quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Passado(?)

Salgueiral, Coja, 23 de Dezembro de 1958

São muito pobres estas nossas aldeias sertanejas, onde a graça de Deus só chega por alturas da côngrua e a de César por alturas da décima. Mas gozam dum bem que nenhuma riqueza compra: a de serem imunes à solidão. Apesar de viverem desterradas do mundo, e fazerem parte de uma pátria de desterrados, dentro dos seus muros reina o convívio. A vida articula-se nelas de tal maneira, que a lepra do ensimesmamento não as pode contaminar. A velha que espreita à janela, o homem que sai de enxada às costas e a criança que solta o gado da loja são pedras indispensáveis dum jogo de muitos, figuras essenciais do mesmo retábulo, que nem separadas ficam sozinhas.

Diário VIII
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (3ªedição revista 1973)

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Tempos

Já lá vão seis meses, meio ano, cento e oitenta e três dias, de "escrita" ininterrupta no blogue.

Prometi a mim mesmo que o faria enquanto durasse a "guerra" que nos bateu à porta no início do mês da Primavera. Julgava eu, inocente, que, quando muito, duraria até o Verão chegar e que a água do mar lavaria tudo, até o vírus.

Enganei-me redondamente. E por isso me penitencio. Tenho vida (?) nova, acessórios novos, comportamento individual e social novo, tudo surpreendente e, afinal, imprevisível para quem já leva tantos anos. Por quanto tempo mais?

Não faço ideia e tenho dúvidas que alguém, mesmo muito dotado, o saiba. Vou procurar manter a rotina de por aqui me manter todos os dias, numa espécie de "diário catártico", enquanto a imaginação, a pachorra e a capacidade me forem dando "trunfos" para registar. Se o baralho se esgotar, acaba-se o jogo. 

Vou-me convencendo (presunção e água benta cada um toma a que quer) que talvez um dia alguém leia isto com um pouco de atenção e conclua que por aqui ficaram alguns registos interessantes sobre o dia a dia da "guerra" dos dias "coronados".

terça-feira, 15 de setembro de 2020

Bocage

Nasceu a 15 de Setembro de 1765. Chamava-se Manuel Maria Barbosa du Bocage, ficou conhecido como o Elmano Sadino e ainda hoje é recordado por inúmeras anedotas que se lhe atribuem, com ou sem razão. Foi um excelente poeta. Deixou vasta obra, que se lê sempre com muito agrado. Por força da evolução natural dos tempos e dos tempos que já foram, talvez não seja recordada com a atenção que lhe seria devida.

Fica aqui o seu retrato, com a ressalva de que, quando o li pela primeira vez, a moral e os bons costumes da época determinavam que o último verso fosse "Num dia em que se achou mais pachorrento" e não aquilo que o poeta escreveu.

Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura, 
Triste de faxa, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio e não pequeno;

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura,
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno;

Devoto incensador de mil deidades,
(Digo de moças mil) num só momento;
Inimigo de hipócritas e de frades:

Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia em que se achou cagando ao vento.
Obras Escolhidas
Bocage
Círculo de Leitores (1985)

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Adágios

As notícias mais recentes lembraram-me, uma vez mais, um dos muitos ditados populares que a experiência de quem muito penou trouxe até aos nossos dias. Utilizando a ironia, a grande maioria dos adágios serve, como fato à medida, a alguma "gente" que por aí anda, emproada, quando deveria caminhar de olhos no chão, em busca da cela que, essa sim, era merecida.

"Quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lado vem."

domingo, 13 de setembro de 2020

Quotidiano

Hoje é domingo e apetece-me descansar. Tenho esse direito, consagrado na Constituição da República e no direito consuetudinário.

Já dei cotoveladas aos meus netos mais velhos, dei uns encontrões ao mar da Foz, que estava zangado e a anunciar que o fim da estação se aproxima, li, ou melhor, passei os olhos pelos títulos dos jornais de hoje; galguei mais umas boas páginas do A Leste do Paraíso (são mais de 700), ainda vou ler o caderno de economia e a revista do Expresso, ouvi os números, assustadores, do vírus, vi a etapa da volta à França em bicicleta, com as habituais paisagens maravilhosas e mais de uma centena de valentes a subir, a subir, a subir que nunca mais acabava e até cansava ... o sofá.

Pouco mais devo fazer hoje, a não ser repetir o ler, ouvir música, espreitar a televisão e alimentar-me, pormenor fundamental para estar em boas condições físicas, que esta "profissão" é muito exigente.

