domingo, 6 de dezembro de 2020

Novembro ... que rumos

Há muito tempo que não comprava um CD físico. As novas tecnologias e a facilidade com que se obtém, ouve e vê tudo, de discos a grandes concertos, muito contribuíram para isso. Os discos de vinil voltaram a estar na moda, mas as novas formas são convidativas e apelativas.

Esta semana "violei" a regra e adquiri o último trabalho discográfico de Pedro Barroso, onde surge uma música cantada em duo com Patxi Andion. São dois músicos de quem me habituei a gostar há muitos anos e que partiram cedo e há relativamente pouco tempo: Patxi morreu em Dezembro de 2019 e Pedro quando a pandemia dava os primeiros passos, em Março deste ano. O disco foi produzido já com os problemas de saúde de Pedro Barroso a fazerem-se sentir bastante e o trabalho é claramente uma última memória que ele pretendeu deixar.

Ficam muitos discos, muitos concertos, muitas recordações e este último trabalho. Ouvi-o com toda a atenção e levei-o para junto dos outros. Não está autografado e não vale a pena deixá-lo preparado para essa possibilidade. Já não o será mas é como se estivesse.

sábado, 5 de dezembro de 2020

Depressão

Ontem fui surpreendido por uma SMS da Dora. Não me lembrava de ninguém com este nome, não constava dos meus contactos mas isso era irrelevante. Avisava-me que chegaria no final do dia e que ficaria até hoje. Confesso que não me lembrava de lhe ter feito qualquer convite mas, em confinamento, uma visita é sempre bem-vinda, embora com riscos. Pensei logo nos cuidados a ter: obrigá-la a descalçar-se à entrada, a usar a máscara, a ter distanciamento social, a lavar as mãos com sabão azul e branco, que é o mais eficaz, tudo isto para me salvaguardar, dada a minha condição de idoso de risco. 

Uma visita de vinte e quatro horas, na situação actual, era muita gentileza da parte dela e eu não tinha nada preparado. E agora? Se me tivesse avisado com maior antecedência, a recepção seria, por certo, mais adequada e gentil. Podia ter à sua espera uma graça, uma recordação da cidade, um bolinho, um bom vinho, uma fatia de presunto, uma ginjinha com chocolate, uns pistachos, amendoins ou pinhões, até talvez um caldinho verde, com uma rodela de chouriço.

Nada, não tinha nada.

Pensei: vou sair e compro qualquer coisa, mesmo pouco que seja. Fico bem visto e ela ficará satisfeita. Devemos obsequiar quem nos visita, é o mínimo. Reli a mensagem, para ver se havia tempo. Estava lá tudo, de forma imperativa: se não é urgente e fundamental, não saia, fique em casa sossegado.

Foi o que fiz. Acendi a lareira e sentei-me à espera. Veio a chuva, o vento assobiou, o granizo surgiu, a luz manteve-se, a noite caiu, o sono chegou. A Dora, felizmente, não apareceu.

Ainda bem! Receber visitas sem nada para lhes oferecer faz-me corar de vergonha!


sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Premonição

Há 40 anos, neste mesmo dia de Dezembro, era quinta-feira.

Quase no final de mais um dia de trabalho, recebi um telefonema de casa. Devia haver qualquer assunto grave, pois só isso justificava o contacto. Os telemóveis ainda nem sonho eram e as redes sociais nem na imaginação mais pródiga existiam. A única forma de contactar alguém era o velho aparelho colocado na secretária, com uma campainha estridente, de forma a importunar o mais distraído e a obrigar o atendimento.

- O esquentador não funciona. Vê se arranjas alguém que venha cá ver isto!

Conhecia um homem que se dedicava a tudo quanto era biscate - electricista, serralheiro, carpinteiro, canalizador (ou picheleiro, como se dizia em algumas regiões), etc. etc.. O Carlos S. era o "homem dos sete ofícios". Morava na Foz e, como já era noite, era por lá que deveria estar. Fui encontrá-lo num café, à conversa, e logo a sua disponibilidade para ajudar se mostrou. Veio comigo, trazendo a mala das ferramentas que tudo resolviam. 

