domingo, 18 de dezembro de 2022

Poesia de Natal

PRELÚDIO DE NATAL

Tudo principiava
pela cúmplice neblina
que vinha perfumada
de lenha e tangerinas

Só depois se rasgava
a primeira cortina
E dispersa e dourada
no palco das vitrinas

a festa começava
entre odor a resina
e gosto a noz-moscada
e vozes femininas

A cidade ficava
sob a luz vespertina
pelas montras cercada
de paisagens alpinas

E a multidão passava
E a chuva era tão fina
que parecia filtrada
de taças clandestinas

Finalmente chegava
triunfal   em surdina
a noite convocada
em todas as esquinas

Mas não se derramava
como tinta-da-china
Na cidade acordada
já se ouviam matinas

Obra Poética (1948-1988)
David Mourão-Ferreira
Editorial Presença (1997)

sábado, 17 de dezembro de 2022

Natal

O Natal está quase a chegar, sem contemplações para todos aqueles que prefeririam um pouco mais de demora nesta corrida desenfreada que os dias empreendem, sem se vislumbrar qualquer ideia de abrandarem a velocidade. 

Não há radares que os assustem nem pontos na carta que os façam "levantar o pé". A velocidade vertiginosa a que circulam impede que se possa apreciar a paisagem ou dar dois dedos de conversa séria. Tudo é rápido e efémero. Mal se sai das comemorações da entrada no novo ano, aparece o Carnaval, comem-se umas amêndoas na Páscoa, tomam-se uns banhos no titubeante Verão, começa a cair a folha e eis-nos, de novo, a pensar nas prendas, na reunião de família, nos males do mundo, nos que padecem e nesta altura aparecem na boca de muitos distraídos pela vertigem.

A partir de amanhã e até ao Natal, "cessa tudo quanto a antiga musa canta, que outro valor mais alto se alevanta", como escreveu Camões. A Poesia é esse valor que por aqui se irá levantar até que as filhós (ou filhoses?) desapareçam, as rabanadas sejam deglutidas e os sonhos sejam saboreados e se mantenham vivos. 

NATAL

Devia ser neve humana
A que caía no mundo
Nessa noite de amargura
Que se foi fazendo doce ...
Um frio que nos pedia
Calor irmão, nem que fosse
De bichos de estrabaria.

Miguel Torga
Diário IV
Gráfica de Coimbra (1973)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

Tempo e paciência

Na actividade profissional que desenvolvi durante muitos (e alguns) bons anos e da qual já só recordo as coisas boas, constatei, bem cedo, que o Direito tem linguagem própria, tempo único, urgência calma e sempre, pelo menos, duas interpretações para o mesmo acontecimento.

Seja a Lei que tem uma vírgula a mais ou a menos, seja a interpretação literal do que está escrito ou aquilo que é o seu espírito, há sempre possibilidades de recurso à leitura que mais convém à "dama" que é a nossa, com argumentação poderosa e convincente, mesmo que os factos aparentem ser tão evidentes que ao leigo pareçam não ter contestação. 

Aprendi, também bem cedo, que a Matemática era a ciência exacta, não havendo dúvidas para ninguém de que dois e dois são quatro. Todavia, um acontecimento desta semana veio provar que até aí pode haver duas interpretações e que ambas estarão correctas e poderão ser defensáveis.

Não por ter dado milho aos pombos mas por, alegadamente, ter recebido uns "trocos" indevidamente, Manuel Pinho, antigo Ministro de José Sócrates, está em prisão domiciliária há um ano, a aguardar que o Ministério Público produzisse, formalmente, a acusação, para a qual tinha o prazo de um ano. Para o Ministério Público, o prazo de um ano foi cumprido e a acusação entregue na data legalmente exigida. A defesa alega que o ano tinha acabado um dia antes e que, por isso, o arguido deve ser libertado.

A discórdia, como é fácil de perceber, encontra-se num dia a mais ou a menos, na contagem dos dias do ano, contagem extremamente difícil e que deverá ser aclarada por um orgão de decisão superior e que, como o sargento da companhia de antigamente, saiba contar bem. Após ser decidido o pleito, ocorrerá, naturalmente, um prazo para apresentação do conveniente e convincente recurso, para que outro orgão ainda mais superior decida, sempre analisando a argumentação de peso e a clarividência das razões que suportam mais uma interpretação.

