domingo, 31 de outubro de 2021

Poupar e gastar

- Se tens cinco, gasta só quatro ...

Tempos houve em que a poupança era fomentada de forma enérgica, principalmente por aqueles que auferiam mais baixos salários. A certeza de que qualquer impedimento para trabalhar significava deixar de ter rendimentos, a convicção de que a necessidade de cuidados de saúde tinha subjacente dinheiro na carteira, levava a essa cultura do poupar, por muito pouco que fosse, para fazer face a um qualquer imponderável.

O desenvolvimento da sociedade de consumo, a facilidade no acesso à banca, o advento dos cartões com crédito associado, as contas ordenado e outras, criaram em todos a sensação de facilidade e a confiança de que, quaisquer que sejam os problemas, haverá sempre alguém com uma solução.

Apesar de ainda se manter a efeméride do Dia Mundial da Poupança, que hoje se comemora, falar da dita é quase pré-histórico. A máxima no poupar é que está o ganho foi substituída, com as vantagens bem visíveis para todos, por no gastar é que está o ganho. Sem isso, o PIB manter-se-á estagnado e a dívida pública aumentará em percentagem, quando com ele comparada.

Viva a sociedade de consumo! Compre agora e pague depois! Pague em suaves prestações mensais! Compre o colchão! Nós oferecemos o edredão!

sábado, 30 de outubro de 2021

A praça

- Vamos pelo meio da feira. É mais engraçado!

Para quem ouve, sendo daqui, faz alguma confusão. Nunca se utiliza mercado, muito menos feira. Ao escutar isto, logo ficamos a saber que são visitantes. Para nós é e será sempre "a praça", por vezes "praça da fruta", para distinguir da outra, a do "peixe", que ainda continua a ser assim conhecida, embora já por lá não haja peixe há vários anos.

Hoje, logo pela manhã, dois visitantes estavam indecisos entre passar pelo meio dos vendedores e clientes, ou seguirem pelas ruas laterais que delimitam a praça. Após a primeira hesitação, lá chegaram a acordo e "internaram-se" no bulício da venda, utilizando as ruelas criadas entre as bancas. Não faço ideia se gostaram, se compraram, se sentiram o pulsar da vida do sábado de manhã. Não os voltei a ver.

Enquanto assisti à conversa e à tomada de decisão, naturalmente que não fiz quaisquer comentários. Era o que faltava! Ainda podiam acusar-me de ser burro, ao chamar praça a um simples mercado ou a uma mera feira. Para quem nos visita pode ser isso tudo mas, para nós, é a "praça", assim conhecida por toda a gente e onde vão dar todos os caminhos.

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

José Afonso

Numa época em que tudo é e não é, onde se grita com a mesma força o isto e o seu contrário, aparecem, finalmente, resolvidos os problemas que impediam a reedição das obras de José Afonso. Assim, a obra do genial autor e intérprete terá divulgação nas plataformas digitais e o acesso, fácil, pelas novas gerações.

Cá por casa isso não vai ser necessário, uma vez que há muito tempo elas aqui residem e continuam a ser ouvidas com a regularidade e a necessidade que, muitas vezes, não as deixa esquecer. Apesar de já ter decorrido mais de meio século sobre os primeiros discos, a obra permanece actual e é sempre ouvida com deleite.

Espero que o trabalho, meritório, que a família e a Associação tiveram para aqui chegar, ponha as novas gerações a curtirem bué a obra de Zeca Afonso.

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Primeiro dia

Hoje é o primeiro dia de um conjunto deles que hão-de levar-nos até às eleições antecipadas.

O Presidente da República, que divulgou a decisão ainda antes de ela se justificar, terá de cumprir uma série de procedimentos constitucionais até à marcação do dia em que voltaremos às urnas. Nesse dia, a maioria decidirá o que nos reservará o futuro e, goste-se ou não, façamos parte dos vencedores ou dos vencidos, esta é a grande qualidade de vivermos em democracia.

Por vezes, na vida, vale a pena cair para nos levantarmos com mais vigor.

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

A arte do possível

O circo é uma actividade cultural e recreativa com largas tradições em Portugal e no mundo, com áreas e formas de estar e de ser as mais diversas. Dos palhaços aos músicos, dos ginastas aos bailarinos, o espectáculo é diversificado, procura chegar a todos na diversidade de propostas, nas diferenças de gosto.

E, com maior ou menor dificuldade, lá vai conseguindo manter a tenda a funcionar, para gáudio de muitos, críticas de alguns e rejeição de outros. Para isso, todos os intervenientes, do mais importante ao mais humilde, tentam contribuir, procurando as melhores soluções para que o espectáculo seja o melhor e agrade à grande maioria.

Todos os artistas têm a convicção de que o óptimo é inimigo do bom e muito difícil de alcançar, principalmente se, no espectáculo, houver quem fuja às responsabilidades ou se balde ao trabalho. Todavia, no circo, o horizonte mantém-se e a força de o conquistar renova-se.

A queda de um equilibrista, a ausência da risada na piada que falhou, não impedem que o esforço continue, se possível se intensifique.

