domingo, 7 de agosto de 2011

Cidadania

A Fundação Francisco Manuel dos Santos, que António Barreto dirige (vale a pena espreitar o seu blog pessoal  aqui), tem vindo a publicar uns "livrinhos" com estudos, ensaios e opiniões sobre os mais diversos temas, da educação às finanças, da autoridade à estatística, passando pelas sondagens, pela corrupção e pela justiça. 
Já foram editados 18 volumes, que podem ser adquiridos no Pingo Doce, a 3,15 Eur cada.
A última publicação é da autoria de Maria Filomena Mónica e versa a morte e a forma como com ela se lida. Partindo da doença da mãe, vítima da doença de Alzheimer em 2006, a autora discorre sobre conceitos éticos, morais, científicos, religiosos. Analisa-os sobre a perspectiva histórica, ilustra a argumentação com casos reais, convida/desafia à discussão, serena, sobre temas tão actuais quanto o são a eutanásia, o testamento vital, o suicídio assistido, a dignidade a que temos direito, a vontade manifestada e ausência dessa manifestação e muito, muito mais.
O tema não será fracturante na sociedade mas é, seguramente, demasiado importante para ser deixado nas mãos da demagogia e do cinismo. 
Imprescindível ler.

Palavras bonitas

UM DIA
 
Um dia, mortos, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.
O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados, irreais,
E há-de voltar aos nossos membros lassos
A leve rapidez dos animais.
Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais, na voz do mar,
E em nós germinará a sua fala.

Dia do Mar
Sophia de Mello Breyner Andresen
Caminho (2005)

domingo, 31 de julho de 2011

Venda do BPN

O Governo anunciou há pouco, em comunicado formal, a venda do BPN ao banco angolano BIC, que já opera no mercado português e é presidido por uma figura muito conhecida na nossa praça - Luís Mira Amaral. 
Foi assim cumprida, em cima do limite de prazo, uma das imposições da "troika".
Como os nossos credores não fixaram o preço de venda nem o comprador, aguarda-se, agora, que o Ministro das Finanças divulgue as razões que o levaram a preferir a proposta do BIC em detrimento das dos outros 3 concorrentes - Montepio Geral, um grupo de empresários denominado NEI e um outro que se manteve no anonimato - e bem assim como todas as condições da adjudicação.
A bem da transparência ...

domingo, 24 de julho de 2011

Província

A grande cidade coloca à disposição dos seus habitantes espectáculos da mais variada ordem, sendo apenas condição para a eles assistir que o gosto a isso apele e a carteira disponibilize os euros suficientes. 
Para quem vive na província, a situação é bastante diferente. Ou se desloca frequentemente à "aldeia grande", com os custos e o cansaço inerentes, ou está atento e não desperdiça as oportunidades, uma vez que "o comboio nunca passa duas vezes".
Na passada sexta-feira assisti no CCC, com a companhia estóica do meu Neto I (já estou muito cansado, avô), ao encerramento do Musicaldas 2011. Inspirado em Alexandre O'Neil, Bernardo Sassetti e a Companhia Nacional de Bailado apresentaram "Uma coisa em forma de assim" que valeu pela música e pela interpretação de Sassetti, pelas excelentes coreografias e pelos belíssimos desempenhos dos bailarinos (Ó vô, parece que estão a fazer ginástica). Uma bela noite!
Ontem, no Mosteiro de Alcobaça, integrado no Cistermúsica, este ano "Em torno de Inês", ouvi, pela primeira vez, Bach em acordeão a solo. O finlandês Mika Väyrynen deu um concerto extraordinário no claustro D. Afonso VI, do Mosteiro. A última obra do programa - Impasse, de Franck Angelis - foi uma "coisa em forma de ASSIM", que o texto escrito pelo intérprete no programa já deixava antever: "...Na última parte do concerto temos Impasse, de Franck Angelis. A história desta peça é dramática e trágica. O Franck era uma espécie de "padrasto" do filho da sua irmã (pois este não tinha pai). Eram muito próximos e o Franck viu o pequeno bébé crescer e tornar-se rapaz. Até que um dia chegou a triste notícia: o rapaz morrera num acidente de moto. "Impasse" é dedicado à memória deste menino. Impasse significa "algo que não sai". Nos grandes desgostos, é essa a sensação que temos."

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Neto II

Qual navegador ousado, consequente e destemido, o meu neto Vasco terminou a "travessia" pelos interstícios da mamã e "atracou" nas Descobertas, onde lhe franquearam as portas de uma vida que se deseja longa, bela e cheia de felicidade.
Chegou bem! Era o mais importante. É (ainda) pequenino, mas vai crescer e fazer as delícias dos pais, dos avós, dos tios, de toda a família e ... do mano Gil, que está tão deslumbrado e com tanta ânsia de brincar com ele, que já queria que o mano pegasse no peluche que escolheu para lhe oferecer.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Palavras bonitas

DIÁLOGO
 
Pergunto ...
Mas quem me poderia responder?!
Tu não, rio sem asas,
Que permaneces
A passar ...
Nem tu, planeta alado,
Que pareces
Parado
A caminhar ...
Humano, só de humanos meus iguais
Entendo a fala,
Os gestos
E o destino.
E esses, como eu,
Olham a terra e o céu,
Os rios e os planetas,
E perguntam também ...
Perguntam, mas a quem?

