quinta-feira, 23 de abril de 2020

Liberdade e Poesia

Daqui, desta Lisboa

Daqui, desta Lisboa compassiva,
Nápoles por suíços habitada,
onde a tristeza vil e apagada,
se disfarça de gente mais activa;

daqui deste pregão de voz antiga,
deste traquejo feroz de motoreta
ou do outro de gente mais selecta
que roda a quatro a nalga e a barriga;

daqui, deste azulejo incandescente,
da soleira de vida e piaçaba,
da sacada suspensa no poente,
do ramudo tristolho que se apaga;

daqui, só paciência, amigos meus!
Peguem lá o soneto e vão com Deus ...

Alexandre O'Neill

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Liberdade e Poesia

Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.

Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.

Entretanto, deixai que me não cale:
até que o mundo fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.

A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a sua dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.

Carlos de Oliveira 

terça-feira, 21 de abril de 2020

Liberdade e Poesia

Liberdade, onde estás? Quem te demora?
Quem faz que o teu influxo em nós não caia?
Porque (triste de mim)! porque não raia
Já na esfera de Lísia a tua autora?

De santa redenção é vinda a hora
A esta parte do mundo, que desmaia:
Oh! Venha ... Oh! Venha, e trémulo descaia
Despotismo feroz, que nos devora!

Eia! Acode ao mortal, que frio e mudo
Oculta o pátrio amor, torce a vontade,
E em fingir, por temor, empenha estudo:

Movam nossos grilhões tua piedade;
Nosso numen tu és, e glória, e tudo,
Mãe do génio e prazer, oh Liberdade!

Manuel Maria Barbosa Du Bocage

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Liberdade e Poesia

No final desta semana comemoram-se os 46 anos da revolução do 25 de Abril, que trouxe a todos, entre muitas outras coisas, a liberdade de expressão sem censuras e sem peias, mesmo para dizer asneiras e aldrabices. 
E porque, como dizia Sophia, "a poesia está na rua", esta semana será por aqui dedicada a uma colectânea de sonetos organizada por José Fanha e José Jorge Letria, e publicada pela já desaparecida editora Terramar, em 2002.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam mágoas na lembrança,
e do bem - se algum houve - as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e enfim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia, 
outra mudança faz de mor espanto:
que não se muda já como soía.

Luís Vaz de Camões

sábado, 18 de abril de 2020

Quotidiano

A quarentena tem sido um manancial de aquisição de conhecimentos e espero que assim continue. No final disto tudo, tenho de decidir a quem devo submeter a tese de "doutoramento virtual" abrangente.
No Facebook sabe-se e discute-se tudo; o Instagram segue o mesmo caminho e os vídeos, textos, discursos, enviados pelo Messenger, são carregados de sapiência e de certezas.
Discute-se e opina-se sobre tudo (sim, separado, se não era casacão) desde a queda do PIB aos "coronabonds", a permanência de Centeno e as moratórias, a burocracia do crédito e as garantias, o dinheiro que não chega, as comemorações, o "pico" e o "planalto", os ventiladores e as máscaras, a vacina que há-de chegar e o medicamento que já aí está, sempre com eloquência e certezas que não  se vislumbram quando se ouvem as pessoas que estudam o problema. Enfim ...
Hoje o tema ainda é mais arrasador: vamos ou não à praia no Verão? Podemos marcar as férias? As praias terão senha a determinar a vez de ir ao banho? E quantos poderão estar na água? E no chapéu? Haverá filas e distância profilática para o areal? Não seria conveniente haver legislação que determinasse o tamanho da toalha?
Rendo-me e vou "dar a coxa à Caparica".

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Quotidiano

Na (minha) instrução primária faziam-se ditados. 
A professora ou, na primeira classe, algum colega da quarta, ditava textos com palavras cada vez mais complicadas, à medida que a aprendizagem ia evoluindo e as classes também. 
A professora corrigia e, no próprio dia ou no dia seguinte, obrigava a repetir as palavras erradas, dez, vinte, cinquenta vezes, conforme achava que o erro era recorrente ou resultava de distracção pura.
Não fui muito penalizado com estes castigos - presunção e água benta, cada um toma a que quer ou, de outro modo, gaba-te cesto que amanhã vais à vindima - mas lembrei-me disto hoje, quando assistia à conferência habitual da Direcção Geral de Saúde.
Coitada da pobre senhora: todos os dias tem de repetir frases inteiras já ditas e reditas anteriormente.
É mesmo castigo "à antiga".

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Quotidiano

Hoje, o dia fica marcado pela notícia da morte de dois grandes da literatura. 
Rubem Fonseca, um excelente escritor brasileiro, foi vítima de um enfarte do miocárdio, que o levou poucos dias antes de completar a bonita idade de 95 anos.
Luís Sepúlveda foi, aos 70 anos, mais uma vítima do coronavírus. O escritor chileno, que residia em Espanha há muito - a ditadura de Pinochet obrigou-o a abandonar o país -, era grande amigo de Portugal e esteve no Correntes d'Escritas em Fevereiro deste ano, onde participou numa mesa intitulada, curiosamente ou talvez não, "Era uma vez a liberdade".
Fica por aqui o registo do desaparecimento de dois grandes escritores, cujos livros nos continuarão a fazer companhia.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Quotidiano

Ainda não foi hoje que fui à Foz!
As recomendações das autoridades para os grupos de risco, as chamadas de atenção familiares para a minha normal rebeldia, obrigam-me a ser cordato, obediente e educado ou, como se dizia em tempos longínquos de má memória, atento, venerando e obrigado.
Cumpro, respeitosamente, as ordens da senhora Directora Geral de Saúde (não consigo escrever DGS), por entender que é o melhor para todos, incluindo para mim, que pertenço ao grupo de risco, e por entender que a senhora merece ter esta  modesta compensação, pelo enorme esforço que tem feito.
Este mês deve ter sido o mais comprido de toda a sua vida e isso está bem expresso na sua cara, quando, diariamente, nos entra pela casa. É visível o cansaço, que deixa marcas, mas também a paciência de JO que evidencia perante algumas perguntas (im)pertinentes.
Não quero ser ave de mau agoiro, mas estou convencido que, no final, será ela o "guarda-redes". Se não houver golos, não fez mais do que a sua obrigação; se correr mal, via-se logo que ia haver "frango".
Continue a mandar, Doutora Graça Freitas, que quem decide será sempre criticado.
"Os cães ladram e a caravana passa", diz o velho adágio.

