Hoje é dia de ouvir saxofone, aqui para criar ambiente, e lá fora, num dos espaços museológicos da sempre linda vila de Óbidos, para usufruir de algumas borboletas na barriga, postas a descoberto pela emoção que aparece sempre, mesmo sem ser convidada.
Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único. Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
terça-feira, 21 de março de 2023
segunda-feira, 20 de março de 2023
Sabedoria
De acordo com o que diz quem sabe, a Primavera chega hoje, lá pela boquinha da noite, talvez para não dar muito nas vistas ou sujeitar-se a algum assalto maquiavélico de uma série de mãos empunhando um microfone, ainda que protegido por um cálice de espuma.
Ainda quem sabe também disserta sobre a crise bancária que não irá acontecer salvo se ... acontecer. O Credit Suisse já foi absorvido pela UBS, faliram meia dúzia de "banquecas" nos States, mas certo, certo, é que nada disso afectará a restante banca europeia, como, aliás, se tem verificado em outras ocasiões.
Faleceu Rui Nabeiro e continuando a ouvir quem sabe, foi um empresário extraordinário que, de uma empresa quase nula fez um grande império, de acordo com o presidente da CIP, que nos inunda com a sua enorme sabedoria e experiência.
Rui Nabeiro dizia que os seus trabalhadores eram a essência das suas empresas. Na sua longa vida, deu-lhes formação, tranquilidade, apoio, confiança e, fundamental, disponibilizou-lhes os seus ouvidos atentos, sempre que foi necessário. Se todos reconhecem este mérito, poder-se-á perguntar a razão pela qual a grande maioria não imita.
Agora que Rui Nabeiro já não pode transmitir, de viva voz, o segredo, talvez fosse útil a muitos que fizessem uma leitura do "Almoço de Domingo", que José Luís Peixoto escreveu, deixando no papel e para a posteridade, um testemunho enorme de inteligência e humildade.
Abram-se as portas à Primavera, para que a Prima Vera e todos os seus pares que por aqui vivem, deixem de vegetar e sintam que, ao menos, uma florzinha a abrir-se e a dar-lhes esperança de aparecer melhor fruto.
domingo, 19 de março de 2023
Dia do Pai
Se (ainda) por cá estivesse, o meu pai celebraria hoje 101 anos e apagaria as velas do bolo com a gana e a vontade que sempre o nortearam numa vida de duração significativa, com muito trabalho esgotante e, por vezes até, escravizante.
FOLHINHA
Murchou a flor aberta ao sol do tempo.Assim tinha de ser, neste renovoQuotidiano.Outro ano,Outra flor,Outro perfume.O gumeDo cansaçoVai ceifando,E o braçoDoutro sonhoSemeando.É essa a eternidade:A permanente rendição da vida.Outro ano,Outro flor,Outro perfume,E o lumeDe não sei que ilusão a arder no cumeDe não sei que expressão nunca atingida.Miguel TorgaOrfeu RebeldeGráfica de Coimbra (1992)
sábado, 18 de março de 2023
Lembranças
A carreira de tiro estava situada a cerca de cinco quilómetros do quartel e a ela se chegava a pé, após um percurso deliberadamente escolhido, bem sinuoso e por caminhos que nem as cabras utilizavam. Se, nessa época, já existissem estas modernices dos relógios que contam passos e dão distâncias, surgiriam caminhadas de, pelo menos, o dobro.
Naquele dia, o treino era de tiro de G-3, individual e deitado. Dez garbosos recrutas deitavam-se frente aos alvos e, à voz de comando, puxavam o gatilho. No final, cada alvo era analisado e pontuado, contribuindo para a classificação final que iria determinar a ordem de mobilização para a guerra colonial, presente todos os dias como destino. Ao segundo tiro, a G-3 encravou e a bala não saiu. A aflição foi grande e o braço levantado pediu ajuda ao Tenente que comandava a instrução de tiro, conhecido como muito rígido, talvez por passar todo o dia fechado naquela espelunca onde só se disparava. Com a pressa de resolver o problema, o corpo rodou e a G-3 deixou de estar apontada ao alvo e acompanhou o movimento.
A vardascada foi lesta e o correctivo verbal, recheado de vernáculo e bem alto, para todos ouvirem, soou de imediato.
- Ninguém aqui se pode esquecer que a nossa arma só faz fogo em frente ... Cada um de nós é parte de um todo e tem de ter isso presente em cada momento. Levanta o braço mas mantém a posição. Não esquecer isto, seus ...