Não há pachorra!

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

Palavras bonitas

COM FÚRIA E RAIVA

Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras

Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada

De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse

Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se faz com o trigo e com a terra
Junho de 1974

O nome das coisas
Sophia de Mello Breyner Andresen
Caminho (2004)

quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

Relatório

Se alguém tivesse de elaborar um relatório sobre a tarefa de deglutir hoje levada a cabo, escreveria, de certeza, que a estona foi efectuada quase, quase, até ao fim, e que os restos mortais do cabrito tenderam para zero quando se pretendeu concluir o inventário.

Havia a tentação de pedir para que as sobras realizassem uma viagem até à capital, mas foi sol de pouca dura. Coitados dos restinhos, pequenos e com mais osso que chicha, não aguentariam a turbulenta viagem e, talvez até acabassem por enjoar no caminho ou serem imersos na chuva que fez companhia aos visitantes, na viagem que empreenderam à província. 

Fazendo jus à sua hospitalidade, o S. Pedro oestino absteve-se de mandar chuva no durante, presenteando os ilustres apenas na viagem até cá e na de regresso. Ainda que S. Pedro não seja vingativo, não deixa de ser curioso que tenha permitido aos visitantes andar sem umbrela na visita, encontrando mais alguns motivos para invejarem a sorte de quem, não usufruindo da imensidão da oferta que a capital disponibiliza, vai por aqui convivendo com um tempo bem mais suave do que aquele que o lisboeta tem apanhado nos últimos dias.

E foi um bocado bem passado, com boas conversas pelo meio e algumas "entrelinhas" tão saborosas do nosso vocabulário, para recordar tempos idos, refrescar a memória e confirmar que a velha pode ir a estender cordões e a encolher cordões pela serra acima e que a obra-prima do mestre não chega nem aos calcanhares da prima do mestre de obras.

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

Inverno triste

Por mais difíceis que sejam as situações que se nos deparam, mesmo que não consigamos convencer S. Pedro a fechar as torneiras e clamemos que a culpa é das alterações climáticas e não da falta de planeamento de que falava Gonçalo Ribeiro Telles, há sempre uma música que se adequa e nos enche de satisfação.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Estonar

Estonar: 1. tirar a tona, a casca de; descascar. 2. tirar a pele de; pelar. 3. chamuscar, queimar. 4. raspar superficialmente (a terra). 5. cobrir (rego de semente) com terra do rego vizinho. (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa)

Os trabalhos agrícolas efectuados na quinta eram, na altura, ainda pouco mecanizados, sendo necessário recorrer a muito trabalho braçal, por vezes violento, recompensado com pouco e extremamente exigente, fosse qual fosse o ângulo que se encarasse.

Para cerca de trezentos hectares, dos quais apenas talvez uma dezena fosse de floresta, havia três tractores de pneus e dois de rastos, e eram suficientes para o trabalho que executavam. Todos os operadores destas máquinas tinham outras tarefas e mais de metade dos dias do ano elas não saíam das garagens, ou melhor, dos telheiros onde se encontravam. 

Estavam ainda longe os tempos das máquinas de semear, plantar, podar, cortar, vindimar, pulverizar e até de regar. Hoje, os automatismos lideram a actividade agrícola, os computadores controlam e dão informação e seria impensável voltar aos tempos idos. Basta olhar para as plantações de alho francês que acontecem aqui bem perto, para verificar que uma extensão enorme daquele vegetal, que cresce e é colhido em pouco mais de um mês, tem intervenção de duas, três pessoas na plantação e de quatro ou cinco para colher, encaixotar e carregar. A forma como aquilo cresce e se apanha em tão pouco tempo não vem ao caso e é melhor nem pensar nela.

A estona era uma tarefa pouco exigente do ponto de vista físico e consistia em cortar as ervas e enterrá-las para fertilização das terras. A sua "brandura" permitia que fosse executada maioritariamente por mulheres, equipadas com sacholas mais pequenas do que as enxadas tradicionais.

E porque me lembrei eu, velho, destas coisas de antanho? 

Depois de amanhã, vou almoçar com umas amigas e uns amigos (assim fica bem mais bonito) e está previsto que a iguaria seja cabrito estonado. Todos saberão que a estona do cabrito não é feita com sachola e muito menos com enxada, e calcularão que este arrazoado todo apenas serve para comprovar que a língua portuguesa é muito bonita e extraordinariamente rica, ao contrário do país, que continua pobre, ainda que mecanizado.

domingo, 11 de dezembro de 2022

Encontros

- Bom dia. Já não me conhece?