terça-feira, 14 de abril de 2020

Quotidiano

Quando, de manhã, tudo indicava que iria ser mais um dia sensaborão, sem nada para registar ou apelar aos sentidos, eis que, afinal, Abril uma vez mais surpreende.
Ainda não são seis da tarde e o Sol já aqueceu, o vento já soprou, a chuva já molhou (e bem), já relampejou, muito, e trovejou, ainda mais.
Se mais não houvera, já seria suficiente para que o dia não fosse mais um normal da ... quarentena.
Houve mais: o melhor foi ver duas fotografias, lindas, do meu neto mais novo, atentíssimo no regresso às aulas.
Depois disto, tudo o resto é pouco importante mas, ainda assim, li a indignação de Rui Moreira, presidente da Câmara Municipal do Porto, contra uma pseudo-análise da TVI sobre o número de infectados no Norte do país,  que tem, na douta opinião do autor, a "população menos educada, mais pobre, envelhecida e concentrada em lares"; o director da estação já veio pedir desculpas pela "enormidade" mas, tenho para mim que o autor deve ser um daqueles iluminados que acham que, após Vila Franca, tudo é provinciano e vive atrás da moita.
Como tinha tempo livre, ainda fui à Culturgest espreitar uma exposição, assisti a um concerto de Chico Buarque, li uma quantas páginas do Adeus às armas, de Ernest Hemingway, e recebi, pelo correio, um livro enviado pelo meu amigo ADS - Uma aventura inquietante, de José Rodrigues Miguéis - numa edição de 1963, que conto ler assim que terminar o referido antes.
E, para que o dia ficasse completo e não fugisse à rotina, tomei o pequeno almoço, conferi a conta do banco, lavei as mãos muitas vezes, vi notícias na TV, li jornais online, almocei, não dormi a sesta, lanchei, resolvi palavras cruzadas e Sudoku do Público e ainda conto jantar.
Bolas!!! Esta vida é muito cansativa e desgastante!

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Auto de São Martinho

O Teatro da Rainha disponibilizou a gravação do Auto de São Martinho, de Gil Vicente, que levou à cena em Maio de 2017 no Largo do Hospital Termal, num espectáculo a que tive a oportunidade e o gosto de assistir.
Numa altura em que os espectáculos são apenas miragens, é bom recordar, ainda que não haja nada que substitua o calor da vivência do momento.
Mas, em tempos de "fome", valha-nos "sopa requentada" de tão boa qualidade!

Quotidiano

Palavras pertinentes e sempre actuais ... há um mês que não vou à Foz do Arelho, ver o mar!

domingo, 12 de abril de 2020

Quotidiano

O momento que vivemos é único nas nossas vidas e deixará marcas para sempre. É um lugar comum mas, dificilmente, mesmo os mais novos deixarão cair no esquecimento um tempo tão marcante e tão inesperado. 
Hoje, Domingo de Páscoa, houve almoço virtual que juntou a família à mesa, cada um em seu recanto, com tudo e sem nada em comum. Daqui por muitos anos, os netos recordarão a escola, o "exílio", o almoço, os chocolates partilhados em rede, as dificuldades com a posição das câmaras para se conseguirem as melhores imagens - não vejo os teus olhos - tudo o que os mais velhos não esperavam que acontecesse e muito menos contavam viver.
Depois de tudo isto bem mastigado e digerido e de ver, uma vez mais, o Papa sozinho na igreja que costuma estar cheia, sento-me na secretária e ligo o computador. 
Vou assistir, em directo, a um espectáculo de Andrea Bocelli, a partir da Catedral de Duomo, em Milão, na vergastada Itália.
Bocelli canta Música pela Esperança e aquilo que, em circunstâncias normais, seria um concerto com igreja cheia, foi, afinal, um cenário onde duas pessoas - cantor e organista -, enormes, se mantiveram a um nível impressionante e a deixarem claro que o homem tem e terá sempre força para resistir às adversidades e seguir em frente, rumo a um futuro que se espera melhor e será sempre diferente.
As pálpebras cerradas de Andrea Bocelli transmitem-nos a confiança de que a luz, um dia destes, vai surgir.

sábado, 11 de abril de 2020

Quotidiano

O confinamento "obriga" a uma maior atenção ao que se passa em casa e no jardim. 
Os olhos estão mais abertos e qualquer alteração salta de imediato.
Os limoeiros estão carregados e a laranjeira cheia de flor. A glicínia já mostra os seus grandes cachos violeta e o seu aroma peculiar começa a sentir-se. As strelitzias mantêm a sua beleza durante todo o ano mas, nesta altura, ainda se apresentam mais bonitas, para não perderem a corrida primaveril. 
O hibisco mantém disputa acesa com a cameleira e as roseiras, embora rindo-se ainda pouco, já vão dando um ar da sua graça, que é muita. 
Mais prosaicos, os tomateiros, a salsa, os coentros, as alfaces, os pimentos e os morangueiros, uns mais do que outros, aprestam-se ou já vão indo para a mesa, para serem saboreados sem companhia, que o tempo não vai para refeições com mais de duas presenças.
O bonsai está entusiasmado e o jasmim já trepa, verdinho, pelo algeroz. Há mais flores, arbustos, árvores de pequeno porte, e a excepção jacarandá, enorme, mas ainda sem flores.
Apesar disto tudo, há surpresas agradáveis, que agora chegam sempre que o Sol aparece. 
As abelhas invadem o escovilhão, limpa-garrafas ou, mais cientificamente, o(a) Callistemon Rigidus. Está lindo, de um vermelho único. As abelhas trabalham nele que nem desalmadas, sugando o pólen das suas flores. Pacíficas, não nos ligam nada, mesmo quando nos encostamos à árvore. Aparecem de repente, assim  que o Sol descobre e abalam tão depressa como chegaram. 
Não faço ideia se estão "domesticadas" por algum apicultor ou se são livres de tutela. Mas que são bem-vindas, são!

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Matar o bicho

Antes de chegarem ao trabalho já tinham passado pela tasca e bebido, de um trago, um copinho de aguardente, ou melhor, de bagaço, como toda a gente dizia.
- Bom dia, já mataste o bicho?
Era o cumprimento para os que aguardavam a chegada do caseiro, a quem cabia determinar o trabalho do dia. Enxada às costas, botas gastas, camisa de cor indefinida pela sujidade, boné enfiado na cabeça, atilho de cordão a segurar as calças, aguardavam a escolha, sempre com a esperança de não serem rejeitados.
Esperava-os um dia a cavar vinha, a semear trigo ou a ceifá-lo, a plantar bacelo, a sachar milho, e tantas outras tarefas agrícolas que caíram em desuso e foram (ainda bem) substituídas pela maquinaria.
A jorna, parca, era paga no final do dia de sábado e correspondia, apenas, aos dias de trabalho ou a parte deles, se o tempo obrigasse o rancho a levantar. Podiam ganhar um, dois ou três quartéis. Se a chuva só obrigasse a acabar na última parte do dia, o pagamento era integral. Daí que, muitas vezes, sob a chuva inclemente, ainda se ouvia:
- Quem aguentou meio dia, aguenta o resto! 
E o caseiro lá condescendia.
Podar e empar eram trabalhos especializados, feitos por aqueles que tinham aprendido e podiam exigir uma melhor paga, por serem poucos e os trabalhos terem um tempo próprio e urgente para serem realizados. A poda exigia conhecer bem as características da cepa ou da árvore, e saber quais os ramos a cortar, de modo a não comprometer a produção futura. A empa, nas vinhas, exigia ainda mais habilidade e aquela voltinha redonda obrigava a cuidado extremo, para não se partir. Tinha de ser regada com bom vinho e não com a a água-pé do rancho, e o dia, para estes especialistas, terminava antes do Sol se pôr, ainda a tempo de chegarem à tasca e, com o mesmo "comprimido" da manhã, confirmarem que o bicho estava morto e bem morto.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Quotidiano

