quinta-feira, 28 de maio de 2020

Mar - O bom e o péssimo

A época de praia está à porta e esta, de acordo com as informações disponíveis, abrirá no próximo dia 6 de Junho, com o número de pessoas fixado de acordo com o tamanho da praia (?). No caso da Foz do Arelho, a Agência Portuguesa do Ambiente prevê que possam estar 6.000 pessoas na praia da lagoa e 3.800 na do mar. Não imagino como vai ser feita a contagem mas, como sou cliente só da manhã, não devo ter dificuldade em conseguir ser um dos 3.800 ...
Ainda sem as portas abertas e sem qualquer vigilância, a praia da Foz - Mar tem dado uns dias espectaculares, com sol, sem vento e um mar apetecível, com as devidas cautelas, não vá o diabo tecê-las e surgir algum "agueiro" que crie complicações.
Apesar disso e quando menos se esperava, eis uma surpresa que a praia da lagoa hoje "ofereceu" ao meu neto Vasco: uma "queimadela" de uma caravela portuguesa, das muitas que surgiram por ali nos últimos dias, sem qualquer autorização. E fez um enorme estrago. Obrigou a uma ida ao hospital e a um tratamento que se irá prolongar por vários dias. E a perna tem um "estrago" considerável.
Não há dúvida que o mar é sempre uma caixinha de surpresas!

 

quarta-feira, 27 de maio de 2020

Futebol Clube do Porto em Viena - 1987

Há 33 anos, sete "marmelos" assistiram à vitória do Futebol Clube do Porto na então Taça dos Clubes Campeões Europeus, num jogo memorável realizado em Viena de Áustria, num estádio que já não existe. A final foi ganha por 2-1 frente ao Bayern de Munique, com um golo de Madjer (de calcanhar) e outro de Juary, com Artur Jorge como treinador da equipa. Jorge Nuno Pinto da Costa já era presidente do clube.
Uma viagem inesquecível, com mais de seis mil quilómetros percorridos, durante uma semana, numa Toyota Hiace acabadinha de adquirir por um dos viajantes.
Hoje, ao ouvir as notícias sobre a efeméride, lembrei-me que, há 33 anos eu era um cidadão acabado de cumprir a idade necessária para ser candidato à Presidência da República, tinha dois filhos com 9 e 5 anos e hoje, dos quatro netos, apenas um ainda não tem cinco anos ... mas está quase lá.
A viagem foi fantástica, com o pretexto do futebol mas, dos sete, apenas um (que já cá não está) era adepto do FCP. 
Foi a primeira das quatro viagens que aquela equipa, com pequenas alterações, haveria de realizar por essa Europa fora, numa altura em que as fronteiras existiam e eram exigentes (vêm visitar a família, lembro-me de nos questionarem à entrada de França), não havia GPS, o muro de Berlim ainda existia e o Euro estava bem longe, havendo necessidade de nos abastecermos da moeda de cada um dos países que visitávamos. Recordo que, na antiga Jugoslávia, nos disseram ser o Dinar bem aceite em todos os países à sua volta e ainda hoje existem algumas dessas moedas que sobraram e não foi possível trocar.
Os velhos lembram-se de cada coisa! Recordar uma viagenzita a Viena, como se fosse difícil lá chegar. Chegam quaisquer três horitas de avião ... quando começarem a voar.


terça-feira, 26 de maio de 2020

A sala de aula (na primária)

