segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

Diálogo surreal

- Vou-me embora. Estou farto!

- Tem calma. Espera mais um pouco. O tempo que já levas por aqui não te ensinou que "as cadelas apressadas parem os filhos cegos"?

- Lérias. Sempre os ditados populares na ponta da língua para justificar tudo e nada.

- Claro. Há sempre um adequado a cada situação, por mais inverosímil que possa parecer.

- Eu que, como a grande maioria, sou "achista", acho que deves permanecer mais um pouco. Afinal de contas, "assinaste" contrato até à meia-noite de amanhã e, por aqui, os contratos são para cumprir ... pelo menos para alguns.

- Acredito que haja sinceridade nesse pedido e que não te importes de me aturar mais um pouco. Mas olha que há por aí muita gentinha a querer ver-me pelas costas e a desejar ardentemente que o meu substituto traga maravilhas para todos.

- Volto a dizer-te: tem calma e não fiques deprimido. Afinal de contas, sabes bem que "vozes de burro não chegam ao céu" e que, sempre, "atrás de mim virá quem de mim bom fará".

Estamos todos à espera que 2025 traga paz na Ucrânia e na Palestina, no Sudão, em Moçambique, e em todos os sítios onde a "lei da bala" impera. E que, no seu bornal, o Novo Ano traga o remédio para acabar com a miséria e a fome e termine com a exibição do luxo e da riqueza da forma ofensiva que tem vindo a verificar-se.

Lérias! Sabemos todos que nada disto acontecerá em 2025. Mas ... "a fé é a última coisa que se perde" e, bem lá no fundo, todos desejamos que o Novo Ano seja ... o melhor possível.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Martelos

O telhado ia sendo feito, a pouco e pouco, devagar, com todo o cuidado. Estar lá em cima sem qualquer protecção (o tempo dos capacetes e dos outros cuidados ainda não tinha chegado), exigia todas as cautelas, apesar da experiência ser grande e de ser "apenas" o sótão de uma casa térrea.

As vigas principais já tinham sido colocadas e a tarefa, agora, era pregar as ripas que viriam a ser o suporte principal das telhas. Trabalho delicado, exigente e rigoroso. Não podia haver falhas, que as telhas não eram maleáveis.

O servente tinha pavor do mestre pedreiro, mas tentava não o demonstrar. Procurava cumprir todas as ordens, sem manifestar qualquer desagrado, muito menos fazer comentários. Podia sair-lhe caro e manter o emprego era essencial para a sobrevivência.

- O "Jaquim" é o servente que eu gosto. Faz o que lhe digo e nunca abre a boca. Respeitinho.

Os pregos utilizados nas ripas eram bem mais pequenos do que aqueles que tinham servido para pregar as vigas. Os martelos utilizados por pedreiro e servente eram os mesmos e bem grandes. O cuidado para acertar na cabeça do prego e não na dos dedos era mais do que necessário, era imperioso. A cabeça dos dedos sofria e a dos pregos torcia-se, impedindo que eles cumprissem a função.

- Ó "Jaquim", tem tento no trabalho. Mais vale acertares nos dedos do que torceres os pregos. Olha que são caros!

A observação do mestre não teve qualquer resposta, como era uso mas, apesar da atenção, primeiro prego martelado, primeiro torcido.

- Eu avisei-te, "Jaquim". Dá atenção ao trabalho, com a cabeça bem assente e sem pensares no resto.

O segundo teve a mesma sorte e o mestre pedreiro não resistiu:

- Vai buscar uma pá ...

O "Jaquim", cumpridor, desceu a escada e dirigiu-se à arrecadação. Agarrou na primeira pá que encontrou e subiu a escada.

- Aqui tem, senhor João.

- És mesmo parvo. Então tu achas que se pode martelar um prego com uma pá?

Lá poder não pode mas, às vezes, até dava um jeitão e os dedos não se queixavam.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

Palavras bonitas

Venha o sol que vier, é uma promessa
O que a manhã nos traz na sua alvura. 
É outra vez a vida que começa 
Aberta de inocência e de frescura. 

Cipreste frio, a noite! Cor impura.
Triste alegria a tinta negra impressa. 
Venha o sol que vier, tem mais altura
O sonho que se veja e que se meça. 

Claro como a verdade - diz o povo.
Doce como um começo, o fruto novo
Onde reluz o laivo que o pintou. 

Venha o sol que vier, é um outro dia
No límpido país da fantasia
Que a nossa escuridão iluminou. 

Libertação 
Miguel Torga
Gráfica Coimbra 

quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

Ilusões

Se Fernando Pessoa escreveu que

O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente

seria interessante perceber as Berlengas que, no dia de Natal, fingiram aproximar-se da costa e dar a ilusão de que estavam mesmo ali, não à mão de semear, mas a meia dúzia de braçadas, a nadar.

São apenas ilusões e, amanhã, o mais provável é que as velhas ilhas e os seus companheiros Farilhões já só apareçam no horizonte de quem sabe que, por detrás da neblina, lá bem longe, elas permanecem descansadas.

Malhas que o império tece ou a confirmação de que o hoje só determina que o amanhã se verá.

terça-feira, 24 de dezembro de 2024

Natal

A todos os que (ainda) vão perdendo algum do seu precioso tempo a espreitar o que por aqui vai aparecendo, votos de um excelente NATAL, com tudo o que pretendem e, especialmente - lugar comum - saúde e paz.

BOAS FESTAS

domingo, 22 de dezembro de 2024

Livros lidos (ou em vias disso)

Podia ser um texto sobre a actualidade, a época natalícia, as desigualdades, o sofrimento, as diferenças, tudo o que a nossa imaginação queira. Nada disso! Apenas um excerto de um capítulo de um livro deliciosamente bem escrito.

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(...)
XXVI
O Volframista

Coisas que ainda se passarão: guerra, corrida ao volfrâmio, o dinheiro que isso traz. Bem jogado naquelas mesas - legais e ilegais. O Volframista começou por procurar as ilegais. Vinha sozinho, sério, um lenço branco no bolso esquerdo do casaco do fato. Depois começou a trazer uma mulher, de saia reta pelo joelho, algumas transparências, cabelo a la garçonne, exigindo que se sentasse a seu lado. Fumava por uma boquilha, a com o cabelo de rapaz. Ele era um novo-rico do volfrâmio, ou tungsténio, garampilheiro a vender a quem guerreava. Corrigindo: a quem mandava os outros matarem-se, sentados em poltronas confortáveis, as mangas da camisa imaculadas. O torturador também lê poesia. Vender-lhes o mineral fazia enriquecer muito rápido.

Dele contavam-se coisas medonhas. Que apostaria tudo na mesa, até a virgindade da filha. Já o tinha sugerido, quando vinha sozinho. E todo aquele monte de dinheiro a crescer, e nada para o parar - as cagadelas caíam à sua frente, nunca em cima de si. Não era preciso salto de fé, só assegurar a boa posição na corrida ao ouro negro. Com um bom número de mortes dos trabalhadores por silicose, pulmões feitos pedra. Havia que continuar a explorar o volfrâmio.

Qu'é isso?

Descoberto pelos irmãos Don Fausto e Juan José Delhuyar em 1783.

Elemento químico metálico (símbolo: W).

Número atómico 74.

Massa atómica 183,85.

