sexta-feira, 28 de março de 2014

Palavras bonitas

Uma consulta ao Youtube por força de um mail enviado e eis que surge Bethânia a dizer o Cântico Negro, de José Régio, sublime como sempre, na divulgação da poesia e dos poetas de língua portuguesa.


E já agora, o mesmo poema (aqui completo) com a força da voz de João Villaret.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Dia Mundial da Poesia

Dia do Mar
A minha esperança mora
no vento e nas sereias -
É o azul fantástico da aurora
E o lírio das areias

Sophia de Mello Breyner Andresen

Trova
Beira da serra da Estrela
Onde o sol finge de lua ...
Soturna e magra courela
Que lã de ovelhas debrua ...

Miguel Torga

Dá-me a tua mão por cima das horas.
Quero-te conciso.
Adão depois do paraíso
errando mais nítido à distância
onde te exalto porque te demoras.


Natália Correia

domingo, 16 de março de 2014

16 de Março

Faz hoje 40 anos, era sábado, estava um dia de sol lindo e o céu indiciava que em breve chegaria a luz da liberdade e da esperança. O Regimento de Infantaria 5, sob o comando do meu antigo comandante de companhia Virgílio Varela, esteve cercado por tropas do exército e por militares da GNR, armados de espingardas Mauser, que já ninguém utilizava. Os GNR montaram um segundo cordão de segurança, lá bem no cimo do Moinho Saloio, procurando, com todo o cuidado, arranjar o sítio para se deitarem com o quartel na mira. 
Porque "reina a ordem em todo o país" e hoje houve comemorações nas Caldas, não digo mais nada...

Multibanco

O almoço tinha sido animado pela cavaqueira habitual, pela "escrita em dia", pelas novidades nos cortes nas pensões de todas eles (só eu ainda trabalho), pelos netos, pelos achaques, a conversa habitual de quando nos juntamos para isto, sobre o pretexto de almoçarmos.
Desta vez ficamos pela cidade e, porque era sábado, havia cozido à portuguesa, que a todos apeteceu e deliciou. O Sr. Júlio, sempre delicado, preocupado em saber se estava tudo bem, se chegava, se queríamos mais hortaliça, ou carne, ou enchidos, inexcedível, como é seu costume. Conheço-o há bem trinta anos, e sempre foi assim.
No final, recolhi as notas dos dois outros amigos, nas "contas à moda do Porto" e fiquei em último, para pagar. A brincar, disse:
- Sr. Júlio, cuidado com esses dois ... são capazes de sair sem pagar!
- Convosco estou descansado, mas olhe que há cerca de 15 dias ... fiquei sem mais de 60 euros.
- ???
- Não tinha o multibanco a funcionar e pai, mãe e dois filhos foram levantar o dinheiro à máquina. Até hoje ... esqueceram-se de voltar cá! Fico aborrecido, zangado mesmo, por não ter recebido o que é meu, mas revolta-me muito mais a explicação que aqueles pais deram aos miúdos e os valores que lhes transmitem!

sábado, 15 de março de 2014

A dívida, a Pátria e o futuro

Apetecia-me transcrever, na íntegra, a crónica que Miguel Sousa Tavares publica no Expresso de hoje, mas vou ficar pela transcrição parcial, por uma questão de espaço e de respeito pelo autor.
Já por diversas vezes reproduzi aqui opiniões de Miguel Sousa Tavares, pessoa que apenas conheço por ser figura pública, como escritor e como filho de uma grande poetisa (Sophia de Mello Breyner Andersen, de quem gosto muito, como é fácil perceber) e de um advogado de "antes quebrar que torcer" (Francisco Sousa Tavares). 
Tenho a convicção firme de que MST não beneficia nada como as minhas citações, mas hoje a crónica é, mais uma vez, certeira, actual e mortífera. Vale a pena lê-la toda e aqui fica o aguçar do apetite para que isso aconteça e a esperança de que os meus netos um dia a leiam e fiquem com a certeza de que "há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não" (Manuel Alegre) e que "vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar" (Sophia).

