quarta-feira, 20 de maio de 2020

Mirones no Parque


                                     

Ninguém na cidade ignora onde é, toda a gente o conhece e não tem qualquer dificuldade em indicar o caminho que a ele leva. Pode haver, e há, outros parques na cidade: das merendas, de jogos, jardins, a Mata Rainha D. Leonor, mas o Parque nem de nome precisa, embora o tenha (Parque D. Carlos I).

O Parque é um paraíso. 
A sua beleza é de tal modo ofuscante que muitos de nós nem reparam nisso. É tão natural olhar o lago, ver os pavilhões que em breve serão hotel, passear pelas áleas e visitar o Museu de José Malhoa, espreitar o ténis, tropeçar com os pombos e (agora) com os pavões, sentir os pássaros a chilrear nas árvores enormes, dar pão aos peixes, ser afectado pelos poléns, usufruir de tudo que achamos tão natural e tão nosso.
Tempos houve em que uma ida ao parque significava brincar com os amigos, andar de bicicleta alugada, ir à ilha, fazer corridas até ao busto do Bordalo, jogar ao ring com as colegas, roubar um beijo fugaz e conseguir, de vez em quando, uma companhia para sentar num daqueles bancos de madeira, vermelhos, bem enquadrados entre dois plátanos "gordos", que garantiam a privacidade e a detecção de qualquer intruso inoportuno. O entusiasmo e a pressa faziam com que se descurasse a parte de trás, protegida pela sebe de buxo e que, por isso, parecia não permitir que alguém importunasse.
Não era verdade. Por vezes, apareciam por ali uns mirones que se regalavam a espreitar o que os jovens sentados e distraídos estavam a fazer. Quando eram detectados, usavam a argumentação bacoca sobre a moral e os bons costumes, a falta de educação, as parvoíces que se imaginam para quem só podia ser ... parvo.
Nunca os esqueci. A maior parte já por cá não está mas, de vez em quando, ainda me cruzo com um, já trôpego, mas a quem não consigo olhar sem sentir asco por coisas passadas há mais de meio século. 

terça-feira, 19 de maio de 2020

Mundo

Com o confinamento a chegar ao fim, espera-se, talvez valha a pena repararmos no que se passa à nossa volta, sem lamechas e apenas com a certeza de que, aqui ou na China, no sertão ou no deserto, nos trópicos ou no gelo, não passamos de uns apêndices de um mundo que pertence a todos e onde todos temos lugar. 
É bom lembrar, sendo embora lugar comum, que há por aí muita gente que se esquece disto e do respeito que a todos é devido.

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Mercearia e Fanqueiro

O balcão ia de uma ponta à outra da primeira sala, aquela onde estava a faca do bacalhau, a balança Avery, a medidora do azeite, os frascos com os rebuçados, quatro, uns em cima dos outros, com as bocas viradas para o interior, não fosse alguém distrair-se e, inadvertidamente, sacar um ou dois. Todo ele era de madeira e o descrito ficava à esquerda, até à balança. Depois, a zona de atendimento e os papéis, pardo e vegetal, os cartuchos, o rolo da guita e o espaço para cortar as roupas, com uma tesoura enorme e um metro de madeira, quadrado, com as marcações "centimetrais" bem escavadas na madeira e que estava sempre à mão, para medir ou assustar.
O merceeiro entrava para o balcão através de uma pequena porta, com um tampo que, mal acontecia a passagem, era de imediato fechado. Tinha sempre o mesmo passo, o mesmo tom de voz, o mesmo sorriso. Os anos já eram bastantes, o coração dava-lhe sustos amiúde e o volume da barriguita era escondido sob o casaco de cotim, que mantinha sempre fechado.
As tulhas do feijão, encarnado ou branco apatalado e, de vez em quando, o frade, mais raro e mais caro, estavam nas costas do homem e tinham um corredor, de lata, que servia para encher o cartucho com 250, 500 gramas ou, mais raramente, um quilo daqueles vegetais. O cartucho, do tamanho adequado ao peso, era dobrado em cima e a guita que o atava ficava presa na dobra do papel e permitia o transporte sem risco de cair.
Por debaixo das prateleiras que continham as mais variadas coisas - colheres de pau e das normais, garfos, facas, copos, tigelas, pratos - estavam a manteiga, a banha de porco, o café, o colorau, a pimenta, o sal e muitos outros produtos que, na "fotografia" já não se conseguem vislumbrar direito.

