segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Barraca

Já por aqui falei dele, a propósito da sua eloquência com as flores, que adorava e tratava com um carinho inigualável.

Mimoso de apelido e Mário de nome, apenas estas duas palavras o identificavam. Nome curto tal como o tempo que a vida lhe reservou. Era homem humilde, quase analfabeto, mas sempre com uma graça, mesmo nas situações mais bizarras. O colete fazia parte da sua indumentária e trazia, preso no botão do meio por uma corrente, um relógio "cebola" no bolso do lado esquerdo. O colete acompanhava-o por todo o jardim e era pendurado no arbusto ou na árvore que estivesse mais perto do sítio onde decorria o  trabalho. Cabia-lhe a missão de tocar o sino e, por isso, tinha de ter horas certas e sempre à mão.

O jardim era (e é) enorme. Uma casa de madeira, com dois pisos, era o suporte logístico de todas as tarefas que por ali se desenvolviam. Era conhecida por todos como "A barraca do Mimoso". No rés-do-chão guardavam-se as ferramentas e os adubos. Havia uma mesa, grande e vários bancos, tudo de madeira maciça e sem uma ponta de caruncho. Era utilizada para os almoços e as merendas de quem ia trabalhar ao jardim, nos períodos de maior afã. O primeiro andar era a "estufa". Era lá que o Mimoso mantinha os vasos com as flores mais sensíveis, que só apareciam em ocasiões especiais, nomeadamente quando havia visitas importantes e o jardim tinha de ser apresentado num "brinquinho", para ser usufruído e gabado.

Sempre que o S. Pedro se lembrava de mandar chuva, o jardineiro, que dizia não ter "horta nas costas", acrescentava com um sorriso malandreco:

- Vai prá barraca, Mimoso!

E resguardava-se, sentado no banquinho, à espera que o tempo melhorasse. É o que tenho feito nestes últimos tempos, mesmo sem chuva: uma volta ou volta e meia e, recordando, digo para mim ou para quem está perto:

- Vai prá barraca, mimoso.

domingo, 15 de novembro de 2020

Gaivota

Uma gaivota voava, voava ...

Cansou-se. E nada melhor que o mastro - não o maior do mundo que esse é pertença dos Deolinda, mas o que assinala a escola de vela - para conceder a si própria o merecido descanso.

Pousou, bicou-se para ter a certeza de que tinha chegado a bom porto, e por ali ficou, extasiada com a paisagem, protegida do vento que não soprava, e com o mar, lá ao fundo, a marulhar, sem lhe causar qualquer incómodo mas não a deixando esquecer que, por lá, ficam os seus domínios.

Aprecia os passeantes, espreita os pescadores, mira o voo dos patos, tão diferente do seu. Agora tem mais um motivo para por ali ficar: chegou o paddle, essa nova actividade aquática que cada vez atrai mais pessoas, remando no remanso das águas, suando as estopinhas quando a maré tem força para contrariar os atletas. Mas parece valer a pena, a avaliar pela elegância que se vê nelas e pela peitaça que surge neles.

Estão na moda as pranchadas na lagoa ...

sábado, 14 de novembro de 2020

Pedincha ou necessidade

Dou, não dou? O dilema surge sempre e nunca sei o que fazer. A negativa, agora, prevalece quase sempre, porque deixei de andar com dinheiro no bolso, notas ou moedas. Facilita a decisão, mas deixa-me sempre constrangido e com um peso, grande, de culpa. 

Nestes anos todos, a andar e a conhecer mais ou menos bem tantos sítios, encontrei muita gente com necessidade real e também deparei com alguns que o faziam por vício, fingindo maleitas ou defeitos que não tinham, para depois irem depositar uns cobres na sua conta mais ou menos recheada. 

A pergunta surge-me sempre: não há forma de eliminar esta praga? Não há vacina que ponha cobro a esta miséria? E aparecem sempre inúmeras respostas que nem vale a pena enumerar. A verdade é que se mantêm muitos seres humanos a estender a mão, sérios ou fingidos, pouco importa. 

