sexta-feira, 29 de março de 2013

Quotidiano

Muito embora tivessem aparecido alguns, preocupados com a crise, que queriam ficar no Banco na tarde de quinta-feira, não a trabalhar, que é coisa que só fazem em fogachos para chefe ver, mas a linguarar, a larachar, a engraxar, a serventuar e outras terminadas em "ar", esta ano a tarde de quinta ainda foi "santa".
O almoço foi no sítio do costume sem a barafunda do dito, por muita gente ter saído directamente do trabalho para a sopinha caseira.
O percurso entre a Baixa e Belém foi rápido e agradável. O novo Museu dos Coches deve estar quase acabado e é imponente. No Palácio cor de rosa, como de costume, não se via nem ouvia ninguém. Estará habitado?
Subida a Calçada da Ajuda (acho que já não passava por lá há perto de 40 anos, quando o serviço militar me lá levou por uns tempos), mais de meia hora na fila (a bicha apareceu na casa de banho, a compor o cabelo), algumas personalidades conhecidas e, finalmente, o acesso à exposição do momento. Joana Vasconcelos expõe algumas das suas monumentais obras, muito bem enquadradas na beleza das salas do Palácio, numa mistura perfeita e onde o par de sapatos se destaca pelo brilho, monumentalidade e ... singeleza.
Nas paredes do átrio da entrada, o Palácio tem várias estátuas, cada uma representando uma qualidade. Esta, que o telemóvel registou numa foto de má qualidade, representa a GENEROSIDADE e, curiosamente, perdeu a mão direita. 
Acidente do tempo ou maldição do mesmo?

terça-feira, 26 de março de 2013

Quotidiano

Hoje não me apeteceu ouvir rádio na viagem da manhã.
Liguei a "pen", mas tirei-lhe a escolha aleatória. 
Fiz a pesquisa e escolhi eu, bem, para o meu gosto!
Já há largos meses que não ouvia um album inteirinho do Zeca.
O "Cantares do Andarilho" tornou a viagem mais curta e bem mais agradável.

domingo, 17 de março de 2013

Futuro ou a eterna juventude

E foi isto que se construiu?

As consciências de quem "governa" este país e esta Europa estarão tranquilas?

Não há alternativa?

Vão bugiar ... antes que o espelho se parta!

sábado, 16 de março de 2013

Efemérides e actualidade

Passam hoje 20 anos da morte de Natália Correia e 39 do "levantamento das Caldas", que precedeu o 25 de Abril.




AUTO-RETRATO

Espáduas brancas palpitantes:
asas no exílio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.

Natália Correia
Poemas (1955)




sexta-feira, 8 de março de 2013

Teimosia

Costumo dizer que uma das minhas poucas qualidades é ser muito teimoso. E é verdade: gosto de uma boa polémica, adoro contraditar, defendo as minhas ideias com toda a energia e convicção.

Vem isto a propósito de, esta semana, ter encetado uma discussão, pacífica, sobre o adjectivo "obrigado" e a forma correcta de o aplicar.

A A.L. defendia que o adjectivo devia ser utilizado no feminino se dito por uma mulher e no masculino, quando pronunciado por um homem. A R.R. contraditava, parecendo-lhe que o correcto era sempre "obrigado". O M.R. não tinha certezas e estava virado para a abstenção. Teimoso, eu argumentava que se devia dizer sempre "obrigado" e, para justificar o meu argumento, ilustrava com uma frase:

- A menina não se sinta obrigada a dizer obrigado sempre que lhe oferecem flores!

A A.L. mantinha-se irredutível. O seu professor de português tinha-lhe ensinado a regra, há muitos anos, e nunca se tinha esquecido.

Comecei a duvidar de mim e cedi:

- Quando chegar a casa, vou confirmar!

Hoje, logo pela manhã, enderecei este mail aos meus colegas:

" Bom dia
Rendo-me à evidência!!!
Penitencio-me do erro e congratulo-me pelo facto de termos discutido uma das coisas boas que temos: a nossa língua.
No Dia das Mulheres, confirmam-se, como sempre, os saberes de antanho: elas têm sempre razão e é estúpido quem as contraria.
O adjectivo “obrigado” deve ser utilizado no masculino ou na sua forma feminina (obrigada) consoante o sexo de quem o pronuncia. (Edite Estrela e outro cujo nome não me lembro) – “Saber escrever / Saber falar”
Para ilustrar a minha rendição, qual Egas Moniz, mas sem corda ao pescoço, umas rimas (mal) alinhavadas no “horário” (como se diz na Madeira) que me trouxe do Oeste profundo e inculto à capital dotada e sapiente:

És homem? Sê delicado
E agradece, cortês
Sempre com um "obrigado",
Pra falares bom português!

Porém, a recusa delicada
Da menina esbelta e fina,
Será sempre: não, obrigada,
Por a voz ser feminina! "

sábado, 2 de março de 2013

Quotidiano

Há vida para além da folha de Excel ...
A esta hora, em várias cidades do país, milhares de portugueses manifestam a sua indignação, cantando como o Zeca.

Palavras bonitas

UMA QUALQUER PESSOA

Precisava de dar qualquer coisa a uma qualquer pessoa.
Uma qualquer pessoa que a recebesse 
num jeito de tão sonâmbulo gosto
como se um grão de luz lhe percorresse
com um dedo tímido o oval do rosto.

Uma qualquer pessoa de quem me aproximasse
e em silêncio dissesse: é para si.
E uma qualquer pessoa, como um luar, nascesse,
e sem sorrir, sorrisse,
e sem tremer, tremesse,
tudo num jeito de tão sonâmbulo gosto
como se um grão de luz lhe percorresse
com um dedo tímido o oval do rosto.

Na minha mão estendida dar-lhe-ia
o gesto de a estender,
e uma qualquer pessoa entenderia
sem precisar de entender.