Se os princípios do circo passassem por S. Bento, talvez não tivéssemos espectáculo tão deprimente e conseguíssemos fazer um país melhor.

terça-feira, 26 de outubro de 2021

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Lembro-me de que ainda antes de eu propriamente dar entrada nas instalações prisionais, nós ainda no gabinete do juiz que se preparava para me fazer as perguntas da praxe com vista à legalização da minha prisão, tinha entrado um ansioso procurador da República com a novidade de que a rádio acabava de anunciar que, por decisão do Governo, transmitida pelo Ministro da Cultura e das Artes Cénicas, o escritor Lopes Macieira ia ser homenageado com os célebres funerais de Estado, aquela paródia em que, depois de algumas leviandades pelo meio, como, por exemplo, missa de corpo presente, o caixão dirige-se ao cemitério ladeado por tropas de arma aperrada como se estivessem a defender o defunto de algum ataque iminente com vista a impedir que seja enterrado ... Ambos riram dessa maneira pouco canónica e algo descortês de falar, mas eu sequer sorri. No entanto, lembro-me realmente de logo ter pensado, Ele fica a dever-me esta honra! E como se tivesse adivinhado os meus pensamentos, o procurador olhou para mim, sorriu e quase sem transição disse, Olhe, ele fica a dever-lhe essa grande honra, até hoje a muito poucos concedida!

Desta vez fiz uma espécie de um leve sorriso e apeteceu-me comentar que era uma grande verdade o que ele acabava de dizer, o Macieira ficar a dever-me essa honraria sem talvez a merecer, mas considerei que estávamos no meio de uma audiência judicial, ainda que no gabinete do juiz, e não seria de bom tom diminuir ainda mais a pouca solenidade do momento. O jovem que estava sentado ao meu lado, mandado chamar pelo juiz para me servir como meu defensor oficioso embora ainda não tivesse aberto a boca para coisa alguma, sequer para me cumprimentar quando entrou, é que disse quase a medo, O único escritor cabo-verdiano que até hoje teve direito a funerais de Estado foi Eugénio Tavares, que morreu em 1927.(...)

A confissão e a culpa
Germano Almeida
Caminho (2021)

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Aparências

Há despesas que não constam do orçamento familiar e, por isso, não se podem efectuar. A legalidade orçamental tem de ser cumprida, para que não haja surpresas e o défice não aconteça. Estão no grupo das coisas onde não se gasta dinheiro, as recuperações de algumas peças de madeira, que vão escurecendo com o tempo, ao contrário dos cabelos, que vão branqueando.

- Gostava de recuperar aquelas cadeiras. Torná-las mais claras. Ainda estão muito boas e ficavam mais bonitas.

A tarde estava agradável, sem muito calor nem vento, havia lixa e lixadora em condições, mãos à obra. Calmamente, que não há prazos a cumprir nem se corre o risco de o governo cair. Isso é lá para a capital, para as altas esferas e grandes cabeças. Necessário é que o trabalho fique bem feito e a contento.

Junto às grades do portão estava um dos quatro ou cinco emigrantes da Guiné, que vivem nos anexos da casa do vizinho da frente. Parecem ser gente pacata, bem disposta, sempre com um sorriso na cara e um andar bamboleante que extravasa musicalidade. No grupo há duas crianças que frequentam a escola, embora ainda tenham dificuldade em dominar a língua portuguesa. O rapaz, mais novo, traz sempre a bola para a rua e lá vai chutando e fazendo habilidades sozinho. As crianças que por aqui habitaram, há muito que saíram e, agora, só os netos e apenas de visita breve. A miúda deverá ter 11 ou 12 anos, cumprimenta sempre com um sorriso bem rasgado e lá segue, de viola às costas, a caminho da escola.

- Boa tarde, Não quero incomodar, mas o senhor também arranja portas?

- Não. Isto é só para me entreter. Não é a minha profissão ... 

- Desculpe. É que tenho a fechadura da minha porta avariada ...

- Tenho pena, mas não o consigo ajudar. De fechaduras não percebo mesmo nada.

Lá foi, à procura da solução que quem estava ali e parecia tê-la, afinal não lha deu. E ele que, na sua boa fé, pensou estar na presença de um operário especializado.  As aparências iludem ...

domingo, 24 de outubro de 2021

Mercearia e fanqueiro

A loja era enorme, pelo menos aos olhos de quem era pequeno. Vendia tudo e tinha, escrito a letras douradas num vidro preto que encimava os armários, o nome da firma e o seu negócio: mercearia e fanqueiro.

À entrada, do lado esquerdo, as tulhas da aveia, das sêmeas, do milho, e o corredor de lata, utilizado para encher o saco dos clientes. O balcão, de madeira trabalhada e envernizada, ocupava toda a largura da loja. Era altíssimo. Tão alto que os olhos só conseguiam ver o lado de lá se o curioso se pusesse em bicos de pés. O tampo também era de madeira, mas só até mais ou menos ao meio. Mudava para mármore no sítio onde estava a balança Avery, que pesava tudo, do grão ao feijão, da manteiga ao toucinho, dos rebuçados ao sabão, azul e branco, está bem de ver. A seguir, aparecia a medidora do azeite e, mesmo no fim, a faca, enorme, de cortar o bacalhau.