- Cem gramas de café, meia quarta de banha, dois decilitros de azeite, e a minha mãe manda dizer que é "pra assentar".
- Está bem, desta vez. Diz-lhe que o livro já não tem folha ...

O livro era mais alto do que largo, um rectângulo onde havia uma folha para cada um dos "caloteiros". As dificuldades eram muitas e nem sempre a jorna chegava no final da semana. A mercearia esperava...
Do lado da porta de entrada era a montra do fanqueiro: ganga, cotim, chita, algodão, lenços de assoar e de cabeça, bonés, barretes, linhas, botões, meias, soquetes, ganchos e um infindável  sortido de bugigangas impossível de descrever e descortinar, mas que o merceeiro sabia onde estavam quase sem olhar.
Havia ainda uma outra secção, provida com uma balança decimal, onde estavam os produtos mais pesados e os que não podiam "conviver" directamente com os da alimentação. A medidora do petróleo, enfiada no bidon e o álcool desnaturado faziam companhia ao foskamónio, que começava a dar os primeiros passos na agricultura, ao adubo tradicional e ao enxofre, este também numa tulha e com um corredor próprio. Pairava também por aí a batata de semente, Arran-Banner, Arran-Consul ou Impéria, ensacada em sacos de serapilheira, com 50 Kg cada, nada que assustasse qualquer homem da época, bem habituado a fazer força sem ir ao ginásio.
Era uma imensidão de coisas e uma infinidade de conversas sobre tudo e sobre nada, das quais sobressaíam as anedotas do viajante do Café Sertão, contadas nas visitas semanais e reproduzidas em todas as tertúlias da noite até que, na semana seguinte, surgissem novas.
 

sábado, 16 de maio de 2020

Ilusão

E quando tudo indicava que as notícias continuariam a ser sobre o coronavírus, o planalto e o confinamento, a taxa de letalidade e a abertura das praias, eis que a visita à fábrica dos automóveis altera tudo, cai não cai, fica não fica, vai não vai, tem razão não tem, toda a gente sabia, ninguém sabia, aprovaram e não leram, votaram sim e queriam votar não, estava no papel, qual papel, o papel ... mas ninguém leu!
E Centeno foi treinador de futebol, de bestial a besta num minuto: os treinadores de bancada opinaram, o pequeno mundo agitou-se, as mesas redondas tentaram a quadratura, os prognósticos sucederam-se, era tudo evidente e já se esperava, claro como a água, só não via quem não queria ou era cego, o vírus eclipsou-se num instante.
A noite é boa conselheira, mesmo antes de dormir.
Foi um equívoco, um pequeno lapso, falta de informação atempada, tinha de ser, o prazo acabava no dia seguinte, toda a gente sabia, estava escrito no Orçamento, aprovado e promulgado, uma falha de informação, a auditoria é outra coisa, não invalida o compromisso, está tudo resolvido!
E eu sou parvo, ou quê?, como dizia Zé Mário Branco.

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Dia da Cidade

Dia da Cidade, sem concerto na Avenida da Independência, sem fogo de artifício no edifício da Câmara, sem cerimónias de condecoração de personalidades, sem abertura, simbólica, do Hospital Termal e sem inaugurações oficiais. 
E ainda por cima com chuva!
A Rainha teve direito a umas florzinhas e houve música online, mas não é a mesma coisa.
Talvez para o ano, se o Corona não se adaptar à humidade caldense e se for embora, deixando-nos em paz.

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Livros (lidos ou em vias disso)

Vou escrevinhando umas historietas que deixam por aqui relatos de situações acontecidas, inventam factos ou deturpam-nos, exagerando ou minimizando, ou ainda porque sim, porque me apetece ou me dá gozo.

