segunda-feira, 29 de junho de 2020

Maracangalha

Não tenho a mínima ideia da razão que me levou a lembrar esta música, que fazia parte dos carnavais da minha juventude.
Fui à procura e descobri que a gravação de Dorival Caymmi data de 1957, tinha eu apenas cinco aninhos. 
Como o tempo passa ...

domingo, 28 de junho de 2020

Renting

Werner era um cidadão suíço, casado com uma portuguesa, que vivia em Basel. Vendia máquinas de café LaCimbali, italianas, consideradas geralmente como as melhores do mundo. Não é por acaso que, enquanto em todo o país se bebe um café ou uma bica, no Porto se pede um cimbalino.
Privei com o Werner, que já conhecia daqui, numa visita à sua terra, na década de oitenta do século passado. O seu automóvel estava parado à porta de casa e foi a primeira coisa em que reparei. Deixou-me de boca aberta. Era uma bomba! 
Na conversa que se seguiu e com a lata que me permitiam os trinta anos da altura, questionei-o como conseguia ter um carro daqueles a vender máquinas de café.
          - O carro não é meu.
          - ???
          - Vamos dar uma volta pela cidade, vais tu a conduzir, para experimentares, e eu já te explico.

Nunca tinha posto as mãos num bólide daqueles. Último modelo da Toyota, não existia em Portugal, cómodo, direcção assistida, ar condicionado independente, bancos em pele, um luxo.

          - É do banco. Eu só pago a renda mensal e eles suportam tudo, menos a gasolina, claro.
          - ???
          - Renting.

Bancário da treta, não fazia ideia, nessa altura, do que era o renting. Ouvi atentamente a aula e guardei a informação na gaveta da memória. 
Chegou a Portugal vários anos depois e hoje está generalizado, principalmente nas empresas. Não foi novidade!

sábado, 27 de junho de 2020

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Cabo Verde

Dos oito, dois eram pretos, nascidos em Cabo Verde, cada um em sua ilha, um em Santiago e o outro no Sal.
Não eram muito expressivos quando falavam das suas origens, parecendo até que tinham algum pudor em desvendar as condições de vida e as dificuldades que por lá existiam. Nunca puxavam esse assunto mas, por vezes, a conversa a isso obrigava e lá vinham as lamentações, os sacrifícios e as dificuldades.
O Adelino era o mais velho, teria por volta de quarenta anos, tinha uma careca acentuada e usava um bigode muito fino que lhe destacava o lábio grosso; o Cula, que ainda não tinha chegado aos vinte, possuía uma farta cabeleira, muito negra e encaracolada. Quando a boa disposição imperava, dizia, rindo-se, que tinha cabelo que sobrava e, quando o cortasse, ofereceria um bocado para colar na cabeça do Adelino, para ele voltar a novo.
Raro era conversarem sobre os seus familiares, mas os olhos ficavam brilhantes quando se falava no regresso e quando chegava a hora da música.
Os dois tocavam cavaquinho e cantavam mornas e coladeras para delícia dos que os ouviam. O Adelino nunca cantava sozinho. Deixava essa tarefa para o Cula, que tinha mais força na voz, fazendo coro quando a música o exigia. A concentração era total na música e os seus dedos dedilhavam o cavaquinho com uma velocidade e uma beleza que atraía ouvintes de outras salas, até que alguém vinha pôr cobro ao concerto e mandava toda a gente sossegar.
Sem nenhumas saudades desses tempos, restou apenas a lembrança daqueles dois amigos que muito me ajudaram e nunca mais vi, o gosto pela música de Cabo Verde e o ter aprendido, bem cedo, a diferença entre a morna e a coladera.


quinta-feira, 25 de junho de 2020

Quotidiano

O Verão, que tinha chegado antes do tempo e trazido muito calor e céu azul, sem vento e com mar quase chão, resolveu esta semana torpedear todos os planos e obrigar à abdicação do caminho matinal para a Foz do Arelho.
E esta abdicação traz consequências, físicas e psíquicas: há sempre trabalho a fazer, em casa ou no jardim e, sobretudo, ouvem-se mais notícias, comentários e opiniões.
O que se vai ouvindo não é agradável nem o que se esperava, decorridos que estão mais de 100 dias desde o início desta calamidade que nos veio visitar sem ter qualquer convite. 
O optimismo e o cansaço tornam-se opositores, têm pouca capacidade de diálogo, opinião muito diferente, e trazem à tona o pessimismo e o medo dos dias que se irão seguir.
As saídas não são muitas mas não me agrada nada voltar ao confinamento do quintal ... e eu ainda tenho esse espaço!