Não quero acreditar que o melhor seja não olhar, não ver nem reparar porque, como diz o ditado, penas que não se vêem não se sentem.

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

"A desconfinar"

"Vê lá se te sai o sábado à sexta-feira" era uma expressão usada muitas vezes por minha mãe, alertando-me para as surpresas, boas ou más, que a vida sempre nos reserva, por mais estranhas e inverosímeis que possam parecer.

Por força do malfadado vírus e das restrições em vigor, o Expresso antecipou a sua saída para hoje, sexta-feira, 13. Isso não impediu que o saco esteja cá em casa desde manhã e que a leitura do primeiro caderno já vá a meio.

O primor e a oportunidade do cartoon de António não é surpresa, nem mesmo à sexta-feira. Vamos ver se a fava açoriana não é o prenúncio de uma agricultura intensiva no continente ...

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Coisas de velhos

Como soe dizer-se, fui dar umas braçadas à piscina municipal, para exercitar o físico e manter alguma destreza muscular. Claro que também dei algumas pernadas ...

Conversa fiada. As adiposidades mantêm-se e a idade do condor acentua-se: hoje foi com dor no joelho a que faltam peças, na cervical que está cansada de segurar a coluna bem direita e, se calhar, em mais alguns locais dos quais nem dei nota. Tarefa concluída, sempre com os cuidados devidos.

A ida ao café foi rápida, como convém para não dar hipóteses ao bicho. Parece que, mesmo não lhe dando confiança nem lhe passando cartão, ele teima em querer entrar e nem precisa de convite. O resto das notícias vistas e ouvidas do sofá, local onde acontecem eclipses que nunca são noticiados.

Depois, a relva. Que mania, sempre a crescer e a gritar "corta-me". E tem atenção, porque não te deixo cortar-me se estiver a chover, acrescenta, soberba, determinando e exigindo sem qualquer pudor ou tolerância. Até parece patroa!

Está o dia ganho! Agora é fechar os estores, acender as luzes (apenas as necessárias, que a energia tem de ser poupada), pôr a mesa, comer a sopinha, uma peça de fruta, um café de cápsula, ir para a sala, sentar, ouvir, ler e dizer meia dúzia de palermices. Passado algum tempo, surgirá a sacramental pergunta:

- E se nos fôssemos deitar?!

Coisas de velhos! 

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Cão mole

Era um buldogue pachorrento e muito dorminhoco. Passava mais tempo deitado nas sombras do que a andar. Ao mínimo movimento por perto, abria um olho para reconhecer se a visita era conhecida, fechando-o de imediato após confirmar. Se não era dali, levantava-se, calmamente, aproximava-se, cheirava como que certificando que vinham por bem e voltava ao poiso de onde tinha saído.

Era enorme e dava pelo nome de Bob. A baba escorria-lhe da boca em quantidade e a língua estava quase sempre de fora. Parecia cansado, arfando de forma bem audível e movimentando-se em câmara lenta. Não fazia mal nem às moscas que, por vezes, passeavam pelo seu lombo castanho, bem nutrido. Passeava pelo jardim, mergulhava na piscina se não houvesse ninguém por perto a ralhar-lhe, deitava-se debaixo dum buxo ou no meio dos fetos, sempre numa mansidão de gestos que quase afligia. Os melros, os piscos, as felosas, os pardais e as, poucas, perdizes que por vezes apareciam, podiam estar junto a ele que nem se mexia.

Como ninguém é perfeito, o Bob tinha um ódio de estimação a gatos. Estes, talvez avisados, raramente por lá andavam. Se, porventura, isso acontecia, era quase certo que já não saíam pelas suas patas. Aquele corpanzil mole e dolente adquiria uma elasticidade e uma velocidade que ninguém imaginava pudesse ter.

O gato era apanhado a meio, o Bob abanava a cabeça duas ou três vezes, abria a boca e o que, até ali, era um gato, passava a ser apenas um corpo morto a pedir sepultura. 

Morreu de velho, o Bob. Quase no fim, já sem elasticidade nem força, as orelhas ainda se levantavam de cada vez que um bichano mais atrevido rondava os seus domínios.

