quinta-feira, 23 de julho de 2020

Salpas

De acordo com a informação da Capitania de Peniche, da Net e do meu amigo ADS, foram as salpas que deram à costa ontem na Foz do Arelho. A minha filha confirmou.
Não vi nenhuma!


Apenas a água parecia estar turva e à superfície tinha uns "quadrados" boiando, meio estranhos e não habituais.
Hoje, a transparência tinha regressado e a única coisa que recordava o ontem eram estas "gelatinas", em pouca quantidade, que ficavam na areia quando a onda se ia embora.


Amanhã a Foz já deverá ser a mesma de sempre ... nevoeiro, vento, mar revolto, com temperatura a condizer com a tradição.

quarta-feira, 22 de julho de 2020

O novo "normal"

A manhã estava "fozeira", com o nevoeiro quase a impedir de se ver o mar. 
Maré baixa, sem vento, permitiu acabar o livro do momento e, de seguida, uma caminhada até às rochas, onde se esperava que o sol já desse um ar da sua graça e trouxesse a vontade de um bom mergulho.
Falso! A água tinha uns "quadrados" gelatinosos, que eliminavam a habitual transparência e lhe davam um aspecto sujo. Não ao banho!
Mal tinha iniciado o regresso, surge o nadador-salvador.
- Não vá à água. Não sabemos o que é isso e deram-nos ordem para, à cautela, interditarmos a praia.
Acabou-se, por hoje. "Trouxa" arrumada e regresso a casa mais cedo do que o previsto. 
Mas havia mais para acontecer.
No último degrau do primeiro lanço da escada, um homem cai. Dou um salto para tentar ajudá-lo.
- Não mexa nem se chegue, murmura uma voz avisada.
Mantida a distância, colaboro no diálogo com o homem.
- Sente-se bem? Está sozinho?
- A família está na praia, lá em baixo. E indica a Lagoa, lá ao longe. 
- E tem telemóvel?
- É melhor chamar o 112, diz alguém. 
Conseguiu sentar-se, sem ajuda mas com muita dificuldade. O braço esfolado, o joelho em sangue, uma aflição patente.
- Já tive cinco enfartes ... mas estou bem!
Consegue tirar o telemóvel do bolso e liga.
- Foi para a caixa postal.
Alguém chamou o nadador-salvador. Viu a tensão arterial, desinfectou as feridas, com todos os cuidados, das luvas à máscara, e com a distância possível. 
A Polícia Marítima foi para a praia da Lagoa, à procura dos familiares do homem que apenas queria conhecer mais um pouco da praia onde tinha vindo em passeio, ele que era do Porto.
Vim para casa, a pensar que já nem se pode auxiliar quem dá uma quedazita ...  
 

terça-feira, 21 de julho de 2020

Juan Marsé

Descobri-o em 2012, após uma visita à Feira do Livro de Lisboa (este ano foi-se) e deixei aqui as razões da descoberta e as impressões do primeiro livro lido.
Depois de Rabos de Lagartixa, comprei e li todos os que já se encontravam ou foram sendo editados em Portugal.
Já não lerei mais, a não ser que apareça alguma obra póstuma.
Juan Marsé faleceu no sábado, dia 18 de Julho, na cidade de Barcelona, onde havia nascido em 8 de Janeiro de 1933.
Foi, é e continuará a ser um grande escritor e um dos espanhóis meus preferidos.


segunda-feira, 20 de julho de 2020

Netos

Encerra hoje o ciclo anual dos aniversários dos netos.
O Vasco, segundo na hierarquia da antiguidade, faz nove anos e já usa a ironia com subtileza e graça, causando sempre surpresa e espanto. Talvez o ser esquerdino contribua e ajude a sua capacidade de teatralizar as situações e surgir sempre diferente.
É um doce de meiguice, singeleza e modéstia.

          - Amanhã fazes nove anos. Estás quase um homem!
          - Pois. Quando fizer outros nove, já posso tirar a carta!

