quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Chove?

- Vai chover!

Era a expressão utilizada pela minha mãe assim que ouvia a música, sempre a mesma, do amola tesouras.

- Amola tesouras!

- Conserta alguidares e chapéus de chuva!

Era uma figura ou um figurão, não sei bem. Deslocava-se numa bicicleta especial que, estacionada num cavalete incorporado, tinha condições para que os pedais movimentassem a correia ligada à pedra de esmeril e tornassem esta o instrumento necessário à função. Era nessa pedra que as facas, as navalhas, normais e de barba, as tesouras, de poda ou de costura, eram afiadas e ficavam um brinquinho, quer na capacidade de cortar quer no aspecto.

Para além dos utensílios cortadores, consertava chapéus de chuva, recolocando as varetas no lugar devido e atando-as bem melhor do que vinham da origem. Vareta consertada pelo artista dificilmente se tornava a partir ou a sair do lugar.

Por fim, os alguidares e quaisquer outros recipientes de barro, das canecas aos tachos, dos púcaros aos pratos. Mesmo com várias "fracturas", eram recuperados à custa dos "gatos", estrategicamente colados, depois de colocados a apanhar as duas partes afectadas. Os "gatos" eram uma espécie de agrafes em ferro, com tamanhos diversos, consoante a dimensão da peça de barro carente de salvação.

Trabalho executado, bicicleta descida do cavalete e regressada à posição normal, o amola tesouras ia procurar outro cliente, tocando, na sua gaita ou flauta de pã, a melodia de todos conhecida como anunciadora da chuva.

Talvez seja altura de recuperar algum amola tesouras que por aí ainda ande esquecido e pedir-lhe que toque na gaita, para ver se chove!

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Pirataria

Depois do Expresso e, ao que parece, do Correio da Manhã, coube esta noite à Vodafone ser vítima de um ataque informático que paralisou os serviços da operadora e causou enorme perturbação nos seus clientes, de entre eles o INEM, algumas corporações de bombeiros e bancos. 

Sou um utilizador "frenético" da internet, a tal ponto que, desde a passagem à reforma (há quase cinco anos), nunca mais entrei numa dependência bancária. Faço tudo sentado à secretária, de transferências a pagamentos, consultas e tudo o mais que um utilizador normal tem necessidade. Para além disso, compro muita coisa em empresas que, presumo, são seguras e oferecem confiança. Não sou fã das redes sociais, embora por lá passe de quando em vez, para coscuvilhar os temas mais em voga.

A realidade, porém, está a avisar-me que no melhor pano cai a nódoa. E que a pirataria informática está implantada e, tudo o indica, veio para ficar. Já se conheciam as interferências nas eleições de alguns países, as mensagens e notícias falsas, as aldrabices comerciais, as disseminações mentirosas propagadas pelas redes sociais. Tudo isso é pouco quando comparado com a entrada numa das maiores operadoras do país, que se julgaria ter o seu sistema blindado a estes ataques. Afinal, confirma-se o que se sabe desde sempre: o polícia anda sempre atrás do ladrão e nunca o contrário.

Com a clareza que o caracteriza há muitos anos, o Professor José Tribolet, numa entrevista à CNN, esclarece o que, na sua opinião, aconteceu e reforça aquilo que pode vir a suceder, em tempo mais breve do que se imagina. Vale a pena ouvir aqui.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Palpites

Não percebo nada de saúde. Aliás, percebo muito pouco de alguns assuntos e nada da grande maioria, por muito que se diga que a modéstia em demasia é defeito. E não devo ser o único, tanto quanto me indicam as sondagens que faço nas conversas, nos contactos, no dia a dia da vida, e que são muitíssimo mais fiáveis do que as que foram efectuadas sobre os resultados eleitorais.

Apesar disso, vou tendo opinião e procurando manter-me informado, embora as notícias sejam feitas, na sua grande maioria, pela opinião de alguém com quem o repórter, apressadamente, estabelece uma conversação pouco mais que fortuita. 

- Então, a vacina fez muito doer no bracinho?

- Foi decisão dos papás ou tiveste opinião?

- Está à espera há muito tempo?

- E é tudo, por aqui, voltaremos daqui a pouco com mais pormenores.

