sábado, 17 de julho de 2021

Responsabilidade

Os pequenos apontamentos que por aqui vou deixando e que, desde que o coronavírus nos veio visitar, têm sido diários, são apenas isso: apontamentos, despretensiosos, com opiniões próprias ou transcrevendo alheias com as quais concordo, gostos, pequenas reflexões, sem qualquer outro intuito que não o de deixar expresso o meu comentário sobre os mais diversos assuntos.

Já passaram mais de 15 anos sobre o primeiro post (15 de Maio de 2006) e, por vezes, sorrio ao ler o que escrevi em tempos idos. Até hoje, ainda não me arrependi de nada mas, se isso vier a acontecer, cá estarei a "dar a mão à palmatória" e a penitenciar-me pelo erro cometido. Foi assim que aprendi e foi sempre dessa forma que me comportei. Se havia responsabilidades, se tinha acontecido erro, não havia outro remédio senão assumir, solicitando as desculpas devidas.

Por isso, "chateiam-me" as pessoas que procuram sempre bodes expiatórios, que nunca cometem erros e, se alguma coisa correu mal, nunca têm nem um niquinho de culpa, por mais importante e influente que seja o cargo que desempenham. Da política ao futebol, dos empresários aos bancos, dos jornais às televisões, o que não falta por aí são exemplos de descaramento e lata.

E conseguem fazer dos outros parvos, sem se rirem ou corarem. Não ficarão na história e, se daqui a alguns anos, alguém se lembrar de os relembrar, será apenas para lembrar que gente dessa nem vale a pena falar e muito menos lembrar. A "lembradura" foi repetida de propósito!

sexta-feira, 16 de julho de 2021

Dúvida

Uma mosca sem valor
pousa, com a mesma alegria,
na careca de um doutor
como em qualquer porcaria.

António Aleixo

O coronavírus parece a mosca do Aleixo. Pousa em todo o lado, não escolhe casa ou barraca, palácio ou gaiola, e, por mais "insecticida" que se lhe deite, não abandona o campo nem acaba o jogo. 

Com calor ou frio, o céu carregado de nuvens ou azulinho celeste, a chuva caindo ou o vento soprando, por cá se vai mantendo sem ter sido convidado, sem bilhete ou passaporte, molestando diariamente milhares de pessoas, levando algumas (felizmente bem menos do que no auge) e mantendo toda a gente em alerta forçado, preocupada, receosa de fazer isto ou aquilo, de ir ali ou além, de andar ou ficar parado.

E nem a praia traz a tranquilidade que é necessária e merecida e à qual o dia, lindo, convidaria. O distanciamento social, as conversas ao largo, as toalhas afastadas, os jogos ausentes, grupinhos de dois ou três miúdos, não mais, barracas para alugar, pouca gente no banho, e não é só por a água estar fria. Mas, antes de tudo isso:

- A máscara?

- Ficou no carro!

Volto atrás e digo para os meus botões: até na praia, bolas! Quando é qu'isto acaba?

quinta-feira, 15 de julho de 2021

Autárquicas

As eleições autárquicas estão à porta e a azáfama é grande. A necessidade de mostrar, de se dar a conhecer, de aparecer e ser visto, de inaugurar obra mesmo insignificante, faz parte do quotidiano de todos, ansiosos que os eleitores os adorem e lhes concedam a "benção" de os apoiarem, de preferência com notícia partilhada nas redes sociais e nos jornais da "santa terrinha".

E ideias? E projectos? E ser diferente? E ambição de mudar? Nada disto parece estar na primeira linha, tudo ou quase tudo se resumindo a um "dizes tu, respondo eu", como se a "farinha" fosse igual e o "saco" semelhante. Será?

Agora que a idade acentua a propensão para a calma, a crítica e a análise (presunção e água benta, cada um toma a que quer), fico olhando, vendo e ouvindo os candidatos e, se de alguns já não tinha qualquer esperança em algo de novo, outros cheiram a mofo, outros há que me parecia (parece) poderem trazer algo de diferente.

Ainda vão a tempo! Deixem-se de tricas com e sobre o poder instalado, que pretende manter-se igual a si próprio. Tragam ideias novas, futuro, esperança, vontade, diferença, perspectiva, balanço, coragem, e digam isso sem peias nem medos. Não abram portas ao passado e apresentem novos modelos, que a hora é de mudança.

Não se submetam aos cânones do malfadado politicamente correcto. Disso já temos que chegue e estamos todos fartos!

quarta-feira, 14 de julho de 2021

Ciclismo

Sentado na cadeira frente ao televisor, canso-me sem me mexer e fico tenso sem sair do lugar. 

A RTP2 transmite, em directo, mais uma etapa do Tour de France, que hoje atravessa os Pireneus. Sempre que me é possível, assisto. E pasmo. Como é possível aguentar tanto e ainda conseguir sorrir.

Quando descem, fazem-no a velocidades vertiginosas que, neste ano, já várias vezes passaram os 100 quilómetros à hora. Se sobem, as montanhas parecem nunca mais acabar, o frio deve ser terrível e as bicicletas quase que param, apenas empurradas pelos "motores" daqueles ases do pedal, e do guiador, e dos travões, e da coragem, e do sangue-frio, ... e que às vezes dão quedas (este ano já foram várias) que fazem doer a quem está bem longe e nada tem a ver com aquilo.

Há dois portugueses no pelotão - Ruben Guerreiro e Rui Costa - e todos os dias se vêem várias bandeiras do nosso país, agitadas por compatriotas que vivem por toda a França. As paisagens que as câmaras nos exibem valem, só por si, o tempo "perdido" a olhar para o televisor. O ciclismo é sempre um grande espectáculo que, na televisão, ainda se torna mais belo.

Nota: Passam hoje 232 anos da tomada da Bastilha, acontecimento que abriu as portas à Revolução Francesa. Saíram dela as palavras que são (ou deveriam ser) a essência e o quotidiano da humanidade: Liberté, Egalité, Fraternité.

terça-feira, 13 de julho de 2021

Objectividade

O exame corria às mil maravilhas e o examinador estava perplexo com a qualidade evidenciada pelo candidato. A prova do Código da Estrada tinha sido irrepreensível, sem uma única falha - 20 Valores. Quer nos sinais quer nas regras, o Carlinhos tinha demonstrado dominar toda a matéria, ultrapassando sem qualquer dificuldade as perguntas armadilhadas que a prova continha.

Convém dizer que, na carteira do Carlinhos já estava arrumada, há três anos, a carta de ligeiros, tirada com a emancipação paterna, aos 18 anos. Agora era o passo para profissional a sério. Obter a carta de pesados e de serviço público de autocarros era um objectivo que, alcançado, alteraria a sua vida de forma drástica e permitir-lhe-ia escolher entre conduzir camiões por essa Europa fora ou então autocarros, quiçá de luxo. Qualquer uma das hipóteses abriria novos horizontes, outros países, outras gentes, tudo o que lhe balançava na cabeça há muito tempo.

As provas de condução, mesmo quando guiou o camião com reboque, não podiam ter corrido melhor. Carlinhos era um condutor exímio, ponderado, cauteloso, seguro. Tinha deixado o engenheiro examinador de boca aberta e completamente rendido à destreza do jovem.

Faltava apenas a mecânica. Depois de ouvir explicação pormenorizada sobre o funcionamento dos motores, da cambota ao pistão, dos radiadores e injectores, da bomba de água e dos travões, da embraiagem à combustão, o examinador informou o candidato que o exame tinha terminado e que a sua aprovação seria por distinção, se isso estivesse previsto. No entanto e apenas por curiosidade, gostava de ouvir a explicação que ele daria para o funcionamento da caixa de velocidades. Que ficasse claro que isso não contava para a apreciação final, já efectuada, como lhe tinha acabado de dizer.

- Ó senhor engenheiro, não é fácil!