Escrever é outra coisa, completamente diferente e deliciosa, só acessível a alguns, privilegiados, que dominam as palavras e as situações, e as tornam tão belas que dá vontade de não parar de ler.

Aqui fica um exemplo:

(...) Molhou a pena e escreveu na capa: Tratado da Semeação das Hortaliças.

Curioso, pensou olhando as letras: Tratado da Semeação das Hortaliças. Mas logo, mordiscando distraidamente a ponta da caneta, riscou Hortaliças e escreveu Legumes. E depois de algum tempo riscou Legumes e reescreveu: Hortaliças. E, pensando melhor, riscou Semeação e escreveu: Plantação. Para também riscar Plantação e voltar a escrever: Semeação.

O título, mesmo só provisório, não o satisfazia, reflectiu segurando a folha em posição vertical para poder olhar de mais longe. Hesitava antes de mais entre Semeação e Plantação, porque nenhum dos termos lhe parecia suficientemente abrangente. Grão e feijão, por exemplo, semeavam-se, batata e couve plantavam-se. Duvidava, assim, se seria legítimo usar para todos a palavra Semeação, e hesitava também entre Hortaliças e Legumes. Não eram evidentemente sinónimos, mas, para além do facto de o título ter de se adaptar perfeitamente ao assunto, a sua escolha dependia também de razões fónicas. Deste modo, preferia por um lado hortaliças, porque o i lhe parecia mais sonoro do que o u, mas por outro lado legumes era um termo que lhe parecia mais culto e adequado, hortaliças soava-lhe coloquial e quotidiano, qualquer camponesa sabia o que eram hortaliças porque todos os dias as deitava na panela, mas não tinha a menor noção do que seriam legumes. A escolha era assim entre um termo sonoro e eufónico, mas de sentido comezinho, e um termo mais elevado mas triste, legumes parecia-lhe uma palavra em tom menor, vizinha da negrura, e acabando em escuridão completa.

Além disso, embora Semeação fosse um termo em uso, registado como tal em todos os dicionários (como acabara de se dar ao trabalho de verificar), parecia-lhe ter um belo sabor refinado e arcaico, o que lhe agradava plenamente, pois uma palavra com sabor adequava-se bem a um título onde logo a seguir se mencionava algo comestível.(...)

(...) Melhor seria, nesse caso: Manual, até porque sugeria o manusear, o uso das mãos, o que se ajustava na perfeição a uma obra que versava o trabalho manual, campestre. Mas, por outro lado, Manual lembrava um livro escolar, e tinha uma conotação dogmática e algo simplista que profundamente lhe desagradava.

Poderia ainda adoptar Registo, mas logo rejeitou o termo por demasiado sucinto. Registo era um assentamento, a notificação de um facto, como um nascimento ou um óbito. O que o levava de novo ao ponto de partida, e o fazia reconsiderar Tratado. Que talvez se pudesse entender no sentido literal e modesto de coisa tratada - era um aspecto que teria de investigar com mais cuidado.

Mas no fundo - verificou de repente com um arrepio de angústia - tudo isso não eram outra vez as armadilhas das palavras? (...)

A casa da cabeça de cavalo

quarta-feira, 13 de maio de 2020

O velho e a nova

Quando procurava um livro na estante do meu escritório, daqueles que não estão catalogados em ficheiro mas que eu sei que se encontram algures, "tropecei" com "Eu faço parte desta história", livro editado pela Escola Secundária Rafael Bordalo Pinheiro, por ocasião dos 50 anos da inauguração do edifício, que aconteceu em Outubro de 1964 e na qual participei. Lembrei-me que tinha escrito um texto para esse livro e fui relê-lo. Resolvi respigá-lo para aqui porque, não sei bem porquê, me lembrei hoje dos meus tempos de escola.

