domingo, 24 de maio de 2020

Maria Velho da Costa

Faleceu ontem mais uma das "Três Marias" - Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa. As três ficarão na história da literatura portuguesa  e na da luta pela libertação das mulheres.
Resta Maria Teresa Horta e toda a obra de alta qualidade que as três produziram.

(...) Diz-me o advogado que evite reflexões políticas ou comentários à minha circunstância.
Mas quando começa a minha circunstância? 
Era assim que deviam escrever no antigamente, sob a Inquisição, as polícias políticas, sob espia, um censor empoleirado no ombro, como um corvo. Mas talvez seja sempre assim, este acto contra o tédio e a insignificância, um acto a três: o autor, a surpreendente voz do escrito e o censor que é aquele que vai ler. Vertiginoso.
Sara dizia que era a minha profunda segurança que me permitia clamar no deserto, correr riscos. Até a segurança do meu nome, que suscita a deferência.
Faz vento. Oxalá estivesse na Torre do Bugio à escuta do clemente rimance do mar, que tudo sara.
Sara. Não mais musa. E muito menos linda. Haverá gusanos desafiando a cal? Queria ser enterrada debaixo de um cedro, a variedade Cedrus altlantica, que ascende em cone e tem flores machas, dizia. Aleixo nem sequer tentou, porque é muito desprendido com o corpo dos mortos; tê-la-ia incinerado, se fosse prática que a igreja aprovasse. (...)

Maria Velho da Costa
Missa in Albis
Dom Quixote (1988)

sábado, 23 de maio de 2020

Quotidiano

Logo pela manhã o jardim ofereceu-me este par de rosas, nascidas do mesmo pé ... e tão diferentes.


Depois, a Foz revelou-me que o sinal é verde e que o mar quer que o visite sempre.


Para terminar em beleza, o meu neto Duarte, que fará 8 anos no próximo mês, presenteou-me com esta maravilha de trabalho, feito no âmbito da sua actividade escolar:

Num dia de muito calor,
os irmãos foram passear
a uma floresta cheia de cor
e a um rio se refrescar.

A primavera começou:
- Eu sou a melhor estação do ano, 
porque tenho mais cor e amor,
os meninos podem flores apanhar
e às suas mães levar.

O verão brincou:
- Pois é, pois é,
mas é na praia que se molha o pé,
e perlim, pim, pim
vai mais uma bola de berlim.

O outono rabujou:
- Eu é que sou o melhor,
basta olhar ao meu redor,
nas folhas secas podem correr
e as castanhas assadas vou comer.

O inverno terminou:
- Ai, sim?
Para os bonecos de neve fazer,
neve tem de haver,
à lareira um chocolate quente
e assim ninguém bate o dente.

Vamos agora mais além,
gritaram os irmãos em bom som,
ninguém é melhor que ninguém
porque cada um tem o seu dom.

Já ganhei o dia!!!

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Quotidiano

Custa a acreditar que o país de Caetano, Chico, Bethânia, Elis, Machado de Assis, Rubem Fonseca, Jorge Amado e tantos outros, que apresenta um duo tão carinhoso como o que aqui fica hoje, tenha um coiso na presidência, que só diz asneiras por uma boca cheia de favas, que enoja e arrepia, ao mesmo tempo.
E se o vírus chega cá? Aquilo transmite-se muito a quem tem memória curta ou não a tem, de todo.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Matraquilhos

Era uma loja de ferragens no topo da Praça da Fruta, onde se vendia de tudo, da complicada ferramenta (para a época) ao simples parafuso, com e sem porca, de cabeça chata ou de tremoço.
O Sr. Galinha era um homem já bem entrado (hoje seria um idoso) e muito gago. A sua gaguez pode um dia destes também ter por aqui lugar, mas hoje não é disso que se trata.
A tasca do António Henriques, junto à Praça de Touros, tinha vários jogos de matraquilhos , num espaço situado ao fundo e aonde se chegava depois de atravessar a taberna e um pequeno quintal. Por isso, os três ou quatro "estádios" raramente tinham controlo arbitral do dono ou da dona, que tinha o nariz bem empinadinho. Marido e mulher ocupavam-se a servir os copos "de três" e a aviar as sandes de queijo ou de presunto, os pastelinhos de bacalhau e uns croquetes de carne, cujo cheiro se sentia à distância. Havia também carapaus fritos e secos, berbigões da Foz e ovos cozidos. Como facilmente se compreende, estes comes e bebes passavam-nos completamente ao lado.
O Sr. Galinha vendia 10 anilhas por 25 tostões e, coincidência, as anilhas eram exactamente do tamanho das moedas de 10 tostões, necessárias para abrir cada jogo de matraquilhos e obter as bolas que o permitiam concretizar.
Não será preciso grande esforço para se perceber o que acontecia: com 25 tostões obtinham-se "moedas" para efectuar 10 encontros e, por isso, antes de se entrar no António Henriques era obrigatório ir ao Galinha adquirir os "ingressos".
Para que tudo corresse pelo melhor e não houvesse suspeitas, colocava-se uma moeda, verdadeira, bem visível num dos topos da mesa, para que o "fiscal", se descesse ao campo, visse e não desconfiasse. A dona, tinha a certeza de ser enganada, dadas as surpresas que ia encontrando no "mealheiro",  e aparecia por lá mal se conseguia libertar dos avios da tasca. Consequência imediata: a moeda verdadeira era utilizada para o último jogo do dia, ficando as anilhas sobrantes, se existissem, para o dia seguinte.
Nunca fomos apanhados em flagrante delito mas que os donos muito desconfiaram de nós, não tenho qualquer dúvida.


