terça-feira, 9 de junho de 2020

Quotidiano

Sai Centeno (Mário) entra Leão (João).
E, conotações futeboleiras à parte, é bom que o novo Ministro das Finanças faça jus ao seu nome e seja um leão a substituir a águia que esteve até agora no Terreiro do Paço e na Europa.
A memória é quase sempre curta mas na minha ainda permanecem os passos do Coelho, a magia do Gaspar e as certezas da Maria que também é Luís, tudo sob a visão sobranceira de um Cavaco que morava em Belém.

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Racismo

Se, como canta a Adriana Calcanhotto, "só a bailarina é que não tem" aquilo que todos temos e somos, porque há tantas diferenças entre gente que cá chegou, e há-de partir, nas mesmas circunstâncias? E porque não nos respeitamos todos? E porque morre gente de fome e tantos de fartura? E porque raio o preto há-de ser tratado de forma diferente do branco? E porque ... e porque ... e porque ...

domingo, 7 de junho de 2020

Vermelhinha

As cartas não eram o seu passatempo favorito e diziam-lhe pouco. Todavia, conhecia e sabia jogar à bisca, à sueca, ao burro (em pé e deitado) e até ao king. 
Os jogos de azar também lhe eram familiares, embora raramente praticasse. O dinheiro mal chegava para as despesas (sobrava mês) quanto mais para arriscar na lerpa, no montinho ou no sete e meio. A batota, designação por que eram conhecidos estes jogos, era um vício terrível, todos diziam, e por isso o melhor era não arriscar. Algumas vezes ainda jogava, desde que os parceiros acordassem em não o fazer a dinheiro e se limitassem ao prazer de ganhar ou perder sem dano na algibeira.
Estava na capital há muito pouco tempo e regressava a casa já a noite tinha assentado arraiais. A rua tinha tascas, casas de pasto e de passe, uma ou duas cervejarias, e, sempre, muito gente a ver "onde paravam as modas".
Junto a um candeeiro, daqueles que têm o corvo lá bem em cima, um monte de gente atenta e interessada. Que se passaria? 
Chegou-se e espreitou: uma pequena mesa, três cartas viradas para baixo, um figurão de cabelo comprido e bem regado a brilhantina, bigode fino, mangas arregaçadas e boné na cabeça, gritava:
- É sempre a vermelhinha que ganha.
- Esta perde, esta torna a perder, é sempre a vermelhinha que ganha.
Três quadras, uma de espadas, outra de paus e uma terceira de ouros, a tal que ganhava sempre.
O figurão passava as três cartas de um lado para o outro, num curto espaço e numa velocidade estonteante ia mostrando cada uma, sempre com a mesma lengalenga:
- Esta perde e esta torna a perder, é sempre a vermelhinha que ganha.
De repente, as mãos paravam e as cartas ficavam quietas.
- Está feito e não mexe mais!
A atenção e a perspicácia dos espectadores já tinha adivinhado onde estava a quadra de ouros, que dobraria a aposta. O dinheiro ia caindo em cima das cartas, até que o figurão decidia acabar.
- Esta perde, e arrecadava as moedas que os parolos tinham colocado em cima;
- Esta torna a perder, e mais umas moeditas faziam o percurso rápido para o bolso;
- É sempre a vermelhinha que ganha, eu avisei. Preparem-se para a próxima.
A vermelhinha estava no local que ninguém tinha adivinhado. 
E o jogo continuava, sempre com o mesmo resultado. 
 - Olh'ó chui, ouviu-se.
A mesa eclipsou-se num ápice, as cartas tinham desaparecido antes e o figurão, tão rápido a fugir como a jogar, enfiou-se pela primeira porta que encontrou aberta e ninguém mais o viu.
O polícia parou, disse boa noite e continuou a ronda pela rua fora, até ao mercado do Forno de Tijolo, subiu a Damasceno Monteiro e deve ter acabado na Parreirinha da Graça.
- Está feito e não vale ensinar. É sempre a vermelhinha que ganha! 

sábado, 6 de junho de 2020

Livros (lidos ou em vias disso)

Três dias depois de ter chegado, ei-lo que se vai encaminhar para a prateleira e juntar-se a todos os seus "irmãos" mais velhos, num sítio onde não há violência e antes muito carinho por todos. 

É o melhor!?