O VELHO E A NOVA

Um velho edifício, tábuas dos degraus da escada já muito gastas, janelas a rangerem quando abriam, ou a deixarem gretas onde cabia pelo menos um lápis, quando fechavam.
No barracão que servia de ginásio, chovia tal como acontecia na sala 4 do primeiro andar, onde duas turmas tinham aulas de Desenho, num espaço dividido por (vários) biombos. Das janelas do meu lado - o esquerdo - tinha-se uma panorâmica excelente do parque de jogos e, não raro, o afiar do lápis permitia apreciar os "grandes" a jogarem voleibol e andebol, únicos desportos que as aulas de Ginástica contemplavam. Os campos eram marcados com um sarrafo de madeira, de cerca de meio metro, que abria um sulco no saibro. Em dia de jogos importantes - Comércio versus Indústria, por exemplo - o sulco era avivado com cal branca, permitindo que as marcações fossem visíveis para atletas e espectadores.
De Outubro de 1962 a Julho de 1964, a velha Escola do Chafariz das Cinco Bicas marcou o miúdo pouco vivido que ali entrou aos 10 anos, após três anos de Primária e um exame de admissão, que aferiu e atestou a "qualidade" e a "competência" para prosseguir os estudos.

O ano lectivo de 1964/1965 trouxe as alterações que se ansiavam, da mudança de voz ao início do Curso que daria a "ferramenta" para a vida, dos primeiros amores à admissão nas conversas e nos jogos com os "maiores" e, sublime, uma Escola nova!
Os exíguos campos de saibro deram lugar a amplos recintos alcatroados, com equipamentos fixos e marcações a tinta. O ginásio, esse, era um luxo: cordas, muitas, que saíam das paredes laterais ("cobertas" de espaldares) e permitiam subir "até lá acima"; plintos, trampolins, rede de voleibol, "chão" de madeira envernizada e, luxo dos luxos, chuveiros individuais para o banho retemperador e higiénico. 
"Dez minutos para despir, tomar banho e vestir", gritava o Professor, "coscuvilhando" cada espaço para verificar se o sabão, azul e branco ou clarim, era devidamente aplicado.
Laboratórios, Salas com moderno mobiliário, Bar, Papelaria, uma Cantina espaçosa, com mesas para quatro alunos, onde, por vezes, se sentavam alguns professores e ... espaço, espaço, espaço, muito espaço.
O corredor enorme, coberto, junto às casas de banho (também elas extraordinariamente espaçosas quando comparadas com o que tínhamos antes), e que ligava a "casa da mocidade" à porta da entrada masculina, tinha (tem) uns bancos de pedra que serviam de balizas para grandes futeboladas, muitas vezes com uma pedrinha redonda a servir de bola!
Ainda se jogará assim?

terça-feira, 12 de maio de 2020

Fanfarrão

Chegava sempre a grande velocidade e arrumava o carro com uma espécie de pião, fazendo chiar os pneus. A porta do automóvel era fechada com estrondo, para que toda a gente olhasse a "bomba". Não havia meia dúzia na cidade e, daquela cor, era único.
Falava pelos cotovelos e antes de obter resposta já engatilhava outra pergunta.
- O patrão ainda não desceu?
- E a senhora também não?
- Quem me tira o café?
- E os bolos já chegaram?
- Vou eu tirar, que ainda sai melhor. A Máquina conhece-me.
Entretanto, já estava atrás do balcão, de volta da máquina, italiana, para lhe sacar o café da manhã. O bolo de arroz no prato, de papel tirado e pronto a ser comido.
Sentava-se à mesa, deliciado, a aguardar a chegada de um dos patrões, para pôr a conversa em dia. Se tardavam, ei-lo a fazer o percurso inverso e, no caminho, a fazer a pergunta ao abastecedor, sem esperar a resposta.
- Já cá esteve alguns dos meus carros hoje? Atende-os bem, olha que eu sou um grande cliente e pago-te o ordenado.
Abria a porta do bólide, amarelo claro, fechava com estrondo e voltava, fanfarrão, de peito aberto e olhar penetrante, como se quisesse despir todos e adivinhar-lhe os pensamentos.
Tinha, pelo menos, um ódio de estimação. Dizia-se que tinham sido grandes amigos, mas agora nem se podiam ver. Coisas de saias ...