Ainda não tínhamos chegado à era das turmas mistas nem tão pouco à das aulas virtuais. 
O edifício era igual a tantos outros que o tempo reaproveitou e hoje têm as mais variadas utilizações, de restaurantes a bibliotecas, centros de dia ou de interpretação, postos de turismo ou repartições públicas.
Naquela sala, só rapazes, alguns descalços e a grande maioria mal calçada. As vestimentas eram "made in home", calças de cotim, ganga ou sarja, com peitilho, camisolas de lã, feitas por quem sabia "dedilhar" as agulhas. E quase todas as mães o sabiam. A lã era comprada em meadas, que era preciso dobar com o auxílio de dois braços, esticados, para evitar que se enrolasse quando estivesse a ser utilizada. A mãe fazia o novelo e eu esticava os braços, dando o jeito aos pulsos para permitir que a lã seguisse o seu caminho. Depois, era um delírio ver aquele fio, comandado por duas agulhas frenéticas, dar lugar a cada uma das partes que, juntas, haveriam de fabricar a camisola nova. A parte da frente, o peito, era colocada para a verificação do tamanho, antes de ter lugar o remate final.
- Põe-te direito e está quieto, para ver quantas carreiras faltam.
Havia os decotes em bico, redondos ou de barco, riscas de cores variadas, entrançados ao alto e paralelos à cintura. As malhas também surgiam diferentes, consoante a "operária" era mais ou menos prendada. Que me lembre, nunca tive duas camisolas iguais, e recordo bem que, ao contrário das da grande maioria, as minhas sempre tiveram punhos e golas em malhas diferentes e havia pelo menos um pormenorzinho que distinguia a nova das anteriores. 
Bolas, da sala de aula abalei para a indumentária e não era nada disso que queria. Malhas que a escrita tece ...
Voltemos, então, ao princípio. A madeira imperava: carteiras individuais, com tinteiro branco, de porcelana, incrustado num buraco na parte de cima da carteira, ao lado de uma reentrância para colocar o lápis e a caneta, esta com o cuidado recomendado de limpar bem o aparo; secretária da professora, enorme, colocada num plano mais alto para que a panorâmica fosse integral; caixote do lixo, de tamanho considerável para a função que lhe estava destinada. Apenas com madeira a fazer o caixilho, o quadro preto, de ardósia, enorme, quase cobria a parede e era encimado por Jesus crucificado. Não lhe bastava o sacrifício de que nem Pilatos o salvou e ainda lhe pespegaram com as fotos dos dois venerandos, Botas e Corta-Fitas. Há gente que nasceu para sofrer sempre! 
Para completar a mobília, um armário do lado direito, com alguns, poucos, livros, e onde a professora guardava a bata, branca, antes de sair, e dois utensílios cujo local habitual era o tampo da secretária: uma régua, de madeira castanha, utilizada para punir os erros do ditado ou o resultado das contas e a cana-da-índia, que a professora pegava logo que vestia a bata e ainda antes do livro. Servia de muleta para andar, para indicar o que estava escrito no quadro, para apontar a cortina que o menino lá de trás devia puxar para tapar o sol, para bater no soalho a acentuar a exasperação e, de vez em quando, para acertar na moleirinha de algum distraído ou falador. 
A professora não comprava nenhuma nem cuidava de a ir cortar a algum sítio recôndito onde as houvesse. Todos os anos, algum pai, prestimoso, lhe oferecia uma nova, não fosse a antiga ter sido contagiada pelo piolhinho.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Quotidiano

Segunda é dia de feira ... mas não foi.
Fui lá acima, enganado, iludido pelas informações que me tinham chegado de que o mercado semanal iria reabrir hoje. 
Não reabriu e, afinal, as notícias que me tinham chegado eram, como tantas outras que por aí circulam, falsas.
Dos feirantes nem rasto e o que eu precisava de adquirir fica para outras núpcias. Talvez para a semana, se as redes sociais não se enganarem de novo.
Nem tudo foi mau! Fui de carro e ainda bem, porque a ladeira é a pique e a idade não perdoa.
Mau estará para toda aquela gente que há mais de dois meses não vende nada ali nem nos outros locais onde exerce a sua actividade. 

domingo, 24 de maio de 2020

Maria Velho da Costa

Faleceu ontem mais uma das "Três Marias" - Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa. As três ficarão na história da literatura portuguesa  e na da luta pela libertação das mulheres.
Resta Maria Teresa Horta e toda a obra de alta qualidade que as três produziram.