Não sei, mas quando o terminei pensei isso. Depois, olhei o mar e disse para comigo: estarás a ser influenciado pela memória que está tão presente no espanto da Margarida e já arrumou no cantinho mais fundo todos os outros. Podes estar a ser injusto. Diz só: é muito bom!

Lembro-me de, há bastantes anos e quando RGC ainda estava no começo, ter ouvido António Lobo Antunes dizer, sem papas na língua, que ele era um grande escritor. Os seus livros têm-no confirmado e o "Daqui a nada" já saiu em 1995. A minha opinião, que nada vale, é a mesma. 

Espero que o próximo não tarde e não sofra as vicissitudes que este teve no "parto".

Margarida espantada
Rodrigo Guedes de Carvalho
D. Quixote (2020)

sexta-feira, 5 de junho de 2020

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Caça

Voltava quase todos os dias.
Alquebrado, com visíveis dificuldades de locomoção, uns óculos, com uma haste partida, na ponta do nariz, ofegante, a espingarda a tiracolo, na mão esquerda uma bengala de madeira castanha que já deveria ter servido a um seu antepassado, os sapatos cambados, calças de cotim, camisa branca e um colete preto, com costas de cetim cinzento, de cujo bolso esquerdo saía a corrente de prata do velho relógio que lhe administrava o tempo. 
Atravessava o jardim, cumprimentava quem lhe surgia fazendo apenas o gesto de tirar o boné e ciciava
- Bom dia
seguindo o seu destino. Dizia-se que, no dia do casamento, teria dito à mulher, numa voz muito suave e de fraco volume
- Não gostava que alguém, nesta casa, falasse mais alto do que eu.
Nunca se lhe ouvia justificação para a vinda nem o que pretendia fazer, mas todos sabiam o destino e o objectivo.
Em marcha lenta, passava as árvores grandes que delimitavam o jardim e encostava-se ao muro que vedava o pomar. Ia andando, encostado e curvado e, daí a pouco, ouvia-se um tiro. Nunca demorava muito tempo e o regresso era feito pelo mesmo caminho.
- Já levo almoço, ciciava.
E mostrava, quase sempre um coelho, por vezes uma perdiz, mais raramente uma galinhola.
Para ele não havia época de caça. Tinha sido feitor na casa, um problema de saúde diminuíra-lhe muito as capacidades e desistira. Todos o respeitavam e ninguém lhe chamava a atenção para a ilegalidade cometida. A venatória não tentava sequer lá entrar, mesmo que, por um acaso, ouvisse o tiro.
Um dia, há sempre um dia, acabaram-se os tiros e, anos passados, os coelhos, as perdizes, as galinholas e tantos outros também deixaram de por lá aparecer.
 

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Livros lidos (ou em vias disso)

Chegou ontem, autografado pelo autor, depois de uma longa espera "covidiana", para quem não quis aceder à versão digital. 
Não há nada que se compare ao manuseamento, apalpação, admiração, abertura ao acaso, ver a contracapa, as badanas, um conjunto de emoções difíceis de explicar, que só o livro físico possui e, depois, começar a tarefa.
Já está catalogado, fica na prateleira 14 do armário A e juntar-se-á a todos os outros do mesmo autor, mas só dentro de alguns dias. Até lá, faz-me companhia na secretária, no carro, na sala, na cama, até naquele "lugar solitário onde todo o cobarde faz força".

"(...) Se soubéssemos em crianças que era útil começar a tomar notas pouparíamos imenso tempo no psiquiatra. Bastava entrar.
- Olá, doutor, trago então aqui as gravações vídeo e áudio de tudo o que me aconteceu na infância.
- Ah sim? Ora muito bem, vamos então lá ver isso. E é tudo, tudo?
- Tudo. Tudo o que os meus olhos viram sem saber o que estavam a ver, tudo o que escutei, mesmo sem querer, tudo o que me disseram, nas exactas palavras que me disseram.
- Portanto, quando lhe ralharam ou repreenderam e assim, também? E outras coisas, enfim, mesmo mesmo desagradáveis?
- Tudo. A minha infância toda.
- Mas momentos bons também, espero?
- Sim, claro. Quer dizer, acho que sim.
- Óptimo, óptimo.
- Acha que vai encontrar as razões da minha depressão?
- Bom, não sei, uma coisa lhe garanto, normalmente estão aqui, nestas gravações do cérebro, muitas vezes em idades em que mal sabíamos falar.
- Boa. Olhe, assim sendo se calhar escuso de ficar, não é? Deitar-me no divã, fazer um esforço para me recordar do que não me recordo, você constantemente a fazer perguntas que eu acho que me resolvem o problema mas quando eu pergunto "Isto é o quê, doutor?", você pergunta de volta "e que acha você que pode ser?".
- Sim, sim, acho que sim, deixe-me as gravações e pronto, não prometo é que as veja hoje.
- Ligo depois a marcar para vir ouvir as conclusões?
- Sim, claro, ou marque ali com a minha assistente quando sair, está bem?
- Claro, até breve.
- Até breve, Margarida. 
Seria tudo tão mais fácil.(...)