"Segundo percebi, o senhor Presidente da República, autoprefaciando-se, explicou ao país, de calculadora em punho, que a dívida do Estado, depois de atingido o estratosférico número de 129% da riqueza produzida anualmente em Portugal, só era sustentável se aceitássemos viver na miséria durante uma geração inteira - e, mesmo assim, se durante 25 anos se repetisse um milagre económico que até hoje não aconteceu em nenhum dos 40 anos que levamos de democracia. Ou seja, naquela sua função de sirene de alarme que tanto cultiva, Cavaco Silva declarou a República oficialmente falida e a dívida pública impagável.
Devo dizer que concordo inteiramente com as contas e o diagnóstico do Presidente, pois que outra coisa não venho escrevendo aqui, de há anos a esta parte - e não sou professor de Finanças Públicas. Apenas duas coisas me surpreendem: que, após sete anos de mandato presidencial ( e dez como primeiro-ministro) só agora e desta forma "nonchalante", Sua Excelência nos faça esta revelação. E que, tendo meticulosamente feito as suas contas e não podendo ignorar a inevitável conclusão delas resultante, não lhe tenha ocorrido uma palavra, uma sugestão, um conselho amigo, um afago, para nos dizer como é que agora iremos viver durante a próxima geração. 
E isto, justamente no momento em que soavam trombetas de júbilo com o "milagre" da nossa retoma económica e o ambiente, ajudado pelo sol da Primavera, parecia enfim desanuviar-se um pouco. O "timing" de Cavaco Silva foi o pior possível. Foi uma desfeita.
(...)
Podemos, é claro, acabar com o SNS para pagar a dívida. Ou acabar com a escola pública. Ou com as Forças Armadas. Ou com qualquer pensão de reforma. Ou, como sugere o Presidente, passar uma geração inteira a trabalhar mais, receber menos e viver como há 50 anos, apenas para pagar aos credores.
Nenhum destes caminhos é a solução: nem a miséria garantida nem a bravata isolada. O caminho é procurar conjurados para uma revolta. Juntar tantas forças dos fracos que elas se transformem numa força face aos fortes. E exigir a mutualização da dívida, ao menos parcialmente. A União Bancária. A uniformização fiscal e o fim das "off-shores". A redução da taxa de juro da dívida institucional e dos empréstimos futuros concedidos aos Estados a 1% - o mesmo que os bancos pagam junto do BCE. O serviço da dívida limitado a um referente do crescimento económico - porque não se pode pagar sem criar riqueza sobejante e, se o custo da dívida é sufocante, não é possível criá-la.
Mas, para seguir este caminho, precisamos, à partida, de outra maioria no Parlamento Europeu, de outro governo e de outro primeiro-ministro em Portugal. De alguém que não tenha vergonha de nos representar no Conselho Europeu, que não ande de mão estendida a vender vistos de residência a chineses e quintas no Douro a angolanos. Que não venda a língua, através de um Acordo Ortográfico que, além de tudo o resto que nos envergonha, é um acto de prostituição diplomática. Que não venda, a troco de petróleo ou de esmolas para o Banif, um lugar na CPLP a um país de bandidos como a Guiné Equatorial. E que, consequentemente, não tenha o dr. Machete como ministro dos Estrangeiros.
Era disso que precisávamos agora: de um manifesto por um governo e um Presidente capazes de defenderem Portugal. (...)

Como eu gostava de ter sido o autor desta prosa...

sábado, 8 de março de 2014

Palavras bonitas

DE TARDE

N'aquelle "pic-nic" de burguezas,
Houve um cousa simplesmente bella,
E que, sem ter historia nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão de bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima d'uns penhascos,
Nós acampámos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão de ló molhado em malvasia.

Mas, todo purpuro a sahir da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro de papoulas!

Cesário Verde
O livro de Cesário Verde
Fac-simile da 1ª. edição (1887), editada pelo jornal Público

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Quotidiano

A chuva e o vento não davam tréguas, o estômago recomendava aconchego, a cautela determinava viagem curta, apesar do guarda-chuva e da gabardina.
A casa tem um serviço ligeiro, acessível e rápido. Vou lá quando não me apetece comer "de faca e garfo" e o tempo não é muito. Fica ao fundo da rua e isso facilita, principalmente em dias de temporal.

Não havia ninguém no estabelecimento. Sou atendido, como sempre, de forma simpática e afável.  Surge o comentário sobre o tempo e a crise, causas que determinam a ausência de clientes. A falta de trabalho e o não haver mais ninguém por perto dá a oportunidade do desabafo e, no mais eloquente vernáculo, os governantes, antigos e actuais, são trucidados com a atribuição, inteira, da responsabilidade do que está a acontecer aos pequenos comércios.

Enquanto aguardava pela canja de ga_______ e pelo SLB (sumo de laranja e banana) - grafados exactamente assim no anúncio respectivo - tomo nota, num guardanapo, dos escritos que figuram nas ardósias fixadas à parede, a giz e com letras bem desenhadas:

"Coma hoje, para sobreviver. Amanhã pode não poder!"

" A receita ancestral dos produtos da Nova Pombalina é o culminar de uma alquimia de sabores e de saberes transmitidos ao longo de vários anos."

"Os nossos sumos são uma sinfonia de sabores orquestrados por quem sabe."

"O profundo conhecimento das matérias primas e educação no sentido do gosto traduzem-se numa experiência de sabores."

Proeza, nos dias de hoje: nenhuma das mensagens tem erros ortográficos e não há "inglesismos".