As forças militares têm regras próprias e os "plenários" devem fazer-se antes da aprovação da ordem de operações. Depois, é executar o melhor possível e de forma a que corra bem para todos. Na operação não há discussão.
Acabado o serviço militar obrigatório de triste memória para os que o tiveram de suportar, quem não quer, não pode ou não sabe ser assim, tem a porta da rua que é a serventia da casa, podendo escolher ser canoísta do Mondego ou mariscador de berbigão, mas não mais membro da tripulação de um NRP.
sexta-feira, 17 de março de 2023
Carapaus
A vizinha tinha entrado sem ser convidada, como era costume. Os seus olhos não saíam da frigideira e o nariz parecia extasiado, se é que o apêndice que nos divide a face também tem emoções.
- Ora viva! Gosta de carapauzinhos fritos, de um dia para o outro?
A pergunta foi oportuna e surtiu um efeito trapalhão na resposta.
- Adivinhou. Adoro carapauzinhos fritos, sempre. Quanto mais pequenos, melhor, e bem fritinhos, para ser possível comer tudo, espinhas incluídas.
A compostura foi recuperada num ápice e os olhos riram-se, diante da perspectiva do petisco adorado e ainda por cima de borla.
- Ainda bem. Passe por cá amanhã, que eu estou a fritá-los agora.
A mulher fritava os carapaus adquiridos logo pela manhã. A peixeira, que percorria a aldeia com a canastra na cabeça sempre coberta pelo lenço enorme e bem ornamentado de cores e flores diversas, raramente trazia os carapauzinhos indicados para fritar. Era claro que o peixe comprado era pouco para a prole e, por isso, não era muito indicada a hospitalidade e a partilha. A prole era grande, adorava aqueles peixinhos pequenos, acompanhados de um arroz de tomate saboroso, como sempre.
A habilidade da linguagem transmitiu o recado, sem hostilizar nem criar qualquer sentimento de recusa. Como todos sabem, os carapaus fritos ainda podem ficar melhores no dia seguinte ... quando sobram.
O problema é que nunca sobram ... são tão pequeninos e óptimos.
quinta-feira, 16 de março de 2023
Partidas e chegadas
Passam hoje 49 anos sobre a partida dos militares do (então) Regimento de Infantaria 5 em direcção a Lisboa, numa viagem que não concretizaria os objectivos, culminaria com a prisão de todos os envolvidos, mas ficaria como prólogo do 25 de Abril, que surgiria daí a pouco mais de um mês.
Também hoje se registam os 30 anos da partida de Natália Correia, escritora de quem me habituei a gostar há muitos anos e cuja irreverência e forma de estar sempre apreciei, e muito.
Ao registo das duas partidas teria sempre de corresponder, pelo menos, uma chegada. E assim aconteceu. Não esperava que o rigor da editora fosse tanto, mas hoje, pouco antes da hora do almoço, o carteiro (não o que toca duas vezes, que este conhece os cantos à casa e sabe bem o que deve fazer quando, ao simples toque na campainha, não lhe aparece ninguém) tocou e, em conjunto com a Visão e a Gazeta, entregou o embrulho registado, esperado e mesmo a tempo de ser hoje começado.
O Dever de deslumbrar - Biografia de Natália Correia, é um livro escrito por Filipa Martins, que traz o dever de deslumbrar os seus leitores e transportar muitos detalhes de uma vida cheia que a grande escritora teve. Pena ter sido tão curta. São "só" 695 páginas que irão ser lidas, creio, num ápice e sempre com deleite.
quarta-feira, 15 de março de 2023
Boné
Traz sempre o boné, já velho, que, na maior parte do tempo segura na mão, a evidenciar a subserviência e o respeito pelos outros, conforme aprendeu muito novo e lhe foi incutido como dever. Já ninguém lhe pede que descubra a cabeça nem que mostre esse claro acatamento das diferenças. Muita gente fica, até, incomodada com um comportamento tão antigo e hoje claramente desnecessário, e talvez, até, ofensivo. Foi assim que aprendeu e não consegue alterar.
- Deixe-se disso. O respeito pelos outros é bonito, necessário, até agradável de notar, mas só isso.
Mas ... não consegue cumprimentar ninguém sem tirar o boné. O gesto é automático, irreflectido, instantâneo. E lá segue na sua viagem, descobrindo-se no cumprimento, em qualquer serviço público, na loja, no café, na igreja. Em todo o lado o Zé tira o boné. A ausência de cabelo devia torná-lo mais cuidadoso, mas não é isso que acontece. Foram muitos anos a reverenciar os outros, descobrindo a cabeça que agora é careca e não tem medo de apanhar algum resfriado.