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Netos

Hoje é um dia especial.
Não por ser dia de S. João, nem por ser feriado no Porto e em Braga, muito menos por, neste ano, não estarem autorizados os habituais festejos populares.

É um dia especialíssimo, porque o meu neto Duarte faz oito anos e, apesar de não ser possível fazer a festa que ele merece, continua a ser um dia memorável e especial porque, este, lhe ficará na memória para sempre.
Um dia, ele irá contar aos netos que, quando fez oito anos, não houve "parabéns a você" colectivo, mas que toda a gente cantou para ele.
Parabéns, meu querido DUDU.

terça-feira, 23 de junho de 2020

A bomba

A porta já tinha sido fechada há algum tempo e o último cliente já se fora. 
Viviam-se os momentos, poucos, de descontracção diária, antes de se iniciarem as tarefas do fecho do dia. Estes momentos eram aproveitados para contar a última anedota,
          - Já sabem a última?
comentar o último jogo do Benfica,
          - Não jogaram nada ... dizia um,
          - É o costume, concluía outro.
contar, em grupo mais reservado e para que as colegas não ouvissem, a última separação conhecida,
          - Parece que foi ela que saiu. Estava farta dele.

De repente, alguém exclama, num grito que tinha tanto de exaltado como de medroso:
          - Olha ali, naquela escrivaninha?!
          - É um embrulho ...
          - Vê lá se é uma bomba!?

Do lado de fora do balcão, fixadas à parede, existiam três ou quatro prateleiras de madeira, pequenas, que eram utilizadas pelos clientes para preencherem os cheques, talões de depósitos e outros documentos. Nesse tempo tudo se fazia "à mão" e preencher o documento antes de o entregar era sinal de sapiência e de disposição para colaborar e ser atendido de forma mais rápida. Muitos havia a quem era necessário preencher tudo e, no local reservado à assinatura, escrever "A rogo de F., por não saber assinar", com a rubrica de dois empregados e a impressão digital do indicador direito do cliente, cuja recolha tinha a sua ciência e nem todos conseguiam com o rigor necessário que a inspecção, mais tarde, iria averiguar. Pré-história!

Voltemos ao embrulho: viviam-se tempos complicados, havia atentados bombistas, não muitos mas alguns foram notícia, a luta de classes estava ao rubro, os partidos clamavam as suas verdades com veemência, comentavam-se hipóteses de golpes de estado, confrontos entre militares, enfim, condições criadas para se especular sobre tudo e para uma vivência com alguma ansiedade.
         - Eu vou lá ver, gritou o V.E., destemido e ainda cheio de episódios da guerra colonial na Guiné, cuja dureza era de todos conhecida e dele, em particular, por ter lá permanecido mais de dois anos e sempre "em zona 100%", como não se cansava de repetir.
E, se bem o disse, depressa o fez.
Chegado à escrivaninha, estacou e murmurou, em tom rouco e reservado, mas perfeitamente audível dado o silêncio instalado.
          - Faz tique-taque.
Recuou.
          - Tome cuidado, V.E., ouviu-se do gabinete.
Funcionou como incentivo. Determinado, avançou para o embrulho, puxou do canivete que sempre o acompanhava, cortou o cordão, rasgou o papel, pardo, e abriu a caixa.
Exibiu o achado bem alto, para todos apreciarem.
Era um enorme despertador, novinho em folha, azul celeste, que deveria ter sido adquirido nesse dia numa das várias ourivesarias existentes na cidade. Guardou-o na casa forte e, como todos os outros, dedicou-se ao fecho do dia, que já eram bem horas.
A campainha da porta tocou.
          - O que quer este a esta hora? Já estamos fechados há que tempos.
          - Vai lá, mas não abras a porta. 
A porta, de ferro, tinha uma janela que era possível abrir, deixando as grades a garantirem a segurança.
Não se ouviu nada do diálogo, mas o "porteiro", contrariando as ordens, abriu a porta e deixou o cliente entrar.
            - Ó V.E., é o dono do relógio!
            - Agora tem de esperar, que a casa forte demora cinco minutos a abrir!

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Palavras bonitas ... e actuais

Porque será que nós temos                                            Nas quadras que a gente vê,
na frente, aos montes, aos molhos,                               quase sempre o mais bonito
tantas coisas que não vemos                                         está guardado pr'a quem lê
nem mesmo perto dos olhos?                                        o que lá não 'stá escrito.