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Quotidiano

A "velha dos pombos" continua por lá, ora sentada num dos bancos da Rua da Vitória ora na soleira da porta de um prédio da Rua Augusta (a tal que, a par do Cais da Ribeira, no Porto, deve ser visitada pelo menos uma vez na vida), indiferente à chuva e ao frio, sempre rodeada pelos pombos, a fazer anotações no bloco que retira da saia, juntamente com o lápis, grosso, com que escreve. Ralha consigo, com os pombos, com os transeuntes que caminham indiferentes, com o tempo, com a vida. Ser-lhe-á indiferente, a vida, como a sua presença é aos caminhantes apressados? Que irá naquela cabeça quando, de manhã, arrasta as malas e se desloca do "alojamento" nocturno para o(s) sítio(s) onde irá passar o dia? Deve preocupar-se pouco e manter-se alheia a todas as polémicas que, tal qual o temporal, têm assolado o país nestes últimos tempos.
Dos quadros de Miró, que o homem do BPN comprou, decerto com grande sacrifício, para figurarem no balanço do Banco dando-lhe o toque chique que é sempre útil, às declarações sem nexo do Primeiro-Ministro e do seu "ajudante" para a Cultura, Barreto de sua graça, às trapalhadas com os investigadores (aqui não sou "tocador" de ouvido) agora culminadas com os vistos "gold" oferecidos a  quem vier para este cantinho solarengo tomar o lugar dos que foram forçados a abandoná-lo, passando pelos discursos inócuos e vazios de sentido de toda a classe política, oposição incluída, dos números do desemprego que provam ser a estatística a única ciência exacta, das praxes e do Meco, da chuva e do vento, dos alertas e suas cores, do mar e das marés, tudo surge em catadupa, "mastigado" e "deglutido", para ser consumido de forma rápida e usando apenas os olhos e os ouvidos, desprezando o potencial que a cabeça guarda no seu interior (às vezes tenho dúvidas se isso não será só para alguns).
Não é fácil ser "padre nesta freguesia", mas faz-se um esforço … lê-se a última crónica de António Lobo Antunes na Visão e fica-se fascinado com a forma, sublime, como se descreve a amizade por um irmão que partiu; no cinema, vê-se Steve McQueen recordar que a escravatura existiu até há bem pouco tempo (não existirá ainda?) em "12 anos escravo", Brian Percival relembrar os horrores da guerra, os crimes do nazismo e a importância de aprender a pensar, na adaptação do romance de Markus Zusak "A rapariga que roubava livros" e, para quem ainda tivesse dúvidas, Martin Scorsese ilustrar, com base numa história verídica, ao que leva a ambição desmedida e a falta de valores, em "O Lobo de Wall Street".
Mantendo sempre as rotinas, está quase no fim o romance de Mário Ventura, "Évora e os dias da guerra", passado após a restauração da independência, na tomada da cidade alentejana pelos castelhanos comandados pelo filho de Filipe IV, que culmina na batalha do Ameixial, já no reinado de D. Afonso VI  e, do Expresso desta semana, reter a crónica de Miguel Sousa Tavares e o inconformismo de Nicolau Santos, demonstrando que ainda vai havendo teimosos, tal qual o meu pai que tem quase 92 anos e o meu neto, do meio, que ainda não fez 3.
E por aqui me quedo!

sábado, 25 de janeiro de 2014

E a noite roda

Confesso que a expectativa não era muito grande, embora a contracapa despertasse curiosidade e a distinção com o Grande Prémio de Romance da Associação Portuguesa de Escritores fosse garantia de obra que valia a pena ler.
Duas pessoas conhecem-se em Jerusalém na véspera da morte de Yasser Arafat e … a partir daí, desenrola-se uma história de amor em tempo de guerra, em viagem constante, sítios perigosos, com SMS, mails, notícias, telemóveis, miséria, guerra, amor, contradições, ansiedades, pressas, angústias.
Uma grande história, onde é difícil distinguir a realidade da ficção, um excelente livro, este primeiro romance de Alexandra Lucas Coelho.

domingo, 5 de janeiro de 2014

EUSÉBIO

Faleceu hoje um dos ídolos da minha juventude, que tinha cerca de dez anos mais do que eu.

Lembro-me, como se fosse hoje, dos grandes jogos do Benfica e da Selecção Nacional, quer pelos relatos que, nessa época, eram a fonte quase única da informação ao momento, quer pela televisão, que dava os primeiros passos nas transmissões directas, quer pelas presenças, poucas, no velho Estádio da Luz.

O Portugal-Coreia do Norte, disputado no Campeonato do Mundo de 1966, apanhou-me com 14 anos feitos há muito pouco tempo e em situação complicada da vida. Por tudo isso, é um marco, um hino ao futebol e uma recordação inesquecível.

