terça-feira, 19 de novembro de 2019

José Mário Branco

Partiu hoje mais um ... a pouco e pouco, os que viveram, e lutaram, contra a noite que nos apagou as luzes, nos cortou horizontes, nos quis fazer crer que o destino estava traçado, que era assim ... ou assim, nos vão deixando.
Fica a homenagem, singela mas sentida, e o desejo de que os meus netos nunca deixem de ter a possibilidade e a liberdade de fazer o que lhes aprouver.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Centenário

Passam hoje 100 anos do nascimento de Sophia de Mello Breyer Andresen.
Sophia, que tem tido lugar neste espaço por tudo e por nada, deixou uma obra ímpar, da poesia ao conto, sintetizando a beleza da paisagem, da terra, do amor, da realidade, da liberdade, da vida.
Fui à estante, peguei num dos vários livros que lá estão, abri sem olhar e surgiu esta maravilha, idêntica à que estará na página anterior e semelhante à que encontraria na página seguinte.
Que bom é ler Sophia sempre e quando nos apetece.

AS FONTES

Um dia quebrarei todas as pontes
Que ligam o meu ser, vivo e total,
À agitação do mundo do irreal,
E calma subirei até às fontes.

Irei até às fontes onde mora
A plenitude, o límpido esplendor
Que me foi prometido em cada hora,
E na face incompleta do amor.

Irei beber a luz e o amanhecer,
Irei beber a voz dessa promessa
Que às vezes como um voo me atravessa,
E nela cumprirei todo o meu ser.

Sophia de Mello Breyner Andresen
Poesia (5ª edição)
Caminho

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Actualidade em verso

Sigo o Blog "Duas ou três coisas", do Embaixador Francisco Seixas da Costa, e hoje fui surpreendido com um soneto de Luís Filipe Castro Mendes, antigo Ministro da Cultura no governo de António Costa, adaptando um soneto de Camões que, nos meus tempos idos de estudante, era dado como exemplo da cacofonia.
Aqui fica o soneto de saudação à "morte" da geringonça, que não produz cacofonia e se "rouba" com a devida vénia. O outro, o antigo, já não precisa de vénia por estar no domínio público e fazer parte daqueles que ainda sei de cor.

Alma minha gentil que te partiste                                  Geringonça infiel que te partiste
tão cedo desta vida descontente,                                    tão cedo desta vida, de repente,
repousa lá no Céu eternamente,                                     faz reviver em nós o amor ardente
e viva eu cá na terra sempre triste.                                do fulgor que nos deste e a que fugiste.


Se lá no assento etéreo onde subiste,                             Se dos paços perdidos que correste
memória desta vida se consente,                                    os passos refizeres, novos, frementes,
não te esqueças daquele amor ardente                           não esqueças que a nós já não consentes
que já nos olhos meus tão puro viste.                             o calor da esp’rança que acendeste.

E se vires que pode merecer-te                                       E se achas que pode merecer-te
alguma cousa a dor que me ficou                                   alguma coisa o eco que ficou
da mágoa, sem remédio, de perder-te                            desta voz que pudemos of’recer-te,

roga a Deus, que teus anos encurtou,                             vê que tudo o que o teu brilho nos deixou
que tão cedo de cá me leve a ver-te,                               durará mais que o tempo de perder-te,
quão cedo de meus olhos te levou.                                  pois no nosso futuro já pousou.

Luís Vaz de Camões                                                                              Luís Filipe Castro Mendes
(Séc. XVI)                                                                                              (Séc. XXI)

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Eleições e abstenções

No passado domingo, como sempre fiz em todas as eleições desde que "a liberdade está a passar por aqui", cumpri o meu dever e exerci o meu direito de ir votar.
Pouco passava das onze da manhã e, no caminho, não me pareceu que o movimento fosse mais do que o habitual em situações idênticas nos últimos anos. 
Longe vai o tempo em que as ruas estavam cheias de gente ...
Chegado à escola do Bairro da Ponte, verifiquei que a minha mesa não estava, pela primeira vez, no primeiro andar e que, com ela, todas as outras tinham sido deslocadas para o rés-do-chão. Excelente medida, não por as escadas serem um obstáculo para mim (por enquanto) mas já o mesmo não poderão dizer muitos outros.
Lá me encaminhei para o novo local e confirmei: a fila era enorme. Pensei: talvez haja mais gente a votar, por ter sido sensível aos apelos, nomeadamente do Presidente da República. 
Quando já estava com o local da votação no horizonte, pareceu-me que a descarga nos cadernos demorava mais do que o habitual. Confirmei quando chegou a minha vez: tive tempo para verificar que havia  apenas três eleitores com o primeiro nome igual ao meu mas, mesmo assim, a "descoberta" do meu demorou uma "eternidade". Se era assim com um nome "invulgar", o que seria com os "Zés" e as "Marias".
No final da votação confirmou-se que a abstenção permanece muito elevada e que as filas não resultavam de maior número de pessoas a votar. A dificuldade está na prática do alfabeto ...

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Livros lidos (ou em vias disso)

Ninguém escreve como António Lobo Antunes!
E, para quem gosta, é um prazer enorme ter mais um livro para saborear. Editado este mês, chegou à Casa na passada terça-feira e já leva umas boas dezenas de páginas lidas.
A beleza da forma como Lobo Antunes descreve uma paisagem, uma personalidade, um acto, é deliciosa e única.

(...) não assim, ao contrário, Larouco primeiro Falperra depois, por favor não me troquem a ordem das recordações na prateleira da memória que depois me vejo grego para alinhá-las como deve ser, qual o sítio do meu pai, qual o sítio do sarampo que me dão ideia de faltarem, mesmo antes da primeira pequena com quem estive o incisivo quebrado por uma diferença de opinião aos dezasseis anos, a amiga do general de ligas pretas e anéis a brilharem pertíssimo de mim quando me prendeu o queixo
      - Maroto
      comigo a segurar-me sabe Deus com que dificuldade, no caso da minha mulher demoro séculos a pegar fogo, com a amiga do general nem risquei o fósforo e já ardo que é uma beleza, estávamos nesta vidinha quando principiaram as maçadas na Baixa do Cassange, os pretos e os plantadores de algodão às turras e desafios e ameaças e pontes destruídas e sanzalas desertas e os armazéns em chamas e os brancos a amontoarem-se em Malanje, a seguir à serra da Falperra a serra do Gerês, o professor
      - E depois e depois?
       eu vazio a folhear a memória enquanto a trégua crescia (...)

António Lobo Antunes
A outra margem do mar
Dom Quixote (Set. 2019)

domingo, 22 de setembro de 2019

Música

Hoje apeteceu-me colocar aqui esta maravilha, feita por um ENORME que, já septuagenário, mantém viva a chama que me acompanha desde que "a banda passou", em 1966.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Palavras bonitas

 Já passam hoje 4 anos da partida do meu pai e ainda parece que foi ontem.

VOZ

Era uma voz que doía, 
Mas ensinava.
Descobria,
Mal o seu timbre se ouvia
No silêncio que escutava.

Paraísos, não havia.
Purgatórios, não mostrava.
Limbos, sim, é que dizia
Que os sentia,
Pesados de covardia,
Lá na terra onde morava.