- Eu sei, mas tente. Não precisa de linguagem muito técnica. Seja objectivo, como foi no exame.

- Aí vai: uma mão cheia de carretos, que andam lá numa velocidade do caraças, se um gajo põe lá um dedo, lixa-se, fica sem ele! 

segunda-feira, 12 de julho de 2021

Escultura

Vento norte, zangado, soprando com força, obrigando os que levaram chapéu a estarem atentos, para que ele não levante voo. O céu com nuvens, a água fria, o mar revolto, tudo contribuindo para que se cumpra a máxima antiga: a Foz é uma praia tão boa, tão boa, mas tão boa, que até o Inverno cá vem passar o Verão.

E o "cão" de rocha adora, como a sua expressão evidencia, que tiritem à sua volta, para terem consciência dos sacrifícios que ele passa, a levar com tudo ele que nem uns calçõezitos tem para lhe afagar as pernas e as partes baixas, nomeadamente na maré alta.

- Mas ele nem pernas tem, como pode usar calções?

- Tens toda a razão. O vento até nos tira o discernimento. Que disparate!

O "cão" rocha ouviu e comentou, baixinho, apenas para os seus botões.

- Coitados. O vento tolhe-lhes os pensamentos e leva-os a comentarem sem pensar. Está muito na moda. Esquecem-se que estou aqui há séculos e foi esta a forma que encontrei para iludir a polícia dos costumes. Se eu estivesse aqui de pernas à mostra, de certeza que me tinham levado para Peniche ...

domingo, 11 de julho de 2021

Euro 2020

 


ITÁLIA - 4 / Inglaterra - 3

E, tal como há cinco anos, jogar em casa de nada adiantou.

sábado, 10 de julho de 2021

Memória

Havia tanta coisa para servir de tema hoje.

Não quero escrever sobre nada, nem mesmo sobre o vento que se fazia sentir na Foz.

Há cinco anos, exactamente neste dia, Portugal sagrou-se Campeão Europeu de Futebol e esse feito ninguém apagará da história. 

Para mim foi um dia inesquecível, com o coração no limite e as emoções à flor da pele.

sexta-feira, 9 de julho de 2021

Livros (lidos ou em vias disso)

Extrato, pequeno, da biografia de José Cardoso Pires, publicada recentemente e escrita de acordo com o malfadado novo acordo ortográfico. Apesar da minha (o)posição, a cópia abaixo respeita a ortografia constante da obra, que me tem sabido bem ler. Espero concluir em breve as 566 páginas e que o agrado actual se mantenha até ao fim.

(...) Naqueles anos, nos intervalos permitidos pelos empregos por que ia passando, tinha escrito vários contos. O grande desafio era encontrar quem os publicasse. O convívio com jovens artistas e o contacto com algumas pessoas do meio literário não eram garantia de publicação. Naquela altura, até autores consagrados tinham dificuldade em encontrar editor. Os livreiros e os responsáveis das editoras queixavam-se que o ano de 1947 tinha sido um dos piores de sempre para o setor. Em julho, a revista Vértice publicou um artigo sobre a crise do livro português com um diagnóstico sombrio. Os livros eram demasiado caros para a maioria da população que gostaria de os ler. A prioridade era pôr o pão na mesa. Alguns autores vendiam razoavelmente, mas quase todas <<ediçõezinhas de 3000 exemplares>> dormiam o <<sono eterno nas estantes das livrarias>>.

Nada ajudava. Nem a censura, com o risco de possíveis apreensões a pesarem nos cálculos dos editores, nem a elevada taxa de analfabetismo, a rondar os 45 por cento, muito superior à dos outros países europeus, nem o preço dos livros. Para que a publicação do seu livro não fosse apenas uma quimera, um aspirante a escritor precisava de um <<padrinho>>, alguém que caucionasse a qualidade da obra. Depois logo se via. Mas se mesmo com padrinho era difícil, sem padrinho era impossível. E sem livro, também. Porém, essa parte ficou resolvida em agosto, quando Cardoso Pires concluiu a primeira versão de um livro a que deu o título provisório de Areia Movediça. E já decidira a quem ia entregá-lo para uma primeira leitura.(...)

Integrado Marginal
Biografia de José Cardoso Pires
Bruno Vieira Amaral
Contraponto (2021)

quinta-feira, 8 de julho de 2021

Alegadamente ...

Sempre com a premissa do título, os últimos tempos têm sido pródigos em notícias envolvendo figuras conhecidas desse outro mundo que passa nas televisões e navega pelos jornais e, por arrastamento, "fauna" que é "tu cá, tu lá" com muita gente, sedenta de conhecer e dizer que conhece.

Primeiro, foi José Berardo, ou Joe Berardo ou Comendador Berardo, a ser detido, por uma chusma de crimes, que cansam qualquer um que os leia e devem ser um pesadelo para quem é disléxico e tem dificuldades com a língua. Coitado do Comendador! Ainda por cima fixaram-lhe uma caução de cinco milhões de euros, quantia que deverá obrigar a partir todos os porquinhos-mealheiro, dele e da família, e talvez até a recorrer a uma angariação de fundos através das redes sociais. E todos temos obrigação de ajudar, para evitar a prisão de um respeitável septuagenário, sob pena de ficarmos com remorsos.

Ontem foi Luís Filipe Vieira, famoso empresário self made man, que começou a trabalhar em pneus e, à custa de muito esforço e dedicação, conseguiu ser presidente do Benfica, depois de uma "licenciatura" em construção civil, completada por um "doutoramento" de presidência no Alverca. Para que a claustrofobia não o atormentasse, o Ministério Público resolveu dar-lhe a companhia do seu grande amigo José António Santos, da Valouro, que garantirá, sendo necessário, um franguinho para assar se a fome atacar. Sempre preocupados com o bem-estar duma personalidade deste nível, os investigadores garantiram ainda o convívio de um seu advogado, que acumula funções no agenciamento de futebolistas, e ainda o seu filho, que não é identificado com qualquer profissão, a não ser a de "filho de", suficiente para identificar, abrir portas e ter crédito, dirão alguns. Este trabalho do Ministério Público permite a ocupação dos tempos livres com umas boas partidas de sueca, jogo conhecido como do seu inteiro agrado.

Por tudo isto é que os Tribunais estão entupidos e demoram um tempo infinito a resolver qualquer acção que lhes é submetida. Se aos recentes juntarmos Ricardo Salgado, José Sócrates, Armando Vara, Carlos Silva, Zeinal Bava, Henrique Granadeiro e muitos outros que não são, ou não eram, presença assídua nas televisões, teremos, clarinha como água suja, a razão do entupimento.

Valha-nos que os "rigorosos inquéritos" não vão parar aos Tribunais. Não haveria manilhas com dimensão suficiente para assegurar o esgoto. Alegadamente ...

quarta-feira, 7 de julho de 2021

Juventude

Eram cerca de duzentos. Jovens na idade em que se sabe tudo, se aguenta tudo e se quer fazer tudo. Pertenciam à mesma companhia de instrução e cumpriam a recruta do serviço militar obrigatório, "missão" conhecida por todos e adorada por muito poucos.

A guerra colonial era a realidade agitada de forma diária, com a mais que provável mobilização para a Guiné sempre presente. Isso e uma disciplina férrea eram a motivação mais do que suficiente para que todos se aplicassem o melhor que conseguiam nas provas teóricas e nas físicas. A ida à guerra era determinada pela classificação final e por algumas "cunhas", naturalmente.