Em casa, a televisão estava ligada no primeiro canal, um dos dois únicos existentes à época e transmitia um programa qualquer de entretenimento. O Carlos S. tirou a tampa do esquentador, mirou, analisou ao pormenor e descobriu a avaria:

- É um rolo de sujidade que se acumulou e impede o gás de chegar à combustão.

E começou a desmontar para chegar ao sítio, com a paciência que o trabalho requeria. De repente, o programa da televisão foi interrompido e substituído por música clássica.

- Morreu alguém! Se calhar foi o Sá Carneiro!

Não tardou muito a saber-se o que tinha acontecido. A música parou e surgiu um jornalista, pesaroso, a dar a notícia. A avioneta onde seguiam Francisco Sá Carneiro e a companheira, Snu Abecassis, Adelino Amaro da Costa e a mulher, Maria Manuel Pires, António Patrício Gouveia, e os dois pilotos, tinha-se despenhado em Camarate e não havia sobreviventes. O destino era o Porto, para participarem num comício integrado na campanha presidencial do General Soares Carneiro. A corrida presidencial era disputada com o General Ramalho Eanes, que se candidatava a um segundo mandato. Sá Carneiro estava de "candeias às avessas" com Eanes e a campanha tinha como lema "uma maioria, um governo e um presidente", para concretizar o seu sonho de juntar à AD (coligação entre PPD, CDS e PPM) a cadeira de Belém. 

A campanha eleitoral ficou por ali, mas as eleições realizaram-se e Eanes foi reeleito. Sá Carneiro já não pôde ver e foi Francisco Balsemão quem o substituiu, num governo que duraria pouco tempo.

O Carlos S. arranjou o esquentador. Passado algum tempo foi traído pelo coração e acabaram-se os "sete ofícios".

A avaria do esquentador foi fácil de detectar e ficou a funcionar em pleno. 

Passados 40 anos, continua a não haver certezas sobre o que teria acontecido com a avioneta, naquele fim de tarde fatídico. 

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Leituras

Já não irei conseguir ler todos os livros que queria. E também não vou ter tempo para todos os que fazem parte da minha "biblioteca". 

O tempo de ler três ou quatro livros em simultâneo já lá vai há muito. Agora, apenas um e, muitas vezes, é necessário voltar atrás, para não perder o fio à meada. Mesmo assim, a rotina diária de ler mantém-se e espero, e desejo, já agora, que continue durante muito tempo. A forma de o fazer vai tendo alterações, que não passam apenas pela necessidade das "cangalhas". As ditas, não sendo imprescindíveis para ver as letras, são-no para diminuir o cansaço dos olhos que já miraram milhões de letras e começam a dar sinais de estarem a ficar fartos.

O gosto de ler é quase tão grande como o egoísta sabor da compra. Como alguém disse, "dinheiro gasto não faz falta a ninguém" e não é a isso que me refiro. O acto de comprar encerra, em si próprio, um prazer imenso. Por isso, há livros na secretária, na mesa de cabeceira, na sala, por todo o lado, a aguardar vez para serem devorados e arrumados no local que por direito lhes cabe e onde permanecerão até serem relidos ou emprestados. Ser relido é privilégio que não está ao alcance de qualquer um, mas, como em tudo, há uns quantos que se podem gabar de ter sido visitados duas ou três vezes. Ser emprestado também é viagem reservada a poucos, aqueles que se sabe partilharem o gosto, cuidarem da preciosidade, usufruírem da sua beleza e devolverem-na, de preferência tendo gostado da sua leitura. A visão egoísta também se satisfaz na partilha comum.