Uma das notícias importantes de hoje é sobre a existência de muitos milhares de portugueses sem médico de família, situação que se agravará até ao final do ano em consequência da passagem à reforma de cerca de 1.000 médicos dessa especialidade. O tema, presumo, é caro a toda a gente, a começar por mim, tendo sempre presente que a saúde é um bem essencial, que deve ser cuidada e estimada. Não faço a mais pequena ideia de quantos doentes estão afectos a cada médico de família, mas julgo que não seria despiciendo fazer uma investigação jornalística ou, quem sabe, um estudo científico, sobre o trabalho que estes doentes dão, a periodicidade com que se deslocam ao Centro de Saúde, as razões que os levam lá. Seria uma forma de saltarem as necessidades prementes e de avaliar o sacrifício de muitos e o bem estar de alguns.

Talvez houvesse surpresas, quer nos ficheiros considerados activos quer na utilização dos serviços, pelos doentes recenseados. Porém, tudo isto não passa de considerações de um "achista" empedernido, que não tem nada de relevante para fazer, e cujas, elas, as considerações, não têm o mínimo de interesse ou qualquer relevância.

O importante é que Portugal se sagrou bi-campeão europeu de futsal e eu vibrei com o desenrolar do jogo e, mais ainda, com o resultado final: Portugal - 4 / Rússia - 2, ou como estava bem explícito no cartaz de um adepto presente no pavilhão Bagaço > Vodka. Elucidativo ...

domingo, 6 de fevereiro de 2022

Teatro

Paralelamente às desgraças que por aí andam, as notícias de hoje trouxeram a boa nova segundo a qual o TEATRO, a partir do próximo ano lectivo, passará a integrar o ensino articulado, a par com a Música e com a Dança, o que registo com enorme agrado. Tenho sempre presente a minha insignificante ajuda para que o ensino articulado da Dança pudesse ter lugar nesta cidade. E já lá vão muitos anos.

É mais um passo na democratização do ensino e na possibilidade de a Escola ser o elevador social que se pretende e anseia há muito, muito tempo.

Mesmo com a consciência de que não basta decretar para que aconteça, o passo está dado e o caminho aberto. E isso trará muita gente disponível para aprender e muita outra para ensinar, transmitir, cativar e criar condições para que o acesso à cultura e o seu estudo façam aparecer gente mais civilizada, mais respeitadora dos outros, mais inteligente e mais compreensiva.

E uma porta se vai abrir às novas gerações e estas irão garantir, tenho a certeza, um futuro mais culto, mais responsável, mais solidário, digo eu, que sou "achista" sem conserto.

sábado, 5 de fevereiro de 2022

Netos

Iniciei o dia a espreitar um pequeno vídeo, sobre o meu neto caçula, que me deixou extasiado e feliz, muito feliz. 

O meu Miguel completa hoje seis anos e é um doce. Dotado de uma personalidade forte (teimoso é o avô e não creio que haja genes herdados), lê com desenvoltura, fala com nexo, tem curiosidade a rodos.

- Porque me pegas sempre ao colo?

- Já estás muito grande mas, por enquanto, ainda consigo. Assim, posso dar-te um abracinho mais forte ...

O aperto acentua-se ainda mais e a satisfação, de ambos, é visível e muito bem compreendida pelos dois.

Aqueles olhos dizem tudo!

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Calçada

Anafado, barriga proeminente, poucos cabelos e todos brancos, arrasta uma das pernas com muita dificuldade, auxiliado pela muleta que apoia no braço direito. À vista desarmada, (que raio de expressão, como se fosse possível usar canhões em vez de óculos ou lentes de contacto) parece ter sofrido uma intervenção cirúrgica - operação era antigamente - na anca, tal é a patente cautela com que se desloca.

Os olhos vão atentos a tudo o que lhe possa provocar algum desequilíbrio. A calçada é traiçoeira e deixa pedras acima do nível, arranjando forma de o mais incauto tropeçar sem dar por isso. É a maneira de se vingar por estar por ali apertada e ter levado umas valentes marteladas antes de lhe darem o poiso definitivo. Não vê mais nada à sua volta e, mesmo na passadeira, as cautelas com o trânsito não diminuem as que tem com o solo. Cautela e caldos de galinha ...

Parece ter um destino concreto, não anda à deriva, tem objectivo na caminhada. Nota-se à légua (outra expressão já sem sentido algum: quem é que, agora, consegue ter cinco quilómetros de horizonte silencioso?). Chegou ao destino. Entrou na loja, talvez vá comprar peúgas, ou meias, ou camisolas interiores, de alças ou mangas, talvez de mangas, brancas, de certeza. Está frio e a idade não convive bem com ele.

Quentinho, talvez a anca melhore depressa e ainda volte a correr. Quem sabe!?

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Misturas

A política e o futebol têm muita coisa em comum ou, como dizia o outro, às vezes até parecem farinha do mesmo saco.

