domingo, 4 de agosto de 2013

Palavras bonitas



PRESSÁGIO                                                              
                                 
Há um presságio de júbilo                                           
à sua beira, um tecido tecendo                                     
a trama do contrário                                                     

Uma réstia de mar                                                        
na sua esteira, uma espécie
de ardil em seu afago                                                                                            

Um modo                                                                     
Um todo                                                                       
Uma maneira                                                                

De misturar
o doce
com o amargo

ETERNIDADE

Regressava sempre
das viagens
como se voasse

A perder-se no dentro
de si mesma. Em busca
do mundo e da verdade

Firme, sedenta e libertária
na teima de encontrar a eternidade.

Maria Teresa Horta
Poemas para Leonor

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Foz do Arelho

A Foz não pára de nos surpreender, mesmo quando estamos convencidos que conhecemos bem todos os seus recantos.
Para além da surpresa diária que nos reserva quando, de manhã, verificamos que o mar não pára nem sequer para dormitar um pouco, trabalhando com afinco no transporte da areia de um para outro lado, deixando um monte onde ontem estava planura, que faz as delícias dos amantes do deslize na areia com as carícias das ondas, tapando rochas que antes tinham os percebes na montra, empurrando a aberta um pouco mais para o Gronho, cobrindo ou desnudando o pedaço de barco que, em tempos, sinalizava o centro da ligação com o mar (hoje fomos lá pôr o pé, sem qualquer dificuldade).
Hoje o passeio matinal às rochas revelou mais uma obra de arte, a juntar à que, no ano passado, se fez referência aqui.
Um novo "cão" surgiu, bem verdinho das algas e quase perfeito:


Amanhã não há Foz e domingo também não deverá haver.
Na segunda, volto ... para ser surpreendido!

sábado, 20 de julho de 2013

Os meus netos

Num espaço inferior a um mês, os meus três netos festejam os respectivos aniversários.
Começa o caçula, Duarte, que, fazendo jus à ascendência nortenha, nasceu no dia de S. João e comemorou o seu primeiro aniversário no dia 24 de Junho passado.
Corre tudo, gatinhando e andando pela mão, responde a qualquer chamada e está sempre disponível para comer. Já fez muitos quilómetros pelo ar e, daqui a alguns dias, voltará a voar, desta vez para uma permanência mais prolongada na capital da cultura clássica, acompanhando os pais em mais um ano de Grécia. 
É especialista no Skype e isso vai servir para encurtar a distância, não para a remediar.
A seguir, a 5 de Julho, faz a festa o mais velho, que completou 7 anos e já está um homem.
Compenetrado, responsável, o Gil sorri quando lhe digo que para o ano já fará a barba, perdoando-me a insensatez ou, talvez melhor, a parvoíce. 
Hoje foi a vez do do meio, que completou 2 anos, malandrecos, cheios de vivacidade mas "niquentos" com a comida e sempre com o "não" bem vincado na ponta da língua.
Já tem um grande (para a idade) vocabulário, mas não corrige a forma como começou a dizer o seu nome. Mantém o "Caco" em vez de Vasco, sendo claro que o faz de propósito e não por ter dificuldade na palavra.
Os três são tão diferentes entre si que não se admitem comparações.
E dão-se bem, manos e primo.
E eu a vê-los crescer ... a babar-me a escrever e a pensar como eles se irão rir se, daqui a uns anos, perderem algum tempo a ler isto. 

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Palavras bonitas

(...) Além disso nós éramos a "família do Porto", gente sem precisão de gastar o corpo nos trabalhos do campo, ainda por cima com autoridade e paga pelo Estado. Éramos também a sua ligação com o sonho. E o sonho era tudo o que ficava para lá da serra de Bornes: as cidades que nunca veriam, as paisagens viçosas das províncias férteis da beira-mar, o oceano que lhes dizíamos ser imenso.
      - Imenso, como o céu? - perguntavam eles.
      - Não. Diferente - respondíamos nós.
Carinhosos, sorriam a perdoar-nos a tolice. Se não era como o céu, como poderia ser imenso?