O outro tinha um carro da mesma marca, preto. Era discreto, entrava e saía sem qualquer exuberância. Se o vislumbrava, dava meia volta e voltava passado um bom bocado.
O carro preto estava estacionado, a aguardar a vez de entrar na estação de serviço para lubrificar, mudar o óleo e lavar, lavagem completa, interna e externa. Seria um serviço demorado, mas o dono só o viria buscar no final do dia e trouxera-o bem cedo. Podia-se ir fazendo, nos intervalos em que não houvesse outros clientes.
Pouco passava das nove, o bólide amarelo entrou na rodovia, rodopiou chiando e ... com estrondo, bateu na traseira do preto.
Alarme geral. E agora?
Branco, nervoso, dirigiu-se ao patrão que, alertado pelo barulho, tinha assomado à janela do primeiro andar.
- E agora? Distraí-me e tinha logo de ser neste ...
Bem perto havia um bate-chapa e o pintor também não era longe. O patrão conhecia-os bem e, daí a pouco, estavam os "médicos" de volta da "doença".
- Eu pago tudo. Não lhe digam nada!
Durante algum tempo não houve velocidades nem chiadelas de pneus e a altivez desvaneceu-se bastante. 
Depois, as fanfarronices voltaram. O tempo lava tudo ... 

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Quotidiano

Hoje foi um dia em que a imaginação andou arredia e o tempo foi pouco para as tarefas tidas. 
Apenas para que a quarentena não fique com pena de não ter qualquer registo, aqui fica a Primavera em música, com a esperança de que o Corona nos deixe ir à praia assim que o Verão chegar e que os   constrangimentos sejam mínimos.

domingo, 10 de maio de 2020

Nogueira

As primeiras laranjas, enormes, sumarentas, surgiam nas suas mãos. E exibi-as com um orgulho e uma ironia de fazer inveja a qualquer "santo".
- Querias? São da minha nogueira ...

Ainda as nêsperas não tinham chegado ao lugar de venda, já ele as trazia, amarelinhas, sem qualquer marca de míldio, e mostrava os seus dotes de atirador, arremessando os respectivos caroços a uma distância considerável.
- Querias? São da minha nogueira ...

Os pêros encarnados eram comidos primeiro à dentada e depois descascados com a pequena navalha que trazia sempre no bolso. Aquele sumo, pela certa meio acre, fazia crescer água na boca ao mais insensível.
- Querias? São da minha nogueira ...

As maçãs reinetas, pardas, redondas e achatadas, apareciam nas suas mãos muito antes de se imaginar  já estarem maduras. E ele, guloso, deliciava-se a saboreá-las devagar, com requinte e exibição.
- Querias? São da minha nogueira ...

Até os figos, que estavam por ali à mão de todos, chegavam suculentos e muito antes de os vermos a abrir.
- Querias? São da minha nogueira ...

E a uva, Moscatel, também aparecia ainda antes de a Fernão Pires "vergar", exibida em cachos enormes e de bagos verde acastanhado, doces pela certa e a cada trincadela mais deliciosos.
- Querias? São da minha nogueira ...

Como é possível a nogueira dar todas as frutas, de tão boa qualidade e sempre antes do tempo?
Conversa que não se entendia, dúvida que permanecia, até um dia ...
Afinal era simples: conhecia todos os pomares e árvores da região e iniciava a colheita antes mesmo de os donos perceberem que já havia fruta madura ... 

sábado, 9 de maio de 2020

Quotidiano

Num sábado esquisito, com sol, vento, chuva e gatos aos gritos no quintal, lê-se e ouve-se música boa, como esta, e deseja-se que amanhã, domingo, o S. Pedro nos dispense a chuva, mesmo não  dando o tempo que convida a ida à praia.
Os resultados diários do corona parecem animadores mas, a ver vamos, como diz o cego.