Se eu fosse o cego
que acena com a mão à beira do passeio,
esperaria em sossego,
sem receio.
Se eu fosse a pobre criatura
que estende a mão na rua à caridade,
aguardaria, sem amargura,
que por ali passasse a bondade.
Se eu fosse o operário
que não ganha o bastante para viver,
lutava pelo aumento do salário
e havia de vencer.
Mas eu não sou o cego,
nem o pobre,
nem o operário a quem não chega a féria.
Eu sou doutra miséria.
A minha fome não é de pão, nem de água a minha sede.
A minha mão estendida é tímida, não pede.
Dá.
Esta é a maior miséria que em todo o mundo há.
E eu que precisava tanto, tanto, de dar qualquer coisa 
a uma qualquer pessoa!

E se ela agora viesse?
Se ela aparecesse aqui, agora, de repente,
se brotasse do chão, do tecto, das paredes,
se aparecesse aqui mesmo, olhando-me de frente,
toda lantejoulada de esperanças
como fazem as fadas nos contos das crianças?

Ai, se ela agora viesse!
Se ela agora viesse, bebê-la-ia de um trago,
sorvê-la-ia num hausto,
sequiosamente,
tumultuosamente,
numa secura aflita,
numa avidez sedenta,
sôfregamente,
como o ar se precipita
quando um espaço vazio se lhe apresenta.

Poesias Completas (1956-1967)
António Gedeão
Portugália (1975)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Quotidiano

Os estudantes do ISCTE expulsaram hoje Miguel Relvas das instalações, quando o ministro se preparava para proferir uma conferência integrada nas comemorações da TVI.
Fizeram mal!
O ministro queria assistir às aulas ou, pelo menos, conhecer os corredores, para poder pedir a equivalência com conhecimento da casa.
Não é justa esta decisão dos estudantes. Vai persegui-los a vida toda. Impediram o acesso ao conhecimento a quem o busca de forma tão ávida.
Meninos, portem-se bem e deixem estes adultos que cumpriram antecipadamente a divisa da vossa Escola - Chegar ao Topo -  estudarem e aprenderem. 
Eles "há-dem" ir longe, sem "quaisqueres" dúvidas.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Palavras bonitas

As novas tecnologias ajudam muito aqueles a quem o tempo falta. 

Ver televisão, durante a semana, é um "luxo" cada vez mais difícil de conseguir. Vou deixando a gravar alguns programas que não quero perder e, quando surge a oportunidade, "play" com ele.

O "5 para a meia noite" das terças-feiras é sempre gravado e, assim que é possível, lá coloco o Zé Pedro Vasconcelos em diferido, para me deliciar com o seu humor e com a inteligência com que aborda os assuntos e convidados.

Hoje vi o programa do passado dia 12, no qual estiveram presentes dois jornalistas: Pedro Coelho, da SIC, que falou da sua grande reportagem sobre o BPN, e Rita Marrafa de Carvalho, da RTP, que dissertou sobre jornalismo de investigação e mostrou os dotes da sua voz, bem bonita, a cantar, "à capela".

O nível estava elevado e subiu quando, na rubrica que surgiu nesta segunda série, Vítor de Sousa, com a sua extraordinária voz, disse um poema de Manuel da Fonseca, apropriado para o programa e para os dias em que vivemos.

Tinha uma vaga ideia das palavras e fui buscar o velho livrinho (1978) dos Poemas Completos. Lá estava a 

DONA ABASTANÇA

"A caridade é amor"
proclama Dona Abastança
esposa do Comendador
senhor da alta finança.

Família necessitada
a boa senhora acode
pouco a uns a outros nada
"Dar a todos não se pode".

Já se deixa ver
que não pode ser
quem
o que tem
Dá a pedir vem.

O bem da bolsa lhes sai
e sai caro fazer o bem
ela dá ele subtrai
fazem como lhes convém
ela aos pobres dá uns cobres
ele incansável lá vai
com o que tira a quem não tem
fazendo mais e mais pobres.

Já se deixa ver
que não pode ser
dar
sem ter
e ter sem tirar.

Todo o que milhões furtou
sempre ao bem fazer foi dado
pouco custa a quem roubou
dar pouco a quem foi roubado.

Oh engano sempre novo
de tão estranha caridade
feita com dinheiro do povo
ao povo desta cidade.
Poemas Completos
Manuel da Fonseca
Forja (1978)

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Ignorância

Não costumo ser redutor e penso sempre que os outros podem ignorar temas que eu domino perfeitamente, mas seguramente sabem muitas que eu ignoro. 
Tenho dos jovens de hoje a melhor das impressões e não me canso de dizer que os bons são muitos e bem melhores do que os do meu tempo. Contudo, ver tanta ignorância inconsciente, mete dó!
Como é que esta gente acedeu à universidade? Não seria melhor voltarem à primária e experimentarem as réguas do meu tempo, por cada asneira deste calibre?
- É uma boa pergunta !!!!!
- Não faço a mínima ...
- A capital da Itália é Nápoles.
- Eça de Queiroz morreu há pouco tempo.
- John Lennon cantava as músicas dos desenhos animados da Disney.
- Califórnia é a capital dos Estados Unidos.
- A fórmula química da água é PH0.
- O fundador da Microsoft é o Gill Bates, que morreu há pouco tempo.
- O Evangelho segundo Jesus Cristo foi escrito pelos Apóstolos.

E riem-se ...

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Quotidiano

Hoje ofereceram-me um simulador para calcular o novo ordenado e clarificar qual a melhor opção para "os linces da Malcata", perdão, para os subsídios que iremos receber este ano.
O simulador está concebido em Excel e a folha deve ter dedo do Ministro Gaspar: os cálculos que dela resultam estão certos, sem qualquer dúvida ou incerteza!
O que nos vale é que o país (em letra pequena, pois claro, para poupar) está a melhorar a olhos vistos e os sacrifícios exigidos são a penitência para aqueles valdevinos que viveram acima das suas possibilidades e agora não querem expiar os pecados. 
É bem feito, não tivessem sido estroinas!!!

