sábado, 26 de dezembro de 2020

Natal e futuro

Não foi igual, foi o possível.

Já passou. Vamos esperar que a vacina ajude e que, para o ano, cá estejamos para conviver, festejar e lembrar um 2020 que traiu todas as previsões "catedráticas" e "astrológicas", foi cheio de surpresas atípicas e desconcertantes, massacrou toda a gente e vai figurar na memória futura.

As vacinas já chegaram e amanhã iniciar-se-á a vacinação da "linha da frente" dos profissionais de saúde. Vamos esperar que toda a logística corra bem, que não haja oportunismos nem habilidades, que quem manda, ordene sem peias nem medos.

António Costa dizia, na sua mensagem de Natal, que "só não erra quem não faz", verdade antiga que tem implícita a preocupação de errar o mínimo. Neste assunto, tão melindroso, a máxima aplica-se inteiramente.

A partir de amanhã, prosseguindo uma saga que já se arrasta há semanas, as televisões ilustrarão todas as notícias com um braço nu, a ser espetado por uma agulha, com a imagem bem nítida e aproximada, para que não haja dúvidas do espetanço.

Uma imagem vale mais que mil palavras, mas há nexessidade?

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Palavras bonitas

NADA / NATAL

Este lume que já não nos aquece
Este medo do nada que nos contem
Esta névoa de nata em vez de neve
E a nossa vida cada vez mais ontem

Este Sol que não rompe sob os cactos
Estes mortos de novo hoje tão perto
É no búzio dos crânios exumados
que melhor nós ouvimos o deserto

Estas folhas de plátano  Estas mãos
que o fogo vai torcendo lentamente
Esta cinza no fim de uma oração
Este sino  Este céu sobrevivente

Mas soa a meia-noite  E logo o nada
deixa de estar em tudo como estava

Obra Poética
David Mourão-Ferreira
Editorial Presença (1997)

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Palavras bonitas

ECLIPSE

Pela primeira vez
Não vieste ao poema,
Sol do eterno retorno
Da inspiração.
E foi esta prosaica desolação
Num quarto de hospital
A ouvir versos profanos
Na lembrança.
Pobre dessa fiança
Tutelar.
Sem te poder louvar
Devidamente,
Menino Jesus eternamente
Oculto e manifesto,
Aqui lavro o protesto
De poeta traído
Que descrê
Da própria vocação,
Perdida a graça da iluminação
De quem sonha o que vê.

Diário XVI (24/12/1991)
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1995)

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Palavras bonitas

CANÇÃO

Clara uma canção
Rente à noite calada
Cismo sem atenção
Com a alma velada

A vida encontrei-a
Tão desencontrada
Embora a lua cheia 
E a noite extasiada

A vida mostrou-se
Caminho de nada
Embora brilhasse
Lua sobre a estrada

Como se a beleza
Da lua ou do mar
Nada mais quisesse
Que o próprio brilhar

Por esta razão
Sem riso nem pranto
Neste sem sentido
Se rompe o encanto

Ilhas
Sophia de Mello Breyner Andresen
Caminho (2004)

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Palavras bonitas

ALGUMAS IMAGENS DO INVERNO

Chega mais cedo;
conheço-lhe os passos:
já muita vez aqueceu as mãos
ao lume das minhas.
Vai demorar-se;
sacudir a lama, remendar
os sapatos, tirar o sal
que se juntou em redor dos lábios.
Entre o silêncio e o falar
não há senão
espaço para anoitecer.
Tão pesadas, as folhas do ar.

