Passa num instante embora, às vezes, possa não parecer ...
Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único. Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
segunda-feira, 24 de janeiro de 2022
domingo, 23 de janeiro de 2022
Canhão
Não, não é de Navarone e, apesar do seu aspecto bélico, expele apenas muita da porcaria que, há anos, a lagoa vem acumulando no seu fundo, impedindo que o mar cumpra a sua função na plenitude, levando a água salgada mais longe, na maré alta, e trazendo-a de novo ao seu regaço, na vaza.
Cumpre a determinação divina e ao domingo não trabalha. Descanso merecido, para quem labuta de segunda a sábado, sem pausas. Poder-se-á dizer que viola regras antigas, não aproveitando o descanso dominical para ir à missa. Mas isso são contas de outro rosário ...
Não sai do lugar onde o instalaram, com os pedregulhos que o envolvem a garantirem que o mar não lhe torna a fazer estragos, como aconteceu logo no início da sua estadia.
A água está escura e notam-se perfeitamente os detritos a deslocarem-se para sul. Em princípio, não deverão chegar ao Algarve, mas o Baleal e Peniche vão tendo dificuldade em visualizar a transparência tão característica do oceano oestino.
Tudo indica que os trabalhos de desassoreamento da Lagoa de Óbidos deverão ficar concluídos em Abril. Nessa altura, o canhão e as pedras que o amparam deverão abandonar o local e ir pregar para outra freguesia ...
A Lagoa ficará mais limpa e as guelras dos peixes que lá têm a sua morada permanente ou esporádica ficarão mais limpas.
sábado, 22 de janeiro de 2022
Batota
A esclerose anquilosante fazia com que os óculos, fundo de garrafa, se aproximassem cada vez mais dos joelhos. A dificuldade em mover-se era enorme e, para se sentar à mesa do café onde passava a maior parte do dia, era necessário um apoio, de modo a que as pernas ficassem quase na vertical. Uma posição tão difícil de descrever quanto deveria ser de manter.
Tinha sido saudável, possante e brincalhão até aos vinte anos. A partir daí, das três características, apenas a brincalhona se mantinha e somente na conversa. A degradação era visível dia a dia mas não lhe retirava o sentido de humor, a língua verrinosa, a anedota pronta. Fazia crer aos outros que nada doía e aquilo que parecia a todos um doloroso infortúnio, para ele era como se não existisse.
Jogador de cartas exímio, trazia sempre consigo dois baralhos, que retirava do bolso com dificuldade. Da lerpa à sueca, da bisca lambida ao sete-e-meio, volta e meia o montinho, e era tão difícil ganhar-lhe como trepar ao cimo de um eucalipto.
- Só jogo com as minhas cartas!
E ganhava sempre. Na maior parte do dia não tinha parceiros, cada um ocupado com a sua vida, o que não acontecia com ele, a quem a vida já não oferecia qualquer ocupação. Quando era possível juntar mais dois, era a bisca lambida a rainha até que mais um chegasse e permitisse a suecada. Os jogos corriam (quase) com normalidade, sendo evidente que a sorte ficaria sempre do mesmo lado quando se iniciasse a lerpa, o sete-e-meio ou o montinho. À volta da mesa juntava-se muita gente, apesar de nem todos jogarem. Havia sempre um ou dois voluntários para controlarem a eventual chegada de alguém estranho, nomeadamente algum representante da autoridade ou ela própria, a dita.
A satisfação dele subia com o número de jogadores envolvidos e todos fechavam os olhos aos pequenos cortes nos cantos de algumas cartas ou ao pó de talco com que outras tinham sido bafejadas. Tudo isso fazia parte da encenação de uma peça que, para ele, acabou cedo, levando ao encerramento do "casino".
Que se saiba, há muitos anos que o A. não faz um joguito que seja ...
sexta-feira, 21 de janeiro de 2022
Partida
quinta-feira, 20 de janeiro de 2022
Livros (lidos ou em vias disso)
Uma editora nova, um autor desconhecido e a vontade, sempre presente, de desvendar e ser surpreendido. Comprei dois livros, de autores diferentes e a editora ainda me ofereceu um terceiro, de um outro escritor que também não conhecia.
Os contos que estão a ser lidos a grande velocidade são uma delícia e a prova provada de que o português é uma língua maravilhosa e não tem fim. Já perdi a conta às palavras que nunca tinha lido ou ouvido e para as quais foi inevitável o recurso ao dicionário.
"(...) No Bodo do Espírito Santo, manhã cedo, Calistra foi para a cozinha e preparou um cento daquelas maravilhantes guloseimas. Queria que todas as irmãs também fossem contagiadas por aquela paixão que o pastor lhe despertara.
Aparelharam-se as mesas no refeitório para receber os doces e as confeiteiras rivais. De um lado ficava a comitiva do Mosteiro de Estevães e diante o Convento de Sant'Ana. Nos topos as respectivas madres. Pouco depois, a irmã Francelina e a irmã Calistra começaram a colocar sobre a mesa as suas culinárias engenhosidades, cobertas com panos da mais fina cambraia, para que os olhos não começassem cobiçosos a sua avaliação.
