Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único. Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
terça-feira, 17 de agosto de 2021
segunda-feira, 16 de agosto de 2021
Consulta
O Carlinhos teve, desde criança, o Manelinho como o seu melhor e dedicado amigo. Cresceram na mesma rua, brincaram juntos às escondidas, jogaram à bola e ao berlinde, subiram as mesmas árvores, espreitaram os mesmos ninhos, frequentaram a mesma turma na primária e tiveram igual sorte no liceu.
No final do sétimo ano, fizeram as suas escolhas e, enquanto o Carlinhos optou pela Medicina, no Porto, o Manelinho preferiu a Veterinária, em Lisboa. A amizade permaneceu intocável, ainda que os encontros fossem rareando e se limitassem a alguns fins de semana e às férias. À medida que os estudos evoluíam, as discussões aumentavam e nunca havia acordo.
- Eu estudo para salvar vidas humanas, tarefa dificílima mas de uma nobreza enorme, argumentava o Carlinhos.
- Sem comparação com a minha. Os animais não se queixam. É preciso entender, estudar, analisar, perceber o que se passa, sem ouvir sequer uma palavra, devolvia o Manelinho.
As diferenças e a valia de um ou do outro curso mantiveram-se durante os anos de formatura e prosseguiram quando ambos iniciaram as respectivas actividades profissionais. Discutiam a utilidade e a dificuldade sem nunca chegarem a acordo, preservando sempre a amizade como bem acima de qualquer discordância.
Um dia (há sempre um dia), Manelinho sentiu-se mal, com dores no corpo, náuseas, cansaço, suores frios, dificuldades na respiração. Resolveu telefonar ao amigo.
- Preciso de uma consulta, com urgência.
- Dentro de 10 minutos, no meu consultório.
Ainda não tinham passado os 10 minutos e o Carlinhos já tinha a bata vestida, o estetoscópio ao pescoço, o medidor da tensão arterial a postos e o Manelinho sentado à sua frente.
- Conta lá o que se passa.
- Não, isso não. Não te vou dizer nada. Examina, analisa, faz o que quiseres, mas vais descobrir por ti, sem uma palavra minha. É assim que eu faço com os meus doentes, que não sabem falar.
Carlinhos não se fez rogado. Auscultou, examinou, apalpou, mediu, espreitou, numa consulta longa, dedicada e atenta. No fim, pesaroso, decidiu:
- Nada a fazer. Abate-se!
domingo, 15 de agosto de 2021
Melhores dias
Cumprida que está a primeira quinzena de Agosto, resta esperar que o calor diminua no interior, de forma a que possamos sentir melhorias no tempo oestino.
É forçoso que assim aconteça, para que não haja (ou haja poucos) fogos - ignições, como referem sempre os responsáveis - e para que se possa usufruir da praia, com pouco vento e algum sol. A água fria não preocupa nada, tão habitual se tornou.
Entretanto, nos últimos dias temos tido notícias do avanço dos "talibãs" no Afeganistão (ao que parece já estarão a entrar em Cabul), de (mais) um violento sismo no Haiti e, cá por este cantinho, ontem à noite, meia dúzia de malcriados quiseram enxovalhar o homem responsável pela vacinação, Almirante Gouveia e Melo, pessoa que eu não conheço nem me passou procuração para o defender. Valeu-lhes, na minha opinião, que o homem, para além da competência, tem muita paciência. Se assim não fosse, aquela gentinha teria experimentado uma boa palmada, apesar de nem cara terem para a saborear.
