sábado, 20 de agosto de 2022

Contrastes

Uma manhã de sonho, admitindo-se como verdade que se pode sonhar com o passado, estando bem acordado e com uma realidade visível e sentida.

Já se sabia (o saber da experiência feito) que a semana de mar calmo, céu azul e vento ausente servia apenas de engodo, e que viriam dias, muitos, para se sonhar, e recordar, essa dádiva tão fugaz.

Ontem o vento não deu sossego, o mar só deixou entrar na "aberta", mas o sol ainda nos veio visitar. Hoje até o astro-rei faltou. Céu cinzento, mar revolto, nem a camisola saiu do tronco. O "tapume" ainda foi colocado, a bola de Berlim comprada, umas dúzias de páginas lidas.

- Pode ser que abra ...

Um outro teimoso aproveitou para falar sobre a sua desdita, demonstrando que o trabalho pode, se não nos acautelamos, ser um modo quase de morte e não um modo de vida. 

- É preciso ter calma. Tudo se vai resolver ...

A palmadinha nas costas que soluciona todos os problemas, quando estes acontecem aos outros ...

- E, com isto tudo, já é meio dia e vinte e do sol, nem sombra!

Teimosos, amanhã voltarão. Há sempre a esperança de que o calor que grassa no país experimente vir até à Foz e dê tréguas aos fogos que o fustigam de lés a lés.

sexta-feira, 19 de agosto de 2022

Recordações

Numa época em que os animais, e muito bem, são acarinhados e há muita gente a envidar esforços para que sejam respeitados, a memória fez "ressuscitar" um conjunto de quadras que constavam de um dos livros da instrução primária, talvez o da 4ª. classe. 

A "enciclopédia Net" esclareceu que o seu autor foi Pedro Diniz (1839?-1896) e que Antero de Quental o recolheu no seu Tesouro Poético da Infância, livro que não consta da biblioteca caseira mas que ainda é possível encontrar à venda.

E, em rima, se confirma e esclarece que o corvo crocita, a raposa regouga e alguns burros, não todos, zurram

                    VOZES DOS ANIMAIS

Palram pega e papagaio                                        O pardal, daninho aos campos,
E cacareja a galinha;                                             Não aprendeu a cantar;
Os ternos pombos arrulham,                               Como os ratos e as doninhas,
Geme a rola inocentinha.                                      Apenas sabe chiar.

Muge a vaca, berra o touro;                                 O negro corvo crocita;
Grasna a rã, ruge o leão;                                      Zune o mosquito enfadonho;
O gato mia, uiva o lobo,                                       A serpente no deserto
Também uiva e ladra o cão.                                 Solta assobio medonho.

Relincha o nobre cavalo;                                      Chia a lebre; grasna o pato;
Os elefantes dão urros;                                         Ouvem-se os porcos grunhir;
A tímida ovelha bale;                                            Libando o suco das flores,
Zurrar é próprio dos burros.                                Costuma a abelha zumbir.

Regouga a sagaz raposa                                       Bramam os tigres, as onças;
(Bichinho muito matreiro);                                   Pia, pia o pintainho;
Nos ramos cantam as aves,                                  Cucurica e canta o galo;
Mas pia o mocho agoureiro.                                 Late e gane o cachorrinho.

Sabem as aves ligeiras                                          A vitelinha dá berros;
O canto seu variar;                                               O cordeirinho balidos
Fazem às vezes gorjeios,                                     O macaquinho dá guinchos;
Às vezes põem-se a chilrar.                                A criancinha, vagidos.

                                                A fala foi dada ao homem,
                                                Rei dos outros animais.
                                                Nos versos lidos acima,
                                                Se encontram, em pobre rima,
                                                As vozes dos principais.

quinta-feira, 18 de agosto de 2022

Sapiência

Dragomir Knapic, um refugiado da então Jugoslávia a leccionar em Portugal, ensinou-me, há mais de meio século que "quanto mais sei, maior é a minha ignorância". E este  pensamento acompanha-me desde então e mantêm-se sempre actual.