Poesia
Eugénio de Andrade
Fundação Eugénio de Andrade (2000)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Palavras bonitas

 O JOGO DO CHINQUILHO

Renasce neste largo a minha infância
a minha vida tem aqui nova nascente
e jorra de repente com o ímpeto do início
O tempo não passou ou só a consciência
que provisoriamente sinto de voltar alguns anos atrás
a sensação que sei de reflectir sobre esse tempo
de ser um espectador de sucessivos sucedidos dias
de não viver apenas não viver sem sequer saber que vivo
num espaço demarcado onde as coisas e os homens
eram tanto que eram simplesmente
só essa consciência e sensação me fazem suspeitar
de que passou o tempo que nunca passou
O adro o fim da tarde o jogo do chinquilho
o ruído das malhas os paulitos
o sol poente sobre si redondo como simples
malha atirada por alguém pelo espaço do dia
e prestes a cair no mar como nas tábuas
o gesto perdulário e impensado de jogar
a malha como quem num gesto joga a vida
as silhuetas hirtas dos que assistem
de boné ou barrete na cabeça e mãos nos bolsos
tudo se passa aqui ali há trinta e cinco anos
como se aqui ninguém houvesse envelhecido
nem sofrido ou morrido ou suportado
toda a imensa fome requerida para produzir um rico
como se aqui ninguém tivesse demandado
longe de aqui o seu país noutros países
Tudo é o mesmo adro a mesma tarde o mesmo jogo
Até este café onde sentado olho e penso por olhar
é afinal o mesmo onde bebi a meias com meu pai
a primeira cerveja uma cerveja vinda
através do calor do dia de verão
nesse cesto de vime nesse poço mergulhado
É o mesmo o sabor que sempre sinto nesta boca
há muitos anos já mordendo o vinho o pão a vida
o sabor das mulheres das raparigas
inacessíveis sempre como um absoluto
sempre impossível tido no entanto por possível
o sabor da derrota ou o sabor da terra
sensível dia a dia nos meus dedos
e um dia susceptível de me encher a boca para sempre
Envelheci eu sei e só ganhei
o que perdi. Sou de uma adulta idade
E entretanto tudo a noite rodeou e o jogo acabou
e pelo céu do tempo houve um homem que passou
ou uma certa malha arremessada por acaso à vida
e viva na precária trajectória antes de caída.

Todos os Poemas
Rui Belo
Assírio & Alvim (2000)

domingo, 20 de dezembro de 2020

Renas

Os progressos que o mundo tem conhecido são inegáveis e impossíveis de descrever num grande livro, quanto mais em meia dúzia de linhas mal alinhavadas como estas. Mas, ainda assim, pouca gente se lembrará que os comboios já foram a carvão, que os automóveis tinham direcção assistida "a braço" e que viajar de avião não foi sempre seguro e confortável, de tal forma que ninguém questiona a sua utilização e necessidade.

Porém, mas ou todavia, qualquer destas palavras serviria para abrir o parágrafo; deixemo-nos de floreados e vamos ao que importa: ninguém se preocupa ou disso dá mostra pública com a situação do Pai Natal e das renas, ambos sacrificados e sem benefício algum dos progressos que são comuns, hoje, a qualquer situação, profissão ou mecanismo.

De facto, desde o início do século XIX que o Pai Natal cumpre a sua função utilizando um trenó puxado por renas, num trabalho ciclópico que apenas os fusos horários atenuam um pouco. Sair da Lapónia, correr o mundo inteiro entregando prendas, sem o conforto de um bom banco almofadado, sem um GPS que indique o caminho e avise das condições metereológicas, sem ar condicionado que proteja do frio e diminua o calor, é um trabalho heróico. E, nas pobres das renas, coitadas, o sofrimento ainda é maior. Presas, açoitadas, sem comer e sem beber, ninguém as protege ou lhe faz justiça, reconhecendo o seu esforço e, no mínimo, remunerando-as em função do seu desempenho. Tudo isto agravado por ser hoje possível, sem qualquer dificuldade e com toda a eficiência, utilizar um drone, vindo da Lapónia ou de qualquer outro canto do mundo e fazê-lo chegar ao destino, sem falhas, perdas ou enganos.

Pensei: vou desencadear uma petição online para forçar a resolução urgente deste problema urgente e candente. Terei, seguramente, muitos milhares de cidadãos preocupados a subscreverem-na e talvez até o PAN proponha, na Assembleia da República, uma Lei que salvaguarde e regule os direitos, liberdades e garantias das pobres renas. Num ápice, concluí: estás perturbado ou o vinho que não bebeste ao almoço toldou-te o raciocínio. O Pai Natal não existe e as renas estão lá no seu habitat, protegidas por quem com isso se preocupa.