Não há nada para dizer, não se passa nada, a paisagem mantém-se, o tempo está melhor que ontem, ninguém passeia na rua, os cães não ladram, a caravana não passa, a cidade circunscreve-se ao quintal e a ida ao café ao móvel onde está a máquina caseira. Os contactos virtuais e as respectivas conversas resumem-se ao trivial, como estão, não há novidades, por aqui está tudo bem, felizmente, por enquanto, vá-se lá saber, mas espera-se que não nos/vos aconteça nada, tenham cuidado, distanciem-se, falem ao longe, fechem-se em casa, e os números, que horror, não param de subir, mas nos outros países é bem pior, vejam a Espanha, e a Itália?!, e os Estados Unidos, tanto que o Trump "gozou" com o vírus chinês e agora, olha, até o do Reino Unido, o Boris loirinho, está internado e, no Brasil, viste, a miséria nas favelas, e na Venezuela, a mesma coisa, já há muita gente a passar fome, de certeza, mas tenhamos esperança, tudo vai passar e ficar bem.
O carteiro vem cedo, diz bom dia ao longe e deposita o correio em cima do muro, que não vale a pena colocá-lo na respectiva caixa, se estou ali. Traz a correspondência, pouca, que já lá vai o tempo em que tudo era tratado por carta, até os namoros. Ao dar a volta à motinha, eléctrica, diz que volta amanhã, que é dia da Visão e a da Gazeta.
"O carteiro não tem culpa, é a sua profissão", cantava o Conjunto António Mafra lá pelos idos de sessenta, do século passado, numa canção que viria a ser "roubada" pelo Sérgio Godinho já quase no fim desse mesmo século.

terça-feira, 7 de abril de 2020

Quotidiano

Uma mudança no visual do blogue, que fica agora carregado de verde, simbolizando a esperança de que isto acabará em breve e que a nossa vida, "escada sem corrimão", volta à normalidade.

Abril é, há 46 anos, o mês da Liberdade. Se, em 2020, não nos trouxer novidades a 25, ao menos que traga a 30. Mais cinco menos cinco pouco importa!

ESCADA SEM CORRIMÃO

É uma escada em caracol
e que não tem corrimão.
Vai a caminho do Sol
mas nunca passa do chão.

Os degraus, quanto mais altos, 
mais estragados estão.
Nem sustos nem sobressaltos
servem sequer de lição.

Quem tem medo não a sobe.
Quem tem sonhos também não.
Há quem chegue a deitar fora
o lastro do coração.

Sobe-se numa corrida.
Correm-se perigos em vão.
Adivinhaste: é a vida
a escada sem corrimão.

David Mourão-Ferreira
Obra Poética
Editorial Presença (1988)

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Quotidiano

Furei a quarentena e ninguém deu por isso!
Não comprei bilhete, não pus combustível no carro, não paguei portagens nem tive dificuldade em arranjar lugar para o carro.
Na A8 não havia trânsito algum. Ponte de Frielas e a Calçada de Carriche estavam escancaradas. O Eixo Norte-Sul estava limpo e arejado e a chegada à Praça de Espanha deu-se num instante.
Como em tantas outras vezes (a última foi em Fevereiro, para ver Luísa Cruz na Criada Zerlina), o Teatro Aberto estava à minha espera. 
Desci a escadaria, como sempre. Desta vez não sabia se a peça era na Sala Azul ou na Sala Vermelha, mas as indicações eram claras.
Liguei o botão, aguardei um pouco, abri a página, coloquei os auscultadores, ajeitei-me na cadeira e vi o teatro, aqui.
Não teve o mesmo sabor, mas vale sempre a pena ir ao Teatro.
P.S. - A peça chama-se Vermelho, foi escrita por John Logan e, aqui, teve encenação de João Lourenço e interpretação de António Fonseca e João Vicente.

domingo, 5 de abril de 2020

Quotidiano

Hoje era dia de ir à Foz, mas o homem ainda não está a alugar barracas, estava a chover e não me apeteceu. Tudo razões válidas para ficar em casa, sossegadinho, bem comportado e cumpridor!
A quarentena assim o determina, mas que gostava de lá ter ido, lá isso gostava. Só para tirar uma dúvida: a gaivota ainda por lá estará?


sábado, 4 de abril de 2020

Quotidiano

O sábado caminha para o fim, num início de fim de semana cinzento, como o dia a dia que vamos vivendo. Nuvens, alguns pingos de chuva e os números da nossa angústia, que chegaram pela hora do almoço, repetidos até à exaustão.
Amanhã teremos nova estatística oficial, agravada pela certa, e com mais um passo para o esgotamento de quem trabalha "de sol a sol" e de "noite a noite" para que os doentes sobrevivam e se curem.
Entretanto, ouviremos debates, divagações, certezas, dissertações, sobre a necessidade de conhecer o dia do fim com exactidão, talvez para ser possível programar o directo com antecedência, registando as opiniões sabedoras de "eu não vi, mas disseram-me".
Valha-nos a poesia, que lava o espírito e até serve de alimentação, como dizia a grande Natália Correia.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Humildade

"Eu falo porque sou um velho, tenho 85 anos... E se alguma coisa há é a obrigação de dizer aos outros que isto já aconteceu, que se ultrapassou, que vai ser ultrapassado. Nós, os velhos, vamos dar o exemplo. Não saímos de casa, recorremos sistematicamente aos cuidados que nos são indicados e quando chegarmos ao hospital, se for necessário, oferecemos o nosso ventilador ao homem que tem mulher e filhos".
General Ramalho Eanes
Entrevista à RTP 1 - 01.04.2020


E não foi mentira, apesar de ser o dia delas. Eu vi e os olhos quase que me "deram banho".
Bastava esta frase para valer a pena ouvir, mas ainda disse muitas mais coisas que arrepiaram, de entre elas uma  que me recordou tempos idos: "O militar está sempre de serviço. Se for preciso, dorme no seu posto."

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Quotidiano

(...)
Ai socorro
Ai que eu morro
Livra que nos fomos logo a pique
E subitamente ao fundo
Com um negro pela mão
Tão pasmado e caladinho
Mas lá por dentro a cantar o cantochão.

Por mais que se ouça e se veja, por mais que opinem e divirjam os "sabões", a esperança de que tudo vai passar mantém-se viva, tal como a confiança naqueles que, sem alardes, trabalham todos os dias para que nos mantenhamos à tona e o amanhã seja melhor que o ontem.

E havemos de cantar/contar "de um miserável naufrágio que passámos".