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Culinária

Era uma tia-avó, velha, que vivia na Avenida Defensores de Chaves, em Lisboa, há muitos anos. Tinha perdido o marido muito nova e permanecia viúva, sem filhos.
Vinha ao Oeste visitar os sobrinhos uma, duas vezes por ano, sempre com alguma altivez da capital para com os "coitados" que permaneciam na província.
Nesse ano veio passar a Páscoa e foi convidada para o almoço no Domingo da dita.
- Vê lá o que arranjas. Olha que ela não gosta de borrego.
- Não te preocupes. Alguma coisa se há-de arranjar.
Chegou o dia e, como era de bom tom, fomos todos festejar a sua entrada na nossa casa, dar-lhe as boas-vindas e receber o pacotinho de amêndoas, pequenino, com que nos brindou.
- Então que fizeste para o almoço? Espero que não te tenhas esquecido que não gosto de borrego.
- Claro que não, tia. Fiz um cabritinho, que espero esteja ao seu gosto.
O almoço correu bem, a tia comeu e bebeu e ninguém se desmanchou.
- O teu cabrito estava divinal. Gostei muitíssimo, obrigado.
Vieram as despedidas e, de novo, as referências elogiosas ao cabrito, com a indicação de, para a próxima vez
- Hás-de fazer de novo, gostei muito e quero repetir.

A minha mãe, que faz(fazia) hoje 97 anos, foi a cozinheira desta refeição e ensinou-nos que, afinal, o cabrito pode ser borrego e que, mesmo os mais convencidos, nunca sabem tudo.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Quotidiano

Tenho máscara, tenho viseira, tenho as obras prontas, o automático do portão de novo a funcionar, a relva, cortada, as rosas, lindas, os morangos, maduros, os gatos a continuarem a usar o wc verde sem qualquer autorização e sem um pingo de vergonha, os melros a espreitarem a ginjeira, ainda tão longe de avermelhar, as framboesas a darem mostras de quererem oferecer uma boa produção, as alfaces, viçosas, o limoeiro, carregado, os espinafres esperando que os colham para a "sopa dos meninos", o chuchu, a trepar, a glicínia a ostentar cachos roxos, os bordões de S. José verdíssimos e ainda longe da "hibernação" que irá ocorrer quando o calor apertar, os cactos, suspensos, a mirarem o ambiente, as strelitzias, maravilhosas, a rua, um sossego, e a casa ... vazia.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Língua Portuguesa

Ontem, a propósito do Dia Mundial da Língua Portuguesa, deixei por aqui alguns excertos de meia dúzia de escritores, dos quais gosto bastante. À noite, quando tentava fazer o resumo do dia de "trabalho" na quarentena, dei por mim a pensar como tinha sido extremamente injusto para com tantos autores que conheço bem, convivem comigo há muitos anos e fazem parte da minha "mobília". Devia ter-me limitado a congratular-me com a distinção e não fazer o que fiz.
Porque nas citações não estava Torga, Agustina, O'Neill, Natália Correia, Pessoa, Eça, Jorge Amado, Lobo Antunes, Sophia, Maria Teresa Horta, Teolinda Gersão, Almeida Faria, Camilo, Bocage, Manuel Alegre, Miguel Sousa Tavares, Carlos de Oliveira, Alves Redol, Chico Buarque, Clarice Lispector, Nemésio, David Mourão-Ferreira, Eugénio de Andrade, Namora, Ferreira de Castro, Fiama, Hélia Correia, Filomena Beja, Graciliano Ramos, Herberto Helder, Vergílio Ferreira, Urbano, Teresa Veiga, Sebastião da Gama, Ruy Belo, Gedeão, Rodrigo Guedes de Carvalho, Pepetela, Mário de Carvalho, Onésimo, Ondjaki, Paulina Chiziane, Natália Nunes, Milton Hatoum, Mário Cláudio, Rodrigues Miguéis, Jorge de Sena e tantos, tantos outros, que me apetece tirar uma listagem do registo informático e pespegá-la aqui. 
A língua portuguesa é maravilhosa e há tanta gente a escrever bem!

terça-feira, 5 de maio de 2020

Dia Mundial da Língua Portuguesa

Meia dúzia de exemplos, curtos, dos muitos que se podiam dar, para ilustrar a beleza desta língua que é a nossa e falada por muitos milhões, em várias partes do globo, com características diferentes em cada sítio mas sem necessidade de acordo ortográfico para que nos entendamos todos.