Obrigado, Eusébio.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Balanço ou estatística

No final de cada ano é uso e costume fazerem-se os mais variados balanços, com gente de todas as especialidades a elencar o que de mais importante se passou no que está a terminar, dando lugar a um novo, no exacto momento em que, cumprindo a tradição, se comem as passas e se formulam os desejos.
As novas tecnologias permitem registos e análises, as mais diversas, proporcionando-nos evidências que, sem elas, dificilmente nos conseguiríamos lembrar. Contribuem para que os balanços sejam fiáveis e possíveis para qualquer tema ou acontecimento.
Tenho (quase) todos os meus livros numa base de dados (congeminada pelo meu filho, diga-se em abono da justiça), que me permite registar, para além do autor, do título, da imagem da capa, da edição, da colecção, o sítio onde está colocado, a data da compra e a data da leitura. 
Utilizando esse arquivo, posso fazer as mais variadas consultas e, por isso, ontem resolvi verificar quantos livros tinha lido em 2013. O "boneco" respondeu: 38
São muitos, são poucos, foram … milhões de palavras que passaram pelo crivo do meu cérebro, exprimindo ideias, relatando factos, contando histórias, evidenciando sentimentos. Ficarão guardadas nas gavetas da memória, à espreita de uma oportunidade de se exibirem e ganharem vida ou, o que é mais provável, a adormecerem num sono justo sem darem mais sinais de vida.
Um livro deixa sempre uma marca, maior ou menor, não importa. No conjunto deste ano, há vários que têm lugar mais destacado nas tais "gavetas" e não as deixam fechar. Um deles está ainda bem em cima do "móvel": As luzes de Leonor, de Maria Teresa Horta, mais de 1.000 páginas que acabei de ler em Maio e às quais voltarei um dia destes, para saborear.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Natal

NATAL CHIQUE


Percorro o dia, que esmorece
nas ruas cheias de rumor;
Minha alma vã desaparece
Na muita pressa e pouco amor.

Hoje é Natal. Comprei um anjo
dos que anunciam no jornal;
Mas houve um etéreo desarranjo
e o efeito em casa saiu mal.

Valeu-me um príncipe esfarrapado
a quem dão coroas no meio disto,
um moço doente, desanimado…
Só esse pobre me pareceu Cristo.

Vitorino Nemésio

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

As voltas do mar




A "aberta" fechou!

No final da tarde de Domingo, foi possível chegar ao Gronho sem quase molhar as sapatilhas.

E agora?

Respondam os técnicos …

sábado, 14 de dezembro de 2013

Palavras bonitas

À BELEZA
Não tens corpo, nem pátria, nem família,
nem te curvas ao jugo dos tiranos.
Não tens preço na terra dos humanos,
Nem o tempo te rói.
És a essência dos anos,
o que vem e o que foi.

És a carne dos deuses,
o sorriso das pedras,
e a candura do instinto.
És aquele alimento
de quem, farto de pão, anda faminto.

És a graça da vida em toda a parte,
ou em arte,
ou em simples verdade.
És o cravo vermelho,
ou a moça do espelho, que depois de te ver se persuade.

És um verso perfeito
que traz consigo a força do que diz.
És o jeito
que tem, antes de mestre, o aprendiz.

És a beleza, enfim! És o teu nome!
Um milagre, uma luz, uma harmonia,
uma linha sem traço …
Mas sem corpo, sem pátria e sem família,
tudo repousa em paz no teu regaço!

Odes
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1977)

domingo, 8 de dezembro de 2013

Nelson Mandela

"Luto contra a dominação, branca ou negra. Bato-me por uma sociedade livre e democrática e estou disposto a morrer por esse ideal."

" Não há poder na Terra que possa impedir um povo determinado de conquistar a liberdade."

"Não se trata do que se pode fazer pela África mas sim do que se pode fazer com ela."

"Este Nobel da Paz (1993) é um tributo aos que lutaram contra o apharteid. Aceito-o em nome deles!.

Já foi tudo dito sobre a morte de Nelson Mandela, ocorrida na passada quinta-feira, dia 5, após 95 anos de uma vida dura e cheia.
Nasceu a 18 de Julho de 1918, esteve preso pelo regime abominável do apartheid da África do Sul desde 1963 a 1990, depois de ter sido condenado a prisão perpétua.
O Expresso desta semana dedica-lhe um caderno especial e exclusivo, que vale a pena ler e conservar, e onde várias pessoas escrevem sobre a maneira de ser, de pensar e sobre a sua vida, dedicada, toda a ela a um ideal de igualdade, de humanidade e de paz.

"(…) Infelizmente, Mandela não deixa seguidores. Nem em África nem noutros pontos do mundo. E é por isso que só uma coisa não se lhe perdoa: o facto de, através do seu exemplo, nos demonstrar todos os dias quão pouco inspiradores são a esmagadora maioria dos líderes que actualmente governam o mundo e como a mediocridade vai campeando um pouco por todo o lado nas elites dirigentes. E como seria diferente o mundo e infinitamente melhor se houvesse um Mandela em cada um dos cinco continentes.(…)"
Nicolau Santos (jornalista do Expresso)

"…) Sem Mandela, e sem a sua bondade, o seu sacrifício e a sua insubmissão, a África do Sul teria sido um território de extermínio depois do apharteid, depois de ter sido o da crueldade durante o apharteid. Sem a sua grandeza moral, intelectual, política, metafísica, não haveria África do Sul, nem esta nem outra. Seria mais um Estado falhado, com uma guerra civil que se arrastaria até à exaustão dos guerreiros, muitos anos e muitos cadáveres mais tarde.(…)"
Clara Ferreira Alves (jornalista do Expresso)