A imaginação é insuperável e, mantendo as tradições, ajuda-nos a viver, simplesmente.

sábado, 19 de dezembro de 2020

Espírito de Natal

O Natal é uma época onde enaltecemos o espírito de solidariedade, a necessidade de todos e cada um poderem ter uma mesa farta ou, pelo menos, composta. Fazemos votos que a sociedade seja capaz de acabar com as diferenças abissais que (ainda) existem, que a felicidade contemple todos, que o ano novo traga tudo de bom. E, neste ano, acrescentamos o voto que este malvado vírus desapareça.

E contribuímos, manifestamos a nossa angústia por não fazermos mais, condoemo-nos pela miséria que perpassa debaixo dos nossos olhos, disponibilizamos todo o nosso esforço para uma sociedade melhor e mais justa.

Depois ... bem, depois, seguir-se-á mais um ano em que o trabalho nos ocupa e preocupa, a família exige uma atenção permanente e o pouco tempo que sobra é aproveitado para descansar um pouco, por não ser possível aguentar as agruras do dia a dia sem um pouco de relaxamento. 

Não tarda nada e o Verão aí está. Surgem as férias, a praia fica ainda mais bonita, o sol brilha e, afinal, tudo passou num instante. Nem demos por isso e já estamos a chegar outra vez ao Natal. E é tão difícil esta época. Não houve tempo para nada e continua a haver gente que não sabe nem nunca soube o que são prendas, ou presentes, que o Pai Natal lhes tenha trazido.

Hoje, o meu neto mais novo, do alto da sapiência que lhe advém dos seus quatro anos, questionou-me:

- Ó vô, o Pai Natal consegue ir a todas as casas no dia 24?

Claro que lhe respondi que sim e omiti que continua a haver muitas onde ele nem à porta chega. Para quê complicar. Tem muito tempo para entender.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Confinamento

As regras para o Natal são apenas indicativas, permitindo que as famílias se reúnam, aconselhando-se que se evitem grandes ajuntamentos, que se tenham as precauções que já toda a gente decorou e que a duração seja o mais curta possível.

Por mais que queiramos assobiar para o lado, a realidade é que o vírus permanece, faz estragos e nunca sabemos onde está nem por onde anda. Basta ter presente que António Costa foi almoçar com Macron e a cidade-luz deu-lhe de presente o encerramento em casa. Quase que se pode dizer, parafraseando o vulgo, que, com amigos destes, ninguém precisa de inimigos. 

Apesar de ter de se render ao teletrabalho, o primeiro-ministro não deixou de tomar decisões e de as comunicar ao país: o Ano Novo vai ser confinado para todos.

Por mim não me fará diferença. A minha zona anda em obras e a minha rua é, agora, um recurso para uma boa parte dos veículos que circulam por aqui, muitos deles que nem sequer a conheciam. Acabou o sossego do trânsito e o sentido único e aumentaram os cuidados e as dificuldades em sair de casa. 

Assim não há tentações e poupam-se umas coroas ... 

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

BOAS FESTAS

Vai ser diferente, mas este é um ano para esquecer. Ou para lembrar, por tudo o que já aconteceu, por aquilo que já passámos e pelo que nos estará reservado.

Ainda assim, com as precauções devidas e os cuidados necessários, façamos as festas possíveis, esperando que 2021 nos traga uma nova normalidade, sem restrições de maior.



quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Publicidade

Tudo indica, de acordo com as notícias que nos chegam dos USA, que aquele paspalho que os americanos tiveram como presidente está, finalmente, a dar sinais de aceitar os resultados das eleições, reconhecendo Joe Biden como o novo inquilino da Casa Branca. Parecem estar reunidas as condições para que a posse, que ocorrerá em meados de Janeiro de 2021, decorra sem complicações de maior e, assim, seja virada uma página, negra, que ficará para a história dos USA e do mundo.