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Palavras bonitas

TARDE

A tarde trabalhava
sem rumor
no âmbito feliz das suas nuvens,
conjugava
cintilações e frémitos,
rimava
as ténues vibrações
do mundo,
quando vi
o poema organizado nas alturas
reflectir-se aqui,
em ritmos, desenhos, estruturas
duma sintaxe que produz
coisas aéreas como o vento e a luz.

Carlos de Oliveira
Antologia pessoal de Eugénio de Andrade
Campo das Letras (2000)

domingo, 20 de janeiro de 2013

Ventania

São de ontem, numa fugida do fotógrafo oficial, com vento forte de mais para o que estamos habituados.


Quotidiano

Uma manhã de temporal, sem luz, uma constipação que ameaça tornar-se gripe, o vento assobiando lá fora (não nas gruas, como o de Lídia Jorge, que a construção há muito está parada por estas bandas) com uma intensidade louca, sem música e sem deslocação à Foz, onde o mar deve estar "lindo", resta o ritual de sábado, hoje bem mais cedo do que é habitual. 
Ainda não completei o primeiro caderno, mas a entrevista de Jorge Sampaio ao Expresso de hoje já foi lida.
Dois pequenos apontamentos de quem pensa, sem peias, grades ou subserviências.
"(...) Por exemplo, esta ideia de que o objectivo é aparecermos como os bons alunos da Europa ... Francamente, não é por aí! Atribuir culpas só aos portugueses parece-me ser excessivo e demasiado violento. Exige-se da Europa que volte a ter uma resposta colectiva e se deixe de separações, de falta de solidariedade, de divisões. A Europa, em vez de reforçar a sua união, corre o perigo de se desagregar.(...)".
"(...) A credibilidade dos cidadãos no sistema político está em declínio vertiginoso. Temos a responsabilidade de parar isso, pela credibilização do diálogo e do trabalho político. Se só se grita, não vamos a lado nenhum.(...)".
Nota - Escrito ontem, quando pensava que o regresso da energia eléctrica traria a normalidade. Afinal a publicação só hoje foi possível, passado dia e meio sem Net e também sem televisão. Como é que se vivia dantes?

sábado, 5 de janeiro de 2013

Expresso

Comecei a ler bem novinho, já não recordo com que idade, mas bastante antes de ingressar na escola primária, o que, na época, acontecia no ano em que se completavam 7 anos. A responsável pela precocidade foi a minha irmã, três anos mais velha, que começou a exercitar com o pimpolho as tarefas que acabariam por lhe ocupar toda a sua vida profissional.
Também cedo comecei a consumir jornais, ou melhor, o Jornal de Notícias, em formato para mim gigante, que lia soletrando,  ajoelhado no jornal aberto no chão da cozinha. Meu pai comprava-o todos os dias e, quando chegava do trabalho, entregava-o para o lermos no dia seguinte. Depois de lido, servia para manter quente a panela da sopa. 
Na memória ainda estão as notícias sobre o terramoto de Agadir, a invasão de Goa, o início da guerra colonial, o assalto ao Santa Maria, as palavras cruzadas que fui aprendendo pouco a pouco e, pasmem, o boneco da última página (cartoon?), julgo que da autoria de Miranda.
Foram muitos os jornais que conheci, li, recordo e já desapareceram: Mundo Desportivo, Século, República, Diário de Lisboa, A Capital, Diário Popular, Gazeta dos Desportos, O Ponto, e podia continuar ...
Em Janeiro de 1973 tinha 20 anos! 
Já sabia a diferença entre o Diário da Manhã (de triste memória) e o República quando surgiu, pela primeira vez, o semanário Expresso. Comprei o primeiro exemplar e adquiri hoje, de manhã, a edição comemorativa dos 40 anos de publicação ininterrupta. Ao longo desta "eternidade", devo ter falhado a compra, talvez, uma dezena de vezes, se tanto. Em alturas de ausência, cheguei a ir buscá-lo vários dias depois, por se encontrar sempre guardado na Jornália.
A minha amiga Nisa ainda hoje me reserva religiosamente o exemplar, apesar de a procura actual já não justificar esse cuidado. Eu, para compensar o carinho, digo-lhe sempre com antecedência:
- No próximo sábado, vende o meu Expresso a outro, que não vou estar por cá.
É preciso ser teimoso! Nem sequer conheço Francisco Pinto Balsemão...
Longa vida ao Expresso e à liberdade de que sempre foi arauto.

domingo, 30 de dezembro de 2012

2012 / 2013

O ano de 2012 está de abalada e não voltará. 
Não conseguiu as equivalências necessárias à licenciatura, não colou cartazes, não obteve qualquer diploma e, porque foi negligente e incompetente, não conseguiu emprego. Não tendo trabalho, também não tem direito ao subsídio de desemprego. Ainda pensou recorrer ao RSI mas desistiu, por não conseguir provar a sua indigência.
A decisão de partir é irreversível e foi tomada depois de muito ponderar, durante 366 dias, nos quais se viu vilipendiado, injuriado, enxovalhado, culpado, condenado, sem qualquer desculpa ou remissão.
Para que o trono não fique vazio, à meia-noite de 31 de Dezembro de 2012 surgirá o ano de 2013, legitimado pelo direito consuetudinário que garante esta substituição desde que Cristo nasceu.
Por cá, continuaremos na mesma, à espera de Godot, perdão, de Cavaco, de Seguro, de Barroso, de Dragui ou de Merkel, penitenciando-nos diariamente pelos erros que cometemos, por termos vivido acima das nossas possibilidades, termos adquirido, em transacção particular, umas acções do BPN que permitiram uma vivendita nos Algarves, termos contraído uns financiamentos no mesmo Banco que, em resultado da crise, agora não conseguimos cumprir, termos negociado com marroquinos, passado férias em Cabo Verde e fundarmos por lá um Banco fantasma, enfim o povinho viveu "à grande e à francesa" e agora não quer suportar os castigos que aqueles que sempre nos avisaram e nos deram bons exemplos, são forçados a impor-nos.
Valha-nos isso: continuamos a ter gente disponível para, com sacrifício, tomar conta de nós e aconselhar-nos para que sejamos bem comportados, atentos e obrigados. Falta-nos o "A Bem da Nação" mas sobra-nos o Facebook.
Cumprindo o ritual, BOM ANO para todos e, quando estiverem deprimidos ou cansados dos castigos, leiam e ouçam Ricardo Araújo Pereira, aqui, aqui e em todo o lado onde for possível. Não há muito disto!!!