"Conheci Nelson Mandela no dia 7 de Maio de 1973. Na famosa prisão de Robben Island estavam 368 presos políticos - 33 dos quais cumpriam pena de prisão perpétua, a começar pelo próprio Mandela. Foi uma visita de quatro dias, a primeira que fiz à Africa do Sul na qualidade de delegado-geral da CVI para África.
(…) dirigi-me à secção B, a das celas individuais, onde estavam Mandela e outros 27 líderes do ANC.  Eram todas idênticas, com uma área de 2,5x2,2 metros e uma janela para o exterior, de vidro e grades. Não tinham cama mas uma simples esteira de sisal e outra de feltro e, no inverno, cinco cobertores por prisioneiro. Todos se queixavam de que a esteira não os isolava suficientemente do chão de betão.(…)
Jacques Moreillon (Delegado da Cruz Vermelha Internacional para África)

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Badini disse que as coisas mortas vão com a água, naturalmente, seguem a corrente do rio, é isso que fazem os paus, as pedras, as folhas, os cadáveres, todos são empurrados para a foz, todos eles, enquanto os sábios e os salmões procuram a nascente, as causas das coisas, e, assim, tudo o que contraria a corrente está vivo, e a educação também é isso, é ir contra tantas coisas, não nos deixarmos arrastar para não nos tornarmos um pau seco a boiar nas águas. (...)"

Afonso Cruz
Para onde vão os guarda-chuvas
Alfaguara (2013)

domingo, 24 de novembro de 2013

Estranho


A descrição matricial acima reproduzida é de um terreno situado no distrito de Santarém, inscrito no Serviço de Finanças em 1970 como "terra de pousio com 2 oliveiras e dois carvalhos estranhos".
Não há nada de estranho no facto de uma terra de pousio ter 2 oliveiras e 2 carvalhos, mas já é muito estranho que os carvalhos sejam estranhos e ainda mais a razão pela qual assim terão sido classificados.
Não sendo provável que exista ume espécie biológica de carvalhos estranhos, estranho é o facto de assim terem sido classificados, para a posteridade e para a fiscalidade, dois seres que habitam o distrito de Santarém, talvez contra a própria vontade ou a vontade dos seus vizinhos.
- Serão estranhos por terem vindo de outras paragens sem ninguém saber de onde e sem serem convidados? 
- Terão algum defeito visível que cause estranheza a quem olha? 
- Algum "maduro" por ali os plantou sem cuidar de falar com as autoridades competentes?
- Terão comportamentos esquisitos?
- Usarão roupagens diferentes?
- Darão bolotas quadradas?
Poder-se-ão admitir e conjecturar milhentas hipóteses, mas que é estranho existirem 2 carvalhos estranhos numa terra de pousio com 2 oliveiras normais, não há qualquer dúvida.
Não é estranho, é estranhíssimo ...

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Língua portuguesa

O desenvolvimento frenético que o mundo regista obriga a que todos estejamos atentos ao que se passa à nossa volta, na procura da actualização constante das vertentes profissional e/ou pessoal, sendo certo que, por maior que seja o esforço, o saber há-de ser sempre infinito.

A actualização desse "saber" está na ordem do dia e há especialistas que se dedicam à causa de "alma e coração", debitando a sua sapiência salpicada de "inglesismos" e com a ajuda do inevitável "powerpoint".

Eis senão quando "no melhor pano cai a nódoa" … e aquilo que parecia uma aula bem estudada e alicerçada num saber motivador, transporta a "conjectura" do país como um facto bem interessante de seguir na conjuntura da formação, conjecturando quantas vezes a "conjectura" irá estar presente no lugar da conjuntura, que primou pela ausência.

Contei várias!

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Recordando

Partiu hoje, após longo tempo de sofrimento, o meu amigo Zé Marques Paulo.
Companheiro de muitas lides, das noites de king aos rallys paper, das viagens pela Europa às experiências nas rádio "pirata", no futebol ou no vólei, nas histórias vividas e inventadas, ou nas recordações do Porto da sua meninice.
Amigo sempre preocupado com os outros, descuidando-se muitas vezes de si próprio, adorava os meus filhos e … "quem meus filhos beija, minha boca adoça".
De pensamento livre, a puxar para a anarquia, amante da Pátria, que venerava, dono de uma cultura invulgar, que não exibia.
Era … diferente!
Fico a dever-lhe muitos e bons momentos e guardá-lo-ei na memória como ele gostava: vivo, franco, amigo, alegre e … meio tonto!