E, com tudo isto, o melhor é ir acabar o actual que o próximo já (des)espera.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Patos

Todos os patinhos sabem bem nadar
Cabeça para baixo, rabinho para o ar
Quando estão cansados, da água vão sair
Depois, em grande fila, pró ninho querem ir! 


Os patinhos da Lagoa, tal como os da canção infantil, sabem bem nadar e ainda melhor voar. Aqui, estariam a retemperar forças para, no final da tarde, partirem em grande fila, sob a forma de uma seta, para o ninho do Paúl de Tornada, onde dormem até à manhã seguinte. O voo deve ser decidido pelo chefe da equipa, que é o bico da seta e comanda a viagem, quando o sol se prepara para se esconder, lá no horizonte, logo a seguir às Berlengas.
Ainda bem que Tornada pertence ao mesmo concelho. Assim, não estão sujeitos ao confinamento.

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Eduardo Lourenço

Se soubesse alguma coisa de filosofia, se tivesse capacidade para dissertar sobre uma personalidade ímpar, escreveria um longo e eloquente texto elogiando o pensador, o filósofo, o ensaísta, que partiu hoje, após 97 anos de uma vida que ficará para a história. A sua morte acontece no dia em que se comemoram 380 anos da restauração da independência do que foi sempre o seu país, mesmo quando o obrigou a sair.

Como não tenho quaisquer atributos que permitam destacar, analisar e classificar este grande vulto, fica apenas o registo de uma frase, "roubada" da sua última entrevista ao jornal "Público": "Sei tanto agora que tenho quase cem anos como quando tinha dois".

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Japão

Em meados da década de oitenta do século passado fiz um curso de gestão no Instituto de Formação Bancária, que funcionava em Lisboa, na Avenida 5 de Outubro. O Instituto tinha sido fundado em 1980 e o curso destinava-se a jovens quadros bancários, como eu era nessa época. Durante oito meses, conjuntamente com mais 14 colegas oriundos de várias partes do país e de diversos Bancos, passei três dias de cada semana na capital e, em muitas delas, os cinco, das nove até às dezoito. A exigência era grande, havia professores "residentes" e muitas personalidades convidadas para leccionar. Um dos convidados era o Professor Herlander Estrela, que nos dava, se a memória não atraiçoa, Organização Económica. Numa das suas aulas, sempre aliciantes e muito participadas, falava ele da organização do Japão e, a páginas tantas, de chofre, perguntou à plateia:

- Sabeis qual a diferença entre os japoneses e nós, portugueses?

Ninguém comentou e ele esclareceu:

- No Japão, se alguém se dirigir a um grupo de pessoas indagando o caminho para determinado sítio, verá o grupo conferenciar entre si, decidir e, depois, um deles destacar-se e transmitir as indicações necessárias. A mesma situação, por cá, resulta sempre num emaranhado de hipóteses, disparadas por todos ao mesmo tempo, e o pobre coitado, que precisa de ajuda, fica entregue a si próprio.

Nunca mais me esqueci. Ontem, quando lia a revista do Expresso de sábado, que esta semana saiu, uma vez mais, à sexta, deparei-me com a "Pluma Caprichosa", de Clara Ferreira Alves,  a dissertar sobre a vida no Japão e a confirmar a organização e as diferenças que o Professor Herlander Estrela me assinalou e ensinou no século passado.

(...)Os japoneses fazem extensos piqueniques durante a estação das cerejeiras em flor e quando se levantam nem um papel ou plástico ficou na relva. Nada se deita para o chão porque o chão faz parte da natureza, do espaço público e da estética da cidade. Tóquio está impecável, tão impecável que nem se percebe como e quando o lixo é recolhido. Quando um estrangeiro desobedece às regras não escritas, por exemplo, colocando um detrito no recetáculo errado, a reprovação é feita com o olhar. O japonês emenda o ato e muda ele mesmo o lixo para outro recetáculo. Aconteceu-me, por descuido lancei um plástico num recetáculo de papel. Um japonês foi buscar o detrito e colocou-o no sítio certo.