sábado, 15 de dezembro de 2012

A URBANA FOME

O BICHO

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem
(Manuel Bandeira - Rio - 25-2-1947)

A situação detonadora deste poema de Manuel Bandeira tornou-se tão banal que hoje nos deixa quase indiferentes. Ver gente ir buscar restos de comida aos caixotes do lixo, numa cidade como o Rio, é, de facto, trivial. Mas não só no Rio, também aqui em Lisboa. Para comer ou procurar seja o que for que possa trocar-se por algumas moedas, é comum topar-se com gente de nariz mergulhado em caixotes ou lixeiras. Uma certa, furtivamente. Deve ser gente principiante nessa lida. Outra, perfeitamente indiferente a quem passa.
Este é um dos aspectos mais cruéis que as chamadas grandes urbes nos patenteiam. Foi para isto que construímos (como gostamos de dizer) uma civilização de conforto? Já em certos restaurantes é corrente ver pessoas meterem em saquinhos o que não comeram. Se peixe, "é para o gato"; se carne, "é para o cão". Ora, desculpas. E o sorriso irónico dos donos das tascas revela que nem valia a pena os necessitados ou "poupados" desculparem-se assim. É mas é para as barriguinhas deles. Osso, ferve-se e dá sopa; restos, sanduíches ou qualquer outra maneira de entreter a fome. Entretanto, há pessoas que desviam os olhos e dizem "que horror!" quando, na TV, aparecem meninos pretos, de grandes barrigas, esqueleto a romper sob a pele, a inevitável cobertura de moscas que se passeiam pelos seus misérrimos corpitos. Realmente é um horror, mas, atenção, até a ver o horror as pessoas se habituam. A fome-em-imagens é como a guerra-em-imagens. Sem querer, familiarizamo-nos com ela. E haverá quem tenha estômago para tirar disso uma estética de horror. Há gente para tudo neste tresloucado mundo, até para achar que "a guerra tem uma certa beleza".
A fome nas grandes cidades - para não falar agora da fome nos campos - escancara-se ou rebuça-se, mas é sempre, e com maiúsculas,  A FOME.
Existe uma teoria que diz que a fome é um problema técnico, mas, como alguém disse, na prática a teoria é outra. Eu acredito (e nem era preciso que eu acreditasse) que a fome é, antes de tudo, um problema político. E desta convicção ninguém me tira enquanto me restar alguma capacidade de compreensão do mundo onde estou inserido. Numa sociedade onde podem coexistir o supérfluo e a falta do essencial, algo se encontra politicamente errado.
- Anda jantar, filho, que o osso está fervido!
Acreditem ou não acreditem, gostem ou não gostem, foi esta a fala que eu ouvi, há dias, no noctambular por um dos bairros mais pobres desta nossa sempre linda Lisboa.
Trinta e sete anos decorridos sobre o poema de Bandeira, que, hoje, esteticamente nos delicia, as fome continua negra, cruel e, com certeza, mais universal que antes. Que grande criminoso que é o homem!, diria um pregador qualquer. Eu não vou tão longe, nem tão abstracto. Penso, apenas, que o homem ainda não se libertou.
Alexandre O'Neill
Uma coisa em forma de assim
Editorial Presença, 1985

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Açores

Numa altura em que a maior parte das pessoas carrega uma depressão do tamanho do Atlântico, vale sempre a pena realçar a beleza dos Açores e deixar registado o humor dos açorianos.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Palavras bonitas

PERENIDADE
Nada no mundo se repete.
Nenhuma hora é igual à que passou.
Cada fruto que vem cria e promete
uma doçura que ninguém provou.
Mas a vida deseja
em cada recomeço o mesmo fim.
E a borboleta, mal desperta, adeja
pelas ruas floridas do jardim.
Homem novo que vens, olha a beleza!
Olha a graça que o teu instinto pede.
Tira da natureza
o luxo eterno que ela te concede.

Libertação
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1978)

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Sopa de cardos

Baixava-se e, com rapidez, cortava uma folha, que escondia no regaço, por debaixo do avental. Percebia-se que não estava à vontade. Não podia ser receio do dono da terra, uma vez que o terreno era baldio, pertença de todos e de ninguém, e não tinha qualquer aproveitamento. 

Não havia dúvidas: o que a constrangia era o acto em si, o medo de ser vista. No íntimo, fazia algo que não estava certo, fugia ao padrão, era passível de crítica, tinha vergonha.

Fingindo a distracção própria dos garotos, que todos percebem ser artificial, fui-me aproximando. As felosas saltitavam nas figueiras e os pintassilgos, em coro com os rouxinóis, chilreavam nos salgueiros do riacho. O fingimento obrigava-me a olhar a passarada, tentando que a curiosidade fosse satisfeita sem que parecesse ser esse o único interesse da ronda.