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Quotidiano ou a falta de imaginação

Na passada quarta-feira, Paulo Portas debitou uma quantidade apreciável de palavras vazias de conteúdo, que deram a sensação de se estar perante uma "mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma" nas cem páginas (Marques Mendes apostou em 90 e falhou) que demoraram quase um ano a vir à luz e trouxeram a certeza de que, concluo eu, a reforma do Estado está tão perto de acontecer quanto a minha.
Ontem, como sempre, uma espreitadela apressada na Visão (a leitura vai ser no fim de semana) para ver/ler a crónica habitual de António Lobo Antunes - Um Dó Li Tá, uma delícia:

"(...) Existe um bando de meninos, a quem os pais vestiram casaco como para um baptizado ou um casamento. Claro que as crianças lhes acrescentaram um pin na lapela, porque é giro
- Eh pá embora usar um pin?
que representa a bandeira nacional como podia representar o Rato Mickey
- Embora pôr o Rato Mickey?
mas um deles lembrou-se do Senhor Scolari que convenceu os portugueses a encherem tudo de bandeiras, sugeriu
- Mete-se antes a bandeira como o Obama
e, por estarem a brincar às pessoas crescidas e as play-stations virem da América, resolveram-se pela bandeirinha e aí andam, todos contentes, que engraçado, a mandarem na gente
- Agora mandamos em vocês durante quatro anos, comem a sopa toda em lugar de verem os Simpsons.
No meio dos meninos há um tio idoso, manifestamente diminuído, que as famílias dos meninos pediram que levassem com eles, a fim de não passar o tempo a maçar as pessoas nos bancos, de modo que o tio idoso, também de pin
- Ponha que é curtido, tio
para ali anda a fazer patetices e a dizer asneiras acerca de Angola, que os meninos acham divertidas e os adultos, os tontos, idiotas. Que mal faz? Isto é tudo a fazer de conta.
Esta criançada é curiosa. Ensinaram-me que as pessoas não devem ser criticadas pelos nomes ou pelo aspecto físico mas os meninos exageram, e eu não sei se os nomes que usam são verdadeiros: existe um Aguiar Branco e um Poiares Maduro. Porque não juntar-lhes um Colares Tinto ou um Mateus Rosé? É que tenho a impressão de estar num jogo de índios e menos vinho não lhes fazia mal. (...)

Vale a pena ler a crónica completa mas, para isso, comprem a Visão.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

A sopa dos pobres

Hoje observei, uma vez mais, a distribuição de alimentos que equipas de voluntários fazem diariamente em vários pontos de Lisboa.

Desta vez foi junto a Santa Apolónia que presenciei umas dezenas de pessoas, de idades várias, andrajosas ou razoavelmente vestidas, em fila ordeira, aguardando a sua vez de receber a embalagem de plástico com alguma coisa de comer, talvez, para muitos, a primeira e única refeição do dia.

No ritual do costume e após ter jantado à mesa, abri o computador para ver o correio virtual que, todos os dias, sem "carteiro a tocar sempre duas vezes", chega à minha caixa. Uma dessas "cartas", que o meu amigo M.V, me endereçou, trazia estas duas fotografias, que dispensam legenda ou comentário, pela eloquência que evidenciam.


quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Livros (lidos ou em vias disso)

Acabei de o ler há pouco, mas antes de o fazer ocupar o lugar que lhe cabe, por direito próprio, na "biblioteca" cá de casa, não resisti a transcrever o final:

"(...) Não soube nada acerca do que foram contar ao Einar nem de como o consolaram. Estaria ele agarrado à caçadeira, ganhando coragem, medindo o plano quando, subitamente, não havia o que decidir. Percebi absolutamente que o amava. E levava dúvida nenhuma de ser amada. Teria a vida inteira para lidar com esse sentimento. Sabia que me perdoaria. Pensei. Quem não sabe perdoar, só sabe coisas pequenas."

A desumanização
Valter Hugo Mãe
Porto Editora (2013)

terça-feira, 8 de outubro de 2013

José Saramago

O Blog tem andado em estado vegetativo, em hibernação, em descanso, a ver onde chega a desfaçatez, a apreciar as voltas, reviravoltas e cambalhotas do mundo político, a deliciar-se com a nova dinâmica das autarquias, a apreciar os conselhos e as opiniões de Belém e a preparar-se para um novo ano, resignado, condenado à crise e aos ditames de quem, com muito sacrifício, vela por nós.
Hoje regressa apenas para assinalar que a atribuição do Nobel da Literatura a José Saramago foi há 15 anos e deixar aqui expresso, uma vez mais, o apreço por toda a obra do grande escritor e vincada a falta que faz o seu comentário certeiro, arguto e sem peias.

