segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Livros (lidos ou em vias disso)

O impulso tido e aqui referido deu-se em boa hora. Valeu a pena ler um relato de viagens romanceado, do século XIX, de autor pouco referenciado, que escrevia maravilhosamente.

"(...)Pois este?! Este é o padre <<galopino>> e chamam-lhe assim porque passa o seu tempo todo a galopar, a correr por todos os sítios onde há jantar de bodas ou enterro, e oferecendo-se para dizer missa barata contanto que vá depois para a mesa. À noite está ele sempre à porta de algum botequim ou ao pé do correio com outros amigalhaços de igual feição, indagando o que há de novo a respeito de consórcios e de exéquias, e perguntando à sua gente:

- Então amanhã que patuscada temos?

E aquele, aquele?! Isso é que é um reinadio. Não há vivalma que o não conheça, e ele também paga na mesma moeda ao género humano porque conhece toda a gente. É quem preside nas reuniões dos padres da província, que vão à cidade tratar dos seus negócios, e quem agenceia que eles jantam nalguma casa conhecida onde se coma bem. É a alma de uma função, este reverendo! Aquilo tem graça às pilhas, e fala pelos cotovelos. Sabe tudo. É um regalo ouvi-lo discorrer a respeito da lotaria, dos sonhos que teve a noite passada, dos números maus e dos números bons, e de muitas outras coisas não menos edificantes. Até já de uma vez quis fundar uma academia cabalística, que tratasse de elevar o livro dos sonhos à altura dos progressos da ciência!...

A mim explicou-me isto tudo um homem com quem eu me encontrava frequentemente a jantar na casa de pasto <<Isola bella>>, e dizendo-lhe eu pasmado:

- Como sabe o senhor tanta coisa a respeito dos padres?

- Não adivinha! - respondeu-me ele.

- Não.

- É que eu mesmo, que lhe estou falando, também já fui padre!

- Ah! 

Uma coisa, em todo o caso, têm eles de bom, que é não se oporem a que cada um ame à sua vontade. Podem repreender tudo, mas não consta que acusassem nunca o amor.(...)" 

Do Chiado a Veneza
Júlio César Machado
Tinta da China - 2021- Edição original - 1867 

domingo, 9 de janeiro de 2022

Presunção

É raro tratar o meu neto Gil pelo nome próprio. O cumprimento, sempre efusivo, é antecedido de "olha o meu neto Grande" e ele sorri, delicado e, julgo, deliciado. E é grande por ser o mais velho dos quatro, já ser maior do que o avô e por ser um excelente aluno, um óptimo atleta e uma pessoa excepcional. 

Não fica bem estar a dizer isto mas quem confessa a verdade não merece castigo e presunção e água benta, cada um toma a que quer.

Nesta altura, o meu neto deverá estar a fazer o percurso de Málaga até ao Jamor, dentro de uma carrinha da Federação Portuguesa de Natação, que o levou na quinta-feira passada até Espanha. Pela primeira vez, o meu neto Grande foi representar o país, integrado na Selecção Nacional de Natação da sua categoria (Pré-Júnior). Foi o corolário de um trabalho diário, difícil, agravado pelas vicissitudes da pandemia e o prémio para uma dedicação sem limites.

É um fim-de-semana que se deseja ver repetido no futuro e que lhe ficará na memória para sempre. O avô adora vê-lo nadar, mas só em treinos ou em vídeo. Em competição, ao vivo, ele sabe bem que a emoção me trairia e dispensa-me.

Parabéns, meu neto GRANDE. Foste ENORME!

sábado, 8 de janeiro de 2022

Palavras bonitas

GUERRA

Quando Francisco Charrua
chegou ao largo gritando:
- Eh! gente, estalou a guerra!
Zé Gaio de alvoroçado
pôs-se a bater o fandango.

Os outros só pelos olhos
falavam surpresa, esperança:
- Será agora? Talvez ...!
Mas Zé Gaio tinha a certeza:
estava a bater o fandango!...

Já lá vão dois anos passados.
Agora a telefonia
da venda, à esquina do largo,
informa todas as noites:
"Uma esquadrilha inimiga
bombardeou a cidade:
morreram trinta mulheres
e vinte e sete crianças."
Agora a telefonia
informa todas as noites,
dias, meses, anos ... noites:
"Morreram trinta mulheres
e vinte e sete crianças."