O mundo só pode ser                                                     A esmola não cura a chaga
melhor do que até aqui,                                                 mas quem a dá não percebe
- quando consigas fazer                                                 que ela avilta, que ela esmaga
mais p'los outros que por ti!                                          o infeliz que a recebe.

Sem que o discurso eu pedisse,                                     Chegasses onde pudesses;
ele falou; e eu escutei.                                                   mas nunca devias rir
Gostei do que ele não disse;                                          nem fingir que não conheces
do que disse não gostei.                                                 quem te ajudou a subir!

Julgando um dever cumprir,                                         Veste bem, já reparaste?
sem descer no meu critério                                           mas ele próprio ignora
- digo verdades a rir                                                      que, por dentro, é um contraste
aos que me mentem a sério!                                         com o que mostra por fora.

António Aleixo
Este livro que vos deixo ...
Edição, corrigida, de Vitalino Martins Aleixo (filho do poeta)
1975

domingo, 21 de junho de 2020

Beethoven animado

Há quatro anos, deixei aqui o Bolero, de Ravel, em animação, linda, partilhada por um amigo.
Hoje, numa pesquisa rápida, encontrei a Quinta Sinfonia de Beethoven, animada de forma idêntica e a provar que a união entre a boa música e o bom gosto da animação dá um resultado fantástico.

sábado, 20 de junho de 2020

Quotidiano

Telemóvel numa mão, um pequeno saco na outra, vestido comprido, branco, a companhia de alguém, família ou amiga, que mais parece sua serviçal.
Retira o vestido, branco, e surgem três ou quatro tatuagens, nas pernas e nos braços, vistosas, coloridas, e um biquini, não branco, vermelho forte.
Acciona o telemóvel em direcção ao mar, fotografa ou filma, enquadrando o poiso. Uns saltinhos a caminho da água, a companheira atrás, que fria, retira o pé, faz marcha-atrás, vira as costas ao azul esverdeado e à calmaria que o mar hoje nos entregava. 
O mar convida a entrar, calmo, bandeira verde, coisa estranha, sem as ondas do costume e com um sol radioso, sem nuvens nem nevoeiro nem sequer a nortada costumeira.
A mão disponível não larga o telemóvel. Ajeita o cabelo, faz pose, alisa o cabelo, faz pose, alinda-se , sorri, faz boquinhas, trejeitos, dobra-se, ergue-se, e o dedo frenético fixa o registo, para a posteridade, dos momentos "inesquecíveis".
Chama a companheira, dá-lhe o telefone e principia o desfile. Um passo para a frente, tomba a cabeça, segura o cabelo, levanta a perna, finge entrar no mar, mãos para cima, agora na cintura, espreita o mar, vira-lhe as costas, mexe na areia, segura os joelhos, agora a anca, mais uma volta, mais um pulinho, água não, só a fingir, e o mar espreita, tranquilo, esperando que a sereia entre.
Não entrou, mas as fotos hão-de ser "postadas" e registarem, para a posteridade, que foi uma grande manhã de praia ... sem banho. C'os diabos, a água está tão fria ... nem sei como é que aguentam!

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Carlos Ruiz Zafon

Chegou cá a casa nos primeiros anos do século XXI, com A sombra do vento. Vieram depois O jogo do anjo, O príncipe da neblina, O prisioneiro do céu, O palácio da meia-noite, As luzes de Setembro e O labirinto dos espíritos. Marina foi o último que li, mas não pertence ao acervo da "biblioteca".
Já não haverá mais. O grande escritor catalão morreu hoje, aos 55 anos, e, espero eu, que os seus livros não façam parte do Cemitério dos livros esquecidos.

quinta-feira, 18 de junho de 2020

Música popular

Partiu há três meses e, se já pouco era ouvido, desapareceu completamente dos meios de difusão pública.
Para mim continua a ser um dos grandes autores da música portuguesa, a quem ouço há cerca de 50 anos e a quem volto sempre com enorme prazer, como foi o caso de hoje, sugerido pelos automatismos dos meus arquivos digitais. Uma música tradicional, pouco conhecida, do álbum Cantos da borda d'água, de 1984.