Cor pardacenta, quase preta.

Densidade de 19,3 g/cm3.

Funde a cerca de 3419 ºC.

Uma merda pra fazerem armas, munições ou coisa co valha.

O tambor que o mar é ao bater na rocha. Falam do Volframista na praia, tratando das redes. Recordando pela centésima vez o que lhes disse o homem.

Sou como vocês, vou sempre ao leme.

Que leme, homem? Estes barcos não têm leme. (...)

Faina
Marta Pais Oliveira
Gradiva (2024)

sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

Realidade ou ficção

Havendo informação sem censura (até quando?), vamos sabendo o que se passa no país, e no mundo, e podemos, por nós próprios, aquilatar a licitude e a verdade dos factos, fazendo a nossa análise sem recorrer aos "analistas" que todos os dias nos "invadem" a casa sem pedir autorização.

Ontem vimos um filme de "cowboys", rodado na Rua do Benformoso, no qual os "cowboys" encostam os "índios" à parede, de mãos bem levantadas e pernas bem abertas, para que a revista decorra com a pompa securitária que o "povo" reclama. Encontraram uma faca ...

Noutros tempos, naquela mesma rua, passava a rusga e a "ramona" levava toda a gente - homens e mulheres - para o Governo Civil, onde os esperava uma noite para mais tarde recordar. Ficavam os proxenetas que, à época, o calão apelidava de chulos. Estes mantinham excelentes relações com a autoridade e sabiam que o negócio prosseguiria no dia seguinte. Ontem não foram para o Governo Civil (já não existe) mas os "índios" foram bem avisados (em que língua?) e enxovalhados. E os proxenetas?

Andaremos à nora ou os alcatruzes estão a recuperar águas de antanho?

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Palavras bonitas

QUATORZE VERSOS

O primeiro é assim: fica de parte.
No segundo já posso prometer
que no terceiro vai haver mais arte.
Mas afinal não houve ... que fazer?

Melhor será calar, pois que dizer
nem no sexto conseguirei destarte.
Os acentos errados é favor não ver;
nem os versos errados, que também sei hacer ...

Ó nono verso por que vais embora
sem que eu te sublime neste décimo?
Ao décimo primeiro dediquei uma hora.

Errei-o. Mas que importa se a poesia,
mesmo que o não errasse, já não vinha?
É este o último e, como os outros, péssimo ...

Tomai lá do O'Neill
Alexandre O'Neill
Círculo de Leitores (1986)

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Língua

Concluo, muitas vezes, que estaria na hora de voltar às aulas de Português, se a saudosa Doutora Elvira pudesse voltar a ministrá-las e a reforçar-me, se necessário fosse, o gosto pela língua, do vocabulário à ficção, da leitura de prosa ou de poesia e, sobretudo, dos cuidados a ter com a escrita e com a fala.

- Se não há certezas, não escrevam nem digam. Vão procurar saber a forma correcta antes de dizerem ou escreverem asneiras.

Procurei seguir sempre o sábio conselho.

Hoje fui, uma vez mais, surpreendido com a minha ignorância. De acordo com a Sic Notícias, um autocarro sem condutor desgovernou-se e albarroou um táxi que se encontrava estacionado junto à Gare do Oriente. Do albarroamento não resultaram quaisquer (vá lá, não foram quaisqueres) vítimas, estando já em curso um rigoroso inquérito por parte da empresa proprietária do autocarro, para apuramento dos motivos e das responsabilidades do albarroamento. Durante os dois ou três minutos em que o jornalista esteve de microfone na mão, várias vezes abalroou a língua que devia dominar em pleno. Da segunda vez que interveio, repetiu a proeza.

Tudo isto trouxe-me à memória um velho treinador de futebol que, tal como a minha dilecta professora, já cá não está para confirmar.

- Ó menino, não inventes! Joga só o que sabes!

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Numa tarde do mês de Março de 1955, quando se preparava para servir o chá, a menina Fabre surpreendeu as suas alunas numa grande conversa. Os estudantes do secundário estavam em greve havia uma semana, por causa de uma jovem que um professor humilhara. Ele acusara-a de ter escrito uma composição subversiva sobre o combate de Joana d'Arc contra os Ingleses e de ter aproveitado a disciplina de História para manifestar as suas amizades nacionalistas. Do andar de cima, chegava-lhes o riso dos trabalhadores que reparavam o telhado da menina Fabre e as raparigas não se contiveram e tentaram vê-los. A dona da casa serviu, à moda dos Marroquinos, com um gesto amplo e cerimonioso, o chá de menta em copos lascados. Aproximou-se de Selma.

- Venha comigo, menina, quero falar consigo.

Selma seguiu-a até à cozinha. Perguntou-se qual seria o motivo daquela conversa à parte. Teve vontade de dizer que se estava a borrifar para a política, que a sua cunhada era francesa, que não tomava o partido de ninguém, mas a menina Fabre sorriu-lhe e convidou-a a sentar-se a uma mesinha de madeira, na qual estava pousado um cesto com fruta coberta de mosquinhas. A menina Fabre esticou as pernas. Durante uns minutos, que pareceram infindáveis a Selma, perdeu-se na contemplação da buganvília que se espraiava, em enormes cachos malvas, sobre o muro ao fundo do jardim. Pegou num pêssego demasiado maduro, com a casca a descolar, e deparou com a polpa escura e mole.

- Soube que deixou de ir às aulas.

 Selma encolheu os ombros.

- Para quê? Não entendia nada.

- A menina é uma tonta. Sem estudos, não será ninguém na vida.

Selma ficou surpreendida. Nunca ouvira a menina Fabre exprimir-se daquela maneira, dar mostras de tamanha severidade junto de uma das adolescentes.

- É por causa de algum rapaz, é isso?

Selma corou e, se pudesse, teria fugido a sete pés e nunca mais a veriam naquela casa. As pernas começaram a tremer-lhe e a menina Fabre pousou uma mão no joelho dela.

- Julga que não compreendo? Provavelmente pensa que nunca estive apaixonada.

<<Faz com que ela se cale. Faz com que ela me deixe ir embora>>, pensou Selma, mas a velha continuou, roçando os dedos na sua cruz de marfim, que, de tanto ser acariciada, estava lustrosa.

- Hoje está apaixonada e é maravilhoso. Acredita em tudo o que os rapazes lhe dizem. Está convencida de que isso vai durar e que eles vão gostar sempre tanto de si como gostam agora. Comparado com isso, os estudos não têm importância. Mas a menina não sabe nada da vida! Um dia, se sacrificar tudo por eles, vai ficar sem nada e dependente dos mais pequenos gestos deles. Dependente da boa disposição e afecto dos homens, à mercê da brutalidade deles. Acredite que devia pensar no seu futuro e estudar. Os tempos mudaram. Não tem de abraçar o mesmo destino que o da sua mãe. Pode vir a ser alguém, advogada, professora, enfermeira. Ou até aviadora! Não ouviu falar daquela rapariga, a Touria Chaoui, que conseguiu o brevet de piloto com apenas dezasseis anos? A menina pode ser quem quiser, desde que faça por isso. E nunca, nunca pedirá dinheiro a um homem. (...)"

O país dos outros
Leïla Slimani
Alfaguara (2021)

terça-feira, 10 de dezembro de 2024

Se ...