Hoje, ao continuar a Mocidade Portuguesa, de Jorge Calado, obra já aqui referida e cuja leitura se encontra quase, quase no fim, retive uma citação de uma peça de teatro escrita por William Shakespeare no final do século XVI ou no princípio do XVII, que não conhecia. A peça chama-se "Como lhe aprouver", tem uma personagem com o meu nome próprio, razão mais do que suficiente para figurar por aqui e tem esta frase deliciosa:

"Um tonto pensa que é sábio, e um sábio sabe que é tonto"

Está tudo dito!

quarta-feira, 17 de agosto de 2022

Carreira ... de tiro

Terminou o folhetim Sérgio Figueiredo. O consultor indigitado acabou por não assinar o contrato, por se considerar vítima de "assassinato de carácter" movido pelos jornalistas, seus colegas de profissão, e pelos assíduos e verrinosos comentadores das redes ditas sociais. 

"Não basta à mulher de César ser séria, é preciso parecê-lo" e, convenhamos, este até podia ter sido um processo de nomeação sério, resultante da necessidade e do mérito do candidato para a função, mas não pareceu nada.

Fernando Medina lá terá de procurar uma nova pessoa para desempenhar as funções de consultor para políticas públicas, tarefa que deve ter tanto de essencial para o futuro do país como de dificuldade em conseguir encontrar quem a possa exercer com a sapiência exigida.

A função de Ministro devia ser exercida apenas após o candidato demonstrar ter cumprido o serviço militar ou, em alternativa, ter frequentado, com aproveitamento comprovado, um workshop onde tivessem sido ministrados os conceitos básicos do tiro, para se ter a certeza de que, quem exerce funções de tão alta responsabilidade, sabe que os pés não podem ser atingidos de forma tão primária.

terça-feira, 16 de agosto de 2022

Escutas

Da farmácia saiu a mais velha e mais adiposa. Aparenta ser quarentona e muito atenta a tudo o que a rodeia. Os seus olhos perpassam pela paisagem e alcançam a outra num relance, ainda que houvesse quinze ou vinte metros a separá-las. Esta caminhava com alguma pressa, parecia mais nova e um pouco desengonçada, com os cabelos louros com raiz castanha a esvoaçarem.

- Que surpresa! Ainda bem que vim à farmácia ...

Depois da efusiva troca de beijos, a necessidade de pôr a conversa em dia fez-se sentir e surgiram as perguntas da praxe, desde " o que tens feito", até ao "como estão vocês", passando pelo "com saúde, isso é qu'interessa".

Os decibéis são elevados e mesmo dentro do carro ouve-se e entende-se tudo sem qualquer dificuldade.

- 'Tá alguém doente?

Exibe a caixa do medicamento.

- É para o meu gato.

- E vende-se na farmácia?

A atenção redobrou, embora a aproximação e o volume o dispensassem.

- Claro! Até pedi à médica de família que me passasse a receita, mas a p..a respondeu que a lei não deixava.

- Leis do c.....o ...

 - Já viste ... tive de pagar tudo!

O tempo, o corona, a praia, os preços, as férias que ainda não chegaram,

- Hoje 'tou de folga.

- Ta'mem eu!

tudo foi motivo de conversa gritada e a correr, que o tempo urge. O vernáculo sempre presente, para ilustrar a cena e demonstrar a quem ouve que as mulheres também o dominam. Haja igualdade ...

Despediram-se com grande entusiasmo, preconizando um próximo encontro com a presença de todos e uma boa patuscada.

- E uns copos valentes ...

- A gente precisa é disso!

Desapareceram tão depressa que nem tive tempo de aconselhar: talvez seja melhor pedir a receita à médica de família, não vá o vinho ser azedo e fazer mal ao estômago.

segunda-feira, 15 de agosto de 2022

Macacadas

Cada macaco no seu galho, diz-se quando há atropelos de quem não sabe de determinada poda e palpita sobre a forma como o podador deve cortar os ramos. Não faço ideia se, nos outros países haverá ditados que reflictam o mesmo e se também existem "capelinhas" inacessíveis e determinações fortes sobre quem faz o quê, mesmo quando há outros bem mais habilitados. Por cá, concluo, as fronteiras de cada grupinho são intransponíveis e nem com passaporte se podem passar.