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Poesia racismo

Uma cabeça contra umas pedras bicudas

O meu patrão era taxeiro 
e eu moleque do seu bebé
chamado Constantino o tal bebé
e o patrão Machado
e ela D. Maria
ele era ateu
e muito vinhateiro
e ainda boxeur com os criados
um dos adversários sou eu
com o vencimento de vinte e cinco
com tanto trabalho que tinha
brincar com o menino branco
e ainda com o patrão em socos
socos só dele
eu sem me defender
sangue pelo nariz
sapatos nas costelas
eu caindo
assim nem vencia o tal Machado
este sou eu?
perguntava-me eu próprio
que recebo socos de um ser humano?
não devo ser, 
quando eu caía
este patrão tinha festa
lá no coração
pois era campião
dum K.O. falso
com este patrão
muito sofri
na avenida J. Serrão
em 1949
tanto levei
e tanto sangue saía
e criou-me um câncro
nas minhas unhas
veneno na língua
das dores dele
vivi doente
sem remédio, sofri
pois preto não precisa de remédio
dizia o senhor
autor do boxe.

terça-feira, 16 de junho de 2020

O jeito para línguas

Eram três jovens alunos da Escola, que todos os dias se deslocavam do Bombarral, onde residiam, para frequentarem as aulas nas Caldas. Eram cerca de dezoito quilómetros percorridos no ronceiro comboio do Oeste, apanhado bem cedo, depois de um périplo pelas ruas da vila até à estação da CP.
Naquele dia, a volta que precedia a chegada à estação foi mais longa e passou pelo Largo principal da urbe, onde se depararam com um casal de franceses, necessitado de ajuda para prosseguir o seu caminho, souberam depois, rumo à Nazaré.
Parado no meio da via, não causando, na época, qualquer estorvo ao diminuto trânsito, mas impressionando os olhos dos da terra, um carro vistoso, enorme e brilhante (seria talvez um "boca-de-sapo", mas nenhum deles conseguiu confirmar). 
Na mão do homem um mapa, onde era apontada a Nazaré e, por gestos, os dois cônjuges procuravam indagar o caminho da saída, perante a ausência de qualquer sinalética que fizesse luz. Os interlocutores eram dois ou três adultos, que não conseguiam entender patavina do que pretendiam aqueles seres vestidos de forma meio estranha e que, ainda por cima, falavam uma língua que nenhum deles entendia.
A aproximação dos três jovens foi a salvação ... c'os diabos, três jovens, ainda por cima estudantes nas Caldas (!), saberiam resolver o problema do entendimento e ajudar os franceses.
E assim aconteceu.
Os três já detinham alguns conhecimentos da língua francesa e, com facilidade, perceberam que o problema era o caminho de saída rumo à Nazaré. O L., mais afoito, conseguiu fazer-se entender e, de imediato e, para espanto dos adultos, os três entraram no belo automóvel, iniciando a viagem que, para eles, terminaria em Caldas de "La Reine", e, para os franceses, à custa das precisas indicações dos jovens, culminaria, por certo, num belo banho de mar na Nazaré ou na deslumbrante paisagem do Sítio.
Na viatura, de luxo, a conversa resumiu-se, diz quem participou, a monocórdicos "oui", "non", "à droite", "à gauche", até à Praça da República, em pleno centro das Caldas.
E aqui surgiu a grande dificuldade!
Era necessário transmitir aos franceses que chegara a hora de parar "la voiture", que a hora das aulas se aproximava e que nenhum dos três estava interessado em prosseguir até à Nazaré e qual o caminho que deveriam seguir.
Em vão, cada um buscava a frase necessária, o "abre-te Sésamo que parasse o carro", "o valor de xis desta difícil equação".
O nervosismo e a falta de conhecimentos entaramelavam a língua e a frase, quando parecia quase, quase a chegar, fugia num ápice.
Até que ... "nous ficarrons ici"!
Os franceses entenderam, pararam "la voiture", esmeraram-se em "merci, merci beaucoup" e "les élèves" encaminharam-se a passos rápidos para a escola, onde fizeram jus à sua capacidade de explanação, para espanto e gáudio dos privilegiados que a ouviram.
A aventura foi de tal maneira glosada e gozada que o pobre coitado, que tinha resolvido o problema, foi durante bastante tempo massacrado com o "ficarrons".

segunda-feira, 15 de junho de 2020

FALU

Sendo importante fazer aquilo que se gosta, mais importante ainda é gostar daquilo que se faz.



domingo, 14 de junho de 2020

Quotidiano

Hoje é dia de descanso, cansado que estou dos feriados e da ponte que aconteceram nesta semana e me deixaram de rastos. O que vale é que, para a semana, estou de férias e posso recuperar.
Ironias à parte, já passei uma grande manhã de praia, com duas idas à aberta, o céu azul, sem vento e um mar à temperatura da ... Foz.
De tarde fui ver um artista a pintar, em cima de uma enorme grua, a primeira obra do FALU - Festival Artístico de Linguagens Urbanas. Amanhã espero dar um salto para, aqui bem perto de casa, na Rua Augusto Gil, ver começar a surgir a segunda obra.
Convenhamos que, com tanta coisa feita e a fazer, não há perigo de tédio, o cansaço tira a vontade de escrever e aponta que é melhor ir ler. É melhor para todos, eu incluído. 
Como dizia o outro: "para cúmulo da chatice, tanto falou e ... nada disse".

sábado, 13 de junho de 2020

Santo António

Porque a história também se aprende tentando interpretar os factos à luz da época e não com os olhos de hoje. 
Se assim não for, corremos o risco de sermos apenas ignorantes, que pretendem conduzir o automóvel puxando pelas rédeas.

