terça-feira, 6 de setembro de 2022

Inflação

"Deveria ter sido mais cedo. Receber agora implica receber menos em 2023. É pouco. Para fazerem isto, mais valia estarem quietos. As coisas estão todas a aumentar, até o pão. Sou contra. Acho que podiam pagar muito mais. Já não se aguenta."

"Aguenta, aguenta", afirmou há uns anos um reputado banqueiro, numa outra crise. Aguentou-se mesmo e não houve medidas excepcionais. Cada um fez pela vida e só houve "passos" próprios para ultrapassar os problemas. Memórias curtas ...

Marcelo, sempre atento, aproveitou para transmitir urbi et orbi que o PSD tinha sido fundamental, ao fazer propostas que obrigaram o governo a tomar decisões. O colinho dá sempre jeito e fica para memória futura. O PR sabe bem disso. É importante estar sempre presente e ter protagonismo, tanto mais quando se está de partida para o Brasil e não se sabe como a viagem irá correr.

Os comentadores, barões, marqueses ou duques, puxaram dos seus galões, analisaram, fizeram contas, estudaram ao pormenor, foram ao âmago das questões, ao cerne das coisas, aos interstícios da economia, aos meandros das finanças, aos números do orçamento, às projecções claras e convincentes do que vem aí e, com o brilhantismo do costume, concluíram, sem margem para quaisquer dúvidas:

- Era possível fazer muito mais, como o futuro demonstrará.

Se correr mal e tudo isto ficar mais complicado, os mesmos de agora virão dizer que, afinal, tudo era previsível e só não viu quem não esteve atento.

A guerra continua a todo o gás ... ou sem ele!

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

Cabelos

Podia ser à escovinha, uma carecada, à tijela, rente, rapado à navalha ou só tesoura. Era sempre na barbearia e o barbeiro, responsável, dizia umas larachas, contava umas novidades, falava do Benfica e, no final, despedia-se:

- Então até para o mês que vem.

Muito legitimamente foi de férias. Avisou mas a cabeça já não é o que era, e o cabelo continua a crescer. É necessário pô-lo em condições de não se enrolar e de não dar muito trabalho a secar quando se sai do mar. 

Há sempre uma primeira vez para tudo! 

Hoje é dia de experimentar uma nova sensação, que terá início às 19 horas, hora tão estranha para cortar o cabelo que, mesmo puxando a memória, não me lembro de alguma vez ter acontecido. 

Depois de muitos anos a caminhar para a mesma barbearia, o cabelo vai ser cortado por um técnico a sério, devidamente habilitado, moderno, actualizado, instalado numa barber shop. Imagino que será bué da fixe, tipo festa, durará uma beca e não será uma coisa tipo xata.

Não deverá ter larachas, nem conversas da treta e muito menos do Glorioso. Vamos ver se saio de lá tipo  bué satisfeito.

Sempre a aprender! 

domingo, 4 de setembro de 2022

Ânsias

Tropeçou num calhau, caiu desamparado, fez um galo na testa. A mãe, ao apalpar a saliência, calou o choramingas, dizendo:

- Vai cantar à meia-noite.

Não cantou. No dia seguinte ainda estava negro. Devia ter posto gelo. O frigorífico tinha ido de férias. Dois dias depois o galo já não existia. O aviso surgiu, solene, como convém a qualquer aviso que se preze.

- Tens de ter cuidado. Não podes andar sempre a correr, a escaravelhar, a saltar como as cabrinhas. Só me dás fezes!

Nunca parava quieto e a mãe, como todas as mães, preocupava-se.

- Parece que tens bicho carpinteiro.

Não tinha bicho. Era a curiosidade que o movia. A ânsia de ver, de perceber, de saber. Ouvia, perguntava, muitas vezes obtinha como resposta um esclarecedor

- Cala-te!

e continuava a cuscar, a espreitar com receio de que algo escapasse à sua reduzida sagacidade e à dificuldade de entender os adultos. Esforçava-se, mas era difícil, muito difícil.

A concentração era pouca ou nenhuma. A atenção dispersava-se de um lado para o outro, com a elasticidade da gazela e a velocidade da chita. Os olhos percorriam tudo e acabavam por nada reter. Tudo era novo, aliciante, provocador, interessante, estimulante. E tinha "pressa de saber, que a vida é água a correr". 