E se, de repente, houvesse paz no mundo?

E se, de chofre, os pobres ficassem remediados?

E se, bruscamente, passasse a haver respeito por todos?

E se, sem pressas, toda a gente chegasse a tempo?

E se, sem falsos pudores nem nomenclaturas de ocasião, todos fossem livres?

E se, ostensivamente, desaparecessem os preconceitos?

E se ... te calasses no teu cantinho e te deixasses de parvoeiras sem nexo?

domingo, 8 de dezembro de 2024

Manhã fria

O João não está nada Feliz e tem muita pena de A Canária ter ficado tão tremida.

Paciência. Estava muito vento, frio, e a habilidade é pouca!



sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Londres era, então, uma das maiores cidades do mundo: no dealbar do século XIX, tinha cerca de um milhão de habitantes e, no final desse mesmo século, quase sete milhões. Os muitos milhares de cavalos que eram utilizados como transporte levariam à grande crise do estrume, The Great Manure Crisis, em 1894, ameaçando soterrar Londres em bosta (cerca de meio milhão de quilogramas por dia) e urina (57 000 litros por dia). O problema haveria de tomar proporções tão graves, que um jornal, publicado nesse momento de crise, vaticinava que em cinquenta anos todas as ruas de Londres estariam cobertas por uma camada de estrume com três metros de altura. O presságio não se cumpriu, pois apareceram outras formas de transporte para substituir o cavalo. Todas elas, incluindo o automóvel, acabaram por ter consequências globais bem mais graves do que o estrume.

Num mercado de rua, Fuegia estendeu a mão, apanhou uma maçã e trincou-a. O vendedor gritou com ela. Nenhum dos três fueguinos compreendia exactamente o que se passava, de onde vinham aqueles gritos, pois nunca incorporaram completamente a noção de que a comida só era acessível em determinadas condições, muitas vezes em troca de dinheiro, fazendo uso dos tais botões brilhantes. Para eles, uma pessoa poderia ter, como propriedade individual, um cesto ou uma arma - não no sentido que damos à propriedade, mas por uso directo ou constante usufruto -, mas não poderia ser dono da comida. A comida pertence a todos. A quem pertence um guanaco, senão a Watawineiwa, que dá vida a todos os seres? Quem criou o guanaco? Uma pessoa pode fazer armas, roupas, cestos, são suas, mas as frutas das árvores, bem como as próprias árvores - ou as estrelas ou a chuva ou os albatrozes -, não podem pertencer a ninguém senão a Watawineiwa, que dá vida a tudo.

Londres era um mundo realmente diferente. Não o compreendiam, e não eram compreendidos.

Nenhum dos três fueguinos tinha palavras para dizer <<exército>> ou <<polícia>>. (...)"

O que a chama iluminou
Afonso Cruz
Companhia das Letras (2024)

sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Responsabilidade

Talvez princípios dos anos oitenta do século passado ou até finais da década de setenta. O funcionamento da Banca estava longe, muito longe, daquilo em que se viria a tornar, quer na forma quer no conteúdo. Os computadores estavam a dar os primeiros passos e tudo passava pelos olhos e pela esferográfica que preenchia e assinava.

O senhor H. era um cliente conhecido de todos pela sua arrogância, considerando-se com direitos especiais face à sua categoria e capacidade, e sempre disponível para abrir a porta do gabinete do gerente, queixando-se do atendimento de algum ou de ter sido preterido em favor de alguém menos "importante", ainda que chegado primeiro.

Naquele dia, trazia os cupões da Obrigações FIP, para receber os juros pagos semestralmente pelo Estado. As obrigações FIP - Fundo de Investimento Público eram tituladas por folhas enormes, impressas na Casa da Moeda, que exibiam na parte inferior os cupões que eram cortados em cada semestre e apresentados a pagamento. Também semestralmente, o Estado sorteava os números das obrigações que pretendia (ou podia) liquidar antecipadamente e reembolsava o capital de algumas delas. A vida máxima podia ir até aos dez anos e muitas permaneciam "vivas" até final. Ditavam o reembolso a evolução das taxas de juro e a disponibilidade do erário público.

 - Quero receber estes juros, disse o senhor H., sem nenhum cumprimento, o que ninguém estranhava.

Entregou o montinho e dirigiu-se ao gabinete para cumprimentar o "poder".

- Dá licença, senhor N.?

- Diga, diga ... 

- O senhor H. traz uma obrigação que foi sorteada há seis meses. Já não podemos pagar estes juros.

 Ninguém me disse nada. São uns incompetentes! 

A voz já estava alterada e as faces ruborizadas.

- Quero receber o capital e os juros dos seis meses.

O gerente garantiu de imediato a satisfação da exigência.

- Fique descansado, senhor H.. A sua conta será creditada hoje pelo valor total.

E foi. Os arquivos foram visitados e identificados os dois distraídos que tinham aposto a sua assinatura no documento de pagamento, sem cuidarem, primeiro, de verificar a lista das obrigações sorteadas. A espada caiu sobre as duas cabeças ...

- Vocês sabem muito bem ... o cliente tem sempre razão e a responsabilidade é toda vossa.

Nesse dia, cerca de um quarto do ordenado mensal de cada um dos "malandros" distraídos foi parar à conta do senhor H. que, naturalmente, nunca agradeceu nem isso fazia parte do seu vocabulário.

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

Livros (lidos ou em vias disso)

"(..) Ao terceiro dia os símbolos foram depostos em Elvas.

Durante a tarde de sábado as forças militares deitaram por terra o que ainda restava do regime recentemente derrubado. Muitas foram as pessoas que se juntaram na Praça D. Sancho II para assistir à  retirada da placa da fachada da sede da PIDE/DGS. Houve ovações aos militares e vivas a um Portugal livre. Antes disso, no interior do edifício, inventariou-se o espólio existente.

No Largo de São Martinho, a tarefa repetiu-se. Também o edifício da Legião Portuguesa viu ser retirada da fachada a placa que a mencionava, como se nunca tivesse existido ou quisesse esquecer-se a sua existência.

Na noite anterior a Praça D. Sancho II tinha sido pequena para receber todos os que quiseram dar largas à sua satisfação, à esperança adiada de ver cair o regime, de poder sonhar um Portugal diferente. Os jovens eram os mais entusiastas, mas havia homens e mulheres de todas as idades e credos, militares e civis, sob a égide da antiga Sé, vigia perene. Traziam cartazes e faixas onde se podia ler agradecimentos às Forças Armadas e palavras de insulto ao fascismo.

- Em vez de ódio e dor, queremos paz e amor.

- Viva M.F.A. 

- Viva Portugal.

Abril
Nuno Franco Pires
Visgarolho (2024)

sexta-feira, 22 de novembro de 2024

A brincar ...

 ... se dizem coisas sérias, quando se tem capacidade!

Se mais não houvera, o Expresso valeria sempre pela arte de António.

quarta-feira, 20 de novembro de 2024

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Sou eu.

Saio de casa, atravesso o jardim e caminho na rua no meio dos desconhecidos que nela passam, também eles portadores de uma vida, nenhuma das quais é menos importante do que outra: todas são humanas, genuínas, e cada um a vive como pode. Não estamos sós, somos iguais ou equivalentes, respiramos o mesmo ar, debaixo do mesmo céu, e, conscientemente ou não, fazemos parte da História.