E morava neste mundo
Aquela voz.
Morava mesmo no fundo
Dum poço dentro de nós.

Libertação
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1978)

sábado, 20 de julho de 2019

Netos

Esta semana foi mais pródiga em visita de netos, que por cá passaram mais algum tempo do que é normal, com direito a almoço e tudo.
Num dos dias, à chegada, cumprimentei:

- Olh'ós meus netos!
Com o ar malandro que o caracteriza e a ironia costumeira, recebi o troco:

- My name is Vasco.

Faz hoje 8 anos e por isso, happy birthday for him.

terça-feira, 16 de julho de 2019

Pôr do Sol

Há finais de dia em que o Sol tem aquela cor indefinível, muito bela, que nos obriga a prestar atenção e a tecer elogios com todo o vocabulário que sabemos e se adequa à situação.
- É um vermelho maravilhoso! Ou será amarelo torrado, doirado, mistura de todo o arco-íris, castanho-avermelhado, cor de mel com laivos de framboesa, lindo!
A incapacidade para a definição matemática da cor que o Sol apresenta trouxe-me à memória uma história que não recordo se foi lida, ouvida ou contada. 
Aclarou-se-me a memória: era uma história que meu pai contava, à laia de adivinha ...
A gaveta memorialística, por vezes e sem razão aparente, abre-se  e deita cá para fora algo que, se o nosso cérebro funcionasse como uma máquina insensível, nem à porta assomaria.

"Era uma vez um rei com uma grande barriguinha ..."
Nada disso. O rei era um homem de grande porte, elegante, venerado e considerado pelos seus súbditos, que não se cansavam de elogiar o seu carácter e a sua inteligência.
Acontece que o rei apenas tinha uma filha, o que não agradava à corte, que preferia um varão que assegurasse a sucessão com clareza e sem intervenções terceiras.
A princesa era de uma beleza ímpar (como são todas as princesas) e todos os nobres, novos e velhos, ambicionavam com ela casar. Todavia, os seus olhos de esmeralda não se fixavam na nobreza, antes se perdiam na vastidão da corte.
Nas suas deambulações, a princesa percorria todas as terras e contactava com toda a gente do reino e, consequência inevitável, os amores surgiram e chegaram aos ouvidos da preocupada rainha, que já se apercebera do alheamento que a princesa devotava à vida na corte.
Confrontada pela mãe, a princesa confirmou que só tinha olhos para um plebeu, de seu nome Afonso, que descreveu como belo, meigo, inteligente, terno e bonito, e que só a ele uniria o seu destino.
A rainha pensou, pensou, e resolveu aproveitar um momento mais íntimo para partilhar as suas preocupações com o rei e pedir-lhe que recebesse o plebeu e desse o seu consentimento ao noivado.
- Está bem, fidelíssima rainha. Mas só com três condições cumpridas, que me permitirão medir a inteligência desse tal Afonso e aquilatar se tem condições para integrar a casa real. Ele que se apresente amanhã no castelo mas:

      - Nem de noite nem de dia;
      - Nem a pé nem a cavalo;
      - Nem nu nem vestido.

A rainha ficou em pânico por não conseguir imaginar como poderia Afonso cumprir as ordens do rei. Apesar disso, chamou a aia de confiança e ordenou-lhe que transmitisse ao pretendente as exigências do rei.

No dia seguinte, Afonso apresentou-se na corte após o Sol ter desaparecido no horizonte mas antes de a noite ter caído; vinha com um pé num estribo do cavalo e o outro mancando pela estrada de acesso ao castelo; trazia uma rede que lhe cobria todo o corpo, sem uma única peça de vestuário.

Moral da história: não há problema sem solução!

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Netos

O neto Duarte faz hoje 7 anos, já anda na escola a sério, já faz testes de matemática e estudo do meio e lê muito bem!

- Ó vô, quantas páginas tem esse livro?
- Vê o número da última e ficas a saber.
- 468! São muitas! Não sou capaz de ler isso tudo, demora muito tempo.
- Vais ler qualquer dia.

Será?

domingo, 26 de maio de 2019

Futuro

" ... e livres habitamos a substância do tempo."


Nesta semana, a "substância do tempo" trouxe-me mais três razões para que eu sinta sempre saudades do futuro e nunca mais do que recordações de um passado que é bom de lembrar para não ser esquecido. Vamos a elas, às razões que me levam a hoje, em dia de eleições para a Europa e depois de cumprido o meu direito / dever, vir por aqui deixar umas notas tão agradáveis quanto garantias de que as novas gerações trarão e terão um mundo melhor, mais solidário, mais amigo e, quero eu, mais justo.

Primeira: Na sexta-feira, logo pela manhã, os netos mais novos - Duarte e Miguel - brindaram-me com um vídeo contendo uma lição de reciclagem, que evidencia preocupação e saber, e me dá a convicção que, talvez já na geração deles, se deixe de cuspir para o chão;
Segunda: Na tarde do mesmo dia fui convidado para a festa dos avós, promovida pela escola do Vasco e assisti a uma peça teatral na qual o meu neto fazia de mim, que digo eu, fazia de avô e dizia para a avó, a propósito do queixume desta sobre as suas rugas:
- ... Não digas isso! A tua pele é como uma noz maravilhosa! ...
Terceira: Ontem, o neto mais velho colocou a cereja em cima do bolo: ele e um colega fizeram um trabalho sobre o 16 de Março de 1974 que me encheu de orgulho e me mostrou como a nova geração tem capacidades infinitamente maiores do que as dos velhos do Restelo que ainda dizem "no meu tempo".

O Gil e o colega ainda não têm 13 anos e fizeram isto:




quarta-feira, 8 de maio de 2019

Dia da Mãe

Hoje é (era) o Dia da minha mãe. 
Faria 96 anos, se ainda por cá estivesse,

CANTO ROUCO

Antes que perca a memória
das pedras do adro,
antes do corpo ser
um sopro e quebrado
ramo sem água,
devolvei-me o canto
rouco
e desamparado
do harmónio da noite.

Mãe!,
desamparado na noite.

Eugénio de Andrade
Poesia
Fundação Eugénio de Andrade (2000)

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Coisas de velho ...