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Melros

Passa todos os dias pelo jardim.
Primeiro, pousa no telhado fronteiro, averigua os perigos e, de repente, ei-lo que pousa na relva, ciranda, debica, saltita, sempre de olhar atento não vá surgir algo ou alguém que o possa colocar em perigo, real ou imaginado.
Ao mínimo som ou aparição, ei-lo que parte, com o silvo habitual e o voar inconfundível, bem distinto de todas as outras aves.
É o melro que é um "melro". Esperto, frio, atento, desconfiado. Arrisca sem medo, com cuidados metódicos e quase sempre sozinho.
Ao contrário do que acontecia dantes, os melros tornaram-se habitantes da cidade e, tal como os pardais, já fazem parte da "mobília" citadina. Não se agrupam e os convívios sociais são reduzidos ao mínimo. Vivem quase em permanente quarentena, mas não consta que possam ser contagiados pelo coronavírus nem obrigados ao confinamento. Gozam de liberdade plena e sem receio que a autoridade os possa interpelar para saber se vão para o trabalho, para a mercearia ou para a farmácia.
Com toda esta liberdade de movimentos, espera-se que da sua habituação e integração na cidade, não resulte a transmissão dos seus defeitos e que os humanos não se tornem uns "melros" mais desconfiados, mais frios, mais individualistas, mais calculistas, e que sejam solidários, agora e no futuro, se e quando as coisas se complicarem ainda mais.
E que, tal como o melro, os "melros" deixem de cuspir para o chão ...

terça-feira, 31 de março de 2020

Quotidiano

Amanheceu a chover, esteve frio, o sol surgiu agora, envergonhado ou medroso, trazendo o aviso de que se não vai demorar muito por aqui.
As alterações do clima parecem competir com a disposição que vamos sentindo ao longo do dia.
Tanta coisa para fazer! Ainda não fiz nada! 
O planeamento a fazer lembrar o "tableau de bord" dos tempos dos objectivos, dos números, dos relatórios, das justificações. Que digo eu? Estou a perder o tino ou a sonhar acordado?
Nada disso! Os dias, afinal, são muito grandes e as horas demoram uma eternidade a passar, apesar de amanhã já ser Abril.
Sentimentos e opiniões contraditórias: tão depressa acho que o tempo passa a correr como decido, logo a seguir, que demora muito a passar.
Quem me entende?

segunda-feira, 30 de março de 2020

Quotidiano

A hora mudou, o mês está quase a mudar, a Primavera chegou, o Verão há-de chegar, porque o tempo não parou nem vai parar ...
Só faltou, no conjunto de lugares comuns mal rimados, dizer que isto vai piorar ...
E pode acontecer, que sei eu!
Vou procurando ouvir quem estuda e analisa, e procurando desligar sempre que surgem nos écrans uns "papagaios", cuja única coisa que sabem é falar "pelos cotovelos". 
Esta parte do corpo era, até há bem pouco tempo, destinada a adjectivar quem falasse muito, a denominar uma dor muito difícil de suportar e a, claro, auxiliar os braços a movimentarem-se.
Tudo se altera e os cotovelos são, agora, a peça fundamental no cumprimento, substituindo o tradicional "bacalhau".
Até quando? 
Não se sabe e é isso que me inquieta.

domingo, 29 de março de 2020

Palavras bonitas

A voz do vizinho através da parede

Eu transmito-te este domingo à tarde,
a voz do vizinho  através da parede.

Tu transmites-me a distância que existe
depois do que consigo ver pela janela.

Durante a noite mudou a hora e, no entanto,
continuamos no tempo de ontem.

Como é raro este domingo, não podemos
garantir que amanhã seja segunda-feira.

O futuro perdeu-se no calendário, existe
depois do que conseguimos ver pela janela.

O futuro diz alguma coisa através da parede,
mas não entendemos as palavras.

Lavamos as mãos para evitar certas palavras.

E, mesmo assim, neste tempo raro, repara:
tu e eu estamos juntos neste verso.

O poema é como uma casa, tem paredes
e janelas, é habitado pelo presente.

Olhamo-nos nos olhos pela internet,
estamos verdadeiramente aqui.

O poema é como uma casa,
e a casa protege-nos.

José Luís Peixoto
29 de Março de 2020

(Em tempo de clausura, sabe bem ler estas palavras de um escritor de quem gosto muito. A minha filha, que sabe isso, deve tê-las obtido na Net e enviou-mas de imediato.)

Novas tecnologias

A minha filha, ontem à noite, mandou-me um "link" para eu ouvir, colocando uns auscultadores. Era uma ordem peremptória e sem qualquer indicação do que se tratava, com referência de que me devia sentar (ou deitar) e fechar os olhos.
Numa dimensão nova, "assisti" a um "corte de cabelo" e à "conversa do barbeiro" em 8D.
Estupefacto com a "realidade", senti-me nas nuvens, deliciado e, no final, desiludido: o cabelo, afinal, ainda se mantinha grande, embora a tesoura e a máquina tivessem por lá andado, sem qualquer dúvida. E o barbeiro transmitia confiança, ainda por cima em inglês ...
Depois disto concluído, recebi também a indicação de que podia ouvir música na mesma dimensão, mas sempre com auscultadores, de cujo uso não sou grande fã.
Mas fiquei cliente. E aqui estou eu, ouvindo a Toccata in D Minor, tão satisfeito como quando, há muitos anos, ouvi música em estereofonia pela primeira vez.
Sempre a aprender ... mesmo de quarentena.
Se tivesse os contactos da Directora Geral da Saúde e da Ministra, dava-lhes esta indicação, para recuperarem um pouco da trabalheira que têm tido e poderem ter um pouco de descanso que, nota-se bem, era merecido e pelo qual devem estar ansiosas.

sábado, 28 de março de 2020

Quotidiano

Fui ao jardim passear ... agora, vou ler o Expresso e continuar a ouvir boa música.
Isto não está para brincadeiras - o Hospital de Peniche fechou e todo o pessoal foi de quarentena - e o melhor é mesmo "comprar" paciência e arranjar formas de entretenimento.

sexta-feira, 27 de março de 2020

Quotidiano

Hoje não me apetece escrever nada ou, para ser sincero, nada me ocorre que valha a pena deixar por aqui, se é que alguma vez isso acontece.
As notícias mantêm-se, as conferências de imprensa também, o cansaço de quem lidera é visível, e a luz ao fundo do túnel ainda não se vislumbra.
Neste ínterim, continuamos a ouvir perguntas de "jornalistas" que devem fazer corar de vergonha os verdadeiros profissionais que ainda temos.
Permanece a esperança de que o bom senso impere, a solidariedade entre povos aconteça e que o egoísmo de alguns não se torne num outro vírus.

quinta-feira, 26 de março de 2020

Quotidiano

Do Público de hoje:

- Em Portugal
" Como enfrentar a epidemia em acampamentos sem água? 
Há mais de três mil famílias ciganas a viver em tendas de lona, barracas de madeira, tijolo e/ou zinco ou autocaravanas."

- No estrangeiro
" Gaza, com dois infectados, está aterrorizada. Juntando-se à falta de luz, densidade populacional enorme e uma frágil sistema de saúde, o covil-19 é um inimigo terrível."