Para quem vai de um país desleixado e habituado à constante improvisação e desculpa, à batotice e à mentira para camuflar o erro ou a falta, visitar Tóquio é um exercício de distensão. Não se pode improvisar. Tudo está pensado. Tudo está planeado e se soubermos o que vamos encontrar, nada corre mal. O coletivo exige inteligência e rigor individual, planeamento e propósito. (...)

Compreendo. Lembrei-me disto ao ver um grupo muito português de motoristas de transportes públicos a falarem uns com os outros, no Parque Eduardo VII de Lisboa, onde estacionam as camionetas (o parque é o estacionamento?), ostensivamente sem máscaras. Ao ver um grupo de motoristas de táxis desocupados falarem uns com os outros, sem máscaras. Tão simples, usar máscara quando não há distância. E nem isto conseguimos fazer.

domingo, 29 de novembro de 2020

Esquisitices

Tempos esquisitos os que se vivem actualmente.

Não bastava não se poder circular entre concelhos, não se saber se comemoraremos o Natal, não nos surpreendermos com o remar de pé mas, que diabo, a Páscoa ao contrário? 

Que mais nos espera? A ver vamos, como diz o cego!




sábado, 28 de novembro de 2020

Organização

Nada me move contra o PCP, antes pelo contrário. Habituei-me, desde novo, a respeitar a enorme luta do partido contra a ditadura e perfilho a opinião expressa por Melo Antunes que, no final do dia 25 de Novembro de 1975, para calar algumas vozes que chegavam com pressa de voltar ao antigo, esclareceu, sem papas na língua, que 
"O Partido Comunista é indispensável à democracia"

Podia não ser necessário mas, à cautela, o melhor era clarificar, calando idiotices que pairassem nalgumas cabeças. Nos últimos dias, o PC tem sido notícia em todos os orgãos de comunicação social, por virtude de realizar o seu Congresso, apesar da pandemia, ainda por cima num concelho - Loures - muito fustigado pelos números e com confinamento obrigatório. Os comentadores não se cansam de bradar  que, apesar de não ser ilegal, o Partido devia dar o exemplo e não o realizar nestas condições. A tudo isso, o PC responde com o que considera serem ataques à liberdade e dizendo que a sua organização fará cumprir todas as regras da DGS, não expondo ninguém a qualquer risco, quer no interior quer no exterior do pavilhão onde a reunião magna se realiza. 

A organização que o PC reivindica, e pratica, lembrou-me uma estória, muito "reaça", ouvida nos tempos do PREC (Processo Revolucionário em Curso), há quase meio século.

Dois amigos encontram-se no centro da capital e um deles, mal vestido, magricela, lamenta-se ao outro, a quem já não via há alguns meses.

- Estou muito mal. A vida não tem corrido bem e as dificuldades são muitas. Nem sequer consigo comprar umas botas para substituir estas alpargatas, todas rotas. As botas são caras e o dinheiro mal chega para a bucha.

- Não te posso ajudar. Também tenho dificuldades. Mas ouvi dizer que ali, no PC, dão botas a toda a gente. Vai lá!

E foi. Bateu à porta e uma voz solícita, cumprimentou:

- Bom dia, camarada. Em que posso ajudar?

- Ouvi dizer que aqui davam botas e eu necessito tanto de umas, disse, exibindo as alpargatas rotas.

- É verdade. E o camarada quer pretas ou castanhas?

De sorriso aberto e já a sonhar com umas botas novas, respondeu:

- Se me dá à escolha, prefiro castanhas.

- Então dirija-se ali àquela porta. 

- Bom dia, camarada. Eu queria umas botas castanhas, por favor.

- De cano alto ou cano baixo?

Mais um sorriso e a resposta pronta:

- Cano alto!

 - Ali, naquela porta à esquerda.

A satisfação era visível quando cumprimentou mais um camarada.

- Bom dia, camarada. Eu queria umas botas, castanhas, de cano alto.