(...) Andam por ali uns homens desgarrados, e embora a praça seja mais para a tarde, há quem se chegue ao feitor e pergunte, Que é que o patrão resolveu, e ele responde, Nem mais um tostão, que as boas e pertinentes fórmulas não se devem perder e dispensam variações, e os homens dizem, Mas há seareiros que já pagam trinta e três, e diz Pompeu, Isso é lá com eles, se quiserem ir à ruína, bom proveito lhes faça.(...)
José Saramago
Levantado do chão
Editorial Caminho

(...) - António, foi por minha causa, eu pago-te o cavalo ...
 - Não digas mais, Bernardo, não digas mais, que já nem te vejo todo. O cavalinho pateou ao meu serviço, a perca é minha. Deixa, se se arrastar até casa, bem sei o que lhe hei-de fazer.
Descansámos ali a noite e, com sopas de vinho e boa pitança, reanimámos o animal, a pontos de se aguentar em pé. E, embora moêssemos um dia até Trancoso, o cavalinho lá foi andando.
- Cão de mim - maluquei - se trago o macho não sofria o dano de vinte libras, que era quanto o Orlando dava pela bestinha no mercado dos quinze. O mulo engolia o estirão sem tocar com um casco no outro. Mas adiante, vamos a ver, talvez o Orlando lhe pegue ... (...)
Aquilino Ribeiro
O Malhadinhas
Bertrand Editora

(...) Estou apaixonada.
Que coisa boa, até que enfim; disse a amiga, que se chamava Paula.
Mas ele não está interessado em mim.
Isso é duro, querida, é a pior coisa do mundo. Eu sei por experiência própria. Lembra aquele rapaz que estava comigo na festa do sábado passado?
Loreta não lembrava, ela não via nenhum outro homem a não ser Luís.(...)
Rubem Fonseca
Secreções, excreções e desatinos
Campo das Letras

(...) Mas certo dia vi-a a entrar num beco e em vez de a chamar, como fazia habitualmente, fui andando atrás dela. E de madrugada fui bater-lhe à porta. Ela perguntou quem eu era, dei-lhe o primeiro nome que me veio à cabeça. Como me explicou depois, o nome coincidia com o de um fulano que costumava visitá-la a meio da noite e por isso abriu a porta sem temor. Ao ver quem era logo tentou de novo fechá-la, mas era tarde, eu já tinha meio pé metido dentro de casa.(...)
Germano Almeida
As memórias de um espírito
Editorial Caminho

(...) Nga Sessá e as amigas mudaram a doente e os lençóis muitas vezes, a infeliz parecia ia se derreter em suor e gemia, adormecia, acordava:
- Aiuê! Minha barriga, minhas costas! Morro!
Só sossegou mais meia-noite já, começou respirar mais calma, a gemer com voz baixa, calando aquelas conversas do homem que lhe amigou para adiantar roubar os bois, dos ladrões de bois, dos ladrões do dinheiro dela, um advogado de Malange e os filhos mulatos e tudo o resto que don'Ana, sá Domingas e o capitão gostam falar.(...)
José Luandino Vieira
Nosso musseque
Editorial Caminho

(...) Lhe conto uma história. Me contaram, é coisa antiga dos tempos de Vasco da Gama. Dizem que havia, nesse tempo, um velho preto que andava pelas praias a apanhar destroços de navios. Recolhia restos de naufrágios e os enterrava. Acontece que uma dessas tábuas que ele espetou no chão ganhou raízes e reviveu em árvore.
Pois, senhor inspector, eu sou essa árvore. Venho de uma tábua de outro mundo mas o meu chão é este, minhas raízes renasceram aqui. São estes pretos que todos os dias me semeiam.(...)
Mia Couto
A varanda do frangipani
Editorial Caminho