Tudo era embrulhado e nada embalado. Meia quarta de café, num pacotinho de papel pardo, dobrado na perfeição, para não se perder pitada. A mesma meia quarta, mas de banha, era colocada pela espátula de madeira no quadrado de papel vegetal e nele embrulhada, para receber depois uma capa do tal papel pardo e ser acabado o embrulho, dobrado com o requinte de quem sabe e o faz com gosto. O azeite era colocado na garrafa do cliente, e podia ir da meia dúzia de centilitros ao litro, sendo esta medida apenas acessível a quem já tinha uma carteira com alguma dimensão ou uma folha do livro com razoável extensão.

Na parede do fundo, em armários com portas de vidro, estavam guardados os tecidos e o material congénere, do cotim à sarja, da chita à flanela, os vários tipos de ganga, os botões, as meias de "fio de escócia", o elástico a metro e as linhas, em carrinho ou em bobina. Os tecidos eram vendidos a metro e, para isso, lá estava o metro de madeira envernizada, quadrado, com a marcação de cada centímetro a traço gravado e, a cada dez, um traço mais fundo e forte, com a indicação do respectivo número - 10, 20, 30, etc..

Numa outra divisão, contígua, havia a balança decimal, a medidora do petróleo, os sacos de batatas, as sacas de adubo e a tulha do enxofre, tudo convivendo com a recente cabina telefónica pública, que permitia as ligações para fora, pagando o preço dos impulsos registados no marcador instalado no lado de dentro do balcão, claro.

Ainda era assim há pouco mais de cinquenta anos. Já nada disto existe e ainda bem ...

sábado, 23 de outubro de 2021

Calhamaços

Terminei ontem as 511 páginas de "Águas passadas", mais um thriller de João Tordo, do qual não gostei tanto como havia acontecido com "A noite em que o Verão acabou", que tinha mais cerca de 150, concretamente 667, e que li há quase dois anos. Como o tempo passa num instante!

Neste momento, o livro "oficial" é o último de Germano Almeida - A confissão e a culpa -, que tem "apenas" 245 páginas e terá de ser lido, por compromissos que agora não importam, até ao próximo dia 3 de Novembro. Assim acontecerá, nem que, para isso, lhe tenha de dar exclusividade absoluta.

Num qualquer canto da casa, sempre acessíveis, estacionam as 999 páginas das "Memórias", de Francisco Pinto Balsemão e as 623 de "As Crónicas", de António Lobo Antunes. São dois livros que permitem a leitura de momentos, o primeiro por não ser difícil apanhar o ritmo em qualquer altura, o segundo por as crónicas já terem sido lidas em tempos idos e a leitura recordatória ser mais fácil, apesar de escritos por quem escreve de forma única, mesmo cronicando.

E, num salto de despedida do F(o)lio - termina amanhã - lá vieram mais uns quantos, que já se perfilaram na ordem e aguardam, calmamente, a sua vez.

Há gente muito tonta, que não tem mais nada para fazer nem outros sítios onde gastar o dinheirinho ...

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Comportamentos

"(... ) pedimos aos fregueses e visitantes

- que não limpem, mas que não sujem

que não reparem, mas sim que não destruam

- que o civismo e a cidadania sejam um exemplo para todos (...)"

São frases retiradas de uma comunicação pública, feita pelo novo Presidente da minha Junta de Freguesia. Podem parecer lugares comuns, mas tocam no cerne comportamental de todos nós, que somos quem produz, melhores ou piores, os sítios onde vivemos.

Tenho dúvidas que a mensagem chegue e seja entendida por toda a gente e, nomeadamente, pelos porcos que continuam a conspurcar o chão que é de todos, cuspindo, deitando beatas, papéis, garrafas, restos de comida, excrementos do cachorro e tantas outras porcarias, sem o mínimo de respeito por eles próprios.

Verificar que alguém com responsabilidades tem coragem de falar sobre estes assuntos, tentando exercer uma acção pedagógica sobre a vivência em comum, é agradável e parece indiciar que, efectivamente, algo mudou. 

Esperemos que seja apenas o início de uma nova era, para o bem de todos. 

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Dignidade

Havia necessidade de contratar um novo elemento para a limpeza diária da agência e, nesse tempo, não havia empresas de trabalho temporário nem os concursos que, muito depois, vieram a ditar que a empresa deste ano faz melhor preço que a do ano passado e por isso foi a escolhida. A empregada continuava a mesma ... a ganhar menos, claro.

O anúncio foi divulgado para um posto de trabalhos de limpeza, em part-time, contemplando quatro horas diárias, duas de manhã e outras tantas à tarde. Apareceram cinco ou seis candidatas e todas foram submetidas a uma entrevista com três intervenientes, um dos quais o Director dos Recursos Humanos do Banco. 

Para além das perguntas sacramentais sobre a experiência profissional, as razões da candidatura, a ideia sobre o trabalho a desenvolver, o Director, a meio da conversa e sem, ainda, ter participado nela, perguntava, de chofre:

- Imagine que, no final de um dia, a senhora está sozinha no Banco e eu toco à campainha, digo que sou o Director e quero que me abra a porta. O que faz?

As respostas foram variadas, nervosas, gaguejadas, mas uma delas respondeu, convicta:

- Peço-lhe que aguarde, telefono ao Gerente e faço o que ele me disser.