Apanhava cardos. Escolhia as folhas maiores, tirava-lhes a nervura central e escondia-as de imediato.

Não resisti.

- Para que quer os cardos?

- Para a sopa, mas não digas a ninguém.

Sabia que se fazia sopa de feijão, de hortaliça. de grão, de nabos, até de abóbora, mas de cardos?!

- Tirando os picos, fica quase como couve. De manhã apanhei caracóis, grandes, vou assá-los. Com a sopa, ficaremos todos bem ceados.

Já haverá por aí quem tenha voltado à sopa de cardos?

Lembrei-me agora: há anos que não vejo cardos daqueles.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Visitas

No próximo dia 12 Portugal recebe a visita, ilustre, daquela senhora alemã que usa casacos parecidos com os meus, embora bem mais feios.
É um momento importante para o nosso país, havendo a lamentar apenas que a estadia seja tão curta, trazendo, seguramente, enormes transtornos à senhora. 
Estando 6 horas em Portugal, de entre as formalidades do aeroporto, as apresentações às autoridades, a visita à Auto Europa, as conversas com o PR (vai ensinar-lhe como se comunica no Facebook) e com o  PC (Passos Coelho, que lhe ministrará uma pequena aula de canto), sobrará muito pouco tempo para a senhora ir ao WC fazer um pequeno xixi, se disso tiver necessidade. O cócó nem faz parte da agenda, ficando a vontade guardada para o fazer a bom recato na sua terra, talvez numa sanita portuguesa.
A vida de chanceler deve ser muito dura e a capacidade de síntese exigida para executar esse mister inimaginável. Ainda pensei em convidá-la para um cházinho em minha casa, mas reconheço que nem tempo teria para lhe abrir a porta.
Nota final: Espera-se que o povo português compreenda que a senhora tem uma vida muito ocupada e não atrapalhe a visita com manifestações. Saibamos receber quem nos quer bem ...

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Reflexão

O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, a expressão de sentimentos, uma gaveta de memória, a manifestação de opinião livre, sem preconceitos nem vassalagem, sem pretensiosismo de qualquer espécie nem ambição de leitores, elogios ou críticas. 
Discreto, pacato, por vezes reflexivo, outras impulsivo, à imagem do seu autor. Por aqui têm passado os temas que, em cada momento, me marcaram por qualquer motivo e me deram vontade de registar, aproveitando este arquivo monumental, ordenado e espaçoso que, sem grande trabalho, esta geringonça permite.
É assim que quero continuar, para me surpreender quando percorro os cantinhos da gaveta e descubro o que entendia em tempos idos, no que reparei, onde me levou o sentimento.
Se um dia os meus netos vierem a passear por este arquivo, gostaria que se sentissem tentados a vasculhar o que, nessa altura, já terá desaparecido na voragem do esquecimento.
Acabei há dias o melhor livro de Lobo Antunes, a que já fiz referência aqui. O meu carácter impulsivo acha sempre que o último livro deste autor é o melhor, mas este é, sem qualquer dúvida, um grande livro! Em três dias, as inúmeras vozes que nele se ouvem caminham por situações da vida, numa beleza de escrita onde cada palavra é aquela e não podia ser outra, onde cada imagem é mais bela do que a anterior, onde cada descrição só ficava perfeita com aqueles pormenores, onde cada um diz o que deve no momento certo, mesmo que a voz seja a do irmão surdo da professora angustiada com as complicações da vida, que decide juntar-se ao irmão, no mesmo mar onde ele mergulhou e a cabra caiu, junto à casa de praia onde não se passava o muro para brincar, por do lado de lá morar gentinha. Deve dar muito trabalho escrever assim!
A convalescença do corte também tem algumas vantagens e esta é uma delas: tem-me permitido ler (muito) quando quero e como quero.
Agora estou na fase das novidades: depois de Lobo Antunes (Não é meia noite quem quer), já vai avançado o Cafuné de Mário Zambujal, mais leve que o anterior, onde, com prosa deliciosa, se contam as aventuras, desventuras, sonhos e realidades de um Rodrigo Favinhas Mendes, que viveu em Lisboa por alturas das invasões francesas. Seguir-se-á Mario de Carvalho (O Varandim), Rui Cardoso Martins (Se fosse fácil era para os outros) e Bruno Margo (Sandokan & Bakunine). Gosto variado, prosas diferentes, leitura diversa.
Nos intervalos, as caminhadas, a crise, o orçamento, o Gaspar, o Portas e o Coelho, que não devem ter tempo para ler, tão afadigados que estão em obedecer àqueles funcionários de segunda, que ditam as regras impostas por aquela senhora alemã, cujo nome não me ocorre, mas que usa casaquitos parecidos com os meus, porém bem mais feios ...

domingo, 21 de outubro de 2012

Não há bem que sempre dure ...

António Lobo Antunes na Visão de 18.10.2012:

"O meu trabalho está praticamente terminado. Escrevi os livros que queria, da maneira como queria, dizendo o que queria: não altero uma linha ao que fiz e, se me dessem mais cem anos de vida em troca deles, não aceitava. Era exactamente isto que ambicionava fazer. Há uns dez dias acabei o último. Se tiver tempo, e embora a obra esteja redonda (sempre esteve na minha cabeça deixar a obra redonda) é possível, seria possível acrescentar uma espécie de post-scriptum. Não sei se vou fazê-lo. Sai um livro em 2012, para o ano uma colecção destes textozitos, em 2014 o que agora terminei e uma última colecção destas prosinhas e acabou-se (...)"

Como sempre e em todas as circunstâncias, arrepia e, ao mesmo tempo, anseia-se pelo que virá a seguir, agora mais ainda sabendo-se que serão os últimos. Enquanto se aguarda pelo romance agora acabado, um pequeno excerto do recém publicado "Não é meia noite quem quer". 
Em "meia dúzia de linhas", a descrição exaustiva da angústia, da separação, do trabalho, da doença, das relações familiares, da vida. 

