Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único. Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
domingo, 15 de setembro de 2013
Palavras bonitas
Num deserto sem água
numa noite sem lua
num país sem nome
ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Mar Novo
sábado, 7 de setembro de 2013
Negócio
- Grande negócio!
A alegria era evidente e o entusiasmo contagiante. O sorriso de "orelha a orelha" denunciava que algo de muito importante tinha acontecido naquele dia. Era sexta-feira e, como habitualmente, fazia-se a reunião de balanço da semana e de preparação da seguinte.
Era o tempo em que a debulha do trigo se fazia numa eira de circunstância, normalmente instalada numa terra de pousio cedida por um agricultor da região.
Já se ouviam rumores de que, na América, o trigo era colhido e de imediato debulhado pelas grandes ceifeiras debulhadoras. Dizia-se que, com apenas um homem e em um dia, se ceifava mais na América do que em Portugal na época toda. As máquinas ceifavam, debulhavam, ensacavam e enrolavam a palha, tudo automático e sem outra intervenção que não a do condutor.
Dizia-se ... mas, por cá, continuava-se a ter grandes ranchos de homens e mulheres, que segavam o trigo e o atavam em rolheiros, que as galeras, as carroças e os poucos tractores transportavam para as eiras. Nesse ano, a debulhadora estava instalada na Foz, ali a dois passos de uma das quintas, onde se tinha semeado bastante e a colheita parecia ir ser boa. Faziam-se palpites e acreditava-se não ter menos de quinze sementes.
Os atados do trigo eram colocados em grandes medas e o dia da debulha marcado pelo encarregado, de acordo com a ordem de chegada e com o "peso" do agricultor. O custo do trabalho era pago em cereal, com retenção da maquia ajustada, logo no início da debulha.
Na eira, a azáfama era enorme e o pó insuportável. O trigo era ensacado em sacas de serapilheira, atadas com o barbante que o homem a quem competia esse trabalho tinha cortado previamente do rolo e que lhe enchia os bolsos. Da enfardadeira, colocada na traseira da debulhadora, saía o fardo de palha, um paralelepípedo atado com três arames.
- Vendi 1.000 fardos de palha a 4$50 cada! E na eira! O homem vai carregá-los amanhã e já me deu o cheque!
Cheques, na época, circulavam pouco e não eram usados habitualmente em negócios de ocasião, como este tinha sido. Só aos clientes habituais se autorizava este luxo.
Ficou o cheque no cofre, para no sábado, de manhã, se ir "rebater" ao Banco Lisboa & Açores. Na ida semanal ao Banco, levavam-se todos os cheques recebidos na semana e trocavam-se pelo dinheiro necessário para pagar as jornas, depositando-se a diferença na conta. Se a receita da semana não chegava, o patrão, na reunião da sexta-feira, entregava um cheque, para reforço da caixa.
A pasta transportava o dinheiro necessário, bem trocado em notas e moedas, para ser fácil pagar a cada um o (pouco) salário que lhe cabia na semana, de acordo com as presenças anotadas nas folhas de férias, até sexta-feira, e completadas no sábado, antes de se proceder ao pagamento.
- Esta semana tem cinco dias e um quartel!
- Na segunda-feira fui ao enterro dum tio ...
A lista do desdobramento da verba era entregue em conjunto com os cheques, e o Sr. M. ia ao interior do banco e voltava com tudo muito bem organizado, as moedas em rolinhos, as notas em macetes.
Na semana seguinte, a entrada no banco teve uma saudação especial.
- Tenho um presente para ti!
- ??
- Um cheque devolvido por falta de "chapéu".
Férias e mobilidade
quarta-feira, 7 de agosto de 2013
Livros (lidos ou em vias disso)
"(...)A escola é uma casa onde nos sentamos e a professora fala por nós. Na escola as palavras da professora chegam ao mesmo tempo aos ouvidos de todos e os que estão na sala com a professora aprendem as mesmas coisas. Se eu quiser dizer ao Roberto qual é o maior rio do mundo, ele já sabe porque aprendemos juntos, de igual modo para os planetas e as montanhas e os animais da savana, por isso no recreio todos correm e fazem jogos ou ficam calados a comer pão com geleia.