Por fim, quando as travessas foram destapadas, logo as presentes perceberam a avultada diferença existente entre as iguarias apresentadas a julgamento. Irmã Francelina ostentava vários pudins de ovos, firmes, luzidios e morenos, com um tamanho superior aos pequenos, frágeis e modestos doces da irmã Calistra. Logo ali principiaram os alvitres e, olhando para Calistra, a madre Ermelinda carregou o sobrolho, revelando a desilusão e o desagrado que aquele cenário de hecatombe lhe provocava.
As irmãs de ambas as trincheiras deram início à gulosa contenda, degustando à vez um e outro pitéu e, todas à uma, renderam-se aos humildes e enjeitados doces de Calistra. Faltava, porém, o veredicto da abadessa de Estevães que, em êxtase, se deliciava a cada pequena dentada, lambisqueira, entregue de corpo e alma ao culinário engenho de Calistra. Sumo pecado.
Quando finalmente ditou a sua sentença ouviram-se vivas ao génio da irmã confeiteira de Sant'Ana. Conquistara a palma, pertenciam-lhe os louros.
- Como foi baptizado este pequeno prodígio?- questionou a abadessa do Mosteiro de Estevães. - Por muitos anos que viva nunca irei esquecer.
Calistra não o crismara ainda, não pensara nisso. Só o belo pastor tinha lugar no seu pensamento.
- Brisas - disse, soluçando. - Brisas do Lis.
E assim, de um amor nunca declarado, nasceu esta especialidade culinária de Leiria, para benção do nosso corpo e leveza do espírito."
quarta-feira, 19 de janeiro de 2022
Dúvida
Um pequeno sinal de humidade, apenas umas pintas acastanhadas ao cimo da parede, junto ao tecto. Há qualquer coisa lá fora, no telhado, que está a provocar isto e só pode ser o jacarandá. Está enorme, bem acima da casa e, nesta altura, solta umas folhinhas pequeninas que tudo tapam, da calçada aos canteiros de flores, e que devem encher o algeroz onde os olhos não vêem e a vassoura não chega.
É bem provável que a água da chuva, não de hoje que está um dia de sol lindo, por lá estabeleça uma pasta, que entope e impede que cumpra a função que lhe foi dada com a instalação que, apesar dos anos, tem todo o aspecto de estar ali para as curvas.
Noutros tempos subiria ao telhado, iria verificar e desentupir, se fosse necessário. Agora, já não dou oportunidade às alturas de me causarem vertigens nem aos pés de escorregarem nas telhas. Era o que faltava. São tarefas demasiado fáceis para a minha condição de veterano e que poderiam macular a minha veia de alpinista, se porventura algo acontecesse ou o trabalho não resultasse em pleno.
Daqui a pouco, alguém que bem sabe e sobe, galgará o telhado, analisará o conteúdo, limpará o algeroz e resolverá o problema, espero. Não à borla, claro. Mas que importância têm meia dúzia de euros ou algumas dezenas, quando comparadas com o alívio do trabalho realizado e do problema resolvido.
E se mandasse cortar o jacarandá?
terça-feira, 18 de janeiro de 2022
Magnólia
Antes de ser instalada no jardim vivia num vaso, apertado, que parecia não reunir o mínimo de condições para crescer e desenvolver-se, sem interferências externas. O problema foi percebido e procurou-se com afinco a melhor solução.
Apesar de o Carlinhos já ter demonstrado que a lógica não existe, parecia que a solução era dar-lhe uma nova vida, com vistas largas e companhia a condizer. Perfilhando o princípio de que vale mais tomar dez decisões ainda que nove sejam erradas a não tomar nenhuma, a magnólia saltou do vaso, instalou-se no relvado, num espaço arejado, novo e que, até ali, nunca tinha sido usado para aquele fim.
No início deu sinais de melhoria evidente, parecia querer e conseguir um futuro diferente, ser bonita e capaz de cumprir a função de alegrar as hostes e tornar mais aprazível o jardim. Foi sol de pouca dura ...
Depressa voltou ao marasmo, sem se perceber a razão que a levou a isso. Naturalmente que há sempre razões que a razão desconhece, ainda para mais quando envolvem plantas e jardins.
- Deve ter sido o calor do Verão. Talvez seja como algumas pessoas quando apanham sol na moleirinha ...
- E o Outono parece que agravou. Outubro então foi terrível ...
Está a chegar mais uma Primavera e, apesar de haver indícios de que a situação não irá evoluir, ainda assim permanece viva a esperança que a magnólia recupere e possa trazer alegria e flores ao jardim.
Dizem as pessoas entendidas em jardins que o dia 30 é a chave!
segunda-feira, 17 de janeiro de 2022
Santo Antão
O monte é bastante alto, quase tanto como a torre de menagem do castelo de Óbidos que, sobranceiro, o olha com algum desprezo durante todo o ano e se rende à sua importância no dia de hoje. No cimo existe uma pequena capela, dedicada a Santo Antão, protector dos animais.