"(...) Gostei de ti logo no primeiro minuto só que não sabia o que fazer desde que o meu marido me trocou por, desde que o meu marido se foi embora, eu estava morta, percebes, morta, tudo defunto em mim, quando a requisição no Ministério acabou pensei, sem tristeza nem alegria, porque cá dentro nem tristeza nem alegria, indiferença, lá vou ter que suportar aulas de novo, criaturas à minha frente que não se darão ao trabalho de ouvir o que digo e o que posso dizer que lhes interesse, vão à escola porque têm que ir à escola, não escutam, não aprendem, não sabem falar quanto mais escrever, cochichos, empurrões e eu sozinha diante deles como sozinha em casa, nem os via, palavra, debitava a matéria enquanto assuntos sem relação com o trabalho e sem relação entre si apareciam e desapareciam à medida que a minha boca continuava a mover-se, a factura do gás, por exemplo, de que deixei passar o prazo e agora tenho que ir à companhia e aguentar horas na fila antes que me fechem o contador, um dente lá para trás a aborrecer-me, a minha madrasta, há muitos anos, foste tu que partiste o bambi e foi o braço, sem querer, que o expulsou da cómoda, o bambi da época da minha mãe e eu tão aflita meu Deus, obrigando-a a agonizar outra vez, para além do bambi pouco restava dela, a minha madrasta expulsou o que lhe pertencia, o meu pai calado e eu chorando de zanga, não de pena, no quarto, talvez pelo hábito de a ter ali sem conversar com ela, nunca conversei com ela, isto é a minha mãe não conversava comigo, observava a rua da varanda, tão magra do pâncreas, antes do pâncreas palavra alguma também, a única palavra de que me recordo era come e eu de boca cheia, esquecida de engolir, (...)"

 Uma prosa brilhantemente simples e simplesmente brilhante.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Crise

Pálido, cabisbaixo. soturno, triste, pensativo, meditabundo, colérico, zangado, o país levanta-se todos os dias com pior aspecto e, para quem nada percebe de ciências ocultas, definha a olhos vistos, caminhando inexoravelmente para o desconhecido.
Os "médicos" que o tratam são autoridades nas várias especialidades e garantem que a terapêutica é a adequada para que se atinjam os objectivos propostos. Outros "médicos", muitos dos quais com experiência "hospitalar" que agora não exercem, falam em septicemia, morte por emagrecimento exagerado, destruição de células, risco de eliminação do doente antes da cura produzir efeitos, diagnósticos estes que os residentes rejeitam, não admitindo discussão sobre alternativas a um caminho sem rumo.
O presidente do "hospital" continua nos jardins de Belém a ouvir os passarinhos. Conhecerá ele a história do burro do espanhol?
Conte-se, para que conste e sirva de alerta:
O espanhol tinha um burro que comia de forma desalmada, obrigando-o a gastar a quase totalidade dos parcos rendimentos que a sua actividade de almocrevaria lhe proporcionava. Conhecendo a máxima de que somos todos animais de hábitos e que estes fazem o monge, meteu-se na cabeça do espanhol que o burro, sendo asno, não tinha necessidade de comer. Vai daí, deixou de lhe dar o penso e de lhe permitir o pasto pelos campos. O burro começou a perder a força e os seus ossos acentuavam cada vez mais os ângulos do corpo.
- Vai habituar-se, ou eu não me chame Gaspon! A receita é boa, o burro é burro, os custos diminuem, tudo bate certo.
Um dia o burro apareceu morto.
Conclusão do espanhol:
- Que pena! Logo agora que já se estava habituando ...

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Palavras bonitas ... adequadas ao momento

ESTA GENTE

Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo.

Sophia de Mello Breyner Andresen
Geografia - Procelária (1967)

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Crise

Casaram-se há pouco mais de um ano, após um noivado sufragado pela maioria e com o apoio de muita gente que entendia ter o casal todas as condições para gerir a habitação.

Os noivos, por seu lado, apregoaram aos sete ventos que há muito vinham estudando as matérias da vida em comum, e que se encontravam preparadíssimos para dar os passos necessários à abertura das portas, conhecendo todos os cantos da casa e todos os segredos da boa governação da mesma.

Com portas bem abertas e passos na direcção certa, haveria coelho para todos, sem necessidade de pedir mais ingredientes aos comensais.

Com o espanto de muitos e a confirmação do pensamento de alguns, afinal o namoro não tinha proporcionado um suficiente conhecimento mútuo, a vivenda era demasiado grande e a experiência que ditava certezas não passava de balão cheio de nada, numa mão de coisa nenhuma.

O divórcio está em marcha!

Já não dormem na mesma cama, conversam apenas através dos representantes, sentam-se à mesma mesa mas cada um escolhe a sua própria ementa ...

O país já fala abertamente no caso e os amigos mais próximos já o dão como irreversível.

O juiz paira no seu gabinete, aguardando que o casal chegue a acordo e evite o litigioso, mais caro e mais trabalhoso.

P.S. 1 - A semelhança entre o relato e as relações PSD/CDS não é pura coincidência.

