sexta-feira, 25 de novembro de 2022

Livros (lidos ou em vias disso)

(...)11 de Agosto

Não há nessa carta nada que não pudesse ser dito na volta, uma vez que ele desce daqui a três dias. Creio que ele cedeu ao desejo de ser lido por mim e de me ler também. Questão de simpatia, questão de arrastamento. Vou responder-lhe com duas linhas ...

... Lá vai a carta; respondi-lhe com trinta e tantas linhas, dizendo-lhe cousas que busquei fazer alegres, e com certeza saíram quase amigas. Concordei que Nova Friburgo era delicioso, e concluí por estas palavras: <<Quando descer venha almoçar comigo; falaremos de lá e de cá.>>

17 de Agosto

Fidélia chegou, Tristão e a madrinha chegaram, tudo chegou: eu mesmo cheguei a mim mesmo - por outras palavras, estou reconciliado com as minhas cãs. Os olhos que pus na viúva Noronha foram de admiração pura, sem a mínima intenção de outra espécie, como nos primeiros dias deste ano. Verdade é que já então citava eu o verso de Sheley, mas uma cousa é citar versos, outra é crer neles. Eu li há pouco um soneto verdadeiramente pio de um rapaz sem religião, mas necessitado de agradar a um tio religioso e abastado. Pois ainda que eu não desse então toda a fé ao poeta inglês, dou-lhe agora, e aqui a dou de novo para mim. A admiração basta.

19 de Agosto

Tristão veio almoçar comigo. A primeira parte do almoço foi a glosa da carta que ele me escreveu. Contou-me que já em criança tinha ido com a madrinha a Nova Friburgo algumas vezes, parece-lhe que três: reconheceu a cidade agora e gostou muito dela. De D. Carmo fala entusiasmado; diz que a afeição, o carinho, a bondade, tudo faz dela uma criatura particular e rara, por ser tudo uma espécie também rara e particular. Referiu-me anedotas antigas, dedicações grandes. Depois confessou que as impressões da nossa terra fazem reviver os seus primeiros tempos, a infância e a adolescência. O fim do almoço foi com o naturalizado e o político. A política parece ser grande necessidade para este moço. Estendeu-se bastante sobre a marcha das cousas públicas em Portugal e na Espanha; confiou-me as suas idéias e ambições de homem de Estado. Não disse formalmente estas três palavras últimas, mas todas as que empregou vinham a dar nelas. Enfim, ainda que pareça algo excessivo, não perde o interesse e fala com graça. (...)

Memorial de Aires
Machado de Assis

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

Mundial 2022

Da esquerda para a direita, aqueles sobre quem recai a responsabilidade de trazer para Portugal o melhor resultado possível.

Em cima: José Sá, André Silva, Ruben Dias, William Carvalho, Cristiano Ronaldo, Rui Patrício, Pepe, Danilo Pereira, António Silva, Rafael Leão e Diogo Costa;

Ao centro: Diogo Dalot, Matheus Nunes, Bruno Pereira, Jorge Rosário, Ilídio Vale, Fernando Santos, João Costa, Ricardo Santos, Gonçalo Ramos e João Palhinha;

Em baixo: Vitinha, Ricardo Horta, João Felix, João Cancelo, Bruno Fernandes, Bernardo Silva, Raphael Guerreiro, João Mário, Ruben Neves, Otávio e Nuno Mendes.



PORTUGAL - 3 / Gana - 2

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

Futebol

O comboio não ia cheio, longe disso. Porém,  a julgar pelo barulho que se ouvia de dentro da carruagem, os poucos passageiros eram suficientemente ruidosos para se julgar que até haveria gente a mais. 

Naquela carruagem não estariam mais de uma vintena de pessoas, distribuída pelos vários bancos, sempre no singular, salvo as que pertenciam à mesma família ou à tentativa de a vir a constituir. Lá ao fundo, no átrio de acesso ou de saída, um grupo, pequeno, discutia, bem animado, os últimos resultados do futebol, a justiça dos mesmos, o falhanço do penalty, o erro do árbitro no off-side. Afinal, o barulho imenso que se ouvia era apenas daquela meia dúzia, todos bem dotados de garganta e de velocidade de argumentação, sempre sobreposta na do parceiro, tornando a conversa uma gritaria que mais ninguém conseguia compreender. A preocupação era gritar mais alto, sempre mais alto, cada vez mais forte. Pouco importavam os argumentos, as expressões, as frases. Os gestos, os esgares, os pontapés no ar e, por vezes, na carruagem, eram a expressão dos afectos pela discussão enriquecedora e interpretativa, num espectáculo para outrem usufruir, obviamente sem qualquer prazer.