Apesar das restrições "covidianas", das dificuldades que não há meio de serem removidas, os meus netos dão-me anos de vida.
Por hoje, parabéns ao Vasco!

domingo, 19 de julho de 2020

Quotidiano

E quando tudo indicava que a manhã fosse cinzenta e que a ida à Foz não passasse de um passeio à "Senhora da Asneira", eis que surge um dia de sol radioso, sem vento, um mar calmo e a temperatura da água excelente.
Que bela manhã! A Foz é sempre uma caixinha de surpresas!

sábado, 18 de julho de 2020

Livros (lidos ou em vias disso)

Mantenho com o meu amigo ADS uma regular correspondência electrónica sobre variadíssimos temas, entre os quais os livros que estamos a ler, que já lemos, que ainda não lemos ou nem sequer conhecemos. 
Verdade seja dita que esta correspondência é muito mais vezes alimentada por ele do que por mim.
Há algum tempo - talvez Maio, já não consigo precisar - fui surpreendido por um portador que trouxe da capital um saco, verde, pois claro, carregado de livros, qual "biblioteca itinerante" de boas recordações. 
Eram 11 livros que eu, nas "epístolas" trocadas, havia referenciado como não lidos. 
Coloquei-os no lado direito da secretária e vou intercalando a leitura com os que vão aguardando vez no lado esquerdo e na mesa de cabeceira.
Da "biblioteca itinerante" faltam ler quatro. Do que hoje regressou ao saco, fica um pequeno registo, provando que o que tem qualidade fica para sempre e permanece actual.

"(...) Se tal operação tivesse êxito, ninguém veria senão a habilidade com que fora urdida, esquecendo-se tudo o resto. E se alguém se aproveitasse de um pormenor esquecido por eles, seria isso imoral, desonrável? Na minha opinião, também desta vez tudo dependeria do sucesso ou do insucesso. Para a maior parte das pessoas, o sucesso nunca merece censura. Quando Hitler triunfava, apareceu muita gente que nele encontrou virtudes. De Mussolini dizia-se que fazia partir os comboios à hora. Vichy, se colaborou, foi para bem da França. Quanto a Estaline, uma só coisa interessava: era poderoso. Poder e sucesso estão acima da moralidade e da crítica. O que se faz não é nada, mas a maneira como se age e o nome que se dá aos nossos actos é que é tudo. Os homens estão munidos de um dispositivo interno que os faz parar e os castiga? Parece que não. O único castigo é o insucesso. Não há crime se o criminoso não é apanhado. (...)

O inverno do nosso descontentamento
John Steinbeck

sexta-feira, 17 de julho de 2020

Quotidiano

O mar estava Salgado,  Mexia muito e até tinha um Cavaco a boiar, mas podia-se andar tranquilo. Tal como no Banco de Portugal, na Foz há sempre um Governador a garantir o bem de todos. Talvez a filosofia de Sócrates explique isto com facilidade, mas a minha parca inteligência não consegue atingir tal desiderato.
Ainda assim, a minha imaginação concluiu, enquanto o físico se debatia com as ondas, que isto anda tudo ligado e que o mundo é apenas um conjunto de peças "Lego", que todos manipulam mas cujo produto final está antecipadamente definido.
A minha curiosidade acentua-se e a esperança de ver concluída a peça final é muita, embora com a consciência de que, para isso acontecer, será necessário que a vida seja superior à esperança total da dita.
A premissa de que todos são inocentes até prova em contrário não retira a convicção de que quem acusa desta forma terá reunido provas irrefutáveis, difíceis de contrariar pelos "ronaldos" da advocacia que vão sempre a jogo, provavelmente pro bono, uma vez que dificilmente os acusados terão economias para fazerem face à remuneração justa de tantos e tão bons profissionais.
O calor, por vezes, provoca delírios e parece-me que hoje isso aconteceu.
Cá estaremos para ver ...


quinta-feira, 16 de julho de 2020

Ontem, hoje e amanhã

Hoje acordei eram sete e picos e dei por mim a recordar coisas antigas - porque será? - que caíram em desuso e às quais a malta nova, para além de não passar cartão, muitas vezes nem sequer conhece. E ainda bem! 
Já ninguém dança o twist e muito menos vai ao baile da Dona Ester. Para ser mais preciso, julgo até que  ninguém é chamado de Dona e muito menos Ester. Agora é você por tudo e por nada, palavrão que eu aprendi dever ser só dito depois de existir muita confiança com a pessoa em questão e apenas para aquelas a quem o tu não era aplicável. Você é estrebaria, diga lá senhor ou senhora ou, melhor ainda, senhora dona.
A criada morreu e surgiu em seu lugar a empregada doméstica, tal como já não há contínuos mas antes assistentes operacionais. 
Como se isto não bastasse, a manhã de praia, espectacular, levou a conversa também para coisas antigas - porque será? - e, da contabilização manual às chapas dadas nos bancos, das máquinas de somar às somas de cabeça, do cálculo de juros ao dia ao tempo perdido para levantar um cheque, houve de tudo. 
A água estava boa, a manhã passou depressa e havia muita gente a dar a coxa não à Caparica mas ao mar da Foz, zangado como sempre.
Sentado agora à secretária, dou por mim a aceder à grande enciclopédia virtual, que tem tudo e mais um par de botas, e não é que encontrei o Conjunto António Mafra a tocar e a cantar tal como há sessenta anos ou mais e, pasme-se, igualzinho ao que me tinha surgido logo pela manhã.
Estes velhos estão cada vez mais chatos e a recordar coisas que não lembram ao diabo.
E repetem, repetem, como se não houvesse amanhã e o mundo tivesse parado quando eles ainda mexiam!
Valha-lhes um burro aos coices e três aos pontapés, e acenda-se-lhes um castiçal, para que vejam bem o hoje, sem as lunetas do ontem.