Já me esquecia: ainda tenho de preparar-me para a semana de trabalho que aí vem, solidarizando-me com todos aqueles que recomeçam a azáfama de laborar e de levar os filhos à escola, o que não é nada fácil.

Esta rotina cansa muito ... e "isto não é gozar com quem trabalha".

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...)     - Um ninho! - gritou alguém.

E Guiomar, que passava, voltou-se.

- Onde está? - perguntou, alarmada.

- Aqui, menina ... Quer ver? Olhe que lindo!

Dois braços roliços de moçoila afastaram as vides ramalhudas e mostraram num torcegão da cepa, seguro entre duas varas, o manhuço de raízes, gravetos e terra.

- É de melro. Que lindeza!

O Chico pôs a cesta no chão, e largou desenfreado pela valeira fora.

- Onde vais? - berrou o Gustavo, que estava à espera que lhe enchesse o vindimeiro.

- Ia ver ... - disse o rapaz, estacado.

Guiomar tinha-se aproximado curiosa, e o Gustavo deu licença ao petiz para colaborar no interesse da patroa.

- Anda lá, então.

A espreitar por entre as duas, o pequeno confirmou:

- É de melro, é ... Mas já voaram, bô!...

Na sua voz havia ao mesmo tempo pena e contentamento.

- Tem um ovo ... - notou timidamente Guiomar.

- Não saiu ... Se calhar o pássaro enjeitou ...

Os braços da montanhesa, vivos de sangue, continuavam a afastar a rama. Pálida, Guiomar fixava o ninho onde o ovo pintalgado jazia. O Chico perdera todo o entusiasmo.

- Costumam ficar muitos assim? - quis saber ela.

- É conforme ...

- Tão bem forradinho que ele está! ... - elogiava a vindimadeira.

- É com penas ... - esclareceu o rapaz.-Tem de ser. É o lençol que a mãe põe na cama dos filhos ... nascem nuzinhos em pêlo ...

Um gelo mortal cobria o coração desiludido de Guiomar. (...)"

Vindima
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1997)

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Realeza

Lá do alto o horizonte não tinha limites. O rio corria mansamente no vale, as flores brancas da esteva mesclavam o verde das encostas, um ou outro castanheiro mostrava a sua classe e o seu esplendor, meia dúzia de pinheiros, mansos, também se destacavam e ofereciam sombra nos dias de calor tórrido, as hortas eram tratadas com esmero por aqueles que dependiam delas para a sua mesa, a água cuidava da frescura e do sabor das couves, dos nabos, do feijão, das abóboras, das alfaces, dos tomates, dos pimentos, poucos, que são arredios na produção. Os repolhos, quando deles chegava o tempo, eram reis da horta mas a couve-flor, para os poucos que nela se aventuravam, era ainda mais rica.

Os apicultores colocavam as suas colmeias nos, poucos, socalcos que o monte lhes oferecia. A experiência tinha-lhes ensinado que não deviam ser colocadas nem no sopé nem no cume. Como em quase tudo, no meio reside a virtude e os socalcos garantiam a protecção necessária às inclemências do tempo e ao vandalismo humano.

Entre todas as obreiras que laboravam nos enxames, uma se destacava pela capacidade de trabalho, pela velocidade de voo e, sobretudo, por ser sempre a primeira a chegar ao pólen de cada flor. Via longe e essa era a sua grande vantagem. As outras, também obreiras de condição, vaticinavam-lhe um futuro brilhante, quiçá até a possibilidade de, um dia, substituir a rainha da colmeia.

A abelha rezingava sempre que disso lhe falavam. Conhecia bem as suas limitações e impossibilidades.

Não é rainha quem quer mas sim quem nasceu rainha.

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Liga das Nações

A selecção portuguesa de futebol amealhou seis pontos nos dois primeiros jogos da Liga das Nações 2021. 
Se no primeiro jogo, com o melhor do mundo ausente, a equipa realizou uma grande exibição e derrotou a Croácia por um resultado expressivo - 4-1 -, ontem, frente à Suécia, voltou a fazer uma boa exibição global, levada à perfeição por Cristiano Ronaldo, com dois "golaços" que ficarão para a história do futebol, não só por serem o 100º e o 101º de CR7 ao serviço da selecção, como pelo primor da execução que ambos mostram.

terça-feira, 8 de setembro de 2020

Novas tecnologias

Efectuar uma chamada telefónica para os serviços, complexos, de alguma grande empresa, entidade ou repartição, é um suplício.