Ernestina
J. Rentes de Carvalho

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Crise

Afinal, parece que acabou este mas vai surgir outro, bem melhor, mas feito do mesmo material.
A decisão irrevogável foi revogada e Portas fechou a de saída, sem ruído e com toda a precaução, para que ninguém se assustasse.

De fininho, tudo indica que vai voltar a entrar, para bem do país e dos portugueses e para descanso de Cavaco. Os portugueses verificaram que o naufrágio foi evitado por quem abriu as comportas, o que demonstra saber e competência e nos enche de satisfação.
Tudo indica que o divórcio não se consumará e que a birra passará com uma conversa esclarecedora, no conforto do sofá e com a benção de Belém.

Na próxima semana teremos um novo Governo, cheio de força, vontade e saber para, desta vez, resolver todos os problemas com soluções novas, imaginativas e audazes.
Esperemos que, depois das férias e das autárquicas, os meninos não se zanguem de novo e forcem as eleições que agora rejeitam.

Razão tem o Jorge Jesus:
- Se fossem treinadores de futebol, há muito que tinham saído de cena e nem treinavam uma equipa dos distritais.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Crise

Acabou!
Dois anos decorridos, o Governo "morreu", mesmo que o "médico" de Belém não desligue a máquina.
Com a saúde periclitante há vários meses, não resistiu à saída de Gaspar, que escreveu uma carta onde assume que a folha de excel não produziu os resultados esperados, por erros de dados ou má introdução das fórmulas.
Calculista, Portas bateu com a porta, zangado com a promoção da Secretária de Estado do Tesouro (e dos "swaps") a Ministra das Finanças, apesar de ter sido propalado que passaria a número dois ...
Resta, agora, saber se Belém tem coragem para marcar legislativas e autárquicas para a mesma data ou se vai ceder aos mesquinhos interesses dos partidos que receiam a dimensão da previsível derrota.

domingo, 23 de junho de 2013

Palavras bonitas

POEMA

Deixo que venha
se aproxime ao de leve
pé ante pé até ao meu ouvido

Enquanto no peito o coração
estremece
e se apressa no sangue enfebrecido

Primeiro a floresta e em seguida
o bosque
mais bruma do que neve no tecido

Do poema que cresce e o papel absorve
verso a verso primeiro
em cada desabrigo

Toca então a torpeza e agacha-se
sagaz
um lobo faminto e recolhido

Ele trepa de manso e logo voraz
que da luz é a noz
e depois o ruído

Toma ágil o caminho
e em seguida o atalho
corre em alcateia ou fugindo sozinho

Na calada da noite desloca-se e traz
consigo o luar
com vestido de arminho

Sinto-o quando chega no arrepio
da pele, na vertigem selada
do pulso recolhido

À medida que escrevo
e o entorno no sonho
o dispo sem pressa e o deito comigo

Maria Teresa Horta

PS - Ontem a Universidade de Coimbra foi declarada Património da Humanidade pela Unesco e, nesta decisão, é toda a cultura portuguesa que é reconhecida. 

terça-feira, 18 de junho de 2013

Actualidade

Vítor Gaspar e Passos Coelho têm razão: para quê pagar os subsídios de férias em Junho se o Verão só chega em Novembro!

E mais: este ano ainda não tive férias e, de acordo com a última do nosso inquilino de Belém, ainda não as fiz, não sei se as faço ou se as "façarei".

É obra! Depois do plural de cidadão ter passado a "cidadões", parece que o verbo fazer ainda tem mais uma irregularidade.

Puna-se o verbo, que não divulgou esta sua forma a todos os seus "concidadões" e assim contribuiu para a ignorância de muitos.

Cá para mim, o Professor Lindley Cintra deu uma volta no túmulo, ajeitou-se e riu ...

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Santo António

No dia em que se comemora o Santo António na capital, a recordação de um dos enormes divulgadores    da poesia, senhor de uma voz extraordinária, que aqui fica, num registo cantado, com João Villaret a dar largas à ironia, retratando, em simultâneo com o Santo, o outro António que, na altura, ocupava S. Bento.

sábado, 8 de junho de 2013

Quotidiano

O autocarro está preparado para mais uma viagem a caminho da capital. O motorista já fechou as portas de entrada e da bagageira, colocou os óculos de sol na testa, ainda que o tempo esteja "manhoso" (choveu bem, nesta noite do mês de Santo António), a instalação sonora já deu a informação da partida.