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Alcunhas

Eram poucos os conhecidos pelo seu nome próprio. Menos ainda os que se conheciam os apelidos e raríssimos aqueles que a sociedade reconhecia pelo nome completo.
O "direito" a ser conhecido e tratado pelo nome registado era privilégio de uns poucos, normalmente provenientes de famílias abastadas, bem conhecidas e consideradas.
As crianças eram identificadas como filhos deste ou daquela, sendo os progenitores referenciados pela alcunha de todos conhecida. 
A alcunha resultava, normalmente, da profissão desempenhada, dos antepassados, de assinalar qualquer defeito físico ou ter "nascido" por acto público menos considerado ou mais ousado.
Quando ainda rareavam os nomes das ruas e os, hoje imprescindíveis, números de porta, não era raro o carteiro andar de carta na mão, indagando por um fulano que ninguém sabia dizer quem era. Depois de muito questionar e de muitas negativas, aparecia alguém, normalmente familiar ou muito próximo do procurado, e dizia:
- É o ...!
A alcunha identificava-o e, afinal, toda a gente o conhecia, até o carteiro.
A ironia e a capacidade de, numa simples palavra, fazer uma identificação completa ainda hoje nos fazem sorrir quando são recordadas.
Aqui ficam alguns exemplos de muitos conhecidos, para memória futura: Bola, Bufa-Pum, Caracoleiro, Casaleiro, Cavete, Cebola, Chato Miúdo, Chumbinho, Espanhol, Estica, Fandoca, Foge-ó-vento, Guarda-a-burra, Índio, Lagancha, Laparra, Larau, Lavarinto, Loca, Marmelo, Mau, Minhas, Minhoca, Moleiro, Nopla, Pajeca, Palhaço, Pexeca, Pepino, Pernicas, Pica-milho, Piranga, Pivete, Preto, Roto, Sola, Tarata, Tijela, Tonico, Trigueiro, Valente, Viajante, Zézico, etc. etc..

terça-feira, 14 de julho de 2020

Novas tecnologias

O telemóvel toca, para uma chamada de vídeo, que não se concretiza.
Surgem, de imediato, várias mensagens de voz, que ouço com alguma dificuldade, por a gravação ter sido, julgo, efectuada em voz baixa e não por eu já estar um pouco surdo.

- Adoro-te, avô, adoro-te, avó, são os melhores avós de mim e do mano.
- Desligo já, não atendas o telemóvel.
- Não mandes mensagens, ok, não mandes mensagens.

Chega uma fotografia, risonha, acompanhada de uma legenda nominal e de vários corações. 
Mal tenho tempo de responder com corações e caretas de alegria.

- Sabes porque é que mandei um coração rosa? É para a avó. Tu tens o verde e o azul. És um avô lindo e também tenho uma avó linda.
- Olha, não mandes mais mensagens. Já tenho pouca bateria. 

O meu neto Miguel tem 4 anos, não pára de nos surpreender e a cada dia que passa se revela cada vez melhor! 
 
 
 

Evidências

Nem sempre a ostra tem pérola ... mas vale a pena teimar!

segunda-feira, 13 de julho de 2020

O lenço

As rotinas faziam parte do seu dia a dia, tal como o Sol acordava todas as manhãs. 
Fato cinzento, camisa branca, gravata azul, um dia escuro, no outro claro, sapatos pretos, de atacador, sempre bem engraxados. Depois da bica, tomada na leitaria da esquina, então sim, ficava bem acordado.

- Bom dia, menina Alice. Já chegaram os jornais de hoje?

Invariavelmente deitava os olhos para a primeira página d'O Século e comprava o Diário de Notícias, deixando quinze tostões no balcão.