... E lá num canto do largo
coberto de noite e raiva,
Zé Gaio abriu a navalha.
Zé Gaio espetou a navalha
no grosso tronco da faia.

Lá num canto do largo.
A faia toda dobrada
- será do peso da noite
ou do vento da desgraça
que sai da telefonia?

Poemas Completos
Manuel da Fonseca
Forja (1978)

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

Expresso - 49 anos

O primeiro número do Expresso saiu em 6 de Janeiro de 1973 e eu, quase no final dos vinte anos, comprei-o. Nessa altura ganhava uns tostões razoáveis (cerca de doze euros e meio mensais) e a mesada que me era dispensada já permitia alguns excessos. O jornal foi um deles, emancipação normal para quem lia o Jornal de Notícias desde o começo da junção das letras. E o vício manteve-se até hoje. Do formato enorme ao actual, a preto e branco ou a cores, sem saco, com saco de plástico ou de papel, tem sido companhia semanal nestes 49 anos. Já referi isso em vários textos aqui deixados e, neste tempo todo, devo ter falhado a compra meia dúzia de vezes. 

Há uns meses, talvez mesmo um ano, que o tempo agora voa mais rápido que o melro que visita o meu jardim todos os dias, recebi um telefonema propondo a assinatura digital, cheia de vantagens, permitia o acesso mais cedo e mais barato, em qualquer sítio e sem carregar o peso do papel. Até era mais verde , protegendo o ambiente. Respondi que, enquanto houvesse papel, era dessa forma que continuaria a ler, como fazia há tantos anos. Conservador! 

O interlocutor quis saber há quanto tempo.

- Desde o número um e olhe que falhei poucas vezes.

- Nem vale a pena continuar a conversa. Obrigado e muito boa tarde.

Nos últimos tempos, o Expresso permite-me aceder ao formato digital, com o código da Revista. Durante a semana vou espreitando, lendo qualquer coisa, desatento, que me falta o toque do papel e o exercício dos braços.

Esta semana o "meu" Expresso foi alvo de um ataque de piratas informáticos, que invadiram os servidores do jornal, da SIC e de outras empresas do grupo. É provável que os meus dados também tenham sido "raptados" pelos piratas e isso faz-me sentir importante, por terem perdido tempo e espaço comigo, que nada valho e estou quase fora de uso. Mas para quê? O que move aquela gente? As novas tecnologias são seguras? O desenvolvimento dos meios e a celeridade das notícias fazem "macaquinhos" na cabeça de muitos? A formatação das mentes é o objectivo? A liberdade assusta e há que a engavetar?

Não concordo com tudo o que sai no Expresso. O jornal tem tido, como todos nós, fases boas, outras nem tanto, algumas para esquecer. Todavia, tanto quanto me apercebo deste provinciano lugar oestino, a pluralidade e a liberdade dos "escrevinhadores" estão e estiveram sempre presentes, mesmo quando o lápis azul imperava e era difícil. 

Honra ao Expresso e à sua força para manter viva a chama, contra ventos, marés e ... piratas.

A edição de hoje vem tão bem feita!

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Careca

Mais uma ida ao barbeiro, ou melhor, à Barber Shop, para o corte regular que os cabelos necessitam. Agora, com a marcação antecipada, até o tempo de espera desapareceu. A cadeira, desinfectada, como ele faz questão de referir, aguarda-me.

- É o costume, claro.

A pergunta já tem muitos anos, a resposta é sempre sim, o trabalho é cada vez mais reduzido. A careca, que o espelho estrategicamente suportado pela mão do barbeiro projecta no frontal, é cada vez maior. O que falta naquela área já devia dar lugar a desconto ...

- Hoje não falamos do nosso Benfica. Já estamos quase como os de Alvalade: para o ano é que é!

As máscaras de um e outro não permitem que a conversa flua com naturalidade. Torna-se fastidiosa, cansativa, as palavras têm dificuldade em sair, parece até que as ideias se atropelam e optam por se esconderem nos interstícios do cérebro, com o medo a reduzir-lhes o discernimento.

- Tantos infectados ... eu já me convenci que, mais dia menos dia, me vai calhar. A lidar com tanta gente ...

- Pois ...

