terça-feira, 5 de julho de 2022

Palavras bonitas

Para o meu neto Gil, que hoje completa 16 anos e, do alto do seu metro e oitenta e cinco me olha sempre com um sorriso desconcertante e um afecto enorme, que eu procuro e, se calhar, nem sempre consigo, retribuir com todo o carinho.

É o meu neto GRANDE, que se equilibra em sapatilhas 45 e se alimenta de forma a repôr o esforço diário que os muitos quilómetros natatórios lhe consomem. Apesar disso, ainda consegue arranjar tempo para ler, muito, e ser um excelente aluno.

Parabéns, meu NETO!

FÁBULA DA FÁBULA

Era uma vez
Uma fábula famosa,
Alimentícia
E moralisadora,
Que, em verso e em prosa,
Toda a gente
Inteligente,
Prudente e sabedora
Repetia
Aos filhos,
Aos netos
E aos bisnetos.
À base duns insectos,
De que não vale a pena fixar o nome,
A fábula garantia
Que quem cantava
Morria
De fome.

E realmente ...
Simplesmente, 
Enquanto a fábula contava,
Um demónio secreto segredava
Ao ouvido secreto
De cada criatura
Que quem não cantava
Morria de fartura.
Diário VIII
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1959)

segunda-feira, 4 de julho de 2022

Hipocrisia (?)

Há mais de quatro meses, mais concretamente a 24 de Fevereiro de 2022, a Rússia invadiu a Ucrânia, dando início a uma guerra que, como todas, é estúpida, sem qualquer sentido ou justificação, por muito que nos queiram fazer entrar pelos olhos as razões que, sem dúvida, a razão desconhece.

Apesar de, tanto quanto nos fazem crer as notícias, as batalhas continuarem cada vez mais cruéis e arrasadoras para soldados, populações e bens, e não parecer que a guerra esteja perto do fim, começam a ouvir-se discursos, a saber-se de reuniões, a ter-se conhecimento de diligências para a reconstrução da Ucrânia, com referências explícitas a muitos milhares de milhões de euros ou dólares que irão ser necessários. E, quase de certeza, já se perfilam muitos algozes com os bolsos preparados, sob a batuta do sacrifício que isso lhes vai exigir, para tomarem a primeira fila das tarefas a executar e receberem, claro, o que lhes é devido. A miséria que por lá vai grassando é apenas um pequeno pormenor, do qual ninguém é culpado.

O Papa vai dizendo que está disponível para entrar na mediação, necessitando apenas que lhe abram uma pequena nesga da porta, através da qual possa dialogar para tentar pôr fim à barbárie. Já deve ter percebido que, por mais que reze, Deus não consegue calar as armas e os interesses.

A reconstrução, vista daqui da pontinha da Europa, será imprescindível e urgente, mas só possível se e quando as armas se calarem de vez. 

domingo, 3 de julho de 2022

Partilha

Uma grande música, quase da minha idade, eternizada por Édith Piaf e aqui cantada pela grande Bethânia.

Não me arrependo de nada ... porque nada fiz que me leve ao arrependimento.

sábado, 2 de julho de 2022

Contratempos

Depois de Pedro Nuno Santos ouvir um ralhete de António Costa por "voar" com excesso de velocidade, de o Rio ficar seco e o Monte ...negro, também ao Presidente da República, que ontem partiu para o Brasil numa viagem de três dias, lhe calhou uma "fava".

O programa brasileiro devia ser do tipo "tudo incluído" mas, à última da hora, o ocupante da cadeira presidencial do Brasil deu o dito por não dito e cancelou o almoço aprazado para segunda-feira, em Brasília. Esta decisão, inesperada, irá causar algum transtorno ao nosso Presidente, apesar de ele não ser um homem de grandes comezainas. Talvez por isso, atribuiu pouca importância à indelicadeza e lavou-a com um banho nas praias de Copacabana, durante 20 minutos, segundo o que o próprio deu conta aos jornalistas.

Pelo que se sabe, o "caramelo" que se senta na cadeira brasileira amuou e dispensou a boa companhia que Marcelo decerto lhe proporcionaria, mesmo considerando a dificuldade que iria ter em entendê-lo,  por ele se exprimir como se tivesse sempre a boca cheia de favas. 

A "agência de viagens" não pediu autorização ao "bicho" para as outras refeições e ele deveria pretender exclusividade nas mesmas, para mostrar como cozinha bem e fazer publicidade aos seus dotes culinários, de certeza tão bons ou melhores do que aqueles que exibe na função que exerce. 

Marcelo lá terá de se contentar com uma "sandocha" e esperar que a refeição da TAP seja melhorada no regresso.

sexta-feira, 1 de julho de 2022

Livros (lidos ou em vias disso)

Um rinoceronte vindo lá dos confins do mundo para a casa das feras de D. Manuel I, um professor castelhano que estuda a obra de Fernando Pessoa e até com ele fala quando deambula pelos lugares "pessoanos" de Lisboa, e mais um excelente livro do Clube Tinta da China.