sábado, 14 de agosto de 2021
Livros (lidos ou em vias disso)
(...) "América limitou-se a amostrar ao acaso a panóplia exposta à sua frente. Havia peixinhos da horta com bechamel, rodelas de enchido catalão em pão de centeio, salada de endívias, croquetes de javali e cominhos, puré de lentilhas e pimentão, queijo de Serpa com broa, queijo de Azeitão, queijo Brie de Meaux, queijo Camembert da Normandia, queijo Cheddar, queijo Caerphilly, morcela com pêra Williams cozida com leite, boqueirões em vinagre, mexilhões com abacate, salada de cuscuz e cavala, ostras de Oléron, salada de tofu com brócolos, arenque fumado com sumo de lima e bagas de pimenta vermelha, papadums com chutney de tamarindo, bola de Sanfins, cascas de batata com manteiga salgada da Bretanha, um gazpacho branco com amêndoas e alho de Málaga, sopa de rabo de boi com vinho da Madeira, vichyssoise com batatas novas, polenta à moda da Lombardia, com cogumelos porcini, meloa com iogurte e vagem de baunilha, gambas fritas com chalotas, favas com torresmos, tâmaras com presunto fumado da Baviera, crepes de legumes e açafrão, rúcula selvagem com ricotta e gomos de toranja, folhados de trufas e alho francês, lascas de presunto de Chaves, húmus e ovas de carpa; havia bacalhau com natas, bacalhau à Brás, bacalhau à lagareiro, bacalhau com broa, bacalhau com molho aioli e feijão verde, aspic de camarão de Moçambique, truta salmonada no forno com cajus e vinho branco, empadas de caranguejo, postas de espadarte grelhadas, bifes de atum com funcho, arroz de tamboril, pataniscas com arroz de feijão, sashimi de lula e salmão com sopa de miso, enguias salteadas com mostarda e cherne estufado em vinagre balsâmico; havia vol-au-vent de perdiz com gratin de batata-doce perfumado com anis, feijoada à transmontana, leitão da Bairrada, arroz de capão, pernas de pato caramelizadas, coq au vin, muamba de galinha, porco assado com líchias, língua de vitela com esparregado de grelos, penne all'arrabiata, ganso com recheio de avelãs, lombo frio lardeado com pancetta, vindaloo de borrego, coelho à caçadora, fricassé de galinhola, espetada de moelas de galinha e manga, ovos de codorniz escalfados com farinheira, risoto de peru, chanfana de cabrito, medalhões de porco com rosmaninho, alheira de caça com batata-palha, salsichas de porco e alho francês, migas à alentejana, paella à valenciana, choucroute à alsaciana, sela de veado com molho de hortelã, bife à Marrare; havia bavaroise de alperce com pepitas de noz-pecã, bolo de mel de cana da Madeira, pastéis de Tentúgal, pastéis de Belém, barrigas de freira, farófias, leite-creme queimado, arroz-doce, aletria, sericaia, arrepiados de amêndoa, Sachertorte, tiramisu, melancia recheada com gelado de baunilha, sorvete de ginja e lima, panna cotta com coulis de medronhos, bolo de bolacha, semifrio com calda de rum, mousse de chocolate branco, mousse de caramelo, mousse de banana, dom-rodrigos, fatias de Tomar, maçapão colorido e moldado em forma de coleópteros e lepidópteros, bolo-rei, tarte de abóbora-menina, tarte de figo pingo-de-mel, suspiros, tigeladas, turrón de Alicante, profiteroles, Paris-Brest, peras cozidas em leite de coco e bolo brigadeiro; havia maçãs bravo-esmolfe, maçãs Pink Lady, maçãs Golden, maçãs Granny Smith, peras Rocha, peras Williams, uvas moscatéis, cerejas Burlat, cerejas Griotte, morangos, framboesas, groselhas, arandos, amoras, tamarindos, tangerinas, toranjas rosas, kiwis, mangas, papaias, ananases, abacaxis, anonas, acerolas, damascos, romãs, maracujás, líchias, melões, meloas, figos e dióspiros. Havia, dispostos em mesas compridas encostadas às paredes, garrafas e jarros contendo água mineral com e sem gás, água tónica, chá gelado, guaraná, ginger ale, sumos de fruta, salsaparrilha, cerveja pilsner, cerveja preta, sangria, vinho do Alentejo, do Dão, do Douro, do Ribatejo, clarete, lambrusco, amontillado, vinho de Borgonha, vinho Tokaj, vinho Riesling, chianti, aguardente, licor de amora, licor de menta, licor Beirão, licor de café, vodka, whisky, gin e anis escarchado. Copos de margarita, com grossas camadas de sal esmagado coladas ao bordo, preenchiam os espaços vazios.
