terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Guerra ou ficção

Tão depressa a guerra está iminente como a diplomacia está a conseguir, com as suas diligências, um acordo que a permitará evitar. Uns dizem que se sentem ameaçados com a proximidade da NATO, os outros respondem que são um país soberano e pretendem a ela aderir.

Nos últimos dias, a possível invasão da Ucrânia pela Rússia tem sido a notícia mais badalada e tratada, parecendo estar em causa uma pequena excursão de fim de semana, para a qual é necessária alguma preparação e cuidado. A realidade pode ser bem mais grave e produzir consequências terríveis. Entretanto, as informações baralham, dão perspectivas, sugerem causas, apontam futuros, marcam dia para o começo, geram boatos, transmitem apreensões.

Ninguém de bom senso espera de uma guerra algo de positivo. Quem já a sentiu por perto sabe que "o boato fere como uma lâmina" e que faz parte da estratégia. Que não passe disso, que não aconteça, mesmo que daí surjam dificuldades e contratempos que as necessárias cedências inevitavelmente produzirão.

A esperança é que o diálogo com o inimigo exista, como foi preconizado, há tantos anos, pelo grande Raúl Solnado.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Proclamação

Saibam todas e todos, as e os que este titubeante texto vierem a ler, que o humilde escriba tomou hoje uma decisão que há-de ficar registada nos anais da história e proporcionar a todas as portuguesas e a todos os portugueses uma estranha sensação de qualquer coisa de inominável, sem o mínimo de credibilidade ou razoabilidade, mas importantíssima para a sua vida de todos os dias.

O Presidente da República de todas e de todos os portugueses vai receber uma carta pedindo que ele, que tanto adora as portuguesas e os portugueses, todos da mesma maneira e com o mesmo carinho, sem a mínima discriminação, inste todas as deputadas e todos os deputados para que aprovem, mal tomem posse dos lugares para que foram, recentemente, eleitas e eleitos, uma lei que coloque justiça na denominação do dia que hoje se comemora.

As deputadas e os deputados deverão elaborar, votar e aprovar uma lei que consagre o 14 de Fevereiro como o Dia das Namoradas e dos Namorados, acabando, de vez, com este tratamento indecoroso, sexista e ultrajante. Estou seguro que as portuguesas e os portugueses apoiam esta proposta e têm uma esperança imensa na decisão, favorável, das deputadas e dos deputados na nação.

São medidas como esta que farão da língua, que todas e todos falamos, uma língua clara, abrangente e integradora de todas e de todos, tratando todas e todos por igual.

Não lhes perguntei, mas tenho a certeza que Simone e Martinho da Vila apoiam esta proposta.

domingo, 13 de fevereiro de 2022

(In)Decisão

Tempos houve em que as decisões sobre viagens, curtas ou longas, eram de impulso, sem qualquer ponderação, cuidados ou análise de risco, apenas porque sim ou para corresponder a qualquer desafio, mesmo sem qualquer racionalidade ou interesse.

- E se lá fôssemos?

- Já lá estamos? 'bora lá.

Depois, tal como a fruta, amadurece-se e qualquer decisão, por mais banal que possa parecer, é analisada à lupa, ponderados os prós e os contras, vislumbrados os custos, discutida com o travesseiro e, em princípio, tomada quase definitivamente.

O tempo corre. A partir de determinada altura, tal como a fruta apodrece, também a vontade e a capacidade de decidir se vai esboroando. E no cérebro só surgem dúvidas e hipóteses de não correr bem, de ser desagradável, não compensar o custo, ser o benefício duvidoso, existirem perigos latentes.

- E se chove?

- Se calhar há muito trânsito ...

- É capaz de estar muita gente e isto anda tão perigoso ...

- Não se consegue chegar antes de noite. Talvez seja melhor ficar por lá e regressar de manhã.

- Há algum hotel de jeito? Justifica-se?

- Até nem me apetece muito, mas ...

- Pensamos nisso para outra altura. Há mais marés que marinheiros ...

- Pois!

A última frase é elucidativa e vinculativa. Um dia destes pensa-se de novo. Pondera-se. Analisa-se. Discute-se. Conclui-se.

Será diferente? 

sábado, 12 de fevereiro de 2022

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) À maioria faltava-lhe a curiosidade e, além disso, quem é que entendia suficientemente a língua hebraica? Quem sabia mais do que ler as palavras sem conhecer o seu sentido? Na melhor das hipóteses, as pessoas encantavam-se com a sua música, mas não com o seu significado.

- Há séculos, disse ela, as coisas superiores e importantes eram exclusivo dos homens. Ainda nos tempos de hoje isso se ressente. Só os homens são chamados para pegar nos rolos da tora e para ler os textos. Onde alguma vez se viu um rabino ou um cantor de sinagoga de saias? Mas basta. Agora já sabes porque é que nós duas ficamos cá em cima, isoladas dos homens.

Tirando os sermões sobre o que era prático e económico, nunca a avó me explicara tanta coisa de uma só vez. E, facto estranho, nas faces pálidas surgiram-lhe manchas vermelhas que faziam lembrar rosas murchas.