domingo, 22 de setembro de 2013

Leituras de fim de semana

EXPRESSO
Um sol enganador - Miguel Sousa Tavares


Em lugar de agregar municípios ou freguesias dos grandes centros urbanos, o Governo extingue freguesias do interior que, em muitos casos representam o último resquício da função social e política do Estado. Assistindo, sem nada fazer, ao contínuo despovoamento do país interior, fecha mais linhas férreas, tribunais, centros de saúde e escolas, invocando razões orçamentais e demográficas tornadas então inevitáveis. E, a troco de 600 milhões de euros, avança para nos tornar o único país do mundo sem correios públicos, dando aos felizes vencedores da privatização dos CTT uma licença bancária de bónus, que eles irão acrescentar às poupanças geradas com o encerramento de inúmeras estações de correios, gerindo um serviço público essencial à unidade territorial do país com uma irrebatível lógica de mercearia. Aos CTT, irá, em próximas oportunidades, acrescentar a TAP, as Águas e a Caixa, a parte rentável da CP e os Estaleiros de Viana (deliberadamente inviabilizados pelo senhor Ministro da Defesa). E a juntar ainda ao que já privatizou por completo: aeroportos, produção e distribuição de energia eléctrica. Privatiza-se o que dá dinheiro, mantém-se público e financiado por swaps e PPP o que perde dinheiro.
E enquanto assim desmantela o que demorou décadas ou séculos a construir, enquanto dá ordem de expulsão ao interior e entrega as terras abandonadas às celuloses e aos incêndios, que depois piedosamente lamenta, o "Governo de Portugal" (como eles gostam de ostentar nos pins das lapelas) trata de liquidar também qualquer veleidade de futuro, enquanto nação independente.(...)

A escola pública - valter hugo mãe
(...) Torna-se cada vez mais insuportável a notícia diária da paulatina destruição da escola em Portugal. O nosso país de pobres a aumentar está a assistir à sua lenta estupidificação. Tudo se prepara para que as gerações seguintes se bastem a trabalhos braçais, regressem talvez à lavoura, depois de tanta Europa nos ter pago para acabar com a agricultura, e se deixem governar cordeiramente, sem capacidade de contraditório, sem sequer autoestima para se considerarem incluídos na grande equação da cidadania e da escassa felicidade.
Tudo se prepara para que os nossos alunos aprendam mais e mais inglês pasra que se fitem na abstracção do imenso estrangeiro e partam. Nunca, como agora, se procurou tão avidamente produzir receita com as divisas dos emigrantes. Importa que todos saiam do país, produzam riqueza fora daqui e enviem o que puderem, para que seja o extra gratificante para a política de desmantelamento que cá dentro se opera. É muito fácil, num Portugal sempre desvitalizado, em que o povo foi menorizado durante décadas a fio de ditadura, levantar de novo o desapego e até a repulsa. Os jovens licenciados que hoje emigram fazem-no revoltados, sem vontade de respeitar uma país que claramente os rejeita. E um país tem de servir exactamente para o contrário disto. A verdadeira escola serve exactamente para o contrário disto.
Há uma euforia bizarra na recondução da escola pública ao terceiro mundo. As turmas outra vez enormes, notoriamente imprestáveis para garantir qualidade a cada um dos seus elementos, tornando o professor mais uma espécie de ama de luxo do que alguém a quem dão e exigem a oportunidade da instrução. A seguir assim, a escola pública servirá apenas como gigante ATL nacional. Em muitos casos, ela já é um ATL gigante, sem meios para mais do que tomar conta dos miúdos durante o período de trabalho dos pais.(...)

domingo, 15 de setembro de 2013

Palavras bonitas

AUSÊNCIA

Num deserto sem água
numa noite sem lua
num país sem nome
ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

Sophia de Mello Breyner Andresen
Mar Novo

sábado, 7 de setembro de 2013

Negócio

- Grande negócio!

A alegria era evidente e o entusiasmo contagiante. O sorriso de "orelha a orelha" denunciava que algo de muito importante tinha acontecido naquele dia. Era sexta-feira e, como habitualmente, fazia-se a reunião de balanço da semana e de preparação da seguinte.

Era o tempo em que a debulha do trigo se fazia numa eira de circunstância, normalmente instalada numa terra de pousio cedida por um agricultor da região.

Já se ouviam rumores de que, na América, o trigo era colhido e de imediato debulhado pelas grandes ceifeiras debulhadoras. Dizia-se que, com apenas um homem e em um dia, se ceifava mais na América do que em Portugal na época toda. As máquinas ceifavam, debulhavam, ensacavam e enrolavam a palha, tudo automático e sem outra intervenção que não a do condutor.

Dizia-se ... mas, por cá, continuava-se a ter grandes ranchos de homens e mulheres, que segavam o trigo e o atavam em rolheiros, que as galeras, as carroças e os poucos tractores transportavam para as eiras. Nesse ano, a debulhadora estava instalada na Foz, ali a dois passos de uma das quintas, onde se tinha semeado bastante e a colheita parecia ir ser boa. Faziam-se palpites e acreditava-se não ter menos de quinze sementes.

A máquina era enorme, deslocava-se por si, de forma muito vagarosa, levando acoplada a enfardadeira.

Os atados do trigo eram colocados em grandes medas e o dia da debulha marcado pelo encarregado, de acordo com a ordem de chegada e com o "peso" do agricultor. O custo do trabalho era pago em cereal, com retenção da maquia ajustada, logo no início da debulha.

Na eira, a azáfama era enorme e o pó insuportável. O trigo era ensacado em sacas de serapilheira, atadas com o barbante que o homem a quem competia esse trabalho tinha cortado previamente do rolo e que lhe enchia os bolsos. Da enfardadeira, colocada na traseira da debulhadora, saía o fardo de palha, um paralelepípedo atado com três arames.