Orfeu Rebelde
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1992)

Netos

O meu neto fez 5 anos no passado dia 5. Nunca mais conseguirá repetir esta proeza e o avô não foi capaz de assinalar a data na altura própria, como se impunha.
A vida, às vezes, prega-nos partidas e a "martelada" na cabeça não sai só aos outros. Também nos calha, por muito que pensemos que não.
O mar já está mais calmo, a tempestade tende a amainar, a minha qualidade de teimoso já está à tona, o humor já apanhou o comboio, ronceiro, do regresso.
Apareceram inquilinos a ocupar espaço sem a devida autorização. Foram despejados e remetidos a quem os possa identificar, nem que seja para lhes determinar um "termo de identidade e residência".
Cá por mim, que com eles não assinei contrato, só espero que não voltem nem tenham deixado rasto ...
O que importa, agora, é que o meu neto Gil já é um homem de 5 anos e que o meu neto Vasco está quase, quase a sair do conforto da barriguinha da mãe!

terça-feira, 5 de julho de 2011

Crise

No muro, algum contestatário meio "anarca" ou a recordar os idos tempos do PREC (para quem é mais novo, iniciais do Processo Revolucionário Em Curso, em 1975), escreveu:

- NÃO À CRISE!

A cor diferente, um esperto zelador da língua, talvez conservador ou diligente "educador", colocou um H antes do "à", não tocando, todavia, no acento.
Deixando de lado a acentuação, com a qual já pouca gente se preocupa, resultou que a primeira mensagem, que pretendia ser de alerta, chamamento, voz de revolta, foi, com um simples H, transformada radicalmente numa afirmação peremptória:

- NÃO HÁ CRISE!

E ambas cumpriram a sua função, com a subtileza, bela, que tem a língua portuguesa.

sábado, 2 de julho de 2011

Palavras bonitas

PÓRTICO


Aqui começa a nova caminhada.
Se a levar ao fim, darei louvores a Deus,
Como meu Pai, ao despegar
do dia ganho.
Não por haver chegado,
mas ter acrescentado
um palmo de ilusão ao meu tamanho.

Diário XVI
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1995)

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Quotidiano

Mudará?
Parece haver uma nova linguagem, mais clara, mais determinada, sem rodeios.
Outro ar, menos viciado, que elevou uma mulher  - Assunção Esteves - para o segundo lugar da hierarquia do Estado. 
Há uns anos não conseguimos eleger uma outra - Maria de Lourdes Pintassilgo - para o primeiro e foi uma oportunidade perdida.
Não são águas em que navegue mas o vento parece soprar do lado certo e à velocidade correcta. Espero não ter de "engolir" a opinião de hoje.
Sou um crédulo que (ainda) acredita no País.

domingo, 19 de junho de 2011

Quotidiano

Algumas frases soltas para despertar a curiosidade para uma excelente entrevista de Carlos Tê, publicada na revista Visão da passada 5ª. feira, que só hoje consegui ler.

"... A minha avó paterna, analfabeta, veio, aos quarenta e tal anos, de Resende para o Porto. Criou-me, teve um impacto muito forte em mim ..."

"... Depois, foi a literatura à porta. Sentia-me intimidado por entrar em livrarias. Era um mundo reservado a outras pessoas, achava que se entrasse me punham fora ..."

" ... Mas havia um lado B, mais ou menos obscuro. «O gajo é dos que lê livros», estás a ver? Dava-me um ar suspeito."

"Começamos a ficar cheios de pessoas que só sabem muito de uma coisa e são incapazes de relacionar assuntos".

A não perder!

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Homem prevenido

Prevenindo situações de angústia resultantes da inactividade, nada melhor do que ir preparando a reforma estabelecendo um horário que garanta uma passagem gradual, calma e tranquila à inércia completa.


Angra do Heroísmo - Terceira - Açores

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Quotidiano

Um "jovem trintão", meu amigo e colega de profissão, enviou-me hoje um mail com uma canção residente neste endereço Youtube, a sua letra completa e uma epígrafe que dizia
"... ainda acho que nem tudo o que é antigo é para deitar fora ...".
Obrigado, GP.
O espectáculo do vídeo, denominado "Três Cantos" aconteceu em Outubro de 2009 e juntou, pela primeira vez, três "dinossauros" da música portuguesa: Sérgio Godinho, José Mário Branco e Fausto Bordalo Dias.
Fazem parte da minha colecção os dois CD's e os dois DVD's que o registaram para a posteridade. 

terça-feira, 24 de maio de 2011

Palavras bonitas

NOITE PERDIDA
Coitado do rouxinol!
Passou a noite ao relento,
Do pôr ao nascer do sol,
Sem descansar um momento,
Sempre a cantar, sem dormir,
Absorto no pensamento
De ver uma rosa abrir ...
Coitado do rouxinol!
Passou a noite ao relento,
Do pôr ao nascer do sol,
Sempre a cantar, sem dormir.
Mas o mísero - coitado!
Cantando tão requebrado,
Com tal cuidado velou,
Que adormeceu de cansado,
E os olhos tristes cerrou
No minuto, no momento
Em que ao luar e ao relento
A rosa desabrochou ...
Coitado do rouxinol!
Com tal cuidado velou
Do pôr ao nascer do sol
E tanto, tanto cantou,
A noite inteira ao relento,
Que de fadiga e tormento,
Sem descansar, sem dormir,
Fecha os olhos, perde o alento,
No minuto, no momento
Em que a rosa vai abrir ...
Coitado do rouxinol!

