quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Melros

Quem, como eu, os conhece desde a infância, não estranha o seu comportamento esquivo, na procura dos seus interesses, mesmo atropelando os de todos os outros. Muito mais espertos que os pardais, os melros movimentam-se pela calada, escondem-se na vegetação, voam para longe quando lhes cheira a esturro e só cantam quando têm garantida audiência e se encontram bem protegidos. 

Habituei-me desde cedo a conhecer os melros que, com maior ou menor desfaçatez, me foram surgindo pela frente, sem dar às asas mas insinuando-se de forma subtil para, de uma forma que parecesse lícita, voarem até ao alvo pretendido. O importante, para esses melros era, e é, evitar a frontalidade, mesmo quando infringem todas as regras, nomeadamente aquelas pelas quais garantem reger-se.

Apesar de, como o cântaro, já ter ido tantas vezes à fonte, ainda dou por mim a perguntar porque razão determinado melro seguiu esta ou aquela estratégia, varrendo para debaixo da mesa princípios éticos que sempre apregoou, procurando soluções que sempre disse abominar e, apesar das evidências, ainda é capaz de colocar o seu angelical rosto de santinho, pretendendo fazer crer que não contam com ele para partir um prato, muito menos o guarda-louça.

Nestas ocasiões, apetece-me sempre puxar do adágio e dizer-lhe, em voz bem alta e sem receios, que confio muito que talvez vás à lã e venhas tosquiado.

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Viagens

Num dia em que a azia assentou arraiais lá para as bandas de Alvalade, após o Marítimo ter desfeito o sonho de vencer sempre, que o Presidente da República testou positivo ao "bicho" mas, entretanto, já fez mais duas zaragatoas e ambas deram negativo, e que se aproxima mais um período, longo, de "reclusão", o meu amigo ADS enviou-me um link a partir do qual é possível viajar por várias grandes e bonitas cidades do mundo, de Lisboa a Kiev, passando por Havana, Madrid, Los Angeles ou Londres.

Uma boa forma de passear, sem sair do lugar e sem gastar. Em completa segurança, escolhendo a velocidade da viatura sem preocupação com o consumo de combustível e sem que o trânsito nos exaspere. 

Não resisti a partilhar. Espero que ele me desculpe ...

 https://driveandlisten.herokuapp.com/

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Bom português

Com regularidade, presto atenção a uma rubrica que é transmitida logo pela manhã, nas emissões diárias da RTP1. Chama-se "Bom Português" e é o resultado de entrevistas de rua sobre a nossa língua, feitas pela jornalista Carla Trafaria.

No programa de hoje questionava-se a grafia de "caem", para indagar se levava, ou não, um "i" antes do "e". Como sempre, as dúvidas sobre a forma de escrever a língua que é nossa foram inúmeras, mesmo numa situação que, aos meus olhos, é tão simples. Fica-se com pena de quem não sabe nem tem a consciência da sua ignorância, tendo sempre presente que o "sabe tudo" ainda não nasceu e que admitir isso é o primeiro passo para aprender. Mas o microfone e a câmara exercem uma atracção irresistível para demasiada gente.

- Ó Inês, onde tás tu que nim tacho?

- Tou aqui imbaxo, sentada numa piltrona, com duas facadas no buxo que me deu o Pacheco.

- Ai o miseravel dos miseraveis, que lheide arrancar o coração

Era desta forma brincalhona que, na minha juventude, se glosava o drama de Pedro e Inês, vincando bem as palavras incorrectas e os erros de pronúncia. E a associação de ideias levou a lembrar-me disto, logo pela manhã, ao ouvir os entrevistados de Carla Trafaria. 

domingo, 10 de janeiro de 2021

Santo Antão

Janeiro fora, cresce uma hora. E quem bem procurar, hora e meia há-de encontrar.

Há dias, um meu condiscípulo que hoje se dedica à agricultura e tem como apêndice o negócio da lenha, dizia-me, confrontado com o facto de a pilha ter diminuído substancialmente em pouco tempo:

- Está no fim. A partir do Santo Antão já ninguém compra lenha.

O Santo Antão, conhecido como o Santo do chouriço, comemora-se por aqui a 17 de Janeiro, embora neste ano o corona já lhe tenha feito a folha, não o deixando festejar e muito menos ser festejado. Ficarão muitos entusiastas com a água, o vinho e água-pé no bico, não subirão ao monte e não se deliciarão com o dito bem assado, pelo menos nas fogueiras que, lá no cimo, sempre se atearam e que, neste ano, nem sequer um pauzinho provarão.

Se as certezas do AM corresponderem à realidade, já só teremos mais uma semana de frio.

É sempre bom ver o lado positivo das coisas!

sábado, 9 de janeiro de 2021

Frio confinado

Em Maio de 2006 deixei aqui nota de que havia nevado pela primeira vez na casa. Não tinha memória de antes ter acontecido e, até hoje, não se repetiu a imagem branca nem a dificuldade que tive na condução  de regresso, depois de uma ida, manhã cedo de domingo, a uma caminhada na zona de Alcobaça.