- Até logo, menina Alice. Ainda não lhe disse mas traz hoje uma blusa muito bonita. Quem me dera ser blusa...

O "28" chegava ao Largo, vindo dos Prazeres. Enquanto o guarda-freio mudava a manivela, inox e bem grande, para a, até ali, traseira, o pica alterava as cancelas de entrada e saída, e informava os passageiros que aguardavam, que partiriam daí a cinco minutos.
Acomodava-se num banco duplo para ter espaço e abria o jornal, enorme. Começava assim o dia deste funcionário da Fazenda, que entrava na repartição da Baixa às nove horas. Eram sempre oito e vinte cinco nesta altura.
À hora, como sempre, o eléctrico partiu, descendo a íngreme rampa que os levaria até S. Vicente, à Sé e, finalmente, à Rua da Conceição. A partir daí já ele pouco conhecia. Só tinha ido até aos Prazeres uma vez e verificou, uma vez mais, que prazeres não era muito o seu género. 
A meio da rampa, junto à Voz do Operário,  a primeira paragem.
Calças e casaco de cotim cinzento, alpargatas azuis desbotadas, camisa de popeline aos quadrados, não mais de onze anos. Só podia ser marçano numa das retrosarias da Rua da Conceição.
Ladino, viu o jornal aberto e não deixou fugir a oportunidade.
Sentou-se.
O funcionário, zeloso e rotineiro, encostou-se mais à janela, sem sequer o olhar.
O puto espreitou as notícias e fungou ruidosamente.
Mais um pequeno encosto e nova espreitadela, acompanhada de nova fungadela.
Visivelmente incomodado, o zeloso funcionário encostou-se ainda mais e murmurou, para dentro, um impropério dirigido a "esta mocidade".
Já tinham descido S. Vicente e a Sé estava à vista. 
A página do desporto era apelativa. Benfica-Sporting no dia anterior com vitória, claro, das águias, o puto queria ler tudo antes da paragem onde sairia e ela já estava mesmo ali.
Encostou-se ainda mais, debruçou-se para ler em baixo, quase cavalgou o homem, fungou, espreitou, fungou de novo.
Não resistiu.
- Ó menino, não tem um lenço?
- Tenho ... mas não empresto! 

domingo, 12 de julho de 2020

Carro entediado

E se ...
O carro utilizado para as viagens mais longas permanece na garagem há mais de três meses.
Utiliza-se o "micro-ondas" (como lhe chama o meu neto mais novo) para as idas à praia e para as pequenas voltas na cidade, e o coitado do maior já deve estar a "chocar" alguma depressão por força do confinamento.
A garagem tem espaço, até tem luz solar, mas isso não deve ser suficiente para que o tédio de não sair à rua, não acelerar, não ver companheiros, não pisar alcatrão, não apanhar sol na "moleirinha" nem vento nas janelas, não lhe tome conta dos pensamentos e das amarguras vivenciais. Pobre coitado!
Por vezes deve ouvir as conversas e criar expectativas, até porque tem o depósito cheio e ele sente-o.
Será desta, pensa. E logo ouve as duas palavras mágicas:
          - E se ...
Não, não é ainda!

sábado, 11 de julho de 2020

A idade dos porquês

Dum disco todo ele uma maravilha, o relembrar de tempos idos, com música e palavras lindas.

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Campeões Europeus

                 
Há quatro anos, exactamente neste dia, Portugal foi Campeão Europeu de Futebol, derrotando na final a França, por 1-0, com o golo inesquecível de Éder. 
Nessa altura, o banco onde trabalhava produzia uma revista trimestral, destinada a todos os colaboradores do departamento, e nela publiquei o texto, emotivo, que agora aqui replico, já mais calmo mas ainda com as emoções bem frescas e à flor ... dos olhos.

CRÓNICA DA ANGÚSTIA E DA ALEGRIA
(...) Ouve o silêncio - a voz universal
Só ele é o verdadeiro confidente
Do coração de tudo (...)            

