Hoje apeteceu-me colocar aqui esta maravilha, feita por um ENORME que, já septuagenário, mantém viva a chama que me acompanha desde que "a banda passou", em 1966.
Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único. Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
domingo, 22 de setembro de 2019
sexta-feira, 23 de agosto de 2019
Palavras bonitas
Já passam hoje 4 anos da partida do meu pai e ainda parece que foi ontem.
VOZEra uma voz que doía,Mas ensinava.Descobria,Mal o seu timbre se ouviaNo silêncio que escutava.Paraísos, não havia.Purgatórios, não mostrava.Limbos, sim, é que diziaQue os sentia,Pesados de covardia,Lá na terra onde morava.E morava neste mundoAquela voz.Morava mesmo no fundoDum poço dentro de nós.
Libertação
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1978)
sábado, 20 de julho de 2019
Netos
Esta semana foi mais pródiga em visita de netos, que por cá passaram mais algum tempo do que é normal, com direito a almoço e tudo.
Num dos dias, à chegada, cumprimentei:
- Olh'ós meus netos!
Com o ar malandro que o caracteriza e a ironia costumeira, recebi o troco:
- My name is Vasco.
Faz hoje 8 anos e por isso, happy birthday for him.
terça-feira, 16 de julho de 2019
Pôr do Sol
Há finais de dia em que o Sol tem aquela cor indefinível, muito bela, que nos obriga a prestar atenção e a tecer elogios com todo o vocabulário que sabemos e se adequa à situação.
- É um vermelho maravilhoso! Ou será amarelo torrado, doirado, mistura de todo o arco-íris, castanho-avermelhado, cor de mel com laivos de framboesa, lindo!
A incapacidade para a definição matemática da cor que o Sol apresenta trouxe-me à memória uma história que não recordo se foi lida, ouvida ou contada.
Aclarou-se-me a memória: era uma história que meu pai contava, à laia de adivinha ...
A gaveta memorialística, por vezes e sem razão aparente, abre-se e deita cá para fora algo que, se o nosso cérebro funcionasse como uma máquina insensível, nem à porta assomaria.
"Era uma vez um rei com uma grande barriguinha ..."
Nada disso. O rei era um homem de grande porte, elegante, venerado e considerado pelos seus súbditos, que não se cansavam de elogiar o seu carácter e a sua inteligência.
Acontece que o rei apenas tinha uma filha, o que não agradava à corte, que preferia um varão que assegurasse a sucessão com clareza e sem intervenções terceiras.
A princesa era de uma beleza ímpar (como são todas as princesas) e todos os nobres, novos e velhos, ambicionavam com ela casar. Todavia, os seus olhos de esmeralda não se fixavam na nobreza, antes se perdiam na vastidão da corte.
Nas suas deambulações, a princesa percorria todas as terras e contactava com toda a gente do reino e, consequência inevitável, os amores surgiram e chegaram aos ouvidos da preocupada rainha, que já se apercebera do alheamento que a princesa devotava à vida na corte.
Confrontada pela mãe, a princesa confirmou que só tinha olhos para um plebeu, de seu nome Afonso, que descreveu como belo, meigo, inteligente, terno e bonito, e que só a ele uniria o seu destino.
A rainha pensou, pensou, e resolveu aproveitar um momento mais íntimo para partilhar as suas preocupações com o rei e pedir-lhe que recebesse o plebeu e desse o seu consentimento ao noivado.
- Está bem, fidelíssima rainha. Mas só com três condições cumpridas, que me permitirão medir a inteligência desse tal Afonso e aquilatar se tem condições para integrar a casa real. Ele que se apresente amanhã no castelo mas:
- Nem de noite nem de dia;
- Nem a pé nem a cavalo;
- Nem nu nem vestido.
A rainha ficou em pânico por não conseguir imaginar como poderia Afonso cumprir as ordens do rei. Apesar disso, chamou a aia de confiança e ordenou-lhe que transmitisse ao pretendente as exigências do rei.
No dia seguinte, Afonso apresentou-se na corte após o Sol ter desaparecido no horizonte mas antes de a noite ter caído; vinha com um pé num estribo do cavalo e o outro mancando pela estrada de acesso ao castelo; trazia uma rede que lhe cobria todo o corpo, sem uma única peça de vestuário.
Moral da história: não há problema sem solução!
segunda-feira, 24 de junho de 2019
Netos
O neto Duarte faz hoje 7 anos, já anda na escola a sério, já faz testes de matemática e estudo do meio e lê muito bem!
- Ó vô, quantas páginas tem esse livro?
- Vê o número da última e ficas a saber.
- 468! São muitas! Não sou capaz de ler isso tudo, demora muito tempo.
- Vais ler qualquer dia.
Será?
domingo, 26 de maio de 2019
Futuro
" ... e livres habitamos a substância do tempo."