Antologia de poemas portugueses modernos
António Feijó
Ática Poesia (2010)

sábado, 14 de maio de 2011

Opinião e um poema

No Expresso desta semana:
Ricardo Costa – Isto depois logo se vê (1º Caderno - Pág. 03)
“… Dou a minha causa por perdida. Este país adora documentos e powerponts. Eu também desenho um governo numa tarde ….”  
Miguel Sousa Tavares – Não há inocentes (1º. Caderno - Pág.07)
“… Acho que nunca tinha visto um partido tão mal preparado para uma campanha eleitoral. Certamente que há outra e melhor gente no PSD, mas remeteram-se ou foram remetidos ao silêncio. E, perplexo, o país pergunta-se se são estes, que só acumulam asneiras, ignorância e incompetência chocantes e até argumentam com palavrões e insultos, que querem mesmo governar Portugal. Já sabíamos que Sócrates tem sete vidas, mas oito?”
Henrique Monteiro – Vem aí o lobo mau (1º. Caderno – Última página)
“ Mas não foi com pensionistas ou trabalhadores que houve derrapagens e se cometeram excessos. Foram, sim, estradas inúteis, projectos inúteis, consultadorias inúteis, propaganda inútil e boys inúteis que deram cabo do país. Além das inúmeras promiscuidades - com banqueiros, especuladores, Joes Berardos diversos, empresas do regime, ditadorzecos vários, etc. – que em nada contribuíram para o louvado Estado social e apenas minaram a coesão do país.”
Nicolau Santos – Cem por cento (2º. Caderno - Pág.05)
Emprestem-me palavras para o poema; ou dêem-me
sílabas a crédito, para que as ponha a render
no mercado. Mas sobem-me a cotação da metáfora,
para que me limite a imagens simples, as mais
baratas, as que ninguém quer: uma flor? Um perfume
do campo? Aquelas ondas que rebentam, umas
atrás das outras, sem pedir juros a quem as vê?
É que as palavras estão caras. Folheio dicionários
em busca de palavras pequenas, as que custem
menos a pagar, para que não exijam reembolsos
se as meter, ao desbarato, no fim do verso. O
problema é que as rimas me irão custar o dobro,
e por muito que corra os mercados o que me
propõem está acima das minhas posses, sem recobro.
E quando me vierem pedir o que tenho de pagar,
a quantos por cento o terei de dar? Abro a carteira,
esvazio os bolsos, vou às contas, e tudo vazio: símbolos,
a zero; alegorias, esgotadas; metáforas, nem uma.
A quem recorrer? que fundo de emergência poética
me irá salvar? Então, no fim, resta-me uma sílaba – o ar –
ao menos com ela ninguém me impedirá de respirar.
Nuno Júdice – A pressão dos mercados
P.S. – Espero que Eduardo Catroga não seja leitor do meu blog, para não correr o risco de ter um comentário assim.

domingo, 8 de maio de 2011

8 de Maio

Hoje devia ser capaz de escrever qualquer coisa ... e não consigo.
Se não tivesse partido, a minha mãe completaria hoje a oitava capicua da sua vida.
Ficamos sempre incompletos ...

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Aniversário

As duas melhores prendas das que hoje me ofereceram.
De manhã, bem cedo, uma visita ao quarto para entregar a primeira obra, feita às escondidas: "é uma surpresa, vô!"
A seguir ao almoço e enquanto os adultos se perdiam em conversas que lhe não interessavam, alheamento e um novo quadro, desta vez pintado com os dedos directamente na tinta.
É o meu neto, que faz 5 anos em Julho e vai ter um mano também nesse mês.

25 de Abril

Para todos os que, apesar de haver coisas muito mais importantes para comemorar e/ou fazer, ainda se lembraram do meu aniversário, ficam as palavras, perenes, de Sophia de Mello Breyner Andresen, sobre o cravo da liberdade e do agradecimento.

sábado, 23 de abril de 2011

Ruivaco do Oeste

Porque a modéstia em demasia é defeito e porque o que não fica escrito não aconteceu, aqui se regista para que os netos, um dia, leiam e tenham orgulho da mãe. Um, que já está um "homem" com quase 5 anos, experimentou estas andanças ainda na barriga, tal como acontece, agora, com o irmão. Farão parte da geração que nos há-de criticar muito, por não termos conseguido preservar aquilo que os nossos avós deixaram. É o desenvolvimento ...


segunda-feira, 11 de abril de 2011

FMI

Amanhã chega o FMI e o Fundo da Comunidade Europeia.
Vêm resgatar o tal país à beira mar plantado onde vivem uns quantos que "não se governam nem se deixam governar" e demonstrar que os romanos não tinham razão quando nos classificaram com este epíteto.
Vai ser lindo ...