Não é preciso procurar muito para encontrar, ao nosso lado, quem esteja muito, mas muito, pior do que nós.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Quotidiano

A rua era sossegada. Agora, está sossegadíssima. 
Muito raramente passa um carro e as pessoas, poucas, resumem-se aos vizinhos que (ainda) trabalham e àqueles, poucos,  que passeiam os seus cães. 
Valem-nos os melros, as rolas, os chapins, os piscos, que também devem estranhar todo o silêncio que se faz ouvir.
É bom ouvir o silêncio, mas assim tanto também cansa.
A Primavera está a pôr o jardim todo florido! A glicínia, as roseiras, as strelitzias, o jasmim e até os cactos, mostram toda a sua vitalidade e fazem a companhia possível.
Até o "WC" dos gatos está confinado! Era normal utilizarem todo o jardim para as suas necessidades. Agora, escolhem a parte norte e aparecem menos.

terça-feira, 24 de março de 2020

Quotidiano

Já estamos quase no fim de Março e a pandemia não dá quaisquer sinais de nos abandonar, antes pelo contrário. Parece, até, que o vírus se está a sentir bem, e que pretende passar por aqui uma parte do Verão, mesmo sem ter sido convidado. Esperamos que não alugue um TO na Foz do Arelho!!!

Vamos tentando manter algum humor e as rotinas agradáveis e possíveis: lavar as mãos, sempre; ler, muito; ouvir música, boa; um bom filme, também, e, de vez em quando, a televisão para "actualizar os dados".

segunda-feira, 23 de março de 2020

Quotidiano

Cada dia que passa a minha ignorância acentua-se face ao conhecimento revelado por tanta gente. 
Não me sinto frustrado nem deprimido mas, por vezes, tenho a sensação de que todos são "sabões" e eu apenas "lavo as mãos".
Há gente que escreve, opina, disserta, com tantas certezas que o vírus um dia destes assusta-se (oxalá) e foge, antes que o matem com alguma das muitas mezinhas que circulam na net, desde a água com vinagre para bochechar à água tépida para gorgolejar.
Que diabo! Falem do que sabem, escrevam sobre o luar e o céu azul, dissertem sobre a "conspiração" que faz o mar bater na rocha ou calem-se. Deixem o importante e o necessário para quem sabe.
E quem sabe deve, nesta altura, ter tanta coisa com que se preocupar que nem tempo tem para se perder com ninharias e com grandes citações de "pessoas bem colocadas" ou outras que, sabendo tanto, afinal nunca se deu por elas até aqui.
O tempo é dos que, mal dormidos, seguram as pontas e mantêm a nau.

domingo, 22 de março de 2020

Egoísmo e ingratidão

Quando o "Zepelim Corona" partir, como iremos ser com os/as "Genis" que agora seguram as pontas, para o bem de todos?

sábado, 21 de março de 2020

Dia Mundial da Poesia

Da crónica de Pacheco Pereira, hoje no Público, respigo:
(...) Mas, resumindo e concluindo, três coisas contam nesta pandemia: vida, cultura e dinheiro. Infelizmente, estão todas muito mal distribuídas, em particular a última. Mas, pelo menos na cultura, sempre se pode combater a incultura que cresce perante a cobardia e a inércia de muitos que acham que esta é a "realidade" dos nossos tempos e não há nada a fazer. Há e muito. Não é remédio absoluto, mas ajuda. (...)

No Dia Mundial da Poesia, dois poemas de Eugénio de Andrade, para deleite de quem espera, e acredita, que virão melhores dias e que, apesar de tudo, o mundo não vai acabar. 
Mas vai ser diferente, vai, vai!

CONSELHO

Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda com um fruto
ao passar o vento que a mereça.

OS AMANTES SEM DINHEIRO

Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.

Eugénio de Andrade
Fund.Engénio de Andrade (2000)

sexta-feira, 20 de março de 2020

Quotidiano

No sossego da emergência Coronavírus, os livros e a música são boa companhia e, espero eu, têm capacidade para nos dar os anticorpos necessários à manutenção de um estado de espírito positivo, e a esperança de que, uma vez mais, se cumprirá a regra: a seguir à maré vaza surgirá a maré cheia. 

A Fundação Gulbenkian disponibiliza, aqui, concertos de produção própria e alheia.

O YouTube é um manancial de boa música, para todos os gostos.

O Teatro Aberto disponibiliza, até ao final do próximo mês, várias peças de teatro que levou à cena.

O Instagram transmite, em directo, concertos de vários artistas. O programa pode ser consultado aqui

Felizmente, longe vão os tempos em que era utópico pensar ter acesso a tudo isto.


quinta-feira, 19 de março de 2020

Dia do Pai

Apesar do que está a passar por aqui e pelo mundo, das incertezas e das esperanças, com coronavírus ou sem ele, com estado de emergência ou a emergência do estado de isolamento, "escondidos" em casa porque o risco é grande, sabemos que, algures, há sempre alguém a passar bem pior do que nós e sem casa para se esconder.
E também que muitos outros há já sem oportunidade de passar por isto.
O meu pai faria hoje 98 anos e, se ainda por cá estivesse, ficaria preocupadíssimo com o que se passaria ... com todos os outros.

SOL DE MENDIGO

Olhai o vagabundo que nada tem
e leva o sol na algibeira!
Quando a noite vem
pendura o sol na beira dum valado
e dorme toda a noite à soalheira ...
Pela manhã acorda tonto de luz,
Vai ao povoado
e grita:
- Quem me roubou o sol que vai tão alto?
E uns senhores muito sérios
rosnam:
- Que grande bebedeira!

E só à noite se cala o pobre
Atira-se para o lado, 
dorme, dorme ...

Manuel da Fonseca
Poemas Completos
Forja (1978)

terça-feira, 17 de março de 2020

Pedro Barroso

Conheci-o em 1988, num espectáculo comemorativo dos 50 anos dos Pimpões, realizado no dia 12 de Março de 1988 (já lá vão mais de 30 anos, como é possível), que abrilhantou acompanhado dos seus músicos, numa noite inesquecível para todos os que dela usufruíram.
Voltou quatro anos depois, em 22 de Fevereiro de 1992, desta vez sozinho mas com a qualidade, o profissionalismo e a dedicação que guardarei enquanto a minha memória me não atraiçoar. Chegou bastante cedo, por volta das 15 horas e disse-me, baixinho: aquele meu amigo que esteve cá a tocar nos 50 anos, o do acordeão, morreu esta madrugada num acidente de automóvel, mas o espectáculo faz-se. 
No final, fui ter com ele ao camarim, chorava compulsivamente, abraçou-me, e, por entre lágrimas e soluços, disse: o espectáculo fez-se e ninguém notou nada.

Hoje partiu, após um sofrimento prolongado e num desfecho já aguardado há algum tempo.