As gravações são todas muito simpáticas, uma voz melodiosa cumprimenta-nos e, logo a seguir, "despeja" as instruções:

- Se pretende X, marque 1; Se pretende Y, marque 2; Se pretende Z, marque 3; Se pretende ser atendido pelo operador, marque 9.

Escolhida a hipótese que parece ser a mais adequada à questão que suscitou o telefonema e sobre a qual se pretende esclarecimento, aguardam-se alguns momentos até aparecer uma voz, simpática, claro, que se identifica, nos cumprimenta e nos interroga sobre qual o assunto que nos levou ao contacto, "que, desde já, muito agradecemos".

Relatado o problema, de novo a voz melodiosa:

- Desculpe, mas esse assunto não é comigo. Vou ter que transferir a sua chamada para o departamento respectivo. Não desligue.

Música, muita, para que o tempo passe sem se notar.

- Boa tarde, fala F., em que posso ser útil?

Renova-se a cantilena, tentando que a exposição seja clara e que o interlocutor perceba. 

- Entendi perfeitamente mas, vai-me desculpar, o assunto não é comigo. Vou tentar ligar ao departamento respectivo. Espero que a chamada não caia. Pensando melhor: mande um "mail" para o endereço "tal" que, eu entretanto, falo com o colega para que se resolva de forma rápida.

O "mail" já lá está. E a resposta, quando virá? Aguardemos! 

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

ABC da vaga

António concorreu e conseguiu ocupar a vaga posta a concurso. É hoje um distinto funcionário, querido pelos colegas e admirado pelo público.

Benjamim habituou-se desde cedo às vagas do oceano, ali mesmo à beira do qual viu a luz do dia. Mantém vivo o respeito pela sétima vaga e é hoje um surfista de sucesso.

Carlos viu um vaga-lume pela última vez há perto de cinquenta anos. Todos os anos compra o Pirilampo Mágico, para ajudar, e manter viva a chama que desapareceu.

A senhora do IPMA avisou que, nos próximos dias, haverá uma nova vaga de calor. A Protecção Civil alertou para o risco de uma vaga de incêndios e determinou que a vaga de piqueniques, tão habitual nesta altura do ano, seja proibida.

Uma vaga de bombeiros, viaturas e meios aéreos estará em estado de prontidão máxima, preparados para a vaga de sacrifícios que a sua nobre missão impõe.

Corona iniciou a sua primeira vaga em Março e, não contente com a vaga de problemas com que nos presenteou, prepara-se para nos oferecer uma segunda, sem ter evidenciado muito bem o final da primeira.

No mar alterado, as vagas surgem seguidas e muitas vezes não se consegue descortinar a diferença entre a primeira e a sétima.

No próximo século, uma vaga de cientistas e de historiadores dedicar-se-á a estudar as razões que motivaram uma vaga tão grande de infectados por um vírus que, nessa altura, não passará de um viruzeco.

domingo, 6 de setembro de 2020

Macramé

Técnica de tecelagem manual, conhecida e trabalhada desde, pelo menos, o século XIV.

Cá por casa também é velha conhecida. Desta vez está a surgir um novo projecto destinado ao jardim, com a execução a cerca de um terço, sempre sob o olhar atento dos herdeiros.

Até parece fácil ... para quem sabe.

sábado, 5 de setembro de 2020

Adágios

Num dia de almoço plebeu, no qual (quase) todos puxaram a brasa à sua sardinha, conviveram contando estórias, manjaram batatas, pimentos e tomates, tudo regado a contento e terminado com alguns "comprimidos" tomados à colherada e fundamentais para o progresso da diabetes, meia dúzia de ditados populares ilustradores da sabedoria da experiência.

Quem porfia mata caça

Grão a grão enche a galinha o papo

Quem muito manduca, pouco trabuca

Ovelha que berra, bocada que perde

Água mole em pedra dura tanto bate até que fura

Quem tudo quer tudo perde 

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Palavras bonitas

DURANTE O DEBATE DA LEI CONTRA O ALCOOLISMO

Num país de beberrões
Em que reina o velho Baco
Se nos tiram os canjirões
Ficamos feitos num caco.

E querem os deputados
Com um ar de beatério
Que fiquemos desmamados
Quais anjos num baptistério.