A "educação física" era particularmente exigente e dura, mesmo para quem tinha pouco mais de 20 anos. A espingarda G-3 era mais um membro do corpo, que acompanhava, e estorvava, todos os movimentos. Não havia lugar a queixas e a solidariedade entre todos fazia-se sentir. Ninguém ficava para trás e qualquer desfalecimento era, de imediato, resolvido com a ajuda necessária, libertando a carga, da espingarda à mochila e, se não bastasse, oferecendo o ombro para apoio. O campo de obstáculos, situado lá bem ao fundo do quartel, era o local preferido pelo comandante da companhia para, muitas vezes amesquinhando um ou outro, tentar fortalecer o grupo, levá-lo cada vez mais longe e torná-lo cada vez mais forte.

Já se perdeu na memória o nome próprio. Recordo o apelido - Preto - e que era da zona de Mirandela. Não ia a casa de fim-de-semana por não ter carro próprio e os transportes públicos, pelas "auto-estradas" de então, demorarem uma "eternidade". Desmaiava ao ver sangue, como todos pudemos confirmar aquando do "teste do dedo". Depois da picadela e assim que apertou para que o enfermeiro pudesse recolhê-lo para a lamela, caiu do banco e pregou um susto ao oficial médico que, lá ao longe, apreciava o decorrer dos trabalhos. Para agravar, sofria de vertigens e, de acordo com o que dizia, qualquer altura lhe dava pânico. Era sempre dispensado, pelo alferes do pelotão, da subida (e corrida) ao pórtico. 

Um dia, o comandante da companhia apercebeu-se e chamou-o, questionando a razão da dispensa.

- Não consigo, meu tenente. Sempre fui assim ...

- És um maricas. Todos os camaradas sobem, e correm, e tu ficas aí ... Não tens vergonha?

A admoestação e o achincalhamento começaram. Era visível o nervoso e o desejo de, se pudesse, fugir dali. O comandante continuava a arenga, tornando-o um farrapo perante os outros. Não satisfeito com a conversa, cheia de palavrões e impropérios, colocou-lhe um tijolo à frente e mandou-o subir. Claro que os nervos o tolheram e nem isso conseguiu fazer. 

Começou a ouvir-se um sussurro, baixinho. Tornou-se mais audível. Não tardou muito e era um escarcéu. 

- Acabe com isso! Nós fazemos por ele ...

O comandante calou-se e mandou-o juntar-se a nós. O resto do dia foi violento. A solidariedade e a "rebelião", como sempre, pagaram-se com "língua de palmo".

Nunca mais o vi, porque os destinos seguintes não se cruzaram. Alguns meses depois, num encontro fortuito com outro camarada de recruta, soube que tinha sido mobilizado para a Guiné ...

terça-feira, 6 de julho de 2021

Palavras bonitas

Tanto da vida conheço
que, ao ver o mundo tão torto,
às vezes, quando adormeço,
desejava acordar morto.

Gosto do preto no branco,
como costumam dizer:
antes perder por ser franco
que ganhar por não o ser. 


Contigo em contradição
pode estar um grande amigo;
duvida mais dos que estão
sempre de acordo contigo.

Quem canta por conta sua
quer ser, com muita razão,
antes pardal, cá na rua,
que rouxinol na prisão.

Este livro que vos deixo ...
António Aleixo
Edição do filho do autor (1975)

 

segunda-feira, 5 de julho de 2021

Netos

Hoje é dia de não falar em mais nada a não ser de futuro. 

O meu neto Gil faz 15 anos e eu, babado, antevejo-lhe um futuro risonho que, aliás, ele já vai fazendo por merecer.

Aluno impecável, excelente nadador - ontem obteve o sétimo TAC para os Nacionais - , jovem de personalidade e de princípios, mal seria que não o deixassem voar de acordo com os seus desejos, em busca de um mundo melhor, mais justo, mais aberto, plural e solidário.

Tenho a certeza que o meu Gil irá conseguir e eu hei-de continuar a ver, enquanto os olhos conseguirem, as suas aptidões subir, a apreciar a sua modéstia e a ter um orgulho enorme no meu neto GRANDE.

Parabéns, Gil. 

domingo, 4 de julho de 2021

Devaneios

Vivemos tempos difíceis. Quando se esperava que a evolução da pandemia fosse no sentido descendente ou, como diria qualquer economista esclarecido, que tivesse um crescimento negativo, os números ressurgiram para preocupar os mais atentos, que gostavam de (ainda) ver isto ter um fim.

Voltou o recolher obrigatório para a população de um significativo número de concelhos, continuam a ser "proibidos os grupos agrupados e mais que dois a andar parados", como dizia um polícia dos tempos da "outra senhora", já se ouvem advertências sobre a ocupação preocupante das Unidades de Cuidados Intensivos, o "delta" dos infectados tem subido diariamente sem, felizmente, chegar aos números preocupantes verificados no pico do início do ano.

E surgem os opinativos a dizerem de sua justiça, com uma justeza e uma certeza de espantar a mente mais atenta, dando largas à sua sabedoria e tornando os outros, os que padecem do dia a dia da subsistência, uns meros bonecos estúpidos e aparvalhados, que não se adaptam, não cooperam, infringem sistematicamente a lei e os bons costumes, não se governam nem se deixam governar, como disseram os outros, há muitos séculos atrás.

Valha-nos o folhetim Cabrita, a telenovela Berardo, o Rio que corre para o mar e nem Oliveira o acompanha, o Costa que não remodela, o Jerónimo que vai perdendo o vocabulário, a Catarina que, não sendo a Grande, esforça-se por o parecer, o Chicão que está quase Chiquinho, e o Marcelo, que nunca compreende a razão, quando não lhe passam cartão.

"Malhas que o império tece ...". A esperança em dias com mais sol (como hoje) não desvanece e a Foz do Arelho agradece.

sábado, 3 de julho de 2021

Livros (lidos ou em vias disso)

(...)"A emigração da rapaziada do lugar, à qual se associa um ocasional homem maduro, suspensa entretanto pelas expectativas desencadeadas pelos cravos, prossegue a inalterado ritmo. Justificando-se a saída, já não com a ausência de horizontes, mas com a imprecisão destes, abalam agarrados ao princípio que adoptaram, e que se sintetiza na constatação em voga, <<Aqui há confusão a mais!>> Não partem tão futricas como antigamente, e rebocando uma mala fechada, com cordas traçadas, mas de calça e casaco de jeans, e com uma sacola de bom couro ao ombro. Ontem pôs-se na alheta um irmão da rapariga, e uma semana antes viera despedir-se um sobrinho da idosa. Acabaram-se os adeuses dramáticos, calando-se choros e gritos, e selando-se em definitivo as bolsas lacrimais, ao estabelecer-se a absoluta certeza de que <<na nossa era desaparecerem as distâncias.>>

O meio da tarde, alcançado ao termo de um esparso convívio com os livros, reestrutura-se-me à chegada da merenda, tisana de hortelã e pão com manteiga. Recebo a bandeja sem me erguer da poltrona, e com o monte de manuscritos a meu lado, cobertos de pó, e picados pelas faúlhas libertadas da lareira. A manta que me tapa as pernas cheira que tresanda ao óleo da salamandra que acendo, sempre que o calor da lenha se mostra insuficiente. Mastigo como posso, emborco com cautelosa demora aquilo que me põem à frente, e regresso às recordações da mulher no tempo em que ela habitava a Casa."(...)

Embora eu seja um velho errante
Mário Cláudio
D. Quixote(2021)

sexta-feira, 2 de julho de 2021

Verão

Sol, céu azul, mar verde esmeralda e sem ondas, vento ausente. A Foz, hoje, mais parecia uma praia das Caraíbas ou daqueles destinos paradisíacos tão vendidos por aí. Claro que a água estava fria, mas nada é perfeito e ainda bem.

Como dizia um dos acompanhantes das várias vezes que se experimentou a temperatura, na esperança de que estivesse só um pouquinho melhor,

"Na Foz é assim. Quando surge um dia bom, é mesmo muito bom!"

E os mergulhos sucederam-se até que as mãos começaram a doer e todos achámos melhor não abusar.