. Acabam-se as empresas municipais.
  - Não pode ser! Há muitas que são utilíssimas e dão emprego a muita gente.
. Determina-se o fim de uma grande maioria dos Institutos Públicos.
  - Impossível! Para além de também contribuir para o aumento do desemprego, causaria uma redução significativa na venda de automóveis de grande cilindrada e, consequentemente, uma descida brutal nas receitas do IVA e do IA.
. Reduzem-se os Ministérios, as Secretarias de Estado e os Deputados.
  - Nem pensar! Como seria possível despachar obras públicas por outro Ministro que não o das ditas? E quem viria dizer que o número de ignições de 2011 será inferior ao de 2010, se não existisse Ministro da Administração Interna? E o problema do comércio automóvel não ficaria ainda mais complicado?
Pensando melhor: para evitar tantos problemas, mudemos alguma coisa, pouca, mas mantenhamos tudo na mesma. Aumente-se o IRS e o IVA, congelem-se salários e pensões, aumentem-se as taxas moderadoras para evitar que os malandros andem sempre no médico, baixem-se as comparticipações nos medicamentos, diminuindo o desperdício e acabando com este aumento assustador da esperança média de vida.
Ficamos todos a ganhar ... e, como diz o Mário Zambujal, "À noite logo se vê".
Nota: Tenho o FMI do Zé Mário Branco, em vinil e em CD, e não é que aquilo ainda se mantém actual!

sábado, 2 de abril de 2011

Crise, geração e futuro

Um bom tema para a campanha eleitoral que se aproxima e para os debates com que, diariamente, somos bombardeados pelos "politólogos", "coladores de cartazes", "burros", e outras espécies afins.
Não consta que o discurso do Bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho e Pinto, tenha sido objecto de análise e muito menos de resposta por parte dos altos dignatários presentes e, claro, dos ausentes. 
Entretanto, a crise agrava-se para a grande maioria e continua a beneficiar uns quantos que gravitam em volta da corte e, como desenhou Bordalo, "mamam na porca".

segunda-feira, 28 de março de 2011

Orgulho

Há momentos em que a retrospectiva de uma vida nos enche de orgulho, compensando as dificuldades, as agruras, os maus momentos, os momentos maus, o que fizemos de errado, as desilusões e as frustrações.
Recebi hoje, de novo, um texto de Mia Couto que circula pela Net, no qual o autor, com o nível a que nos habituou, comenta a "Geração à Rasca".
Até aqui, tudo normalíssimo, um igual entre tantos, aparentemente sem quaisquer diferenças a não ser que ... o texto vinha acompanhado de comentários dos meus filhos, um directamente de Israel onde se deslocou em trabalho e outra da linha de Cascais, onde se recompõe da "trabalheira" de um fim de semana a tentar que o Ruivaco do Oeste volte a povoar o rio Alcabrichel.
Há momentos em que a gente sente que ... valeu a pena!

segunda-feira, 21 de março de 2011

Palavras bonitas

LIBERDADE

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa …

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças …
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca …

Fernando Pessoa

EM TODOS OS JARDINS

Em todos os jardins hei-de florir,
Em todos beberei a lua cheia,
Quando enfim no meu fim eu possuir
Todas as praias onde o mar ondeia.

Um dia serei eu o mar e a areia,
A tudo quanto existe me hei-de unir,
E o meu sangue arrasta em cada veia
Esse abraço que um dia se há-de abrir.

Então receberei no meu desejo
Todo o fogo que habita na floresta
Conhecido por mim como num beijo.

Então serei o ritmo das paisagens,
A secreta abundância dessa festa
Que eu via prometida nas imagens

Sophia de Mello Breyner Andresen

MIRADOIRO

Com tristeza e vergonha enternecida,
Olho daqui
A ponte das palavras
Que construí
Sobre o abismo da vida.

Sonhei-a;
Desenhei-a;
Sólida até onde pude,
Lancei-a como um salto de gazela:
E não passei por ela!

Vim por baixo, agarrado ao chão do mundo.
Filho de Adão e Eva,
Era de terra e treva
O meu destino.
E cá vou como um pobre peregrino.

Miguel Torga

O SAL DA LÍNGUA

Escuta, escuta: tenho ainda
Uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
Salvar o mundo, não mudará
 A vida de ninguém – mas quem
É hoje capaz de salvar o mundo
Ou apenas mudar o sentido
Da vida de alguém?

Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
Que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
Mais. Palavras que te quero confiar.

Para que não se extinga o seu lume,
O seu lume breve.
Palavras que muito amei,
Que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.

Eugénio de Andrade

domingo, 20 de março de 2011

Livros (lidos ou em vias disso)

(...)
Canto VIII - 28

A hipocrisia, por exemplo, é das velharias mais
difíceis de o homem se livrar; apegou-se ao homem
como o lixo ao trapo já sujíssimo de pó.
Conhecer crápulas, diga-se, não é uma raridade:
normalmente são mansos, entram discretos
como empregados de mesa de restaurantes
de luxo e acabam a tentar degolar
quem acabou de adormecer. (...)

Uma viagem à Índia
Gonçalo M- Tavares
Caminho (2010)

Primavera

Está a chegar e, de acordo com o calendário, isso vai acontecer amanhã.

Entretanto já as flores, as árvores, a paisagem ganharam as cores e a luz que nos deliciam.