Se o verde e o tinto são
As cores da nossa bandeira,
Ai, lá se vai a nação
Se acabar a bebedeira.

De abstemia não se faça
A lex neste plenário
Que o direito à vinhaça
Esse, é consuetudinário.

O sol nas noites e o luar nos dias II
Natália Correia
Círculo de Leitores (1993)

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Jogo do ringue

Surgiu de um saco de praia. Era uma "roda" de borracha, vermelha, que todos identificaram de imediato:

          - Isso é um ringue!

E os sexagenários abriram os sorrisos, fizeram comentários, recordaram aventuras e ... foram jogar.
Não já com a perfeição de antigamente, mas cumprindo o ditado de que "quem sabe nunca esquece".
Faltou a marcação do campo, a distribuição dos jogadores por duas equipas, o "mata". Sobrou a vontade, o estilo, a técnica e as recordações que nos vão alimentando no intervalo dos banhos naquela água gelada que, como diz um dos habituais, "há-de fazer bem a qualquer coisa".

Chegado a casa, fui consultar o "dicionário" que tudo tem e para cuja consulta nem é necessário saber a ordem alfabética. "Googlei" jogo do ringue e, entre outras informações "preciosas", surgiu-me um vídeo do Mindelo, gravado em 2011. Concluí: em Cabo Verde os jogadores não são sexagenários, movimentam-se sem dificuldade, interrompem o jogo para que os carros e outros elementos perturbadores passem, correm muito e discutem outro tanto. Os sexagenários já só fingem ...

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Bilhete de Identidade

- Levas vinte escudos, que chega e sobra. O homem vai dizer que não tem troco e tu respondes que vais trocar à loja.

Dito e feito. Era a primeira vez que, sozinho, ia tratar da renovação do bilhete de identidade. O homem tinha os cabelos todos brancos, estava atrás de um grande balcão de madeira castanha, vestia um fato cinzento e usava umas mangas pretas por cima das do casaco. Não havia mais ninguém na sala.

- Bom dia. Venho renovar o meu bilhete de identidade, disse eu, estendendo o antigo, que iria caducar em breve.

Pegou no bilhete, mirou, remirou e, do alto da sua arrogância, despejou:

- Espera.

Se a timidez e o receio já eram grandes, o medo da ordem provinda de tal figura acentuou-se. Metia respeito ao falar, gritava, como se fosse polícia e tivesse à sua frente um criminoso. Era o "dono" da loja.

- Chega cá!

Tinha saído de trás do balcão e aproximou-se da craveira onde, percebi, me iria medir a altura. Eu já era grande, pensava, mas não sabia ao certo quanto media.

- Encosta bem as costas.

A peça de madeira que iria assinalar a altura na fita marcada, foi solta e caiu sobre a cabeça, dura, do miúdo que eu era. Não doeu muito, mas não foi meiga. Anotou no papel que trazia, usando um lápis que tinha nascido nos dias pequenos ou já tinha sofrido muitas aparadelas. Não fez comentários nem me disse a altura.

- As fotografias?

- Estão aqui,  senhor Garcias.

De novo atrás do balcão, coloca uma enorme caixa em cima, abre a tampa, retira o rolo e mancha a pedra de tinta bem preta. Pega no meu indicador direito sem dizer palavra, tinge-o de preto e, a seguir, fixa a imagem em dois papéis distintos. Um era o impresso que, depois de preenchido e plastificado em Lisboa, haveria de ser o meu novo bilhete de identidade, o outro deveria ser destinado a arquivo, para o que desse e viesse. 

Preencheu o papel que substituiria o velho bilhete, já guardado, e que iria servir para efectuar o levantamento do novo daí a 15 dias ou um mês. Estava concluído o trabalho, só faltava pagar. E tinha demorado pouco mais de meia hora. Maravilha!

- São dezassete e quinhentos.

Estendi a nota de vinte Santo António, que o meu pai me tinha dado. Recolheu a nota, simulou olhar para a gaveta e

- Não tenho troco.

- Eu vou ali fora, à loja, e troco.

O olhar fulminante acompanhou o devolver da nota, atirada com violência.

Fui à tasca do Tição e pedi, por favor, para me trocarem a nota, para pagar no Registo Civil.

- O homem não tem troco, não é? É o costume. Ele queria era ficar com o troco. Foste esperto.

Não fui nada. O aviso do meu pai foi precioso e determinante.