Hoje a Foz fez jus ao Verão de António Vivaldi. Amanhã, ver-se-á.

quinta-feira, 1 de julho de 2021

Dúvidas

Afazeres e compromissos impediram que hoje trilhasse o caminho da Foz, mesmo que fosse apenas para sentir o vento a resfriar o corpo e a refrescar as ideias.

Afinal, parece que o S. Pedro me fez mais uma provocação, contrariando todas as previsões metereológicas e o que tem acontecido nos últimos dias. A avaliar pela foto, enviada por mão amiga (C.P.) para fazer inveja e evidenciar que sou eu o "transportador" do mau tempo, hoje foi um dia de "estalo".

Amanhã lá estarei, mesmo que seja só para uma "visitinha de médico". Quero confirmar se o S. Pedro não gosta mesmo de mim ...

quarta-feira, 30 de junho de 2021

Contrato

Até no andar não se fazia notado, apesar de sempre apressado. Mal punha os pés no chão, e mesmo por cima das folhas, o seu caminhar era discreto. Só os mais atentos descortinavam a sua aproximação e nem sempre isso acontecia. Ficava visivelmente satisfeito quando chegava sem ninguém dar por ele.

Era um caçador exímio, senhor de uma pontaria invulgar e conhecia todos os sítios que "cheiravam" a caça, locais de perdizes ou narcejas, galinholas, codornizes ou coelhos. Lebres não, que era espécie que por ali não aparecia. Mesmo trôpego, mantinha a suavidade do andar e o gosto de atirar, no fim já só aos coelhos, que as espécies de penas exigiam mobilidade que já não tinha. Esperava, pacientemente, que o bicho saísse da lura, deixava-o correr alguns metros, disparava um tiro e ... coelho na sacola.

A voz era sussurada e ligeiramente sibilada. Era necessária muita atenção do interlocutor para se perceber o que queria transmitir, mas ninguém se atrevia a pedir-lhe para falar mais alto. Era tempo perdido. Aquele era o seu tom e dele nunca abdicou, quer se dirigisse às gentes mais simples quer à fidalguia.

Contava-se que, quando pediu à noiva que com ele casasse, lhe terá dito:

- Só tem uma condição: não quero que, lá na nossa futura casa, alguém fale mais alto do que eu ...

O contrato foi aceite e permaneceu válido a vida inteira. Naquele lar, nunca ninguém levantou a voz e todos se entendiam sem dificuldade.

terça-feira, 29 de junho de 2021

Vento

Numa manhã de vento, como é costume e já não se estranha, havia poucos pescadores e menos veraneantes. Talvez durante a tarde, uns e outros aumentem, mas não pertenço à "fauna" da tarde. Na ida à aberta, quando o pescador se lamentou do assoreamento da Lagoa que afasta o peixe, por falta de alimento, lembrei-me de Manuel Alegre. Era presença assídua na pescaria e, muitas vezes, a nadar nas águas frias e revoltas que deliciam os que gostam da Foz. Já não aparece. Os anos não perdoam ...

Lembrei-me, também, que Maria Bethânia fez 75 anos em 18 de Junho e que gravou Senhora das Tempestades, belíssimo poema de um excelente livro com o mesmo nome, todo ele dedicado à Foz do Arelho.

segunda-feira, 28 de junho de 2021

Liberdade

O Carlinhos, talvez açoitado pelo vento do Oeste, passou por aqui, numa visita muito rápida, apenas com o intuito de não ser esquecido e por lhe parecer que, de vez em quando, é importante fazer ouvir a sua voz desassombrada e livre.

- Tenho andado a correr mundo, sempre de máscara, claro, a tentar perceber quantos milhões de pessoas ainda não tiveram acesso à vacina Covid. Ninguém sabe ao certo e muito poucos pensam nisso. Desde que haja para mim ... quero lá saber!

Nem me deixou opinar.

- E estou muito preocupado com o teu país, que considero meu e pelo qual nutro muita simpatia e apreço.

E porquê, consegui perguntar.

- Soube, por uma televisão internacional, que há por cá pelo menos uma Câmara que forneceu os dados pessoais dos organizadores de manifestações, às entidades contra quem elas eram dirigidas, incluindo embaixadas de países onde a liberdade não habita ou vive muito mal. Nem quis acreditar, mas confirmei logo depois num outro noticiário.

Pois, parece que sim, disse eu sem grande convicção.

- E vocês não fazem nada? Não protestam, não exigem responsabilidades, encolhem-se?

Está a decorrer um rigoroso inquérito, retorqui.

- Vou-me embora. Tenho mais que fazer. Mas deixa-me que te diga que me desgosta ver o país de Abril tolerar atitudes destas.

Nem me deu tempo de esboçar uma "cotovelada". Correu, desenfreado, gritando à despedida:

- Tem cuidado. Chega sempre alguém que se aproveita e, quando derem por isso, já está instalado. O último durou quase meio século.

domingo, 27 de junho de 2021

Euro 2020

 

Portugal - 0 / Bélgica - 1

No futebol, como na vida, nem sempre ganha quem é melhor.

sábado, 26 de junho de 2021

Livros (lidos ou em vias disso)

(...) - E quem devo anunciar? - Arqueou a sobrancelha esquerda, para olhar de cima aquele despojo endomingado.

   - Mestre Perramon ... Diga-lhe que fui ajudante do maestro da capela da Catedral. E da igreja del Pi ... 

Enquanto falava, ia pensando que mais vale ser cão de casa rica que herdeiro de casa pobre. O lacaio, que também pensava o mesmo, abandonou-o no amplo vestíbulo iluminado pelas janelas que davam para a rua Ample. A vista engasgava-se-lhe com tantas cadeiras, consolas, cornucópias, candeeiros, bibelôs, estatuetas, relógios, cortinas, penas de pavão real, bengaleiros, jarrões de Manises e de cristal de Murano, tapeçarias, quadros cujas molduras eram maiores do que a própria pintura, janelas, escadas, parapeitos de mármore branco com balaústres dourados, bustos de imperadores romanos, do rei Carlos, o outro, o do próprio marquês quando era jovem, esperto, inteligente, simpático e um pouco menos rico, cadeirões forrados com um listado muito elegante e aparente, azulejos que reproduziam arabescos infinitamente complicados, escrivaninhas inúteis com gavetas fechadas, uma armadura solitária e misteriosa, relógios de parede, relógios de mesa, relógios de bolso ... Nunca tinha visto tantas coisas numa só divisão. Sentiu uma tontura ao pensar que aquilo era só o vestíbulo. Então ocorreu-lhe que, talvez, vá-se lá saber porquê, teria sido mais razoável ter batido à porta de serviço. Mas já não havia remédio. Torceu o tricórnio entre as mãos nervosas. Porque é que demorava tanto?

    - Faça o favor de me seguir.

Não se tinha dado conta de que estava diante do lacaio de sobrancelha arrebitada. Mas, pelos vistos, tinha-lhe desaparecido a expressão de desprezo e agora fazia cara de pau. Isto é, o marquês vai  receber-
-me (...)

Sua Senhoria
Jaume Cabré

sexta-feira, 25 de junho de 2021

Verão

Com atraso, mas chegou!

Finalmente, o Verão arribou à Foz e ofereceu uma manhã de sonho. Sem vento, céu azul e um mar, verde, lindíssimo. A água estava igual a sempre, naturalmente fria, como convém para refrescar as ideias e (re)lembrar que estamos no Oeste e não no Algarve ou nas Caraíbas.

Notava-se o efeito da nova máquina que garante a limpeza do areal e que os trabalhos para a dragagem da Lagoa prosseguem em bom ritmo. Vamos ver o que trará de novo e se resolverá, de forma clara, o problema que, há tantos anos, assola a Lagoa. Não convém esquecer que o mar trabalha sem descanso, sem projectos nem adjudicações e altera completamente a orla de um dia para o outro.