A associação de ideias, que vai aumentando em conjunto com a idade, traz as recordações de coisas, a maior parte insignificantes, passadas em tempos longínquos, deixando as de "ontem" num limbo ou numa gaveta que, por vezes, já tem dificuldade em ser aberta.

Desta vez, as notícias dos USA, trouxeram à memória a anedota aprendida há muitos, muitos anos, que utilizava o conteúdo de uma publicidade então muito em voga ao sabonete Lux e à pasta dentífrica Signal, associando-a à bandeira dos USA.

Numa amena cavaqueira, um dos presentes atira para o grupo:

- Alguém sabe qual é a bandeira mais higiénica do mundo?

Ninguém se manifesta. Expressar ignorância, em público ou em privado, é sempre confrangedor.

O bobo, após alguns segundos de silêncio, continua a sua actuação.

- É a bandeira dos Estados Unidos, claro.

- E porquê? questionam várias vozes em simultâneo, como convém na conversa à portuguesa.

- Simples. Tem 50 estrelas e nove de cada dez estrelas usam Lux; e nas riscas vermelhas contém hexaclorofene que torna o hálito puro e fresco.

O rasto da publicidade permanece por tempos infinitos.

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Caracóis

O jardim é a melhor sala da casa. Não tem janelas, nem portas, nem estores, nem correntes de ar, bibelots que se possam partir, telefone a tocar, televisão a noticiar, toalhas para pendurar, chão que se possa sujar, cadeiras fora do lugar, mesa por levantar, nada. Tudo é natural.

E mesmo quando chove, faz calor ou frio, a "sala" convida a olhar e, como dizia Saramago, "se olhares, vê e se vires, repara". Faço-o habitualmente e tento reparar, para descortinar o "presente" dos gatos que não puxam o autoclismo apenas por não o encontrarem, e para perceber a evolução das flores, para mondar uma ou outra erva que, sem princípios, ocupa indevidamente espaços que lhe não são destinados.

Espreito os seres vivos que por lá se movimentam e dele fazem casa. Não me refiro aos pássaros, nem às abelhas, muito menos aos gatos. Estes são visitantes, não habitantes. Os caracóis, as lesmas, os bichos-de-conta, estes sim, são usufrutuários permanentes e não pagam qualquer renda ou foro, utilizando tudo, sem quaisquer restrições. Os caracóis fascinam-me. Por debaixo daquela indolência que todos conhecemos estão uns seres que executam na perfeição todas as tarefas a que se dispõem, com um planeamento que deverá fazer inveja a muita gente. Tão depressa estão a saborear as folhas das strelitzia, como provam o hibisco, esburacam as folhas das roseiras, da glicínia, da buganvília e de tudo quanto aparece no seu caminho. Quando se sentem cansados ou saciados, "hibernam" numa boa sesta subindo por uma qualquer parede ou estacionando nas pedras de uma janela.

Não consigo perceber como se deslocam tão depressa e percorrem tudo, mas o defeito é meu, que já não enxergo o que devia.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Melros

As visitas dos melros ao meu quintal continuam, para minha grande satisfação. Porém, não se restringem ao meu quintal. Aqui só vêm melros pacíficos e de um preto lindo, com vontade de cantarolar e de se esconder, de brincar e passear, nunca de importunar.

Todavia, cada vez mais se ouvem por aí outros melros, a gritar, a escrever, a chafurdar, vomitando ódio, revolta, vingança, ressabiados com tudo quanto mexe e não é da sua opinião, logo deles que, como toda a gente sabe, são dotados e muito e disso deram prova durante quase meio século.

Na maior parte dos casos, são melros que pensam pela cabeça de outros, mais melros, que os usam para que a conversa pareça ter algum nexo, ser credível, vinda de gente que "não tendo onde cair morta" nem sabendo escrever duas linhas direito, se dispõe a servir-lhe de capacho.

E fazem-no socializando nas redes, tornando-as mais mal cheirosas que muitos esgotos. Estes melros podem falar, e gritar, e asneirar, deitando abaixo os tempos actuais e colocando nos píncaros o antigamente, de tão má memória que, a bem dizer, nem merecem duas linhas. 