O "pica" entrou na carruagem, munido do necessário alicate, irrepreensivelmente fardado e com o seu boné castanho, com emblema, na cabeça, exibindo autoridade  e mostrando à evidência que a CP lhe tinha confiado a manutenção da ordem pública dentro do comboio. Todos lhe teriam de mostrar o bilhetinho, pequenino, adquirido na estação onde haviam entrado e mencionando aquela onde saltariam para fora. Era esse minúsculo papel que lhes garantia o direito de viajar.

Mal o "pica" assomou ao corredor, o barulho lá do fundo cessou como que por milagre. O "jogo" tinha acabado e os participantes preocupavam-se em sair rapidamente do "campo". Não havia saída ...

- São vinte escudos a cada um, para não os entregar à Polícia na próxima estação.

terça-feira, 22 de novembro de 2022

Conversa fiada

A manhã ainda não ia a meio. Apesar da chuva inclemente e da ausência da luz do sol que é lenitivo para a disposição, já havia quatro pessoas no balneário masculino, a despachar-se após umas braçadas  madrugadoras e tonificantes.

Gente nova, com conversas fora da caixa, sem problemas nem constrangimentos com a presença de quem tem idade para ser pai (ou avô?) deles. Enquanto se ensaboam, fechando sempre a água, a conversa vai fluindo, rápida, tipo fixe.

- Não vais a Lisboa hoje?

- Vou, claro. Daqui a bocado, por volta do meio-dia.

Nadar um bocado tinha trazido a tranquilidade que a água do chuveiro, quentinha, ainda reforçava.

- Hoje vou experimentar um transporte novo.

- Não me digas que vais de carro?

- Estás tonto ... nem pensar. Mal sentas o cu no carro e já lá vão trinta euros. Vou num autocarro de uma empresa nova que faz a viagem até à estação do Oriente, sem paragens. Uma hora e cinco. Um instante. Já comprei o bilhete na aplicação. Dois euros e picos, imagina!

- Isso é muito bom. E qual é a empresa?

- Chama-se Flix Bus e são uns autocarros verdes, enormes. Vou experimentar hoje. Vamos ver como corre.

 - Depois dizes. Hoje fico por cá. 'tou em teletrabalho.

A água do chuveiro já tinha tirado o sabão, o meu e o dos jovens conversadores. A conversa continuou enquanto a toalha fez a sua parte e o corpo ia sendo coberto com a roupa necessária para enfrentar o "inimigo" que lá fora continuava a fazer das suas. Rapidamente mudou e o assunto passou a ser o futebol e a falta de tempo para ver os jogos.

- Estou a tentar ver na quinta-feira, mas ainda não tenho a certeza se posso.

O velho meteu o bedelho e foi integrado, sem quaisquer problemas, na conversa.

Apenas teve alguma dificuldade em explicar que tempo para ver a bola é coisa que lhe não falta. É a vida!

segunda-feira, 21 de novembro de 2022

A tempo

Com o inverno instalado e o campeonato do mundo de futebol a começar, estão reunidas as condições para que as saídas sejam curtas e apenas quando estritamente necessárias.

A lareira já funciona, proporcionando uma temperatura que não é sequer comparável à que está lá fora, e, pelo menos por enquanto, a chuva não tem acesso ao interior. Tudo conjugado, há um convite ao borralho, ao sossego, à mandriice, à música, à leitura, tarefas extenuantes e exigentes, que deixam o pobre humano depauperado e contribuem para uma noite de sono sem sobressaltos.

Toda esta actividade faz com que se esfumem os ecos da guerra e da inflação. Não se perde tempo a ouvir a discussão do Orçamento nem se liga peva à capacidade literária do ex-governador do Banco de Portugal, que "pariu" um livro volumoso, com recurso a barriga de aluguer. Feitios ... vale mais tarde que nunca e, pelo interesse e destaque que a obra tem merecido nas parangonas, é "dinheiro em caixa", polémica para durar e entrada na história da literatura de cordel, com todo o respeito pelo género. Há sempre quem queira ficar na História pelo que diz que fez. Se não fez, a culpa não foi sua. Vontade tinha ...

