sábado, 18 de junho de 2022

Dúvida

Foi a girafa que furou a buganvília ou foi esta que se lhe colou ao pescoço?

Quem quiser ser esclarecido, dê um saltinho ao Parque D. Carlos I. Vale sempre a pena!

sexta-feira, 17 de junho de 2022

Integridade

Correndo o risco de ceder à demagogia e a alguns lugares comuns, mesmo assim ganha a teimosia de sempre, que espero se mantenha lúcida até ao fim.

Quem, mesmo sossegadinho, viveu sob a ditadura, não consegue compreender que exista gente, no auge da sua força e com acesso a quase tudo, a defender tempos idos e águas passadas. Muita dessa gente estaria condenada às portas fechadas, ao pescoço dobrado, à ausência de esperança, a morrer na valeta. Os pais de alguns deles, e os avós muito mais, nunca sonharam ser possível ver os filhos ou os netos ascenderem na sociedade, subindo alguns degraus na escada, mesmo que só até ao primeiro patamar. A esses, deixa-se claro que a escada da sua vida começou a fazer-se em 25.04.1974.

E aquilo que parecia impossível voltar a acontecer, alguns querem que regresse. Arreda, arreda, vá de retro, Satanás. 

Faz muita falta reflectir sobre o que já por aqui passou, como éramos e como somos, ou melhor, como se vivia e como se vive, apesar de ainda haver muita gente a vegetar. Com todos os defeitos que tem, a democracia abriu portas à discussão, à diferença, às possibilidades, à exibição do querer e da vontade, ao direito ao trabalho e à opinião, à revolta, à contestação, à paz. Haja paz e façamos um mundo melhor para todos. E aqueles que já moram no "primeiro andar" pede-se-lhes que não olhem com desprezo para a "cave" e não exibam as benesses de forma ostentatória e ofensiva para quem nada tem. 

Há muitos que nada seriam se a sociedade constituída por todos e para todos não lhes tivesse dado essa oportunidade, muitas vezes com o recurso a expedientes e malabarismos que deixam muito a desejar no campo da honestidade que se ouve apregoada. Talvez seja a altura de darem algo em troca, tendo presente que o dinheirinho traz alguma felicidade e ajuda muito, mas não compra tudo e todos.

quinta-feira, 16 de junho de 2022

Trabalho

Por ser dia de descanso, hoje não parecia haver capacidade para assegurar o regular funcionamento deste "diário", apesar da justíssima ansiedade dos que a ele recorrem para resolver os grandes problemas de fundo. Na verdade, poucos (ou nenhuns) são os que disso necessitam ou usufruem de qualquer vantagem das eventuais visitas que por aqui efectuam. Talvez só por vício ou masoquismo, se justifique a trabalheira que dá uma consulta diária de textos "para encher chouriços".

Foram feitos todos os esforços para manter a "porta aberta", com outros trabalhadores e melhor qualidade. Não houve uma única pessoa que se dispusesse, disponibilizasse ou aparecesse para garantir a produção do dia, o que se compreende muito bem, dada a excentricidade da tarefa.

A capacidade de trabalho de quem se mantém sempre ao serviço também se esvai. Paciência, é a vida. Não é grave nem por aí vem qualquer mal ao mundo. É apenas uma incapacidade séria de planeamento e de antecipação, coisa que grassa por aí com fartura e que, por isso, se não deve estranhar. Tudo isto foi agravado pelo estrago que uns pingos de chuva, bem grossos, por sinal, fizeram numa manhã de praia que se antecipava como óptima, considerando as previsões divulgadas para o país. 

A água estava boa e o mar disponível para facilitar os acessos ao pessoal, antecipando até uma possível enchente. Nada disso aconteceu. Três teimosos, cumprindo o ritual na "prainha", aproveitando a maré vazia e o caminho com sinal verde. O mar, como óptimo trabalhador que é, tem cumprido a sua tarefa e transportado muita areia de um lado para o outro, mostrando rochas novas e soterrando muitas antigas. Tudo isto sem qualquer concurso nem comissões de verificação.

quarta-feira, 15 de junho de 2022

Tarefas

Este ano, a ginjeira está bem carregada. E as ginjas vão amadurecendo com calma, primeiro as lá de cima - apanham mais sol - a que se seguirão as outras se, entretanto, nada ocorrer de especial.

Já foi concretizada a primeira colheita e, de acordo com a informação veiculada por quem sabe, está assegurada a produção de doce para as encomendas precoces.

Os melros, sempre atentos, aproximam-se cada vez mais e, sem vergonha, vão fazendo a colheita por sua conta. Não fazem parte do quadro nem têm qualquer vínculo que os ligue à ginjeira. São uns meros tarefeiros sem escrúpulos, que nem aproveitam estes dias feriados para fazer pontes e irem "laurear a pevide", como tanta gente fez. Acresce que, como não têm satisfações a dar a ninguém nem respondem disciplinarmente ou legalmente a qualquer entidade, comem as ginjas quando muito bem querem ou lhes apetece, sem qualquer preceito ou respeito. 