Na escola aprende-se a ler mas não há livros a sério. Há um cartaz grande com as letras lá impressas e vão-se aprendendo uma a uma, depois duas a duas, depois as palavras pequenas e as maiores, tudo sem livros para ler. Já começámos a aprender algumas frases, mas a professora não nos disse de que histórias vêm.
Ontem repetimos várias vezes que "O Pedro pegou na pá do papá", mas não nos foi dito para que queria o Pedro a pá nem se o acto foi feito à revelia do pai ou com o seu consentimento. Em resposta às minhas perguntas, a professora ameaçou-me com castigos se eu não ficasse calado e quieto. Todos os meus colegas se riram e o Rudolf disse que o Pedro pegou na pá para me dar com ela na cabeça.
Acredito que aprenderia mais com a minha mãe do que na escola, mas ela diz-me que devo fazer o que fazem os outros meninos e saber as coisas que eles sabem. Eu perguntei-lhe até quando tem de ser assim, até quando tenho de saber o que os outros sabem e porque é que os livros têm histórias de outras avós. A minha mãe diz-me que os livros são para eu saber o que quiser para dentro, que posso lê-los e conversar com eles sobre todas as coisas de que não falo com os meus colegas.
Amanhã não há escola e sinto-me aliviado. Vou procurar livros complicados onde o Pedro pegue na pá para fazer um buraco enorme e enfiar lá a professora e o Rudolf. Só os meninos sem mãe deveriam ir à escola e, em vez da professora, deveria haver livros pelas paredes para cada um aprender as suas coisas. Assim eu podia chegar ao Roberto e contar-lhe do homem sozinho na ilha e ele falava-me de uma viagem até à lua numa bala de canhão. Não sei se vou conseguir ler os livros todos e gostava que alguém me contasse alguns.
domingo, 4 de agosto de 2013
Palavras bonitas
de ardil em seu afago
ETERNIDADE
Regressava sempre
das viagens
como se voasse
A perder-se no dentro
de si mesma. Em busca
do mundo e da verdade
Firme, sedenta e libertária
na teima de encontrar a eternidade.
sexta-feira, 26 de julho de 2013
Foz do Arelho
sábado, 20 de julho de 2013
Os meus netos
quinta-feira, 11 de julho de 2013
Palavras bonitas
sexta-feira, 5 de julho de 2013
Crise
terça-feira, 2 de julho de 2013
Crise
domingo, 23 de junho de 2013
Palavras bonitas
Deixo que venha
se aproxime ao de leve
pé ante pé até ao meu ouvido
Enquanto no peito o coração
estremece
e se apressa no sangue enfebrecido
Primeiro a floresta e em seguida
o bosque
mais bruma do que neve no tecido
Do poema que cresce e o papel absorve
verso a verso primeiro
em cada desabrigo
Toca então a torpeza e agacha-se
sagaz
um lobo faminto e recolhido
Ele trepa de manso e logo voraz
que da luz é a noz
e depois o ruído
Toma ágil o caminho
e em seguida o atalho
corre em alcateia ou fugindo sozinho
Na calada da noite desloca-se e traz
consigo o luar
com vestido de arminho
Sinto-o quando chega no arrepio
da pele, na vertigem selada
do pulso recolhido
À medida que escrevo
e o entorno no sonho
o dispo sem pressa e o deito comigo
Maria Teresa Horta
PS - Ontem a Universidade de Coimbra foi declarada Património da Humanidade pela Unesco e, nesta decisão, é toda a cultura portuguesa que é reconhecida.
terça-feira, 18 de junho de 2013
Actualidade
Vítor Gaspar e Passos Coelho têm razão: para quê pagar os subsídios de férias em Junho se o Verão só chega em Novembro!