Rodrigo Guedes de Carvalho
Margarida Espantada
D. Quixote (2020) 

terça-feira, 2 de junho de 2020

Música

Foi gravada há quase 50 anos (1979), mas mantém-se tão actual como se fosse ontem.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Licença de isqueiro

Tinha prometido a si próprio que iria conhecer Lisboa antes de fazer quarenta anos e já ia nos trinta e nove.
Nas últimas semanas o trabalho havia corrido bem, tinha recebido umas massas de uns calotes já caídos no esquecimento, havia umas encomendas boas de barris novos - era tanoeiro -, era chegada a altura. Ainda por cima, as eleições do Delgado já tinham sido há um ano e a grande cidade devia estar calma. 
Foi à estação saber a que horas havia comboio e, no dia seguinte, sexta-feira, apanhou o dito, pouco passava das seis da matina. O comboio já vinha do norte, mas trazia muitos lugares vagos. Ainda a máquina vinha longe e já se ouvia o barulho, imenso, e se via um fumo negro que metia respeito. Sentou-se, sem cerimónia, num banco enorme só para si.
O homem da estação apitou e, de esticão em esticão, o "bicho" ganhou velocidade tal, que nem distinguia os sítios por onde estava a passar. Por pouco tempo: primeira paragem em Óbidos, depois Dagorda-Peniche, São Mamede, Paul e Bombarral. Até aqui conhecia ele bem, sem ser preciso ler os nomes das estações e apeadeiros. A viagem prosseguia e redobrou a sua atenção aos nomes, novos para si, que iam surgindo: Outeiro, Ramalhal, Torres Vedras, Runa, Dois Portos, Feliteira, Zibreira, Pero Negro, Sapataria, Jerumelo, Malveira, Mafra, Sabugo, Meleças, Agualva-Cacém. Em quase todas as paragens entrou gente mas, na última, o pessoal ocupou todos os bancos e alguns ficaram de pé.
Sentia-se apertado, curioso e nervoso. A partir daqui o comboio só voltou a parar no Rossio, depois de ter passado pela escuridão de um túnel enorme.
Eram quase onze horas e a "bucha" da manhã ainda não tinha chegado ao seu estômago necessitado. 
Toda a gente saiu do comboio a correr, via-se que tinham pressa, mas ele não. Calmamente, tentando esconder a surpresa que tudo lhe causava, desceu as escadas da estação e, chegado à rua, deu de caras com uma tasca.
- É já aqui, antes que a fome e a sede me façam desmaiar, disse alto para se ouvir e acreditar.
- Bom dia. Então o que vai ser?, perguntou o homem do balcão, com  o palito na boca e o pano, sujo, no ombro.
- Dois pastelinhos de bacalhau e um copinho de branco, bom.
Saiu reconfortado. 
Puxou da onça de tabaco e da mortalha, enrolou calmamente um cigarro, tirou o isqueiro do bolso e acendeu-o.
- Tem licença?
Era para ele que o polícia falava.
- Licença de quê? 
- Do isqueiro, respondeu o cívico. É preciso. Se não tem, vou autuá-lo e o isqueiro reverte a favor do Estado. 
Amedrontado, soube o valor da multa, pagou e voltou à tasca comprar fósforos.
Apreciou o Rossio, a Igreja de S. Domingos, a fachada do Teatro D. Maria II, viu o castelo lá no alto e seguiu, rua abaixo, até ao rio. Antes de lá chegar, deteve-se a apreciar a beleza das arcadas da Praça do Comércio e confirmou que a pata direita do cavalo de D. José é a esquerda.
Demorou-se junto ao rio, deliciou-se com a paisagem da outra banda e foi-se encaminhando para norte.
O vinho branco é diurético e a vontade apertava.
Já no Campo das Cebolas, procurou um recanto e cá vai disto ...
Um polícia bateu-lhe no ombro.
- Não tem vergonha? Está autuado!
Encolheu-se todo, perguntou quanto era a multa, meteu a mão ao bolso e deu a nota ao guarda. 
O polícia, espantado com aquele comportamento, perguntou:
- Meto-lhe medo ou cheiro mal?
- Não, senhor guarda, não é nada disso. É que, há bocado, um colega seu multou-me e ficou com o meu isqueiro e eu estou com medo que agora aconteça o mesmo. O instrumento faz-me falta. 
 