Valha-nos a paciência infinita que a democracia exige e a capacidade que tem para aturar e dar voz a esta gente.

domingo, 13 de dezembro de 2020

Gatos

Levanto o estore. A manhã está, de novo, cinzenta e morrinhenta. Não convida a sair. O gato pára, quando ouve e vê a persiana a subir. Dirigia-se para o WC e teve a viagem interrompida, logo numa altura de aperto. Enfrenta-me quando abro a janela e, por gestos e sons, o procuro afastar do quintal. Olha-me nos olhos, dizendo na sua língua de gato:

- Estás parvo ou quê? Já não se pode satisfazer as necessidades mais básicas?

Aparece outro, mais pequeno mas não menos ladino. Fecho a janela. Não vale a pena. Daqui a pouco irei limpar, como é costume. Seja pela remissão dos meus pecados e pela compreensão do que são necessidades.

A vizinhança adora gatos. Espalha comida pelos muros, pelos cantos, junto às casas ... dos outros. Ficam de bem com a sua consciência, fazem a boa acção diária, mas não lhe abrem a porta. As gaivotas também aproveitam e comem as bolinhas castanhas da ração. No mar não há disto e, por isso, a grande maioria já nem recorda o caminho da Foz. São citadinas e gostam. Bebem a água da fonte da rotunda, sobrevoam os prédios mas não arriscam o quintal. Ficam-se pelos céus!

Por este andar, qualquer dia deixo de ter os melros, os pintassilgos (já muito poucos), os cartaxos, os rabilongos e os pardais. Deixarei de cantar, como na moda alentejana, os "cucos milharucos" e substituirei por "e bichanos aflitos cada vez há mais".

Os pássaros conhecem-se pelas cagadelas. Os gatos nem por isso ... 

sábado, 12 de dezembro de 2020

Inverno

O Inverno está a chegar e o tempo, esta semana, tem-no anunciado com pompa, cumprindo o marketing que se quer exista cada vez mais incisivo. 

Era bom que, com estes anúncios tão agressivos, o corona se assustasse e hibernasse para uma qualquer galáxia bem longe daqui e onde não houvesse ninguém.

Mantenhamos a esperança que a Primavera chegará na altura própria e nos trará uma nova vida ainda que diferente daquela de que dispúnhamos antes. O mundo é composto de mudança e a música, mesmo quando glorifica o Inverno, ajuda a manter viva a chama de um mundo melhor.

(Isto hoje saiu um bocado lamechas, mas a imaginação não dá para mais. Talvez amanhã saia melhor!)

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Passadeira

Estou quase a chegar ao cruzamento e apercebo-me que ele vem lá. Páro antes da passadeira e aguardo. Aproxima-se e o cão que o conduz estaca, no passeio. Olha atentamente para os dois lados da rua. Do sul, estou eu no primeiro carro. Do outro lado, uma outra viatura ainda faz a rotunda. O cão espera até verificar que a paragem se concretiza.

Agora pode ser. Avança e conduz o dono em segurança. Impressiona. O homem deverá ter cerca de 40 anos. Conheço-o, de vista, desde miúdo, quando ainda não era totalmente cego, embora já usasse uns óculos com lentes grossas. Trabalha num supermercado da cidade e já não usa óculos há muito tempo. Vai para o trabalho de autocarro, sempre acompanhado pelo fiel companheiro. Não tenho a certeza, mas julgo que já não terá nenhum familiar directo. Tem o cão, que um dia, pela certa, também lhe irá faltar.

Talvez surja outro cão tão dedicado quanto este e a vida continue. Há situações que custam muito a digerir a quem vê bem ...

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Acordo ortográfico

Ao ler hoje o Público, deparei com um artigo do jornalista Nuno Pacheco, que li com um sorriso nos lábios e uma inveja descomunal de não ser eu quem escreveu. Com a devida vénia e os parabéns ao autor, transcrevo-o com imenso gosto. Justifica bem o trabalho de dactilografia a que me sujeitei e, apesar de mais longo do que é normal por aqui, vale a pena ler.