Soube bem! Venham mais dias assim, mas poucos, para não enjoar. Pelas previsões, amanhã volta o "capacete".

quinta-feira, 24 de junho de 2021

Netos

A festa ainda não pôde ser aberta, sem máscaras nem constrangimentos e, para cúmulo, o pai só esteve presente graças às novas tecnologias, e por pouco tempo, que o trabalho em terras húngaras é exigente e o tempo urge.

O meu neto Duarte faz hoje NOVE anos e, precisando bem, parece que nasceu "ontem". Está um homenzinho, a marcar a sua presença, os seus gostos, a sua vontade, a sua personalidade, o seu futuro que, claro, se deseja risonho e feliz.

E é tão bom vê-los crescer e sentir que, em cada dia que passa, há mais um "tijolo" na construção da sua vida.

Parabéns DUDU, meu querido neto!

quarta-feira, 23 de junho de 2021

terça-feira, 22 de junho de 2021

Lógica

Não tem idade, pátria ou morada conhecidas. Nem sequer tem pais e muito menos se conhece a região de onde surgiu. É conhecido em todo o mundo, variando o nome em função da língua que é falada.

Por cá é o Carlinhos. Percebe de tudo, tem opinião fundamentada sobre todas as matérias, domina perfeitamente todos os problemas e tem sempre as soluções na ponta da língua. Poderia, facilmente, ser comentador televisivo e seria disputado a peso de ouro, elevando as audiências a níveis estratosféricos.

Em tempos idos e numa das suas primeiras intervenções, demonstrou a inexistência de lógica, sem recorrer a quaisquer fórmulas matemáticas e utilizando apenas o saber empírico, de tal forma claro que toda a gente entendeu, incluindo a professora que lhe colocou a questão.

- Carlinhos, o que acha da lógica?

- Nada. Eu acho que não há lógica, senhora professora.

- O menino não está bem, Concentre-se, pense, deixe-se de parvoíces e responda.

- Mas eu posso demonstrar, senhora professora. Quando venho para a escola e quando regresso, toco nas campainhas de todos os prédios. Lógico seria que me chamassem o "toca campainhas".

- Claro!

- Não, senhora professora. Gritam "lá vem o malandreco do quinto andar".

A professora nunca mais falou sobre lógica, nem se deve ter esquecido da demonstração.

O Carlinhos manteve a sua pertinácia até aos dias de hoje e há-de voltar com outras, das muitas demonstrações de sapiência que guarda no seu "cofre-forte".

segunda-feira, 21 de junho de 2021

Verão

Se consultarem o calendário, verão que chegou o Verão; se ouvirem as rádios, virem as televisões e lerem os jornais, verão que chegou o Verão. Verão ainda que hoje, por força do solstício, é o maior dia do ano. 

Se forem à Foz do Arelho verão que o Verão não veio. Terá perdido o comboio? É possível. Se forem à estação, verão que, mesmo no Verão, os comboios são cada vez mais raros e demorados. E, se olharem bem, verão que, mesmo conseguindo um comboio que chegasse às Caldas, o Verão ainda tinha de apanhar um autocarro o que, verão, não é tarefa fácil nesta cidade nem tem nada a ver com o que se passa noutras. Verão, ainda, que o autocarro suportado pela Autarquia para transportar os admiradores do Verão, apenas funciona diariamente no mês de Agosto. Se consultarem o horário, verão que inicia os seus trajectos apenas às 11 horas, porque antes, como verão, nem vale a pena descer ao mar.

Mas voltando à Foz, se lá forem verão que o vento se mantém e verão, também, as bandeiras vermelhas desfraldadas (são 3), numa clara manifestação de gozo pelo que o Benfica (não) fez esta época. Verão ainda que a praia está mais limpa graças à nova máquina adquirida pela Autarquia, que irá trabalhar, a máquina, claro, durante todo o Verão, mesmo que ele não chegue, por estar assim determinado numa lei já bastante antiga, aceite por todos, sempre com a esperança de que o calendário se cumpra.

E verão meia dúzia de pescadores desportivos, a lançarem o isco para o mar revolto. E verão ainda um casal de velhos que, teimosamente, foram à procura do Verão e, talvez por dificuldades naturais da visão, não o encontraram.

Sejam resilientes, como agora se diz a propósito de tudo e de nada. De Verão ou de Inverno, vão sempre à Foz. Verão que vale sempre a pena e, algumas vezes, verão o Sol aparecer por entre o nevoeiro e verão, se levarem um termómetro, que a água, por vezes, quase atinge os 16 graus.

Não haja qualquer dúvida que a Foz vale sempre a pena. Não retenham do que ficou dito qualquer desistência. Nem pensar!

Se lá forem amanhã, verão que é Verão também na Foz.

Hoje era segunda-feira ...

domingo, 20 de junho de 2021

RESCALDO

Rescaldo - s.m. 1. calor reflectido de uma fornalha ou de um incêndio 2. cinza que contém brasa 3. acto de deitar água nas cinzas de um incêndio 4. cinzas lançadas por vulcão 5. aparelho para conservar quentes as comidas servidas à mesa 6. camada de estrume que se coloca em torno de um caixão com plantas para aquecer a terra pela fermentação 7. resultado de alguma coisa; saldo.

in Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa

Procurando bem e com alguma elasticidade, talvez se aplique a definição contida no número 7. e, mesmo assim, ficam algumas dúvidas. Assim sendo, o melhor é não fazer o rescaldo do que se passou ontem na capital alemã da cerveja e aguardar que as terras húngaras de Buda não tenham Peste e ajudem a recuperar o fôlego e a ambição de voltarmos a ir longe.

Na quarta-feira há mais, mas é e continuará a ser apenas um jogo de futebol, com três resultados possíveis, sendo o empate o mais provável, por ser com ele que tudo começa.

E nem o tempo ajuda! Um mergulho na Foz por dia, nem sabe o bem que lhe fazia!

sexta-feira, 18 de junho de 2021

EURO 2020


Decorre até ao próximo dia 11 de Julho o Campeonato Europeu de Futebol que, neste ano especial, também contém, ele próprio, algumas especificidades. Desde logo, realizar-se em ano ímpar, mantendo a designação Euro 2020, por a pandemia ter impedido a sua concretização no ano que lhe estava destinado. Não me recordo de alguma vez isto ter acontecido, mas o malfadado coronavírus tem transtornado tudo, até o futebol.

A minha memória, que já não é grande coisa se é que alguma vez foi, também não alcança qualquer outro Europeu que tivesse lugar em tantos países. São onze ao todo - Alemanha, Azerbaijão, Dinamarca, Escócia, Espanha, Hungria, Inglaterra, Irlanda, Roménia e Rússia - e que os jogos privilegiassem uns países em detrimento de outros. De facto, na fase de grupos, Alemanha, Dinamarca, Espanha, Holanda e Inglaterra, disputam os três jogos nos respectivos países, apoiados pelos seus adeptos e sem necessidade de deslocações. Há ainda três outros - Escócia, Hungria e Rússia - que também jogam em "casa", embora apenas por duas vezes. Os restantes  quinze, entre os quais Portugal, jogam fora do seu país e, ainda por cima, disputam dois jogos numa cidade e o outro num outro país.

Claro que a pandemia é a responsável por tudo isto e a UEFA garante que a competição será disputada em perfeitas condições de igualdade para todas as equipas, uma vez que, sem qualquer excepção, todos iniciarão os jogos com onze jogadores.

Assim, não há quaisquer dúvidas sobre as condições iguais para todas e, se porventura elas surgirem, o VAR estará a postos para tudo esclarecer.

quinta-feira, 17 de junho de 2021

Conversas e siglas

As conversas são como as cerejas, lembro-me sempre e bem. Nos tempos de escola e nos delas, aproveitávamos um qualquer furo para dar uma fugida à praça, ali a não mais de duzentos metros, e, descendo, tirávamos uma de cada banca, sob o olhar risonho e cúmplice das vendedeiras. Vinham sempre três ou quatro e, no final, quase enchiam o bolso.