domingo, 31 de maio de 2020

Livros (lidos ou em vias disso)

O último evento público em que Luís Sepúlveda participou foi o Festival Literário Correntes d'Escritas de 2020, realizado em Fevereiro deste ano.
No regresso a Espanha, o escritor foi hospitalizado e viria a morrer em 16 de Abril passado, vítima do malfadado Covid-19.
Depositei hoje no saco dos lidos, porque me foi emprestado pelo meu amigo ADS, um pequeno livro de crónicas, editado em Portugal em 2010, onde uma delas é dedicada ao Correntes.

O verdadeiro autor de Tarzan
Há algo que toda a vida agradecerei às Correntes D'Escritas, um esplêndido festival literário que se realiza todos os meses de Fevereiro na Póvoa do Varzim: ter-me dado a conhecer estupendas e estupendos escritores de Angola, Moçambique e Cabo Verde. Antes de ter ido à Póvoa pela primeira vez, perdera essa grande literatura, os livros de Germano Almeida, Manuel Rui, Ondjaki e Nelson Saúte.
Deste último posso dizer que, em certa ocasião, visitámos juntos uma escola da Póvoa de Varzim e não sabíamos de que falar aos alunos. Para encontrar um tema comecei por dizer que estava muito contente porque a camisa que usava naquele momento tinha sido um presente de Nelson e viera directamente de Angola. Era uma linda camisa que ressumava africanidade, e isto deu uma oportunidade a Nelson, que começou a contar uma aventura na savana africana com ataques de ferozes pigmeus, missionários enlouquecidos por febres apocalípticas, lutas com leões famintos e indignados com a Metro Goldwyn Mayer, combates com elefantes de moral duvidosa, pelejas a murro com gorilas de hábitos sexuais confusos, até que chegou ao sítio onde vendiam as camisas, comprou uma, e regressou no meio de aventuras ainda piores.
Ouvi-o tão hipnotizado e perplexo como os alunos daquela escola, e concluí que o autor de Tarzan não se chama Edgar Rice Burroughs, mas Nelson Saúte, esse grande escritor que me compra camisas em Angola.

Numa outra crónica do mesmo livro - Quem é você - Sepúlveda, que se considerava também jornalista, discorre sobre esta profissão tão antiga e tão necessária mas que, nos últimos anos, tem perdido muita da sua objectividade e clareza, mais parecendo um "guisado" sem qualquer condimento, desenxabido e intragável.

(...) coube-me acompanhar Ryszard Kapuscinski, o Mestre dos mestres, quando recebeu o prémio Príncipe das Astúrias de Comunicação. Enquanto passeávamos por Oviedo, Kapuscinski confessou-me o pânico que sentia sempre que era entrevistado.(...) 
E aí estávamos, numa esplanada, quando se aproximou de nós uma rapariga muito jovem, bastante bonita, e se apresentou como jornalista de um canal de televisão. Pediu uma breve entrevista, dois minutos, disse, em suma, é para a televisão, acrescentou, e em seguida sacou de um pequeno espelho e compôs a maquilhagem, enquanto um colega dela assestava a câmara e outro ainda preparava o microfone para o entrevistado.
- Quem é o importante? - consultou o técnico.
A pergunta interrompeu a tarefa embelezadora da jornalista. Era, sem dúvida, uma boa pergunta,(...)
- Quem é o premiado? - perguntou, e, então, Ryszard Kapuscinski apontou para mim com um dedo acusador.
Deixei que me pusessem o microfone, o homem da câmara mostrou os dedos, quatro, três, dois, um, e a jornalista começou a entrevista, breve, em suma, é para a televisão.
- Quem é você e porque o premiaram?
Uma pergunta dupla merece uma resposta meditada, de modo que me apresentei como um escritor lituano, autor de um romance cujo argumento resumi: um homem sofre muitas traições, vai parar à cadeia, passa vários anos nas piores condições, foge, e como não esquece nem perdoa a quem o ofendeu, consagra a vida à vingança.
A jovem jornalista despediu-se, nem por um só momento se preocupou com o olhar atónito de Kapuscinski e o mais certo é que essa entrevista tenha sido vista por muita gente que tem o direito de ser responsavelmente informada, mas esse direito está em perigo, pois a precariedade em que caiu o jornalismo faz com que ninguém seja responsável pelo que se escreve, diz ou emite, salvo raras excepções, e com que sejam poucos os jornais feitos por jornalistas que, com absoluto rigor, assistem ao funeral de uma profissão tão bela quanto necessária.(...)