Câmara Ardente
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1995)

Para quem gosta de futebol - e eu gosto muito e há muitos anos - ver um bom jogo transmite uma alegria, uma disposição, um prazer, difíceis de explicar mas facílimos de sentir: o passe longo para o extremo, com que ninguém conta e que, surpreendentemente, o deixa isolado; o voo do guarda-redes que defende para canto quando toda a gente já salta gritando golo; a finta que "parte" o defesa e permite "perguntar" ao guardião para que lado quer; o remate do "meio da rua" que coloca a "bola na gaveta", são apenas alguns exemplos dos momentos de maravilha que o espectáculo nos oferece.
Porém ... situações há em que o jogo de que tanto gosto traz consigo angústia, nervosismo, palpitação, desespero. Eu explico: tenho com o seleccionador nacional Fernando Santos uma amizade que já leva mais de 50 anos e, por isso, segui sempre atentamente a sua carreira, desde os juniores do Benfica até à actualidade. Quando nos juntávamos, o futebol fazia parte da conversa e o "treinador de bancada" igual a milhões de outros que eu também sou, dava as opiniões sobre estratégias, jogadores, escolhas, resultados. A sua voz, pausada e calma, punha, ao fim de algum tempo, fim ao tema:

"Quando conseguires ver futebol sem olhar para a bola, começas a perceber alguma coisa disto!"

Há cerca de 10 anos, assistir a (alguns) jogos de futebol passou a ser um suplício. 
Concluída a formação na área e após um ano a dar aulas, o meu filho passou a integrar a equipa técnica do Fernando, primeiro na Grécia (AEK) e depois acompanhando todo o seu percurso (Benfica, PAOK, Selecção da Grécia e, presentemente, Selecção de todos nós).
Na Grécia, o drama começava com a busca de um site (quase sempre "manhoso") onde ver o jogo, mesmo com paragens, cortes e, muitas vezes, um écran negro, um som de inglês arrevesado ou de grego incompreensível (para mim). Nessa época, as notícias sobre os problemas gregos eram diárias e muitas vezes amplificadas. Ao final do dia, o Skype ajudava a esbater a preocupação sentida ao saber das manifestações, das cargas policiais, da crise, da falta de dinheiro, da hipótese de haver venda de ilhas, da fome nas ruas, um sem número de acontecimentos que, para quem está longe e de coração apertado, se transformam na desgraça iminente e são difíceis de aguentar e de mascarar para fora.
Depois, a alegria do regresso a Portugal - ainda por cima para o (meu) Benfica - toldada pelas dificuldades em ir ao café, pela necessidade de não ter ouvidos, de fazer de conta, de ter de ler notícias falsas e escutar mentiras absurdas afirmadas como verdades indiscutíveis, a angústia do resultado a sobrepor-se ao prazer de ver o jogo. E a culpa é sempre do treinador ...
De novo a Grécia. Primeiro o PAOK, de Salónica, cidade que vive o futebol com uma paixão intensa, incontrolada e incontrolável. As imagens televisivas mostravam-na e, ao vivo, tudo se confirmava. 
A Selecção grega trouxe alguma folga: não havia jogos todas as semanas, as notícias não martelavam tanto, e o Europeu da Croácia e o Mundial do Brasil deram muitas alegrias.
Fui grego nesse tempo ...
Eis que, como na parábola, o bom filho à casa torna e pela porta grande!
Nunca me passou pela cabeça ver o meu filho na equipa técnica da nossa Selecção. Mas está!
E foi Campeão Europeu ... e chorei convulsivamente!
Hoje ainda continuo com dificuldade em controlar a emoção quando falo ou escrevo sobre aquela epopeia. E é melhor parar para que o papel não fique manchado ...
O futuro trará o costume: a bola baterá na trave, o guarda-redes dará um "frango", o defesa será fintado infantilmente, o médio errará o passe, o avançado falhará o golo certo e milhões de "treinadores de bancada", como eu, fariam bem melhor do que aqueles "nabos" que estão no "banco".
Cá por mim, continuarei a gostar muito de futebol e a sofrer ainda mais, caladinho no canto do meu sofá ou na cadeirinha da bancada, indiferente ao que se diz à minha volta.
Prezo muito a amizade e até os filhos da coruja são os mais bonitos do mundo!
Porém, nunca aprenderei a ver futebol sem olhar para a bola!
Outubro de 2016

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Formigas

A estrada da montanha terminava a uns quinhentos metros da casa e tinha cerca de dois quilómetros de extensão, bem íngreme, em terra batida. 
A vista era deslumbrante e, bem lá no cimo, ainda permanecia a neve branca trazida pelo último Inverno. O horizonte era interminável e o verde predominante, num fim de tarde radioso e de temperatura agradável.
A casa seria o nosso albergue nas duas noites que ficaríamos em Basel mas, para isso, era necessário chegar lá a pé, pelos socalcos de um carreiro que obrigava a uma "bicha de pirilau" aprendida vários anos antes na instrução militar.
O Werner caminhava na frente, visivelmente agradado por disponibilizar  a sua casa de montanha a meia dúzia de compatriotas da mulher.
Mas ...
            - Alto, gritou.
Tinha parado junto a um carreiro de formigas, bem assinalado por dois montinhos de areia fina feitos pelas próprias.
           - Estamos na Suíça e aqui, ao contrário de em Portugal, não se pisam formigas e muito menos
             se dão pontapés nos montes de areia que elas tão bem executam.
Ninguém comentou.
Todos entenderam a mensagem e deram um pequeno salto, para não perturbar o afã do formigueiro.