Hoje, o mar da Foz estava lindo, como as fotos evidenciam. Convidava a um mergulho, fazendo companhia a um corajoso que por lá andou mais de 15 minutos. Não ia preparado, senão ...


domingo, 13 de março de 2011

Fim de semana

Está a terminar ...
Foi bem preenchido e atarefado. Ainda na sexta-feira, uma correria para chegar a tempo ao jantar dos amigos com quem reúno às segundas sextas de cada mês. Refeição à pressa, com a actualização das conversas por entre os bocados de chouriço assado, as moelinhas, o queijinho fresco com oregãos e outras iguarias que o estômago detesta e as papilas gustativas adoram, antecedidas por um sopinha de feijão com hortaliça que caiu como "sopa no mel". Às 21H15 um toque no telemóvel indicava que a viatura e a "motorista" já me aguardavam, para rumar ao CCC. O Grupo de Teatro O Bando apresentava, em estreia, Pedro e Inês, uma peça escrita por Miguel Jesus, com o título Inês Morre. Os históricos amores do rei justiceiro e da castelhana coroada rainha depois de morta não foram suficientes para aquecer o ambiente do CCC, que continua gelado, mantendo o ar condicionada avariado há vários meses.
As rotinas habituais de sábado, a visita do neto perturbada pela má disposição que a chegada da febre já lhe provocava e, à noite, de novo o teatro e mais uma estreia do Teatro da Rainha: Kabaret Keuner e outras histórias, de Bertolt Brecht. Um conjunto de histórias, escolhidas e interpretadas pelo Zé Carlos Faria, sozinho em palco, numa encenação de Fernando Mora Ramos.
Extraordinário! Textos com quase 100 anos e uma actualidade incrível, um Zé Carlos Faria soberbo a tocar banjo, a cantar e a interpretar, numa peça para recordar e a não perder.
Entretanto, já tinha acabado o desfile daquela massa de gente - seriam 200.000 - que se havia deslocado a Lisboa a representar todos os que estão à rasca. Desta vez e ao contrário do que sucedeu em Viseu, Sócrates não convidou ninguém para jantar nem opinou sobre a possibilidade de ser uma brincadeira de carnaval no "sambódromo" da Liberdade que, apesar da crise, da inevitabilidade do FMI, dos mercados , dos cortes, das ironias, "está a passar por aqui". 

domingo, 6 de março de 2011

Palavras bonitas

Canto I - 15
Mas a natureza também aparece, e muito,
nesta viagem.
O vento, por exemplo, que poderá parecer
elemento neutro,
que distribui os ligeiros incómodos por ricos
e pobres,
mas na verdade é apenas hábil:
nos fracos provoca frio e nos fortes é leve brisa que
acalma o calor excessivo.
Canto I - 91
Um dos cobardes, numa recaída afoita
que até o mais medroso tem,
pegou ainda, durante a fuga, numa forte pedra,
mas com a má pontaria, que nervos excessivos
sobre as omoplatas e o cotovelo provocam,
acabou por acertar em cheio
na praticamente vazia cabeça do velho pai.

Gonçalo M. Tavares
Uma  viagem à Índia
Caminho 2010 

quarta-feira, 2 de março de 2011

Tributo à minha mãe

Sete
são os anos que passaram.
Tantos quantos são os dias
das muitas semanas em que me deste
o melhor.
Sete são as cores do arco-íris
com que pintaste o quadro
de uma vida tão cheia quanto dura
por vezes até madrasta.
Sete são as notas de uma música
de valores
que me ensinaste a tocar
tão bem. (aprendi?)
São incontáveis as horas
de sono que te roubei
sem saber.
E não consigo contar
as outras, que, bem sabendo,
te deixei bem acordada.
Recebi, em paga disso,
uns ralhetes disfarçados
uns escudos escondidos
uns conselhos murmurados
que ficaram
cá bem no fundo de mim.
Foste assim ... e não me esqueço.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Livraria 107

Pelo Blog do Zé Ventura soube da distinção concedida à Isabel Castanheira pelo Correntes d'Escritas deste ano, atribuindo-lhe o Prémio Especial Livreiro.
Todas as palavras que aqui deixasse sobre a Isabel Castanheira seriam sempre insuficientes para ilustrar a sua personalidade forte e a consideração e amizade que por ela tenho.
A "nossa" 107 faz parte das minhas rotinas há muitos anos e espero que continue a fazer por muitos mais, por três razões que, afinal, são quatro: pelos livros, por mim, pela Livraria 107 e pela grande Isabel Castanheira. 

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Tributo

Parece que foi ontem e já lá vão 24 anos. 
Ficou, perene, a sua obra, cuja qualidade é indiscutível e que mantém uma actualidade impressionante.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Inverno

Mais uma quinta-feira com António Lobo Antunes na Visão.
Como sempre, a arte de bem escrever, com imaginação e beleza. Da crónica de hoje, dois excertos, um do princípio e o outro do final:
"(...) Acabei um livro no mês passado e a minha cabeça, oca, demora-se no tecto. Nem uma memória, nem um presságio: vazio, junto a um calorífero que frita mais do que aquece. O telefone de vez em quando: as pessoas dizem coisas. Não me dizem grande coisa. Leio, sem vontade, não importa o quê. A humidade enche-me os ossos de água parada: sinto-me uma espécie de charco com folhas podres à tona. Se chego à varanda gente apressada, automóveis a garantirem que não com os limpa-vidros, distinguem-se mal as pessoas nos carros.
(...) subo para o helicóptero, explico ao piloto
- Leve-me a Agosto
e dali a nada estou de papo para o ar, na praia, a olhar sorvetes e a lamber biquinis, perdão, ao contrário, a olhar biquinis e a lamber sorvetes. Pensando bem, a primeira frase fica melhor."