sexta-feira, 13 de agosto de 2021
Viagem solar
Nasceu lá no Este europeu e mandou avisar toda a gente de que traria calor para esturricar os corpos, mesmo aqueles que já são castanhos de natureza. Os serviços de meteorologia e os orgãos de comunicação social, sempre muito atentos, difundiram a boa nova e os avisos com cores, alertando todos os veraneantes para os inconvenientes da exposição solar e os trabalhadores agrícolas para as proibições que estão em vigor, nos trabalhos e nas queimadas.
O Sol veio no TGV até Vilar Formoso, tomou lugar no Intercidades e desceu a Santarém num instante. Estava convencido que aí poderia apanhar uma outra composição com destino ao Oeste e que seria um pulinho até chegar à praia. Consultou os avisos, espreitou os mapas e nada, não encontrou nada. Ficou perplexo. Procurou o Chefe da Estação e indagou como poderia prosseguir a viagem.
- Só na Rodoviária e não vai ser fácil. Mas tente!
Conseguiu lugar num autocarro até Rio Maior e, cansado da viagem e dos transbordos, ficou por ali. Afinal de contas, a cidade é pacata e engraçada, até tem minas de sal, e os tipos lá do Oeste, que não se preocupam em arranjar comboios em condições, que esperem sentados.
Talvez amanhã ... ou na próxima semana! Tudo vai depender de as nuvens chegarem (ou não) a Rio Maior.
quinta-feira, 12 de agosto de 2021
Palavras bonitas
Buarcos, 20 de Agosto de 1937
Um pinheiro.Olho esta vida aqui no areal,Serena, ao vento, ao sol e ao cheiroDeste mar animal;Meço-lhe o pé seguro,A largura dos braços e a certezaQue tem de cima abaixo de ser duroConforme lhe mandou a natureza;E deito-me à sombra dele, no chão,- No mesmo chão onde eu não pude serNada mais que um bicho anãoA gemer.
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1989)
quarta-feira, 11 de agosto de 2021
Ciclismo
A Volta a Portugal em Bicicleta está a decorrer desde 4 deste mês e, de acordo com o calendário fixado, deverá terminar em Viseu, no próximo domingo, dia 15. Todavia, o malfadado "bicho" que nos acompanha há quase dois anos, poderá fazer mais estragos do que os já feitos e impedir, até, que a corrida chegue ao fim,
De acordo com as regras, como dizia hoje, bastante emocionado, o director da equipa Rádio Popular/Boavista, vamos para casa porque temos mais um caso positivo e, ao segundo caso, a equipa tem de abandonar a prova.
E, com esta, já lá vão três equipas das dezoito que iniciaram. Esperemos que fique por aqui, para que a competição, já fortemente afectada, chegue pelo menos ao fim.
Conseguiremos, um dia, vermo-nos livres desta maldição? O meu médico de família disse-me hoje que, na próxima consulta, marcada para daqui a seis meses, ainda ambos usaremos máscara. Perspectiva animadora ...
terça-feira, 10 de agosto de 2021
Actualidade
Vivemos tempos difíceis e bem diferentes.
Logo pela manhã, a notícia de que a PSP inicia uma operação para detectar casos de fragilidade social e uma outra para controlar os excessos de velocidade. Pergunta inocente: mas isto não faz parte da actividade policial durante o ano inteiro?
Uma espreitadela pelas primeiras páginas dos jornais e salta à vista a foto em bikini da Ministra da Saúde, passeando numa praia algarvia com o marido. Notícia assim e na primeira página só poderia ser nesse arremedo de jornal que se chama a si próprio de Correio do tempo em que sai. Pergunta inocente: adianta alguma coisa à governação, aos governados ou à melhoria "covidiana"?.