Ainda é cedo e a manhã está fresca, mas não fria. Olhando em volta vejo que a luz se foi tornando mais clara e a Primavera desponta nos jardins. O céu tem poucas nuvens, vai ser talvez um dia de sol, e a brisa traz consigo uma espécie de alegria.

E quando tiver caminhado o tempo que quiser, até me saciar de ar livre e movimento, vou voltar para casa, sentar-me na poltrona do quarto, perto da janela, e ditar mentalmente a última entrada na Crónica Secreta.

Que nada fique escondido e o secretismo da tua obra e do teu espólio acabe. Que tudo o que foste e escreveste venha à luz do dia, não só do teu ponto de vista, mas também na visão dos que privaram contigo.

No que me diz respeito, que as cartas que trocámos sejam publicadas, sem censura nem cortes, traduzidas noutras línguas e dadas a ler a quem quiser. As duas vozes têm igual direito a ser ouvidas, porque uma carta só está completa se soubermos que resposta recebeu.

Não me preocupei com as tuas teorias, que, como sabes, nunca me convenceram. Mas tudo o que te escrevi é rigoroso e verdadeiro, e não duvido de que terá utilidade - quem sabe, talvez até possa vir a fazer alguma diferença no mundo.

E é com um leve sorriso que ponho um ponto final nesta longa revisitação das nossas vidas. O que quis descobrir foi descoberto, o que de essencial quis dizer foi dito, e não tenho mais nada a acrescentar."

Autobiografia não escrita de Martha Freud
Teolinda Gersão
Porto Editora (2024)

terça-feira, 19 de novembro de 2024

Palavras bonitas

ANTES QUE SEJA TARDE

Amigo,
tu que choras uma angústia qualquer
e falas de coisas mansas como o luar
e paradas
como as águas de um lago adormecido,
acorda!
Deixa de vez
as margens do regato solitário
onde te miras
como se fosses a tua namorada.
Abandona o jardim sem flores
desse país inventado
onde tu és o único habitante.
Deixa os desejos sem rumo
de barco ao deus-dará
e esse ar de renúncia
às coisas do mundo.
Acorda, amigo,
liberta-te dessa paz podre de milagre
que existe
apenas na tua imaginação.
Abre os olhos e olha
abre os braços e luta!
Amigo,
antes da morte vir
nasce de vez para a vida.

Poemas Completos
Manuel da Fonseca
Forja (1978)

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

Guerras

A guerra na Ucrânia está quase "milionária", não no sentido do enchimento dos bolsos de muitos nem do número de mortos e feridos que já causou, mas nos dias da sua duração, sem se vislumbrarem quaisquer soluções. E vamos vendo, ouvindo e lendo, sem podermos ignorar, como nos ensinou a grande Sophia, mas também sem nada fazer para contrariar.

Gostava muito de ter uma opinião clara e fundamentada sobre o que se está a passar no mundo e o que leva e justifica a selvajaria que por aí vai grassando. O que vai acontecendo aqui mesmo ao lado - as distâncias são, agora, um pulinho -, quer na Ucrânia quer na Palestina, angustia-me. Acho deplorável, inconcebível, execrável, horrível, sendo insuficientes todos os adjectivos para qualificar a miséria, que não consigo qualificar.

Hoje, como faço (quase) todos os dias, li o post do Embaixador Seixas da Costa, no seu blogue "Duas ou três coisas" e as suas palavras encheram-me de inveja. Vale sempre a pena ler (ou ouvir) quem sabe!

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

Higiene

As recentes eleições nos Estados Unidos têm feito correr muita tinta e o seu resultado vai trazer consequências, gravosas, para todo o mundo, diz o meu "eu" comentador e observador atento.

Ainda não perdi as esperanças de, um dia, ir conhecer esse gigante que manda e tenta controlar todo o mundo e onde, por estranho que possa parecer, o "poupinha" vai voltar à presidência. 

Sendo um país tão grande e tão diverso tem, contudo, a bandeira mais higiénica do mundo, de acordo com o saber do Carlinhos, essa "enciclopédia" infinita dos ditos acertados e certeiros.

- Sabes qual é a bandeira mais higiénica do mundo?

- Nem imagino ... deve ser a que foi lavada há menos tempo!

- Nada disso. É a dos Estados Unidos da América.

- E porquê?

- Porque tem cinquenta estrelas e nove de cada dez estrelas usam "Lux"; e nas riscas vermelhas contém "hexaclorofene" que torna o hálito puro e fresco. 

A publicidade cria coisas que nem o tempo faz esquecer. 

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Festas

A noite de ontem fica na história pela despedida, brilhante, de Ruben Amorim, com a vitória do "seu" Sporting sobre o futuro rival Manchester City, com um resultado que ninguém esperava: 4-1. Amorim ganhou, e bem, despedindo-se de Alvalade pelo portão enorme e abrindo as portas de Manchester com direito a trombetas e desfiles de gala. Não é muito comum nos treinadores de futebol, mas aconteceu.

Do lado de lá do Atlântico, contrariando as previsões de muitos comentadores televisivos, a democrata Kamala Harris não foi capaz de fazer frente ao "poupinha loira", que os eleitores americanos entenderam ser o "deus" indicado para os guiar nos próximos quatro anos.

Tenho para mim que vai ser um período de luxo, com tiradas diárias indignas da tasca mais rasca e decisões que tornarão o mundo ainda mais complicado do que ele já está hoje. A ver vamos ... como diz o cego!

sábado, 2 de novembro de 2024

Olhares

Eu não tenho vistas largas
Nem grande sabedoria.
Mas dão-me as horas amargas
Lições de filosofia.

António Aleixo

Por aqui, no sossego do Bairro, brilha o sol,  a temperatura está agradável, a relva pede corte, as flores riem-se e o pensamento vai para a tragédia que se abateu sobre as terras de Valência. E se?

Vamos à Foz, onde o mar está chão e os muitos surfistas buscam uma ondita e nem a vislumbram. As ilhotas de areia cada vez ocupam mais espaço da Lagoa e os telhados dos bares da avenida, muitos ainda de amianto, obrigam a que os olhos se mantenham fixos lá bem longe, no horizonte, e tentem descortinar a Berlenga.

Um imenso mau gosto, temperado com lixo e outras porcarias à volta de quase todos os estabelecimentos que aguardam os fregueses para o almoço. No entretanto, vão agredindo quem lhes olha para as traseiras e vê o nojo que por ali vai.

Olhemos o mar!!!

quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Passou ...

Foram horas infindas de argumentação, discussão, palração, frustação, má educação, vozes de jumento ... mas já há Orçamento.

Agora é só esperar, sentado, a sua aplicação. Mas só a partir do Ano Novo, para que haja Natal descansado, sem matemática e finanças por perto.

quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Fala de Matias Kirimi

O padre não era branco. Mas, naquele momento, ele agia como se fosse um deles. E sempre que os brancos querem saber quem sou, levanto as mãos para que vejam que estou desarmado. Os meus braços são asas inúteis. Sou como as aves domésticas: nem o céu nem o chão me pertencem. Assim, de braços abertos e as mãos rendidas, os brancos acreditam que, mesmo que eu bata as asas, eles serão donos do meu voo.