- Com fecho ou sem fecho?

- Com fecho, claro, que já estou a ficar velhote!

- Então é ali, naquela porta ao fundo.

- Bom dia, camarada. Queria umas botas, castanhas, de cano alto e com fecho.

- De salto alto ou rasas?

- De salto alto, que pequeno já eu sou!

- Ali, naquela porta à direita.

Abriu a porta indicada e achou-se na rua, de novo junto ao amigo que lhe dera as indicações.

- Então, deram-te as botas?

- Dar não deram, mas lá organizados são eles!  

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Sexta-Feira

A partir de hoje e até terça-feira, não é autorizado ir para a brincadeira. Pode ir para o emprego, se o tiver e se houver um papel que o justifique. 

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Quotidiano

Os números "covidianos" não param na sua ascensão, à procura de um pico que não há meio de ser atingido. A nossa "ilha" mantém-se firme, no lugar mais baixo da escala "covídica", apesar de também seguir uma trajectória ascendente. 

Amanhã chegará a proibição de viajar entre concelhos, mesmo para aqueles que são "paredes meias" e cuja divisão se circunscreve a apenas um risco num mapa. Que seja para o bem de todos, espera-se.

A primavera ainda está longe e, tudo o indica, o inverno será longo. A esperança de melhores dias mantém-se bem viva e a boa música ajuda muito.

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

25 Novembro

Há 45 anos era eu um jovem bancário, acabado de ingressar na CGD, num edifício enorme, situado no Largo do Calhariz, em pleno Bairro Alto, e que ainda hoje lá permanece, agora servindo, julgo, de sede à Fidelidade Seguros. A admissão à Caixa tinha sido efectuada, após concurso, em Setembro de 1974 e protelada, nessa altura, por força do serviço militar obrigatório. 

A saída da tropa tinha acontecido no final de Agosto de 1975 e, por isso, estavam bem frescas as memórias dos tempos que por lá tinha passado, nomeadamente após o "dia inicial inteiro e limpo" imortalizado por Sophia de Mello Breyner Andresen. A presença no Gabinete do Ministro da Defesa Nacional desde o primeiro governo provisório (Maio de 1974) foi uma experiência de vida marcante, que recordo sempre com emoção e saudade. Deu-me a oportunidade de conhecer muita gente, alguns insignificantes, mas a grande maioria educada, dedicada e empenhada. São já muitos os que desapareceram, mas com todos aprendi muito e não os esqueço.

Conhecia (alguns pessoalmente) a grande maioria dos intervenientes na disputa, quer de um lado quer do outro. Não vale a pena, a esta distância, fazer quaisquer comentários ou análises sobre o sucedido, as suas causas e muito menos sobre as consequências. A história é o que é. A realidade e os olhos de hoje são completamente outros.

Recordo, apenas, um dia tenso, no trabalho e pela noite fora, à espera que o desfecho não descambasse naquilo que, pela manhã, parecia inevitável. Talvez o hoje quase esquecido Francisco da Costa Gomes, com a serenidade que lhe valeu a alcunha de "Rolhas", tenha sido a "peça" que evitou o troar dos canhões e a guerra civil que parecia estar a chegar.

terça-feira, 24 de novembro de 2020

Ligações

Ontem, ao contrário do que é costume, não tive possibilidade de ver o programa Visita Guiada, de Paula Moura Pinheiro, que é normalmente exibido na RTP-2, por volta das 23H00 de cada segunda-feira.

Graças às tecnologias disponíveis, que dão bastante jeito, estive a vê-lo há pouco. Desta vez a visita fez-se à Casa de Tormes, onde se situa a Fundação Eça de Queiroz. De acordo com quem sabe, foi nesta casa que Eça escreveu A Cidade e as Serras. A conversa, interessante, havida com o historiador Rui Ramos, trouxe-me à memória alguns pormenores do livro, que a arca, com dificuldade, ainda mantém à tona, embora já com enormes "brancas".