Lembrei-me hoje de um episódio de Dezembro de 2020, por alturas da chegada das vacinas para o coronavírus e que, por aqui, foi comentado de forma sarcástica. Via eu com alguma atenção a última etapa da Volta a Portugal em Bicicleta e eis que surge uma situação em tudo semelhante ao que se tinha passado em 2020 e que, julgava eu na minha inocência, deveria ter sido resolvida com a saída do grande Cabrita.

A segurança e a escolta da Volta foi feita pela GNR, como acontece há muitos, muitos anos, desde que esta força substitui a PVT de má memória. Admitia eu que esse serviço era prestado da primeira à última etapa. Afinal não foi assim. Na última etapa, um contra-relógio disputado entre o Porto e Vila Nova de Gaia, as tarefas passaram para a PSP por ser esta a entidade com "direitos" no espaço urbano, embora sem experiência no assunto, como ficou demostrado. 

A inexperiência, a surpresa ou o deslumbramento com a função, cada uma por si ou todas juntas, fizeram com que a moto de um agente estorvasse a prova de um dos corredores, numa etapa que era decisiva e na qual cada um estava apenas entregue a si próprio. Não teve interferência na classificação final, mas podia ter ...

E a pergunta que salta de imediato, na cabeça de quem nada sabe da poda e não é macaco de galho nenhum é:

- Porque carga de água foi a PSP chamada para uma tarefa desempenhada, e bem, pela GNR?

- Caem os parentes na lama se houver outra força a pisar os caminhos do "quintal" da PSP? 

Cada macaco no seu galho ... 

domingo, 14 de agosto de 2022

Mandrião?

Muito afã, pouca vontade, nenhum assunto. Só desculpas ... 

Tudo decorre dentro da normalidade de quem goza férias sem quaisquer preocupações, se delicia no mar, ouve e participa em conversas, de circunstância mas deliciosas. E, mesmo assim, não há rotinas. Os dias são todos semelhantes e, ao mesmo tempo, bem diferentes.

- Há um bocadinho de vento hoje, não achas?

- Que pena não se conseguir passar para a terceira praia!

Muita gente, muitas línguas, muitas caras, gente bonita, alguns nem tanto. Há espaço para todos e hoje nem a zona de banhos estava demarcada. O mar dorme, não se mostra aborrecido, porta-se bem, abre a porta a toda a gente e convida ao disfrute, oferecendo uma temperatura não habitual, a limpidez do costume, o sossego na entrada, na permanência e na saída. Calmaria absoluta!

Uma graçola adequada ao momento:

- Ontem ficaram cá duas pessoas!

- ???

- Perderam o autocarro! 

Mantendo-se esta rotina, finar-se-á o rótulo de terrível que sempre tem sido atribuído ao mar da Foz.

- Não deites foguetes. Parece que a festa acaba amanhã! 

sábado, 13 de agosto de 2022

Livros (lidos ou em vias disso)

Ler foi, é e deverá continuar a ser por muito tempo, espero, um dos meus passatempos favoritos, ao qual dedico diariamente uma boa parte do meu tempo livre com grande prazer. Com frequência sou surpreendido por livros sobre os quais não tinha uma expectativa elevada e, afinal, revelam-se uma enorme e agradável surpresa.

É o caso do que actualmente estou a ler, ou melhor, a devorar, tal é o interesse que me está a despertar.

"(...) A economia doméstica funcionava na base da poupança e da reciclagem. A roupa passava dos mais velhos para os mais novos, por exemplo, do meu irmão para mim. Fatos antigos e gastos do meu pai eram oferecidos aos membros mais necessitados da família, e depois adaptados ao novo corpo. Coisas velhas, avariadas ou partidas não se deitavam fora; antes eram recicladas e/ou remendadas ou passajadas. Lembro-me de ouvir a mantra do <<Guarda o que não presta, acharás o que é preciso>>. Aplicavam-se cotoveleiras às mangas de casacos e camisolas poídas pelo uso, e novos fundilhos aos calções gastos; viravam-se punhos e colarinhos às camisolas coçadas do meu pai; os sapatos levavam tacões, biqueiras, meias-solas ou solas inteiras novas; os tachos e os vasos de barro rachados eram apertados com os <<gatos>> de aço; o latoeiro itinerante substituía os fundos dos tachos metálicos rotos; havia quem soldasse os dentes partidos de garfos, e as facas eram afiadas pelo amola-facas-e-tesouras que todas as semanas fazia a ronda do bairro. O curioso é que ainda encontro muita desta economia de reparação na Nova Iorque actual, emblema do capitalismo. Conheço lojas especializadas só em torneiras ou em aspiradores, com peças e acessórios de modelos quase centenários!