Fico com as recordações, os discos, as músicas e a certeza de que, para além de um enorme poeta e músico, também conheci um grande homem.
Até sempre, António PEDRO Chora BARROSO.

segunda-feira, 16 de março de 2020

Coronavírus

Quase toda a gente tem opinião sobre a epidemia que está a contaminar o mundo, sobre as suas causas e sobre a forma de a debelar. 
Todos esperamos que, no fim, seja menos maligna do que os estudos científicos e as opiniões de quem sabe apontam. 
E é apenas por isto - por quem sabe - que também quero deixar meia dúzia de linhas sobre o assunto.
Vivemos, felizmente, num país democrático, com liberdade de expressão plena, até para a asneira, a estupidez e a ignorância. Todavia, a situação actual parece evidenciar uma "guerra", na qual não se conhece o inimigo, a sua estratégia, a sua composição e muito menos as suas posições. Assim sendo, temos forçosamente de confiar em quem sabe e procurarmos seguir as suas determinações com disciplina, sem alarmismos e sem facilitar nada. Neste caso, sem servilismos, manda quem sabe e os outros obedecem, por muito que custe.
Na guerra, cada um tem a sua função, que deve executar com o maior rigor, confiando que a estratégia delineada resulta da análise, ponderada, de quem tem o conhecimento e domina as variáveis.
Dispensam-se perfeitamente as "opiniões" vindas não se sabe de onde, sempre cheias de "certezas" tais que, ainda ontem, chegou aqui a casa, via USA, a "notícia" de que havia centenas de mortos em Lisboa, de acordo com uma fonte que ninguém consegue identificar mas que "sabe" muito.
Deixem-se de publicações idênticas às do tipo da anedota:
"Paris é uma cidade muito bonita! Eu nunca lá estive, mas tenho um tio que tem um primo que já lá foi e gostou muito".

segunda-feira, 2 de março de 2020

Lembranças

Era um princípio de tarde igual a tantos outros que se vão repetindo quase em ritual. 
De repente, junto à tua morada actual, surgiu, branca, tímida, medrosa até, e parou. Dirigi-me para lá, deixou-se apanhar sem qualquer resistência. Tinha penas sedosas, maciinhas (como tu dirias), e os olhos agradeciam o contacto com as minhas mãos.
Veio para casa sem qualquer esforço ou aborrecimento. Arranjei-lhe uma morada, provisória, alimentei-a e dei-lhe de beber. Cantou, agradecida. Já não devia comer e beber há muito tempo, saciou-se com a alpista que por cá havia. 
Ainda nesse dia fui comprar uma casinha nova e alimentação apropriada para a sua espécie, de acordo com a informação de quem vendeu. Dessa mistura que lhe coloco à disposição, não gosta de algumas sementes e rejeita-as com vigor, sujando o chão e ouvindo as recriminações de quem manda no sítio.
Acorda cedo e canta, num arrulhar sereno que repete sempre que me aproximo.
Na semana passada comprei milho partido, que ainda tornei mais miúdo com o auxílio de uma maquineta de cozinha. Adorou e cantou, de alegria, julgo.
Já faz parte da casa, trazendo sempre à lembrança o sítio onde se disponibilizou para que eu a trouxesse.
Está comigo sempre (como tu). Não sei bem se é pomba se é rola, é branquinha como a neve e tranquila como a paz.
Perfazem hoje dezasseis anos que partiste para essa morada onde apareceu a ave branca e maciinha.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Quotidiano

O meu amigo ADS deu-me a oportunidade de, ontem à noite, confraternizar com o grande (até na altura) escritor cabo-verdiano Germano Almeida, que não conhecia pessoalmente e com quem apenas havia estado nos seus livros que, há muito, me habituei a ler.
Foi uma noite bem passada, saboreando uma excelente cabidela de frango e provando um digestivo caseiro, oferecido e feito por um dos convivas presentes. Fomos catorze afortunados que se sentaram à mesa, com a companhia, extremamente agradável, do escritor e da irmã.
Para além de o físico de Germano Almeida impressionar (deve medir mais de um metro e noventa), surpreendeu-me a afabilidade do escritor - apesar da gripe, forte, que o afectava - e os autógrafos pessoais que fez o favor de colocar nos vários livros que comigo viajaram, alguns já com mais de vinte anos de "casa".
Foi um privilégio e uma noite para não esquecer.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Racismo

O que se passou há dias no Estádio do Guimarães com o futebolista Marega, do FCP, deu lugar a muitas conversas, debates, opiniões, comunicados, manifestos, tomadas de posição, aberturas de telejornal, editoriais, etc.
Com miseráveis excepções, todos consideram que os insultos proferidos naquele campo, como noutros, são racismo puro, execrável e do qual todos nós temos, também, alguma culpa. 
Acontece que, por estranho que possa parecer, não é um acto isolado nem fora do comum, e apenas teve este alarido pela coragem de Moussa Marega. Não fosse a sua saída do campo e não se teria passado nada ... houve gente que estava no estádio e não ouviu nadinha!
Hoje, no carro, ouvi alguém (que não identifiquei), dizer que toda a gente que profere este tipo de insultos, sob a cobertura de multidões ou em expressões "banais" como "trabalhar é bom pró preto" ou "vai para a tua terra", devia ter, para além da responsabilidade criminal que o acto implica, a obrigação de pedir, e pagar, a pesquisa do seu ADN, para poder verificar de onde vieram e por onde andaram os seus antepassados.
Lembrei-me! Em tempos idos, a minha filha ofereceu-me o historial dos meus, as origens e os percursos de quem me antecedeu, obtidos a partir da análise e estudo do meu ADN.
Fui à procura e encontrei: data de Agosto de 2008 (como o tempo passa) e lá está registado, para que conste, um percurso que vai da África do Sul ao norte de Moçambique, passa pela Turquia e pela Ucrânia, pelo Egipto e pelo Paquistão, entre muitas outras rotas.
Qual será, afinal, a minha terra?


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Netos

"... Fica a cepa a sonhar outra aventura ..."

- Vô, vamos lá abaixo à ga_agem!
- Cuidado com as escadas, é melhor dares-me a mão.
- Não p_eciso, já sou g_ande!

- P_imeiro vamos no teu, ao pa_que.
- V_um, V_um, V_um!

Liga o carro, mexe o volante, simula meter mudanças, apita ...

- P_onto! Ago_a vamos no da avó.

A mesma coisa, com a particularidade de, neste, o cuidado ter de ser maior. Ao contrário do outro, este trabalha só com o ligar da chave e sem necessidade de carregar na embraiagem.

- P_onto! Já chega! Podes ir pa_a cima que eu fico a b_incar aqui ...

O meu Miguel faz hoje 4 anos e está cheio de confiança.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Livros (lidos ou em vias disso)

Sem comentários porque o que por lá se passou foi tão mau, tão horrível, tão estúpido, tão cruel, que não merece outra coisa que não seja a lembrança bem viva e atenção redobrada para quaisquer instintos que possam ter a veleidade de branquear a memória. E não passaram (e ficaram) por lá apenas judeus.

(...) Correr. Ao longo do arame farpado. Não lhe tocar. As lâmpadas estão no encarnado.

Passar outra vez pelo portão para entrar. A passagem é estreita. É preciso correr ainda mais depressa. Não importa as que caem, são espezinhadas.

Correr. Schneller. Correr.

Voltar outra vez para diante dos homens que tornam a encher o avental de terra.

Têm de fazê-lo depressa, estão a levar pancada. Pazadas bem cheias, batem-lhes, batem-nos.

Uma vez o avental cheio, pauladas. Schneller.

Correr para o portão, passar sob as correias e os chicotes, correr em cima da tábua que balança e se verga. Atenção à bengala do chefe SS na extremidade da tábua. Esvaziar o avental em cima de um ancinho, correr, atravessar o portão pela passagem cada vez mais estreita - é aí que os bastões se acumulam -, correr em direcção aos homens para voltar a apanhar duas pazadas de terra, correr para o portão, num circuito ininterrupto.

Querem fazer um jardim à entrada do campo.