- Ainda ontem cortei o cabelo a um cliente, que tem 74 anos, e já apanhou duas vezes. Desta segunda, segundo ele, foi parecido com uma gripe, mas da primeira viu-se aflito. E já tinha as vacinas todas.

Serviço terminado. Regresso a casa, seguindo o conselho/solução da "bióloga" do vídeo que o meu amigo ADS me enviou.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Fisgada

A vida tinha-lhe sido madrasta, a comissão na guerra colonial agravara a situação, a solidão fizera o resto.  

"Batia" mal e ninguém lhe dedicava um mínimo de atenção.

- Está maluco. Não lhe ligues.

A doença foi-se agravando, começaram a surgir actos de violência, destruições sem qualquer razão, comportamentos não tolerados pela sociedade. Foi internado. Passou meses no hospital psiquiátrico e fez progressos notórios. Delicado e dedicado, fazia o que lhe ordenavam, sem resmunguices nem trombas.

Toda a gente elogiava o seu comportamento e, sempre que lhe era dirigida palavra, os seus olhos brilhavam de gratidão. A rotina do hospital estava assumida, o seu horizonte era curto e a ambição, pouca, morria por ali. Sentia-se bem. Os passeios pelo jardim deliciavam-no, a satisfação na execução das tarefas era visível, as saudades da vida anterior não existiam. Talvez nem se lembrasse dela, se a tivera.

Os relatórios médicos registavam os progressos e, como era previsível, um dia foi chamado ao director. Podia dar lugar a outro, que as vagas eram poucas e as necessidades, muitas.

- Estamos muito satisfeitos consigo e queremos dar-lhe alta.

- Ó senhor doutor, eu estou tão bem aqui ...

- Só queremos saber o que vai fazer quando sair.

Pensou, meditou durante uns minutos que pareceram, ao médico, uma eternidade.

- Vou arranjar uma fisgazinha e vou aos pássaros.

O médico não apreciou a resposta e mandou-o regressar à enfermaria e às rotinas. Satisfez-lhe o desejo encoberto. Passado um mês, nova tentativa.

- Já pensou melhor? O que pensa fazer se sair daqui?

O "se" da pergunta já revelava incerteza, insegurança e dúvida sobre a resposta que iria ser obtida, e também sobre o estado mental do doente.

- Vou arranjar uma fisga e vou aos pássaros.

Antes que o caldo entornasse, o médico, ríspido, ordenou-lhe a retirada. Passou mais de um ano. A rotina manteve-se. O comportamento irrepreensível. As conversas com nexo. Tudo normal, como se os neurónios estivessem na cabeça de um motor que o mecânico alisou e pôs como nova.

- Já pensou bem naquilo que vai fazer quando daqui sair?

- Já sim, senhor doutor. Vou arranjar uma mulher ...

- Boa! E para quê?

- Para namorar e depois casar com ela.

- Muito bem! E o que faz na noite do casamento?

Seguiu-se a descrição, exaustiva, do caminho até ao quarto, da cerimoniosa cena do despir de toda a fatiota, sublimada pela retirada das cuecas. O médico, já com alguma excitação, não resistiu e interrompeu:

- E depois?

- Ainda não pensei muito bem mas, se calhar, tiro o elástico das cuecas, faço uma fisgazinha e vou aos pássaros.

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Organização e método

Terminei, há pouco, uma conversa telefónica com uma senhora muito simpática (podia ser um senhor mas, neste caso, pela voz, era mesmo uma senhora) que não me resolveu o problema mas evidenciou uma organização incrível e perfeita.

- Ligou para XXX. Se pretende informações sobre a sua conta, marque 1; se pretende informações sobre facturação, marque 2; se pretende apoio técnico, marque 3; se pretende ser atendido pelo operador, marque 9.

Opção escolhida, música no ouvido, roufenha sem ser desagradável.

- A sua chamada encontra-se em lista de espera. Por favor, aguarde.

Com uma interlocutora tão educada e gentil, ninguém tem coragem para desligar. Aguardemos, então.

- Encontra-se à espera há cerca de dois minutos. Se pretender, podemos ligar-lhe de volta. Para que isso aconteça, marque 8.

Acedo à sugestão. Marcado o 8, de novo a voz simpática.

- Indique o número de telefone para o qual lhe devemos ligar.