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Que parva que eu sou ...

Agora, aqui, sem imagem mas com a qualidade de som que a canção merece, o (novo) hino dos Deolinda, com a voz e a irreverência de Ana Bacalhau.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Palavras bonitas

Confesso a minha ignorância: desconhecia em absoluto Luísa Dacosta e, consequentemente, nunca tinha lido nada da sua obra, em poesia ou prosa. Foi preciso a Visão publicar mais um volume da segunda edição de Poesia + Prosa para, por 50 cêntimos, descobrir A Maresia e o Sargaço dos Dias e, desse conjunto de poemas que retratam muito da vida e do mar, retirar este, cuja sensibilidade interior me dispenso de adjectivar.

PERDAS

Faltam sombras
à minha porta.
Quando a noite desce,
o Joaquim já não vem
espreitar a  maré.
Um ataque deixou-o
com o lado direito
esquecido e morto.
Ergue-se a manhã
e a Natália, que o não larga da mão,
não vem beber a malga do café à beirada.

Um dia, também, não estarei mais
para registar as perdas.

Poesia+Prosa
Luísa Dacosta
Oficina do Livro (2011)

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Manifesto, revolta ou realismo

Já antes tinha "postado" sobre os Deolinda

Aquando do primeiro trabalho apresentado e após um excelente concerto nas Caldas, disse o que me ia na alma aqui.

Dois anos depois, por alturas do lançamento do segundo CD, voltei a manifestar-me aqui.

Agora, enquanto se aguarda um novo trabalho discográfico, aparece outra surpresa deste grupo, que transporta ar fresco e qualidade musical, juntando a isso letras incisivas, que espelham criticamente o que vai por cá, numa demonstração de que, afinal, há jovens com espírito, irreverência e qualidade, que nos cabe escutar e que merecem ser ouvidos.

Dos recentes concertos ao vivo, mais um "hino" dos Deolinda:

Porque a qualidade do vídeo é fraca, fica a letra enquanto o grupo não grava a canção em melhores condições técnicas.

Sou da geração sem remuneração
e não me incomoda esta condição.
Que parva que eu sou!
 
Porque isto está mal e vai continuar, 
já é uma sorte eu poder estagiar.
Que parva que eu sou!

E fico a pensar, que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.
Sou da geração casinha dos pais,
se já tenho tudo, pra quê querer mais?
Que parva que eu sou!

Filhos, maridos, estou sempre a adiar
e ainda me falta o carro pagar
Que parva que eu sou!

E fico a pensar, que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.
Sou da geração vou queixar-me pra quê?
Há alguém bem pior do que eu na TV.
Que parva que eu sou!

Sou da geração eu já não posso mais
que esta situação dura há tempo demais
E parva não sou!

E fico a pensar, que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Holocausto














No dia em que perfazem 66 anos sobre a libertação de Auschwitz, uma foto para que a memória do extermínio se mantenha viva e uma outra para que a imagem dos carrascos se não apague.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Decisão

No interior do Silêncio, o Tempo e o Modo, cada qual em seu canto, reflectem sobre a interferência que têm no quotidiano de todos e sobre a forma como cada um condiciona a Vida.
Narcísicos, ambos acham que a influência exercida só se deve a ele próprio, sendo o outro um mero jarro decorador da mesa da Decisão.
O Tempo considera que o instante da Decisão é determinante para a sua eficácia ou para o respectivo insucesso, sendo irrelevante o modo como é executada.
Pela inversa, o Modo acha que o êxito de qualquer Decisão depende, sempre e exclusivamente, da forma como se processa a execução e nunca do instante em que a mesma acontece.
Por telepatia, transmissão de pensamento, interferência de ondas rádio, troca de olhares ou qualquer outra razão que a razão desconhece, ambos concluíram que os seus pensamentos versavam o mesmo assunto - a suprema importância de cada um na sociedade.
Por terem constatado uma evidência destas e por ambos considerarem que o outro era apenas um pequeno grão sem qualquer relevo, resolveram dar voz aos pensamentos e a discussão instalou-se. Do interior do Silêncio surgiu uma vozearia incomum, com cada um argumentando não com o discernimento das ideias mas com o ruído das palavras. 
O Silêncio alterou-se, aborreceu-se, toldou-se, zangou-se, desinteressou-se, e partiu. Apesar da experiência ancestral, mesmo o Silêncio acabou por perder a paciência e deixou de ouvir, muito embora o volume dos berros com que o Tempo e o Modo prosseguiam a discussão fosse elevadíssimo. As cordas vocais das duas personalidades perderam a vibração musical e o aumento dos decibéis atingiu tais proporções que, apesar de já se encontrar bastante afastado, o Silêncio ainda sentia os tímpanos massacrados com o ruído produzido.
Como era de esperar, a discussão nestes termos não produziu qualquer luz, esclarecimento ou ideia. O narcisismo impediu que quer o Tempo quer o Modo percebessem que a Decisão só é boa e eficaz quando se consegue que o todo seja superior à mera soma das partes, por mais importante que cada uma seja.
O Silêncio partiu e parece pouco disposto a voltar a autorizar que o Tempo e o Modo utilizem o seu interior para reflectir.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A crise e a realidade (com ironia)