Duas pazadas de terra até que não são muito pesadas. Mas vão-se tornando. Pesam mais e tornam o braço anquilosado. Atrevemo-nos a segurar mal os cantos do avental para deixar cair um bocado de terra. Se uma fúria vê, bate-nos. E, no entanto, fazêmo-lo, porque é peso de mais.

Há um francês. Aldrabamos e calculamos a corrida para ser ele a abastecer-nos. Tentamos trocar algumas palavras. Fala sem mexer os lábios, sem levantar os olhos, é assim que se aprende a falar na prisão. São precisas três voltas para uma frase.

A ronda não gira suficientemente depressa. As fúrias berram mais alto, batem com mais força. Há congestionamentos porque há mulheres a cair e porque as companheiras as ajudam a levantar, enquanto as outras, atrás, empurradas pela pancada, querem continuar a correr. (...)

Auschwitz e depois
BCF Editores (2018)

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Quotidiano (ou saudosismo)

Hoje, dia em que se comemora o Santo Antão, não já o da minha infância que só tinha chouriço assado, pão e muito vinho, mas o que apresenta, segundo a reportagem televisiva, entremeadas, costeletas, febras e até ostras, passam 25 anos - um quarto de século - da morte de Miguel Torga, um escritor de quem gosto muito e que, parece-me, já vai caindo num, imerecido, esquecimento. A sua poesia tem tido presença regular neste espaço mas hoje apeteceu-me pegar nos BICHOS, livro que foi editado pela primeira vez em 1940 (doze anos antes de eu vir ao mundo) e deixar um dos seus 15 contos, seguramente não dos mais conhecidos.

FARRUSCO

Dentro da poça do Lenteiro, há rãs. Naquela água coberta de agriões e de juncos moram centenas delas. Mas à volta, na sebe de marmeleiros, silva-macha e alecrim, vive Farrusco, o melro. Sabe-se isso desde que, em certo entardecer de Agosto, a Clara perguntou ao cuco que se pousara num pinheiro em frente:
          - Cuco do Minho, cuco da Beira: quantos anos me dás de solteira?
A rapariga era toda ela de se comer. E o cuco, maroto, olhou de lá, viu, e respondeu:
          - Cucu ...  Cucu ...  Cucu ...
Três anos! A moça ficou varada. O Rodrigo acabava a tropa de aí a dias, e prometera levá-la à igreja logo a seguir. Que significava, pois, semelhante demora? Aflita, chegou-se à Isaura, a alcoviteira, mouca como um soco, que a seu lado sachava milho, e gritou-lhe aos ouvidos, desesperada:
          - Ora vê?! Que lhe dizia eu?
A Isaura nem queria acreditar.
          - Ouvirias mal! ...
          - Olhe lá que não ouvisse! Contei-os bem.
E foi então que Farrusco soltou a sua primeira gargalhada. Coisa bonita! Uma cascata de semicolcheias escaroladas, como se alguém rasgasse um pano cru, rijo e comprido, no silêncio da tarde serena, que o desânimo de Clara enchera subitamente de melancolia. Nada mais do que isso. Mas o bastante para mudar o sinal de desencanto. A força virgem daquele riso chamou a vida à consciência dos seus direitos. De parada, a natureza animou-se. Uma aragem muito branda e muito fresca atravessou o espaço. Tudo quanto era mundo vegetal ondulou levemente. A própria terra, sonolenta do calor do dia, acordou. E de aí a segundos começou a maior sinfonia que se ouviu no Lenteiro.
Chamadas por aquela volatina, as rãs subiram à tona de água e puseram-se a dar força sonora às tímidas vozes ocultas e anónimas que se erguiam do limbo. Às rãs, juntaram-se logo, pressurosos, os ralos, as cegarregas, os grilos e quanta arraia miúda tinha fala. A esta, a passarada. Até que não ficou bicho sensível e solidário alheio ao Tantum Ergo pagão. Um coro imenso, cósmico e fraterno, que enchia o mundo de confiança.
Clara, arrastada pela onda de harmonia, apelou da sentença:
          - Cuco do Minho, cuco da Beira: quantos anos me dás de solteira?
O que foste fazer! O malandro do pitonisa, se há pouco fora cruel, desta vez requintou.
          - Cucu ... Cucu ... Cucu ... Cucu ...
Parecia uma ladainha! A lengalenga não parava mais. Ou de propósito, ou porque o mundo, naquele instante, era um orfeão aberto, o ladrão dava mais anos de solteira à rapariga do que estrelas tem o céu.
Desapontada, a cachopa regressou às ervas daninhas do lameiro. E, num amuo justificado, deixou correr as horas. A seu lado, comprometida, a Isaura, que tinha garantido o noivado a curto prazo, falava, falava, sem conseguir adoçar-lhe no espírito o fel da desilusão. E quando a noite se aproximou, disposta a selar com negrura aquela tristeza humana, foi preciso que Farrusco, novamente solidário com os direitos da moça, saltasse da espessura da seja para o cimo de um estacão, e fizesse ressoar pelo céu parado e quente uma segunda gargalhada. Discordância de tal maneira fresca, sadia, prometedora, que a rapariga ganhou ânimo. Pôs os olhos em si, na força criadora das margaridas abonadas, no ar de coisa sã que toda ela ressumava, e sorriu. Depois, confiante, juntou a sua alegria à alegria do melro. Soltou então também uma risada cristalina, que partiu da verdura do milhão, passou pelas penas luzidias de Farrusco, e foi bater como um castigo no ouvido desafinado do cuco. Um segundo a natureza esteve suspensa daquela gargalhada. A vida homenageava a vida. Depois continuou tudo a cantar.
          - O estafermo do cuco, tia Isaura! Até um melro se riu!
          - Riem-se de tudo, esses diabos ...
Mas o luso-fusco começava a empoeirar o céu, e Farrusco is fechando docemente os olhos, deitado na cama dura. A vida que lhe ensinara a mãe, simples, honesta, espartana, não lhe consentia luxos de noitadas. Pela manhã, ainda o sol vinha lá para Galegos, já ele tinha de estar de perna à vela, pronto para comer a bicharada da veiga, e rir de novo, se alguma tola de Vilar de Celas se fiasse outra vez no aldrabão do cuco.