Ainda de manhã, um diálogo curioso:
- Já não somos vizinhos. Fomos ontem para a casa nova.
- Então agora vêm as criancinhas ...
- Nem pensar! Temos o cão e chega. Já ladra muito ...
Uns "caramelos" de Vila Real deram notícia, pelas redes sociais, de que um tal André "está doente" mas que "A Nossa Senhora de Fátima está com ele e não vai permitir que um dos seus escolhidos sucumba a uma doença criada na China para destruir o (...)". Quem lhes espetasse um pano encharcado nas trombas ou, como diria uma antiga professora minha, "valha-lhes um burro aos coices e três aos pontapés."
segunda-feira, 9 de agosto de 2021
Medo
Dizia-me ontem um amigo com quem não estava há largos meses:
- Mal saio de casa. Tenho medo. Vou ao supermercado logo pela manhã e tento despachar-me depressa. Nem à praia venho ... calhou hoje, mas vou embora não tarda nada. Está a chegar muita gente.
Medo. Apesar do tempo decorrido, do número de pessoas já vacinadas, de as notícias transmitirem um pouco mais de esperança, continua a ser a palavra mais presente, mesmo quando não é pronunciada. O que se tem passado deixa marcas, obriga a questionamento, transmite insegurança, deixa dúvidas permanentes, e termina sempre com "E se?".
Vive-se um tempo difícil, que faz perder a paciência, se é que ela ainda se encontra por aí. Exasperamo-nos com as esperas, não tiramos os olhos de quem tem por missão desinfectar, receamos pegar no correio que o carteiro nos estende, aproveitando bem o comprimento do braço, duvidamos que a mão do empregado não tenha tocado na chávena. E a inversa, tal como na matemática, também é verdadeira. Será que este tipo não estará?
Há medo do vírus corporal e do informático, há medo das fraudes, dos contactos, do trânsito, do calor e do frio, do vento e da chuva, há medo dos fogos e do polícia, de tudo e de nada, transformando-nos em medricas, hipocondríacos, opinativos, "achistas", "melgas", egoístas, parvos, estúpidos, convencidos, cheios de certezas absolutas e de ausência de dúvidas.
- Eu não tenho dúvida nenhuma de que ...
Até quando? A ver vamos ...
domingo, 8 de agosto de 2021
Desporto
Chegam ao fim os Jogos Olímpicos 2020, realizados em Tóquio este ano, em consequência das limitações impostas por esse malfadado vírus que teima em manter-se na nossa companhia, apesar dos sentimentos que desperta e das vacinas que vão sendo dadas. Que me lembre, são os primeiros Jogos que acontecem em ano ímpar e julgo até, sem ter recorrido à "enciclopédia Google", que tal nunca se tinha dado.
Portugal teve uma participação "curiosa", arrecadando o maior número de medalhas de sempre - uma de ouro, por Pedro Pablo Pichardo no triplo salto, outra de prata, por Patrícia Mamona também no triplo salto, e duas de bronze, uma no judo por Jorge Fonseca e outra na canoagem, por Fernando Pimenta. Foram tidas e mostradas algumas atitudes e reacções que não lembram "ao diabo" mas lembraram a algumas pessoas com responsabilidades, de atletas a jornalistas. E foi pena!
O desporto, mesmo para os que dele fazem profissão, encerra um princípio elementar e que tem de estar sempre presente - saber perder. Deve aprender-se de pequenino e permanecer para sempre, a não ser que o mundo esteja de pernas para o ar e que andemos todos na Lua. Para que alguém possa ganhar tem de existir pelo menos um que perca. E o que é normal é perder, porque só há competição quando os participantes são pelo menos dois, e apenas um fica em primeiro.
Um pouco de humildade faz sempre bem, mesmo quando se foi ou ainda se é atleta de primeira linha.