Já estou sentado a aguardar o início do espectáculo. A senhora, vistosa, chega acompanhada pelo puto, que parece ser seu filho e ter doze, treze anos. Tem cabelos loiros, bonitos, com a raiz pintada de castanho (ou será o contrário?). O puto traz uns auscultadores, enormes, nas orelhas, e um telemóvel na mão. De vez em quando liberta uma das orelhas e ouve o que a mãe diz. Volta a colocar o auscultador no lugar e não retira os olhos do telemóvel, que exibe o que me parece ser um combate de boxe.
A minha ignorância garantia que aqueles afazeres terminariam quando começasse o espectáculo, afinal a razão única que tinha levado à sala as pessoas que enchiam por completo a plateia. 
Ilusão minha! O puto permanecia deliciado a ver o boxe, auscultadores nas orelhas e um desprezo olímpico por tudo quanto se passava à sua volta.
O espectáculo terminou, o público aplaudiu de pé e o puto, continuou, sereno, sentado na cadeira que lhe coubera em sorte cerca de duas horas antes.
Quando os aplausos cessaram e o público começou a abandonar a sala, a mãe pegou-lhe na mão e fez-lhe sinal que eram horas de partir.
E lá foram ambos, ela com os cabelos loiros de raiz castanha, ele de auscultadores vermelhos unidos por uma correia preta, de telefone na mão e concentrado em absoluto no combate de boxe.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

25 de Abril

REVOLUÇÃO

Como casa limpa
Como chão varrido
Como porta aberta

Como puro início
Como tempo novo
Sem mancha nem vício

Como a voz do mar
Interior de um povo

Como página em branco
Onde o poema emerge

Como arquitectura
Do homem que ergue
Sua habitação

27 de Abril de 1974

Sophia de Mello Breyer Andresen
O Nome das Coisas
Editorial Caminho

terça-feira, 23 de abril de 2019

Dia Mundial do Livro

Hoje celebra-se o Dia Mundial do Livro. 
Quem puder vá à manifestação referida aqui, mas sobretudo leiam, não pelo dia em si mas porque faz bem à saúde, e dizem até que mantém a linha.
Pelo sim, pelo não, eu continuo a ler, cada vez com mais prazer e com a certeza de que o tempo não me chegará para ler tudo quanto gostaria.
Hoje terminarei o último de Mário de Carvalho - O que eu ouvi na barrica dos maçãs - e tem sido uma delícia ler (nalguns casos, reler) crónicas cheias de humor e de actualidade.

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Carnaval em Torres Vedras

Ao Presidente da Câmara Municipal da capital do Carnaval - Torres Vedras - foi retirado o doutoramento, por a Universidade que o tinha outorgado ter confirmado que a respectiva tese continha várias dezenas de plágios.
E o homem não se demitiu! 
Sendo legítimo concluir que os cidadãos torreenses o terão eleito com base nas suas ideias,  não será difícil especular que estas também poderão ter sido plagiadas.
Viva o Carnaval, sem populismos ou demagogias, e apenas a pedir algum decoro. 
Que diabo, todos temos direito a alguns devaneios, mas há limites ...
  

domingo, 21 de abril de 2019

Dia Mundial do Livro

Na próxima terça-feira celebra-se o Dia Mundial do Livro!
Não posso estar na manifestação, mas serei solidário, lendo, diariamente, como faço há mais de 50 anos. Parabéns aos promotores da iniciativa, sempre importante para se valorizar o livro.


sexta-feira, 19 de abril de 2019

Quotidiano

Hoje plantei uma árvore!
Num sítio público, onde muitas vezes brinquei quando não havia calçada e se jogava ao berlinde e ao pião, para além da bola de meia e da bilharda.
Com o calcetamento da zona, foi criado um espaço, redondo, regado, que recebeu uma bem bonita magnólia, que por ali deu flores lindas durante algum tempo.
Uma festa de "comes e bebes" queimou as folhas e as flores da bonita planta e sentenciou-lhe a morte, há já uns bons anos. O espaço por lá permanecia sem ocupação ...
Hoje transpirei para retirar a raiz da magnólia, bem enterrada e bem grande e, no seu lugar, plantei um limoeiro que, espero, consiga viver o tempo suficiente para dar limões a quem deles gostar e não os tenha em sua casa.
Importante: obtive a autorização, verbal, de quem superintende no espaço público e suei com os exercícios ditados pela enxada.
Coisas de velhos ... 

quarta-feira, 27 de março de 2019

Livros lidos (ou em vias disso)

O meu amigo ADS, preocupado com a hipótese de eu ter poucos (?) livros para ler, resolveu enviar-me 2, de José Rodrigues Miguéis, para que eu me deleitasse com a escrita de um homem nascido no início do século XX (1901). 
"Léah e outras histórias" é um deles, o outro é o romance "A escola do paraíso". Comecei pelo primeiro, porque é sempre pelo primeiro que se começa, seja ele qual for. Já não consigo precisar se tinha apenas a ideia do título ou se, em tempos idos, o teria chegado a ler. Dúvidas que a memória, cada vez mais diluída, vai deixando em aberto como que esburacando a parede que até parecia ter reboco de boa qualidade. Gaba-te cesto ...
Deixemo-nos de metáforas e vamos ao que interessa: a história da francesa Léah (que dá nome ao livro) é divertida, bem contada e com pormenores deliciosos; contudo, "Uma viagem na nossa terra" é, para mim, ainda mais conseguida e retrata o que éramos nos anos 50/60 do século passado (o livro foi editado pela primeira vez em 1958) mas, por estranho que possa parecer, o retrato está cheio de actualidade, apenas diferindo nos meios de transporte e nas vias de comunicação. O comportamento das personagens mantém-se intacto ...
(...)
Quando saí para ir enfim dormir, ainda ela me gritou do quarto andar, pelo caracol da escada: "Então sem falta, Artur! Esteja cá em sendo um quarto para as sete! Olhe que a gente não espera!" E eu, descendo nos bicos dos pés, agarrado cá em baixo ao corrimão, num sopro, num silvo, com este meu horror burguês de incomodar os vizinhos que dormem: "Sch, sch! Já sei, já sei ... Vão para dentro. Boa noite!" E comigo:"Não esperam? Mas que desfaçatez!" A porta dos Fonsecas bateu, abalando o prédio até aos alicerces. (...)
"Ora que necessidade tenho eu", pensei, "de ir agora para o Porto, para Paredes ou lá o que é, não me dirão? Com um sossego destes aqui!" (...)
Mas ainda é cedo, seis horas, tenho tempo. É só saltar da cama abaixo, enfiar os chinelos, correr à banheira e zás. Dez minutos para a barba, enquanto no fogão chia a água para o café - meia hora, três quartos de hora, e estou pronto. (...)
Aconcheguei-me melhor nos lençóis (...) "Diacho, dez para as sete! Caramba! então não tornei eu a adormecer? Já estava a sonhar que ia pela escada abaixo de chapéu na cabeça!" (...)

E a vontade de transcrever é enorme ... mas fico por aqui. A viagem, que estava prevista terminar no 
Porto ou melhor, em Paredes, com o jantar em casa dos amigos anfitriões, começou cerca das dez e meia da manhã, apesar dos avisos de que se não esperaria por ninguém.

(...) Já tínhamos engolido Óbidos e trespassado as Caldas, e o Fonseca, sem consultar ninguém, resolveu que fôssemos almoçar em Alcobaça. (...)
Chegámos pela meia tarde à quintarola de Paredes, depois de termos andado às apalpadelas por aqueles caminhos que o Fonseca conhecia "de olhos fechados". (...) Esfomeados, empoeirados e sinistros, abancámos para devorar os restos lautos do jantar da véspera, contando todos ao mesmo tempo os pormenores e as maravilhas da excursão: "Nem um pneu rebentado! Nem um desvio!! Tínhamos vindo pelo nosso vagar, explicou o Fonseca, pela fresca, parando, gozando, admirando "esta nossa paisagem tão linda, e tão mal empregada, este nosso Portugal que não tem nada que se lhe compare lá fora!". Enfim, cá estávamos. Só então apareceu uma garota descalça e com olhos de fome, trazendo o telegrama expedido na véspera à noite do Porto, e de que nos tínhamos esquecido completamente.
A redacção era do mano Arnaldo:

                             Retidos Porto desarranjo motor
                             passamos noite hotel arrasados via-
                             gem chegamos amanhã hora almoço
                             sendo possível.