Por mais temido que seja o ramo, aparecerá sempre um qualquer melro a deliciar-se com as ginjas, maduras, claro, e comidas apenas e só quando lhe aprouver. Se estiverem verdes, não prestam, só os cães as podem tragar, como dizia a raposa, das uvas.

Se os melros tivessem um contrato de prestação de serviços biunívoco, a ginjeira determinava o seu cancelamento imediato. Não se pode "tarefar" apenas quando convém.

terça-feira, 14 de junho de 2022

Menosprezo

Naquele final de tarde da terça-feira só tinham aparecido seis "futebolistas para o habitual jogo semanal de futebol de salão, praticado ao ar livre e em piso de cimento, para enrijar o osso. Eram os tempos da Parada, que hoje serve de parque de estacionamento. Os pavilhões, com piso de madeira, ainda estavam para chegar!

- Somos tão poucos. Nem dá para um joguinho. 

Uns pontapés à baliza, antecedidos de umas corriditas para aquecer os músculos, e não aparecia mais ninguém. Seis não dava para nada e o lamento dos "quarentões" pela ausência dos colegas, que nem sequer avisaram, era perfeitamente audível.

Meio envergonhados, foram-se aproximando. Eram quatro jovens, treze, catorze anos, com ar de quem não se importava de fazer companhia aos "velhos" e colaborar na jogatana.

- De certeza que os "putos" são fraquitos, mas é melhor que nada. Jogamos com calma, para não os assustar ...

 - Querem jogar?

- Se nos deixarem ...

Um dos "velhos" foi para a baliza dos miúdos, para que ficassem duas equipas com igual número de jogadores.

- Vejam lá o que fazem. Não vamos massacrar os "putos". 

Ainda mal a bola começara a rolar e o primeiro já lá estava. Foi um massacre. Os miúdos chegavam sempre primeiro e os "velhos" nem a cheiravam. Alguns de nós achavam que eram tecnicamente muito dotados e que isso era suficiente.

- Com calma. Troquem bem a bola que chegamos lá.

Não chegámos. Foi uma abada. E os miúdos até pareciam toscos ...

Lição de vida: "quem primeiro alça, primeiro calça" e "mais vale quem quer que quem pode".

segunda-feira, 13 de junho de 2022

Ilusões

Os olhos perscrutam o horizonte e apenas vêem uma mancha acinzentada, azulada, indefinida, sem nada que indicie haver por ali alguma coisa de palpável, muito menos umas ilhotas bem robustas e antigas.

Nem sinal das Berlengas, dos Farilhões, muito menos das Estelas ou das Desertas. Mas estão lá, disso não haja qualquer dúvida. Não é fácil de explicar a quem, pela primeira vez, se sente no areal da Foz e deite os olhos ao mar, cumprindo a sugestão de as descobrir.

- Não vejo nada. Estás a brincar ...

Não se movem, nunca, esteja o mar revolto ou mansinho. Escondem-se, de quando em vez, criando nova paisagem, ou aparecem mesmo ali à frente, quase à "mão de semear".

- As Berlengas, hoje, estão mesmo aqui. Se calhar, amanhã chove.

E no dia seguinte estão mais ao fundo, mal se distinguem no meio do oceano, confundem-se entre o céu e o mar, com vergonha de se exibirem. Logo no outro se distinguem perfeitamente, mas lá tão longe. 

A natureza tem destas coisas, incompreensíveis, alterando-se e forçando realidades que, não deixando de o ser, "vestem" hoje paletó e lacinho e amanhã uma bata suja, da cor do horizonte e nele bem embrenhada. Tal qual as pessoas, que tão depressa se fazem ouvidas e notadas, como a seguir se escondem em silêncios ensurdecedores, procurando transmitir que, afinal, não passam de uma ilusão, que não são o que foram e nem sequer por lá andaram. Todavia, olhando bem, está lá tudo, por mais que escondam.

E a culpa só pode ser da natureza!

domingo, 12 de junho de 2022

Pontes

Por me parecer pertinente e para ajudar ao destaque dado à situação que se está a viver nos hospitais, um pouco por todo o país, incluindo este cantinho oestino onde, tudo o indicia, morreu um bébé por falta de assistência adequada, e quando a hipocrisia de muita gente que devia ser responsável e não corporativista vem ao de cima, "roubo" o comentário do Embaixador Francisco Seixas da Costa, no seu blogue "Duas ou três coisas":

"É minha impressão ou a maioria das pessoas que, numa reação demagógica, culpou a ministra da Saúde pelas carências de pessoal especializado, em certas unidades hospitalares, se "esqueceu" de perguntar o que a "ponte" teve a ver com as falhas?"

