segunda-feira, 5 de outubro de 2020

República

Comemoram-se hoje 110 anos do dia em que José Relvas proclamou a República, da varanda da Câmara Municipal de Lisboa.

A República, essa, não festeja o seu centésimo décimo aniversário, por ter sido forçada a uma hibernação, ou confinamento, de 48 anos e mais quase um mês. 

Neste período, esteve fechada a sete chaves, guardada pelos defensores da "lei e da ordem", comandados pelo "chefe supremo" que, "a bem da nação, dirigia tudo isto com mão de ferro, acolitado por muitos "olhos e ouvidos" que, ao que parece, estão a ressuscitar, saudosos desses tempos de "progresso e paz".

Viva a REPÚBLICA!

domingo, 4 de outubro de 2020

Memória

A minha irmã diz que eu sabia de cor este texto e que o teria decorado ainda antes de ir para a escola, ao lê-lo na sua companhia. 
Lembro-me bem dos bois do Jeirinhas mas claro que já não recordo o texto, se é que alguma vez o soube, como garante a minha mana, que não é mentirosa.
A Internet, que tem muitos defeitos, também é muito útil em algumas situações. E esta foi uma delas: como não tenho o livro da terceira classe - acho que era nesse que vinha - não havia sítio nenhum onde o encontrasse em letra de forma. "Googlei" e ei-lo, com ilustração e tudo:

OS BOIS TEIMOSOS

Tinha-se acabado a poda. As vides já estavam quase todas atadas em feixes, e era preciso levá-las para o pátio da casa porque a falta de lenha para o lume era grande por aqueles sítios, e podiam roubá-las de noite. O dono da vinha, que não podia largar a gente do serviço para ir buscar o carro, disse para o Manuel Jeirinhas, um rapazote dos seus catorze anos:

- Ó Jeirinhas, tu és capaz de ir a casa e meter os bois ao carro?

- Ora essa, patrão! Então não havia de ser? Pois já se vê que sou! 

- Então vai a casa num pulo, e traz o carro para levarmos as vides. Mas não te demores, que é quase noite. 

O moço  partiu a correr, muito contente com aquela prova de confiança que lhe dava seu amo. Chegou a casa, e foi um instante enquanto apôs os bois ao carro. Depois de tudo pronto, começou a chamá-los de aguilhada no ar; mas, com grande admiração sua, os bois não andavam! Passou a chamá-los pelos seus nomes, a ameaçá-los com a aguilhada, mas, qual história! - os animais não levantavam os canelos do chão. Entrou de praguejá-los em altos berros, de picá-los com o ferrão, e eles torciam-se, abanavam a cabeça, mas lá andar para a frente é que não havia meio.

O Jeirinhas, muito descoroçoado, começou a dizer mal da sua vida:

- Mas que teima será esta dos bois, que não querem andar? E o patrão que logo me recomendou que viesse num pulo! Como há-de ser isto agora?

De repente, teve uma inspiração:

- Já sei! Isto não é senão coisa de bruxedo!

Levantou-se de um salto, deitou a fralda da camisa para fora, e foi-se à cabeça dos bois, zurra-que-zurra, zurra-caturra, a esfregá-la com quanta força tinha, porque ouvira dizer que era aquilo remédio infalível para o mau olhado ...

Depois daquele trabalho todo, tornou a chamar os bois e a puxar por eles: mas nada! Se teimosos estavam antes, mais teimosos ficaram depois! O rapaz desanimou então de todo, e começou a chorar:

- Agora o patrão, se calhar, há-de dizer que eu dei cabo dos bois! Valha-me Deus Nosso Senhor!

Nisto, pôs-se a olhar muito sério para os bois, e disse: 

- Espera lá ... Este boi parece que puxava do outro lado ... E se eu trocasse os bois? ...

Dito e feito. Tirou os bois: mudou o da direita para a esquerda e o da esquerda para a direita, e tornou a apô-los ao carro. Os animais, assim que se viram nos lugares a que estavam acostumados, ó pernas para que vos quero! meteram por ali fora que foi um regalo!