José Rodrigues Miguéis
Léah e outras histórias
Editorial Estampa (6ª Edição) 

terça-feira, 19 de março de 2019

Dia do Pai

Dia do Pai.
O meu, se ainda por cá estivesse, faria hoje 97 anos.

CLARO - ESCURO 

Dia da vida,
Noite da morte ...
O verso
E o reverso
Da medalha.
E não há desespero que nos valha,
Nem crença,
Nem descrença,
Nem filosofia.
Esta brutalidade, e nada mais:
Sol e sombra - o binómio dos mortais.
Só que o sol vem primeiro,
E a sombra depois ...
E à luz do sol é tudo o que sabemos:
Juventude,
Beleza,
Poesia,
E amor
- Amargo fruto que na sepultura,
Em vez de apodrecer, ganha doçura

Miguel Torga
Orfeu Rebelde
Coimbra Editora (1992)

sábado, 16 de março de 2019

16 de Março

Há 45 anos, um jovem militar de 21 anos (faria 22 no dia 25 de Abril de 1974) veio passar o fim de semana a casa e estava dormindo descansado, esperando que a tranquilidade da manhã só fosse interrompida lá pela hora de almoço, quando minha mãe achasse que já chegava. Porém, ainda não eram 10 da "madrugada" e a porta do quarto abriu-se:

     - Há qualquer coisa no quartel!

Saltei da cama. Afinal o quartel tinha sido meu no ano anterior (Abril a Junho/1973), enquanto instruendo da 4ª. Companhia comandada pelo (então) Tenente Virgílio Canísio Vieira da Luz Varela. Nessa altura já se vislumbrava a contestação que viria a culminar na revolução de Abril. Servi de dactilógrafo ao meu Comandante de Companhia para uns artigos que se destinavam à revista Observador dirigida, se bem me lembro, por Artur Anselmo, e que procuravam refutar os "escritos" que o General Sá Viana Rebelo, antigo Ministro do Exército, por lá publicava. Durante a estadia no RI5, entrei à civil em várias manhãs de sábado, sentei-me à máquina de escrever (Messa?) da secretaria da Companhia e dactilografei o que me ia sendo ditado, com uma pronúncia madeirense bem acentuada e, de quando em vez:

     - Despacha-te "mecerico", que não temos o dia todo!

Voltando ao meu 16 de Março: depois de várias tentativas, pelo Moinho Saloio e pelo Avenal, consegui chegar quase à frente do quartel, ainda a tempo de ouvir a voz de "cana rachada" do Brigadeiro Pedro Serrano, do alto da sua pequena estatura, a pedir ao gritos a rendição.
(...)
     - Abra o portão, em nome da autoridade!
     - Autoridade talvez tenha, mas na nossa terra a autoridade está muito mal constituída!
     - Tem um quarto de hora para abrir o portão, sob pena de haver sangue!
     - Não é o senhor que me leva a abrir o portão. Só recebemos ordens do nosso general Spínola!
(...)
O Movimento dos Capitães e o 25 de Abril
Avelino Rodrigues, Cesário Borga e Mário Cardoso
Moraes Editores (Novembro, 1974)

No final do dia e durante a noite, todos os graduados envolvidos foram levados para presídios militares.
As notícias que deram conta (?) ao país do acontecido ficaram para a história e podem ser vistas aqui e aqui.

sexta-feira, 15 de março de 2019

Quotidiano

As notícias trazem-nos a morte de quarenta e nove pessoas, assassinadas em dois templos da Nova Zelândia.
Referem "um caso de violência gratuita" e a minha ignorância interroga-se: Gratuita? Caríssima, de valor incalculável, sem preço e sem nada que a possa desculpar. Um bandalho pega numa arma, liquida quase meia centena de seres humanos, filma-se e filma o seu crime, e "justifica-se" com a "supremacia branca" de tão má memória.
Como se alguma supremacia, se existisse, pudesse branquear crimes contra qualquer cidadão do mundo!

sábado, 2 de março de 2019

Mãe

Já lá vão 15 anos e parece que foi ontem ...

DIA DE HOJE

Ó dia de hoje, ó dia de horas claras
Florindo nas ondas, cantando nas florestas,
No teu ar brilham transparentes festas
E o fantasma das maravilhas raras
Visita, uma por uma, as tuas horas
Em que há por vezes súbitas demoras
Plenas como as pausas dum verso.

Ó dia de hoje, ó dia de horas leves
Bailando na doçura
E na amargura
De serem perfeitas e de serem breves.

Sophia de Mello Breyer Andresen
Dia do Mar
Caminho

sexta-feira, 1 de março de 2019

Palavras bonitas

A NECESSÁRIA COMPLEXIDADE DA SEMENTE

Este mar que nos divide
constrói-se no pensamento
que tudo sabe mas finge
ser a paisagem que ignora
num porto que não atinge.

Unir o mar que divide
só com desentendimento:
almas opostas que ponho
na causa duma harmonia
se tem de nascer o sonho
para ter de haver poesia
e o que no sonho anuncia
muito mais do que nomeio.
A natureza a transpor-se
com dor sentida no meio.

Natália Correia
O sol nas nas noites e o luar nos dias
Círculo de Leitores (1993)

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Netos

O meu "homem" mais novo faz hoje 3 anos!
Dotado de uma forte personalidade (teimoso é o avô) tem, em simultâneo, um "mel" na voz e nas atitudes que encanta qualquer um, mesmo o mais insensível. Adora carros, sabe as marcas todas, questiona para que servem botões e comandos, senta-se ao colo, "conduz" a saída da garagem e sorri, matreiro, quando lhe digo que tem de acabar.
E, logo a seguir, ei-lo que sobe as escadas, corre lesto ao quarto, e pega no carro que, esse sim, domina sem dificuldade e conduz por toda a casa. 
O meu Miguel regista, para que se saiba: "tês anos e não tenho falda nem chucha!"

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Balanço 2018

A tradição é, nesta altura, um tema dúbio, que promove discórdia e é tratado consoante os interesses de quem mais procura protagonismo, populismo ou parvoíce. 
Uns, como os "Bolsonaros" brasileiros, clamam que "menino veste azul e menina cor-de-rosa; outros pretendem que "atirei o pau ao gato ou matar dois coelhos com uma cajadada" são adágios que vão contra o respeito devido aos animais; outros, felizmente poucos, acham que o Botas devia voltar, para gáudio de alguns marialvas que por aí ainda pululam. Tradições ...
Por aqui, a tradição mantém-se no balanço dos livros lidos no ano anterior, para que os "meus homens", já todos falantes mas ainda nem todos leitores, possam amanhã ver quais foram os livros que o avô foi lendo enquanto eles cresciam.




quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Livros (lidos ou em vias disso)

"Quanto mais sei, maior é a minha ignorância" foi uma frase que fixei na década de setenta do século  passado (estranho) e me acompanha desde essa altura. Foi-me transmitida por um Professor (assim mesmo, com letra grande) do ISCAL chamado Dragomir Knapic, refugiado da (nessa altura) Jugoslávia e que leccionava Geografia Geral e Económica. Lembro-me dela amiúde e procuro que me desafie sempre. Correndo o risco de ser o "chato de serviço" ilustrei-a para os meus filhos em tempos idos e, mais recentemente, para o meu neto grande. Espero conseguir ainda transmiti-la aos outros três.