segunda-feira, 4 de maio de 2020

(Des) Confinamento

Já não estou confinado, mas ainda estou muito limitado.
Sem infringir as regras e comportando-me com o civismo que o momento exige, fui ver o mar, marquei o corte de cabelo e já só consegui vaga para amanhã, às seis da tarde, dei uma volta a pé e ajudei a arrancar umas ervas daninhas no jardim. Há muitas outras por aí, mas a essas, por muito que eu queira ajudar, não há monda que as extinga. Ainda bem! Qualquer seara, para dar bom grão, tem de ter algumas daninhas para que a diferença se acentue e seja visível.
No passeio, detive-me um pouco a apreciar as obras de arte espalhadas pelos jardins do CENCAL. Ao autor da obra que hoje fotografei, de forma amadora e despretensiosa, nunca lhe passaria pela cabeça que, um dia, um passeante em passeio higiénico haveria de relacionar os coloridos e bonitos pulmões da sua obra com a sujidade que o coronavírus trouxe a muitos milhares em todo o mundo. 
E os pulmões ficam tão bem naquele corpo cerâmico tão bonito.


domingo, 3 de maio de 2020

Palavras bonitas

Telegrama

estou bem e continuo
resisto
de noite custa mas de manhã
quando me visto
meto-te ao bolso
esperança
e assisto
a mais um dia

o calendário anda
para trás o sol é longe
o silêncio corrói
os fios da vontade

mas no meu bolso estás
e lá te afago

tranquila como um lago
que enche de seiva
as veias do meu corpo

Manuel Alberto Valente
Poesia reunida
Quetzal (2015)

sábado, 2 de maio de 2020

Amor

A azinhaga dividia-se, mais ou menos a meio do percurso, em dois carreiros estreitos e cheios de socalcos. A tradição determinava que o "trânsito" se fazia sempre pela direita, o que significava que uns vinham pelo lado nascente e outros regressavam pelo lado poente. E toda a gente cumpria a regra, não escrita, mas por todos aceite.
O pedregulho que ficava no meio e fazia a divisão era impenetrável. Enorme, muito liso e normalmente com verdete da humidade e do pouco sol que apanhava, não admitia veleidades mesmo a quem tivesse muita agilidade e vontade de descobrir.
Do lado poente, as vinhas perdiam-se de vista, enquanto que do nascente, o mato, os castanheiros, as silvas e, lá mais ao fundo, os pinheiros mansos, formavam a paisagem que, mesmo de dia, não deixava que a vista se lhe entranhasse.
Era já noite e o medo da escuridão obrigava à correria, mesmo com o risco de algum tropeção pôr o nariz a sangrar. Os barulhos que se ouviam eram os do costume: o piar de alguma coruja, assustada, o canto do melro que fugia do galho onde se preparava para dormir, o mio de algum gato por ali perdido, à procura de achamento ou de chamamento.
De repente, um guincho estridente ...
- Não faças barulho, sussurrou uma voz grave.
Todos os sentidos ficaram alerta. O som tinha vindo do outro lado. O que será? E se me vêem?
A curiosidade era forte e o medo não era menor. Já sem correr, caminhou o resto do carreiro e, no final, fez o inverso.
De novo o som do guincho ou do grito, não conseguia identificar ou o medo toldava-lhe a vista e a audição. O mato era denso e o carreiro estreito. Pé ante pé, encosta à árvore, cuidado com as silvas, olha a pedra, não tropeces, não há cobras nem sardões, tudo dorme. Abre os olhos.
Umas silvas pisadas, uns fetos no chão, alguém por ali tinha passado há pouco e o destino não era o carreiro. Sobe a árvore, é mais fácil. E foi. Lá ao fundo, na negrura da noite e sobre uma "cama" da natureza, o casal rebolava ...
Foram namorados e casaram, não um com o outro.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Maio

É o dia da Festa e o dia de cantar, ainda não de vitória, mas de esperança que melhores dias virão, não importando a fúria do mar.
Se tudo correr dentro da normalidade anormal, Maio será o mês de cortar o cabelo, de voltar a ver o mar e a beber café "a sério", e de estar próximo dos meus, mantendo a distância, claro, mas eliminando as conversas com paragens, as imagens distorcidas, o "longo" tempo de espera pelas respostas, as conversas em catadupa.
E para o ano talvez os festejos do Dia do Trabalhador voltem à rua, se possível com poucos desempregados.