Foi a escolhida. Todos os trabalhos são dignos e cabe a quem lidera fomentar essa dignidade.

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Limpeza

Os livros cada vez ocupam mais espaço e carecem de mais atenção. As estantes ganham pó. Podiam ganhar dinheiro mas não têm discernimento para tal. Exigem limpeza e, por mais atento que se esteja, é quase certo que o alojamento preferido é o topo das folhas, para além da finíssima película que escolhe as capas para se refastelar.

Hoje tocou à limpeza e a "procissão ainda vai no adro". Com alguma dose de optimismo, talvez estejam atingidos os cinquenta por cento da tarefa, com a música de fundo que o Mezzo transmite e que ajuda o trabalho.

Retira livros, põe na mesa, pega no pano, limpa a divisória, faz o mesmo ao volume, volta a colocá-lo no sítio. Espera. Está muito apertado aqui. É melhor mudar. Fica melhor e mais acessível. Custa tanto retirar os da frente para ir buscar aquele que interessa e, claro, está mesmo na fila do fundo.

Mas há mais: é preciso registar a mudança, na primeira página do livro, a lápis, claro, o novo local que agora lhe pertence. Isso implica pegar na borracha, apagar o anterior e escrever o novo. E agora, fazer a alteração devida no computador, para que não sejamos induzidos em erro quando se procura algum.

Que trabalheira! E tudo sozinho que, nesta área, ninguém se oferece para ajudar. Ainda bem. Teria que dispensar a ajuda. Os livros são muito esquisitos e só a mim obedecem.

terça-feira, 19 de outubro de 2021

Espólio

Cada um tinha a sua secretária, num rés-do-chão enorme, ali mesmo, no Largo do Calhariz de boas memórias. As secretárias estavam colocadas frente a frente ou formando um quadrado, com excepção da secretária do chefe, única isolada e colocada num ponto estratégico. Quem manda deve ter uma visão ampla sobre todos os "artistas". O balcão era assegurado em rotação diária, com a ajuda de todos, sempre que a afluência o justificava. 

O departamento tinha várias secções, cada uma com tarefas específicas e independentes, exceptuando a que assegurava o economato. A essa, todos iam requisitar as fitas para as máquinas de escrever, as folhas de papel químico, as réguas, as esferográficas, os lápis, as borrachas, em suma, todo o material necessário à burocracia do dia a dia.

O chefe do economato era um homem já de idade (um velho, para um jovem ainda longe dos trinta), com um sotaque açoriano bem carregado e um nome pouco habitual - Herlander.

- Bom dia, Sr. Herlander. O Sr. Correia disse-me para vir ter consigo, para me dar as "ferramentas" habituais.

Foi lá atrás dos armários e voltou pouco depois com uma mão cheia de material.

- Aqui tens: uma esferográfica azul, outra vermelha, um lápis, uma borracha e ... fumas?

- Fumo, sim, Sr. Herlander, respondi sem problemas. Naquela altura, toda a gente fumava e eu era apenas mais um.

Voltou-se e retirou da prateleira um cinzeiro enorme, de vidro, pesadíssimo, verifiquei depois.

- Assina aqui e, já sabes, esferográficas só são substituídas com a entrega da vazia. E poupa nos lápis. Temos poucos ...

Tinha acabado, poucos dias antes, de desembolsar vinte escudos no espólio da tropa, por me faltar o quico, que desapareceu ou foi perdido nos últimos dias. Não me apetecia assinar nada e a irreverência falou mais alto.

- Desculpe, Sr, Herlander, mas levo só o cinzeiro. Não preciso do resto.

- Tu é que sabes, mas não me venhas pedir amanhã ...

Nos mais de quarenta anos seguintes, utilizei sempre as minhas "ferramentas" e até o cinzeiro foi dispensado, quando me "curei" do vício.

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Publicidade

Não faço ideia há quanto tempo o telemóvel tocava. O barulho da lixadeira não deixava ouvir e a sua colocação não permitia ver o écran. Quem trabalha sofre destes imponderáveis ...

Uma pausa permitiu ouvir o toque e verificar o aviso de que era um número não conhecido. Apresentava-se orlado a vermelho, indicando-o como potencialmente perigoso. Mesmo assim, atendi.

- Boa tarde. Faça favor.

- O meu nome é Pedro. Estou a falar com o Sr. ...?

- Sim, sou eu. Diga.

- Estou a ligar-lhe de uma empresa de estudos de mercado. A nossa empresa está a elaborar uma análise sobre os anúncios televisivos e queríamos a sua opinião. São 2 ou 3 minutos, não mais.

- Teria todo o gosto em responder, mas a minha opinião é irrelevante. Não vejo anúncios.

- Muito obrigado e desculpe oi incómodo.

- De nada. Boa tarde.

Não menti nem fui mal educado. Apenas disse a verdade, nua e crua. Quando surgem os anúncios, consigo desligar a "antena" e passam-me todos ao lado, tal como nos jornais e revistas que leio.

sábado, 16 de outubro de 2021

F(o)lio 2021

Um salto a Óbidos, para espreitar o F(o)lio 2021, que abriu na passada quinta-feira, apenas para ter uma ideia de como é este ano.