À saída, um automóvel (mal) estacionado em cima do passeio não permite efectuar a manobra. Tem os "piscas" ligados e o seu condutor deve ter ido, num "pulinho", tomar um café.

Estou a colocar os "phones" nos ouvidos, o saco que traz o livro, a maçã e as bolachas já ocupou o lugar à minha beira, que não teve pretendente. O autocarro deve levar 25/30 pessoas em silêncio. Não há qualquer comentário em relação ao "simpático" que nos impede o início da viagem. Normal!

Eis senão quando surge um casal, já entrado nos anos (dois "idosos sexagenários"), com a mulher a gesticular para o motorista. Percebe-se, pelo movimento dos lábios, que pergunta se vai para Lisboa e pede a abertura da porta.

- Viessem mais cedo ... 

Ouço o comentário e apetece-me responder. Contenho-me. Afinal são só 06H30 da manhã, ouço música, tenho o dia todo pela frente para me aborrecer ...

- Não sabem o horário!?

- Há gente que acha que os outros podem sempre esperar pelos atrasados ...

O motorista abriu a porta e o casal entrou.

- Bom dia a todos, ouviu-se da voz masculina, bem rasgada.

Poucos responderam.

- Obrigada por abrir a porta. O senhor dos bilhetes disse-nos que já tinha partido ... mas como estava aqui ... desculpe, falou a mulher.

- Sentem-se, que vamos avançar.

O tipo do automóvel voltou do café, sentou-se ao volante e acelerou, sem um aceno de desculpa. Foi à vida, descansado, e não teve direito, ao menos, a uma criticazinha.

Passaram junto a mim, ele com o boné característico de quem vive e trabalha no campo. À cautela, um guarda-chuva enorme na mão, não vá o S. Pedro da capital fazer das dele, num sítio onde ninguém nos acolhe nem oferece tecto, mesmo que chova "a cântaros". Ela leva um saco, também grande, que não parece pesado. Talvez tenha lá dentro o aviamento para o dia, que a vida não está para comer em restaurantes e, mesmo havendo dinheiro, não se conhece ninguém ...

Iriam ao médico? Talvez, mas chegaram atrasados ao autocarro. 

Se não fosse aquele senhor ter vontade de beber a sua bica matinal e teriam ido no outro, a seguir.

Há dias de sorte!

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Livros (lidos ou em vias disso)

Passam hoje 50 anos da morte de Mestre Aquilino Ribeiro, o escritor que ainda agora me obriga a ler, reler e a ter o dicionário por perto, para aprender mais uma, duas, três, muitas palavras novas que sempre surgem, demonstrando que a língua portuguesa é muito mais rica do que aparenta, pelo cada vez mais reduzido vocabulário que vamos usando.

Aquilino foi grande na "Casa Grande de Romarigães", nas "Terras do Demo", no "Malhadinhas", em "Quando os lobos uivam" ou no "Um escritor confessa-se", e em tantos outros, nas mais de seis dezenas de livros que publicou.

O excerto abaixo é da "Geografia Sentimental", livro escrito em 1951 e reeditado pela Bertrand em 2008, que retrata o Portugal profundo e as suas formas de viver, sofrer e trabalhar.