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Banco de Portugal

Acabou o reinado de Carlos Costa no Banco de Portugal.
Espera-se e deseja-se que o novo regime seja republicano e que aconteça o que sucedeu há alguns anos em Belém.
Sai Costa e entra Mário Centeno, e o mais provável é que nem a secretária seja a mesma, numa época em que a higienização é fundamental.
Resta antever que um técnico de tão alto gabarito deverá ir presidir ao Novo Banco ou às comissões liquidatárias do BPN, do BES ou do Banif ou talvez, quem sabe, à administração do Montepio Geral.

terça-feira, 7 de julho de 2020

Isto e o seu contrário

A situação actual no país, e no mundo, faz-nos sentir embaraços, dúvidas e ansiedades que não esperávamos nos estarem ainda reservadas.
É a vida, dirão muitos, com toda a razão. Pelo menos pensando assim dormimos mais descansados.
As notícias mais recentes sobre a TAP, a EDP, o Sócrates, a queda do PIB, o turismo, o desemprego, o orçamento, a oposição, o governo, as presidenciais, o corona, o Bolsonaro, o Trump, o racismo e os refugiados, a miséria e as desgraças, os comentários, as opiniões, as certezas dos mesmos e as dúvidas da grande maioria, transmitem-nos angústia numa altura em que a mobilização e o querer deviam ter primazia e a sensação de se ser enganado nem por um bocadinho poderia vir ao nosso espírito.
Todavia ...

Quando era jovem, contava-se que Bocage tinha um dia entrado num café e pedido:
- Meia dúzia de pastéis de nata, por favor.
O empregado, solícito, colocou os bolos numa caixinha, bem arrumados e ainda quentinhos, pôs a tampa e a caixa em cima do balcão.
- Pensei melhor. Prefiro antes meia dúzia de pastéis de feijão. Têm tão bom aspecto.
- Sem problema, trocam-se já. 
Nova caixa, agora com pastéis de feijão. Bocage pega nela e encaminha-se para a saída.
- Ó senhor Bocage, esqueceu-se de pagar os pastéis de feijão.
- Não me esqueci. Troquei-os pelos de nata. 
- Mas também não pagou os de nata!
- Como quer que os pague se os deixo aí.
E saiu porta fora, por certo a salivar e ansioso por deglutir o feijão e o açúcar dos pastelinhos.
Imagino como se deve ter sentido o empregado, sem argumentos para contrariar tal evidência. É a vida!

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Quotidiano

Não tenho o fantasma da folha em branco - presunção e água benta cada um toma a que quer - mas não me apetece escrever sobre nada, nem sequer sobre a manhã, maravilhosa, que hoje encontrei na Foz. 
Tudo perfeito: sem vento, sol aberto, temperatura agradável e água, como de costume, muito fria.
Parafraseando um companheiro de banhos: "é massagem cardíaca". Soube bem!
Como sempre, não se sabe o que irá acontecer amanhã e não vale a pena fazer planos. 
De manhã, saberemos o que o S. Pedro nos reserva e agiremos em conformidade, como soe dizer-se.
Entretanto, as bandeiras foram finalmente içadas, por certo com a pompa e a circunstância devidas, estando agora disponível para toda a gente que estamos numa praia "azul, dourada e acessível".
E que já tem um lava-pés no início de uma das escadas de acesso. 
Finalmente!

domingo, 5 de julho de 2020

Netos

Nasceu na capital, há 14 anos. Parece que foi ontem.
Foi o primeiro dos quatro que, até à pandemia, faziam as delícias da casa, com as brincadeiras, os jogos, as "malandrices" e o carinho que todos transmitem, de forma diferente porque cada um  tem a sua personalidade e bem forte. (Quando eu era da idade deles era teimoso)
O Gil é o meu neto GRANDE. É quase sempre assim que o trato e ele sorri, com aquele ar meio tímido que tão bem lhe fica.
Já me olha de cima para baixo: vai no metro e oitenta e a tendência parece ser para o infinito! Calça mais seis números do que eu e, se nadasse a meu lado, dava-me pelo menos uma piscina de avanço.
Bom aluno, bom leitor, bom atleta, vive agora a fase que todos conhecemos e que bem nos lembramos, mas vai passar depressa. 
Não perde a delicadeza nem a simpatia e deixa o avô "babado" desde que nasceu.
É GRANDE, o meu neto Gil.