Dizia-se que, lá no fundo, o Bob nem se apercebia do mal que fazia. Ele era tão bom e tão meigo ...

terça-feira, 10 de novembro de 2020

A forja

Até o carvão era especial. De hulha, comprado, vinha em sacas grandes, de serapilheira, e durava mais ou menos uma semana. A oficina era de tamanho reduzido, dava para o pátio, tinha uma bancada na entrada, o fole e a braseira lá ao fundo, a janela ao lado, sempre mascarrada de fumo e resíduos. A bigorna ficava logo a seguir à bancada, bem perto do calor da forja.

Tarefas: fazer ferramentas novas e manter as antigas em boas condições para o trabalho. E por lá se faziam enxadas, sachos, foices, gadanhas, podões, forquilhas e tantas outras, que haveriam de ser utilizadas pelos trabalhadores nas tarefas agrícolas de todo o ano.

A braseira era acesa todas as manhãs, sem grande dificuldade. O lume permanecia do dia anterior, ainda que brando, afrouxado e sem se notar. No final de cada dia era tapado com carvão novo e assim dormia. Mal o fole era accionado, à custa do braço, claro, surgiam as primeiras faúlhas e, daí a pouco, a temperatura já permitia entalar no carvão a peça que se desejava trabalhar, levando-a ao rubro. Depois, o martelo, a bigorna e a habilidade do ferreiro faziam o resto.

As peças habituais não suscitavam problemas e a sua realização era rotineira, com as marteladas a acontecerem quase sem olhar. O nervosismo, a exigência e a habilidade saltavam quando o pedido era mais elaborado, esquisito e vinha de quem mandava: uma ferramenta original, adaptada às necessidades, uma cabeceira de cama, uma varanda, uma vedação bonita, uma guarda de lareira, uma armação para o vaso da sala verde ...

- Não têm nada que fazer...só sabem chatear. Nunca fiz isto. Só me dá vontade de os mandar à .... 

E vinha um rosário de impropérios, com todas as letras, se não havia patrão ou senhora por perto. Puxava a onça do tabaco e o livrinho das folhas do papel. Encostava-se à bancada, enrolava o cigarro com toda a calma, coçava a cabeça levantando o boné, pensava e

- Sabes para quando é que é preciso?

- Dia tal ... 

- Vou ver, mas não prometo!

A peça aparecia, perfeita, e normalmente antes do prazo. 

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Caixa de Previdência

O assunto era importante e tinha que ser tratado directamente na Caixa de Previdência de Leiria, como, à época, se designava a actual Segurança Social. Havia sido feito um contacto telefónico, que redundou em fracasso e cuja resposta, áspera, foi que não era assunto para tratar pelo telefone. 

Embora, à socapa, já conduzisse, não havia o papelinho que desse legalidade a essa função. Estava fora de escolha a possibilidade de deslocação com motorista e, por isso, a opção foi a viagem de comboio, que partia de manhã, bem cedo, da estação das Caldas.

Não houve problemas na partida, mas o mesmo não iria acontecer para a vinda. Conhecia a cidade de Leiria, não muito bem, diga-se, mas nunca lá tinha ido de comboio. A chegada à estação foi uma surpresa: situava-se bem longe da cidade que eu conhecia e da qual não se vislumbrava nem um prédio. O homem que usava um boné da CP foi a solução para o esclarecimento necessário

- Apanha a camioneta da Leiriense e ela leva-o.

E assim foi, sem necessidade sequer de comprar bilhete. A Caixa de Previdência era quase em frente da garagem dos autocarros e, por isso, foi chegar, atravessar a avenida e subir ao primeiro andar, depois da devida identificação no piso térreo. O assunto foi começado a tratar de manhã e só foi terminado quase no encerramento dos serviços. Pelo meio, um almocito leve, num restaurante das imediações, numa cave meio escura e cheia de gente.

Para o regresso, já não foram precisas perguntas. A camioneta, azul, estava de motor a trabalhar, dizia "Estação" e estava quase completa. Ouviam-se comentários sobre o atraso e a hipótese de não chegar a tempo à estação. Partiu, finalmente, e chegou logo, logo, bem mais rápida do que tinha acontecido de manhã. Era a descer ...