Os resultados obtidos quer num quer noutra são tão escrupulosamente escalpelizados, analisados e comentados que chega a parecer que habitam um mundo do Além, só acessível a uns poucos iluminados, donos de toda a sapiência, que nunca é partilhada, muito menos ensinada a todos aqueles a quem se convencionou chamar de cidadão comum e que integram a, agora na moda, sociedade civil.

A conclusão, brilhante, é que a culpa nunca é nossa e, apesar de termos jogado mal, não merecíamos que aquilo nos sucedesse. Fizemos uma análise clara e segura da situação, estudámos tudo muito bem, planeámos ainda melhor mas ... com aquele árbitro era impossível ganhar. E tudo estava preparado com antecedência e com todo o requinte ... de malvadez. Somos umas vítimas ...

Não nos cansamos de repetir, para que todos saibam, que a culpa não foi nossa e que vamos lutar contra tudo e contra todos, que a nossa vontade é indómita e nada nem ninguém nos deterá. Os árbitros, todos eles, que se cuidem ...

Vamos levantar a cabeça!

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Palavras bonitas (ilustradas)

Barril de Alva, 28 de Setembro de 1942

SAUDAÇÃO

Não sei se comes peixes, se não comes,
Irmão poeta Guarda- Rios:
Sei que tens céu nas asas e consomes
A força delas a guardar os rios.

É que os rios são água em mocidade
Que quer correr o mundo e conhecer;
E é preciso guardar-lhe a tenra idade,
Que a não venham beber ...

Ave com penas de quem guarda um sonho
Líquido, fresco, doce:
No meu livro te ponho,
E eu no teu rio fosse ...

Diário II
Miguel Torga
Coimbra (1977)

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Verão

O ano ainda ontem começou e já estamos no segundo mês. Dantes dava-se corda aos relógios e o tempo corria, sim, mas muito mais devagar. Toda a gente se lembra o quão difícil era chegar aos dezoito anos, para se ser emancipado, que a maioridade, essa, só se atingia aos vinte e um. 

Agora, ainda nem o Inverno, real, não o do calendário, chegou e o Carnaval já se perfila a grande velocidade. Sem folias, está bem de ver. O "bicho" nem precisa de corda, tem pilhas mais do que suficientes para aguentar tudo, manter-se à tona e a distribuir infecções por todo o lado. Nem o Primeiro-Ministro escapou. É mesmo mauzinho, o raio do vírus. Nem deixou o homem celebrar a vitória, tal como impediu a Inês, líder do PAN, de saborear a derrota. Não vai ser este ano que voltam os gigantones, as matrafonas e os corsos famosos, perdendo-se, uma vez mais, a alegria e a diversão dos folgazões e as críticas que, melhor ou pior, são características nestes festejos.

Esta vertigem da vida, que nos encaminha para a meta a uma velocidade estonteante, aliada ao sol radioso que se mostra sem qualquer pudor numa época em que devia estar bem recolhido, dando lugar às nuvens negras e à chuva que bem necessária é, tem um lado positivo compensador, que não é de somenos e deve ser valorizado: o Verão está aí à beirinha e o mar abandonará a violência com que, nesta altura, bate na desgraçada da rocha, violência à qual nem o mexilhão escapa, coitado. E, quando ele chegar, o mexilhão vai deliciar-se com a sua meiguice, o caminho para a Foz passa a actividade diária e o mergulho nas ondas refresca a cabeça, mantendo-a fresquinha, como convém.

Estamos quase lá. Falta só um bocadinho de nada!

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Eleições

"Vitória, vitória, acabou-se a história!"

Quem apostou que iria haver um novo governo a meio da legislatura, perdeu. E perdeu bem! 

Numa altura em que todo o país (e o mundo) ainda anda a braços com o malfadado vírus, que tem atazanado a vida a todos e criado problemas que trarão repercussões enormes no futuro, prevaleceu a ideia de que derrubar o governo era criar mais uma pandemia a juntar à outra. E por isso ...

Os portugueses que votaram, bem mais do que nas eleições anteriores, deram uma trepa naqueles que não tiveram calma e correram sem nexo. Não há bela sem senão e, na nova assembleia, sentar-se-ão doze "caramelos" que  lá não pertencem, mas que se há-de fazer ... são os custos do sistema. Não sendo perfeito, é o melhor que se pode arranjar e, confirmou-se uma vez mais, permite punir e premiar, desde que as pessoas se interessem e se dêem ao trabalho de colocar a cruz no sítio certo.

Desta vez, a legislatura deverá durar os quatro anos previstos na lei e depois ... se verá!