O Jeirinhas compreendeu então que ele é que tinha embruxado os bois.

 

sábado, 3 de outubro de 2020

Memória

Ontem, por força de um vídeo enviado, lembrei-me do jogo do pião e recordei-o, sozinho, no quintal cá de casa. Hoje, à custa de ter lido que "um corvo crocitava no alto de uma bela árvore", recordei-me da fala dos animais, que aprendi na primária. Já não recordava o autor nem me lembro de o seu nome ser referido, mas descobri tratar-se de um poeta que viveu entre 1839 e 1896 e se chamava Pedro Diniz.

A memória, velha, tem destas coisas.

VOZES DOS ANIMAIS

Palram pega e papagaio                           Muge a vaca, berra o touro;          
E cacareja a galinha;                                 Grasna a rã; ruge o leão;               
Os ternos pombos arrulham;                   O gato mia; uiva o lobo;               
Geme a rola inocentinha.                         Também uiva e ladra o cão.          

Relincha o nobre cavalo;                          Regouga a sagaz raposa;
Os elefantes dão urros;                             (Bichinho muito matreiro)
A tímida ovelha bale;                                Nos ramos cantam as aves;
Zurrar é próprio dos burros.                     Mas pia o mocho agoureiro.

Sabem as aves ligeiras                              O pardal, daninho aos campos,
O canto seu variar;                                    Não aprendeu a cantar;
Fazem às vezes gorjeios,                          Como os ratos e as doninhas,
Às vezes põem-se a chilrar.                      Apenas sabe chiar.

O negro corvo crocita;                             Chia a lebre; grasna o pato;           
Zune o mosquito enfadonho;                  Ouvem-se os porcos grunhir;        
A serpente no deserto                              Libando o suco das flores,            
Solta assobio medonho.                           Costuma a abelha zumbir.             

Bramam os tigres, as onças;                    A vitelinha dá berros;                          
Pia, pia o pintainho;                                 O cordeirinho, balidos:                        
Cucurica e canta o galo;                           O macaquinho dá guinchos;                
Late e gane o cachorrinho.                      A criancinha, vagidos.                       
                                                             
A fala foi dada ao homem, 
Rei dos outros animais.
Nos versos lidos acima,
Se encontram, em pobre rima,
As vozes dos principais.                                     

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Jogo do pião

Embora o mundo esteja cheio de notícias, não me surgia nada de novo para registar no dia de hoje, em que a tempestade Alex avisou que vinha mas, felizmente, pouco por ela se deu aqui no Oeste. 

Já toda a gente falou da morte de Quino, que deixou a Mafalda sem pai; a contaminação de Trump e da sua "partenaire" é abertura de todos os telejornais mas não é assunto sobre o qual me dê vontade de escrevinhar; a desgraça que passou ontem por Alvalade e o "galo" que o Rio Ave teve também são assuntos para os comentadores sapientes e não para um leigo, ainda por cima provinciano.

Sem perder pitada da Volta a Portugal em bicicleta, que hoje chegou a Águeda e amanhã partirá daqui, espreitei um mail do meu amigo ADS, que me fez trazer à memória o jogar ao pião, parte integrante da minha meninice. Não tinha a perfeição dos jogadores do vídeo, mas dava-lhe um jeitito. Ainda hoje há um pião cá em casa, com "cordina" e tudo, pronto a ser lançado não já no chão de saibro mas no cimento liso. A técnica não é a que era, mas ainda consigo pô-lo a dançar e apanhá-lo para a mão, utilizando o polegar e o indicador com a destreza possível. Jogar "do ar à mão", isso não. É atrevimento que nem ouso experimentar, não vá o pião magoar-se, coitado. Também por cá não existe nenhum "pião das nicas", exemplar normalmente velho, que era utilizado para suportar as "ferroadas" dadas pelos parceiros de jogatina, quando se perdia, evitando, dessa forma, que o principal se degradasse.