Viagem alucinante pelo país das cinco ortografias

Por má sina ou fatalidade, há coisas de que não nos livramos. Podemos livrar-nos de Trump, poderemos até livrar-nos do bicho coroado que nos atormenta, mas há um mal que continua a perseguir-nos sem desfalecer e que alastra com uma praga: a pseudo-ortografia. Houve até quem, de forma brilhante e acertadamente, lhe inventasse nome: pentaortografia. Num artigo bem recente, de 5 de Dezembro, no Diário do Minho, M.Moura Pacheco (ao qual, apesar do apelido, não me unem laços familiares) veio explicar de forma sucinta este magno problema.

Começa assim: "Quando eu aprendi a escrever, havia duas ortografias: a certa e a errada. Agora há, pelo menos cinco. E todas autoconsideradas certas - é a pentaortografia." Quais são? Ele explica: primeiro, a ortografia clássica ou antiga (a do acordo, ou reforma, de 1945); depois, "a do chamado 'acordo ortográfico' que, por sinal, nunca foi acordado"; em seguida, há "a ortografia do 'superacordo' ou dos fanáticos do 'acordo?. São aqueles que não podem ver uma consoante antes de outra sem que, zelosamente, a façam cair"; em quarto lugar vem "uma mistura das três anteriores, em doses e proporções ao gosto de cada um, em cocktails sortidos de um extenso cardápio"; e, por fim, a quinta ortografia: "É a que não se integra em nenhuma das anteriores, que está errada à luz de qualquer delas, que desvirtua a fonética, atraiçoa a etimologia, ofende a morfologia e atropela a sintaxe. Uma espécie de sublimação da anterior. Mas é, talvez, a mais popular de todas." Daí esta conclusão do autor, professor universitário aposentado: "Das duas velhas ortografias, o 'acordo? que ninguém acordou conseguiu fazer cinco - a pentaortografia. É o que se chama produtividade cultural!!! Outra voz que se tem levantado, com regular insistência, contra tal realidade e dando exemplos, é a de João Esperança Barroca, na série "Em defesa da ortografia", no jornal Cidade de Tomar.

Exagero? Antes fosse. Todos os dias, e é bom sublinhar todos, surgem exemplos desta novilíngua que se vai insinuando pela má escrita e que, sem ameaçar a língua portuguesa (que já resistiu a tanto e há-de resistir a tudo), ameaça impiedosamente a nossa paciência. Alguns exemplos, recolhidos por olhares atentos, permitem uma avaliação sumária de tais misérias.

Na rua, um sinal de proibição de trânsito ressalva "exceto (por excepto) acesso à escola", bem perto de um outro em que se anuncia "Todas as direcções" (à "antiga", com ). Na RTP, no Jornal da Tarde, lemos este aviso: "Restrições do fim-de-semana impõem novos horários para espétaculos (!) culturais"; enquanto isso, num anúncio governamental de restrições devido à pandemia, lia-se nas projecções atrás do primeiro-ministro: "Limitação de circulação na via pública nos 121 concelhos, ao fim-de-semana a partir das 13h." Um desgoverno no aplicar do Acordo Ortográfico de 1990, que, na caça aos hífenes, impôs como norma fim de semana.

Quem diz hífenes diz acentos. Mão zelosa deve ter achado por bem este título "A ERC pode por (em lugar de pôr) a sobrevivência da TVI" (Visão, 24/11). Quanto a "impatos", "patos" ou "estupefatos", vão surgindo a eito, apesar de se pronunciar claramente o omitido C em impaCto, paCto ou estupefaCto. No artigo "Costa apresenta plano para investir 43 mil milhões até 2030", no Observador (22/11), lá vinha: com menor impato no clima"; o mesmo numa circular de formação escolar, em que se menciona o "impato nos currículos". Já num antigo artigo da Visão ("Quando a Europa vai à Escola"), apesar de aí se escrever "impacto" sem erro, surge esta linda frase: "É sempre preciso patuar com algo que não é ideal", e na TVI (26/2) tivemos ainda esta pérola: Setor bancário está estupefato com esta decisão."