Contava-se então a anedota das poupanças domésticas do ditador Salazar, que em começo de carreira académica ainda usaria talheres quebrados e facas desencabadas. Quando tomou conta do poder e subiu a Presidente do Conselho de Ministros, a governanta, Dona Maria, ter-lhe-ia dito que era tempo de renovar o faqueiro. Ao que Salazar terá respondido: <<Até aqui servi-me dos (talheres) partidos; a partir de agora passo a usar os soldados>>. E assim foi: mandou soldar os talheres em falta, os partidos políticos foram proibidos, e a supressão das liberdades assegurada pela tropa e forças paramilitares. (...)"

Mocidade Portuguesa
Jorge Calado
Imprensa Nacional (2022)

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

Espanto

Continua toda a gente estupefacta e sempre agoirando que os dias bons já são demasiados e irão acabar, sem qualquer dúvida ... amanhã!

Dois dias, três dias, quatro dias e a bandeira do "Sporting" mantém-se inamovível no alto dos três mastros de madeira que se encontram no areal. Até já está a ficar descolorida, situação que só costuma acontecer à do "Benfica" e à do "Estoril", esta a mais habitual ocupante e a que todos os frequentadores bem conhecem e não estranham.

Quando a esmola é muita, o pobre desconfia. O esplendor do sol, a ausência do vento, o mar chão, durante tanto tempo seguidinho, fazem o pobre desconfiar e ouvir os pessimistas: esperem pela pancadaVão chegar dias que nos farão esquecer rapidamente este luxo.

Aproveitar enquanto é tempo. Hoje foi mais uma manhã de sonho, que terminou com a reserva para amanhã, ainda que à condição, não vá o diabo tecê-las. Na Foz, a verdade de hoje pode redundar numa enorme mentira amanhã.

Nota triste: Foi hoje sepultado Fernando Chalana, um dos maiores jogadores de futebol que vi jogar, brilhar e brincar às fintas. Foi cedo demais ...

quinta-feira, 11 de agosto de 2022

Prioridades

Apesar de não haver demonstração científica que o comprove, tudo indica que a capacidade de entendimento diminui na razão directa do aumento da idade. Esta é a conclusão, empírica, de quem circula por aí e aprecia mirar o que se vai passando à sua volta, ainda que com cada vez mais dificuldade em entender.

A rotunda estará a cerca de cem metros e é fácil concluir que algo de anormal por lá se passa: os carros estão parados na faixa da esquerda, a aguardar que o trânsito volte a fluir e permita que a viagem prossiga. Toda a gente percebe que as dez ou doze viaturas estão paradas e são conduzidas por gente a quem a inteligência não bafejou. Estúpidos, não aproveitam a faixa da direita, que se encontra completamente livre e a pedir utilização. Só não vê quem é cego ou burro ...

Surge um, segue-se outro, e outro ainda, acelerando e sorrindo para os papalvos, pouco ou nada dotados e que se mantêm parados. Chegam com a rapidez que a inteligência lhes permite e, afinal, não é possível passar. A faixa está bloqueada por um acidente, situação que a sua inteligência não permitiu perceber, por não entenderem a possibilidade de isso acontecer e menos ainda de uma simples batidela obrigar esta gente estúpida a parar. 

Os seus iluminados cérebros forneceram, de imediato, a solução: liga-se o pisca e, com cuidado não vão estes estúpidos recusar, apertando, entram nos primeiros lugares, circundam o acidente e seguem viagem, por certo dando graças à sua capacidade infinita de arranjarem soluções inteligentes.

Percebi agora, com a lentidão própria de quem é pouco dotado: a prioridade era deles, que se apresentavam pela direita!