E mais: este ano ainda não tive férias e, de acordo com a última do nosso inquilino de Belém, ainda não as fiz, não sei se as faço ou se as "façarei".
É obra! Depois do plural de cidadão ter passado a "cidadões", parece que o verbo fazer ainda tem mais uma irregularidade.
Puna-se o verbo, que não divulgou esta sua forma a todos os seus "concidadões" e assim contribuiu para a ignorância de muitos.
quinta-feira, 13 de junho de 2013
Santo António
sábado, 8 de junho de 2013
Quotidiano
À saída, um automóvel (mal) estacionado em cima do passeio não permite efectuar a manobra. Tem os "piscas" ligados e o seu condutor deve ter ido, num "pulinho", tomar um café.
Estou a colocar os "phones" nos ouvidos, o saco que traz o livro, a maçã e as bolachas já ocupou o lugar à minha beira, que não teve pretendente. O autocarro deve levar 25/30 pessoas em silêncio. Não há qualquer comentário em relação ao "simpático" que nos impede o início da viagem. Normal!
Eis senão quando surge um casal, já entrado nos anos (dois "idosos sexagenários"), com a mulher a gesticular para o motorista. Percebe-se, pelo movimento dos lábios, que pergunta se vai para Lisboa e pede a abertura da porta.
- Viessem mais cedo ...
Ouço o comentário e apetece-me responder. Contenho-me. Afinal são só 06H30 da manhã, ouço música, tenho o dia todo pela frente para me aborrecer ...
- Não sabem o horário!?
- Há gente que acha que os outros podem sempre esperar pelos atrasados ...
O motorista abriu a porta e o casal entrou.
- Bom dia a todos, ouviu-se da voz masculina, bem rasgada.
Poucos responderam.
- Obrigada por abrir a porta. O senhor dos bilhetes disse-nos que já tinha partido ... mas como estava aqui ... desculpe, falou a mulher.
- Sentem-se, que vamos avançar.
O tipo do automóvel voltou do café, sentou-se ao volante e acelerou, sem um aceno de desculpa. Foi à vida, descansado, e não teve direito, ao menos, a uma criticazinha.
Passaram junto a mim, ele com o boné característico de quem vive e trabalha no campo. À cautela, um guarda-chuva enorme na mão, não vá o S. Pedro da capital fazer das dele, num sítio onde ninguém nos acolhe nem oferece tecto, mesmo que chova "a cântaros". Ela leva um saco, também grande, que não parece pesado. Talvez tenha lá dentro o aviamento para o dia, que a vida não está para comer em restaurantes e, mesmo havendo dinheiro, não se conhece ninguém ...
Iriam ao médico? Talvez, mas chegaram atrasados ao autocarro.
Se não fosse aquele senhor ter vontade de beber a sua bica matinal e teriam ido no outro, a seguir.
segunda-feira, 27 de maio de 2013
Livros (lidos ou em vias disso)
Passam hoje 50 anos da morte de Mestre Aquilino Ribeiro, o escritor que ainda agora me obriga a ler, reler e a ter o dicionário por perto, para aprender mais uma, duas, três, muitas palavras novas que sempre surgem, demonstrando que a língua portuguesa é muito mais rica do que aparenta, pelo cada vez mais reduzido vocabulário que vamos usando.
Aquilino foi grande na "Casa Grande de Romarigães", nas "Terras do Demo", no "Malhadinhas", em "Quando os lobos uivam" ou no "Um escritor confessa-se", e em tantos outros, nas mais de seis dezenas de livros que publicou.
O excerto abaixo é da "Geografia Sentimental", livro escrito em 1951 e reeditado pela Bertrand em 2008, que retrata o Portugal profundo e as suas formas de viver, sofrer e trabalhar.
sábado, 25 de maio de 2013
Quotidiano
Ontem, perdi o metro por pouco.
Começava a descer a escada quando o silvo anunciou o fecho das portas e ... foi-se!
Vou no próximo. O aviso informa que faltam apenas quatro minutos.