Muita gente, muitos carros, muita ginja, muitas personalidades, livros, autores, exposições, muita coisa que a "balbúrdia" instalada aconselha a deixar para outra ocasião.

Belas fotografias nas paredes, do "ABC" ao "Visto com os pés, escrito com o olhar", a passagem por Lisboa de Jean Moulin, em 1941, um gelado na Rua Direita, põe a máscara, tira a máscara, conversas a esmo,

- Eu não vou lá acima. Já não tenho idade ... São muitas escadas para chegar à muralha.

- Está quase na hora. Temos de ir para o autocarro.

a banda desfila, com as autoridades locais e visitantes a abrir o cortejo. Os transeuntes encolhem-se que "outros valores mais altos se alevantam" e as ruas são estreitas.

É sempre um prazer ir a Óbidos. Ainda voltarei ao F(o)lio, durante a semana, com calma e sem apertos. O programa tem muita coisa interessante para ver e ouvir e vale sempre a pena.

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Escolhas

"Para que seja possível informá-la/o da chegada do seu artigo à Loja ou da entrega e instalação, caso aplicável, do seu artigo na data e horário acordados, os dados de contacto e entrega disponibilizados por si devem estar corretos e completos, sendo o único responsável pela eventual dificuldade ou impossibilidade de notificação ou entrega e instalação, se aplicável, devido a incorrecções ou falta nos dados indicados."

Este é o primeiro parágrafo de um longo documento, de sete pontos principais e umas quantas alíneas em cada ponto, que hoje assinei, naturalmente sem ler, porque as letras são tão miudinhas que, mesmo com óculos, é necessário uma lupa para terem um tamanho legível.

- Assine aqui, por favor.

- Mas eu nem li, nem consigo ler isso. 

- Pois ... mas tem de assinar. Leva um igual e lê lá em casa!

O documento refere-se a um electrodoméstico que há-de ser entregue amanhã e intitula-se "Dados de Contacto, Entrega e Instalação, nos casos aplicáveis". Perora sobre tudo, do "Período de entrega" aos "Dados Pessoais", para salvaguardar qualquer eventualidade de correr mal, situação que estará prevenida numa daquelas milhentas frases que me dispensei de ler, se aplicável.

Se amanhã o homem da entrega for enganado pelo GPS, for parar a outra rua ou não conseguir entender-se com as alterações resultantes das obras que por aqui ainda decorrem, a situação estará prevista naquele arrazoado, será por culpa minha, e terei de arcar com 25,00 € pela impossibilidade da efectivação do serviço.

Com isto se obtêm ganhos significativos na produtividade, e se evitam quaisquer litígios entre a empresa e o cliente.

Podia ter optado por fazer o levantamento na loja, adquirindo, e trazendo, um dos que lá estavam. Já não assinaria o papel ...

A escolha, boa ou má, foi minha, claro que foi!

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Orçamento

Passa, não passa, talvez sim, talvez não, pode haver crise ou não. Sim ou não, eis a questão.

Marcelo, avisa, Costa, adverte, Jerónimo, lembra, Catarina, ralha, Francisco, diz não e Rio, nem pensar. Há ainda mais uns quantos actores, mas limitados à esquerda baixa e a umas entradas fugazes na peça. São meros figurantes que ficam em rodapé no cartaz.

Já tínhamos saudades destas cavaqueiras amenas, que nos transmitem segurança e paz de espírito, e nos mobilizam para encarar o futuro com tranquilidade e esperança. Todos temos consciência que o nosso dia a dia depende do acerto das previsões orçamentadas, tal como se tem verificado nos anos passados, e desde sempre.

Se tivesse paciência e tempo, coisas que me vão faltando cada vez mais, talvez um dia destes me desse ao trabalho, ciclópico, de comparar os valores orçamentados e os efectivamente verificados. O mais provável era o resultado dar uma tese de licenciatura, que poderia vir a ser complementada com um doutoramento subordinado ao tema "Causas e consequências dos falhanços verificados".

Há dias em que o cérebro não funciona direito e só divaga. Será do calor?

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Cá vamos indo ...

O céu mantém-se limpo e a temperatura faz inveja a muitos dias de Verão cá do cantinho oestino, que nunca é pródigo em calor intenso e onde não se diz: está cá uma brasa!

A caminhada na manhã de hoje trouxe o suor à testa, evidenciando não a dureza do ritmo, antes a temperatura alta e ausência do vento habitual, que conhecemos tão bem e que adoramos. Apesar disso, as conversas fluíram e resolveram-se muitos assuntos, com as certezas do costume. 

A vida de quem já não está de férias vai voltando à correria normal e a casa deixou de ser, felizmente para uns e o contrário para outros, o local de trabalho que a pandemia implantou; os autarcas eleitos vão tomando posse e espera-se muito da sua prometida genica e empenhamento; a selecção de Portugal deu ontem cinco ao Luxemburgo, em jogo que nem deu para sentir os nervos costumeiros; os números da pandemia diminuem mas os mais pessimistas, entre os quais me incluo, ainda se mantêm preocupados; o vulcão das Canárias já não abre telejornais mas continua a semear desgraça na ilha; o orçamento do Estado foi apresentado, abre todos os noticiários e dá o mote para todos os cenários, apesar de a grande maioria não entender nada daqueles números enormes e complexos que, afinal, não passam de previsões. E se?