Ia completamente distraído, a pensar em tanta coisa, que os olhos não cumpriram a função que lhes está destinada e a pessoa passaria completamente ao lado se não se tivesse manifestado.

De máscara, bem mais magro do que (já) estava na última vez que tínhamos falado, há alguns meses. Fiquei sem jeito, mas lá me consegui recompor. 

- Desculpe. Ia a pensar ... não o vi. Como é que vai?

- Mal. O raio do bicho parece que agora me está a atacar as pernas. As veias estão entupidas e só vou ter consulta do especialista em Abril.

Era um homem danado. Sempre com pressa, que o trabalho fugia e não havia mãos a medir. Mal havia tempo para um café e o cigarro que se lhe seguia era acendido já na despedida. O bicho não teve contemplações nem foi sensível à importância para a sua pequena empresa e para os que nela trabalhavam. Não eram muitos - três ou quatro - mas passaram a gente desempregada. Talvez, entretanto, tenham arranjado outro emprego. Afinal de contas, eram bons operários, para lhe aturarem a exigência e o ritmo.

Arrasta-se com dificuldade. Tem vontade de conversar mas a respiração, difícil, não ajuda muito. Já não tem pressa ... o que tem a fazer pode esperar.

- Veja lá ... só para Abril!

sábado, 10 de dezembro de 2022

sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

Água

Nos últimos dois dias, as nuvens foram inclementes e despejaram milhões de litros de água, talvez para responderem aos inúmeros apelos de chuva efectuados no Verão passado. Todavia, não levaram em linha de conta que os campos há muito desapareceram das grandes cidades e foram substituídos pelo betão e pelo alcatrão. A água deixou de ter espaço para se infiltrar e passou a encaminhar-se para nenhures. Na época das chuvas, as vielas passaram a ser riachos, as ruas, ribeiros e as avenidas rios caudalosos, com apertados leitos entre os prédios construídos a eito.

Naturalmente e como é costume por cá, a "desgraceira" antecipou-se e surgiu logo na altura em que os projectos para resolver o problema, há muito pensados, estavam praticamente prontos e em vias de serem concretizados a breve trecho. Há anos que as autoridades vêm dando o seu melhor na busca das soluções e tinha de ser agora, quando tudo estava a postos para ser ... bem estudado durante mais uns tempos.

Os prejuízos são incalculáveis e foram relatados por pressurosos repórteres televisivos, com a clarividência do costume, em entrevistas feitas a muita gente que nada presenciou e sabe tudo ... de ouvir dizer. Os estragos são visíveis e tudo aconteceu por falta de limpeza das sarjetas e por os alertas terem chegado depois de a intempérie se ter desencadeado. 

O Ministério Público, sempre atento a tudo o que se passa, aguarda a conclusão do rigoroso inquérito que entretanto será aberto, com vista ao apuramento das responsabilidades criminais que, alegadamente, deverão existir numa situação destas e que, claro, serão devidamente punidas.

Alegadamente, todos apontam para a responsabilidade total de S. Pedro. A vontade de o incriminar por estes desmandos é inabalável, sendo grande a azáfama no recolhimento das provas, irrefutáveis, mas difíceis de concretizar a curto prazo, dada a escassez de meios humanos e a exigência do trabalho a desenvolver.

Entretanto, alguns estudiosos comentadores ou comentadores estudiosos, já expressaram as suas grandes preocupações e avançam com as dificuldades que irão surgir na concretização do julgamento. Não deverá ser possível conseguir a apresentação em Tribunal do, sempre alegadamente, responsável por tudo o que aconteceu, o que inviabilizará a sua condenação.

Razão para mais uma impossibilidade da justiça: S. Pedro está em todo o lado mas não tem morada certa. Não deverá ser possível ao Tribunal conseguir notificá-lo e dias e dias de imenso trabalho serão deitados ao lixo ou à água que correrá pelas ruas, assim que surgirem mais umas nuvens com chuva a sério. Dizem os experimentados nestas coisas que o processo que seguirá para o Tejo terá sempre mais de 5.000 páginas e 100 dossiers.