Isto para já não falar dos "artefatos tecnológicos" (numa comunicação sobre Tecnologia Educativa), no julgamento por corrução do ex-presidente Sarkozy" (Lux, 30/11), na "interrução de trânsito" (câmaras do Machico e do Funchal) ou na "queda de helicótero" (por helicóptero) em notícias publicadas em 2019 em jornais de Coimbra e da Madeira.

O impato de tudo isto deixa-nos estupefatos. O melhor é ir a um espétaculo, a ver se passa.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Pânico

A partir de agora, qualquer pessoa que aterre no Aeroporto de Lisboa e não seja portadora dos documentos considerados imprescindíveis pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, já tem garantido o acesso a um "botão de pânico", instalado na sala para onde será conduzido e que, tudo o indica, será uma ferramenta essencial para que a recepção portuguesa seja um êxito.

O SEF assassinou, em Março deste ano, um cidadão ucraniano acabado de chegar ao nosso país, não num avião de guerra inimigo nem armado com metralhadora, mas sim num voo comercial, dos muitos que, em tempos, aterravam na Portela. Por alguma razão que me escapa, foi conduzido a uma sala "especial" e ali contemplado com uma recepção digna de qualquer filme sobre violência, mas protagonizado por energúmenos que se intitulavam polícias do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. 

Em consequência daquela morte, a Directora do SEF demitiu-se hoje, com nove meses de atraso; o Ministro da Administração Interna permanece no cargo, talvez para regulamentar e compilar as instruções sobre a forma e as condições de utilização do botão; até agora não se ouviu nenhum dos profissionais do SEF nem o Sindicato que os representa vir contestar a instalação do botão, o que indicia e admite a possibilidade de haver mais energúmenos sem controlo naquela polícia, capazes de repetir o feito.

O que se passou é indigno de um estado libertado em 25 de Abril de 1974 e uma ofensa a todos, e muitos foram, os portugueses que foram acolhidos noutros países. Tenho pena que António Costa não tenha impedido a instalação do botão e espero que não seja um precedente. Gostava de saber se o alarme estará ligado à Securitas ou a qualquer outra empresa de segurança ou se tocará no MAI.

Quero viver num país onde os orgãos sejam confiáveis e estejam ao serviço de todos os cidadãos. Não quero entrar num qualquer departamento policial e receber o livro de instruções para accionar o "botão de pânico", em caso de necessidade.

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Quotidiano

Hoje foi ministrada, no Reino Unido, a primeira vacina para o coronavírus e, em Portugal, os números parecem estar, finalmente, em curva descendente;

Como se esperava há muito, Marcelo foi à pastelaria e anunciou que se recandidatava a mais um mandato em Belém. Foi tudo tão rápido que nem houve tempo para um pastelinho ou uma selfie;

Há 40 anos, um maluco assassinou John Lennon.


segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Água

Caldas sempre foi muito dada a desportos aquáticos, desde o remo no lago do parque aos barcos que, à força de braços, faziam a travessia entre as duas margens da Lagoa, nos tempos em que os a motor eram quase miragem.

Na década de sessenta do século passado, fazendo jus a essa apetência e com a preocupação de proporcionar a aprendizagem da natação prevenindo os acidentes no mar, bravo, da Foz e quando ainda pouco se falava de piscinas municipais no país, foi prometida uma para a cidade e escolhido até o local para a sua edificação. A obra acabou por ser feita só no século XXI, noutro sítio e sem a presença do seu prometedor pioneiro, que já tinha partido. Coisas da vida ...

Hoje a Foz confirmava a apetência para os desportos náuticos. Um número incrível de atletas praticava kitesurf, utilizando o magnífico espelho de água que é a Lagoa, apesar de o tempo estar instável, não haver sol e a chuva cair com frequência e alguma violência.

Dada a proibição de circular entre concelhos, fácil foi a conclusão de que os atletas pertencerão todos às Caldas, o que nos garante um grande futuro na modalidade.