Histórias daqui e dali
Luís Sepúlveda
Porto Editora (2010)

sábado, 30 de maio de 2020

Quotidiano Corona

Muitas vezes me vêm à cabeça os versos de Sophia, gravados pelo então Padre Fanhais, num LP editado em 1970 e que está algures por aí, juntamente com outras preciosidades desse tempo - "Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar (...) e hoje foi um dia desses.
Foi determinado o encerramento dos dois cafés existentes no Bairro da Jamaica, no Seixal, para tentar diminuir os riscos de contaminação resultantes dos ajuntamentos e da falta do distanciamento social.
Pelo que se vê nas televisões, um dos cafés não cumpriu e foi enviado um forte contingente policial para garantir que a ordem das autoridades de saúde era acatada.
Até aqui tudo normal mas (há sempre um mas) a ironia está no apelidar de "café" àquele tugúrio miserável que surgiu nas imagens o qual, tudo o indica, existirá assim há quarenta anos ou perto disso. Por certo que muitas pessoas estarão a corar de vergonha por ainda se manter uma situação daquelas, bem perto de grandes urbanizações e de uma zona ribeirinha do Tejo bem arranjada e muito bonita. Alguns dos primeiros a habitarem por ali já cá não estarão para contar as promessas, e partiram antes de o Covid chegar.
Pergunta indiscreta e estúpida: os cafés têm licença?



sexta-feira, 29 de maio de 2020

Festa

Tudo tinha sido tratado e organizado até ao mais pequeno pormenor.
Primeiro seriam os aperitivos, na adega, com os convidados a circularem por entre os barris, subindo até aos lagares e visitando a zona do engarrafamento. O almoço seria servido no jardim, com as mesas, bem espaçadas, e com oito lugares cada. Os elementos de cada mesa tinham sido cuidadosamente seleccionados, separando os casais oficiais e juntando os "arranjinhos" que se sabia existirem.
Os convidados começaram a chegar por volta das 11 horas.
Na adega encontravam, enquanto a visitavam, pequenos bancos cobertos de linho branco, onde estavam pratos da Vista Alegre com pevides e pinhões, previamente descascados, tremoços e passas de uva.
Três empregados garantiam o abastecimento do "champagne" bruto, fresquinho, que iam buscar à barrica cheia de gelo em cubos, estrategicamente colocada entre dois barris dos maiores.
Os aperitivos faziam sucesso, por fugirem ao trivial croquete, rissol ou pastelinho de bacalhau. Ouviam-se comentários sobre a excelência do local e da sua aptidão para o evento. Os que já conheciam o jardim, diziam que a surpresa seria ainda maior quando chegasse a hora do almoço.
Estava representada a mais alta burguesia existente no país nos finais da década de sessenta do século passado, que se fez transportar em Rolls Royce, Jaguar, Aston Martin, Pontiac e outros da mesma craveira.
Por certo que os convidados ainda não tinham tido tempo para se cumprimentarem entre si e eis que um pedido de ajuda surge. Era necessário socorrer uma senhora que se estava a sentir mal e levá-la até à quinta, para descansar um pouco. Tinha sido, por certo, a mistura dos tremoços, pevides e pinhões, por o estômago não estar habituado a essas iguarias. 
Pálida, trôpega, foi amparada até ao carro e nele entrou com muita dificuldade. A viagem foi breve, a saída do automóvel muito difícil e o percurso até um quarto disponível ainda mais, mesmo amparada por quatro braços. 
Ficou vago um lugar na mesa do almoço que lhe estava destinada e nem sequer conheceu o jardim. Ao final do dia regressou a Lisboa no mesmo lugar que tinha ocupado na viagem da adega, mas desta vez no seu carro, conduzida pelo motorista e acompanhada pelo marido.
Coisas de tremoços.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Mar - O bom e o péssimo