P.S. 2 - A bandeira nacional foi içada ao contrário nas cerimónias do 5 de Outubro e houve dois "incidentes" bem reveladores do "estado" da Nação, numa cerimónia à porta fechada, com mais polícias a guardar que entidades a participar.

domingo, 30 de setembro de 2012

Livros (lidos ou em vias disso)

(...) Se fosse rei por uma semana, afianço-lhes que mondava Portugal. Uma fogueira em cada oiteiro para os ministros, os juízes, os escrivães e os doutores de má morte. Para estes decretava ainda cova bem funda, com obrigação de cada homem honrado lhes pôr matacão em cima. Uma choldra de ladrões! Imaginem Vossorias que um pobre já nem uma bestinha pode ter! Muito tempo conservei aquele cavalito fouveiro - lembram-se? - para me ajudar a espairecer saudades dos tempos em que corria de almocreve Ceca e Meca e olivais de Santarém. Vai senão quando, António Malhadas, salta de lá com nove tostões de sumptuária. Irra, novecentos réis por um cavalicoque, um chincaravelho que não valia, a bem dizer, os guizos dum gato! Raios partam o Governo mailos governados, raios partam tanto tributo com que a gente de bem tem de ustir para andar aí meia dúzia de figurões, de costa direita, mais farófias que pitos calçudos! Raios partam! O governo é um corpo da guarda que nos defende ou é a quadrilha do olho vivo que não faz senão roubar? Quem lhe encomenda o sermão?!(...)

O Malhadinhas
Aquilino Ribeiro
Bertrand (2008)

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Dias ... de crise

A perna presa mantém-me preso ... , em casa, a procurar que o descanso diminua as dores, que o calendário se mexa e que o "dia do corte" chegue depressa.
Será a 10 de Outubro que irei aconchegar-me, não nos braços de Morfeu, mas juntinho ao Santo António que dá nome à clínica onde já tenho hospedaria reservada.
"Vai ser fácil, sexta-feira já almoça em casa". 
Razão tem o meu amigo Z.F.:"Pimenta no do parceiro é refresco!".
Valha a leitura. Já lhes perdi a conta. Tenho lido (e relido) muito ... e bom!
Novo e velho, conhecido ou virgem, nacional ou estrangeiro.
Acabei há pouco "O Rebate", de J. Rentes de Carvalho: um "fresco", extraordinariamente bem escrito, em 1971(?), e um retrato do Portugal da "outra senhora", que alguns parecem apostados em ressuscitar.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Crise

Recado para o país, surgido das imediações do Palácio de Belém, na noite em que o Conselho de Estado está reunido para aconselhar o Presidente da República.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Data

Um papel sem data não vale nada ...

Jovem escriturário numa grande (à época) casa agrícola da região oeste, marquei no cartório notarial a escritura de venda de uma pequena courela que, sendo da casa, se encontrava encravada entre dois talhos que lhe não pertenciam, não tendo qualquer hipótese de exploração com um mínimo de rentabilidade.

No dia aprazado para o "solene" acto e de acordo com as indicações que tinha, deixei um recado, em papel grande e com letra de imprensa, na mesa que a isso estava destinada. Dizia mais ou menos o seguinte:

"Senhor F..., agradeço que esteja no cartório notarial às 12H00, para assinar a escritura da Lameira. Obrigado. O"

Fui à minha vida, verificar se estava tudo em condições e tratar de alguma imponderável de última hora que surgisse.

A pontualidade era uma norma da casa, cumprida escrupulosamente por toda a gente, do empregado mais humilde ao patrão, que detestava atrasos e ficava de "cabelos em pé" quando alguém se atrasava, incluindo ele próprio. Estranhou-se, por isso, que às 12H00, o outorgante mais importante não estivesse ainda presente.

Cinco, dez, quinze minutos e nada! O notário já desesperava e o ajudante do dito via a sua hora de almoço comprometida.

Os telemóveis ainda nem em projecto existiam e o telefone do cartório não era para uso público.

Embaraçado e sem saber o que fazer, pedi ao notário para, violando a regra, me deixar telefonar para a quinta. 

O último dos cinco números mal tinha acabado de regressar à posição inicial do disco e a voz surgia do outro lado:

- Sim!?
- Senhor F..., estamos todos à sua espera ...
- De mim, para quê?
- Para a escritura da Lameira, respondi, percebendo que qualquer coisa não tinha corrido bem.
- Deixei um papel escrito, em cima da mesa da sala ...
- Vi e li. Não tinha data, não adivinhava que era para hoje. Vou já para aí!

Passaram mais de quarenta anos. Ainda hoje, em qualquer situação, coloco sempre, mas sempre, a data. Para não ter surpresas ...

sábado, 15 de setembro de 2012

Palavras bonitas

No dia em que milhares de pessoas manifestaram o seu repúdio pelas "folhas de excel" que nos governam, é bom recordar palavras antigas, de um tempo que se quer antigo e sem retorno.

DE PORTA EM PORTA

- Quem? O infinito?
Diz-lhe que entre.
Faz bem ao infinito
estar entre gente.

- Uma esmola? Coxeia?
Ao que ele chegou!
Podes dar-lhe a bengala
que era do avô.

- Dinheiro? Isso não!
Já sei, pobrezinho,
que em vez de pão
ia comprar vinho ...

- Teima? Que topete!
Quem se julga ele
se um tigre acabou
nesta sala em tapete?

- Para ir ver a mãe?
Essa é muito forte!
Ela não tem mãe
e não é do Norte ...

- Vítima de quê?
O dito está dito.
Se não tinha estofo
quem o mandou ser infinito?
Tomai lá uma antologia
Alexandre O'Neill
Círculo de Leitores (1986)

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Crise

Ao contrário do que dizem por aí as vozes desestabilizadoras da tranquilidade do País, o Presidente da República não fala por birrinha, por ter inveja da voz pausada do Ministro Gaspar e muito menos por não ter nada para dizer, mas simplesmente por estar afónico em resultado dos inúmeros banhos tomados nas águas cálidas da Praia da Coelha.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Crise

Mia Couto, em entrevista à Visão de hoje:

"Das várias vezes que tenho vindo a Portugal sempre me falam da crise. Mas agora as pessoas incorporaram esse sentimento - como se a crise fosse uma casa e já estivessem a morar nela, o que me perturbou. Há um olhar melancólico, que herdei, de quem está aqui empurrado contra o oceano e tem de fazer opções impossíveis: se é terra, se é mar ... Mas havia também um gosto de subverter essa melancolia com a pequena graça, a piada, as anedotas, o riso. Não o vejo, agora, tão presente."