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Santa Maria

No tempo da "outra senhora" as anedotas eram uma forma de o povo, à boca pequena, manifestar a sua crítica à política, aos costumes, à moral vigentes, uma vez que a televisão, ainda a dar os primeiros passos, a rádio e os jornais, eram formalistas e sujeitos a censura prévia e férrea.
Em Janeiro de 1961, o paquete Santa Maria foi tomado por um grupo de resistentes comandado pelo capitão Henrique Galvão que, durante cerca de 8 dias, conseguiu fazer tremer o regime e colocar Portugal e a sua política nas primeiras páginas dos jornais estrangeiros.
O Santa Maria dedicava-se a fazer cruzeiros com destino à América, dirigia-se a Miami, nos Estados Unidos e foi tomado em Curaçau, nas Antilhas, no dia 22 de Janeiro. Permaneceu em mãos rebeldes, navegando pelo Atlântico, até ao dia 2 de Fevereiro, data em que aportou no Recife, onde o Brasil concedeu asilo político aos intervenientes na aventura. 
De seguida, o Santa Maria voltou a Portugal e os portugueses ouviram de Salazar:
- Já temos o Santa Maria. Obrigado portugueses!
Pouco tempo depois, surgiu a anedota:

- Sabes quem é o homem que mais conviveu com santos?
- Não!?
- Henrique Galvão
- Porquê?
- Assaltou o Santa Maria, baptizou-o de Santa Liberdade por causa de um Santo António que é de Santa Comba e mora em São Bento.  

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Conversas de café

- Já foste hoje ao WhatsApp?
- Não tenho lá nada ...
 - Tens, tens, não viste a minha página? Já lá "postei" uma foto hoje.
 - Ah! isso foi no Face ... vi antes de sair de casa e até pus um "like".
- Faço sempre confusão. WhatsApp, Facebook, Instagram, para mim é tudo a mesma coisa, mas vou lá sempre.
- Eu todos os dias "posto" e faço comentários em tudo o que aparece.
- Aparecem coisas muit'a giras! 

Valha-nos isto. Como é que viveríamos sem estas publicações! Cá por mim, acho que até o Covid, se soubesse ler e tivesse telemóvel, se assustava e desaparecia.

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Tempos

A idade, diz-se, faz-nos rezingões, rouba-nos a paciência, tira-nos o filtro, dá-nos certezas onde antes hesitávamos, leva-nos na senda do "nunca me engano e raramente tenho dúvidas" de triste memória.
Porém, quem vai estando atento ao que se diz e escreve por aí, chega à conclusão que a pandemia fez luz numa grande parte das mentes que grassam nos jornais, nas televisões, nas redes sociais, e formou "especialistas" em catadupa, talvez resultado de um trabalho profundo e de um estudo pormenorizado efectuados durante o confinamento.
E por aqui nos vemos a ouvir os ditos "especialistas" a perorarem sobre o vírus, a crise na TAP, o orçamento suplementar, o valor do PIB, a percentagem da dívida, o aumento do desemprego, os desafios que se colocam às empresas, a solução para eles, o futuro do teletrabalho, a melena do Trump. as baboseiras do Bolsonaro, o tempo que já fez e o que irá fazer, o buraco do ozono e as alterações climáticas, o TGV e a bitola europeia, os melros que cantam e os que grunhem, os passarinhos e os passarões, os loucos e os deprimidos, o fora de jogo e o penalty, a solução da Suécia e a decisão da Nova Zelândia, a fome e a fartura, o gasóleo e os eléctricos, o Camões e o Bocage, a ponte e os santos populares, o arraial e as sardinhas, a polícia e o ladrão.
E eu, pobre mortal, escondo-me no quadradinho da minha ignorância e fico quase deprimido. 
Estarei velho? Vou perguntar aos "achistas" e eles, provavelmente, dirão que velho é um vocábulo fora de moda, que já ninguém usa, mas idoso, é certo e sabido que sim. Acham eles!