- Vendi 1.000 fardos de palha a 4$50 cada! E na eira! O homem vai carregá-los amanhã e já me deu o cheque!

Cheques, na época, circulavam pouco e não eram usados habitualmente em negócios de ocasião, como este tinha sido. Só aos clientes habituais se autorizava este luxo.

Ficou o cheque no cofre, para no sábado, de manhã, se ir "rebater" ao Banco Lisboa & Açores. Na ida semanal ao Banco, levavam-se todos os cheques recebidos na semana e trocavam-se pelo dinheiro necessário para pagar as jornas, depositando-se a diferença na conta. Se a receita da semana não chegava, o patrão, na reunião da sexta-feira, entregava um cheque, para reforço da caixa.

A pasta transportava o dinheiro necessário, bem trocado em notas e moedas, para ser fácil pagar a cada um o (pouco) salário que lhe cabia na semana, de acordo com as presenças anotadas nas folhas de férias, até sexta-feira, e completadas no sábado, antes de se proceder ao pagamento. 

- Esta semana tem cinco dias e um quartel!
- Na segunda-feira fui ao enterro dum tio ...

A lista do desdobramento da verba era entregue em conjunto com os cheques, e o Sr. M. ia ao interior do banco e voltava com tudo muito bem organizado, as moedas em rolinhos, as notas em macetes.

Na semana seguinte, a entrada no banco teve uma saudação especial.

- Tenho um presente para ti!
- ??

- Um cheque devolvido por falta de "chapéu".

Nunca tinha acontecido, mas a surpresa não foi grande ao confirmar que era o cheque da palha. Tínhamos feito um grande negócio na venda. O preço e as condições tinham sido extraordinárias. Só nos faltou receber o dinheiro ... mas isso foi apenas um pequeno pormenor.

Férias e mobilidade

Exactamente um mês de férias teve o Blog.
Também tem direito, coitado, sempre aqui fechado, sem sair do pequeno écran, sem ver o mar, sentir a força das ondas, o calor do sol, o vento da Foz. 
Espero que se tenha divertido e descansado!
O "escritor" já voltou ao ritmo normal, deitando-se quase "com as galinhas" e levantando-se ao "cantar do galo". 
No regresso, descobri que os meus netos decerto já poderão inscrever-se na licenciatura em presidências de câmara e que terão grandes possibilidades de correr o país todo, concorrendo, em cada quatro anos, a um concelho diferente.
Assim vai a mobilidade ...

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...)A escola é uma casa onde nos sentamos e a professora fala por nós. Na escola as palavras da professora chegam ao mesmo tempo aos ouvidos de todos e os que estão na sala com a professora aprendem as mesmas coisas. Se eu quiser dizer ao Roberto qual é o maior rio do mundo, ele já sabe porque aprendemos juntos, de igual modo para os planetas e as montanhas e os animais da savana, por isso no recreio todos correm e fazem jogos ou ficam calados a comer pão com geleia.

Na escola aprende-se a ler mas não há livros a sério. Há um cartaz grande com as letras lá impressas e vão-se aprendendo uma a uma, depois duas a duas, depois as palavras pequenas e as maiores, tudo sem livros para ler. Já começámos a aprender algumas frases, mas a professora não nos disse de que histórias vêm.

Ontem repetimos várias vezes que "O Pedro pegou na pá do papá", mas não nos foi dito para que queria o Pedro a pá nem se o acto foi feito à revelia do pai ou com o seu consentimento. Em resposta às minhas perguntas, a professora ameaçou-me com castigos se eu não ficasse calado e quieto. Todos os meus colegas se riram e o Rudolf disse que o Pedro pegou na pá para me dar com ela na cabeça.

Acredito que aprenderia mais com a minha mãe do que na escola, mas ela diz-me que devo fazer o que fazem os outros meninos e saber as coisas que eles sabem. Eu perguntei-lhe até quando tem de ser assim, até quando tenho de saber o que os outros sabem e porque é que os livros têm histórias de outras avós. A minha mãe diz-me que os livros são para eu saber o que quiser para dentro, que posso lê-los e conversar com eles sobre todas as coisas de que não falo com os meus colegas.

Amanhã não há escola e sinto-me aliviado. Vou procurar livros complicados onde o Pedro pegue na pá para fazer um buraco enorme e enfiar lá a professora e o Rudolf. Só os meninos sem mãe deveriam ir à escola e, em vez da professora, deveria haver livros pelas paredes para cada um aprender as suas coisas. Assim eu podia chegar ao Roberto e contar-lhe do homem sozinho na ilha e ele falava-me de uma viagem até à lua numa bala de canhão. Não sei se vou conseguir ler os livros todos e gostava que alguém me contasse alguns.

O Roberto disse-me ontem que os livros não prestam, eu perguntei-lhe se tinha lido algum e ele disse-me que não porque não prestam. Na casa dele não há livros porque o pai e a mãe não sabem ler e por isso não precisam deles.(...)"

No meu peito não cabem pássaros
Nuno Camarneiro
D. Quixote (2011)