Meia dúzia de "energúmenos", que tinham acabado de participar numa manifestação contra aquilo que, todos o reconhecem, tem que ser feito para conseguir manter o país em condições de nos alimentar a todos (?), resolveram abandonar a "manif" utilizando uma rua pública que estava interdita por determinação da autoridade. 
A PSP, de forma delicada e utilizando toda a meiguice que as palavras permitem nestas ocasiões, pediu, encarecidamente, que desistissem dos seus intentos e não forçassem a passagem por a dita rua. 
Apesar dos meigos pedidos, alguns "energúmenos" insistiram e, sem que nada o justificasse, avançaram por sobre os bastões, fazendo-se agredir sem qualquer respeito pela liberdade dos bastões. Refira-se que as forças da ordem os haviam trazido para a rua apenas para apanharem um pouco de ar puro.
Perante esta desobediência, foram feitas algumas detenções e os detidos terão de explicar amanhã, em Tribunal, as razões que os levaram a agredir os pobres bastões indefesos. 

sábado, 15 de janeiro de 2011

Fernão Capelo Gaivota

Li o livro, vi o filme, tenho o disco (em vinil). Hoje lembrei-me (associação de ideias ?) e fui ao "arquivo" da Net.
Encontrei e, quase 40 anos passados, recordei o sonho, a vontade, o desafio, a luta, a incompreensão ... Há coisas que são eternas!

sábado, 8 de janeiro de 2011

Palavras bonitas

LETREIRO
Porque não sei mentir,
não vos engano;
Nasci subversivo.
A começar em mim - meu principal motivo
de insatisfação -,
Diante de qualquer adoração,
ajuízo.
Não me sei conformar.
E saio, antes de entrar,
de cada paraíso.

Orfeu Rebelde
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1992)

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Palavras bonitas

OLHOS DE SERPENTE

Os teus olhos de serpente
são os únicos representantes
da tua formosura oh linda
o teu cabelo serve de cortina
para te cobrires para que
não te descubra, amor
mas eu vou abrir a tal cortina;
És muito bonita que até
as borboletas te conhecem
e dizem que roubaste a beleza
da rainha borboleta, amor
e então que encantas tanto, amor.
Esses olhos são para mim
luzes para zigue-zagues caminhos
dás-me a mão para que eu não caia
tragas a tua beleza toda para
os passos da minha vida, amor.

Malangatana
24 poemas  e outros inéditos
ISPA (2004)

A "doença prolongada" levou mais um grande nome da cultura, ontem, no Porto.
Malangana foi um grande pintor moçambicano, com ligações profundas a Portugal e também às Caldas da Rainha, onde realizou, que me recorde, duas exposições na Casa da Cultura. Nessa altura, ofereceu algumas obras que farão parte do espólio da Casa da Cultura (onde quer que ele esteja), com excepção de um pequeno quadro a tinta da china, que pode ser visto na sede dos Pimpões.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Rotinas

Chegou o Ano Novo, que trouxe consigo as rotineiras formulações de votos para que haja muita saúde, paz, harmonia; que as guerras acabem, que a fome desapareça, que aconteça mais solidariedade, que as pessoas se entendam. As mensagens chegam pelas mais diversas vias: SMS, correio electrónico, de viva voz, nos discursos do poder e no poder das entrevistas, etc, etc..

Apesar da sinceridade destes votos não dever, na sua grande maioria, ser posta em dúvida, daqui a doze meses estaremos a fazer o balanço e, infelizmente, iremos encontrar um aumento do desemprego, do número de pessoas para quem a fome é visita de casa, dos que não têm casa nem sequer para essa visita, das convulsões sociais e, inevitavelmente, da criminalidade.

Cá estaremos para constatar a evolução e o comportamento de 2011 para, quando ele partir, lhe cobrarmos o que não nos deu e perspectivarmos, de novo, um 2012 cheio de paz, harmonia, solidariedade e progresso.

Valha-nos a rotina da Foz, que continua e continuará bonita e a convidar para um mergulho, que a falta de coragem não deixou, hoje, concretizar.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Presidenciais

Porque tenho esperança e confiança, acredito, ainda, na política e na capacidade de mobilização dos portugueses para o bem comum, prezo a tolerância e as oportunidades iguais para todos, acho essencial que todos tenhamos acesso à educação, à cultura e à saúde, gosto de poesia e considero que há mais vida para além dos números que, todos os dias, os interesses instalados nos facultam, vou escolher Manuel Alegre para Presidente da República. 

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Ironia do destino

De acordo com as notícias de hoje, o Governo vai:

  • capitalizar o BPN, injectando-lhe mais 500 milhões de euros do erário público;

  • adiar a venda, por não haver interessados;

  • substituir a actual administração, oriunda da CGD, por outra que, nos próximos anos, crie condições para o Banco ser, de novo, posto à venda.