E acrescento eu: os mapas de férias, elaborados no início do ano, já contemplariam estas ausências e foram, pela certa, bem analisados antes da devida aprovação. Quem os aprovou estava ciente que as parturientes não iriam escolher esta altura para terem os seus filhos, preferindo, por ser muito mais interessante, fazerem uma deslocação ao sul para se bronzearem. Daí à aprovação foi apenas o "salto" de uma assinatura com o "Concordo", que é sempre bem mais fácil do que fazer escolhas, conducentes a inimizades perfeitamente dispensáveis. "Eu sou o chefe, mas não quero problemas. Nem vou cá estar nessa altura."

sábado, 11 de junho de 2022

Sábado à tarde

A tarde serviu para espreitar a exposição World Press Cartoon, que permanecerá no CCC até 28 de Agosto. Vê-se com muito agrado e tem muitos cartoons carregados de humor e acutilância, de autores de todas as partes do mundo e com temas actuais, da pandemia à guerra, de Biden a Merkel, Johnson  e Macron, Putin e Trump. As burkas do Afeganistão também têm lugar de destaque. 

Depois, uma tentativa, gorada, de ver a exposição patente no Posto de Turismo. A secção expositiva encerra aos sábados, domingos e feriados, dias em que, naturalmente, quase ninguém anda na rua e menos ainda escolhe para visitar a cidade. 

No átrio, um aluno da ESAD terminava uma instalação, com madeiras reaproveitadas, bem interessante. Está a decorrer o 25º. Caldas Late Night, organizado por aquela escola de artes e a cidade está pejada de juventude, irreverente, como convém a qualquer artista. As vestimentas, a cor dos cabelos, a forma como se deslocam e privam, alertam os menos atentos de que o futuro é da inovação, da tentativa e erro, da actualidade, da ousadia. A música (também) faz parte da festa. O tipo da dita e o som que sai das colunas, seja ele emitido por um grupo ou pelo computador de um qualquer DJ (no caso, era o NV), comunica que há uma selecção de espectadores e que é melhor ficar em casa, à noite, nem que, para isso, surja a velha desculpa.

- É capaz de estar vento, e frio. Desagradável.

Uma nota final: às cinco e meia da tarde, a praça ainda não estava completamente desmontada. Temos de a manter por ali. Faz parte da história e as pessoas adoram o mercado ...

sexta-feira, 10 de junho de 2022

Organização

O restaurante reabriu há poucos dias, muito tempo depois de ter encerrado e após uma reformulação profunda, feita com bom gosto, por sinal. 

A manhã tinha proporcionado um passeio à beira-mar e algum tempo de leitura, abrigados da nortada que se fazia sentir, ainda que não de forma a assustar quem a ela está habituado. O sol ia rompendo, o mar estava a encher e as vagas eram bem altas. A Lagoa ria-se dos milhões de litros com que era presenteada e os pescadores também pareciam satisfeitos com o peixe que, assim o diziam, haveria de chegar dentro de alguns instantes.

- Vamos experimentar o novo ...

Ainda não estava cheio, mas não tardaria muito. Os clientes que já estavam sentados, aguardavam. Aqueles que iam chegando, esperavam, sentados.

- Ainda demora muito?

- Mais cinco ou dez minutos.

Os vários empregados corriam de um lado para o outro, desorganizados, sem ninguém que desse indicações e explicasse como fazer. Uma boa parte parecia, ou melhor, era completamente inexperiente. Um trazia as toalhas, outro vinha a seguir desinfectar a mesa e, claro, levantava-as. Agora vinha o cesto do pão, depois os talheres. Toda a gente corria mas ninguém parecia conhecer o destino.

Uma hora depois, chegou à mesa o que havia sido encomendado. Estava muito bom, sem dúvida.

Ao lado, três abandonaram, cansados de esperar. Lá ao fundo, outros quatro saíram também.

- Só esperamos até às duas e meia, ouviu o empregado, jovem, e, corado de vergonha, respondeu:

- A cozinha diz que são só mais cinco ou dez minutos ...

A conta não demorou tanto como a comida, mas foi necessário insistir duas vezes.

- Falta organização, não acha?

- Pois ...

Se não arrepiam caminho, não duram muito!

quinta-feira, 9 de junho de 2022

Legalidade

Um novo capítulo da saga aqui iniciada e que deverá estar, tal como a guerra, bem longe do fim.

Sem o papel nada feito. 

A reforma provisória estabelecida e comunicada são cerca de 190,00 € mensais, ainda que qualquer pessoa com o mesmo número de anos de trabalho (mais de vinte) tenha direito a, pelo menos, cerca de 300,00 €. É o valor da reforma mínima para quem teve descontos durante esse período, e não leva em linha de conta o montante sobre o qual esses descontos foram efectuados. 

- É verdade, mas falta o papel da Ucrânia e sem ele, a lei diz que é assim. Reforma provisória do valor que aí está indicado, que só será alterado quando chegar o papel.

 - Com a guerra, sabe-se lá quando virá ou até se o pedido chegou ao sítio devido.

- Pois ... mas não há nada a fazer. Tem de esperar.

Ainda tem, felizmente, condições para trabalhar e é isso que continua a fazer, para não morrer à fome ou passar a viver debaixo da ponte, como está a acontecer a muitos dos seus compatriotas.

- Depois recebe os retroactivos todos.

Se o papel não for destruído por algum bombardeamento entretanto, penso.

- A lei é muito dura.

Questiono-me: falta lei ao senso ou falta senso à lei?