Não resisti. Fui à estante, abri "ao calhas" e saiu isto sem procurar mais. Uma beleza!

(...) Uma formidável moça, de enormes peitos que lhe tremiam dentro das ramagens do lenço cruzado, ainda suada e esbraseada do calor da lareira, entrou esmagando o soalho, com uma terrina a fumegar. E o Melchior, que seguia erguendo a infusa do vinho, esperava que suas Incelências lhe perdoassem porque faltara tempo para o caldinho apurar ... Jacinto ocupou a sede ancestral - e, durante momentos (de esgazeada ansiedade para o caseiro excelente) esfregou energicamente, com a ponta da toalha, o garfo negro, a fusca colher de estanho. Depois, desconfiado, provou o caldo, que era de galinha e rescendia. Provou - e levantou para mim, seu camarada de misérias, uns olhos que brilharam, surpreendidos. Tornou a sorver uma colherada mais cheia, mais considerada. E sorriu, com espanto: - "Está bom!"

Estava precioso: tinha fígado e tinha moela; o seu perfume enternecia; três vezes, fervorosamente, ataquei aquele caldo.

- Também lá volto! - exclamava Jacinto com uma convicção imensa, - É que estou com uma fome ... Santo Deus! Há anos que não sinto esta fome.

Foi ele que rapou avaramente a sopeira. E já espreitava a porta, esperando a portadora dos pitéus, a rija moça de peitos trementes, que enfim surgiu, mais esbraseada, abalando o sobrado - e pousou sobre a mesa uma travessa de arroz com favas. Que desconsolo! Jacinto, em Paris, sempre abominara favas. (...)

A cidade e as serras
Eça de Queiroz
Lello & Irmão - Editores

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Caldas da Rainha

Apesar do erro divulgado pelo Power Point da Direcção Geral de Saúde, o nosso concelho permanece, no mapa "covidiário", numa zona pintada a branco, cor indicativa de risco moderado e circunscrita a um conjunto, pequeno, de quatro concelhos do Oeste - Caldas da Rainha, Óbidos, Bombarral e Lourinhã.

Ainda subsistem por aí muitas coisas péssimas, reveladoras de mau gosto e de falta de sensibilidade. Porém, a verdade é que na cidade (e no concelho) há locais que nos fazem sentir bem, gostar de por aqui viver e que, sabemos, causam inveja a quem nos visita. 

Não vale a pena referir que a praia da Foz do Arelho é a melhor de Portugal por se saber que seremos contraditados por a água ser muito fria e o mar demasiado bruto. Mas, quantas cidades haverá no país que tenham dois "pulmões" como o Parque D. Carlos I e a Mata Rainha D. Leonor? Poucas, sem qualquer dúvida.

A Mata, que convida sempre a um longo passeio por toda ela, oferecia, na manhã de hoje, esta paisagem de sonho.

Ainda bem que o Power Point estava errado e continuamos a poder desfrutar.

domingo, 22 de novembro de 2020

Manhã

Com um pouco de sorte, o "jardim zoológico" poderia ter mais espécies, mas foi o que se conseguiu arranjar. Os patos e os flamingos estariam ocupados lá mais para o fundo da Barrosa ou dos Musaranhos, ainda sem necessidade de descansar.

Não é fácil conseguir que um coelho, uma rola e uma gaivota partilhem o mesmo espaço, de forma pacífica, num barco sem motor e preso à âncora, no meio de muita, muita água, de um azul espantoso.

A caminhada domingueira fez-se numa manhã de sol lindo, a incidir sobre as máscaras de todos os que gostam de passear à beira da Lagoa.

As e os que adoram a prancha também por lá andavam e ainda ficaram, que aquele exercício, no meio da água, exige muito mais tempo.

sábado, 21 de novembro de 2020

Pandemia emergente

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, fez ontem uma comunicação ao país, apelando para a união na diversidade de opiniões, e para a compreensão do que é necessário todos fazermos para que os números da pandemia não aumentem de tal forma que o SNS sufoque. Na sua curta declaração, justificou a manutenção do estado de emergência, alertando de forma clara para o que está a surgir e o que pode chegar. 