Cresceu. Manteve a curiosidade, a pressa, a ânsia, o estímulo do desconhecido.

Se tivesse crescido hoje, era hiperactivo e talvez fosse medicado com Ritalina ...

sábado, 3 de setembro de 2022

Sonhos

Li, ouvi, ou sonhei que Mário Laginha e Pedro Burmester estão a preparar um espectáculo a dois, apenas com músicas de Bernardo Sassetti.

Vou estar atento e tentar não perder. Infelizmente, a três nunca mais será possível. Ficam os registos para recordar sempre.

sexta-feira, 2 de setembro de 2022

Comboios

Caminhamos a alta velocidade para o final do ano e nem sequer utilizamos o TGV de que tanto se fala e nunca mais cá chega.

Continuamos a ter as ronceiras automotoras como as que, há quase meio século, me serviam de meio de transporte daqui para a capital e de lá para cá, só aos fins de semana e não em todos. As viagens, num e noutro sentido, eram agradáveis. Permitiam sempre pôr um pouco do sono em dia (ou em noite), sentado ou deitado, consoante a disponibilidade do banco. O "pica" surgia na carruagem após uma das muitas paragens, em todas as estações e apeadeiros, e, se era simpático, seguia em frente e não perturbava o sonho do dorminhoco. Se não o era ... abanava com força o ombro e o bocadinho de papel era subtraído ao bolso e entregue quase sem que os olhos se abrissem. Depois, era aguardar pelo túnel do Rossio ou pela chegada às Caldas. Na época, duas horas de sono, mesmo que solto, eram muito importantes.

Ouve-se dizer que é desta! A linha do Oeste irá ser completamente remodelada, electrificada e, dentro de dois anos, permitirá que uma ida a Lisboa se faça em pouco mais de uma hora, confortavelmente sentado e sem as pernas encolhidas. Nessa altura, a procura deverá impedir que haja gente deitada no banco, mas compensará.

A ver vamos! 

quinta-feira, 1 de setembro de 2022

Espelho

Pela manhã, quando o dia ainda nem tinha percorrido um terço do que lhe estava destinado, já o "homem do espelho" ali se instalava, preparado para, como é costume, me questionar acerca da barba, dos cabelos brancos, das rugas, da cara de caso em razão da noite mal dormida, dos planos para as tarefas do dia, tudo o que lhe vem à cabeça e despeja sobre mim, sem preceito nem respeito, enquanto a cara é ensaboada e antes de a lâmina começar a (des)fazer a barba.

Surpresa! Hoje não foi assim, porque toda a regra tem excepção, sabe-se há tempos infinitos.

- Não vale a pena gastar "latim" a dizer-te que estás velho. Toda a gente vê e tu melhor que ninguém. Lembro-te apenas, para a eventualidade de te teres esquecido, que o teu filho faz hoje anos e que, até para ele, o tempo passou num instante.

Estava eu, meio aparvalhado às voltas com a espuma de barbear, à espera que surgisse do lado de lá alguma coisa nova, uma ideia genial, uma descoberta providencial, qualquer coisa que me diminuísse a santa ignorância e ele sai-se com aquela vulgaridade.

- Que novidade ... Isso sei eu há quarenta e um anos e não preciso que me lembres! 

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

A acabar ... ou talvez não

Agosto está a chegar ao fim e o mar quer deixar claro que é ele quem manda e não vale a pena perder tempo a espreitar o boletim meteorológico ou as aplicações que tudo mostram, quando as câmaras estão a funcionar, o que não acontece já há alguns dias com a da Foz. Dizem que está assim ou vai estar assado, que estará nublado e com boas abertas, com a temperatura a descer e nortada forte, havendo até possibilidades de alguns chuviscos. Tretas!

Chega-se lá e nada do que estava previsto está a acontecer. O mar está chão, corre apenas uma pequena brisa, a água tem uma temperatura óptima (para quem está habituado ao gelo), que delicia os veraneantes, bem menos do que na passada semana. Bandeira verde, a contribuir para a estatística e a contradizer aqueles que dizem que a Foz só tem duas cores: amarelo e vermelha.

- Tem cuidado. Sem dares por isso, foste arrastado um bom bocado para o lado da aberta.