Paulatinamente, tudo regressa ao ramerrame e o Natal já está aí à porta. A empresa das iluminações já levanta tubos, estende arames, monta arcos na cidade, para lembrar o consumo e a tão necessária recuperação da economia.

Preocupante, apenas um pequeno facto: parece que os quadros de Rendeiro, dos quais a "Rendeira" é fiel depositária, podem afinal ser falsos e não valerem nada. É uma grande chatice para o homem, que fez a compra e foi enganado, para o falsário, que incorre num crime muito grave e para os credores, que contavam com aquela fortuna e, afinal, a pólvora deu mijarete. 

Com tantos problemas, como há-de a justiça ser célere.

terça-feira, 12 de outubro de 2021

Palavras bonitas

DESOBEDIÊNCIA

Por vezes vejo
Lilith
com sua saia de lã

e casaco de retrós

ou um vestido de noite
todo coberto de nós
que desata um por um

Por vezes vejo
Lilith
pé ante pé no porvir

desobedecendo
... a sorrir

Maria Teresa Horta
Estranhezas
D. Quixote(2018)

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Tarefas

- Os carros precisam de ser lavados ...

Antes que o calor aperte (parece Agosto), balde na mão, cheio de água misturada com o material indicado para fazer espuma, esponja e demais apetrechos necessários, tocou à limpeza.

- Mas porque se sujam os carros? E qual a necessidade de serem lavados? 

- Lá estás tu com desculpas e argumentações da treta. O branco está quase preto e o cinzento para lá caminha.

Ficam sempre na garagem, cada vez andam menos, já era tempo de se bastarem a si próprios e se lavarem sozinhos. É o que eu faço todos os dias e sou muito mais velho. Por mais alto que pense, eles não ouvem nem querem saber.

Aqueles mosquitos que são "atropelados" e ficam no capot e na chapa de matrícula são difíceis de tirar. E as jantes, principalmente as da frente, estão negras daquele pó que os calços de travão vão soltando e a elas se cola. 

Que trabalheira! Com tantos sítios para lavar carros espalhados pela cidade, estes tinham de escolher o meu quintal para o banho imprescindível.

No final da tarefa, o sol já apertava e ajudava a secar aquelas duas viaturas que, de imundas, passaram a duas "beldades" limpinhas. Já "ganhei" vinte euros, pelo menos!

domingo, 10 de outubro de 2021

Multibanco

Parece estar provado que os sonhos fazem parte das noites de cada um e que, na maior parte das vezes, as pessoas têm uma vaga ideia de terem sonhado, faltam pormenores à descrição lembrada, não há jeito nem lógica no que se recorda.

Fico contente por não fugir à regra e de sonhar e também não me recordar, com um mínimo de consistência, da composição elaborada durante a noite bem dormida.

Desta vez não foi assim: estava junto a uma ATM e nem tinha sido preciso colocar o cartão, quanto mais digitar o código e aguardar vendo o boneco; a máquina despejava-me um montão de notas, todas de 10 Euros, e não havia mãos a medir nem velocidade para acompanhar aquele ritmo incessante. Desisti. As notas eram tantas, tantas, que os bolsos não chegavam para as guardar e havia pessoas a aguardar que me despachasse.

Um lampejo de inteligência, difuso, lembrou-me: estou a correr riscos sem necessidade. São notas de 10, muita parra e pouca uva, ainda aparece um polícia e, ou me deixo prender, ou fujo para o Belize, para acompanhar o Rendeiro. Não quero ... e abandonei o local, deixando lá as notas, sem verificar se o "anão" da máquina as tinha recolhido.

Já bem acordado, disse para mim: sonho mais estúpido, como são todos, afinal. Ainda para mais, eu já nem uso cartão multibanco para levantar a massa. O telemóvel trata disso e é muito mais simples.

sábado, 9 de outubro de 2021

Outono

O Outono a chegar.

Conclusão tirada não porque o tempo esteja agreste, a ventania se não suporte ou as bátegas nos encharquem, mesmo de gabardina e umbrela.

Nada disso! A um sábado de manhã, com o sol meio envergonhado mas uma temperatura bem agradável, não havia ninguém a passear no areal da Foz, apesar da maré vazia, enorme, e com altura inferior a um metro, nada comum neste mar.

Os pescadores do costume, uns a dar banho à minhoca, outros "catando" polvos nas rochas, com um equilíbrio instável de fazer inveja a quem já tem tremeliques. A água, quase morna, também contrariando o que é hábito, a nortada ausente e pessoas a desfrutarem de toda esta beleza, népia.

Os "cãezinhos-rocha" espreitavam e devem ter ficado desiludidos por não terem público a apreciá-los, eles a quem este mar raramente dá a oportunidade de aparecerem tão fogosos aos olhos de quem por ali passa.

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Graça

Adorava contar estórias. E contava-as com humor, fazendo rir todos quantos o ouviam, mesmo quando a graça das ditas era pouca ou nenhuma. A sua eloquência, a postura teatral, o gesticular constante e adequado, tornavam a anedota mais boçal num discurso de prender atenções, como se dele dependesse o futuro do mundo.