(...) Diz-me o advogado que evite reflexões políticas ou comentários à minha circunstância.
Mas quando começa a minha circunstância? 
Era assim que deviam escrever no antigamente, sob a Inquisição, as polícias políticas, sob espia, um censor empoleirado no ombro, como um corvo. Mas talvez seja sempre assim, este acto contra o tédio e a insignificância, um acto a três: o autor, a surpreendente voz do escrito e o censor que é aquele que vai ler. Vertiginoso.
Sara dizia que era a minha profunda segurança que me permitia clamar no deserto, correr riscos. Até a segurança do meu nome, que suscita a deferência.
Faz vento. Oxalá estivesse na Torre do Bugio à escuta do clemente rimance do mar, que tudo sara.
Sara. Não mais musa. E muito menos linda. Haverá gusanos desafiando a cal? Queria ser enterrada debaixo de um cedro, a variedade Cedrus altlantica, que ascende em cone e tem flores machas, dizia. Aleixo nem sequer tentou, porque é muito desprendido com o corpo dos mortos; tê-la-ia incinerado, se fosse prática que a igreja aprovasse. (...)

Maria Velho da Costa
Missa in Albis
Dom Quixote (1988)

sábado, 23 de maio de 2020

Quotidiano

Logo pela manhã o jardim ofereceu-me este par de rosas, nascidas do mesmo pé ... e tão diferentes.


Depois, a Foz revelou-me que o sinal é verde e que o mar quer que o visite sempre.


Para terminar em beleza, o meu neto Duarte, que fará 8 anos no próximo mês, presenteou-me com esta maravilha de trabalho, feito no âmbito da sua actividade escolar:

Num dia de muito calor,
os irmãos foram passear
a uma floresta cheia de cor
e a um rio se refrescar.

A primavera começou:
- Eu sou a melhor estação do ano, 
porque tenho mais cor e amor,
os meninos podem flores apanhar
e às suas mães levar.

O verão brincou:
- Pois é, pois é,
mas é na praia que se molha o pé,
e perlim, pim, pim
vai mais uma bola de berlim.

O outono rabujou:
- Eu é que sou o melhor,
basta olhar ao meu redor,
nas folhas secas podem correr
e as castanhas assadas vou comer.

O inverno terminou:
- Ai, sim?
Para os bonecos de neve fazer,
neve tem de haver,
à lareira um chocolate quente
e assim ninguém bate o dente.

Vamos agora mais além,
gritaram os irmãos em bom som,
ninguém é melhor que ninguém
porque cada um tem o seu dom.

Já ganhei o dia!!!

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Quotidiano

Custa a acreditar que o país de Caetano, Chico, Bethânia, Elis, Machado de Assis, Rubem Fonseca, Jorge Amado e tantos outros, que apresenta um duo tão carinhoso como o que aqui fica hoje, tenha um coiso na presidência, que só diz asneiras por uma boca cheia de favas, que enoja e arrepia, ao mesmo tempo.
E se o vírus chega cá? Aquilo transmite-se muito a quem tem memória curta ou não a tem, de todo.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Matraquilhos