          PARABÉNS, GIL

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Quotidiano

Já lá vão quase quatro meses a conviver com o "novo normal" e a luz ao fundo do túnel ainda nem tremelica.
"O medo é que guarda a vinha", diz um ditado popular que, como quase todos, encerra verdade e sapiência. 
Somos hoje altamente influenciados pelo medo, que nos constrange, impede, influencia, nos torna cautelosos, desconfiados e nos transporta sempre de pé atrás, "não vá o diabo tecê-las".
E se ...? 
O melhor é ficar em casa. Na dúvida ...

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Bibliotecas

Ontem assinalou-se o Dia Mundial das Bibliotecas.
Embora já me vá fartando dos "Dias Mundiais" por tudo e por nada, as bibliotecas têm todo o direito a ter um Dia Especial, realçando que em todos os outros a sua importância também é enorme, por aquilo que dão e pelo que representam, historicamente, a quem delas se serviu com grande proveito e sem custos.
Ler foi sempre, e ainda é, uma das minhas grandes paixões.
Comecei a ler muito novo, bem antes de entrar para a primária, graças à minha irmã, três anos mais velha, que dedicava o tempo dos trabalhos de casa à meritória tarefa de os partilhar comigo e com as minhas impertinências. Como recompensa, veio a ser professora e a aturar alunos muito piores que o irmão.
Para além dos livros da escola, com a bandeira da "bufa" (como era conhecida a Mocidade Portuguesa) desfraldada na capa, dos bois do Jeirinhas, da balada da neve, da casa portuguesa, com certeza, com pão e vinho sobre a mesa, quatro paredes caiadas e um cheirinho a alecrim, já não consigo lembrar-me com exactidão de quando comecei a ler o Jornal de Notícias. O meu pai ia ao Porto de segunda a sexta-feira e quase todos os dias trazia o JN. Recordo o jornal, enorme, aberto sobre o chão da cozinha e o miúdo a soletrar as notícias, do terramoto de Agadir ao assalto ao Santa Maria, da invasão da Índia, do caso da herança Sommer, do quadrado pequenino do Serviço de Informação Pública das Forças Armadas, que comunicava as mortes dos soldados na guerra, nunca mais de dois. Recordo, ainda, as caricaturas de Miranda, na última página, e o problema das palavras cruzadas, cujo vício de resolver ainda hoje mantenho.
Depois, vieram as bibliotecas, itinerantes e fixas, que facultaram o acesso aos livros que não habitavam lá por casa, de Júlio Dinis a Eça de Queiroz, de Namora a Aquilino, de Garrett a Herculano, sempre graças à Fundação Calouste Gulbenkian
Hoje, também eu tenho uma, passe a vaidade, razoável biblioteca, abastecida com regularidade há muitos anos, que não é itinerante mas está sempre disponível para bons leitores.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Amália - 100 Anos

Se fosse viva, Amália festejaria hoje 100 anos.
Não festeja, mas consegue ser, para além da brilhante cantora que sempre foi, uma figura consensual na sociedade, coisa que nem sempre aconteceu.
Parece que, finalmente, todos lhe reconhecem os méritos que a levaram a cantar nas melhores casas de espectáculo pelo mundo fora e a ser considerada uma diva, do Brasil ao Japão, da Rússia à China, da França à Argentina.
Deu voz a grandes poetas, contribuindo para a divulgação da grande poesia portuguesa e, sem sombra de dúvida, deu um valioso contributo para que o fado fosse reconhecido pela Unesco como Património Imaterial da Humanidade.
E, passados tantos anos a ouvi-la, conclui-se sempre que a sua voz é única.

terça-feira, 30 de junho de 2020

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Maracangalha

Não tenho a mínima ideia da razão que me levou a lembrar esta música, que fazia parte dos carnavais da minha juventude.
Fui à procura e descobri que a gravação de Dorival Caymmi data de 1957, tinha eu apenas cinco aninhos. 
Como o tempo passa ...