Pensando bem, o livro chega a tempo de ainda assistir ao julgamento de Ricardo Salgado e, quem sabe, pode até servir para esclarecer as dúvidas que têm surgido e para fundamentar a sentença que, um dia, talvez seja proferida.

Tenho cá um palpite que o jornalista autor do livro poderia ter escrito o dobro das páginas, ou mais um volume, se tivesse pedido para consultar as actas da administração do Banco de Portugal da época. Lá deve estar tudo clarinho como água ... ou não.

domingo, 20 de novembro de 2022

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Abençoada seja, pois, a juventude com sua beleza, sua inocência e sua roupa escassa, seus braços à mostra e suas pernas despidas, sem frio e sem calor, sem queixume e sem dor nenhuma. Depois daqueles cinco rapazes e três raparigas, a nova equipa foi ainda reforçada com a chegada de uma Margarida e uma Duriel, e a tunisina Maha, e todos em conjunto produzem alguma coisa de tal modo preciosa, que tudo mudou no Hotel Paraíso. Falo com as minhas três companheiras de mesa e elas sentem isso mesmo, que as paredes parecem mais lavadas, e no entanto sempre alguém as lavou com o mesmo Fabuloso Aroma do Bosque. E também o chão e as portas brilham com mais intensidade, mas toda a gente sabe que o motivo desta mudança reside no sorriso destas grandes crianças, mulheres e homens, que aqui chegaram e a quem apetece chamar netos e netas, filhos e filhas. Trazem o futuro com eles, e assim, à nossa volta, tudo recomeça, nada termina. Nada termina, diz a juventude. Um passarinho azul canta em cima da cabeça de cada um deles. Trinados. Alegria. Abençoados sejam estes jovens por nos trazerem consolação. Eu esperava por este momento, e ele chegou a tempo. Arrependo-me das minhas horas mesquinhas em que me deixei arrastar pela tristeza. Não tenho motivos. A alegria de ter estes jovens a passear pelos corredores desta casa deu-me uma força que eu julgava já não possuir, de tal modo que ontem consegui caminhar por mim só, entre a cama e a cómoda.

Agarrada ao tampo, fiquei durante uns instantes diante do espelho, em pé, e para espanto meu, vi o desenho da minha alma reproduzido nele. Já não são os meus traços nem os meus cabelos, mas é o meu carácter, alguma coisa que se desenha entre a risca dos lábios e o arco onde antes os olhos brilhavam. De azul. Disse para a minha imagem - Olá, ainda aí estás, Alberti? E apesar de me achar feia, ainda gostei de mim. Congratulei-me por existir. E mantive esse sentimento, quando ontem nos levaram até ao jardim na parte que olha para a barra do mar. Por cima do Hotel Paraíso, nuvens brancas como se fosse Agosto, nem um rasto de água. (...)"

Misericórdia
Lídia Jorge
D. Quixote (2022)

sábado, 19 de novembro de 2022

Acentos

Entrou na agência com ar de quem não se sente à vontade, apesar do corpanzil, enorme, de que era dono. O nervosismo era evidente e chamou logo os holofotes da atenção de quem tinha obrigação de a prestar ao que se passava.

- Bom dia. Faça favor ...

- Abrir conta ... patrão mandou.

Foi-lhe indicado caminho para a secretária. Sentado, ficou mais tranquilo e, apesar de não dominar bem a língua, falou sempre em português e conseguiu fazer-se entender.

- Ucrânia. Estou Portugal dois anos. Patrão novo, mandou abrir conta, receber ordenado.

- Tem o passaporte e o cartão de contribuinte?

- Sim, claro.

Abriu a carteira, retirou os dois documentos e disse:

- Não ri ...

Não percebi. Julguei que tinha utilizado o verbo rir por engano. O atendimento tinha sido normal, sem excessos, sem qualquer motivo para risos. Adiante ...

Abri o passaporte. A foto correspondia e, logo abaixo, lá estavam o nome e o apelido, em ucraniano e em inglês. Os olhos, que não pescavam nada do ucraniano, saltaram de imediato para o inglês.

- Surname: Camara

- Name: Fode 

Registo feito, o banco ganhou mais um cliente, que se portou sempre bem enquanto por lá andei.