Bichos
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1995)

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Balanço 2019

O balanço costumeiro não leva, neste ano, grande e muito menos eloquente texto de apoio porque já estou na idade de fazer (ou não) o que me apetece, apenas porque sim.
Caprichoso, dirão uns, convencido, tornarão outros. Queremos lá saber se leu muito ou leu pouco! Seria muito mais interessante saber da vidinha, o que fez, por onde andou, tudo tudo o que hoje interessa e se retrata diariamente nas redes sociais, desperta interesse, curiosidade e motiva a imaginação de alguns e os comentários, ferventes, de muitos. Não estou para aí virado!
Já poucos têm paciência para ler! Está tudo reunido no Google, no Facebook, no Instagram e no Twitter. E, por lá, o "conhecimento" é instantâneo, como o pudim ...
Para quê perder tempo, quando está tudo à mão de semear e já mastigado.
Já não mudo. Ainda me faltam ler tantos livros, que já não vou ter tempo de os ler todos, nem que por cá andasse até aos 100 ...
Cumpra-se o registo dos que, a par de algumas releituras, foram lidos pela primeira vez em 2019.



sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Livros lidos (ou em vias disso)

Já por aqui disse que não subscrevo nem aplico o novo Acordo Ortográfico, por teimosia ou capricho, por não me apetecer reaprender a escrever ou por me parecer que a língua, enquanto entidade viva, do que menos precisa é de regras rígidas para aplicar a milhões de pessoas espalhadas por vários continentes. Por vezes irrita-me a facilidade com que os correctores informáticos me sublinham palavras a vermelho para, logo a seguir, ver surgir em comunicações respeitáveis o "á" sem trazer o seu companheiro "h", quando este é imprescindível. Mas isto são embirrações de velho ...
A língua portuguesa pode e deve estar sujeita à variedade dos seus falantes e não deixa de ser a mesma quer seja conversada no bonde, no autocarro, no trem ou no comboio. E por mais gente que venha de terno ou de fato, o facto é que me mantenho na minha, recorrendo ao Houaiss sempre que as palavras me escapam, venham elas de Portugal, do Brasil, de Angola, S. Tomé, Cabo Verde ou Moçambique.
Estou a ler (mais) um livro de Milton Hatoum, escritor que já aqui referi, considerado um dos melhores escritores brasileiros vivos. A beleza do português do Brasil, que ele tão bem explicita, fica aqui reproduzida neste pequeno excerto:
"(...) Todos se reuniam na copa do casarão rosado, com a exceção do meu pai, que se ilhava no quarto ou ia passear na Cidade Flutuante, onde ele entrava nas palafitas para conversar com os compadres conhecidos, com os caboclos recém-chegados do interior, e depois caminhando até o porto para visitar armazéns e navios.
Antes do amanhecer, Emilie me acordava para colhermos as flores do jardim; depois tirávamos Samara da rede e íamos de bonde ao bairro dos franceses para comprar buquês de jasmim-porcelana e cansarias róseas. Com linha amarela e agulha de madeira fazíamos colares e adornos para serem oferecidos aos convivas, e em cada taça de porcelana Emilie arrumava uma pétala branca e espalhava jasmins-do-mato no assoalho da alcova. As mulheres da vizinhança ajudavam na cozinha, preparando e esticando a massa dos pastéis e folheados. Eram finos lençóis de trigo estendidos por toda a casa, panos translúcidos que formavam cavernas de sombra onde brincávamos de adivinhar a silhueta do outro ou de colar o rosto nas superfícies que se moldavam à pele ou cobriam a cabeça como uma máscara ou um capuz. Tio Emílio fazia as compras, matava e destrinchava os carneiros, torcia o pescoço das aves e passava-lhes a lâmina no gogó para que o sangue esguichasse com abundância, como exigia meu pai.(...)"
Milton  Hatoum
Relato de um certo Oriente
Companhia das Letras

domingo, 22 de dezembro de 2019

BOAS FESTAS

Com a simplicidade que deve ser característica nesta Quadra (e no resto do ano), ficam por aqui os votos de um BOM NATAL  e de um ÓPTIMO ANO NOVO. 
Neste registo insere-se a animação apropriada do Coro de Santo Amaro de Oeiras (actuou recentemente nas Caldas, a convite do Grupo Coral das Caldas da Rainha), e a "brincadeira" do costume, com palavras da maior poeta portuguesa e a visão, parcial, da iluminação da cidade, a qual, dizem, é a maior (ou a melhor?) de Portugal.
BOAS FESTAS


quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Patxi Andion

De acordo com as notícias de há pouco, um acidente de viação vitimou hoje Patxi Andion, mais um dos ídolos cuja voz me habituei a ouvir há muitos anos e com bastante regularidade.
Ficam os discos, ainda em vinil e a sua voz inconfundível para ser ouvida quando apetecer recordar um grande amigo de Portugal.
Fica, também, a mágoa de me não ter sido possível assistir ao concerto (foi o último cá) que deu em Setembro passado, na Aula Magna, durante o qual apresentou o seu último disco - La hora lubican.
Mas, por aqui, fica o Maestro.

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Livros lidos (ou em vias disso)

Terminei ontem a leitura de um livro que o meu amigo ADS me emprestou, para que eu (re)lembrasse como era a vida no campo no século passado. Um conjunto de doze contos de José Amaro, publicados em 1973 sob o título genérico de Contos do Ribatejo.
Não conhecia o autor mas lembrei-me muitas vezes de estórias idênticas a que assisti ou tive conhecimento e que ele tão bem relata, procurando que esse relato seja pormenorizado e suficientemente descritivo, e que o leitor imagine a cena, o cenário e tenha pressa de chegar ao epílogo. Uma linguagem clara para quem é do século passado mas cuja clareza já será difícil de entender pelos jovens de hoje. A vida descrita, felizmente, alterou-se completamente e hoje já muito pouco do descrito acontece.
Fica por aqui um excerto do conto "O milagre da cabaça", no qual a "filosofia" de um bêbado é contada com um humor e um detalhe que vale a pena transcrever:
"(...)
- Eh Quirós, hoje é domingo, já foste à missa?
- Ninguém precisa d'ir à missa p'ra falar com Deus ... Se ele tá im toda a parte p'ra qu'é c'uma pessoa anda à prècura Dele?
- Mas na igreja o padre também dá conselhos.
- Mas p'ra qu'é que servem os conselhos se não há fé pr'ós seguir? De que há falta é de Deus não é de cunversa ... Lá na igreja o padre dizia-me logo ... Ó Quirós, tens de dêxar de ser bêbado! Obrigado! ... Isso já ê sabia antes dele me dezêri! ...Mas s'ê gosto mai do vinho que de Deus ... nã pode ser nada ... O qu'era preciso era ele pôr-me a amar a Deus acima de todas as coisas ... e tamém do vinho ... mas lá isso é c'o padre não é capaz ... e eu sê lá se Deus nã quer qu'ê seja bêbado? ... Ele tá a ouvir-me, tá sempre ò pé de mim e nunca me disse nada ... se calhar é por que no mundo tem que haver bêbados e calhou-me a mim ... fui escolhido por Deus ... ê valo mais c'àqueles que são iguais òs outros ... nim Deus s'alembrou deles pr'ós fazer diferentes ... Quando os gatunos vão roubar as caixas das esmolas às igrejas amam mais à melhér e òs filhos que tão com fome, do que amam os padres! ... E atão? Deus é que sabe quim precisa!...
E o Quirós ficava a dissertar horas e horas sobre o mesmo tema:
Dos que passavam uns diziam:
- Já tás como hades ir!
Mas outros guardavam para si:
- Quem sabe se tens razão! ...
Toda a gente na terra tinha ouvido dissertações do Quirós sobre a origem do Mundo, o dia do Juízo e a Paz Universal, mas um dia o Quirós deixou de se ouvir dos púlpitos populares, estava doente, já nem saía ...
O médico tinha dito que ele tinha o fígado queimado e "a barriga de água" e por isso já quase em coma queria continuar a beber vinho. Pudera, a água e o vinho sempre se misturaram bem ...
Desapareceu o Quirós das ruas da amargura, estava muito mal.
- Coitado ... Era assim mas nunca fez mal a ninguém ...
(...)