A época de praia está à porta e esta, de acordo com as informações disponíveis, abrirá no próximo dia 6 de Junho, com o número de pessoas fixado de acordo com o tamanho da praia (?). No caso da Foz do Arelho, a Agência Portuguesa do Ambiente prevê que possam estar 6.000 pessoas na praia da lagoa e 3.800 na do mar. Não imagino como vai ser feita a contagem mas, como sou cliente só da manhã, não devo ter dificuldade em conseguir ser um dos 3.800 ...
Ainda sem as portas abertas e sem qualquer vigilância, a praia da Foz - Mar tem dado uns dias espectaculares, com sol, sem vento e um mar apetecível, com as devidas cautelas, não vá o diabo tecê-las e surgir algum "agueiro" que crie complicações.
Apesar disso e quando menos se esperava, eis uma surpresa que a praia da lagoa hoje "ofereceu" ao meu neto Vasco: uma "queimadela" de uma caravela portuguesa, das muitas que surgiram por ali nos últimos dias, sem qualquer autorização. E fez um enorme estrago. Obrigou a uma ida ao hospital e a um tratamento que se irá prolongar por vários dias. E a perna tem um "estrago" considerável.
Não há dúvida que o mar é sempre uma caixinha de surpresas!

 

quarta-feira, 27 de maio de 2020

Futebol Clube do Porto em Viena - 1987

Há 33 anos, sete "marmelos" assistiram à vitória do Futebol Clube do Porto na então Taça dos Clubes Campeões Europeus, num jogo memorável realizado em Viena de Áustria, num estádio que já não existe. A final foi ganha por 2-1 frente ao Bayern de Munique, com um golo de Madjer (de calcanhar) e outro de Juary, com Artur Jorge como treinador da equipa. Jorge Nuno Pinto da Costa já era presidente do clube.
Uma viagem inesquecível, com mais de seis mil quilómetros percorridos, durante uma semana, numa Toyota Hiace acabadinha de adquirir por um dos viajantes.
Hoje, ao ouvir as notícias sobre a efeméride, lembrei-me que, há 33 anos eu era um cidadão acabado de cumprir a idade necessária para ser candidato à Presidência da República, tinha dois filhos com 9 e 5 anos e hoje, dos quatro netos, apenas um ainda não tem cinco anos ... mas está quase lá.
A viagem foi fantástica, com o pretexto do futebol mas, dos sete, apenas um (que já cá não está) era adepto do FCP. 
Foi a primeira das quatro viagens que aquela equipa, com pequenas alterações, haveria de realizar por essa Europa fora, numa altura em que as fronteiras existiam e eram exigentes (vêm visitar a família, lembro-me de nos questionarem à entrada de França), não havia GPS, o muro de Berlim ainda existia e o Euro estava bem longe, havendo necessidade de nos abastecermos da moeda de cada um dos países que visitávamos. Recordo que, na antiga Jugoslávia, nos disseram ser o Dinar bem aceite em todos os países à sua volta e ainda hoje existem algumas dessas moedas que sobraram e não foi possível trocar.
Os velhos lembram-se de cada coisa! Recordar uma viagenzita a Viena, como se fosse difícil lá chegar. Chegam quaisquer três horitas de avião ... quando começarem a voar.


terça-feira, 26 de maio de 2020

A sala de aula (na primária)