Neste fim-de-semana, uma conversa de circunstância a propósito de pacotes de açúcar, relembrou variadíssimas coisas do "antigamente" que, para os mais jovens, terão proximidade à "idade da pedra".

- E os pacotes da SEMPA, lembram-se? E o que queria dizer SEMPA?

- Salazar Envia Militares para Angola. E, ao contrário, Angola Precisa de Militares Enviados por Salazar. 

- E ainda falta um ... Só Esta Mxxxx Para Adoçar.

Risada geral, perante a brejeirice do dito e a ignorância do mesmo por muitos.

Lembrei-me de muitas outras siglas cujo significado era alterado, à boca pequena. Havia expressões que os ouvidos sensíveis não toleravam.

PVT significava, oficialmente, Polícia de Viação e Trânsito, mas o meu pai ensinou-me, muito novo, que também podia ser Provadores de Vinho Tinto. Talvez fosse mais adequado e ele conhecia muitos ...

FNPT era a sigla de Federação Nacional dos Produtores de Trigo, instituição governamental que centralizava o armazenamento do cereal produzido para, depois, o vender aos que o moíam. As más línguas diziam que seria melhor chamar-lhe Fome No País Todo.

Quando se estranhava alguém "ao alto", a pergunta surgia:

- O que faz aquele?

- Trabalha na SAPEC.

A SAPEC era uma grande empresa de minas, adubos e outros produtos para a agricultura. A resposta informava os curiosos que aquele "braço de trabalho" executava a função não nela mas sim na Sociedade Anónima de Polidores de Esquinas e Calçadas ou, circunscrevendo à região, na Sociedade Anónima de Polidores de Esquinas das Caldas.

Há muitas mais, mas hoje ficamos por aqui, não vá aparecer alguém a querer saber o que significava GNR. 

quarta-feira, 16 de junho de 2021

Condução de risco

Um fim de tarde outonal, regado por uma violenta chuvada que apanhou toda a gente de surpresa. A estrada, larga, de paralelo granítico hoje em dia já raro, não convidava a velocidades e muito menos a travadelas bruscas. As primeiras chuvas após o Verão são sempre traiçoeiras e oferecem dissabores quando menos se espera. Todo o cuidado é pouco e uma distracção pode ser a "morte do artista".

Os recrutas saíam em magote do quartel, ávidos do aproveitamento de um pouco de sol discreto que havia surgido e da vida "civil" que a cidade oferecia. Era a rotina diária, quando não havia instrução nocturna. Um passeio antes do recolher, comer qualquer coisa diferente do rancho, ouvir outras vozes, conhecer a terra e apreciar as beldades.

A condutora deve ter ficado perturbada com tantos e tão garbosos jovens. O travão, as mãos ou o destino levaram a viatura a galgar o passeio e a colher sete militares. Poderiam ter sido setenta. Por sorte, foram apenas sete e nenhum em estado grave. Veio o Oficial-Dia, o Sargento da Guarda, o Comandante da Instrução e, claro, a PSP, para além da ambulância, que recolheu os feridos para a enfermaria.

Ninguém tinha dúvidas de que a culpa era da incúria da senhora. A tropa levantou o auto, a polícia instruiu o processo. Passados vários meses, o Tribunal marcou a audiência. Meia dúzia de testemunhas atestaram a normal excelência da condução da senhora, o Delegado pediu que fosse feita justiça, o causídico da defesa levantou-se e desenvolveu a sua tese em busca da absolvição da ré. A sua eloquência mostrou, à saciedade e à sociedade que o acidente apenas tinha acontecido exactamente por "acidente acidental" e nunca por inépcia da condutora. Talvez alguma deficiência técnica da viatura, algum obstáculo na estrada, qualquer coisa de imprevisível que não foi possível descortinar naquele momento. Todavia, de uma coisa não havia dúvidas: tinha sido a destreza e o sangue-frio da condutora a evitar uma tragédia. Aquele magote de instruendos, saídos do quartel sem os cuidados necessários e num tropel inconcebível, teria sido dizimado não fosse a perícia da mulher que estava ao volante. 

A absolvição pedida foi sancionada pelo Juiz, por não ter sido possível provar, em julgamento, negligência, insensatez ou culpabilidade. Na leitura da sentença, o Juiz não se esqueceu de recomendar à senhora que, ao passar pelo quartel, se não distraísse com a paisagem.

terça-feira, 15 de junho de 2021

EURO 2020

PORTUGAL - 3 / Hungria - 0

Com sofrimento, mas o primeiro já cá canta. E as fontes da nossa utopia enchem-se de esperança.

segunda-feira, 14 de junho de 2021

Sebastião

Preto, pêlo lustroso, cauda a abanar, olhos atentos ao que vai acontecendo à sua volta. Anda e ciranda, chamando a atenção e reivindicando as honras da casa. Quatro patas, orelhas meio caídas, nem o chamamento da dona, acompanhado de petisco visível, o afasta das visitas.

- Este cão ... está com medo da trovoada.

E não era para desprezar. Os relâmpagos iluminavam o céu e sucediam-se a um ritmo frenético. O Sebastião, encolhido, procurava o apoio das nossas pernas e dizia, lá na sua língua:

- Deixem-me ficar aqui. Não faço mal a ninguém, lá fora chove muito e eu tenho medo da luz.

Os clientes do hotel manifestaram agrado e carinho pela presença do animal, e a gerente ficou menos constrangida e não o pressionou mais.

- Adora estar cá dentro e quando vêm clientes novos, fica curioso e não arreda pé. Por vezes, afasta-se e pode estar três ou quatro horas sem aparecer. Mas volta sempre ...

Certo dia, um habitante fazia a sua caminhada e o Sebastião, preocupado, por certo, com a sua segurança, seguiu-o a alguma distância. Percorridos três ou quatro quilómetros, o homem chegou a casa e só então reparou que o cão o tinha acompanhado até ali. Conhecia-o bem e sabia onde morava. Já não lhe apetecia caminhar mais e resolveu pegar no carro, oferecendo um lugar ao Sebastião e trazendo-o de volta ao hotel. Aí chegado, abriu a porta do carro e o Sebastião, agradecido, saiu. Já estava nos seus terrenos e ficou por ali, a desfrutar mais um pouco de ar puro, sem pressa da hora de recolher. Alguém, de passagem, presenciou a cena e concluiu, de imediato, tratar-se de abandono de animal. Daí a telefonar para a GNR, comunicando o "crime" e a matrícula do carro do "insensível" ser humano foi um instante, talvez até usando o telemóvel ao volante. 

As autoridades vieram de imediato e encontraram o Sebastião ainda na rua. Confirmava-se o "crime" denunciado e era urgente contactar o "criminoso". A matrícula transmitida permitiu chegar-lhe depressa e ouvir a surpresa do homem, contando o que tinha acontecido.

Satisfeito com a duração do recreio e da actividade física, o Sebastião aproveitou a nesga da porta e instalou-se no "quarto" que lhe pertence e de onde esteve prestes a ser arredado, por uma denúncia anónima, apressada ... mas politicamente correcta.

domingo, 13 de junho de 2021

Livros (lidos ou em vias disso)

(...) Manhãs, dias, tardes, noites, madrugadas, dias, semanas, meses, anos. O Língua e o padrinho iam e vinham. Um ensinava, outro aprendia. O que havia para ser dito era dito, o que não, observando bem, também estava dito à sua maneira. Não só o padrinho e a madrinha, mas toda a gente entendeu que o menino era reservado, firme, de poucos lamentos e de poucas respostas. Ele assumiu a sua condição de escravo com uma altivez inédita na plantação. Se cá veio para, assim inteiro e tão menino, é porque quis. Isto pensava toda a gente. E esse quis não era vontade, era coragem. De modo que todas as perguntas foram dadas por respondidas e o mistério passou a fazer parte do grande património das coisas que os escravos nunca disseram, nunca dizem e nunca dirão.