**************************

"(...) olhe para esta gente que está aqui à frente à espera de vez para tirar uma fotografia comigo, estes homens e estas mulheres, estas raparigas e estes rapazes que se aproximam de mim, que se põem aqui ao meu lado, sentados ou de cócoras, esperam que o fotógrafo dispare e depois regressam às suas vidas, satisfeitos por se terem imortalizado com o que julgam ser um dos marcos imprescindíveis da cidade, da nação; é evidente que nenhum deles, vamos ser optimistas e dizer que só alguns, sabem verdadeiramente quem sou, e é possível que nem uma das pessoas que desfilaram por aqui ao longo do dia seja capaz de repetir de cor um único dos meus versos, nem sequer os mais fáceis, os primeiros que escrevi, aquela famosa quadra através da qual comuniquei à minha mãe que me mudaria com ela para a África do Sul. Não acha que tenho razão? Acho, acho, respondeu Espinosa depois de acabar de um gole o café, morno pelo tempo de repouso e pela temperatura, ainda quente, mas já um pouco fresca, da rua. Ora bem, continuou Pessoa, estarei eu realmente em condições de pedir a esta gente que me leia? Estarei eu em posição de lhes exigir que conheçam os meus poemas, quando estão a viver um período tão hostil, tão inclemente, tão ímpio, tão propenso ao desacato e à traição em detrimento das artes? Que pensa, querido Espinosa? Os tempos nunca foram fáceis, dom Fernando, respondeu Espinosa, tentando ultrapassar o tímido pessimismo no qual ameaçavam mergulhá-lo as palavras do seu incomensurável contertúlio, , não foram para si, nem foram para nenhum dos grandes génios da literatura universal, a História é sempre convulsa e sempre acontece, não podemos livrar-nos dela. E no entanto escrevemos, interrompeu-o Pessoa, escrevemos como se não houvesse nada mais importante do que encher os nossos papéis, como se nesse empenho em que deixamos a vida residisse o segredo da salvação do mundo, mas no fundo sabemos que não é assim, que nunca é assim, (...)"

O rinoceronte e o poeta
Miguel Barrero

quinta-feira, 30 de junho de 2022

Aeroporto

Por mais que o vento fustigue e trame as boas manhãs de praia, há sempre algo que acontece e anima o dia.

Foi ontem anunciado, pelo Ministro Pedro Nuno Santos, com pompa e circunstância, que, afinal, quase meio século depois, havia sido decidido que não íamos ter apenas um novo aeroporto mas sim dois, um no Montijo e outro em Alcochete, ambos com vista para o estuário do Tejo, que é lindo em qualquer época do ano e, por si só, atrai muitos milhares de turistas. 

Hoje, o Ministro teve de voltar à ribalta para se penitenciar, por ordem de António Costa, que um erro de comunicação o fez divulgar a decisão, sem a comunicar previamente ao Primeiro-Ministro e ao Presidente da República e, pasme-se, sem ter obtido o beneplácito do líder do principal partido da oposição, que ainda não o é mas vai ser no próximo fim de semana, acrescente-se com o rigor que estes assuntos requerem.

São "malhas que o império tece" mas o sapo não deve ter sido nada fácil de engolir e muito menos de digerir, lá isso não.

Acalmada a ventania, surgirá a decisão e será aplaudida por vir muito atrasada, tal como muitos aviões, e ser indispensável para o progresso do país.

E, c'os diabos, mais uma semana, um mês, ou anos, não tem relevância nem importância. Quem esperou 50 anos ...

quarta-feira, 29 de junho de 2022

Tropeção (?)

O Presidente da República, do alto da sua função e inegável sabedoria, verbalizou a sua opinião sobre a igualdade entre homens e mulheres assim: 

"(...) Só haverá igualdade entre homens e mulheres quando chegar aos mais altos postos uma mulher tão incompetente como chega, em vários casos, em inúmeros casos, aos mais altos postos, um homem.(...)"

Fiquei surpreendido com um achado tão eloquente. Pensava eu, pelos vistos mal, que chegar à igualdade entre as pessoas não teria a ver com o sexo das mesmas e sim com a competência e a abertura nos acessos. Pelos vistos, torna-se imperioso nomear mulheres incompetentes para, com isso, atingir a igualdade de oportunidades.

Quero acreditar que foi o cansaço ou a pressa que determinaram, salvo melhor opinião, a ousadia da afirmação presidencial. 

A preocupação, julgo eu, deve ser conseguir as nomeações pela competência e, se assim for, não se colocará o problema do sexo. Mas eu sou lírico ...

terça-feira, 28 de junho de 2022

Ilegalidades

Era a época de Natal.