Vem isto a propósito de um livro que estou a acabar de ler: numa das suas crónicas do Expresso, Miguel Sousa Tavares referia, "en passant", que Milton Hatoum era um dos grandes escritores brasileiros da actualidade e que Dois Irmãos era um romance genial. Desconhecia o autor e, naturalmente, também o livro. Nestas alturas, a minha impaciência e o meu gosto por livros não me deixam hesitar e pronto, mandei vir ... está quase no fim e é, sem dúvida, um livro "enorme" que não chega às trezentas páginas, escrito em português "do Brasil" sem acordo ortográfico!

" (...) A cada mês, na noite de um sábado, a casa de Estelita virava um cassino, explodia de tanta luz, só eles na rua tinham gerador. Os vizinhos não eram convidados a entrar no palacete iluminado, ficavam na janela, intocados na escuridão, admirando aquele chafariz de lâmpadas, tentando adivinhar quem eram os convidados. Naquelas noites, Estelita tinha a audácia de pedir a Zana baldes cheios de gelo. Certa vez pediu um rolo de gaze. Fui levar o gelo e a gaze, e fiquei curioso de saber quem estava ferido no palácio dos Reinoso. Antes de voltar, dei uma espiadela na sala onde iam jantar antes da jogatina. O rolo de gaze havia se transformado em trouxinhas que os convidados usavam para espremer o limão sobre o peixe. Contei a cena a Halim. "São finíssimos, pertencem à nossa aristocracia", disse ele, "por isso adoram aqueles macacos enjaulados no quintal." Um dia encasquetei: me recusei a ser mensageiro dos Reinoso. Minha mãe não tinha coragem de dizer a Zana que eu não era um empregado dos outros. Eu mesmo disse, exagerando um pouco, contando que Estelita atrapalhava a minha vida, que eu não tinha tempo para trabalhar em casa. Halim concordou comigo. E muitos anos depois, quando Zana expulsou brutalmente Estelita de casa, dei umas gargalhadas na cara daquela megera.(...)"

Dois irmãos
Milton Hatoum
Companhia das Letras (2017)

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Palavras bonitas

TRAJECTO NA ESCRITA

Vou entrançando
o traçado
do meu trajecto na escrita

Consulto os mapas da alma
o júbilo, a assombração
do coração a desdita

os atlas da insubmissão
as cartas dos oceanos
os versos, a alegoria

Vou navegando à bolina
por entre ventos contrários
e ondas enraivecidas

com a bússola da transgressão
os astrolábios dos dias
e as palavras da poesia

Vou atando e desatando
o destino e a desdita
misturando os nós dos mares

com o anelo da paixão
o alvoroço da vida
as dúvidas da harmonia

e a minha melancolia

Maria Teresa Horta
Estranhezas
D. Quixote - 2018


sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Teatro A Barraca

E já estamos a chegar ao mês do Natal, o que significa mais um ano a finar-se e outro a nascer, cheio de votos de que "se não for melhor, seja pelo menos igual".
O tempo corre a uma velocidade estonteante, qual carro de Fórmula Um e, com esta velocidade, nem há tempo para escrever meia dúzia de linhas por aqui.
Um mês sem nada, francamente ...
Para memória futura, fica o registo de mais uma ida ao teatro, ver a peça que está em cena n'A Barraca - À volta o mar, no meio o inferno. E, como é normal, foi mais uma noite de grande Teatro, com a particularidade de o espectáculo ter o seu início às, pouco habituais, 19H00. Nunca me tinha acontecido ir ao teatro a esta hora. No final, Maria do Céu Guerra (que me tinha atendido o telefone para a reserva) explicou aos presentes que a alteração do horário era uma experiência, por terem recebido sugestões nesse sentido e por lhes parecer que, no Inverno, talvez trouxesse mais gente. 
Não estavam muitos espectadores. O espectáculo, todo ele, do texto aos actores, vale a pena e merece ser visto. A Barraca ainda não é um oásis, mas quase ...
Ainda por cima, cheguei a casa pouco passava das 23H00, depois de duas horas e meia de bom teatro.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Livros (lidos ou em vias disso)

Depois do crime o remorso a pesar, o pensamento sem sossego, as noites sem sono, os dias, as coisas, as pessoas, as memórias, a vida ... de quem se dedica a cobranças difíceis e, nos intervalos, joga bilhar.

(...) Precisava de concentrar-me antes de começar a partida mas a cabeça fugia-me sempre para o homem, o doutor, o ervanário e os outros, a moer tudo aquilo que se tem passado nos últimos tempos enquanto um pedaço de cesto, meio submerso, se afastava de mim rio abaixo, detendo-se por vezes a observar-me sobre a asa de plástico, igualzinho a essas pessoas, já distantes, que de repente nos olham por cima do ombro antes de desaparecerem de vez comigo a pensar
     - Conheço-te?
     porque com o meu tipo de trabalho temos de ser atentos, nunca se sabe de onde vem uma ameaça, um problema, não há maneira dos outros compreenderem que apenas faço o que me compete, também necessito de comer, interessa-me lá a vidinha deles e como se trata de um encargo somente até podíamos, palavra de honra, ficar amigos depois, de quando em quando, por exemplo, aparecem-me inclusive caras com as quais simpatizo mas que me vejo obrigado a amarrotar um bocadinho, com elas já de gatas, até conseguir o dinheiro e gostava que percebessem que o sofrimento alheio não me dá prazer, resolvida a questão deixo-os na paz do Senhor, numa ou duas ocasiões ajudei-os a levantarem-se e cheguei a indicar onde fica a farmácia mais próxima onde além de tratar os dói dóis podem verificar na balança de cursor
     (são giros os cursores)
     se o peso aumentou ou tirar as medidas ao colesterol evitando tromboses, se calhar, vai na volta, salvei vidas e portanto até não foi mau de todo conhecerem-me, no que diz respeito a gratidão, não haja infelizmente muitas pessoas que a sintam e é pena, (...)

A última porta antes da noite
António Lobo Antunes
D. Quixote (2018)

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Livros (lidos ou em vias disso)

Apesar do grande poder que a vida lhe ofertou (ou ele tomou), de ter sempre uma multidão a seus pés, de lhe bastar um mero olhar para ser obedecido e venerado, o presidente morreu e, em vez do funeral de estado que se preparava, vai ser escondido na lixeira. Apesar de bem morto e bem pregado no caixão, ele ainda filosofa:

(...) Vão me enterrar numa lixeira. Um presidente soterrado por lixo, deve ser uma metáfora que não entendo, com as faculdades já diminuídas.