Invejava-o, mesmo sabendo que a inveja é um pecado mortal. Aquilo que se podia contar em um/dois minutos, estendia-se, demorando, divagando, pormenorizando, acrescentando, misturando, de tal forma que, mesmo ouvida pela enésima vez, a estória surgia sempre nova.

Formou-se em Direito, deixou o Banco, nunca mais o vi, perdi-lhe o rasto, ao tempo ainda não tinham chegado os facilitadores telemóveis. Voltou à sua Braga natal e por lá deverá continuar a contar estórias, divagando na defesa ou na acusação, convencendo os juízes da sua razão e da dos seus constituintes.

Continuo a ouvir (e a contar) anedotas, adoçando a estória, dando voltas palavrosas e intermináveis, pintando cenários, acrescentando figuras ... mas falta sempre algo.

Há coisas que não se aprendem nem se estudam, nascem.

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Caminhos

- Despistado

Quase nunca acerta no melhor caminho. Raramente o percurso mais rápido é descortinado e, muitas vezes, só a meio da viagem se apercebe de que, afinal, podia, e devia, ter escolhido outro.

Liga o "piloto automático" e confia nas suas capacidades de decisão improvisada e no conhecimento que detém há tanto, tanto tempo. Afinal, não há rua nenhuma da cidade que não conheça, e bem. Para quê estar a perder tempo com análises e planeamentos? De repente ...

- Mas não era por aqui ...

E lá desaparece mais um litro de gasolina, que está tão cara, diga-se de passagem, porque a volta, agora, será muito maior para chegar ao destino. 

- Parece impossível. É só dar à chave. Nem pensa ...

Há sempre vários caminhos para se atingir um objectivo. E vale a pena experimentar, ousar, tentar, inovar, perceber, procurando sempre o caminho crítico que há-de levar ao destino pretendido por cada um de nós e que varia sempre, até com o sol do dia ou o cinzento das nuvens.

O futuro está aí, à porta, e parece que os automóveis, um dia destes, já nem precisarão de chave quanto mais de ser conhecido o caminho. Um simples contacto biométrico, uma ordem sussurrada, e ei-lo a arrancar com rumo certo e determinado, sem falhas.

Talvez esteja para breve a sua chegada, a tempo, ainda, de corrigir todos os "nabos" que não cuidam do percurso antes de iniciarem a viagem e se deixam seduzir pelo improviso. Poupará tempo, evitará contratempos, não falhará, mas será sensaborão e não terá graça nenhuma.

É tão bom perceber que nos enganámos e que, afinal, o caminho não era bem por ali.

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Livros (lidos ou em vias disso)

Esta "secção" costuma ser utilizada apenas para transcrever pequenos excertos de livros que se estão a ler, ou que foram terminados há pouco tempo, e ainda não tomaram o caminho para o seu lugar de descanso. Desta vez isso não acontece. Mas há uma razão, forte, para tal.

Ontem faleceu um, na minha modesta opinião, excelente escritor açoriano, relativamente pouco conhecido e cuja partida mereceu apenas umas referências de rodapé, indo, quem sabe, ao encontro da sua pouca propensão para a ribalta.

Na "estante" cá de casa há cinco livros de Cristóvão de Aguiar (08.09.1940-05.10.2021), lidos com bastante agrado em tempos idos. Para memória futura, ficam por aqui "meia dúzia" de linhas de MARILHA, livro editado em 2005, romanceando a vivência nos seus Açores. Podiam ser de Trasfega, Raiz comovida, Braço tatuado ou Miguel Torga - Um percurso partilhado, mas foram estas que saltaram na primeira abertura.

"(...) Auscultou-a com esmiuçado reparo. Palpou-lhe a barriga como se estivesse amassando um alguidar de pão. O doutor Virgínio de Medeiros. A cara atenta e franzida, fino de feições. E de repente a ruga funda, no início da testa, prolongando-lhe do lado esquerdo a cana do nariz, aprofundou-se ainda mais. Chamou o marido de parte, atrigado e portador de sinais visíveis de apoquentação. Mansamente foi-o informando que só para a operação. De corte urgente se tratava. Caso contrário, podia dizer adeus à mulher e mudar de estado. Só para os preparos da faquinha, eram mil patacas. Não contando com a aposentadoria no Hospital da Misericórdia da Ribeira Grande. Se ele dispusesse do dinheiro, muito que bem. Operava-se a mulher. Se o não tivesse, que fosse por ele ao sogro, ou que este ao menos se afiançasse pelo pagamento. Dentro de três semanas, o mais tardar um mês. Nele depositava toda a confiança. No sogro. Tratara-o quando caíra, desamparado, da armação do tecto de uma casa em construção. Ficaram amigos. Não sendo assim, que fosse com Deus bater a outra porta. Na dele não seria servido ...

Casados de fresco. Seis, sete meses. Castigo divino? Nunca se sabia. Mal a matar com os pais dela, sogros dele. Pedia-lhes a benção, segundo a lei vigente em Tronqueira e seu termo debruado de outras ilhas. E a mulher também. Às vezes nem resposta ouviam, de tal forma entredentes pronunciada. Deus te abençoe. (...)"