- Os homens ainda agora têm mais importância do que as mulheres?, perguntei.

- Enfim, as coisas já estiveram piores. Espero que se dêem grandes modificações, até tu seres rapariga crescida.

Era deveras emocionante ouvir falar assim a avó Ester. Eu precisava de aproveitar aquela ocasião para ficar a saber mais sobre o assunto. Mas pousou o dedo nos lábios, o que queria dizer que me devia calar.

De noite tentei continuar a conversa com o avô, que, no entanto, não parecia interessado.

- Achas que a tua avó não tem importância nesta casa?, perguntou, e deu uma risada seca.

Oh, sim, era verdade: a avó Ester era a pessoa mais importante em nossa casa. Limpava, cozinhava, lavava a roupa, guardava o dinheiro, destinava os gastos e dava ordens. O avô chegava a mentir, de tanto medo que tinha dela. Mas, mesmo assim, tudo isso nada tinha a ver com o que a avó me dissera naquela tarde. (...)"

O mundo em que vivi
Ilse Losa
Afrontamento (2018)

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

Cor

MENSAGEM é um jornal online sobre Lisboa, dedicado a quem por lá vive e ao que acontece na bela capital. Embora não reúna a condição prévia, recebo indicações sobre o que vai sendo publicado, permitindo-me coscuvilhar aquilo que é dito pelos "mensageiros" ao povo lisboeta e também, porque não, aos provincianos como eu que vivem a quase uma centena de quilómetros da "civilização" e por ela se interessam.

Hoje foi dia de receber o mail de alerta e, de entre as várias notícias, vinha a maravilha que reproduzo abaixo.

Tão bonito! E que bem sabe ouvir, quando há por aí alguns energúmenos a falarem da cor ... da pele.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

Vertigem

Tal como a banana madura não volta a verde, quem andou não tem para andar e águas passadas não movem moinhos, também quem usufrui desta maravilha que é a vida tem o seu ciclo e, naturalmente, a sua importância vai diminuindo, ainda que muitos tenham dificuldade em assumir essa realidade - que a todos abençoa - e achem que o mundo acaba quando deixarem de dar aos braços.

Logo pela manhã, ainda nos primeiros cumprimentos à borda da piscina, um jovem referiu, nem me lembro a que propósito, uma música que tinha ouvido pela manhã e que, para ele, devia ser muito, muito antiga.

- Lembra-se dela, perguntou trauteando o que tinha ouvido.

- Perfeitamente. Deve ser do início da década de oitenta, do século passado, claro.

- Ainda eu não era nascido ...

Quase uma hora de braçadas, a boa disposição sempre gerada na água apesar do cansaço, tempo de finalizar a actividade e de ir para o banho retemperador. Há mais vida para além da piscina.

- Há pouco estava a ouvir a sua conversa com o J. e pensei: lembro-me bem da música. Fiz as contas e concluí que já lá vão perto de quarenta anos e eu era, na época, um adolescente vivaço. O tempo passa a correr ...

 - Tal como a água. É melhor tomarmos a chuveirada e pensar que, para a semana, voltaremos a encontrar-nos aqui.

Ficou por ali a conversa. Cada um tomou o seu banho, secou-se, vestiu-se e despediu-se, com a certeza de que o tempo passa depressa e a esperança que demore bastante a passar.

Nadar cria essa ilusão!

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Chove?

- Vai chover!

Era a expressão utilizada pela minha mãe assim que ouvia a música, sempre a mesma, do amola tesouras.

- Amola tesouras!

- Conserta alguidares e chapéus de chuva!

Era uma figura ou um figurão, não sei bem. Deslocava-se numa bicicleta especial que, estacionada num cavalete incorporado, tinha condições para que os pedais movimentassem a correia ligada à pedra de esmeril e tornassem esta o instrumento necessário à função. Era nessa pedra que as facas, as navalhas, normais e de barba, as tesouras, de poda ou de costura, eram afiadas e ficavam um brinquinho, quer na capacidade de cortar quer no aspecto.

Para além dos utensílios cortadores, consertava chapéus de chuva, recolocando as varetas no lugar devido e atando-as bem melhor do que vinham da origem. Vareta consertada pelo artista dificilmente se tornava a partir ou a sair do lugar.

Por fim, os alguidares e quaisquer outros recipientes de barro, das canecas aos tachos, dos púcaros aos pratos. Mesmo com várias "fracturas", eram recuperados à custa dos "gatos", estrategicamente colados, depois de colocados a apanhar as duas partes afectadas. Os "gatos" eram uma espécie de agrafes em ferro, com tamanhos diversos, consoante a dimensão da peça de barro carente de salvação.

Trabalho executado, bicicleta descida do cavalete e regressada à posição normal, o amola tesouras ia procurar outro cliente, tocando, na sua gaita ou flauta de pã, a melodia de todos conhecida como anunciadora da chuva.

Talvez seja altura de recuperar algum amola tesouras que por aí ainda ande esquecido e pedir-lhe que toque na gaita, para ver se chove!

