegre.

Diário da Peste
Gonçalo M. Tavares

terça-feira, 29 de março de 2022

Joelhos

- Está a doer-me o joelho ...

- Deve ser mudança de tempo. Se calhar vai chover!

Já caíram uns pingos, ainda que nada de significativo. Talvez amanhã haja mais. 

Isto de fazer a ligação entre dores mais ou menos crónicas e mudanças de tempo tem que se lhe diga. É o saber da experiência feito e desde que me conheço que o oiço. Apesar disso, tenho para mim a sabedoria do meu pai, lá do alto da sua experiência de uma vida que durou mais de 90 anos: é do tempo, sim, mas do que eu já levo. E eu, invejoso, copio-lhe a crença. A dor no joelho não pode ser do tempo que há-de fazer amanhã e dizer isso é apenas uma desculpa para justificar o que não sabemos.

Este joelho, maroto, não se habitua a viver na esquerda sem as peças que lhe foram retiradas há mais de quatro décadas e, teimoso como o dono, recusa a adaptação, sinalizando com regularidade a sua situação e vincando as diferenças que tem da direita. Talvez seja reguilice para dar nas vistas, para se manter ao lado do vizinho e com ele fazer questão de dividir o trabalho diário, apesar de não ser tão dotado e não poder exibir-se muito. Não deve ser fácil. O corpo do dono cada vez se vai tornando mais pesado, diminuindo a mobilidade na mesma proporção, ou mais.

Tem alguma razão o lado esquerdo, como sempre. Aguente-se. Ninguém o mandou não ser cuidadoso o suficiente. O tal saber da experiência feito ensina-nos que, quando a esquerda facilita, a direita aproveita. 

Não vou tirar as peças à direita só para equilibrar. É a vida! 

segunda-feira, 28 de março de 2022

Pintassilgos

Desde muito miúdo que me habituei a gostar de pintassilgos. O seu modo ondulado de voar, o seu chilreio delicioso, as suas cores tão bonitas, fazem deles os meus pássaros de eleição. Mesmo no tempo das "caçadas" aos pássaros, o pintassilgo era sagrado. Os melros, os tordos, os tentilhões, os pardais-telhado, as felosas brancas, os estorninhos, não ficavam descansados perante um "bando" de miúdos armados com uma pressão de ar ou com meia dúzia de fisgas. O pintassilgo podia estar descansado. Ninguém lhe fazia mal e todos ficavam extasiados com a sua beleza.

Procurados com a ânsia da descoberta, os ninhos de qualquer ave eram respeitados, para garantir que a espécie continuava. O desenvolvimento da criação era seguido com curiosidade e atenção, ao longe.

- Já tem dois "seixos". Não se pode mexer. Enjeitam ...

Todos viviam na crença de que os ovos eram "seixos" e que chamar-lhes pelo nome correcto ou mexer-lhes podia significar o abandono do ninho pelos pais. Assistia-se ao desenvolvimento das crias, primeiro completamente nuas, depois com a penugem, a seguir as primeiras penas, até que um dia, quando se chegava, só restava o ninho. A família tinha partido, para se dedicar à vida normal, deixando o lar para algum cuco que dele se quisesse apropriar.

- Já abalaram ...

Graças aos pesticidas que fizeram (ou ainda fazem) as "delícias" da agricultura, os pintassilgos quase desapareceram. Felizmente, parece que estão a recuperar e já se voltaram a ver bandos pousados nos caniços, os quais, à aproximação dos humanos, levantam naquele voo gracioso e único, chilreando com uma musicalidade que é única na natureza. 

Há uns dias, um pintassilgo pousou na parede do meu escritório e passou a fazer-me companhia diária. Não canta nem voa, a não ser na imaginação do dono, mas que é bonito, é.