Há pouco, quando saltei para o caminho, soletrei devagar o meu primeiro nome como se aquele <<Matias>> me tornasse menos preto. O padre sorriu, com altivez. Não fazia ideia de que lhe entregava a casca para salvar o fruto. Procedi assim porque há muito que estou avisado: é pelo nome que nos começam a roubar a alma. No momento seguinte, como eu já adivinhava, o padre perguntou pela minha tribo. O nome e a raça não bastavam. Nos tempos de hoje, disse eu, ninguém sabe quem é quem, nem de onde vem.

No final, o padre voltou ao assunto da cor da pele. Disse que eu era demasiado claro para ser um negro retinto. Respondi que não sabia responder. Ele que me dissesse de que raça eu era. Essa é a especialidade dos brancos: as raças. (...)"

A cegueira do rio
Mia Couto
Caminho (2024) 

terça-feira, 29 de outubro de 2024

Publicidade

Há já alguns bons anos, passava nas televisões um anúncio a um sumo, no qual um jovem bem disposto e bem parecido, debitava uma frase, convencido de que lhe tinha saído a sorte grande ou, pelo menos, a terminação:

- "Isto está-se a compor ... mais um Joi laranja prá minha amiga."

Olhando para o que se vai passando por aqui e pelo resto do mundo, talvez se justifique uma actualização do anúncio, com a devida divulgação geral e repetição amiúde:

- Isto está-se a descompor ... haverá Joi laranja para a minha amiga? 

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

Vida difícil

Mandam as mulheres no actual "compêndio" de leitura, e no resto, sem sombra de dúvida.

O novo livro de contos de Teresa Veiga - Vermelho delicado - já está lido e arrumadinho no seu lugar, fazendo companhia aos anteriores de uma autora de quem pouco se sabe e que não aparece em público; em curso, a leitura de mais contos, desta vez de Luísa Costa Gomes - Visitar amigos -, que também se está a revelar excelente, como é costume e de esperar de tão grande mestra; na calha, ou melhor, na ordem da fila, Teolinda Gersão e a sua Autobiografia não escrita de Martha Freud que, pela sinopse e pelo histórico autoral, promete e não irá desiludir; a acompanhar esta maratona está Isabel Rio Novo - Fortuna, caso, tempo e sorte - com um "calhamaço" de mais de setecentas páginas a biografar Camões. Este vai andando, devagar, que as pressas não se justificam.

E a pilha não baixa ...

É difícil a vida de um reformado, leitor inveterado que, qual boião de cultura, leva sempre um livro para todo o lado e nunca consegue chegar ao fim da rima, apesar de aproveitar todos os momentos nos quais, sentado, consegue ter mãos livres.

terça-feira, 22 de outubro de 2024

Perenidade

Quem diria, vinte anos decorridos sobre a gravação, que as palavras de José Mário Branco, se manteriam tão actuais e tão certeiras. 
Até parece mentira, se a mentira ainda existe!

segunda-feira, 21 de outubro de 2024

O papel

Com as novas tecnologias a tornarem-se cada vez mais presentes, apesar dos acidentes de percurso e de pirataria que, por vezes, vão surgindo, o atendimento pessoal tem vindo a diminuir, principalmente após a pandemia Covid-19 ter provado que uma boa parte das tarefas burocráticas pode ser realizada, com vantagens, sem a deslocação aos serviços oficiais.

Assim sendo, pareceria que uma deslocação a uma repartição pública seria entendida como excepção e motivadora para quem atende, percebendo de antemão que a sua utilidade seria valorizada e compreendida como essencial, por a pessoa que trazia o problema, fosse ele qual fosse, não o teria conseguido resolver em casa, com o recurso àquele material disponível vinte e quatro horas e não sujeito a humores.

- Bom dia!

- Hum ...

- Tenho aqui este cheque de reembolso do IRS, mas o beneficiário já faleceu.

- Fez a declaração de bens?

- Claro e o Imposto de Selo já foi liquidado no final do ano passado.

- Tem qu'ir ali ao lado fazer um acrescento ...

Descoberto o "ali ao lado", repete-se a conversa mas, desta vez, a interlocutora era amável e descontraída. Foi acrescentada a receita que, na altura própria, só o Estado conhecia e não cuidou de antecipar, o que evitaria a emissão do cheque e a trabalheira provocada a quem tem mais que fazer ...

- Pronto. Já tem aqui a alteração do Imposto e, agora, volte à minha colega. Ela vai querer ver este documento, só para confirmar o conteúdo.

Regresso à base, com o papel e o cheque a inutilizar.

- Cá estou de novo ...

- Hum ... 

- A sua colega disse para lhe mostrar o documento.

- Tenho de ir tirar fotocópia ... 

E foi! A alteração já constava do sistema mas o papel é imprescindível. Voltou daí a pouco e devolveu o original, sem uma única palavra. A expressão do olhar dizia tudo.

- E agora?

- É esperar!

Não vim convencido mas, três dias depois, o valor do cheque estava creditado na conta bancária. A senhora podia ter dito que não existiria novo cheque e que o valor seria depositado.

Não disse! O importante era o papel ficar bem agrafado ao cheque anulado, coisa que as novas tecnologias ainda não fazem. Estas tarefas são essenciais para quem muito sofre com as alterações!

domingo, 13 de outubro de 2024

Livros (lidos ou em vias disso)

Está quase, quase no fim! E é mais um grande livro! Tal como os anteriores, lê-se quase de um fôlego, com o interesse e a dúvida sempre presentes. Em cada página surge um acontecimento inesperado, sempre bem contado e, afinal, bem plausível.

"(...) e Benilda só pretendia, na verdade, passar muito despercebida, parecia que ia correr tudo bem, casal jovem e exótico, sangue na guelra, a vida toda pela frente e o mundo todo para mudar.

Pedro Vicente convenceu-se de que Benilda se apaixonara por ele pela mesma razão de todas as outras. Porque era irresistível. Um naco de homem latino com cabeça de ideólogo.

Benilda não o via assim. Nem sensual, nem esperteza por aí além. Pedro Vicente julgava ser a luz forte que fascina todos os insectos da noite. Desconhece que os insectos não são atraídos pelas lâmpadas. Uma vez que se guiam pela lua, rodeiam as luzes artificiais porque se sentem muito confundidos. Nós olhamos e julgamos que eles aparecem por alegria, não vemos que estão em sofrimento. Pedro Vicente via uma Benilda fascinada mas Benilda estava só em fuga.

Queria desaparecer na mais ruidosa confusão que encontrasse, onde fosse mais uma da amálgama, onde não se destacasse, para não chamar atenções.

Quando se começa a perceber melhor o que lhe aconteceu, quando o nevoeiro já deixa ver entre fiapos, e os pormenores desfocados ficam nítidos, Nina e Xulio deverão ser vistos como os ingénuos guias de um inesperado inferno.

Eles não enganaram Benilda. Eles acreditavam no que viam em Pedro Vicente. E acima de tudo. Benilda Temeroso, a bebé japonesa deixada à sua sorte num farol da Foz e criada por Maria Virgínia, sabia perfeitamente em que lago negro estava a mergulhar. A deixar-se mergulhar. A única surpresa foi a profundidade. Mas sabia. Pressentia, poderia fechar os olhos no primeiro dia e ver, na clareza da lua cheia que guia todos os insectos, o que a esperava. 