Ainda não tínhamos chegado à era das turmas mistas nem tão pouco à das aulas virtuais. 
O edifício era igual a tantos outros que o tempo reaproveitou e hoje têm as mais variadas utilizações, de restaurantes a bibliotecas, centros de dia ou de interpretação, postos de turismo ou repartições públicas.
Naquela sala, só rapazes, alguns descalços e a grande maioria mal calçada. As vestimentas eram "made in home", calças de cotim, ganga ou sarja, com peitilho, camisolas de lã, feitas por quem sabia "dedilhar" as agulhas. E quase todas as mães o sabiam. A lã era comprada em meadas, que era preciso dobar com o auxílio de dois braços, esticados, para evitar que se enrolasse quando estivesse a ser utilizada. A mãe fazia o novelo e eu esticava os braços, dando o jeito aos pulsos para permitir que a lã seguisse o seu caminho. Depois, era um delírio ver aquele fio, comandado por duas agulhas frenéticas, dar lugar a cada uma das partes que, juntas, haveriam de fabricar a camisola nova. A parte da frente, o peito, era colocada para a verificação do tamanho, antes de ter lugar o remate final.
- Põe-te direito e está quieto, para ver quantas carreiras faltam.
Havia os decotes em bico, redondos ou de barco, riscas de cores variadas, entrançados ao alto e paralelos à cintura. As malhas também surgiam diferentes, consoante a "operária" era mais ou menos prendada. Que me lembre, nunca tive duas camisolas iguais, e recordo bem que, ao contrário das da grande maioria, as minhas sempre tiveram punhos e golas em malhas diferentes e havia pelo menos um pormenorzinho que distinguia a nova das anteriores. 
Bolas, da sala de aula abalei para a indumentária e não era nada disso que queria. Malhas que a escrita tece ...
Voltemos, então, ao princípio. A madeira imperava: carteiras individuais, com tinteiro branco, de porcelana, incrustado num buraco na parte de cima da carteira, ao lado de uma reentrância para colocar o lápis e a caneta, esta com o cuidado recomendado de limpar bem o aparo; secretária da professora, enorme, colocada num plano mais alto para que a panorâmica fosse integral; caixote do lixo, de tamanho considerável para a função que lhe estava destinada. Apenas com madeira a fazer o caixilho, o quadro preto, de ardósia, enorme, quase cobria a parede e era encimado por Jesus crucificado. Não lhe bastava o sacrifício de que nem Pilatos o salvou e ainda lhe pespegaram com as fotos dos dois venerandos, Botas e Corta-Fitas. Há gente que nasceu para sofrer sempre! 
Para completar a mobília, um armário do lado direito, com alguns, poucos, livros, e onde a professora guardava a bata, branca, antes de sair, e dois utensílios cujo local habitual era o tampo da secretária: uma régua, de madeira castanha, utilizada para punir os erros do ditado ou o resultado das contas e a cana-da-índia, que a professora pegava logo que vestia a bata e ainda antes do livro. Servia de muleta para andar, para indicar o que estava escrito no quadro, para apontar a cortina que o menino lá de trás devia puxar para tapar o sol, para bater no soalho a acentuar a exasperação e, de vez em quando, para acertar na moleirinha de algum distraído ou falador. 
A professora não comprava nenhuma nem cuidava de a ir cortar a algum sítio recôndito onde as houvesse. Todos os anos, algum pai, prestimoso, lhe oferecia uma nova, não fosse a antiga ter sido contagiada pelo piolhinho.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Quotidiano

Segunda é dia de feira ... mas não foi.
Fui lá acima, enganado, iludido pelas informações que me tinham chegado de que o mercado semanal iria reabrir hoje. 
Não reabriu e, afinal, as notícias que me tinham chegado eram, como tantas outras que por aí circulam, falsas.
Dos feirantes nem rasto e o que eu precisava de adquirir fica para outras núpcias. Talvez para a semana, se as redes sociais não se enganarem de novo.
Nem tudo foi mau! Fui de carro e ainda bem, porque a ladeira é a pique e a idade não perdoa.
Mau estará para toda aquela gente que há mais de dois meses não vende nada ali nem nos outros locais onde exerce a sua actividade. 

domingo, 24 de maio de 2020

Maria Velho da Costa

Faleceu ontem mais uma das "Três Marias" - Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa. As três ficarão na história da literatura portuguesa  e na da luta pela libertação das mulheres.
Resta Maria Teresa Horta e toda a obra de alta qualidade que as três produziram.

(...) Diz-me o advogado que evite reflexões políticas ou comentários à minha circunstância.
Mas quando começa a minha circunstância? 
Era assim que deviam escrever no antigamente, sob a Inquisição, as polícias políticas, sob espia, um censor empoleirado no ombro, como um corvo. Mas talvez seja sempre assim, este acto contra o tédio e a insignificância, um acto a três: o autor, a surpreendente voz do escrito e o censor que é aquele que vai ler. Vertiginoso.
Sara dizia que era a minha profunda segurança que me permitia clamar no deserto, correr riscos. Até a segurança do meu nome, que suscita a deferência.
Faz vento. Oxalá estivesse na Torre do Bugio à escuta do clemente rimance do mar, que tudo sara.
Sara. Não mais musa. E muito menos linda. Haverá gusanos desafiando a cal? Queria ser enterrada debaixo de um cedro, a variedade Cedrus altlantica, que ascende em cone e tem flores machas, dizia. Aleixo nem sequer tentou, porque é muito desprendido com o corpo dos mortos; tê-la-ia incinerado, se fosse prática que a igreja aprovasse. (...)