A automotora, tal como tinham previsto os clientes habituais, já estava na gare, e toda a gente se precipitou, a correr, para a apanhar. Era leve e fui dos primeiros a entrar e a sentar-me, confortavelmente, no banco de napa. Ouviu-se o apito e o comboio iniciou a marcha.

- Está a andar para norte?! Mas eu vou para o sul ...

E estava. O revisor, com o boné da CP, confirmou e esclareceu:

- Vai ser complicado. O cruzamento com a que vem para baixo é feito na estação de Monte Real, mas quando esta chegar, a outra parte, e não dá tempo para a mudança.

- Mas eu tenho que ir para as Caldas!

- Vou dizer ao maquinista para parar no próximo apeadeiro e sai aí. Depois, terá que fazer sinal à automotora para parar, porque o apeadeiro não é de paragem obrigatória.

A ansiedade era muita. No meio do nada, sem ninguém por perto, mas ... eis que surge o bicho.

Os braços agitaram-se, com a pequena pasta numa mão e o jornal A Bola na outra. Notou-se a marcha a abrandar e parou, felizmente.

Julgo que voei lá para dentro sem sequer tocar com os pés nos degraus!

domingo, 8 de novembro de 2020

Língua

As  viagens  são assim, meu caro amigo, sabemos
do seu propósito apenas depois de regressarmos. 
Mia Couto
O mapeador de ausências

Por força das circunstâncias do trabalho paternal, conheci a cidade do Porto ainda bastante novinho e antes de visitar a capital.

As viagens, e foram várias, eram sempre uma aventura, com o caminho quase todo percorrido de noite, na maior parte do tempo a dormir enrolado na manta e a ser acordado com o clarear do dia, já quase a atravessar o Douro, pelo tabuleiro superior da Ponte D. Luís. As obras da Ponte da Arrábida já estavam a surgir lá ao fundo e, mal se avistavam, surgia a explicação, 

- qualquer dia, será por ali que passamos o rio.

A travessia, no regresso, era efectuada pelo tabuleiro inferior, para que os olhos se espantassem com a altura da ponte e houvesse a sensação, estranha, de que, lá por cima, estavam carros a passar e nós também por lá tínhamos passado, bem cedo. O armazém de destino era na Rua Justino Teixeira e nele havia muita gente a trabalhar, descalça ou com tairocas. Falavam muito, e alto, e tinham sempre uma graça, com aquela pronúncia tão esquisita, para dizer ao puto que tinha bindo lá de vaixo. Como acontecia sempre, serviço terminado e regresso empreendido de imediato, que a jornada era longa e ainda havia a paragem para reconfortar o estômago, nessa época sempre carente e nunca saciado.

O restaurante escolhido foi o de Vendas de Grijó, terreola que, naquele tempo, já era bem fora da grande cidade. Julgo que se chamava Atlântico, mas não garanto. Lembro-me, sim, de ser num primeiro andar, ter muitas mesas e uma menina de avental a trazer a comida, sempre com um sorriso nos lábios. O prato do dia era língua de vaca estufada, com ervilhas. Não me recordava de alguma vez ter comido língua de vaca, estufada ou de qualquer outro jeito. Lembrava-me, sim, de muitas vezes me perguntarem

- o gato comeu-te a língua?

E de isso me perturbar bastante. Comi. E soube-me bem. Mas foi sol de pouca dura. Não passou muito tempo até surgirem primeiro, as náuseas, depois, suores frios, a seguir, dores na barriga. E houve carga ao mar, uma vez, duas vezes, várias vezes. Andavam-se meia dúzia de quilómetros e

- Pai, pára

Uma garrafa de Água das Pedras, num café habitual da Tocha, trouxe algum alívio e permitiu o resto da viagem sem novas paragens. O cházinho da mamã haveria de completar a cura.