Foi para as Benildas que alguém escreveu a pedir - <<não entres tão depressa nessa noite escura>>.

Ela quis entrar. (...)"

Matarás um culpado e dois inocentes
Rodrigo Guedes de Carvalho
D. Quixote (2024)

sábado, 12 de outubro de 2024

Orçamento

Como é anualmente costume, tenho andado assoberbado desde meados de Setembro, após, como a maior parte da população, ter recuperado das canseiras do querido mês de Agosto, traduzidas nas férias de sonho vertidas e bem ilustradas nas redes. As caminhadas pelos areais algarvios (ou das Caraíbas), as braçadas no oceano tranquilo e as noitadas de farra, têm de ser compensadas. Embora habituais, dão muito trabalho e carecem de recuperação ...

Elaborar o orçamento para o ano seguinte é uma tarefa ciclópica e exigente, comum a todos os mortais e também a quem o não é. Primeiro há necessidade de elencar as despesas, todas, que vão ser efectuadas durante os doze meses seguintes ao Natal: a luz, a água, os telefones, a televisão e a net, o gás, a gasolina, a alimentação, do arroz às batatas, das alfaces aos pimentos, os impostos, os cafés e os bolinhos, as viagens e a saúde, tudo isto ordenado alfabeticamente de modo a ser fácil detectar as falhas, na revisão imprescindível. E não adianta olhar para a lista do ano anterior, porque tudo muda!

Depois desta trabalheira, é forçoso quantificar - orçamentos são números -, tarefa hoje bem mais facilitada, com o recurso ao Excel e à sua vertiginosa facilidade de fazer contas, sempre certas.

Obtido o total das despesas, a tarefa seguinte é bem mais simples. Afinal, só um tipo de receitas, o que torna o trabalho facílimo. Coloca-se na tabela o valor mensal e as fórmulas previamente explicitadas fazem saltar o total da receita e o resultado. Negativo, défice, vermelho, não é possível!

E agora? Corto nos tomates ou na gasolina? Aumento a receita para o saldo ser nulo ou diminuo os canais da TV para obter um saldinho positivo? Faço desaparecer a compra de livros ou omito  a necessidade de mudar o óleo aos carros?

Fica assim! Ninguém vai ler isto na íntegra e muito menos analisar ao pormenor. Ainda por cima, nem se nota que as contas foram mal feitas e que se vai gastar mais do que se recebe.

Para quê preocupações: paga-se com o cartão e nem se dá por isso!

segunda-feira, 7 de outubro de 2024

Algodão

A escola que mais marcou a minha juventude foi inaugurada no dia de hoje, há precisamente sessenta anos; quarenta e cinco anos depois de mim, a minha filha foi operada ao menisco (felizmente sem ligamento cruzado avariado); há um ano (re)começava a guerra no Médio Oriente, que já deixou marcas impressionantes mesmo para os mais distraídos e promete não parar de bater tristes recordes; a guerra na Ucrânia já quase não é notícia.

Hoje é o Dia Mundial do Algodão e o algodão não engana: muda muita coisa mas as repetições são imensas!

sábado, 5 de outubro de 2024

República

E se, de repente, a República desaparecesse e desse lugar a um trono de reizinhos que por aí pululam, espreitando às janelas, acenando as cabeças e aguardando, ansiosos, a abertura de uma nesga de porta para se instalarem na cadeira?

Tenho esperança que não aconteça, por vezes surgem-me dúvidas e já tive muito mais certezas.

sábado, 28 de setembro de 2024

Vulto

A Berlenga lá ao fundo, o mar bem zangado com a vida e a manifestar essa ira, o vento, norte, a fustigar a areia e os passeantes, e ele ali plantado, por certo a meditar nos anos que já passaram.

- Sossega, meu velho! Nem deste pela foto, mas talvez ela te possa garantir o início de uma longa carreira, não de procurador mas de meditador. Já terás setenta? 

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

Natal

O Natal aproxima-se a olhos vistos. E não é preciso olhar para as nuvens que já tomaram conta do céu ou para a necessidade de procurar o guarda-chuva, perdido algures entre as bugigangas estacionadas na garagem.

Basta estar atento às notícias das editoras que divulgam a chegada ao mercado de livros novos. Num frenesim desenfreado, quase a roçar o absurdo, as mensagens electrónicas, as divulgações nos jornais e revistas, as notas nas rádios e nas televisões, alertam-nos para o que está previsto, já saiu ou vai chegar em breve, tudo a não perder, sem sombra de dúvida.

E não é que têm resultados! Cá por mim, já adquiri algumas das novas obras, seguramente com um pouco de influência da publicidade (seria mais actual escrever marketing), mas apenas dos autores que têm a porta cá de casa sempre aberta e sobre os quais até arrisco sem folhear.

quarta-feira, 25 de setembro de 2024

Finalmente

Com tantas e tão proeminentes cabeças pensantes reunidas na ONU, discursando com a verborreia e o douto saber a que a magna reunião obriga, vai ser desta que se chegará a um consenso sobre a necessidade imperiosa de pôr termo aos massacres que estão acontecendo pelo mundo, da Ucrânia à Palestina, com passagem pela África, pela Ásia e pela América.

Ou não ...

terça-feira, 24 de setembro de 2024

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Ao descer aquele caminho pedregoso, Wojnicz esforçava-se por não se afastar do Sr. August, mantendo um passo de distância atrás para conversar com ele ... - sem que ele próprio soubesse ainda sobre o quê - até que, por fim, teve a honra de caminhar ao lado do Sr. August, que afrouxara o passo e seguia agora ombro a ombro com Wojnicz, deixando o Leão Grisalho à cabeça da comitiva. A discussão sobre os primórdios da civilização humana, bastante lenta por causa do terreno acidentado, esmorecera e, agora, o Sr. August, embora tivesse perto de si um ouvinte cheio de admiração, infelizmente tinha de se concentrar e observar o caminho que pisava, pois seria fácil tropeçar e escorregar pelo trilho abaixo. Desta conversa intermitente, Wojnicz ficou a saber que o Sr. August se considerava escritor.

- O meu pai era um funcionário austríaco, mas nasceu em Jassy - revelava o Sr. August. - A minha mãe era oriunda da Bucovina, mas era austríaca. Mas o que significa isto, se os pais dela tinham propriedades na Hungria e se sentiam húngaros? E quanto a mim ... é difícil dizer. Do ponto de vista da língua, penso em alemão e em romeno. E, claro, em francês, como todo o europeu.

Acreditava que a moda dos estados nacionais era passageira e haveria de acabar mal: a divisão artificial das pessoas em categorias tão pouco consistentes como lugar de nascimento em nada correspondia à complexa questão da identité.

- Aliás, o termo <<nação>> não me diz absolutamente nada. O nosso imperador, o seu e o meu, afirma que só existem <<povos>> e que as nações são uma invenção. O paradoxo consiste no facto de os estados nacionais precisarem de outros estados nacionais, como o cogumelo guarda-sol precisa de chuva; um estado nacional não tem razão de ser, a sua essência é confrontar e divergir. Mais tarde ou mais cedo, isto leva à guerra.

Neste ponto, disse algo em francês, mas Wojnicz não percebeu patavina. (...)"