Do saquinho retiro o último livro de Manuel Alegre - Tudo é e Não é - e continuo a leitura, suspensa desde a manhã, bem cedinho, na viagem inversa.
Chega a "cobra subterrânea".
Sai gente, muita, e no gesto há muito automatizado, entro, quando o turbilhão de apressados me permite. Consigo encostar-me à porta do lado oposto, que é o sítio onde mais gosto de viajar e que, normalmente, me permite ler sem problemas.
Não ouço nada do barulho ensurdecedor que existe à minha volta. Tão pouco vejo ou reparo em quem quer que seja. Concentração absoluta, que o fim do capítulo está mesmo a chegar.
Acabou.
Levanto os olhos e ouço duas jovens (trinta, trinta e cinco anos):
- Ainda não me habituei bem, mas já consigo ler no ipad.
- Eu não sou capaz. Preciso de folhear o livro, sentir o papel...
- Mas é muito prático e muito mais barato. Estou a ler um, bem sei que é inglês, mas custou 3 Euros. Se fosse em papel, não custaria menos de 15.
Pois é! E o cheiro do livro? E o ritmo das folhas? E a capa? E o ritual da compra?
Na próxima semana vou à Feira do Livro. Só ainda não sei o dia!
terça-feira, 14 de maio de 2013
Livros (lidos ou em vias disso)
O final da tarde do passado domingo foi passado no CCC, a assistir ao lançamento do livro "A redenção das águas - As peregrinações de D. João V à vila das Caldas", de Carlos Querido.
Romance histórico, bem escrito (posso testemunhar porque já o li), o livro relata as vindas do Rei magnânimo às Caldas, na procura de remédio para as suas maleitas nas águas sulfurosas, e conduz-nos numa viagem pelos costumes, privilégios, subjugações, amor e intrigas da época, deixando-nos, nalguns casos, a dúvida sobre se estamos no século XVIII ou no XXI.
A apresentação foi precedida de uma lição de história das Caldas, da minha amiga Isabel Castanheira, que, socorrendo-se de muitas páginas da literatura, traçou paralelos entre o ontem e o hoje que devem ter feito corar muita gente.
Do livro, cuja leitura se recomenda vivamente, um pequeno excerto:
quarta-feira, 8 de maio de 2013
Palavras bonitas
REMINISCÊNCIA
Prossegue o pesadelo.
Feliz o tempo, que não tem memória!
É só dos homens esta outra vida
Da recordação.
E tão inúteis certas agonias
Que o passado distila no presente!
Tão inúteis os dias
Que o espírito refaz e o corpo já não sente!
Continua a lembrança dolorosa
Nas cicatrizes.
Troncos cortados que não brotam mais
E permanecem verdes, vegetais,
No silêncio profundo das raízes.
Penas do Purgatório
Gráfica de Coimbra (1976)
quarta-feira, 1 de maio de 2013
Lagoa de Óbidos
segunda-feira, 29 de abril de 2013
Quotidiano
Ocupam todo o espaço da escada rolante, em amena cavaqueira sobre o dia de labuta que já acabou.
Devem trabalhar na mesma empresa, porém em secções diferentes. Não se encontraram e estão, agora, a colocar a "escrita em dia". Falam (alto) sobre o que fizeram, completamente alheias ao que se passa à sua volta.
Habitualmente o espaço da esquerda da escada rolante é deixado vago para quem tem pressa ou gosta de descer os degraus, apesar de eles nos levarem até às profundezas, sem necessidade de qualquer esforço.
Tenho alguma pressa e sou dos que gostam de descer.
Atrás de mim já surgem alguns suspiros de enfado.
- Quer passar?
- Se não se importa ...
- Se tivesse pedido, já tinha passado! É preciso pedir licença, sabia?!
- Pois ... não pedi, desculpe.
E lá fui, escada abaixo, à procura da serpente subterrânea que me levará ao autocarro. Para a próxima, peço logo licença!