Manhãs que passaram

Cada criatura tem a sua hora do dia e da noite. Mesmo com a Lua e com o Sol isso acontece. Também há peixes que dormem de dia e há plantas que acordam de madrugada. Há pássaros que cantam com o sol e há arco-íris de estrelas. A hora das crianças é a do nascer do dia. Sentem um sono pesado e uma ansiedade de se levantar que não sabem o que fazer. Era nessa hora que havia mais trabalho para os escravos. O Língua rezava com o padrinho e a madrinha e ficava à espera da primeira conversa da manhã. (...)

Biografia do Língua
Mário Lúcio Sousa
D.Quixote (2015)

sexta-feira, 11 de junho de 2021

Tolices da língua

A sede do concelho ficava a cerca de légua e meia do lugar onde morava. Os caminhos para lá chegar não eram nada agradáveis de percorrer, íngremes, cheios de socalcos, com pedra solta e barro com fartura, consumiam sempre duas horas bem medidas, a andar bem, claro. Só lá se deslocava para pagar a décima da casa e das duas courelas que lhe tinham cabido em herança, ou para qualquer outro assunto oficial a que não conseguisse escapar. À cautela, fazia os possíveis por não ter problemas com as autoridades, fechando-se no seu casulo e nas terras que lhe garantiam o pão.

Agora não podia adiar mais. A filha tinha nascido em Janeiro e já íamos Março dentro. Meteu-se ao caminho, com uma saca de serapilheira dentro do saco que levava a tiracolo. A saca de capuz era essencial para prevenir o Março, marçagão. 

Ainda não eram nove horas quando chegou junto à porta, fechada, do Registo Civil. Esperou, descansando da caminhada e aproveitando o sol que brilhava com intensidade. Talvez chovesse de tarde, para contrariar o ditado, mas a manhã estava linda. Um senhor assomou à porta, camisinha branca, gravatinha preta, colete com corrente de relógio e os manguitos de seda, também pretos, que davam distinção e prestígio à função.

- O que quer?, ouviu sem sequer ser antecedido de um bom dia, como sempre acontecia lá no lugar. Paciência, pensou, as pessoas importantes não perdem tempo com ninharias ...

- Venho dar a minha filha ao "registro" ...

- Quando nasceu?

- Faz hoje dois meses.

- Já devia ter vindo. Agora tem de pagar cem escudos de multa.

A cara de espanto deve ter comovido o funcionário.

- Há uma forma de não pagar a multa. Declara que a rapariga nasceu a 13 de Fevereiro e fica resolvido.

- 'tá bem. Se pode ser assim ...

- Como se chama a mãe?

- Maria da Visitação.

- E o pai?

- "Jaquim" Piedade.

- E a miúda?

- Sei lá ... olhe, "prante-lhe" Ana, que é o nome da avó. 

Pagou o que lhe foi pedido, com gorjeta, e recebeu a ordem para voltar daí a quinze dias, a recolher a cédula.

Os anos passaram. A miúda fez-se mulher, com o suplício do registro sempre presente.

- Como se chama?

- Prantelhana da Visitação Piedade.

- Nome esquisito ... e quando nasceu?

- Parida a 13 de Janeiro, mas no papel consta 13 de Fevereiro de 1940.

quinta-feira, 10 de junho de 2021

Dia de Camões

José Mário Branco cantando um soneto de Camões, ao qual acrescentou um refrão para reforçar a ideia.

De manhã, aproveitando o feriado e porque já vamos com um terço de Junho cumprido, calcei os chinelos e fui até à Foz. O areal ainda se mantém com a sujidade do costume mas, lá ao fundo, na zona onde irão ser instaladas as barracas, uma máquina começa a endireitar a areia e a limpar as canas, os plásticos, as caixas de anzóis, as garrafas de cerveja, e muito outro lixo que continua a "nascer" na praia, seguramente de "geração espontânea".Passeio junto à Lagoa, a caminho do mar, aproveitando bem o ar puro que o vento transporta e sem ver o sol, que ainda dormita bem lá atrás das nuvens. Vem a onda, fraca, molha os pés, e ouve-se a voz do mar:

- Trouxeste o gin?

- Claro que não. Vinha dar um mergulho!

- Fizeste mal. Com este gelo que tenho dentro de mim, fazíamos um brinde ao Camões.

O melhor é continuar na areia, que o "frigorífico" está ligado no máximo ... 

P.S. - Soube-se hoje que a Câmara Municipal de Lisboa "bufou" a Moscovo os dados pessoais dos organizadores de uma manifestação levada a cabo no passado dia 23 de Janeiro. Apesar das desculpas públicas de Fernando Medina e da atribuição das culpas à burocracia, custa muito ouvir que, quase 50 anos depois de 1974, ainda haja no país quem ache normal "entalar" alguém em nome da BURROcracia.

quarta-feira, 9 de junho de 2021

Livros lidos e lembranças

Talvez alguém tenha reparado na rapariga que viveu na Rua do Loreto, na paragem do 28. Não dizia coisa com coisa. Ele, o combatente, estacionava carros ruas abaixo, na António Maria Cardoso. Ter-se-ão cruzado ou não, terão conversado ou não, foram contemporâneos como duas árvores, dois cães vadios, dois actores, são contemporâneos. Ele andava sempre de manga curta, nunca tinha frio. Ela vestia uma longa saia, camisolas negras e rasgadas. Tapava-se com caixotes. Dormia à chuva. Quem sabe se notavam que mudávamos de passeio para os evitar, mudar de passeio no qual ia a nossa morte e não a sua.(...)

Maremoto
Djaimilia Pereira de Almeida

Nunca vivi, felizmente, na paragem do 28 da Rua do Loreto, mas utilizei-a muitas, muitas vezes. Morava na Damasceno Monteiro e trabalhava no Largo do Calhariz. O 28 era o transporte que utilizava, por ser o mais barato e o que me punha no trabalho e em casa, sem transbordos nem grandes distâncias a pé. 

Logo pela manhã, subia até ao Largo da Graça, cumprimentando a vizinhança, tomava a bica na Parreirinha e aguardava a chegada do amarelo, que subia a Voz do Operário tilintando a avisar o perigo que representava a sua enorme velocidade. Mal parava, o guarda-freio mudava a alavanca da, até aí, frente, para a traseira, que passava, agora, a ser a frente, enquanto o "pica" alterava as meias-portas, fixando as ripas no lado contrário e libertando as do lado que, em seguida, seriam utilizadas. Depois, um deles rodava o letreiro enquanto o outro, cá fora, indicava quando os Prazeres substituíam a Graça no visor electrónico

Tudo gostoso, como diria, sorrindo, qualquer brasileiro. Ter prazeres e graça de seguida não é nada fácil, mas é salutar.

Os utilizadores normais, que tinham bilhete, entravam pela porta da frente e sairiam pela traseira, quando chegasse ao seu destino, fosse ele Prazeres ou qualquer outro. Usufruíam, nessas inolvidáveis viagens, de um transporte não poluente e beneficiavam do ar condicionado ao tempo que fazia cá fora, sem alterações que contribuíssem para alguma incómoda constipação ou gripe. A chuva entrava pelas meias-portas como "cão por vinha vindimada", molhando o piso, os bancos, a manga do casaco do guarda-freio e até o seu boné. O "pica" encolhia-se no corredor, sabendo que, lá mais abaixo, no final da Calçada de S. Vicente, teria de saltar e, com a ferramenta adequada, fazer a mudança da agulha. Ansiava que a chuva apanhasse outro eléctrico até este lá chegar!