Para quem sabe de cor e ainda tem alguma capacidade de dedilhar, digitar nove números é tarefa de somenos.

 - Indique o período em que o devemos contactar. Se pretende logo que possível, marque 1; se prefere que o contacto se efectue amanhã, marque 2.

Marquei 1, satisfeitíssimo com o atendimento simpático, personalizado, educado e eficiente. Todas as hipóteses de resolução do problema foram contempladas e mencionadas.

Estou a aguardar o contacto, que será efectuado logo que possível, tenho a certeza. Quando? Não faço a menor ideia, mas não deve faltar muito.

Pelo sim, pelo não, sentei-me e aguardo serenamente.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

Balanço 2021

Noutros tempos esta era a altura para olhar custos e proveitos, activo e passivo, cumprimento de objectivos, início da preparação para o parto das reuniões que analisariam com rigor os números, os quais, mesmo atingidos, seriam sempre insuficientes e o "filho" nado poderia ter sido muito melhor.

"Este ano temos de crescer mais, já sabem! Aproveitem o balanço. Vai ser fácil! Na próxima semana terão os números definitivos."

Era a vida, por vezes a esgotar a paciência e a trazer à ponta da língua uma vontade louca de os mandar a todos àquela parte.

Agora, o balanço é uma brincadeira sobre as leituras do ano, em formato livro. As outras, dos jornais e revistas, não têm por aqui cabimento. Neste balanço, não há análise aos números, não foram fixados objectivos, nem há reunião de apreciação. Há alguns custos, que já se diluíram e provam a sensatez do ditado: "dinheiro gasto não faz falta a ninguém". Na antítese, os proveitos são de tal forma significativos que nem se conseguem contabilizar.



domingo, 2 de janeiro de 2022

Progresso

"Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma"
Lavoisier (1743-1794)

O alho francês ocupava uma extensão bem grande, talvez um hectare, se não mais. Foi plantado à máquina, depois de o terreno ter sido preparado, estrumado e canalizado, talvez há uns três, quatro meses, não consigo precisar e não vou perguntar ao dono. É perfeitamente irrelevante para o meu estado de espírito, não aumenta a minha (pouca) sapiência, nem contribui para que a minha personalidade seja mais vincada. Apesar disso, vi-o crescer, sempre alinhado nas faixas que a plantação lhe determinou, fazendo os tubos da rega serem "engolidos" pela sua desenvoltura.

No Natal parecia já estar em condições de ser colhido e cumprir a função para que estava destinado. Não aconteceu. Na semana seguinte, um tractor, uma camioneta, duas pessoas, várias caixas e, num ápice, colheita efectuada.

Se as coisas funcionam como se imagina, deve ter-se seguido a ida para o armazém, a lavagem para retirar a terra, a embalagem e o caminho para o supermercado. A vista do passeante não alcança estes pormenores mas conclui que, num instante, quatro braços e duas máquinas fizeram o trabalho que, em tempos idos, exigiria muitas mãos e muitos dias.

Falso! Nesse tempo, o alho francês não fazia parte dos produtos agrícolas nacionais.

sábado, 1 de janeiro de 2022

Ano Novo

O mar enrola na areia,
ninguém sabe o que ele diz.
Bate na areia, desmaia,
porque se sente feliz!
 
Não há alteração. O novo ano, afinal, não trouxe nada de novo. 
Tudo permanece igual e bonito, como  sempre. Até o tempo fez questão de transmitir, na sua linguagem clara de voz omnipotente:

- Contem comigo. Vou ser melhor, podem ter a certeza. Ofereço azul e temperatura amena ... nos dias em que não carregar o céu de cinzento, abrir as portas ao vento e der ordens para que lágrimas fortes ou meiguinhas caiam nesta terra abençoada.

O Baleal mantém-se lá ao longe, talvez à distância de uma vintena de quilómetros junto à costa. As Berlengas estão no sítio do ocaso, onde gostam de morar para usufruírem da beleza do sol a esconder-se, enrolando-se na noite.

E o mar? Bem, o mar tem a espuma do costume e a cor de sempre, que os meus olhos nunca conseguem determinar se é verde azulado ou azul esverdeado. A dúvida é resultado do mau funcionamento dos meus olhos, não do oceano que é atlântico e sublime.