Marilha
Cristóvão de Aguiar
Dom Quixote (2005)

terça-feira, 5 de outubro de 2021

República

É fundamental, imperioso, obrigatório que, todos, façamos de Portugal uma República viva e que ela viva sem reisinhos, príncipes ou morgados, rainhas e princesas, fidalgos ou cortesãs.

Que sejamos corteses sem viver da e na corte, que as ruas e as avenidas possam ser sulcadas por todos, que o nome e a proveniência sejam os últimos identificadores das capacidades de cada um, que o mérito a todos distinga, sem cuidar da averiguação prévia da cor do sangue. 

Que respeitemos o outro e as suas opções, que não julguemos cada um em função daquilo que pensamos, que tenhamos sempre um país livre, aberto e plural, onde todos caibam e não haja atropelos, mesmo que alguns queiram condicionar o que a grande maioria pretende preservar. 

VIVA A REPÚBLICA!

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Campeões do Mundo

A selecção de Portugal sagrou-se ontem Campeã do Mundo de Futsal, derrotando, na final, a equipa da Argentina, por 2-1, depois de um jogo emotivo e disputadíssimo até ao último segundo.

A final resolveu-se nos quarenta minutos de jogo útil mas, no último segundo, a selecção argentina ainda acertou no poste da baliza de Portugal. O jogo foi renhido e a Argentina era o detentor do título, o que ainda valoriza mais o feito conseguido pelos jogadores portugueses. 

FIFA FUTSAL WORLD CUP LITHUANIA 2021

domingo, 3 de outubro de 2021

Rotina

Tudo é efémero!

No Afeganistão, já deverá estar tudo normal; nas Canárias, o vulcão quase não é notícia; a pandemia caminha a passos largos para desaparecer, das notícias, entenda-se. Os refugiados já se evaporaram do Mediterrâneo; o Rendeiro já tem dois "mandatos" e não concorreu a eleições; os novos autarcas estão quase a tomar posse; as moratórias chegaram ao fim; a "bazuca" não dará a morteirada que os empresários reivindicam; o Inverno chegará ... e o Natal também.

Os "achistas", entre os quais eu m'acho, continuarão a fazer comentários sapientes nas redes ditas sociais e os repórteres televisivos continuarão a deixar que outros façam o seu trabalho, colocando o microfone nas ventas do primeiro falador que lhes apareça pela frente: dá muito menos trabalho e não se queimam com a opinião sobre o assunto relatado.

Tudo voltará a ser como dantes, quartel-general em Abrantes.

sábado, 2 de outubro de 2021

Será desta?

Parece que, finalmente, estamos a entrar na recta final desta maratona complicadíssima, que nos roubou a paz e a tranquilidade, nos deu medos e ânsias, e nos fez recordar que, por mais fortes que sejamos, não passamos de "insectos" quando confrontados com a vontade da natureza.

Tenhamos a esperança que os excessos, tão esperados quanto naturais, não provoquem nenhum retrocesso e que o Natal, que está aí à porta, volte a ser o que era antes.

Mas, porém, todavia, contudo, como aprendi na primária, tinha de surgir algum "equívoco" de última hora para colocar no devido lugar o Almirante Gouveia e Melo, depois das lições de organização e logística que deu a um país normalmente tão desorganizado. Vai ficar sossegado uns tempos, para se capacitar que os bons exemplos não podem estar sempre a ser exibidos e que as primeiras filas têm os lugares reservados e não admitem "intrusos".

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Dia Mundial da Música

É proibido estacionar ... mas pode-se parar, ficando alguém ao volante para se pôr a mexer, caso surja o "chui" mal disposto.

O livro faz sempre companhia e o "motorista" está concentrado a ler mais algumas páginas, completamente alheio ao que se passa à sua volta. De repente, o carro abana com o barulho característico da batidela. Os olhos levantam-se e vêem a carrinha, branca, já a afastar-se um pouco, depois do mal feito, que se espera seja pouco.

O velho sai do carro e o novo abeira-se do ponto de encontro das duas viaturas. Nem bom dia, quanto mais desculpas.

- Ah! Não foi nada. Encolhe os ombros. Distraí-me a olhar para ali. E aponta o café.

- Deve ter mais cuidado com as manobras e com os outros.

- Com essa idade nunca errou? O que é que quer!

E voltou costas, ainda a "momar" mais algumas palavras, que não percebi nem quis entender. Afinal o velho não devia estar ali parado, àquela hora, quando havia alguém a trabalhar e a necessitar de estacionar o carro e que, coitado, era distraído sem nenhuma culpa disso.

Regressou daí a pouco, com dois sacos de plástico cheios de pevides, que foi buscar/comprar à praça. Percebi logo o caminho das desculpas que eram devidas: as pevides serão acompanhadas de umas cervejolas e as cascas irão para o lixo, fazer companhia às desculpas que já por lá estarão há anos.

Voltei ao livro e ainda li mais duas ou três páginas, até a "cliente" chegar.

Mas estou contente. Tive "música" logo pela manhã, no Dia Mundial da dita, e o carro nada sofreu, a olho nu.