Eu, apesar de muitas vezes conversar com o homem, nunca consegui compreender a razão pela qual a falta de um acento circunflexo no apelido me haveria de provocar risota.  

sexta-feira, 18 de novembro de 2022

A guerra e a informação

Por aqui já foi referido várias vezes que sou leitor do Expresso desde 1973, sem que Francisco Balsemão saiba ou com isso se preocupe. Concordando ou discordando, com altos e baixos, vou cumprindo, com gosto, o ritual de o comprar, agora à sexta-feira. O sentimento que a coluna de Miguel Sousa Tavares me causa é similar ao que acontece com o jornal no seu todo: às vezes concordo, outras nem tanto, outras ainda, menos, discordo em absoluto.

Esta semana, Miguel Sousa Tavares explana a sua opinião sobre a guerra e, no final da crónica, ainda dá uma boa "bicada" no Mundial do Catar. Porque tudo é efémero e daqui a algum tempo, quando a guerra acabar - como espero e desejo eu - haverá muita gente a dizer que previu tudo, ficam por aqui uns excertos de um texto bem escrito, como sempre, e com opinião fora da caixa monolítica onde parece que uma grande parte dos opinadores caíram.

"(...) Que este estranho incidente tenha ocorrido quando os grandes do mundo estavam reunidos do outro lado do planeta e numa altura em que, em surdina ou a meia voz, se começou a ouvir falar da necessidade de encontrar um caminho para desbloquear a guerra na Ucrânia foi, decerto, uma coincidência, e não mais do que isso. Mas o que não é coincidência é a "precipitação" de Zelensky e de Stoltenberg: nenhum deles está interessado na paz e sentiram o perigo que os últimos desenvolvimentos internacionais trazem aos seus objectivos. (...)

Não há nenhuma contestação séria sobre quem foi o responsável último por esta guerra, sobre quem invadiu quem: foi a Rússia, de Putin. Diferente é a discussão sobre as razões que conduziram a tal, onde coexistem diversas versões e opiniões, e a discussão sobre o que foi ou não foi feito pelos poderes ocidentais para evitar a guerra: em minha opinião, nada. Mas, independentemente disso, repito o que já aqui escrevi: não me lembro de alguma vez ter assistido a um grande acontecimento internacional coberto com tamanha unilateralidade e falta de isenção jornalística e opinativa por parte da chamada "imprensa livre". Nunca vi tamanha promiscuidade entre propaganda e informação, tamanha falta de contraditório, de verificação de fontes, de "fact checking", de ir para além das aparências e do pronto a consumir, de procurar o que está escondido, de fazer as perguntas difíceis, de questionar a verdade oficial. (...)

E esta é a altura certa para tentar desbloquear uma guerra cuja continuidade sem fim à vista só interessa aos poucos que estão a ganhar milhões com ela à custa dos milhões que estão a ser sacrificados por ela. Até porque um dia é inevitável que aconteça um acidente com um verdadeiro míssil russo transviado, e aí já sabemos que há gente ansiosa por essa oportunidade de ouro para nos precipitar no abismo.

2. Vai começar o regabofe patriótico do Mundial. E para dar o exemplo a partir de cima, lá vão as três principais figuras do Estado fazer o sacrifício do Catar: PR, PM e PAR. E lá veremos também, no camarote de honra, o dr. Arnaut, presidente da Assembleia-Geral da Federação Portuguesa de Futebol e também presidente dessa outra instituição de bem-fazer que é a ANA - Aeroportos, uma empresa que actualmente reclama em tribunal €300 milhões ao Estado português por lucros cessantes durante a pandemia. Meus senhores, o que pensam que nós achamos disto?

Uma pausa na loucura?
Miguel Sousa Tavares
Expresso (18.11.2022)

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

Vespas

Surgiu do nada, sendo que esse nada foi algo de palpável ou resultado de distração: porta aberta, janela entreaberta, qualquer objecto vindo de fora e ela aproveitou a boleia. Era a possibilidade de conhecer novos caminhos, novas paisagens, outros costumes.

Não há certeza sobre a forma como apareceu no vidro da janela, subindo e descendo de forma vagarosa, como a deliciar-se com o passeio mas buscando a liberdade que a luz do dia lhe indicava, apesar da chuva incessante. 

- Olha uma vespa! É enorme!