Nunca mais comi língua, de vaca ou de qualquer outro animal. Ainda hoje me sinto agoniado só de pensar ... 

sábado, 7 de novembro de 2020

Livros (lidos ou em vias disso)

Mais um livro que, chegado há dois dias, já anda em bolandas da sala para o quarto, do escritório para o WC, numa vertigem que acabará daqui a pouco tempo, imagino. É uma viagem ao antes e ao depois da independência de Moçambique, com a habitual qualidade de um grande autor - Mia Couto - que, há já muito tempo, detém um espaço importante cá em casa.

(...) Vou confessar uma coisa, senhor inspector: esse Sandro vinha muitas vezes confidenciar com as minhas filhas. Não gosto muito daquilo, o bairro comenta, o meu marido chateia-se e eu, francamente, tenho receio que a doença dele seja contagiosa e passe para as meninas e lá acabo por ficar sem netos. Um certo dia surpreendi Sandro fechado com o Jerónimo na cubata do empregado. Pensei logo numa coisa escabrosa. Escutei atrás da porta, os tipos conversavam em voz abafada. Mas depois lá concluí que falavam de política, inspector. E não era coisa boa. A conversa deles era pior do que um pecado da carne, está-me a entender, senhor inspector?

Talvez seja útil o senhor interrogar o meu empregado, o Jerónimo. Mas o inspector terá que vir amanhã durante o dia. É que ele não dorme aqui. Temos uma cubata nas traseiras, mas usamo-la como armazém. Não quero nenhum empregado dentro de casa depois do sol posto. A gente nunca sabe quem eles são e que companhias podem trazer a meio da noite. Nas tardes em que o trabalho se prolonga, este meu Jerónimo suplica que o deixemos dormir num canto qualquer. Tem medo de cruzar a cidade à noite. A caderneta indígena não o livra de ser apanhado pela polícia, nas rusgas noturnas. Diz que, se isso acontecer, o prendem e lhe batem. Resultado: o rapazito acaba dormindo no galinheiro. Toma banho de madrugada para não cheirar nem a catinga nem a estrume. Mas lava-se na praia, nas águas do mar. Não quero que nos gaste a água, esta malta não tem noção do que custam as coisas, para eles é só abrir a torneira. E o Jerónimo até prefere assim, pois diz que, no mar, se lava da sujidade do corpo e dos demónios da alma.(...)

O Mapeador de Ausências
Mia Couto
Caminho(Out.2020)

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Covil ?

São estranhos, confusos, os tempos que estamos a viver. A pandemia mantém-se com números a aumentar diariamente, preocupando todos os que, mesmo não dominando quaisquer variáveis, têm a consciência de que os recursos não são ilimitados e que, a continuar assim, chegará a hora da ruptura.

Nos USA assiste-se a uma caricata demora na contagem dos votos, que há-de determinar quem se sentará na Casa Branca no início de 2021. O (ainda) presidente fala em fraudes de uma forma tão descarada e despudorada que as televisões lhe "cortam o pio", por não estarem disponíveis para difundir mentiras.

Nos Açores também se aguarda que as eleições regionais produzam um novo governo, parecendo não estar a ser fácil um acordo quer à direita quer à esquerda que permita a condução de uma terra tão bonita.

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Diplomacia

Está em análise a possibilidade de Trump fazer um curso intensivo para aprender a contar até dez. O governo português foi contactado para fazer deslocar aos USA uma professora primária, das mais competentes que por cá existam, com o objectivo de, tão breve quanto possível mas nunca depois de Dezembro deste ano, pôr o Donald a contar de forma escorreita, mesmo que, para isso, necessite de utilizar os dedos das mãos.

Contudo, parece que a Melanie estará a colocar alguns entraves ciumentos e o próprio também não se apresenta de acordo com a decisão dos serviços secretos, principalmente por o curso lhe poder exigir a utilização dos dedos das mãos e isso o impedir de alisar as louras melenas. Este argumento, considerado muito importante, está a obrigar a uma mais exigente ponderação, por Trump considerar que a utilização dos dedos para compor o cabelo é obrigatória para manter a sua imagem de mais apessoado exemplar da espécie humana.