Era uma loja de ferragens no topo da Praça da Fruta, onde se vendia de tudo, da complicada ferramenta (para a época) ao simples parafuso, com e sem porca, de cabeça chata ou de tremoço.
O Sr. Galinha era um homem já bem entrado (hoje seria um idoso) e muito gago. A sua gaguez pode um dia destes também ter por aqui lugar, mas hoje não é disso que se trata.
A tasca do António Henriques, junto à Praça de Touros, tinha vários jogos de matraquilhos , num espaço situado ao fundo e aonde se chegava depois de atravessar a taberna e um pequeno quintal. Por isso, os três ou quatro "estádios" raramente tinham controlo arbitral do dono ou da dona, que tinha o nariz bem empinadinho. Marido e mulher ocupavam-se a servir os copos "de três" e a aviar as sandes de queijo ou de presunto, os pastelinhos de bacalhau e uns croquetes de carne, cujo cheiro se sentia à distância. Havia também carapaus fritos e secos, berbigões da Foz e ovos cozidos. Como facilmente se compreende, estes comes e bebes passavam-nos completamente ao lado.
O Sr. Galinha vendia 10 anilhas por 25 tostões e, coincidência, as anilhas eram exactamente do tamanho das moedas de 10 tostões, necessárias para abrir cada jogo de matraquilhos e obter as bolas que o permitiam concretizar.
Não será preciso grande esforço para se perceber o que acontecia: com 25 tostões obtinham-se "moedas" para efectuar 10 encontros e, por isso, antes de se entrar no António Henriques era obrigatório ir ao Galinha adquirir os "ingressos".
Para que tudo corresse pelo melhor e não houvesse suspeitas, colocava-se uma moeda, verdadeira, bem visível num dos topos da mesa, para que o "fiscal", se descesse ao campo, visse e não desconfiasse. A dona, tinha a certeza de ser enganada, dadas as surpresas que ia encontrando no "mealheiro",  e aparecia por lá mal se conseguia libertar dos avios da tasca. Consequência imediata: a moeda verdadeira era utilizada para o último jogo do dia, ficando as anilhas sobrantes, se existissem, para o dia seguinte.
Nunca fomos apanhados em flagrante delito mas que os donos muito desconfiaram de nós, não tenho qualquer dúvida.


P.S. - No dia de hoje, Quinta-Feira da Espiga, não se jogavam matraquilhos.

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Mirones no Parque


                                     

Ninguém na cidade ignora onde é, toda a gente o conhece e não tem qualquer dificuldade em indicar o caminho que a ele leva. Pode haver, e há, outros parques na cidade: das merendas, de jogos, jardins, a Mata Rainha D. Leonor, mas o Parque nem de nome precisa, embora o tenha (Parque D. Carlos I).

O Parque é um paraíso. 
A sua beleza é de tal modo ofuscante que muitos de nós nem reparam nisso. É tão natural olhar o lago, ver os pavilhões que em breve serão hotel, passear pelas áleas e visitar o Museu de José Malhoa, espreitar o ténis, tropeçar com os pombos e (agora) com os pavões, sentir os pássaros a chilrear nas árvores enormes, dar pão aos peixes, ser afectado pelos poléns, usufruir de tudo que achamos tão natural e tão nosso.
Tempos houve em que uma ida ao parque significava brincar com os amigos, andar de bicicleta alugada, ir à ilha, fazer corridas até ao busto do Bordalo, jogar ao ring com as colegas, roubar um beijo fugaz e conseguir, de vez em quando, uma companhia para sentar num daqueles bancos de madeira, vermelhos, bem enquadrados entre dois plátanos "gordos", que garantiam a privacidade e a detecção de qualquer intruso inoportuno. O entusiasmo e a pressa faziam com que se descurasse a parte de trás, protegida pela sebe de buxo e que, por isso, parecia não permitir que alguém importunasse.
Não era verdade. Por vezes, apareciam por ali uns mirones que se regalavam a espreitar o que os jovens sentados e distraídos estavam a fazer. Quando eram detectados, usavam a argumentação bacoca sobre a moral e os bons costumes, a falta de educação, as parvoíces que se imaginam para quem só podia ser ... parvo.
Nunca os esqueci. A maior parte já por cá não está mas, de vez em quando, ainda me cruzo com um, já trôpego, mas a quem não consigo olhar sem sentir asco por coisas passadas há mais de meio século. 

terça-feira, 19 de maio de 2020

Mundo

Com o confinamento a chegar ao fim, espera-se, talvez valha a pena repararmos no que se passa à nossa volta, sem lamechas e apenas com a certeza de que, aqui ou na China, no sertão ou no deserto, nos trópicos ou no gelo, não passamos de uns apêndices de um mundo que pertence a todos e onde todos temos lugar. 
É bom lembrar, sendo embora lugar comum, que há por aí muita gente que se esquece disto e do respeito que a todos é devido.