Era bem maior do que aquelas que aparecem normalmente no jardim e que por lá permanecem sem causarem qualquer dano, embora, por vezes, se devam arreliar com as primas abelhas, na disputa do pólen de melhor qualidade. A preocupação de evitar o seu desaparecimento da natureza condicionou a racionalidade do perigo que ela transportava, sentindo-se aprisionada e perturbada.

Abriu-se a janela, tentando que, sem chegar perto e sem movimentos bruscos que a assustassem, ela descobrisse, com o seu radar próprio, o caminho para o sítio de onde tinha vindo ou algum parecido. O semáforo não funcionou e a seta, virtual, que lhe foi apresentada foi ignorada por completo. A aflição começava a dar sinais.

- Vai buscar um pano, pega-lhe e manda-a pela janela.

Há muitos anos que não era picado por uma vespa. Lembrava-me bem da última vez e das dores que me tinha causado. A racionalidade não esteve presente e o pano não criou a protecção necessária. A vespa não perdoou a ousadia e ferrou o dedo com tal violência que o pano, com ela dentro, voou pelo quintal fora.

Não faço ideia se, como se diz, ela morreu depois de ferrar o "dente". Isso já não me preocupa, até porque o Código Penal, que eu saiba, ainda não prevê que possa constituir crime sacudir para longe uma simples vespa.

O que sei é que já passaram quase dois dias, já coloquei vinagre várias vezes, apertei com uma faca, coloquei gelo, besuntei com Fenistil e o "pai-de-todos", esse dedo fundamental para a linguagem gestual dos machos, ainda não me deu descanso, continuando a trazer a vespa à minha mente, sem contemplações e com dores suficientes para eu não a esquecer.

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Centenário

Se ainda por cá estivesse, o nosso Nobel da Literatura sopraria hoje 100 velas no bolo de aniversário. Talvez aproveitasse para fazer um discurso deixando alertas, recomendações, reprimendas, sugestões a todos nós, aproveitando para lamentar a forma como nos comportamos e como estamos a enterrar o futuro.

No ano passado, para assinalar esta mesma data, escolhi o texto que, sobre esta cidade, nos deixou na Viagem a Portugal. Lido agora, até parece que não passaram quase trinta anos.

Hoje fica registado um pedacinho da História do Cerco de Lisboa, para aguçar o apetite a alguém mais desatento ou distraído, que ainda não o conheça.

"(...) Agora sentado à secretária, com as provas do livro de poesia diante de si, segue atrás do pensamento, ainda que talvez fosse mais exacto dizer que o antecede, pois, sabendo nós como o pensamento é rápido, se nos contentamos com ir atrás dele em pouco tempo perdemos-lhe o rasto, ainda estamos a inventar a passarola e já ele chegou às estrelas. Raimundo Silva tenta, pensando e repensando, perceber por que desde as primeiras palavras não pôde reprimir a agressividade, Não sabe o que é o deleatur, incomoda-o sobretudo a lembrança do tom com que atirou a pergunta, provocador, mesmo grosseiro, e depois o duelo final, os inimigos, como se houvesse ali uma questão pessoal a dirimir, um rancor velho, quando se sabe que estes dois nunca se encontraram antes, e, se sim, não deram um pelo outro, Quem será ela, pensou então Raimundo Silva, ao pensá-lo afrouxou, sem dar por isso, a rédea com que vinha guiando o pensamento, foi quanto bastou para que ele lhe passasse à frente e começasse a pensar por conta própria, é uma mulher ainda nova, menos de quarenta anos, não tão alta como primeiro lhe parecera, o tom da pele mate, os cabelos soltos, castanhos, os olhos da mesma cor, um nada menos escuros, e a boca pequena e cheia, a boca pequena e cheia, a boca pequena, a boca, cheia, cheia. Raimundo Silva está a olhar a estante que tem em frente, encontram-se ali reunidos todos os livros que reviu ao longo duma vida de trabalho, não os contou mas fazem uma biblioteca, títulos, nomes, ele é o romance, ele é a poesia, ele é o teatro, ele são os oportunismos políticos e biográficos, ele são as memórias, títulos, uns célebres até aos dias de hoje, outros que tiveram a sua boa hora e para quem o relógio parou, alguns ainda suspensos do destino, Mas o destino que temos é o destino que somos, murmurou o revisor, respondendo ao que antes pensara, Somos o destino que temos.

História do Cerco de Lisboa
José Saramago
Caminho (1989)