Para dirimir o diferendo, não está excluída a hipótese de recurso ao Supremo Tribunal, com o argumento de que a Constituição dos USA não impõe, explicitamente, que o Presidente do país saiba contar até dez ...

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Meteorologia

A meteorologia sempre foi, e continua a ser, uma ciência que assenta nas previsões e na análise das probabilidades, mantendo a esperança de ajuizar, de forma correcta, os imponderáveis que irão surgir.

Muitas vezes prevê chuva e, afinal, nem sequer surge um aguaceirito para regar as plantas; outras há em que faz avisos de três cores - amarelo, laranja e vermelho - sobre o vento forte que se aproxima, com rajadas ou sem elas, e com velocidades acima das que, legalmente, estão autorizadas para as localidades. 

Deve ser muito difícil estudar esta matéria e apresentar resultados que antecipem as realidades que irão ocorrer em todo o mundo. Todavia, há alterações no tempo que se adivinham e nem é preciso consultar o IPMA ou as aplicações disponíveis no telemóvel. O tempo está cheio de nuvens covidianas e, do lado de lá do Atlântico, há fortes indícios de que o sol irá continuar muito encoberto.

Cá ficaremos à espera de que sejam só previsões e que o tempo melhore ...

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Nadar

Decorridos oito meses e ainda com muitos receios, voltei hoje à piscina para dar umas braçadas. Ao contrário do que se poderia esperar depois de tão longa ausência, ainda sei nadar e não me afoguei.

O corpo sentiu-se bem, sem dores nem grandes cansaços. Amanhã se verá o resultado do esforço, com as réplicas que o dia seguinte, e o outro, sempre trazem. 

Foi um regresso, confuso, à normalidade, com regras cumpridas, para que tudo corra bem. Pouca gente, distância social, a conversa limitada a um bom dia de longe, máscara quase até à água, entrada à hora, saída a correr, vestir a correr e o cabelo molhado, para enxugar em casa.

Boa notícia: consta que o coronavírus não sabe nadar, yo ...

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Visto e revisto

Estão os três "confinados" à mesa da esplanada. Fazem-lhe companhia dois cães, pequenos, a quem admoestam com frequência. Em cima da mesa estão, invariavelmente, três garrafas de cerveja, que vão sendo despejadas sem dificuldade e sem necessidade de copos. A manhã vai a meio. Conversam alto, embora o que dizem seja imperceptível para quem passa. Da voz, entaramelada pelo álcool e por outras substâncias, apenas se percebe, mal, os inúmeros "bué" e "tipo", que estão sempre a servir de muleta. 

Ela é a leader. Determina, manda, enerva-se. Dos três é a mais velha. Terá talvez 50 anos, julgo. Nasceu num bom berço mas perdeu-se, ou achou-se, quem sou eu para julgar. Por vezes, o trio ausenta-se durante uns tempos. Talvez o (pouco) dinheiro que devem ter desapareça. E o café vende cervejas, não as dá.

Raramente se vêem a comer. Alimentam-se da cerveja e do resto ...

domingo, 1 de novembro de 2020

Apetrechos

Guarda o que não presta e encontrarás o que te é preciso.

No poupar é que está o ganho.

Quem não inventa não é artista.


Tudo Reutilizado. Por este cesto já devem ter passado uns bons quilos de berbigão da lagoa, mantidos à tona por duas excelentes bóias.

sábado, 31 de outubro de 2020

Dia Mundial da Poupança

Hoje é o Dia Mundial da Poupança.

Tempos houve em que, no dia de hoje, havia um mealheiro de cerâmica, fabricado na Secla, para oferecer aos melhores clientes, com vista a estes irem poupando para o futuro dos filhos, colocando no recipiente, de vez em quando, uma moedinha. O objectivo era conseguir alguma poupança para abrir uma conta para a criança, lembrando sempre a entidade que lhe dava o "cofre".

Tal como agora, só conseguia encher o mealheiro quem tivesse alguma folga no orçamento, que lhe permitisse prescindir de uma moedinha de cinco, dez ou vinte cinco tostões. As moedas de cinco e de dez escudos eram mais bonitas, mal empregadas para serem escondidas, e suficientes para algumas compras já significativas. Outros tempos!