Agora, a julgar pelo vídeo japonês, que não consigo aqui reproduzir, é tudo muito mais técnico e sofisticado, para espectador apreciar. Mas o meu pião lançado há pouco, fica aqui lindamente.

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Livros

"ALA" que se faz tarde!

António Lobo Antunes tem mais um livro a chegar. Chama-se "Dicionário da linguagem das flores" e sairá no próximo dia 13 de Outubro. É mais um título de um autor de quem gosto muito e que escreve como ninguém.

Já encomendei e estou ansioso por perceber a linguagem das flores, ao jeito de Lobo Antunes. Em tempos idos, conheci um jardineiro que com elas falava e muito bem se entendia, a julgar pela beleza que o jardim onde trabalhava sempre evidenciava.

Comecei, como toda a gente do meu tempo, a comprar livros nas livrarias. Fui um "grande" cliente da Loja 107, enquanto existiu cá na cidade. A Isabel Castanheira era uma livreira de eleição, que sabia (e sabe) muito de livros e também da sua actividade. Encerrou as portas a tempo de evitar a decadência do negócio, pressionada pela "venda a metro" na concorrência das grandes superfícies. A Isabel foi para casa e nunca mais houve livrarias dignas desse nome nas Caldas. 

Não há nada que se compare a uma compra na livraria e não é necessário que seja a Lello, no Porto, ou a Bertrand do Chiado. O ritual de pegar no livro, ler a badana, a primeira página, a última, abrir uma à sorte, espreitar, ler duas ou três linhas, não tem explicação. E, depois de decidida a compra, percorrer as prateleiras, olhar de baixo para cima para ler a lombada, ver as novidades, o antigo, o que já se tem e o que se gostava de ter, tirar um ou outro, recolocá-lo no lugar ... e o tempo passa sem se dar por isso. Só percebe isto quem gosta de livros. Em papel, claro. 

Agora, na maior parte das vezes, faz-se a encomenda na Wook e aguarda-se que o carteiro toque uma ou duas vezes (como o outro) e nos entregue o embrulho, fazendo o comentário "são livros!?". Também tem ritual, mas não é a mesma coisa abrir a caixa e verificar se está tudo, a entrar numa casa cheia daquilo que se gosta.

Os tempos são outros, mas ler é cada vez mais importante!

terça-feira, 29 de setembro de 2020

Caminhos

Já por lá não passávamos há alguns anos. A última vez tinha sido num passeio dominical, organizado por um grupo de caminheiros. Desta vez fomos sozinhos, mas é sempre um prazer caminhar por sítios bonitos.

A capela de Santa Ana já está recuperada ou, talvez melhor, construída de novo. Apesar de as pedras terem sido substituídas pelo reboco pintado, está bonita, melhora e favorece o local, lindo. Faltarão ainda alguns acabamentos para que as vedações obreiras sejam retiradas, mas já se consegue andar à volta. Há um espaço aberto na rede, que permite ir "cuscar" todos os pormenores, das portas de madeira ao sino no campanário.

A vista é soberba. Até o nevoeiro se dissipou para a podermos apreciar.

No caminho, uma curiosidade rural e de artista. Alguém fez, e colocou, mais de uma dezena de cata-ventos em cana, a lembrar brincadeiras de outras épocas. E funcionam, cumprindo a indicação de que lado sopra o vento, hoje pela manhã apenas uma ligeira brisa.

A Capela de Santa Ana fica debruçada sobre a entrada da barra de S. Martinho do Porto, do lado de Salir. Ao contrário da vila importante, pertence ao concelho das Caldas da Rainha, é perto e o caminho é bom. Fizeram-nos companhia, à distância, dois casais ingleses, com o cão pela trela. E o sítio não está nos guias turísticos.

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Tempos novos

Um grupo de jovens estudantes sobe a rua em conversa animada, tipo fazer planos para curtir.

Mochila às costas, skate debaixo do braço, são seis ou sete, rapazes e raparigas. Em fila indiana, pelo passeio, o grupo é comandado pelo mais baixo, que fala alto para todos ouvirem.

