Excelência
De acordo com as notícias desta semana, verifiquei que V. Exª. contribuiu para que as estatísticas do nosso Portugal nos apresentassem condignamente junto dos países que nos fazem companhia na União Europeia.
Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único. Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
De acordo com as notícias desta semana, verifiquei que V. Exª. contribuiu para que as estatísticas do nosso Portugal nos apresentassem condignamente junto dos países que nos fazem companhia na União Europeia.
O Duarte chegou!
As referências que por aqui tenho deixado sobre Miguel Sousa Tavares (que não conheço nem sequer de uma pequena festa de anos, como o outro) demonstram o meu apreço pelo escritor, pelo jornalista, pela forma como escreve, pelo desassombro com que assume as suas opiniões e pela intransigência que mantém na defesa da liberdade e da justiça.

Embora não seja (ainda) sexagenário, o computador parece já ser da "idade da pedra lascada" e lá me vai pregando partidas, não funcionando quando deve, muito menos quando eu quero, mas quando lhe apetece ou lhe dá na real gana.HORA DE PONTA
Olhos rasos de mágoa
trazem perda nos sentidos
e um andar que não recua
sem nunca ir mais além.
Ao fim da tarde na rua
olham em frente perdidos
e passam sem ver ninguém
A cabana do pescador ilustra, com eloquência, a falta de civismo, de educação e de respeito pelo que é público e de todos. O pescador que, se lhe for perguntado, dirá que ama a natureza e principalmente o mar, deu-se ao luxo de construir uma barraca para se proteger e ainda deixou um montão de lixo que levou e que alguém há-de limpar.Apesar de o teatro da vida nos reservar surpresas onde menos se esperam, regista-se a comemoração do dia salientando o excelente trabalho que o Teatro da Rainha, remando muito, vai realizando nesta terra.
Passavam pelo ar aves repentinas,O cheiro da terra era fundo e amargo,E ao longe as cavalgadas do mar largoSacudiam na areia as suas crinasEra o céu azul, o campo verde, a terra escura,Era a carne das árvores elástica e dura,Eram as gotas de sangue da resinaE as folhas em que a luz se descombina.Eram os caminhos num ir lento,Eram as mãos profundas do ventoEra o livre e luminoso chamamentoDa asa dos espaços fugitiva.Eram os pinheirais onde o céu poisa,Era o peso e era a cor de cada coisa,A sua quietude, secretamente viva,E a sua exaltação afirmativa.Era a verdade e a força do mar largo,Cuja voz, quando se quebra, sobe,Era o regresso sem fim e a claridadeDas praias onde a direito o vento corre.
Murchou a flor aberta ao sol do tempo.Assim tinha de ser, neste renovoQuotidiano.Outro ano,Outra flor,Outro perfume.O gumeDo cansaçoVai ceifando,E o braçoDoutro sonhoSemeando.É essa a eternidade:A permanente rendição da vida.Outro ano,Outra flor,Outro perfume,E o lumeDe não sei que ilusão a arder no cumeDe não sei que expressão nunca atingida.
Que margens têm os riosPara além das suas margens?Que viagens são navios?Que navios são viagens?Que contrário é uma estrela?Que estrela é este contrárioDe imaginarmos por vê-laTudo à volta imaginário?Que paralelas partidasNos articulam os braçosEm formas interrompidasPara encarnar um espaço?Que rua vai dar ao tempo?Que tempo vai dar à ruaPor onde o FirmamentoE a Terra se unem na lua?Que palavra é o silêncio?Que silêncio é esta vozQue num soluço suspensoChora flores dentro de nós?Que sereia é o poente,Metade não sei de quêA pentear-se com o penteDo olhar finito que o vê?Que medida é o tamanhoDe estar sentado ou de pé?Que contraste torna estranhoUm corpo à alma que é?
É o mar do deserto, ondulaçãoSem fim das dunas,Onde dormir, onde estender o corpoSobre outro corpo, o peito vasto,As pernas finas, longas,As nádegas rijas, colinasSucessivas onde o ventoDemora os dedos, e as cabrasPassam, e o pastorSonha oásis perto,E o verde das palmeiras se levantaAté à nossa boca, até à nossa almaCom sede de outras dunas,Onde o corpo do amorSeja por fim um gole de água.
- Há muitos anos, quando eu era chefe de turma na escola secundária de Boliqueime, um rapaz chamado José qualquer coisa - olha, não me lembro do apelido, tinha a ver com filosofia, Grécia, não, Grécia, Grécia, não, nós não somos gregos nem queremos ser como eles ...
- Deixa-te de entretantos e vai aos finalmente, para ver se me dá o sono ...
- ... Segismundo, Séneca, Scarlatti, que confusão, bem, não interessa, o rapaz, dizia eu, fez uma redacção e entregou-a ao professor sem ma mostrar, a mim, que era o chefe da turma.
- E tu, que fizeste?
- Nada. Aguardei que o tempo me fizesse justiça. E assim foi!
- ?!?!
- Pois! Passado muito tempo, voltei a encontrá-lo e escrevi no quadro:
- " Mamã, este menino bateu-me!"
- Ó Aníbal, que dizes tu? Dorme, que o teu mal é sono.
Dia da vida,
Noite da morte ...
O verso
e o reverso
da medalha.
E não há desespero que nos valha,
nem crença,
nem descrença,
nem filosofia.
Esta brutalidade, e nada mais:
Sol e sombra - o binómio dos mortais.
Só que o sol vem primeiro,
e a sombra depois ...
E à luz do sol é tudo o que sabemos:
Juventude,
beleza,
poesia,
e amor
- Amargo fruto que na sepultura,
em vez de apodrecer, ganha doçura.