Vivemos um momento no qual quem tem responsabilidades tem obrigações. De partidos a jornalistas, de governantes a opinadores, a hora é de ser mais cuidadoso, rigoroso e mobilizador, não cedendo ao facilitismo e à demagogia. Sintético e esclarecedor, crítico mas construtivo, transmitindo serenidade e esperança, se mais não fora pelo respeito que devem merecer os que partiram e aqueles que, nesta altura, quase esgotam os recursos dos hospitais.

Estamos em tempo de congregar atitudes em prol do bem comum, sem deixar de criticar quando a situação justifique, sempre com a perspectiva de ajudar a corrigir, antes que as vozes dos salvadores que por aí chegam se sobreponham às de quem acredita que só há futuro com a diversidade de opiniões e de ideias.

Talvez se justifique voltar a Camões e, nomeadamente, ao último verso da terceira estrofe do Canto I de Os Lusíadas, para não cansar muito. Se não o conseguirmos, corremos o risco de ver o país embarcar sem rumo, numa nau sem fundo e de a musa não cessar de cantar e continuar a apregoar os nossos (de)feitos.
(...)
Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram:
Cale-se de Alexandre e de Trajano,
A fama das vitórias que tiveram,
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram:
Cesse tudo o que a antiga Musa canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.
(...)

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Sentir & Saber

A propósito da publicação do livro Sentir & Saber - A caminho da consciência, editado pela Temas & Debates, o cientista António Damásio dá uma entrevista à Visão desta semana, na qual discorre sobre a actualidade, a política, o cérebro e o futuro. Dessa entrevista, copio e roubo uma pergunta e a respectiva resposta, por me parecerem, ambas, dignas de destaque, pela objectividade e actualidade.

(...) Visão - Tem esperança de que, desta experiência, possa surgir uma espécie de "homem novo", mais atento, como escreve no livro, à "inteligência, fenomenal e ainda incompreendida, da natureza"?

António Damásio - Não tenho qualquer dúvida. Vejo uma enorme mudança de atitudes. No espaço sociopolítico em que vivemos, existe a noção de que a Natureza está a ser agredida, temos plena consciência de que as alterações climáticas podem vir a comprometer o nosso futuro. Claro que há outros lugares onde as pessoas negam a existência dessas alterações climáticas, mas, quando se olha para os grandes números, para as principais sociedades, não tenho dúvidas de que a maioria da população acredita que estamos perante uma emergência climática. Quanto mais respeitarmos a vida noutros seres que não sejam apenas seres humanos, melhor estaremos no futuro. Mas, atenção: respeitar a Natureza não é respeitar os passarinhos, os cães e os gatos. De um modo geral, isso são espécies que as pessoas respeitam porque as consideram facilmente interligáveis com os seres humanos. O que é preciso é respeitar todas as outras espécies, até mesmo aquelas que não vemos claramente que nos dão vida, como as bactérias. (...)

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Rio

Corre um rio para o mar ...

E vai lá chegar, ultrapassando obstáculos, vencendo dificuldades, cursando o seu leito, da nascente até à foz, com ou sem afluentes e influentes. Tudo o que o rodeia contribui para o seu percurso, desde quem gosta de o ver limpo, garboso, contente, a muitos que o agridem, com lixo ou lixando-o, sem respeito pela sua natureza única e importante.

Cíclico, teimoso, lá segue por altos e baixos, estuários e veredas, curvas, rectas e encruzilhadas, percorrendo o trajecto que lhe surge determinado a cada momento, tentando sempre o melhor caminho para chegar a bom porto. Nem sempre o consegue. O trajecto, muitas vezes, torna-se mais longo, mais lento, mais exigente, mais penoso, mais difícil. Mas vai lá chegar, com mais ou menos escolhos, com erros de escolha e falhas na decisão.