Nesta semana, a "substância do tempo" trouxe-me mais três razões para que eu sinta sempre saudades do futuro e nunca mais do que recordações de um passado que é bom de lembrar para não ser esquecido. Vamos a elas, às razões que me levam a hoje, em dia de eleições para a Europa e depois de cumprido o meu direito / dever, vir por aqui deixar umas notas tão agradáveis quanto garantias de que as novas gerações trarão e terão um mundo melhor, mais solidário, mais amigo e, quero eu, mais justo.
Primeira: Na sexta-feira, logo pela manhã, os netos mais novos - Duarte e Miguel - brindaram-me com um vídeo contendo uma lição de reciclagem, que evidencia preocupação e saber, e me dá a convicção que, talvez já na geração deles, se deixe de cuspir para o chão;
Segunda: Na tarde do mesmo dia fui convidado para a festa dos avós, promovida pela escola do Vasco e assisti a uma peça teatral na qual o meu neto fazia de mim, que digo eu, fazia de avô e dizia para a avó, a propósito do queixume desta sobre as suas rugas:
- ... Não digas isso! A tua pele é como uma noz maravilhosa! ...
Terceira: Ontem, o neto mais velho colocou a cereja em cima do bolo: ele e um colega fizeram um trabalho sobre o 16 de Março de 1974 que me encheu de orgulho e me mostrou como a nova geração tem capacidades infinitamente maiores do que as dos velhos do Restelo que ainda dizem "no meu tempo".
O Gil e o colega ainda não têm 13 anos e fizeram isto:
quarta-feira, 8 de maio de 2019
Dia da Mãe
Hoje é (era) o Dia da minha mãe.
Faria 96 anos, se ainda por cá estivesse,
CANTO ROUCO
Antes que perca a memória
das pedras do adro,
antes do corpo ser
um sopro e quebrado
ramo sem água,
devolvei-me o canto
rouco
e desamparado
do harmónio da noite.
Mãe!,
desamparado na noite.
Eugénio de Andrade
Poesia
Fundação Eugénio de Andrade (2000)
quarta-feira, 1 de maio de 2019
Coisas de velho ...
Já estou sentado a aguardar o início do espectáculo. A senhora, vistosa, chega acompanhada pelo puto, que parece ser seu filho e ter doze, treze anos. Tem cabelos loiros, bonitos, com a raiz pintada de castanho (ou será o contrário?). O puto traz uns auscultadores, enormes, nas orelhas, e um telemóvel na mão. De vez em quando liberta uma das orelhas e ouve o que a mãe diz. Volta a colocar o auscultador no lugar e não retira os olhos do telemóvel, que exibe o que me parece ser um combate de boxe.
A minha ignorância garantia que aqueles afazeres terminariam quando começasse o espectáculo, afinal a razão única que tinha levado à sala as pessoas que enchiam por completo a plateia.
Ilusão minha! O puto permanecia deliciado a ver o boxe, auscultadores nas orelhas e um desprezo olímpico por tudo quanto se passava à sua volta.
O espectáculo terminou, o público aplaudiu de pé e o puto, continuou, sereno, sentado na cadeira que lhe coubera em sorte cerca de duas horas antes.
Quando os aplausos cessaram e o público começou a abandonar a sala, a mãe pegou-lhe na mão e fez-lhe sinal que eram horas de partir.
E lá foram ambos, ela com os cabelos loiros de raiz castanha, ele de auscultadores vermelhos unidos por uma correia preta, de telefone na mão e concentrado em absoluto no combate de boxe.
quinta-feira, 25 de abril de 2019
25 de Abril
REVOLUÇÃO
Como casa limpa
Como chão varrido
Como porta aberta
Como puro início
Como tempo novo
Sem mancha nem vício
Como a voz do mar
Interior de um povo
Como página em branco
Onde o poema emerge
Como arquitectura
Do homem que ergue
Sua habitação
27 de Abril de 1974
Sophia de Mello Breyer Andresen
O Nome das Coisas
Editorial Caminho
Como casa limpa
Como chão varridoComo porta aberta
Como puro início
Como tempo novo
Sem mancha nem vício
Como a voz do mar
Interior de um povo
Como página em branco
Onde o poema emerge
Como arquitecturaDo homem que ergue
Sua habitação
27 de Abril de 1974
Sophia de Mello Breyer Andresen
O Nome das Coisas
Editorial Caminho
terça-feira, 23 de abril de 2019
Dia Mundial do Livro
Hoje celebra-se o Dia Mundial do Livro.
Quem puder vá à manifestação referida aqui, mas sobretudo leiam, não pelo dia em si mas porque faz bem à saúde, e dizem até que mantém a linha.
Pelo sim, pelo não, eu continuo a ler, cada vez com mais prazer e com a certeza de que o tempo não me chegará para ler tudo quanto gostaria.
Hoje terminarei o último de Mário de Carvalho - O que eu ouvi na barrica dos maçãs - e tem sido uma delícia ler (nalguns casos, reler) crónicas cheias de humor e de actualidade.
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