Mas adivinho as piadas a surgir se me descobrirem o caixão aqui no meio da merda. O que pode acontecer por causa do desespero. Ninguém sabe quanto cava uma pessoa quase morta de fome e que espera encontrar qualquer coisa para comer, mesmo podre, ou para vender, mesmo estragada. Algum jornal satírico põe logo em título: <>, o que deve ter mesmo piada, porque não estou propriamente enterrado, mas sim, enlixado mesmo. E bem lixado. Talvez não tenha sido a melhor ideia dos meus familiares e amigos, mas até compreendo, a rapidez da manobra não permitia olhar ao sítio, este era o melhor entre os próximos. Ou o menos mau. Como se tivessem a intenção de me impedirem de pensar com os meus botões de punho em ouro puro, atiraram mais entulho para cima, o qual foi abafando todo o som do mundo vivo e do inerte, se este tem alguma voz.

O manto do silêncio me cobria finalmente. (...)

Sua Excelência, de corpo presente
Pepetela
D. Quixote (2018)

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Peixeiro

Era M. da Nazaré, revelando o apelido a origem da vila piscatória a que voltava, duas, três vezes por semana, sempre que lhe "cheirava" haver peixe. Utilizava o burro para fazer cerca de trinta quilómetros e trazia a mercadoria nos dois alforges que o asinino carregava, para além do peso do dono. O peixe era adquirido vá lá saber-se como porque, na altura, não havia lota nem ASAE.
Chegado ao poiso, enchia duas canastras ligadas por um pau grosso, que lhe permitia carregá-las ao ombro, sem grande esforço aparente. O peixe maiorzinho - chicharro, carapau, talvez um goraz - ficava na canastra da frente; a da traseira era cheia com as petingas, os carapaus do gato, as cavalas, algumas sardas. 
E. a pé, lá corria ele toda a aldeia, bem cedo, anunciando a sua presença com o roncar de um búzio, enorme, que se ouvia bem longe. Vendido o peixe, era tempo de desfrutar dos lucros. Arrumado o "veículo", a corrida para a taberna era imediata, que os cobres ganhos já pesavam na algibeira e chegavam para a bebedeira que começava à hora a que havia de almoçar e se prolongava até àquela a que devia jantar.
A companheira aguardava-o na soleira da casa (barraco) e, à distância, avaliava se havia condições para ali permanecer ou era melhor arranjar onde passar a noite, para que a tempestade de estalo e pontapé não lhe fizesse mais negras do que as que trazia sempre. 
Os vizinhos, mais afoitos, questionavam de vez em quando:

- Você, quando está são, até nem é má pessoa, mas bêbado ... até a desgraçada da mulher tem de fugir para não comer pela medida grossa.

- Desgraçada?! Tem sorte em estar comigo. Não presta para nada ... até lhe faltam bocados.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Crónica de uma morte anunciada

Provecto sexagenário, o poste tem os seus dias contados desde Julho. No início, teve alguma amargura com a notícia, por não se ter preparado com o devido tempo, como convém a quem vai contando os anos sabendo que a eternidade é apenas uma miragem.
Custa, sabemos que custa, chegar ao fim quando ainda damos luz, iluminamos, criamos sombras, mas ... chegou a altura de ser substituído por um outro, melhor colocado e, sobretudo, posto em lugar público porque a este se destina o serviço prestado.
O poste concluiu, assim, que o melhor era sair, tendo consciência que a sua hora chegara! E aguarda, serenamente, que os "gatos pingados" lhe prestem as devidas homenagens de forma digna, sem presunções nem discursos, mas condizentes com a luz que a todos deu, de forma desinteressada e sem olhar a estatuto, credo, cor ou género, como agora soe dizer-se. Mesmo nos anos do breu, procurou aclarar sempre as vistas a quem o visitava ou por ali viajava.
Eis senão quando se verifica que o A não o pode retirar sem o B; o B necessita de autorização do C, que está em reunião; o D garante que esta semana é que é e o E, que conhece o problema e já esteve no local, tem vontade de o resolver mas aguarda a decisão sobre a requalificação (bonita palavra) do local.
E o poste, periclitante, pensa um pouco e desabafa:

- Porque não caio eu do pedestal, já tão reduzido, sem intervenção destas mentes brilhantes?

Não, responde o bom senso. Vamos aguardar que a solução não tarda! É só uma questão de tempo!

sábado, 6 de outubro de 2018

Livros (lidos ou em vias disso)

Ler, dizia-se hoje em Óbidos, é uma actividade que exige um trabalho enorme do nosso cérebro. Esse trabalho é, na maioria das vezes, completamente inglório, por não se conseguir opinião igual nos leitores e, muito menos, que ela seja coincidente com a do respectivo autor. E, lugar comum, o mesmo livro provoca reacção diferente na mesma pessoa se lido (relido) em tempos diferentes.
Deixem-se as coisas sérias e as opiniões mais ou menos filosóficas e veja-se como é possível escrever verdades tão duras com um humor genial.

LUTA DE CLASSES VOCABULAR

"Certas palavras têm mais prestígio do que outras. A palavra desfalque olha de cima para a palavra roubo - e, por isso, o elegante autor de um desfalque distingue-se de um vulgar ladrão. As sentenças judiciais costumam ser bem mais pesadas para o segundo, por pouco que ele roube, do que para o primeiro, por mais que ele desfalque. Ora, a minha vida decorre inteiramente num universo lexical desprovido de prestígio. Tirando fugazes momentos em que, no entender de certos operadores de telemarketing, eu sou um cavalheiro, na esmagadora maioria do tempo eu sou um gajo. Todas as palavras usadas para me descrever a mim e ao meu mundo são triviais. Por exemplo, na última ceia, Nosso Senhor Jesus Cristo bebeu por um Graal. Nunca me aconteceu. Os meus amigos e eu, quando jantamos, bebemos sempre por copos. Nunca vamos tomar uns grais. São sempre vulgares - e, por vezes, plásticos - copos. Muito provavelmente, também não terei um solene leito de morte. Como é óbvio, durmo numa cama. Devo morrer lá. Outro exemplo: nos livros, as personagens retiram-se com muita frequência para os seus aposentos. Eu vou para o meu quarto. Quando os meus pais (quando eu era pequeno), ou a minha mulher (agora) me põem de castigo, é para o quarto que me mandam.
Sucede que as palavras determinam a qualidade das coisas. Às vezes vou a um desses novos restaurantes em que os pratos levam dez linhas a descrever. No meu tempo não era assim. Os pratos eram designados por uma palavra só. Feijoada. Chanfana. Cozido. Hoje sinto que me falta formação académica para almoçar lascas de bacalhau em azeite a baixa temperatura sobre cama de puré de grão de bico e espinafres baby com redução de balsâmico, alho e ervas finas. E, quando a comida chega à mesa, descubro sempre que desfrutei mais da descrição do que sua ingestão. As palavras são mais ricas do que a comida, mais suculentas do que a comida, mais saborosas do que a comida. E, neste tipo de restaurante, normalmente as palavras são mais do que a comida. O discurso sobre a comida é melhor do que a comida, faz a comida melhor do que ela é. Na minha vida isso é impossível. Palavras cruelmente banais descrevem a minha evidente banalidade. Não hei-de falecer no meu leito de morte após uma noite de graais. Vou morrer na cama depois de ter estado nos copos. E já será uma sorte."