- Fxxx-se, estamos quase a chegar e já ali à frente é a descer, cxxxxxo. Tenham calma.

- E os carros?

 Que se fxxxm. A descida vai ser tipo fórmula um.

O skate é o carrinho de rolamentos dos tempos modernos e os apaixonados são viciados. Chegados à descida, aí vão eles a grande velocidade, a caminho do parque radical. Os automóveis seguem atrás,  bloqueados pela prova que se desenrola rua abaixo.

Cá de longe, pareceu-me que o "mandão" não foi o primeiro a chegar e perdeu para uma das meninas. Não é importante, mas o velho regista-o. Importante é que se divirtam, tipo convívio bué da giro. 

Tal como os hábitos, também a língua muda e tudo isso num abrir e fechar de olhos.

domingo, 27 de setembro de 2020

O papagaio

A rua era larga e os passeios também. Não havia muitos carros mas os transeuntes deslocavam-se por ali em número significativo, eles a caminho dos empregos, elas das lojas ou das casas onde faziam limpezas, os mais novos, saltitando ou correndo, com a saca dos livros na mão ou ao ombro.

A taberna situava-se quase no fim da rua, ou no princípio, consoante a direcção do caminhante. Tinha duas meias portas, de madeira pintada de verde, que abriam para dentro e deixavam dois espaços, um em baixo e outro em cima, como se via nos filmes de cowboys. Por detrás delas, existia a verdadeira porta que, à noite, assegurava a segurança da casa. 

Na parede existia uma armação de estrutura tubular, com três níveis, em sentidos, alturas e tamanhos  diferentes. Dois círculos de tubo fino, soldados ao varão principal completavam o poleiro e neles eram colocados dois recipientes em louça, um com água e o outro com sementes variadas. O taberneiro trazia o papagaio logo de manhã, quando abria a tasca, e por ali o deixava todo o santo dia, preso à estrutura com uma corrente com comprimento suficiente para lhe permitir algumas acrobacias.

"Falava" muito, o papagaio.

- Olá, bom dia.

- Vai um copito?

- Viv'ó Benfica.

- Chiça, já chove. 

Estas e outras expressões eram repetidas pelo papagaio ao longo do dia, sem destino específico, no intervalo dos saltos ou quando se colocava suspenso, de cabeça para baixo, seguro apenas pela corrente presa à pata.

Quando o homem se aproximava, o comportamento da ave alterava-se.

- Onde é que vais, ó careca? Onde é que vais, ó careca? Onde é que vais, ó careca?

E repetia sempre, até que o homem virava a esquina e desaparecia, e tudo voltava ao normal. Toda a gente sorria ao ouvir o papagaio, mas o sofrimento do homem com a situação era visível. 

Um dia, farto de ouvir a pergunta e de ver os sorrisos, maliciosos, dos outros, tomou uma decisão pensada, drástica e decisiva: mudou de passeio e passou a circular sempre pelo lado contrário à tasca.

Nunca mais ouviu "onde é que vais, ó careca", mas o cabelo não cresceu. 

sábado, 26 de setembro de 2020

Expresso

Repeti, hoje, o gesto que me acompanha desde Janeiro de 1973, quase sem interrupções: comprei a edição 2500 do jornal Expresso.

Sou teimoso e, talvez por isso, permaneço fiel a um espaço de liberdade e de aragem fresca que me apanhou com 21 anos e ainda me faz companhia semanalmente. Estive, e estou, muitas vezes em desacordo com temas, artigos, opiniões que lá são publicados, e de acordo, também, com muitos outros. Mas o Expresso, mesmo com algumas arengas pelo caminho, mantém-se um espaço de opinião livre e democrático, essencial no momento em que começou e imperioso actualmente.

Durante a semana espreito a edição digital, facultada gratuitamente a quem adquire a edição semanal. Leio os títulos e pouco mais. O Expresso é saco, é ritual, é prazer de folhear, é papel.