P.S. - No dia de hoje, Quinta-Feira da Espiga, não se jogavam matraquilhos.

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Mirones no Parque


                                     

Ninguém na cidade ignora onde é, toda a gente o conhece e não tem qualquer dificuldade em indicar o caminho que a ele leva. Pode haver, e há, outros parques na cidade: das merendas, de jogos, jardins, a Mata Rainha D. Leonor, mas o Parque nem de nome precisa, embora o tenha (Parque D. Carlos I).

O Parque é um paraíso. 
A sua beleza é de tal modo ofuscante que muitos de nós nem reparam nisso. É tão natural olhar o lago, ver os pavilhões que em breve serão hotel, passear pelas áleas e visitar o Museu de José Malhoa, espreitar o ténis, tropeçar com os pombos e (agora) com os pavões, sentir os pássaros a chilrear nas árvores enormes, dar pão aos peixes, ser afectado pelos poléns, usufruir de tudo que achamos tão natural e tão nosso.
Tempos houve em que uma ida ao parque significava brincar com os amigos, andar de bicicleta alugada, ir à ilha, fazer corridas até ao busto do Bordalo, jogar ao ring com as colegas, roubar um beijo fugaz e conseguir, de vez em quando, uma companhia para sentar num daqueles bancos de madeira, vermelhos, bem enquadrados entre dois plátanos "gordos", que garantiam a privacidade e a detecção de qualquer intruso inoportuno. O entusiasmo e a pressa faziam com que se descurasse a parte de trás, protegida pela sebe de buxo e que, por isso, parecia não permitir que alguém importunasse.
Não era verdade. Por vezes, apareciam por ali uns mirones que se regalavam a espreitar o que os jovens sentados e distraídos estavam a fazer. Quando eram detectados, usavam a argumentação bacoca sobre a moral e os bons costumes, a falta de educação, as parvoíces que se imaginam para quem só podia ser ... parvo.
Nunca os esqueci. A maior parte já por cá não está mas, de vez em quando, ainda me cruzo com um, já trôpego, mas a quem não consigo olhar sem sentir asco por coisas passadas há mais de meio século. 

terça-feira, 19 de maio de 2020

Mundo

Com o confinamento a chegar ao fim, espera-se, talvez valha a pena repararmos no que se passa à nossa volta, sem lamechas e apenas com a certeza de que, aqui ou na China, no sertão ou no deserto, nos trópicos ou no gelo, não passamos de uns apêndices de um mundo que pertence a todos e onde todos temos lugar. 
É bom lembrar, sendo embora lugar comum, que há por aí muita gente que se esquece disto e do respeito que a todos é devido.