Empúsio
Olga Tokarczuk
Cavalo de Ferro (2023)

sexta-feira, 20 de setembro de 2024

Aragem

Há um novo ar de liberdade quando, na Rua da dita, se olha para o céu e surgem "chafalos" a darem um novo e garrido colorido ao local e à cidade. É uma pedrada no charco das águas mornas, sempre aguerridas na mudança ... desde que tudo fique na mesma.

A ousadia das comerciantes daquela zona traz mais gente e, pela certa, mais negócio. É bom, e vital, que os comerciantes interiorizem, cada vez mais, que as pessoas se deslocam para onde se sentem bem.

E eu que, noutros tempos, fui um frequentador assíduo daquela zona, voltei a beber um "Camaroeiro" com um prazer imenso e, cheio de nostalgia e de actualidade, desci até à "Baía", sem provar as trouxas que, agora, me estão vedadas pela "polícia dos costumes".

A foto foi "roubada" à Gazeta das Caldas, que o meu jeito para fotógrafo é pouco ou nenhum.

sábado, 14 de setembro de 2024

domingo, 8 de setembro de 2024

Segurança

Não fugiram todos! Nem sequer meia dúzia!

Foram apenas cinco os condenados que, graças a uma escada bem grande, colocada por mão amiga na parte de dentro do muro de segurança de Vale de Judeus, se evadiram em "menos de um fósforo".

Ninguém deu por nada. As câmaras estavam distraídas e os guardas desligados, ou o contrário, mas isso é pouco relevante. As investigações já se iniciaram e vai ser instaurado um rigoroso inquérito ao acontecido. 

A seu tempo hão-de saber-se as razões que levaram ao acontecido. Até lá, confirma-se que só há dois tipos de problemas: aqueles que o tempo resolve e os outros, que nem o tempo consegue resolver.

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

Ultrapassagem

Cada vez me irritam mais os velhos (eu incluído) que, a coberto da dita experiência e do poder que detêm, querem continuar a opinar sobre o mundo e a manter um ascendente sobre os jovens, mesmo que esses já tenham quarenta ou cinquenta anos e saibam muito mais do que eles sobre o mundo actual.

Sendo certa a verdade do ditado "aprender até morrer", que serve para todos e principalmente para aqueles que, em teoria, mais perto estão dessa chegada, não é menos certo que qualquer passarinho, mal começa a voar, quer fazê-lo sozinho, correndo o risco de errar no rumo e procurando experienciar, a cada momento, o voo do Fernão Capelo Gaivota, ainda que o destino esteja invisível, atrás daquela nuvem que tudo tapa.

No início de vida, a educação e o saber são colheita na seara dos pais, da família, dos professores, dos amigos, da sociedade. É o criador a burilar a criatura, a adverti-la para alguns perigos basilares, a procurar despertá-la para as agruras. Depois, bem, depois é (ou devia ser) gratificante ver e sentir que a criatura ultrapassa o criador e voa sozinha, sempre atenta às aves que lhe possam tolher o voo.

Mas há velhos que, teimosamente, se acham o centro do mundo e continuam a pensar, e a agir, como se a juventude fosse mentecapta e a inteligência, o saber, a capacidade e a experiência, fossem um tesouro bem guardadinho na sua caixa de ... sapatos.

Bem dizia uma velha professora, que até me estreou com dois tabefes bem dados: "ora valha-lhes um burro aos coices e três aos pontapés". 

terça-feira, 3 de setembro de 2024

Férias

Segundo rezam as crónicas, escritas e faladas, as férias das gentes importantes já terminaram e o Verão, que alguns não sabem sequer se o verão, também está no fim. É hora de divulgar as fotos, com poses arrojadas ou de rastos, de desabafar o entusiasmo, de falar da beleza nunca vista, de desejar voltar em breve. Fizeram-se passeios de buggy, comezainas de excelência, noites de lazer e de não perder.

É uma pena Agosto só ter trinta e um dias, muito embora as noites também contem, e muito.

Em Setembro volta a piroseira do dia a dia, as filas no trânsito, as gentes apressadas que atravessam a avenida sem olhar, o viver em stress no meio da multidão que não respeita quem, de quando em vez, tem mesmo de se misturar com a plebe.

Ao contrário das férias e do Verão, as guerras continuam sem fim à vista, apesar dos "esforços" diários de muita gente. Para muitos milhares, o fim já aconteceu e os "esforços" foram inúteis.

Talvez tudo isto seja culpa da "urologia" da Madeira, referida pela titular do MAI a propósito do fogo que por lá andou muitos dias, ou ao pé que, para alguns comentadores de futebol, deixou de ser esquerdo e passou a ser canhoto.

domingo, 1 de setembro de 2024

Longe

Mais um ano e ainda mais longe. Lá nos confins da Europa e nas barbas da Ásia, o aniversário volta a ser passado sem os seus, apenas respaldado nos milagres da técnica, que permitem minimizar, não substituir.

É a vida, dizem uns; o que importa é estar bem, afirmam outros; passa depressa, alegam mais uns quantos. Pois ... digo eu!

Parabéns, meu filho.

terça-feira, 27 de agosto de 2024

Livros (lidos ou em vias disso)

(...)53. Das tripas coração

O meu Porto é feito de duas cidades: aquela em que cresci e a de hoje. Uma deu-me o que tenho, fez de mim o que sou, a outra dá-me o pão. Desde sempre, o Porto foi uma cidade-mãe; desde sempre, alimentou os que lhe pertenciam e os de fora, nunca virou a cara fosse a quem fosse. Esta nobreza ninguém lha tira. Explico sempre aos turistas que somos tripeiros com muito orgulho e que a denominação terá nascido por termos - e isto quem desconhece são tanto os lisboetas, como muitos portuenses - oferecido toda a carne que por cá havia para salvar ou ajudar Lisboa. Na capital, o infante D. Henrique engendrava há muito um plano secreto, cuja preparação entregou à cidade que o vira nascer, o Porto. Nos estaleiros, na zona de Massarelos, as águas do Douro viam erguer-se dezenas de naus e de outras embarcações. O povo intrigava-se com tamanho empreendimento naval e nem mesmo os trabalhadores conheciam o emprego a dar aos barcos. A boataria crescia: havia quem dissesse que serviriam para levar - com escolta nunca vista - el-rei D. João I  a Jerusalém, a fim de visitar o Santo Sepulcro; também se garantia que tinham como missão transportar a infanta D. Helena até Inglaterra, para casar; aventava-se de igual modo a hipótese de estarem a ser preparados para levarem os infantes D. Pedro e D. Henrique a Nápoles, também para fins matrimoniais. As estradas vindas de outras paragens e os caminhos que levavam até ao rio encontravam-se congestionados com carros transportando panos para velas, armas e mantimentos, numa azáfama nunca vista, mas só Mestre Vaz, o encarregado da construção, sabia do plano do infante D. Henrique. Esvaziaram-se celeiros, matou-se toda a espécie de animais, para depois se salgarem as carnes. O Porto e a região preparavam-se para, em 1415, tal como trinta anos antes, durante a guerra com Castela, que levou ao cerco de Lisboa, se sacrificar pela nação. Em 1384, em plena crise 1383-1385, uma armada alimentar, carregada das melhores carnes, foi enviada do Porto para Lisboa, para ajudar a resistir aos avanços castelhanos. As gentes do Norte, mas sobretudo os portuenses, ficaram somente com as vísceras. O mesmo terá acontecido em 1415, quando o infante D. Henrique, aparecendo de surpresa no Porto, a fim de visitar os estaleiros de Massarelos, e de ver o andamento dos trabalhos de construção naval, pediu ao mestre Vaz empenho redobrado, para terminar a empreitada. Diz-se que o Mestre Vaz não defraudou a confiança do infante: prometeu todo o empenho da cidade e, inclusivamente, que o Porto ofereceria toda a carne que possuísse, para a jornada, ficando somente com os miúdos. Em rigor, não se sabe se foi por promessa do Mestre Vaz, se porque as vísceras se estragariam facilmente a bordo, mas o Porto ficou, mais uma vez, apenas com as tripas - com as quais, com muito engenho, criou o seu prato mais típico - e demais miudezas. Em resultado deste novo sacrifício, os portuenses passaram a ser conhecidos como tripeiros. (...)