Nem mesmo um rio consegue ser perfeito ...

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Tempo

Não chega para nada. Mal começou e a semana já está no fim. Tanta coisa para fazer e os dias como que desaparecem. Quarta passada, semana acabada, aprendi há muito tempo.

Não se compra nem se vende, nem mesmo nas grandes superfícies. Vive-se. Sem dramas nem sobressaltos, sem demasiada pressa nem lentidão em excesso. Tempo certo, à velocidade certa, com as certezas possíveis e as incertezas do costume.

De vento em popa, ao sabor da maré, como Deus quer, cá vamos indo com a cabeça entre as orelhas, à espera de melhores dias, é o destino, há quem esteja muito pior e muitos há que nem o sol vêem. Respaldamo-nos nas frases feitas, naquilo que sempre ouvimos e dissemos, sempre com a língua afiada para assinalar os defeitos dos outros e uns bolsos, enormes, para guardar, bem fundo, os nossos.

E adiamos, ou procrastinamos, como agora se diz para mostrar eloquência, não esquecendo a resiliência que nos é característica e também está na moda.

Amanhã também é dia, apesar de o dia, o mês ou o ano se aproximarem velozmente do fim. É sempre a mesma coisa ... mas melhores dias virão, não tenhas dúvidas!

terça-feira, 17 de novembro de 2020

Simpatia e burocracia

À entrada, o aviso manda aguardar pelo segurança naquele local, cumprindo o distanciamento determinado e indicado no chão, com circunferências coladas. O segurança está a atender três jovens ao balcão. Demorou muito pouco e dirigiu-se a mim, cumprimentando-me e perguntando em que pode ajudar.

- Venho tratar do assunto desta carta.

Verifica o papel que lhe exibo e, de imediato, informa:

- Vire ali à esquerda e, depois, entre na primeira porta. 

Assim faço. Logo à entrada, um cartaz, grande, identifica "BALCÃO +". Três postos de atendimento, vazios. Todos têm acrílico e um deles, que tem pendurado o aviso de ser destinado a grávidas, deficientes e idoso, tem uma cadeira. Na parte de dentro, um pouco ao lado dos postos de atendimento, uma senhora sentada na frente de uma secretária imersa em papéis. Lá ao fundo, dois funcionários já entradotes, discutem um problema informático, muito importante e difícil, pelo menos a julgar pelo que vou ouvindo.

- Bom dia.

Ninguém responde. A senhora da secretária, talvez incomodada com o meu olhar, entende, daí a algum tempo, que eu mereço uma explicação. Diz, de forma eloquente e esclarecedora:

- Aguarde um momento.

- Obrigado.

Passam mais uns minutos e eis que surge, da rua, um homem em passo vagaroso e ar contrariado. Com ar de quem sabe tudo, dirige-se ao posto onde aguardo, tranquilamente. Tenho tempo ...

- Diga!

- Bom dia.

Silêncio.

- Venho entregar esta carta, para responder a este ofício do Tribunal. Trago aqui uma cópia, para confirmar que recebeu o original.

Mira tudo com uns olhos experientes, de quem sabe daquilo a sério. Coloca a carta no monte dos assuntos  a tratar, presumo. Vai lá ao fundo buscar um carimbo que usa para certificar a cópia. Devolve-a sem uma palavra, um esgar, um sorriso.

- Bom dia e obrigado.

Ninguém me liga. Os dois mantêm a discussão informática, a senhora continua assoberbada nos papéis, o "atendedor" senta-se, por certo cansado com o trabalho que lhe dei, àquela hora da manhã. Sinto que fui perturbar o sossego de quem, com esta pandemia, ainda tem de trabalhar. E se o raio do velho nos traz o vírus, devem ter pensado aqueles pobres trabalhadores.

Voltei para casa e deliciei-me com as flores do meu jardim. Estão sempre a sorrir!