Hoje está mesmo muito frio e se, de manhã, ainda a rua foi visitada e se deu uma voltinha pela cidade, o regresso a casa aconteceu por volta do meio-dia, os chinelos foram calçados, as saídas terminaram e até o jardim só é visitado através dos vidros. Os pássaros estão ausentes, a rola pouco canta e só os gatos circulam. Os vizinhos estão escondidos e a rua está deserta. Nem os cães passeiam, quanto mais os donos.

Bolas! Deixai-me estar, confinadinho, para que as orelhas não gelem e o nariz não pingue. Tenho tanta coisa para fazer dentro de casa, bem juntinho à lareira. E se nevar, espreito pela janela ou espero que a televisão dê a notícia!

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Normalidade

Voltou o século XXI e aí está, de novo, a Net e a TV a funcionarem em pleno.

A avaria que a NOS reportava foi, afinal, resolvida antes da hora prevista e ainda foi possível ter tudo a funcionar ontem, pouco tempo antes de o dia terminar. O telefone, entretanto, deu uma ajuda e permitiu ver o telejornal através dos dados móveis, que não são ilimitados e devem ser usados com parcimónia.

Leu-se a Gazeta, a Visão e mais umas boas páginas do livro actual. Depois, bem, depois veio a mensagem da NOS e tudo voltou à rotina, normal, que a idade já não permite grandes alterações e arroubos de aventuras.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Que fazer?

Desde manhã sem Net nem televisão, que fazer à noite?

Ler, ouvir música e pensar que voltamos a 1960.

O que vale é a NOS garantir que amanhã, às 12H27 estará tudo resolvido! 😭

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Sonhos

Por muito que os negacionistas gritem que não, vivemos em tempo de "guerra", com aspas por não existirem exércitos em confronto e as balas serem apenas imaginárias ou seringas exibidas até à exaustão.

Hoje, pela primeira vez, os infectadas pelo vírus que nos acompanha há quase um ano, ultrapassaram os dez mil, número que, mesmo para um leigo na matéria, é assustador. O agravamento da situação traz consigo mais dificuldades na saúde, mais desequilíbrios, mais pobreza, mais injustiça, mais fome.

É bonito de ver a preocupação com os sem-abrigo, os avisos para que as pessoas se protejam do frio, tenham cuidado com as braseiras, saber que, "comemorando" o dia de reis foram servidas setecentas refeições a quem delas muito necessitava, tudo realçado e acentuado por palavras solidárias e tão habituais nesta época. 

Confrontado com tudo isto, surge-me sempre a imagem de uma sociedade justa, sem miséria, sem "caridadezinha", sem "escravos", caminhando para a igualdade na diferença, com todos a viverem dignamente, com respeito, independentemente da "gravata" ou do "fato-de-macaco".

Quase meio século depois, os sonhos de Abril que a juventude dos meus vinte e dois anos alimentou e pensou ser possível, ainda estão muito longe de se concretizarem.

Como sou muito teimoso, vou continuar a sonhar ...

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Debates

Decorre a campanha eleitoral para a Presidência da República e, presume-se, sem grande margem de erro, quem será o vencedor. 

Esperar-se-ia, por isso, que os debates fossem conduzidos com elevação, procurando retirar de cada candidato as suas ideias sobre como resolver os problemas do país, as soluções que cada um tem em mente, as propostas concretas sob a forma como encaram a função a que se candidatam.

Engano! O que se vê e ouve nas televisões é a procura incessante da "guerra", da mesquinhice, do supérfluo, mesmo quando os candidatos em presença pretendem ter uma conversa civilizada.

Fica-se com a ideia de que, afinal, o país pode e deve ser presidido aos berros, como se o Palácio de Belém fosse um qualquer estádio de futebol ou uma tasca reles, e que gritar muito chega para que se mereça destaque e importância.

Valham-nos os ditados populares: "Quem muito fala pouco acerta" e "Vozes de burro não chegam ao céu".

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Jogo de meninos (1)

- Estou farta de "futebóis" no recreio! Acabou-se!

A voz da professora ecoava, forte e determinada. Era claro para todos que mandava e fazia-se obedecer.

- De quem é a bola?

Ninguém respondia, não viesse de lá o castigo da régua, da cana-da-índia ou dos dedos a repuxarem as orelhas.

- Vou guardá-la. No final do ano talvez o dono se acuse.

Na escola da GNR e da PSP, já aqui comentada,  também ninguém sabe quem é o dono da bola, mas o jogo prossegue até à conclusão do rigoroso inquérito que foi logo iniciado e há-de concluir-se talvez para as calendas.

O professor Cabrita não acabou o jogo, não guardou a bola e parece ter-se escondido no armário. Não se ouve nem se vê ... mas é ele que manda!