Os problemas que afectam, nesta altura e por todo o mundo, a actividade bancária, não são de molde a encontrar muita gente disponível para um fardo destes, ainda por cima com a missão de "engordar o porco", para que possa ser vendido quando o negócio se tornar interessante e o mercado apresentar interessados.

Por isso, talvez fosse melhor o Governo não se cansar a procurar muito e voltar a chamar Oliveira e Costa e Dias Loureiro para retomarem as rédeas do Banco. 

As vantagens desta solução seriam inúmeras, mas merecem destaque as seguintes:

  • Os aqui propostos conhecem o Banco e os seus problemas melhor do que ninguém;

  • Têm uma excelente carteira de contactos, em Portugal e no estrangeiro, que lhes permitiriam recuperar rapidamente os clientes interessantes, que abandonaram o Banco aquando da intervenção do Estado;

  • Estão de licença sabática há muito e, por isso, terão tido tempo bastante para estudar as regras prudenciais de gestão que a actividade envolve e necessita.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Crise e inteligência

Confesso que, no início, fui dos que concordaram com a grande maioria dos articulistas, comentadores e quejandos, e achei que a decisão do Governo Regional dos Açores - compensar uma parte dos funcionários públicos daquela Região Autónoma com um subsídio igual ao corte decretado pelo Governo da República para 2011 - revelava uma quebra na solidariedade nacional e uma arrogância não admissível na hora em que a crise impõe sacrifícios a todos.
Curvo-me, agora, perante a inteligência, sagacidade e conhecimentos matemáticos revelados por Carlos César que, qual Sherlock Holmes para o seu Dr. Watson, justificou ao Primeiro Ministro da República as razões que motivaram a decisão.
- Também tu, César! Por que me fizeste uma coisa destas?
- Elementar, meu caro Sócrates.
- Como? Zombas de mim?
- De modo nenhum. Fiz contas (sei fazê-las) e concluí que o corte dos funcionários públicos reduziria a despesa da Região em 3,5 milhões de Euros; peguei no Orçamento, procurei, procurei, e encontrei uma despesa de valor idêntico, orçamentada para cobrir o campo de futebol do Santa Clara.
- E depois?
- Elementar, de novo, meu caro: anulei a obra do campo de futebol e vou utilizar esse dinheiro para subsidiar os funcionários públicos.
- Reconheço que foste muito esperto! Quando chegar a minha hora de partir (parece estar próxima), proponho-te para o meu lugar.
Consta que Sócrates já adquiriu a lupa e procura afincadamente um Dr. Watson, a contratar a prazo ou em outsourcing. Vão percorrer o Orçamento do Estado, linha a linha, para tentar encontrar coberturas que não sejam imprescindíveis ...
Espera-se que nem a lupa nem a sagacidade sejam de potência muito elevada, sob pena de se concluir que o supérfluo orçamentado talvez chegasse para evitar os cortes.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Livros (lidos ou em vias disso)

Acabei de ler ... e confirmou as expectativas.

Termina assim:

(...) O amanhecer apenas se distingue do anoitecer por aquilo que o antecedeu e pela sucessão que lhe imaginamos, o antes e o depois. Agradeço-te por teres aceitado que este livro se transformasse em ti e pela generosidade de te teres transformado nele, agradeço-te pela claridade que entra por esta janela e por tudo aquilo que me constitui, agradeço-te por me teres deixado existir, agradeço-te por me teres trazido à última página e por seguires comigo até à última palavra. Sim, tu e eu sabemos, isto: . Insignificância, pedaço de nada, interior da letra ó. Mas isso será daqui a pouco. Por enquanto, aproveitemos, ainda estamos aqui.

Livro
José Luís Peixoto
Quetzal (2010)

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Livros (lidos ou em vias disso)

Chama-se Livro o último romance de José Luís Peixoto e vou mais ou menos a metade da sua leitura. Apesar disso, arrisco-me a dizer que o título deveria ser Vida, num Portugal que começa (no livro) em 1948 e se prolonga até não sei quando, porque não quero ir ver (ler) o fim da história. Prefiro digeri-la, a pouco e pouco, saboreá-la: está lá muito do que eu conheci: as castas sociais e os seus desequilíbrios, a amante do padre e o filho de pai incógnito, a matança do porco e os seus rituais, o Portugal salazarento e a ida, a salto, para França, o alcoolismo, a miséria, a ignorância ...

"(...) O que seria a França? A Adelaide sabia três coisas acerca do país para onde se dirigia: na França, as pessoas tinham máquinas que faziam a lida da casa, que varriam o chão, que lavavam a loiça e a roupa, braços de ferro; na França, as pessoas só andavam de automóvel, mesmo para ir à padaria; na França, as pessoas comiam carne de cavalo cozida. Esta última informação era a que mais espécie lhe fazia, tinha pena dos bichos. Também já tinha ouvido falar da cidade de Paris, conhecia o nome, e também já sabia que os franceses falavam estrangeiro. Como iria entender-se num lugar em que toda a gente falava estrangeiro e comia cavalo? Durante as horas de viagem, coberta por lona, a fugir com o rosto aos olhares embaciados dos homens, a Adelaide apoquentava-se com estas perguntas, mas havia um pensamento que lhe fazia mais mazela.(...)

Livro
José Luís Peixoto
Quetzal (2010)