A 17 de Janeiro muita gente sobe o monte, para pedir e/ou agradecer ao Santo as benesses ou milagres que lhe foram proporcionados ou que anseia desfrutar, ou simplesmente para se deliciar com o chouriço assado e as pingas que o acompanham.
O casal, de pequenos agricultores, fazia a caminhada anual pela vertente da encosta e, lá em cima, assentava arraiais junto a uma pedra que protegesse a fogueira do vento norte e permitisse a assadura sem problemas do chouriço caseiro, embrulhado em prata para não se queimar. Enquanto o marido providenciava a lenha para a fogueira, a mulher arrumava o espaço, montava as duas cadeiras que lhes tinham feito companhia pelo monte acima e iriam oferecer-lhes o conforto imprescindível para saborear o petisco.
Assim que o homem começava a acender a fogueira, a mulher dirigia-se à capela para depositar as miniaturas do porco ou da vaca, ou dos dois, feitas de cera, lembrando ou prevenindo as doenças que tinham vindo ou podiam vir.
- Eu não acredito em nada disso, mas é melhor ires lá dar isso ao Santo. Não custa nada ...
Promessa cumprida, chouriço comido, vinho bebido, o sol a pôr-se, dia terminado, regresso a casa pelo monte abaixo, com muito cuidado não vão as pernas trair o equilíbrio e os corpos chegarem lá abaixo sem ninguém os conseguir parar. Hoje seria o dia da romaria do Santo Antão e, mais coisa menos coisa, aconteceria algo parecido com isto.
Não aconteceu e o ano passado sucedeu o mesmo. Talvez para o ano ...
domingo, 16 de janeiro de 2022
Burros
Se não fosse a baixa temperatura que se faz sentir, poderia dizer-se que a Primavera estava a chegar, trazendo as flores, o sol, a luz do dia até mais tarde, o prenúncio do Verão e dos banhos de mar, enfim, um sinal de que esta "coisa" que nos acompanha há dois anos poderia estar a tirar bilhete para apanhar algum transporte que a levasse para nenhures, onde se afogasse, sem hipóteses de alguém lhe deitar a mão.
Nada disso. Os números continuam altíssimos e, apesar da dita benignidade da actual variante, os que partem não podem nem são irrelevantes. Apesar de tudo isto, continuam a ter peso os que negam as evidências, que se apresentam como heróis da liberdade e paladinos do discurso do "contra", e que, digo eu sem qualquer base científica, são daqueles que, à mínima dorzita, correm a mata-cavalos para a primeira porta de urgência hospitalar que lhes apareça pela frente, ou de lado, tanto faz.
E não têm um pingo de vergonha de se exibirem, como aquele rapazinho que é só o melhor jogador mundial de ténis da actualidade e deve ter imaginado (ou alguém lhe soprou) que isso do cumprimento das regras é só para os outros, estando as pessoas importantes acima dessas minudências.
Para esta gente, lembro-me sempre de uma frase de uma antiga professora da minha escola:
"Ora valha-lhes um burro aos coices e três aos pontapés"
sábado, 15 de janeiro de 2022
Malabarismos
Numa época em que toda a gente faz contas, apresenta cálculos, clarifica custos, refere receitas, tudo suportado por uma enorme certeza de coisa nenhuma, veio-me à ideia um episódio dos muitos que vivi na minha longa (e já esquecida) carreira profissional.
O homem apresentava-se como empreendedor cheio de experiência, com negócios de sucesso em vários países da Europa e trazia consigo um estudo económico para suportar a certeza de que não só o investimento previsto era altamente rentável como importantíssimo para a economia nacional. O banco não correria qualquer risco e seria um parceiro a lucrar imenso com a participação. Só tinha que aprovar o crédito e esperar pela rentabilidade e pelo impacto positivo que um financiamento deste calibre teria na sociedade.
- Com a sua experiência, saberá que não há investimentos de risco zero e também percebe que o banco tem de analisar muito bem o que pretende. Não estamos a falar de trocos e o dinheiro é dos clientes que em nós confiam.
- Claro que compreendo. Mas, ao ler o estudo económico, verá todas as suas dúvidas esclarecidas.
O crédito destinava-se a financiar a construção de um restaurante "completamente diferente do que existe por aí", a cerca de dez quilómetros da cidade, numa zona despovoada, onde já nem sequer existia agricultura de subsistência. Mas isso era de somenos ...
Se tivesse qualidade, as pessoas iriam. Era referido na introdução do estudo: "pretende-se construir um restaurante único, que desperte a curiosidade, capriche na comida e seja pólo de atracção para a região e para o país."
Analisada a longa dissertação que instruía e fundamentava o pedido de crédito e os números que lhe davam suporte, nova conversa com o empreendedor.
- Gostava de perceber como é que o senhor conseguirá, numa sala de 100 lugares, servir 400 refeições por dia, 365 dias por ano.
- Simples: rodamos a lotação duas vezes em cada refeição.
Fiquei esclarecido. O crédito não foi autorizado e o local ainda hoje está disponível para qualquer empreendedor com vistas largas.
A matemática é uma ciência exacta e, em cenários, proporciona brincadeiras até à exaustão.