Em 1986 José Saramago romanceou uma hipotética fractura nos Pirenéus, que colocou a Península Ibérica a navegar no Atlântico, num afastamento inesperado, surpreendente e contínuo, do continente europeu.
Por cousas que nam têm cura
hei por mor desaventura
qualquer dia que me vem,
nem desejo nenhum bem
por nam ver quam pouco dura.
Ditoso de quem viver
livre, fora d'esperança,
digo eu sem no saber.
coitado de quem alcança
ganhá-la para a perder.
Pois tudo tam pouco dura,
seguro que nam segura
nam no quero de ninguém
nem desejo nenhum bem
com despreços de mestura.
| Quando eu escrevo a palavra acção, por magia ou pirraça, o computador retira automaticamente o C na pretensão de me ensinar a nova grafia. De forma que, aos poucos, sem precisar de ajuda, eu próprio vou tirando as consoantes que, ao que parece, estavam a mais na língua portuguesa. Custa-me despedir-me daquelas letras que tanto fizeram por mim. São muitos anos de convívio. Lembro-me da forma discreta e silenciosa como todos estes CCC's e PPP's me acompanharam em tantos textos e livros desde a infância. Na primária, por vezes gritavam ofendidos na caneta vermelha da professora: - não te esqueças de mim! Com o tempo, fui-me habituando à sua existência muda, como quem diz, sei que não falas, mas ainda bem que estás aí. E agora as palavras já nem parecem as mesmas. O que é ser proativo? Custa-me admitir que, de um dia para o outro, passei a trabalhar numa redação, que há espetadores nos espetáculos e alguns também nos frangos, que os atores atuam e que, ao segundo ato, eu ato os meus sapatos. Depois há os intrusos, sobretudo o R, que tornou algumas palavras arrevesadas e arranhadas, como neorrealismo ou autorretrato. Caíram hifenes e entraram RRR's que andavam errantes. É uma união de facto, e para não errar tenho a obrigação de os acolher como se fossem família. Em 'há de' há um divórcio, não vale a pena criar uma linha entre eles, porque já não se entendem. Em veem e leem, por uma questão de fraternidade, os EEE's passaram a ser gémeos, nenhum usa ( ^^^) chapéu. E os meses perderam importância e dignidade; não havia motivo para terem privilégios. Assim, temos janeiro, fevereiro, março, são tão importantes como peixe, flor, avião. Não sei se estou a ser suscetível, mas sem P, algumas palavras são uma autêntica deceção, mas por outro lado é ótimo que já não tenham. As palavras transformam-nos. Como um menino que muda de escola, sei que vou ter saudades, mas é tempo de crescer e encontrar novos amigos. Sei que tudo vai correr bem, espero que a ausência do C não me faça perder a direção, nem me fracione, e nem quero tropeçar em algum objeto. Porque, verdade seja dita, hoje em dia, não se pode ser atual nem atuante com um C a atrapalhar. Só não percebo porque é que temos que ser NÓS a alterar a escrita, se a LÍNGUA É NOSSA ...? ! ? ! |
História Antiga
Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:Uma cara de burro sem cabrestoE duas grandes tranças.A gente olhava, reparava e viaQue naquela figura não haviaOlhos de quem gosta de crianças.
E, na verdade, assim acontecia.Porque um dia,O malvado,Só por ter o poder de quem é reiPor não ter coração,Sem mais nem menos,Mandou matar quantos eram pequenosNas cidades e aldeias da nação.
Mas, por acaso ou milagre, aconteceuQue, num burrinho pela areia fora,Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastouEsse palmo de sonhoPara encher este mundo de alegria;Para crescer, ser Deus;E meter no inferno o tal das tranças,Só porque ele não gostava de crianças.
Rio, múltipla forma fugidia
De gestos infinitos e perdidos
E no seu próprio ritmo diluídos
Contínua aparição brilhante e fria.
Nos teus límpidos olhos de vidente
As paisagens reflectem-se mais fundas
Imóveis entre os gestos da corrente.
E o país em redor verde e silvestre
Alargou-se e abriu-se modulado
No silêncio brilhante que lhe deste.
Quando entrei no mercado de trabalho - há quantos anos, já lhe perdi a conta! - não havia subsídio de férias (nem férias), não existia subsídio de Natal (o Natal existia mas era bem mais curtinho) e o horário era uma coisa que constava de um papel afixado no escritório (havia um senhor que era o fiscal do dito) que, na prática se resumia a ter a hora de entrada e a hora de saída, com intervalo para almoço, para que o tal referido senhor consultasse quando visitava a empresa, na sua missão soberana de zelar pelo cumprimento da lei e, já agora, da ordem.
Passadas estas dezenas de anos, o horário já desapareceu há muito mas ainda consta do papel e os subsídios de férias e de Natal vão seguir-lhe o caminho.
Regredir é a palavra de ordem, ninguém sabendo onde se situará o fim desta "descida aos infernos".
Espera-se que a meta não seja o regresso a uma sociedade arcaica, castradora, insensível, desigual, propiciadora de situações como a que António Lobo Antunes ficciona no seu último romance, Comissão das Lágrimas:
LUGAR DO SOLHá um lugar na mesa onde a luzabdicou do seu ofício.Já foi do sole do trigo esse lugar - agorapor mais que escutes, não voltarása ouvir a voz de quem,há muitos anos, era a delicadezada terra: "Não sujesa toalha", "Não comes a maçã?"Também já não há quem se debrucena janela para sentiro corpo atravessado pela manhã.Talvez só um ou outro versoconsiga juntar no seu ritmoluz, voz, maçã.