Os penduras utilizavam os confortáveis lugares na parte de fora, lá atrás, nas portas fechadas, nos estribos, bem encostadinhos ao amarelo, não fosse a parede, distraída, roçar as suas costas e tirar-lhes a pintura. E saltavam em andamento, com uma agilidade que deixava o pica sempre a meio da frase

- Sai ... daí.

Já lá não estavam!

As coisas que a gente se lembra por associação de ideias.

terça-feira, 8 de junho de 2021

segunda-feira, 7 de junho de 2021

Palavras bonitas

                                    TOADA DO LADRÃO

A mim não roubaram                                           que a não trocaria
porque eu nada tinha.                                          por coisa nenhuma;
Mas roubaram tudo                                              que filhas assim
à minha vizinha.                                                   havia só uma.

Vejam os senhores:                                               Pois hoje um ladrão
Roubaram-lhe a ela                                              Que há muito a mirava
a filha mais grácil,                                                entrava-lhe em casa
a filha mais bela.                                                   p'ra sempre a levava.

Nem na sua casa,                                                  E a minha vizinha
nem na freguesia,                                                  dona de solares
sequer no concelho,                                              e de longas terras
melhor não havia.                                                 com rios e pomares,

Prendada, bonita ...                                              e de jóias raras
E, depois, uns modos                                            que ninguém mais tinha,
de matar a gente,                                                  ei-la num instante
de prender a todos.                                               pobrinha... pobrinha...

Dizia a vizinha                                                      (Tem pomares ainda,
que era o seu tesoiro;                                           tem jóias, tem oiro ...
que valia mais                                                      Mas de que lhe servem
que a prata e que o oiro;                                      sem o seu tesoiro?)

                                     - Vizinha e senhora,
                                    não me queira mal!
                                    Se há ladrões felizes,
                                    sou o mais feliz
                                    que há em Portugal.
Campo Aberto
Sebastião da Gama
Edições Ática (1999) 

domingo, 6 de junho de 2021

Pinhal

Manso, como convém a quem se quer instalar sem perturbações nem constrangimentos, o pinheiro cresce arredondado, na companhia de outros iguais ou com diferenças muito ténues. Não dá nas vistas, é apenas mais um do conjunto que, ao longe, forma uma bonita e vistosa mancha verde, convidativa, repleta de sinais de unanimidade, guardada pelo moinho, vigilante, que lá do cimo tudo controla e mantém na linha.

Lá ao longe, do outro lado, o bravo que "em verde e oiro se agita" domina o horizonte, atento ao vento e ao que se passa em volta, balança, ondeia, barafusta, contraria, discorda, refila, contesta, grita, gesticula. Está isolado mas isso não o impede de sentir a injustiça do vento que o fustiga, do sol que o atinge em cheio, da ausência de chapéu que o proteja, da violência da chuva que o encharca do cocuruto às raízes. Mas resiste, resiste sempre, à espera que outros cresçam, o apanhem e acompanhem.

Um dia, quem sabe, talvez os mansos deixem de estar acomodados no sossego e os bravos se reproduzam e se tornem os suficientes para que o pinhal seja mais forte, do alto da sua razão.

sábado, 5 de junho de 2021

Livros

Ler é um acto que exercito, diariamente, há muitos, muitos anos. Poucas ou muitas, há sempre algumas páginas que preenchem o meu dia a dia e me desafiam. Também o vício de comprar me acompanha, não com a mesma regularidade, felizmente para a carteira. Ainda assim, já não conseguirei ler todos os livros que comigo habitam.

Há algum tempo - talvez um mês, por aí - participei num encontro via Meet, com pessoas das minhas relações mas não das que conhecem a casa e a frequentam. Era o tablet que servia de suporte à conversa e, a meio, surgiu no ecrã o aviso, vermelho, de que a bateria carecia de carregamento. No escritório, a única tomada livre estava longe e o carregador não lhe chegava.

Mudei de sala e, quando assentava novos arraiais, um dos participantes, mais perspicaz, atento ou curioso, comentou:

- Ena, pá, tantos livros. São verdadeiros? 

Não imaginava que pudesse haver falsos mas, pelos vistos, será hoje possível apresentar um móvel a fazer de conta, para encher o "olho" da câmara e dar um ar importante. Respondi que sim, eram verdadeiros, e apenas uma parte dos que existiam cá em casa. 

Apercebi-me dos sorrisos e arrependi-me de imediato. Há coisas que é preferível ignorar e não comentar. 

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Jardim

De novo a rega automática montada, para garantir que a gota abastece as plantas e as fortalece, sem a presença ou intervenção humana.

No início não queria funcionar. À primeira vista, tudo parecia em condições, não se descortinando qualquer falha no equipamento ou na montagem. Todavia, o sistema queixava-se de qualquer coisa estranha, que o incomodava e o fazia negar-se a funcionar bem.

O material tem sempre razão ... o filtro estava sujo da inactividade e, como não conseguia lavar-se sozinho, pedia ajuda.

Lavou-se, limpou-se, montou-se ... já se pode ir passear, que a vida das plantas fica garantida, mesmo que o S. Pedro, por excepção, envie muito calor para o Oeste.

quinta-feira, 3 de junho de 2021

Lagoa

Há tubos, bóias, jangadas, operários, uma draga em pedaços, a ser montada como se de um Lego se tratasse, uma azáfama grande, mesmo em dia santo. O tempo urge e é inclemente.

A curiosidade sobre o sítio onde irão ser despejadas as areias dragadas é grande mas, por enquanto, o local permanece no "segredo dos deuses" ou inacessível ao cidadão mal informado sobre os corredores do poder.

Nos últimos anos, a dragagem da Lagoa tem sido recorrente mas o assoreamento continua sem fim à vista. Os técnicos, que sabem disto a sério, dizem que não há cura definitiva e que apenas se consegue mitigar os danos inexoráveis do tempo; os conhecedores da Lagoa afirmam, com o saber empírico da experiência e do conhecimento diário daquelas águas, que a solução passa pela abertura de um canal profundo, da Aberta até ao Braço da Barrosa, para que o efeito das marés atinja toda a extensão da Lagoa.

A ver vamos! Este ano, uma vez mais, haverá constrangimentos para os habituais "clientes" da praia da Lagoa. A mim, que sou "cliente" fiel da do Mar, não me deverá fazer diferença. Egoísta!!!

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Tempo

" Nascemos únicos e morremos cópias"

Não me lembro se ouvi ou li, mas espero que o autor me perdoe a ousadia de utilizar sem referir a fonte e sem autorização. A idade já me dá direito a estes luxos, que não devem ser copiados e que merecem sempre reparo.

A manhã de hoje teve "conversa de velhos", a propósito dos pequenos títeres que a pandemia trouxe, permitindo que gente sem o mínimo de condições e com propensão para farsante, abra a boca e, como não entra mosca, deite cá para fora asneira da grossa.

- Aqui quem manda sou eu!

E vamo-nos calando, os velhos porque já lhes falta a paciência e sobra-lhes a dificuldade em serem ouvidos, e um bom punhado dos mais novos, porque sim. A opinião (ainda) é livre e o direito à asneira está a querer prevalecer em detrimento da busca do melhor caminho, da boa solução, do que interessa a todos. Grita-se muito, comenta-se muito, gosta-se muito e ... cala-se (já) muito.

Nascemos únicos ...

A pouco e pouco vamo-nos dobrando ao que não se deve dizer, que é feio, ao que não se pode fazer, que fica mal, à escolha da mesma rua, porque toda a gente a escolhe.

... e morremos cópias.

Assim, vamo-nos tornando presas fáceis de um qualquer "gritador", que não terá dificuldade em arranjar um modelo de chapéu para servir na maioria das cabeças.

... Sei que não vou por aí!