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Pirataria

Depois do Expresso e, ao que parece, do Correio da Manhã, coube esta noite à Vodafone ser vítima de um ataque informático que paralisou os serviços da operadora e causou enorme perturbação nos seus clientes, de entre eles o INEM, algumas corporações de bombeiros e bancos. 

Sou um utilizador "frenético" da internet, a tal ponto que, desde a passagem à reforma (há quase cinco anos), nunca mais entrei numa dependência bancária. Faço tudo sentado à secretária, de transferências a pagamentos, consultas e tudo o mais que um utilizador normal tem necessidade. Para além disso, compro muita coisa em empresas que, presumo, são seguras e oferecem confiança. Não sou fã das redes sociais, embora por lá passe de quando em vez, para coscuvilhar os temas mais em voga.

A realidade, porém, está a avisar-me que no melhor pano cai a nódoa. E que a pirataria informática está implantada e, tudo o indica, veio para ficar. Já se conheciam as interferências nas eleições de alguns países, as mensagens e notícias falsas, as aldrabices comerciais, as disseminações mentirosas propagadas pelas redes sociais. Tudo isso é pouco quando comparado com a entrada numa das maiores operadoras do país, que se julgaria ter o seu sistema blindado a estes ataques. Afinal, confirma-se o que se sabe desde sempre: o polícia anda sempre atrás do ladrão e nunca o contrário.

Com a clareza que o caracteriza há muitos anos, o Professor José Tribolet, numa entrevista à CNN, esclarece o que, na sua opinião, aconteceu e reforça aquilo que pode vir a suceder, em tempo mais breve do que se imagina. Vale a pena ouvir aqui.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Palpites

Não percebo nada de saúde. Aliás, percebo muito pouco de alguns assuntos e nada da grande maioria, por muito que se diga que a modéstia em demasia é defeito. E não devo ser o único, tanto quanto me indicam as sondagens que faço nas conversas, nos contactos, no dia a dia da vida, e que são muitíssimo mais fiáveis do que as que foram efectuadas sobre os resultados eleitorais.

Apesar disso, vou tendo opinião e procurando manter-me informado, embora as notícias sejam feitas, na sua grande maioria, pela opinião de alguém com quem o repórter, apressadamente, estabelece uma conversação pouco mais que fortuita. 

- Então, a vacina fez muito doer no bracinho?

- Foi decisão dos papás ou tiveste opinião?

- Está à espera há muito tempo?

- E é tudo, por aqui, voltaremos daqui a pouco com mais pormenores.

Uma das notícias importantes de hoje é sobre a existência de muitos milhares de portugueses sem médico de família, situação que se agravará até ao final do ano em consequência da passagem à reforma de cerca de 1.000 médicos dessa especialidade. O tema, presumo, é caro a toda a gente, a começar por mim, tendo sempre presente que a saúde é um bem essencial, que deve ser cuidada e estimada. Não faço a mais pequena ideia de quantos doentes estão afectos a cada médico de família, mas julgo que não seria despiciendo fazer uma investigação jornalística ou, quem sabe, um estudo científico, sobre o trabalho que estes doentes dão, a periodicidade com que se deslocam ao Centro de Saúde, as razões que os levam lá. Seria uma forma de saltarem as necessidades prementes e de avaliar o sacrifício de muitos e o bem estar de alguns.

Talvez houvesse surpresas, quer nos ficheiros considerados activos quer na utilização dos serviços, pelos doentes recenseados. Porém, tudo isto não passa de considerações de um "achista" empedernido, que não tem nada de relevante para fazer, e cujas, elas, as considerações, não têm o mínimo de interesse ou qualquer relevância.

O importante é que Portugal se sagrou bi-campeão europeu de futsal e eu vibrei com o desenrolar do jogo e, mais ainda, com o resultado final: Portugal - 4 / Rússia - 2, ou como estava bem explícito no cartaz de um adepto presente no pavilhão Bagaço > Vodka. Elucidativo ...

domingo, 6 de fevereiro de 2022

Teatro

Paralelamente às desgraças que por aí andam, as notícias de hoje trouxeram a boa nova segundo a qual o TEATRO, a partir do próximo ano lectivo, passará a integrar o ensino articulado, a par com a Música e com a Dança, o que registo com enorme agrado. Tenho sempre presente a minha insignificante ajuda para que o ensino articulado da Dança pudesse ter lugar nesta cidade. E já lá vão muitos anos.

É mais um passo na democratização do ensino e na possibilidade de a Escola ser o elevador social que se pretende e anseia há muito, muito tempo.

Mesmo com a consciência de que não basta decretar para que aconteça, o passo está dado e o caminho aberto. E isso trará muita gente disponível para aprender e muita outra para ensinar, transmitir, cativar e criar condições para que o acesso à cultura e o seu estudo façam aparecer gente mais civilizada, mais respeitadora dos outros, mais inteligente e mais compreensiva.

E uma porta se vai abrir às novas gerações e estas irão garantir, tenho a certeza, um futuro mais culto, mais responsável, mais solidário, digo eu, que sou "achista" sem conserto.