Usar boné é hoje ser distinto, estar à la page, ter presença, ser notado, reconhecido e distinguido, sem necessidade de tirar o dito, não vá o cabelo aparecer oleoso e com sinais de ausência da higiene diária.
O Zé é teimoso e continua a retirar da cabeça o seu velho boné, sempre que cumprimenta alguém ou entra na roda. Tem cá um feitio ...
terça-feira, 14 de março de 2023
Tarefeiro
No final de uma tarde agitada pelos objectivos a cumprir e pelas tarefas distribuídas para execução (já vai faltando o treino dos compromissos e dos horários), nada melhor do que ouvir boa música, executada maravilhosamente pelos dedos de quem sabe e tão bem toca.
segunda-feira, 13 de março de 2023
Moinhos de vento
O papel tinha sido lá colocado há cerca de 15 dias. Indicava o número de telefone e pedia um contacto, por haver necessidade de conversar sobre assunto importante para os dois, ainda que não houvesse conhecimento entre ambos.
O moinho está lá bem no alto, visitado sempre pelo vento agreste e muito raramente por pessoas. Hoje, em mais uma ida à "senhora da asneira" em busca de alguém, de gente nem rasto. O papel já não estava no sítio onde tinha sido colado e eram visíveis as marcas deixadas pela fita adesiva que o segurava. Uma olhadela em volta e lá estava ele, ainda dentro da mica de plástico que o protegia dos malefícios do tempo.
- Alguém leu ... mas não passou cartão.
Na Junta de Freguesia, nenhuma das duas funcionárias sabia quem era o proprietário, mas aquela "senhora de idade" que ali está, deve saber.
- Conheço bem ... está em França ... mas a filha está cá.
- E a senhora sabe onde ela mora?
- Segue por ali abaixo, corta à direita e, depois, é uma casa branca ... na subida.
Tudo clarinho como água ... para quem conhece.
- A senhora não se importa de vir connosco e indica-nos?
- Pode ser.
Quatrocentos, quinhentos metros, não mais. E era bastante fácil ... para quem conhece. A filha conversou, disse que tinha visto o papel e telefonado para o pai, informando-o.
- Ele disse-me que lhe ia mandar uma mensagem.
Deve ter havido algum contratempo nos Pirenéus ou o vento de lá soprou forte e a mensagem não conseguiu fazer a viagem. O que havia a tratar, foi tratado, olhos nos olhos, como convém.
O moinho lá continuará e irá assistir à limpeza do terreno e ao desbaste dos pinheiros, com conhecimento do dono, que foi moleiro e já não é, e que não ficará surpreendido quando vier de vacances.
É fundamental haver boa vizinhança, mesmo não conhecendo os vizinhos.
domingo, 12 de março de 2023
Rotinas
Como já inúmeras vezes por aqui ficou registado, o passeio matinal junto da Lagoa é um privilégio, uma beleza e um grande prazer.
Hoje foi mais uma manhã sem vento, com o céu a anunciar a primavera e o mar a mostrar que está nas melhores condições para receber os surfistas que competem em Peniche, batendo com força na rocha e lixando o coitadinho do mexilhão, desgraçado nem sequer ouvido no acto de que nasceu e muito menos na fixação da data para a competição nos Supertubos.
A vista extasia e determina concentração, fazendo esquecer a quantidade de pilim que nos vai custar a saída da presidente da TAP, o cacau que está a ser arrecadado pelos que, atentos, se enchem à custa da guerra e da inflação e nunca, garantem, pelo seu egoísmo e ambição. Entretanto, o carcanhol do palco-altar já se encafuou nos meandros da sacristia, caminho que seguirão os problemas que afectam hoje a vida religiosa e estão a exigir a permanência dos bispos na ribalta.
Entretanto, Marcelo voltou às lides, depois de meia dúzia de dias de silêncio esclarecedor. Aproveitando o aniversário da sua segunda tomada de posse, zurziu com força António Costa e o seu, dele, governo, e deixou clara, finalmente, a sua posição sobre a actuação dos bispos.
Com tudo isto, daqui a pouco o Benfica joga na Madeira, o domingo está quase no fim e Março já cumpriu mais de um terço do seu caminho. Tudo se repete, para que seja sempre diferente.