"(...) salvo que o menino, o Quinzinho, viera ao mundo muito enfezado, muito raquítico, velhinho de todo. Ninguém dava nada por ele. Em pequeno era um rolho de bichas, que a mãe ajoujava com um rosário de dentes de alho e escapulários ao pescoço. Depois com a infância, sempre amarelo, sempre a tremer as maleitas, umas enfermidades a seguir às outras, escarlatina, sarampo, dizem que as bexigas negras, que não deitam para fora, e deixam o picado por dentro, só estava bem detrás dos potes da vianda. O homem desesperava-se:
- De que vale tanta labuta, mulher? O nosso menino nunca há-de ser gente!
- Quem sabe lá! Olha, homem, pode ser que Deus Nosso Senhor se amerceie da gente. Chamemo-nos a Santo Antão, se até às sortes o nosso Quim enrijar e estiver em condições de deitar as correias às costas, prometemos-lhe ... prometemos-lhe o quê?
- Dize lá tu?
- Prometemos-lhe a cera que se possa comprar com o dinheiro duma vaca, a melhor vaca, que a essa altura, a gente tenha na loja. Combinado?
- Caramba, o Santo Antão tem para se alumiar à tripa-forra uns dois ou três anos! Será muito prometer, mulher! - foi proferindo ele.
(...) Aos dezanove anos o Quim lidava rijo e fero. Tanto era capaz de rachar um carro de cavacos em meia manhã como dar uma beirada nas malhas, de rópia com as mais valentes mangueiras. À porta da igreja apareceu colado finalmente o rol dos mancebos em idade militar que haviam de ir à inspecção, e o pai veio ter com a mulher coçando a nuca:
- Agora, arrota!
- Arrota o quê?
- A promessa a Santo Antão!
(...) Ataviaram-se com andainas de ver a Deus para ir à feira e, que remédio, tiveram de advertir o moço da obrigação inelutável. Quando tal soube o Quim deu por paus e pedras, não se cansando de censurar à mãe que se tivesse abalançado a tão desorbitado voto, sendo certo que uma avé-maria, dita com unção, vale aos olhos de Deus tanto como a embaixada que D. Manuel mandou ao Papa. (...) - Traga também um galo! - disse o Quim no momento de despegar para a feira com a vaquinha presa já por uma corda, em cruz de ponta para ponta.
(...) - Para que quer dois galos? Para as pitas que tem, chega-lhe um. Ou pagam-lhe para galar as galinhas cá da terra? (...)
- Quanto a germela?
- Uma libra ... (...) 
- Palavra de rei: custa uma libra! (...)
- Está castigado! A vaca é minha.
- Mas alto ...! - exclamou o Quim. - Ainda não disse a palavra derradeira ...
(...) - Quem levar a vaca tem de levar o galo. Senhora mãe mostre cá o frangão ...
(...) - Se é isso, também levo o galo. Quanto?
- Vinte libras. (...)

Geografia sentimental
Aquilino Ribeiro
Bertrand (2008)

sábado, 25 de maio de 2013

Quotidiano

Ontem, perdi o metro por pouco.

Começava a descer a escada quando o silvo anunciou o fecho das portas e ... foi-se!

Vou no próximo. O aviso informa que faltam apenas quatro minutos.

Do saquinho retiro o último livro de Manuel Alegre - Tudo é e Não é - e continuo a leitura, suspensa desde a manhã, bem cedinho, na viagem inversa.

Chega a "cobra subterrânea".

Sai gente, muita, e no gesto há muito automatizado, entro,  quando o turbilhão de apressados me permite. Consigo encostar-me à porta do lado oposto, que é o sítio onde mais gosto de viajar e que, normalmente, me permite ler sem problemas.

Não ouço nada do barulho ensurdecedor que existe à minha volta. Tão pouco vejo ou reparo em quem quer que seja. Concentração absoluta, que o fim do capítulo está mesmo a chegar.

Acabou.

Levanto os olhos e ouço duas jovens (trinta, trinta e cinco anos):

- Ainda não me habituei bem, mas já consigo ler no ipad.

- Eu não sou capaz. Preciso de folhear o livro, sentir o papel...

- Mas é muito prático e muito mais barato. Estou a ler um, bem sei que é inglês, mas custou 3 Euros. Se fosse em papel, não custaria menos de 15.

Pois é! E o cheiro do livro? E o ritmo das folhas? E a capa? E o ritual da compra?

Na próxima semana vou à Feira do Livro. Só ainda não sei o dia!

terça-feira, 14 de maio de 2013

Livros (lidos ou em vias disso)

O final da tarde do passado domingo foi passado no CCC, a assistir ao lançamento do livro "A redenção das águas - As peregrinações de D. João V à vila das Caldas", de Carlos Querido. 

Romance histórico, bem escrito (posso testemunhar porque já o li), o livro relata as vindas do Rei magnânimo às Caldas, na procura de remédio para as suas maleitas nas águas sulfurosas, e conduz-nos numa viagem pelos costumes, privilégios, subjugações, amor e intrigas da época, deixando-nos, nalguns casos, a dúvida sobre se estamos no século XVIII ou no XXI.