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Dias de anos

Desde 1975 que não trabalho no meu dia de anos. Agora, que a situação é de "férias permanentes", nem seria necessário o feriado, mas é importante que ele se mantenha para sempre.

A liberdade não tem preço, deve ser sempre comemorada por todas as razões e ainda por eu ter feito 22 anos no seu dia.

Já os meus filhos não têm a mesma sorte. Nasceram ambos em dias "normais" e, por isso, raramente têm direito à folga no seu trabalho.

Hoje o filho faz 39 anos e nem oportunidade tem de receber os carinhos da família, isolado que está em estágio "pandémico" e rigoroso. Os parabéns são virtuais da família real, e presenciais da outra "família" onde está integrado - a selecção nacional de futebol, em estágio para os próximos compromissos da Taça das Nações (Croácia e Suécia).

Se vencerem os dois encontros, como se deseja e espera, terá valido a pena, uma vez mais, o sacrifício da ausência física.

Cá estaremos todos para as comemorações, com atraso, mas com o mesmo entusiasmo.

domingo, 30 de agosto de 2020

Educação e limpeza

 Podia ter sido mais uma, para que a média, sempre tão querida, ficasse certa. 

O telemóvel, que serve para tudo, até para telefonar, marcou 1.700 metros percorridos e a mente contou 16 máscaras Covid no chão, com a natural companhia de sacos de plástico, papéis, luvas, etc.. Não andei em nenhuma lixeira licenciada, antes numa estrada nacional ou municipal, que circunda a "minha" praia da Foz. Não fui demasiado atento ao que me surgia à frente dos pés, havendo por ali paisagens bem mais interessantes. Admito, por isso, que a contagem peque, e muito, por defeito. Em média, a cada 100 metros aparece uma máscara e algumas estão tão bem colocadas que se vislumbra o cuidado com que foram ali depositadas. 

É obra! Dramático ou patético?

Estamos longe de ter um comportamento cívico capaz, apesar de, se perguntados, arrisco a dizer que todos responderão que o têm. Talvez a geração dos meus netos corrija, se não prestar atenção aos exemplos dos seus mais velhos.

E nem imagino quantas cuspidelas estarão na calçada! "Penas que não se vêem, não se sentem."

Vão começar, agora, a multar as "beatas", não faço ideia como, mas a polícia deve saber. Talvez com operações Stop ou gente "escondida" a vigiar.

E se apostassem nas campanhas de educação não haveria melhores resultados? As televisões podiam, e deviam, dar uma grande ajuda, e de forma simples: se as câmaras, em reportagem, em vez de focarem a cara dos "opinadores", focassem o chão que eles pisam, talvez resultasse.

sábado, 29 de agosto de 2020

(a)Normalmente

Numa manhã de muito vento e após ter terminado o livro de Teresa Veiga chegado esta semana (Cidade Infecta), dou por mim a escrever umas notas no telemóvel, em vez do lápis Viarco que habitualmente utilizo. O passeio à beira oceano com regresso pelo lado da lagoa a isso levou.

O "novo normal", como lhe chamam os grandes opinativos, talvez seja responsável por esta alteração de hábito ou, para parecer muito "avant la lettre", a utilização integral das novas tecnologias e a dispensa do que me acompanhou sempre. 

Na volta pela lagoa, mais abrigada da nortada e com bastantes veraneantes, dou por mim a olhar e a estranhar um grande grupo, "acampado" na areia e a regalar-se com o sol. Que grande ajuntamento! São da mesma família, para estarem assim tão juntinhos? Já tudo se estranha. Será a nova rotina? O comportamento dos outros, tão banal, já me parece esquisito? E os outros, acanham-se quando eu passo sem a distância determinada ou sem a máscara protectora? A recriminação dos comportamentos vai passar a regra? Deixaremos de tolerar as diferenças e a liberdade de cada um? Atingiremos a desfaçatez de passarmos a polícias cívicos uns dos outros? Regularemos tanto que as baias nos sufocarão? Tenho esperança que o bom senso prevaleça, que nos respeitemos dentro das diferenças, sem pensar que só o outro pode ter a "lepra" que não queremos para nós.

Nestas alturas, a memória rebusca e traz sempre ao de cima a frase do polícia cioso das suas obrigações, confrontando um grupo de jovens, no qual eu me incluía, e que tinha ido fazer uma visita nocturna a Peniche, aí pelos inícios da década de 70 do século passado, bem antes de a liberdade passar por aqui.

"São proibidos os grupos agrupados e mais que dois a andar parados".