Estar vivo aleija
Ricardo Araújo Pereira

Quotidiano

Está a chegar a noite num sábado de Outubro que mais parece de Julho, que teve uma manhã de praia e uma tarde de F(Ó)LIO - que também está a acabar - ouvindo João Pinto Coelho e Joel Neto falarem sobre o medo do desconhecido, moderados por Patrícia Portela. 
Ouvir falar de literatura por quem sabe o que diz causa-me sempre arrepios, agravados, desta vez, por virem à baila crimes do holocausto e as tremuras das ilhas, lindas, dos Açores. 
De regresso a casa, o melhor é ouvir música (boa) e com excelentes palavras, como esta:

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Quotidiano

De passagem, ouvem-se duas jovens à conversa:

- Vamos ver como corre este ano ... as horas são poucas e o dinheirinho, idem.
- Também me queixo do mesmo ...
- Tentei a Câmara, meti os papéis, mas falta-me o "Factor C" ...
- E não conheces lá ninguém?
- Conheço algumas pessoas, mas são dos fracos ... o "Factor" tem de ser forte ... o trabalho não me seduz muito, mas o ordenado ... que diferença!

E pronto! 
O idoso, já reformado, seguiu a sua vidinha a pensar que, há 50 anos, o tal "Factor C" já era determinante para muitos, mas havia alguns que conseguiam escapar por entre os "intervalos da chuva". Ainda haverá?

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Palavras bonitas

Não estou pensando em nada
e essa coisa central, que é coisa nenhuma,
é-me agradável como o ar da noite,
fresco em contraste com o Verão quente do dia.

Não estou pensando em nada, e que bom!

Pensar em nada
é ter a alma própria e inteira.
Pensar em nada
é viver intimamente
o fluxo e o refluxo da vida ...
Não estou pensando em nada.
É como se me tivesse encostado mal.
Uma dor nas costas, ou num lado das costas.

Há um amargo de boca na minha alma:
É que, no fim de contas,
não estou pensando em nada.
Mas realmente em nada.
Em nada ...

Poesias de Álvaro de Campos
Edições Ática - 1980

(O meu pai partiu há três anos)

sábado, 28 de julho de 2018

Língua Portuguesa

Num dia lê-se no rodapé de um telejornal "clipse" em vez de eclipse; noutro chama-se "imigrante" a um emigrante; noutro ainda ouve-se que "quaisqueres" das soluções são possíveis. 
A perplexidade com o tratamento público que a nossa língua vai tendo onde deveria haver extremo cuidado cria, num velho que tanto procurou (e ainda procura todos os dias) conhecê-la, um sentimento de desgosto, pena e dó que "hadem" servir de pouco, ou melhor, de nada.
Apesar de tudo, ainda se mantêm alguns "nadadores" que procuram evitar que o afogamento aconteça.
Miguel Sousa Tavares é um deles e esta semana, a propósito da polémica de "Os Maias" nas escolas, escreve, no Expresso, de acordo com a antiga ortografia, esta maravilha:

"(...) E agora vêm "Os Maias", cuja leitura fica ao critério das escolas - onde, aliás, esta e outras leituras ditas obrigatórias, já eram aprendidas em textos resumidos ao alcance do nível de preguiça instalado na cabeça das criancinhas. "Os Maias", caramba! O mais fácil, o mais sedutor, o mais actual romance da nossa literatura! Se nem ao Eça chegam, como poderão chegar um dia a Camilo e descobrir como esta nossa língua, tão mal tratada nas escolas, nas televisões, no Acordo Ortográfico, nas redes sociais, nas novelas, já foi um dia uma língua de uma riqueza deslumbrante? Nestes tempos do facilitismo irresponsável, pensei durante muito tempo que, pelo menos, haveria uma recompensa para os que fugissem à regra da facilidade e da alarvidade reinante: que o futuro pertenceria, não a quem tivesse mais canudos ou mais dinheiro, mas a quem tivesse mais conhecimentos e mais cultura. Todavia olhamos para o mundo como ele está, vemos o triunfo dos que hoje mandam no mundo e somos forçados a perceber que já nem isso é uma esperança. Quando a maioria é formada na ignorância e é a maioria que escolhe quem manda, manda a ignorância.(...)"

Nota: Li "Os Maias" há mais de 50 anos, emprestado pela "carrinha" da Gulbenkian. Os meus filhos já o tiveram em casa e o exemplar está cheio de anotações. Irão lê-lo os meus netos?

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Quotidiano

Ao contrário do que vai acontecendo em todos os continentes e que tanto nos deve preocupar, no Oeste o clima não muda: a um dia de sol e praia sensacional, seguem-se dois ou três de nevoeiro, cacimbo e alguns chuviscos. Vê-se a Berlenga, talvez chova; não se vê, chove de certeza!
Valha-nos a água que, contrariando o costume, tem uma temperatura de fazer inveja ao Algarve.
O Sol parece que tem viagem marcada na CP e, como todos sabemos, na linha do Oeste nunca se garante que o comboio exista e/ou chegue a tempo.
Talvez volte amanhã a ser o dia ... na Foz do Arelho!

sábado, 26 de maio de 2018

Júlio Pomar




Faleceu na passada terça-feira, 22 de Maio, o grande Júlio Pomar, que nos deixa  legado extraordinário, da pintura à cerâmica, do desenho à gravura, da poesia à intervenção política.

O "Almoço do Trolha" e o "Retrato de Mário Soares" serão, talvez, as suas pinturas mais conhecidas, mas uma visita ao seu Atelier Museu dará uma perspectiva mais real da grandeza da sua obra.

No Expresso de hoje, o cartunista António oferece-nos um "retrato" delicioso, como só ele consegue fazer.







terça-feira, 8 de maio de 2018

Mãe

Em cada ano que passa as memórias recuam cada vez mais; os "armários" abrem e mostram o que está arquivado há tantos, tantos anos; e não são memórias difusas, são imagens claras, nítidas, sem sombra de névoa ou de nuvem a cobrir-te. E vejo o colo e as lágrimas que, apesar da força com que as tentas controlar, afloram nos teus olhos tristes mas tão cheios de esperança.
"Quanto é doce" ... no dia em que farias 95 anos.

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Livros (lidos ou em vias disso)

O meu amigo ADS emprestou-me, há meia dúzia de dias, dois livros que eu não conhecia.

Um deles, conta a história da recuperação dos tesouros roubados pelos nazis na II Grande Guerra (Os homens dos monumentos, de Robert M. Edsel), inspirou o filme Os caçadores de Tesouros e já está no saquinho para devolver ao dono; o outro, é uma reedição do nosso Raúl Brandão, onde ele conta uma viagem feita aos Açores em 1924.

Hoje deparei-me com isto:

"- A gente na vida deve jogar sempre pelo seguro. Eu cá não faço nada sem consultar primeiro minha mulher. Ouço sempre aquela santa. Noutro dia tinha de fazer um barco, estava irresoluto, fui ter com ela e perguntei-lhe: - Ó mulher, faço um barco ou uma canoa?
- Pois faz o que quiseres.
- Isso sei eu! Mas sempre quero saber a tua opinião.
- Eu dessas coisas não percebo nada.
- Mas responde ao que te pergunto: faço um barco ou uma canoa?
- Pois já que teimas, acho que deves fazer uma canoa.
- Fiz um barco - já sabe. Porque a gente deve consultar sempre as mulheres - para fazer o contrário do que elas dizem.