A apresentação foi precedida de uma lição de história das Caldas, da minha amiga Isabel Castanheira, que, socorrendo-se de muitas páginas da literatura, traçou paralelos entre o ontem e o hoje que devem ter feito corar muita gente.

Do livro, cuja leitura se recomenda vivamente, um pequeno excerto:

"(...) O povo sabe que não pode aspirar ao luxo e ao conforto do rei e da corte que o rodeia, mas essa impossibilidade não lhe traz qualquer sofrimento. Cada um conhece o lugar que lhe foi destinado na vida terrena. À Igreja incumbe a tarefa de dizer ao povo, do alto dos seus púlpitos, que, se aceitar com resignação e sem revolta a condição desta vida efémera, alcançará o único desígnio que verdadeiramente interessa, a eternidade abençoada, um lugar no céu, no tempo sem limite. Abençoados clérigos que sossegam os espíritos simples e mantêm tranquila a multidão. Bem merecem os privilégios, as mercês e as dádivas que recebem das mãos generosas e reconhecidas do soberano. O rei não poderia ser feliz com um povo revoltado contra a sua condição. E a felicidade do rei é a felicidade do povo.(...)"

A redenção das águas
Carlos Querido
Arranha Céus (2013)

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Palavras bonitas

Para a minha mãe, que faria hoje 90 anos, se por cá ainda permanecesse, como era justo.

REMINISCÊNCIA

Prossegue o pesadelo.
Feliz o tempo, que não tem memória!
É só dos homens esta outra vida
Da recordação.
E tão inúteis certas agonias
Que o passado distila no presente!
Tão inúteis os dias
Que o espírito refaz e o corpo já não sente!
Continua a lembrança dolorosa
Nas cicatrizes.
Troncos cortados que não brotam mais
E permanecem verdes, vegetais,
No silêncio profundo das raízes.

Penas do Purgatório
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1976)

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Lagoa de Óbidos

Há cerca de três anos Contente conquistou lugar aqui, apesar de se apresentar cansado e, aparentemente, sem qualquer utilidade.
Todavia, quem passear à beira da Lagoa poderá verificar que Contente voltou às lides, remoçado e com boa companhia.
Talvez tenha sido a crise que o obrigou a voltar, à procura de um pouco mais de sustento para a mesa, talvez as companhias tenham ajudado, talvez, talvez ...
O facto é que o Contente voltou a navegar nas águas calmas da Lagoa, na companhia do Feliz e de muitos outros, alguns com nomes bonitos de mulheres ou nomes de mulheres bonitas, vá-se lá saber.
A Maria Alice está de pernas para o ar. Um destes dias volta-se ... e vai também navegar e pescar. 



segunda-feira, 29 de abril de 2013

Quotidiano

Ocupam todo o espaço da escada rolante, em amena cavaqueira sobre o dia de labuta que já acabou.

Devem trabalhar na mesma empresa, porém em secções diferentes. Não se encontraram e estão, agora, a colocar a "escrita em dia". Falam (alto) sobre o que fizeram, completamente alheias ao que se passa à sua volta.

Habitualmente o espaço da esquerda da escada rolante é deixado vago para quem tem pressa ou gosta de descer os degraus, apesar de eles nos levarem até às profundezas, sem necessidade de qualquer esforço.

Tenho alguma pressa e sou dos que gostam de descer.

Atrás de mim já surgem alguns suspiros de enfado.

- Quer passar?

- Se não se importa ...

- Se tivesse pedido, já tinha passado! É preciso pedir licença, sabia?!

- Pois ... não pedi, desculpe.

E lá fui, escada abaixo, à procura da serpente subterrânea que me levará ao autocarro. Para a próxima, peço logo licença!

É a minha obrigação e ... eu não sabia!

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Prevaricando ...

No dia da Liberdade, um pequeno passeio pelas infra estruturas de lazer que estão quase concluídas nas arribas da Foz do Arelho, violando, com cuidado, os sinais proibitivos que lá se encontram.