De manhã, no supermercado, meia dúzia de coisas custaram mais de cinquenta euros e a admiração foi quase nula. O cartão nem sente mas, nas contas dos tostões, foram mais de dez contos que lá ficaram!

Nem o mealheiro cheio de moedas chegava ...

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Mar sem fim

As ondas quebravam uma a uma

Eu estava só com a areia e com a espuma

Do mar que cantava só para mim. 

Dia do Mar
Sophia de Mello Breyner Andersen
Caminho

Não se desce nem se experimenta a água. Deve estar bem fria, para não variar. 

Olhar este mar e ouvir a sua música faz esquecer as notícias e o que elas transportam. É um privilégio poder dar um saltinho à Foz, apreciar esta maravilha, sem ninguém à volta, com apenas quatro ou cinco corajosos a apanhar sol como se fosse Agosto e dois ou três a tentar enganar os robalos que, com o mar tão forte, se põem a jeito e engolem um engodo saboroso. Pela boca morre o peixe ...

Confirma-se, também, que o mar continua a bater na rocha e o mexilhão, coitado, a sofrer as agruras das ondas sem ter por onde escapar. O que lhe vale (a ele, mexilhão) é ter a companhia das lapas, dos percebes, das algas e de tantos outros companheiros da desdita, para não se sentir discriminado, a pensar que o azar só a ele acontece. Como se pode ver, o mar não discrimina e bate em tudo o que lhe aparece pela frente, seja roto, nu, vestido, nobre ou plebeu, masculino ou feminino.

 

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Ondas

A cada dia que passa somos surpreendidos com o desleixo, a incúria, a falta de educação e a estupidez de muita gente. São lugares comuns, ditos e escritos milhares de vezes, mas dão jeito para começar. Não se trata de convencimento da infalibilidade, longe disso, da perfeição absoluta ou qualquer outra manifestação de egocentrismo, antes a constatação de que continua a haver gente, e muita, que, de forma egoísta, se esquece que estamos a viver um período muito especial,  que teve, tem e terá consequências terríveis para todos, mesmo para aqueles que apregoam a sua (in)capacidade de resistir a tudo, só porque sim. Mantém-se viva a esperança de não ser preciso montar nenhum estado policial, que controle tudo e todos, porque esse estado ainda está na memória de muitos e não se deseja aos que nunca o experimentaram, mesmo aqueles que continuam a agir sem respeito pelos outros seus semelhantes.

De toda a gente que hoje foi ao Sítio da Nazaré para espreitar as ondas da Praia do Norte, quantos, antes de se deslocarem,  cuidaram de pensar em si próprios, nos seus e em todos os que estão ou estarão à sua volta? A julgar pela aparência, não devem ter sido muitos ...

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Escolhas

Enquanto se aguarda que o telefone toque a marcar a hora e o dia da vacina para contrariar a gripe, enquanto se assiste a uma discussão, sobre o Orçamento do Estado, tão agitada que até parece que se analisam certezas, enquanto os números "covidais" não param de subir, liga-se a televisão e ouve-se, a abrir os telejornais, a notícia de que hoje têm lugar as eleições para a direcção do Sport Lisboa e Benfica.

Não há dúvida que sou adepto do maior clube do mundo ... qualquer coisa que por lá aconteça, por mais irrelevante que seja, é notícia de abertura, de meio, de fecho e, sobretudo, de enorme relevo, por dela depender o bem-estar e a felicidade de todos os que por aqui vivem e dos que a diáspora mantém por esse mundo fora.

Se dúvidas houvera, ficaram esclarecidas: o acto eleitoral do Benfica está bem acima das previsões orçamentais, da zanga das "meninas" com o PM, do resultado das eleições dos Açores, ou das restrições que já estão em vigor e das que se aproximam.

Valha-nos S. Luís, S. João ou S. Rui (não sei se existe), porque deles depende o futuro do maravilhoso rectângulo, mais dos que nele vivem.