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Privatizações e parcerias

De acordo com fontes geralmente bem informadas, o Governo encarregou o Ministro Miguel Relvas de, em conjunto com o consultor para as privatizações, constituir um grupo de trabalho para estudar a possibilidade de concessionar o Sol à iniciativa privada.
O concurso, cujas regras deverão ser publicadas, em inglês, no Diário da República, será aberto a investidores privados de todo o mundo, incluindo o governo chinês. 
A ideia é fruto de um estudo aprofundado de Miguel Relvas, justificando-se, desta forma, a fase de "hibernação" que o Ministro tem vivido nos últimos tempos. 
Nesse estudo, é demonstrado ser previsível que a iniciativa privada tenha capacidade para, empacotando o Sol, vendê-lo não só no mercado nacional, no inverno e nos dias em que o nevoeiro visita a Foz do Arelho, como também exportá-lo para todo o mundo, alegrando as gentes que raramente o vêem e sentem, e contribuindo para que a nossa balança de pagamentos passe a ser altamente positiva.
Espera-se que a "troika" concorde com esta medida e não impeça o desenvolvimento e o crescimento do país.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Cobras

- Hoje vamos às cobras, gritou o Júlio.
A pequenada abriu os olhos de admiração e de ignorância. Que raio queria ele dizer?
O Júlio era de poucas falas; na aula, o professor estava constantemente a referir que precisava de trazer o saca-rolhas para lhe arrancar um pouco mais do que um monossílabo e, agora, de repente e em voz bem alta, desafiava, ou antes, ordenava à turba que hoje íamos às cobras.
Que coisa mais esquisita, pensavam os "capitães da areia", aborrecidos com a possibilidade de não haver a futebolada do costume mas, ao mesmo tempo, com uma vontade louca de ver esclarecida a aventura que se perspectivava.
- Não é agora, esclareceu o Júlio, percebendo o desgosto e as dúvidas de todos.
- Logo à tarde, quando acabar a escola, vamos acabar com elas!
- 'Tás maluco! Falas de quê, questionou o Eduardo, sempre tão bem comportadinho, a pensar na explicação a dar à mãe por chegar tarde a casa, em alternativa a perder a aventura.
- Ontem, quando saí da escola, fui lá e vi-as. Eram duas, passeavam no restolho, grandes, enrolando-se e esticando-se, a deslizar, em curvas seguidas, com uma pele azul ou cinzenta, não consegui ver bem. Andavam depressa, mesmo sem pernas.
- Tiveste foi medo, foi o que foi, gracejou o Tóino, para quem as aventuras no campo não tinham segredos. Era o campeão da fisga, o que mais corria e saltava, o que conhecia os pássaros estivessem eles poisados ou a voar. Sempre descalço, as plantas dos pés passavam por qualquer folha ...sem o mínimo esgar de dor.
O Júlio tinha descoberto duas cobras na encosta fronteira à escola e queria matá-las à vista de toda a malta. Para além de peçonhentas e perigosas - olhem se o Tóino as pisa - comiam os ovos das perdizes e, dizia-se, até os perdigotos.
Toda a gente concordou: as cobras, se por ali andavam, tinham que ser mortas.
- E como as matamos nós, questionou o João.
- Eu trago a pressão de ar do meu pai - ele só lhe pega ao domingo e sai cedo para o trabalho, tal como a minha mãe - voluntarizou-se o Manel -, e o Tóino dispara. Se tem boa pontaria com a fisga, também a terá com a espingarda.
- Não é preciso espingarda nenhuma! Ainda alguém ouvia os tiros e fazia queixa à professora. Vamos matá-las com uma cana verde!
O pasmo foi geral. Cana verde para matar cobras, que nos morderiam pela certa? O Eduardo tinha razão, 'tava maluco, o Júlio!
- É fácil e vocês não têm que mexer uma palha. Eu faço o trabalho sozinho, só quero a vossa companhia, para verificarem que não minto.
O Júlio passou à explicação do projecto de assassinato das cobras, maduramente pensado na noite anterior, e narrou-o com uma desenvoltura que constratava, e muito, com o habitual mutismo na sala de aula.
- Vamos ao caniçal e cortamos duas canas, duas, não mais, bem grossas e compridas; com a minha navalha, faço um corte a meio de cada uma, rasgando a cana até metade e criando duas abas sobrepostas, que se manterão seguras, por o rasgo não chegar ao fim. A "arma" fica pronta a ser utilizada: basta apontar à cabeça e bater-lhe com força. A cana assim cortada não parte e a chibatada é bem forte. As bichas vão dar ao rabo e podem, se não tivermos cuidado, dar-nos a chibatada a nós. Confiem em mim. Estudei bem a lição! As duas que vi nunca mais comerão ovos de perdiz ou de qualquer outra ave, nem morderão os pés do Tóino.
E assim foi ... duas cobras morreram nesse final de tarde, às mãos da cana do Júlio (uma chegou).
Levava um arame no bolso e prendeu-as pela cabeça e, enrolando-as, colocou-as no saco de serapilheira que tinha escondido na mala. Tudo pensado, não havia dúvida!
- Vou enterrá-las no pomar da quinta.
A surpresa estava guardada para o dia seguinte. No intervalo, o Júlio foi à sebe e arrastou as cobras pelo pátio. 
Acabou o recreio para as meninas da outra sala, que fugiram a sete pés, refugiando-se junto da professora, a quem contaram o que estava a acontecer.

Durante uma semana não houve recreio para os "capitães da areia".

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Palavras bonitas

O SORRISO

Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.

Poesia
Eugénio de Andrade
Fund. Eugénio de Andrade (2005)