Maria Velho da Costa
Missa in Albis
Dom Quixote (1988)

sábado, 23 de maio de 2020

Quotidiano

Logo pela manhã o jardim ofereceu-me este par de rosas, nascidas do mesmo pé ... e tão diferentes.


Depois, a Foz revelou-me que o sinal é verde e que o mar quer que o visite sempre.


Para terminar em beleza, o meu neto Duarte, que fará 8 anos no próximo mês, presenteou-me com esta maravilha de trabalho, feito no âmbito da sua actividade escolar:

Num dia de muito calor,
os irmãos foram passear
a uma floresta cheia de cor
e a um rio se refrescar.

A primavera começou:
- Eu sou a melhor estação do ano, 
porque tenho mais cor e amor,
os meninos podem flores apanhar
e às suas mães levar.

O verão brincou:
- Pois é, pois é,
mas é na praia que se molha o pé,
e perlim, pim, pim
vai mais uma bola de berlim.

O outono rabujou:
- Eu é que sou o melhor,
basta olhar ao meu redor,
nas folhas secas podem correr
e as castanhas assadas vou comer.

O inverno terminou:
- Ai, sim?
Para os bonecos de neve fazer,
neve tem de haver,
à lareira um chocolate quente
e assim ninguém bate o dente.

Vamos agora mais além,
gritaram os irmãos em bom som,
ninguém é melhor que ninguém
porque cada um tem o seu dom.

Já ganhei o dia!!!

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Quotidiano

Custa a acreditar que o país de Caetano, Chico, Bethânia, Elis, Machado de Assis, Rubem Fonseca, Jorge Amado e tantos outros, que apresenta um duo tão carinhoso como o que aqui fica hoje, tenha um coiso na presidência, que só diz asneiras por uma boca cheia de favas, que enoja e arrepia, ao mesmo tempo.
E se o vírus chega cá? Aquilo transmite-se muito a quem tem memória curta ou não a tem, de todo.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Matraquilhos

Era uma loja de ferragens no topo da Praça da Fruta, onde se vendia de tudo, da complicada ferramenta (para a época) ao simples parafuso, com e sem porca, de cabeça chata ou de tremoço.
O Sr. Galinha era um homem já bem entrado (hoje seria um idoso) e muito gago. A sua gaguez pode um dia destes também ter por aqui lugar, mas hoje não é disso que se trata.
A tasca do António Henriques, junto à Praça de Touros, tinha vários jogos de matraquilhos , num espaço situado ao fundo e aonde se chegava depois de atravessar a taberna e um pequeno quintal. Por isso, os três ou quatro "estádios" raramente tinham controlo arbitral do dono ou da dona, que tinha o nariz bem empinadinho. Marido e mulher ocupavam-se a servir os copos "de três" e a aviar as sandes de queijo ou de presunto, os pastelinhos de bacalhau e uns croquetes de carne, cujo cheiro se sentia à distância. Havia também carapaus fritos e secos, berbigões da Foz e ovos cozidos. Como facilmente se compreende, estes comes e bebes passavam-nos completamente ao lado.
O Sr. Galinha vendia 10 anilhas por 25 tostões e, coincidência, as anilhas eram exactamente do tamanho das moedas de 10 tostões, necessárias para abrir cada jogo de matraquilhos e obter as bolas que o permitiam concretizar.
Não será preciso grande esforço para se perceber o que acontecia: com 25 tostões obtinham-se "moedas" para efectuar 10 encontros e, por isso, antes de se entrar no António Henriques era obrigatório ir ao Galinha adquirir os "ingressos".
Para que tudo corresse pelo melhor e não houvesse suspeitas, colocava-se uma moeda, verdadeira, bem visível num dos topos da mesa, para que o "fiscal", se descesse ao campo, visse e não desconfiasse. A dona, tinha a certeza de ser enganada, dadas as surpresas que ia encontrando no "mealheiro",  e aparecia por lá mal se conseguia libertar dos avios da tasca. Consequência imediata: a moeda verdadeira era utilizada para o último jogo do dia, ficando as anilhas sobrantes, se existissem, para o dia seguinte.
Nunca fomos apanhados em flagrante delito mas que os donos muito desconfiaram de nós, não tenho qualquer dúvida.


P.S. - No dia de hoje, Quinta-Feira da Espiga, não se jogavam matraquilhos.