Há-de haver sempre um defeito ... 

terça-feira, 30 de agosto de 2022

Saúde

Fazer frente aos interesses corporativos instalados acaba sempre da mesma maneira. Via-se, e sabia-se, que era uma questão de tempo.

Marta Temido demitiu-se esta madrugada da função de Ministra da Saúde, tomando a decisão há muito reclamada por opinion makers e por gente que trabalha tanto, mas tanto, e ainda consegue comentar tudo e um par de botas a qualquer momento, fazendo parecer que esse "trabalho" lhe ocupou muito do seu sagrado tempo e lhe vai custar recuperar a perda. É claro que esse sacrifício é pela boa causa de esclarecer o "Zé" que, coitado, continua a precisar de quem o eduque, mastigando-lhe a comida para lhe evitar o trabalho de pensar, acessível apenas a uma meia dúzia de dotados.

Há já muita gente à espera, todos extremamente capazes de fazer bem melhor e mais rápido. António Costa não terá qualquer dificuldade em preencher o lugar e não será contestado, se estiver disponível para escolher alguém que marche ao som da banda e faça a vontade a quem disto sabe a potes e a quem coça sempre para dentro.

Da ex-Ministra da Saúde ficará, para alguns onde me incluo, a recordação da coragem, da dedicação e do empenho, postos na função e na resolução dos problemas gravíssimos que a saúde atravessava e a pandemia agravou. A mulher que mostrou ser forte, mesmo quando as lágrimas caíram.

segunda-feira, 29 de agosto de 2022

Aritmética

No início acontecia de vez em quando. Duas, três vezes por semana, nunca até muito tarde e sem abuso de copos. A pouco e pouco, o que era excepção passou a rotina e, no final de cada dia de trabalho, ao primeiro copo com um colega seguiam-se muitos outros, com um companheiro de ocasião, um cliente já conhecido da tasca, um que vinha pela primeira vez e necessitava de ser incluído. Umas rodelas de chouriço, uma saladinha de polvo, uns bocadinhos de orelha com oregãos, uns tremocinhos, uns amendoins, e o copo sempre cheio.

A bebedeira não tardava e o regresso a casa acontecia cada vez mais tarde. O hábito de jantar foi desaparecendo, o de encontrar a mulher acordada também. A casa passou a ser apenas local de pernoita, e breve.

Naquela noite, chegou um pouco mais cedo e, como sempre, trôpego da carga. Dirigiu-se à cama e pareceu-lhe que o espaço vago era estreito para albergar o seu corpo meio torcido. Desconfiado, deitou-se.

- Um, dois, três, quatro, cinco, seis, contou.

- Estou muito bêbedo ... dois meus e dois da minha mulher são quatro.

Saiu da cama. Arrastou-se até ao fundo e, agora com as mãos, contou de novo.

- Um, dois, três, quatro. Certo! Dois meus e dois da minha mulher.

Voltou a deitar-se e nova dúvida aritmética.

- Um, dois, três, quatro, cinco, seis. Está mal! Bebi assim tanto?

Levantou-se de novo, arrastou-se até ao fundo da cama, segurou-se bem e contou de novo.

- Um, dois, três, quatro. Certíssimo! Dois meus e dois da minha mulher. Vou dormir que o meu mal é sono.

Acordou tarde e ficou surpreendido por não haver mais ninguém na cama. Chamou. Ninguém respondeu. Levantou-se, foi à cozinha, passou pela casa de banho, espreitou a sala, nem vivalma. A porta da rua estava aberta ... nunca mais teve dúvidas na contagem.

A partir daquela noite, passou a haver apenas dois pés na cama!

domingo, 28 de agosto de 2022

Gás

Não há gás para escrever. 

Com os aumentos que se diz estarem a chegar, é imperioso começar a poupá-lo, perseguindo o objectivo de o fazer chegar para as necessidades vitais, sem consumir uma grande fatia do rendimento mensal.

Espera-se, ansiosamente, que Costa e Marcelo se entendam e que regulem o que há a regular, e soltem o que é passível de soltura, de acordo com as leis em vigor, sejam elas do direito direito ou do que não está estabelecido em letra de forma mas toda a gente pratica.

Os gases ficarão eternamente agradecidos, com a consciência plena de que não têm vida fácil e lhes são colocadas muitas barreiras e impedimentos.