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Mercearia e Fanqueiro

O balcão ia de uma ponta à outra da primeira sala, aquela onde estava a faca do bacalhau, a balança Avery, a medidora do azeite, os frascos com os rebuçados, quatro, uns em cima dos outros, com as bocas viradas para o interior, não fosse alguém distrair-se e, inadvertidamente, sacar um ou dois. Todo ele era de madeira e o descrito ficava à esquerda, até à balança. Depois, a zona de atendimento e os papéis, pardo e vegetal, os cartuchos, o rolo da guita e o espaço para cortar as roupas, com uma tesoura enorme e um metro de madeira, quadrado, com as marcações "centimetrais" bem escavadas na madeira e que estava sempre à mão, para medir ou assustar.
O merceeiro entrava para o balcão através de uma pequena porta, com um tampo que, mal acontecia a passagem, era de imediato fechado. Tinha sempre o mesmo passo, o mesmo tom de voz, o mesmo sorriso. Os anos já eram bastantes, o coração dava-lhe sustos amiúde e o volume da barriguita era escondido sob o casaco de cotim, que mantinha sempre fechado.
As tulhas do feijão, encarnado ou branco apatalado e, de vez em quando, o frade, mais raro e mais caro, estavam nas costas do homem e tinham um corredor, de lata, que servia para encher o cartucho com 250, 500 gramas ou, mais raramente, um quilo daqueles vegetais. O cartucho, do tamanho adequado ao peso, era dobrado em cima e a guita que o atava ficava presa na dobra do papel e permitia o transporte sem risco de cair.
Por debaixo das prateleiras que continham as mais variadas coisas - colheres de pau e das normais, garfos, facas, copos, tigelas, pratos - estavam a manteiga, a banha de porco, o café, o colorau, a pimenta, o sal e muitos outros produtos que, na "fotografia" já não se conseguem vislumbrar direito.

- Cem gramas de café, meia quarta de banha, dois decilitros de azeite, e a minha mãe manda dizer que é "pra assentar".
- Está bem, desta vez. Diz-lhe que o livro já não tem folha ...

O livro era mais alto do que largo, um rectângulo onde havia uma folha para cada um dos "caloteiros". As dificuldades eram muitas e nem sempre a jorna chegava no final da semana. A mercearia esperava...
Do lado da porta de entrada era a montra do fanqueiro: ganga, cotim, chita, algodão, lenços de assoar e de cabeça, bonés, barretes, linhas, botões, meias, soquetes, ganchos e um infindável  sortido de bugigangas impossível de descrever e descortinar, mas que o merceeiro sabia onde estavam quase sem olhar.
Havia ainda uma outra secção, provida com uma balança decimal, onde estavam os produtos mais pesados e os que não podiam "conviver" directamente com os da alimentação. A medidora do petróleo, enfiada no bidon e o álcool desnaturado faziam companhia ao foskamónio, que começava a dar os primeiros passos na agricultura, ao adubo tradicional e ao enxofre, este também numa tulha e com um corredor próprio. Pairava também por aí a batata de semente, Arran-Banner, Arran-Consul ou Impéria, ensacada em sacos de serapilheira, com 50 Kg cada, nada que assustasse qualquer homem da época, bem habituado a fazer força sem ir ao ginásio.
Era uma imensidão de coisas e uma infinidade de conversas sobre tudo e sobre nada, das quais sobressaíam as anedotas do viajante do Café Sertão, contadas nas visitas semanais e reproduzidas em todas as tertúlias da noite até que, na semana seguinte, surgissem novas.
 

sábado, 16 de maio de 2020

Ilusão

E quando tudo indicava que as notícias continuariam a ser sobre o coronavírus, o planalto e o confinamento, a taxa de letalidade e a abertura das praias, eis que a visita à fábrica dos automóveis altera tudo, cai não cai, fica não fica, vai não vai, tem razão não tem, toda a gente sabia, ninguém sabia, aprovaram e não leram, votaram sim e queriam votar não, estava no papel, qual papel, o papel ... mas ninguém leu!
E Centeno foi treinador de futebol, de bestial a besta num minuto: os treinadores de bancada opinaram, o pequeno mundo agitou-se, as mesas redondas tentaram a quadratura, os prognósticos sucederam-se, era tudo evidente e já se esperava, claro como a água, só não via quem não queria ou era cego, o vírus eclipsou-se num instante.
A noite é boa conselheira, mesmo antes de dormir.
Foi um equívoco, um pequeno lapso, falta de informação atempada, tinha de ser, o prazo acabava no dia seguinte, toda a gente sabia, estava escrito no Orçamento, aprovado e promulgado, uma falha de informação, a auditoria é outra coisa, não invalida o compromisso, está tudo resolvido!
E eu sou parvo, ou quê?, como dizia Zé Mário Branco.

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Dia da Cidade

Dia da Cidade, sem concerto na Avenida da Independência, sem fogo de artifício no edifício da Câmara, sem cerimónias de condecoração de personalidades, sem abertura, simbólica, do Hospital Termal e sem inaugurações oficiais. 
E ainda por cima com chuva!
A Rainha teve direito a umas florzinhas e houve música online, mas não é a mesma coisa.
Talvez para o ano, se o Corona não se adaptar à humidade caldense e se for embora, deixando-nos em paz.