Naquele dia, o tableau de bord determinava que se fizesse a entrega da agenda do ano seguinte e também de uma umbrela com a indispensável publicidade, a alguns dos melhores clientes do banco. Era uma tarefa anual, desempenhada sempre com algum recato e outro tanto de pressa, o primeiro para que não houvesse ciumeira, a segunda por serem horas roubadas ao trabalho normal, que não era pouco e se ressentia, obrigando aos habituais prolongamentos, muito para além da hora legal de encerramento. Sem horas extraordinárias, acrescente-se. Eram contempladas no subsídio de isenção e nunca seriam para ali chamadas, embora o que era recebido estivesse longe de remunerar o trabalho a mais.

O dono do restaurante era um dos eleitos, não só pelos seus predicados na conta pessoal, como também pela rentabilidade que era oriunda da actividade da comezaina. Foi dos últimos a ser visitado naquela manhã, por não ser madrugador e ser difícil encontrá-lo antes das onze.

O estabelecimento, no centro da cidade, não tinha estacionamento reservado e situava-se numa rua onde não era fácil encontrar um lugar. A visita seria "de médico" e, por isso, o carro foi deixado frente ao portão do prédio contíguo, de onde nunca tinha calhado ver sair uma viatura. Ao voltar, um engravatado como eu mas mais velho e mais alto, estava encostado à viatura. Percebi a bronca de imediato.

- Desculpe. Foi só um instante. Nem demorei dois minutos ...

- Não viu a placa? Posso mandá-lo prender.

- ???

- Sou juiz, moro aqui e até nem preciso de sair, mas não admito que violem a lei na minha casa. 

Não mereceu resposta. Virei-lhe as costas, meti-me no carro, dei à chave e lá fui, de regresso ao trabalho que me esperava e não devia ser pouco. Já lá vão muitos anos e, até hoje, não recebi qualquer mandado de detenção pela violação da lei do senhor juiz, mas nunca se sabe. A justiça demora tanto ...

O resto das entregas ficaria para o dia seguinte, sem estacionamento indevido, para não correr o risco de ser mandado prender por um qualquer julgador cioso dos seus direitos.

segunda-feira, 27 de junho de 2022

Livros (lidos ou em vias disso)

Um livro que retrata a vida no Alentejo dos anos trinta do século passado, por alturas da guerra civil espanhola, com acentuação clara das diferenças entre quem manda e quem obedece, fundamentos válidos para todas as classes.
*************************
"(...) Então ela tivera outra ideia melhor: sugerira-lhe que não casasse então dois corpos, mas duas almas. Que casasse as almas de Catarina e de seu companheiro durante trinta e quatro anos. Dessa vez, o padre hesitou em responder-lhe e foi estudar o assunto.

- Não o poderei fazer - afirmou depois de alguns dias em reflexão -, porque na verdade não sei se ambos estão de acordo.

 - A minha mãe diz-me que o meu pai também está a sofrer porque a considera a sua verdadeira mulher - rebateu Maria Barnabé. - Se isto não é uma prova ...

 - Nem no direito civil, minha filha, nem no canónico, uma confissão de um morto tem validade - explicou o padre, pausadamente, para que ela o entendesse.

- Não percebo nada do que diz, senhor padre - admitiu ela.

- O que quero dizer é que seríamos os dois presos se levasse essa loucura por diante - finalizou ele.

Não houve, depois disso, uma única vez que Maria Barnabé tenha ido à aldeia vender os seus produtos da horta que não fosse sensibilizar o padre para a necessidade daquele casamento. Numa delas, propôs-lhe que os casasse como dois namorados de um namoro contrariado pelas famílias: o padre negou-lho, porque era um homem de valores morais conservadores. De outra, foi dizer-lhe que os casasse sem ninguém por perto, mantendo-se o segredo do enlace, mas nem assim o convenceu, pois aquele alegou que precisaria de testemunhas para essa realização e aí se perderia todo o sigilo que os protegeria daquele sacrilégio. (...)"

Velhos Lobos
Carlos Campaniço
Casa das Letras (2022)

domingo, 26 de junho de 2022

Evolução

O frigorífico está a ficar cansado e a clamar pela reforma. Deixar de existir na actividade diária é uma situação não compatível com a vida tal qual ela é hoje. Por isso, a decisão de o descartar não é difícil de tomar nem exige grande ponderação, apenas precisa de disponibilidade. O destino estava marcado desde o dia em que o técnico que veio para a máquina de lavar louça o espreitou, a pedido, e determinou:

- Já deu o que tinha a dar. Na próxima apitadela, tem de abrir os cordões à bolsa.

Enganou-se. Já não é preciso abrir os cordões à bolsa, já não se usa bolsa e cordões, muito menos. 

A loja está aberta aos domingos, tem meia dúzia de electrodomésticos a ocupar lugar e disponíveis para mirar, e uma quantidade enorme no grande armazém virtual da actualidade. A menina que atendeu foi simpática, conhecedora e despachada. Escolhido o modelo, identificado o cliente, o cartão executou a tarefa que lhe compete, e a mercadoria será entregue na próxima terça-feira.

- Ligamos 30 minutos antes da hora de entrega. Muito obrigada e boa tarde.

Tudo fácil. Podia, até, ter sido feito sem sair de casa. 

Tal qual como há cinquenta anos ...