As Ilhas desconhecidas
Raúl Brandão
Quetzal (2017)

Comentário machista: Em 1924 os homens já eram muito inteligentes ...

quarta-feira, 25 de abril de 2018

25 de Abril

Em mais um aniversário, a actualidade de José Afonso, com a Utopia do álbum Como se fora seu filho, de 1983, mantém-se.

terça-feira, 17 de abril de 2018

Aula

O meu amigo VB fez-me chegar esta pérola, que interiorizei e me confrontou com a pergunta: será que consegui fazer sempre as coisas importantes? Tentar, tentei ...

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Livros (lidos ou em vias disso)

Tenho escritores de culto, dos quais procuro ler tudo o que escrevem.

São gostos, manias, vícios, curiosidades ou receio de este poder ser (ainda) melhor do que o anterior e eu o perder.

José Luís Peixoto é um desses. E aqui estou eu quase a terminar o seu último que, uma vez mais, não me desilude, antes me abre o apetite para o próximo.

"(...) Eu próprio, que sei mais do que fica escrito, tenho dúvidas imensas acerca de quem sou. Quanto mais tento conhecer-me, mais percebo o quanto falta para me conhecer. Quanto mais ilumino, mais consciência tenho das enormes distâncias que falta iluminar. (...)
(...) Porque escrevo?
Escrevo porque quero que os meus filhos saibam quem sou. Tenho esperança que estas palavras, misturadas com o que lhes mostro, sejam suficientes, sejam o máximo possível. Quero que me conheçam porque quero que se conheçam a si próprios.
Quando eu já não possuir palavras, espero que regressem a estas e lhes encontrem significados que, agora, são inacessíveis. Espero que estas palavras os abracem.
Escrever é a minha maneira de ser pai deles para sempre.(...)

O caminho imperfeito
Quetzal (2017)

sexta-feira, 30 de março de 2018

Bur(r)ocracia

Numa Repartição de Finanças:

Quem está a seguir?
Julgo ser eu ... tenho aqui a senha.
- Diga
- Bom dia
- Diga
- Há cerca de 6 meses cedi este bem (exibo a caderneta predial obtida na Net no próprio dia) e ainda se mantém em meu nome.
- Pagou o Imposto do Selo?
- Sim, claro.
- Aonde?
- Aqui

Volta as costas e dirige-se ao computador.

- Quem pagou o Imposto do Selo foi F...?
- Sim
Meia dúzia de letras / números digitados no teclado.
- Já está!
- Já agora, há aqui uma incorrecção: estão indicados 3 números do Registo Predial mas, tal como na matriz, os 3 prédios foram anexados e agora são apenas um ...
- Isso tem qu'ir à Conservatória.
- Não me parece ... isto diz respeito à matriz
- São eles que fazem 

Conservatória, retiro a senha, aguardo que me chamem e, no atendimento, um bom dia rasgado. Melhorámos, penso.

- Venho aqui por indicação das Finanças ... embora me pareça "um passeio à senhora da asneira". A descrição predial é agora uma só, como pode verificar. As Finanças dizem que a indicação do novo número na matriz também é feita aqui ...
Consulta o sistema informático. Baixinho, diz: "é sempre o mesmo".
- O prédio agora é só um, provém dos 3 anteriores como está aqui indicado. No registo está tudo bem e não temos mais nada a fazer.
- Obrigado e um bom dia

Nova ida à Repartição.

- Na Conservatória está tudo bem e dizem-me que não têm mais nada a fazer ...
- ??? (cara feia)
Dirige-se a um colega. Percebo "... tenta no computador a ver se dá".
- Já está corrigido. Agora tem de fazer um requerimento, acompanhado da certidão do registo predial, para comprovar a alteração
- Mas eu tenho aqui o código de acesso à certidão do registo. É só entrar na página da Predial Online e obtém-se de imediato
- Nós não podemos aceder
- Qualquer cidadão tem acesso e obtém as certidões que quiser, desde que tenha o código.
Vasculha uma pasta de arquivo, coloca-me à frente uma fotocópia com riscos e manchas e ordena:
- Tem de adaptar o texto e dizer o que é para fazer
- Desculpe mas eu não faço requerimento nenhum e muito menos nesse papel. Mando a certidão por mail assim que chegar a casa. Obrigado e um bom dia.

Voltei as costas e saí. De acordo com quem me acompanhou, parece que engoli várias vezes em seco, gaguejei e corei, muito, não de vergonha mas de raiva.
Ignorância ou imbecilidade?

sábado, 24 de março de 2018

Quotidiano

Na praça, hoje de manhã:

- Bom dia. Aqui tem a caixinha para o coelho, conforme combinámos.

- Ah! Ainda bem que veio cá hoje; não pode ser para sábado.

- ???

- Pois, tem de vir buscá-lo quinta ou sexta-feira.

- ???

- Sabe, temos que o matar de véspera e à Sexta-Feira Santa não fazemos mortes ...

- Está bem, venho na sexta de manhã.

- Pois, nós matamos na quinta e na sexta cá estará a caixinha com o bicho.

- Obrigada.

- Bom fim de semana para a senhora e obrigada.

Já devias saber que à Sexta-Feira Santa não há mortes ...

quarta-feira, 21 de março de 2018

Dia Mundial da Poesia

CANÇÃO DE EMBALAR

"Nada a fazer, minha rica. O menino dorme.
Tudo o mais acabou."
Mário de Sá-Carneiro

arranja-me bilhetes para o cinema mãe
quero ver a greta garbo no écran
descansar na ilusão daquele rosto frio
adormecer abraçado àquela imagem

arrenda-me uma casa na consolação
para passar férias com o livro do cesário
a melancolia da água mesmo à mão
para passar férias com a dor no coração

leva-me pão à boca mãe molhado em leite
pendura-me no varal da roupa branca
e para longe sopra este coração depressa ardido
depressa mãe sopra a cinza do meu peito

urgentemente peço que me acabes
que repitas o parto no sentido inverso
urgentemente peço que abras uma cova no teu corpo
para mim
e desce por favor a persiana traz-me gin

José Ricardo Nunes
Na linha divisória
Campo das Letras (2000)

segunda-feira, 19 de março de 2018

Palavras bonitas

(Para o meu pai, que faria hoje 96 anos)

PERSEVERANÇA

Abro o leque da sorte, e mostro o jogo.
Outro lance perdido!
Obras do mundo que eu não tenha erguido
Sobre o suor do corpo e da vontade,
Morrem-me assim nas mãos, num dolorido
Gesto de orgulho e de incapacidade.
Mas o fruto humilhante da falência
Tem um azedo gosto que me excita.
Se o destino se engana, ou se dormita
Na hora crucial do desafio,
Então é o mar que há-de encontrar no rio
O sal da terra em que não acredita.

Cântico do Homem
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1974)