E surgiu isto, feito com essa máquina que nos permite contactar e fazer tantas outras coisas, entre as quais estas fotos, com a qualidade que um fotógrafo de "meia-tigela" pode ter.



quinta-feira, 25 de abril de 2013

25 de Abril

No ano passado fiz aqui um matemático trocadilho com o meu aniversário redondo, cuja comemoração coincide, há trinta e oito anos, com a da liberdade em boa hora restaurada pelos militares de Abril, em 1974.
Os tempos de esperança apanharam-me com pouco mais de 20 anos, a cumprir serviço militar, ávido de fruir, de aprender, de crescer, de viver, com uma vontade indómita de contribuir para um país melhor, mais justo, onde o respeito pelas gentes fosse o lema, onde a arrogância do poder, qualquer um, não existisse, onde as portas do saber e da saúde fossem franqueadas a todos, independentemente do berço, do credo ou da cor.
Ainda não perdi os valores, já me vai escasseando a capacidade de conviver com a arrogância, a má educação, o desprezo com que, diariamente, convivo, "submetido" a gente eivada de convencimento da detenção da verdade absoluta, de argumentação fácil mas desprovida de lastro, que mascara ignorância e cheira a mofo.
Os anos trazem-nos comichão, irritabilidade, diminuem-nos a paciência e dão-nos a presunção, perigosa, de já não valer a pena ouvi-los, porque não sabem o que dizem nem dizem o pouco que sabem. 
Ao contrário do que esperava, temos uma nova geração com medo de exprimir ideias, de contraditar opiniões de outrem, a remeter-se ao silêncio, a ser subserviente, a ceder (e a pisar) com facilidade, a ser usada e abusada, a não ter futuro à vista.
Voltamos a ter uns quantos "iluminados", agora pela cola, que detêm a sapiência e, com ela, decidem e determinam hoje, o branco, amanhã, o preto, com a mesma ligeireza com que bebem o sumo e mastigam o croquete.
E o país, com oito séculos de história, a assistir e a achar normal!

sábado, 13 de abril de 2013

(In)dependência nacional

Uma imagem vale mais que mil palavras ...

Quotidiano laboral

Todos os dias a encontro.
Manhã cedo, lá está ela no banco da paragem do autocarro, na soleira da porta de um prédio, no passeio, no sítio onde por certo passou a noite, com os cartões que transporta juntamente com as duas malas de viagem que arrasta.
Andrajosa, suja, com vários vestidos uns em cima dos outros (por causa do frio ou por falta de móvel para os guardar?), cabelos desgrenhados e sebentos, por vezes fumando um cigarro, talvez antes uma beata, paira pelas ruas da Baixa pombalina, normalmente na esquina da Rua do Comércio com a da Prata, sempre rodeada de pombos.
Grita com ela, com quem passa e com os pombos, que debicam da mesma caixa de onde os seus dedos sujos retiram qualquer coisa que não distingo que seja e levam à sua boca. Não tem dentes, pelo menos que se vejam. Move os lábios de forma impressionante, e mastiga. A mão, quando vai à caixa, enxota os pombos.
Pragueja. Insulta. Diz palavrões, que entendo pela terminação.
Ao almoço e no final da tarde já não a vejo. 
Amanhã lá estará, pela manhã, bem cedo. 
Terá nome? É a velha dos pombos ...

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Finalmente!

Hoje estou deprimido!
O Relvas já não é ministro e vai perder a licenciatura que tanto trabalho lhe deu a arranjar. Consta que a licenciatura andava a passear pelo jardim do Campo Grande e um dos homens que tratam das flores viu-a e guardou-a no bolso. Está com esperanças de chegar a ministro ou pelo menos a secretário de estado. Experiência tem, faltava só o canudo. Já o achou.

Voltando ao início: como é que o homem vai subsistir, ainda por cima agora que está para casar e com a vida difícil como está ... tenho pena e vejo o futuro do senhor com muita dificuldade.
Talvez possa tentar a vida artística, quem sabe. Voz não tem muita mas arte sobra-lhe! A experiência da Grândola não foi feliz, por desconhecimento da letra e falta de voz, por culpa do Zeca que fez aquilo muito puxado.
É melhor começar por esta, do Sérgio Godinho, que tem mais aliciantes e pode dar resultados imediatos.