Morro da Pena Ventosa
Rui Couceiro
Porto Editora (2024)

sexta-feira, 23 de agosto de 2024

Palavras bonitas

Passam hoje 9 anos da partida do meu pai e cada vez é mais difícil dizer alguma coisa de substancial sobre isso.

Faltando a imaginação e a capacidade, nada melhor do que recorrer a quem sabe e parece ter feito o poema adequado.

POESIA

Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.

Vai, Carlos!
Carlos Drummond de Andrade
Tinta da China (2022)

quinta-feira, 15 de agosto de 2024

Distracção

A Foz faz, diariamente, prova inequívoca de que não é possível ter tudo nem agradar a todos: se há sol, vem o vento; se o vento não aparece, o sol ausenta-se; se o mar está calmo, não há temperatura que justifique sentir o frio nos artelhos; se o dia está fantástico, com um sol radioso, sem vento nem nuvens, então o banheiro coloca a bandeira do Benfica porque o mar não está para brincadeiras e pode haver chatices.

- Vamos à aberta!

E lá marcha a excursão, a caminho da piscina natural, de água salgada e sem ondas, mas com água renovada e bem limpinha, que a maré está a encher até quase à uma da tarde.

Pelo caminho, conversa-se sobre o discurso do Primeiro-Ministro Montenegro, gritado às massas no remanso de Quarteira, com o oceano, de poucas ondas, atento ao português utilizado de forma brilhante (ou será com brilhantina?).

Será-lhe difícil esquecer o dia de ontem, tal como os reformados mais débeis não olvidarão o prémio que será-lhe pago no próximo mês. Não será o erro que impedirá a portaria ...

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Palavras bonitas

 LUTA

Um contra o mundo, é pouco.
Mesmo que seja louco,
É muito pouco ainda.
Mas que pode fazer o homem que endoidece
E se esquece
De medir o poder do seu tamanho?
Ah, se houvesse um fotógrafo no céu
Que filmasse
Uma aventura assim, ridícula e perfeita!
D. Quixote sozinho
A combater as velas do moinho
Que mói, ronceiro, a última colheita.

Cântico do homem
Miguel Torga
Coimbra

Passam hoje 117 anos do nascimento do grande Miguel Torga. Sempre actual!

terça-feira, 6 de agosto de 2024

Aventuras

Acordo . Um barulho esquisito, difuso, longe, numa divisão que não consigo identificar à primeira. Estarei a sonhar? O sol ainda não nasceu e a claridade do dia mal perpassa pelas nesgas do estore. Toda a casa está em silêncio e no escuro. Apuro o ouvido. Alguma coisa bate em algo, de quando em vez

"Batem leve, levemente, como quem chama por mim ..."

Levanto-me e sigo a intuição. Não é chuva nem é gente e neve é visitante muito, muito raro nesta zona e nunca neste tempo. Acendo as luzes e o barulho acentua-se. Facilita a deslocação e a identificação do local donde provém. Pasmo! Há um pássaro na lareira, a lutar contra o vidro. Deve ser um aventureiro que tentou desvendar o mistério da escuridão do fumeiro. Veio até cá abaixo e, claro, já não conseguiu subir.

Abri a lareira. O pardal saiu de rompante, mal me dando tempo para o identificar. Procurou a luz, pousando no cimo dum móvel, aflito. Era um pardal-telhado, um charéu, um telhadeiro, adulto, daqueles que na minha infância terminavam, muitas vezes, no braseiro ou na frigideira. Amedrontado, perdido, decerto com o coraçãozito em velocidade supersónica.

"O pardal daninho aos campos / não aprendeu a cantar. Como os ratos e as doninhas, apenas sabe chiar." 

Apenas chiava, baixinho, na sua aflição em busca da saída. Encaminhado pela luz e pelas portas que se iam abrindo, lá chegou, finalmente, àquela que lhe deu acesso ao quintal e a um tronco da ginjeira, onde pousou, olhando, pareceu-me que agradecido.

O caminho para a liberdade não foi fácil. E alguma vez é?

terça-feira, 30 de julho de 2024

Livros (lidos ou em vias disso)

Agustina escreveu muito e bem. Dela já li muito e bom, mas não tudo nem nada que se pareça. "O Manto", escrito em 1961 e reeditado há meia dúzia de anos, era um dos que estava ausente. Calhou agora, para poder ser arrumado, ele que já estava saturado de saltar da secretária para a mesa de cabeceira, do carro para a cadeira da praia, sem cumprir a sua função de afago.

Uma vez mais, confirmei que a língua portuguesa, quando utilizada por quem sabe, não é bonita, é fantástica.

"(..-) À beira do rio Ave, à beira do rio Ave desembarcam as lavadeiras, com os seus lenços verdes, que cheiram a fumo de pinheiro, atados para a nuca. São mulheres prazenteiras, que riem, e cujas vozes enchem o ar e as margens de areia, onde o rodado dos carros de bois ficou profundo; nas ilhotas juntam-se as gaivotas brancas como pedras de um jogo, em fileiras cerradas e quietas; os sinceiros dobram-se sobre as águas, o vento parou um momento. Na colina que as primeiras chuvas hão-de reverdecer, Camilo toma banhos de sol; está quase nu, o corpo liso e de finos músculos repousa sobre uma toalha vermelha; ele tem ao lado alguns livros, e o vento parou um momento. Eis um homem solitário, com o seu quê de mitológico, e, com um pouco de esforço, podemos calcular as suas probabilidades de entrar na fábula um dia, com os seus cisnes no meio dos quais se deixa arrastar na corrente, com o seu moinho onde à noite pousam as corujas sopradoras. Mas o que faz o mito não pode ser nunca a excentricidade, mas sim o raro, o difícil e até o insociável que há na virtude humana. Este homem dorme como Pã sobre a relva - mas onde está a flauta que inspirou a cabriola e o amor lúdico? Os delgados caracóis caem-lhe na testa como as próprias madeixas de Apolo - mas onde está a tristeza da formosura que medita? Os deuses belos são deuses tristes. Este homem - acreditem-me -, quando despertar, há-de sacudir as formigas que sobem pelas suas pernas, e pensará no jantar; vive como um pobre, aproveita o calor do Verão para não gastar roupas, amealha obstinadamente, porque tem a sustentar mais do que uma descendência ou até um vício - talvez o medo. (...)"

O Manto
Agustina Bessa-Luís