domingo, 28 de junho de 2020

Renting

Werner era um cidadão suíço, casado com uma portuguesa, que vivia em Basel. Vendia máquinas de café LaCimbali, italianas, consideradas geralmente como as melhores do mundo. Não é por acaso que, enquanto em todo o país se bebe um café ou uma bica, no Porto se pede um cimbalino.
Privei com o Werner, que já conhecia daqui, numa visita à sua terra, na década de oitenta do século passado. O seu automóvel estava parado à porta de casa e foi a primeira coisa em que reparei. Deixou-me de boca aberta. Era uma bomba! 
Na conversa que se seguiu e com a lata que me permitiam os trinta anos da altura, questionei-o como conseguia ter um carro daqueles a vender máquinas de café.
          - O carro não é meu.
          - ???
          - Vamos dar uma volta pela cidade, vais tu a conduzir, para experimentares, e eu já te explico.

Nunca tinha posto as mãos num bólide daqueles. Último modelo da Toyota, não existia em Portugal, cómodo, direcção assistida, ar condicionado independente, bancos em pele, um luxo.

          - É do banco. Eu só pago a renda mensal e eles suportam tudo, menos a gasolina, claro.
          - ???
          - Renting.

Bancário da treta, não fazia ideia, nessa altura, do que era o renting. Ouvi atentamente a aula e guardei a informação na gaveta da memória. 
Chegou a Portugal vários anos depois e hoje está generalizado, principalmente nas empresas. Não foi novidade!

sábado, 27 de junho de 2020

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Cabo Verde

Dos oito, dois eram pretos, nascidos em Cabo Verde, cada um em sua ilha, um em Santiago e o outro no Sal.
Não eram muito expressivos quando falavam das suas origens, parecendo até que tinham algum pudor em desvendar as condições de vida e as dificuldades que por lá existiam. Nunca puxavam esse assunto mas, por vezes, a conversa a isso obrigava e lá vinham as lamentações, os sacrifícios e as dificuldades.
O Adelino era o mais velho, teria por volta de quarenta anos, tinha uma careca acentuada e usava um bigode muito fino que lhe destacava o lábio grosso; o Cula, que ainda não tinha chegado aos vinte, possuía uma farta cabeleira, muito negra e encaracolada. Quando a boa disposição imperava, dizia, rindo-se, que tinha cabelo que sobrava e, quando o cortasse, ofereceria um bocado para colar na cabeça do Adelino, para ele voltar a novo.
Raro era conversarem sobre os seus familiares, mas os olhos ficavam brilhantes quando se falava no regresso e quando chegava a hora da música.
Os dois tocavam cavaquinho e cantavam mornas e coladeras para delícia dos que os ouviam. O Adelino nunca cantava sozinho. Deixava essa tarefa para o Cula, que tinha mais força na voz, fazendo coro quando a música o exigia. A concentração era total na música e os seus dedos dedilhavam o cavaquinho com uma velocidade e uma beleza que atraía ouvintes de outras salas, até que alguém vinha pôr cobro ao concerto e mandava toda a gente sossegar.
Sem nenhumas saudades desses tempos, restou apenas a lembrança daqueles dois amigos que muito me ajudaram e nunca mais vi, o gosto pela música de Cabo Verde e o ter aprendido, bem cedo, a diferença entre a morna e a coladera.


quinta-feira, 25 de junho de 2020

Quotidiano

O Verão, que tinha chegado antes do tempo e trazido muito calor e céu azul, sem vento e com mar quase chão, resolveu esta semana torpedear todos os planos e obrigar à abdicação do caminho matinal para a Foz do Arelho.
E esta abdicação traz consequências, físicas e psíquicas: há sempre trabalho a fazer, em casa ou no jardim e, sobretudo, ouvem-se mais notícias, comentários e opiniões.
O que se vai ouvindo não é agradável nem o que se esperava, decorridos que estão mais de 100 dias desde o início desta calamidade que nos veio visitar sem ter qualquer convite. 
O optimismo e o cansaço tornam-se opositores, têm pouca capacidade de diálogo, opinião muito diferente, e trazem à tona o pessimismo e o medo dos dias que se irão seguir.
As saídas não são muitas mas não me agrada nada voltar ao confinamento do quintal ... e eu ainda tenho esse espaço!

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Netos

Hoje é um dia especial.
Não por ser dia de S. João, nem por ser feriado no Porto e em Braga, muito menos por, neste ano, não estarem autorizados os habituais festejos populares.

É um dia especialíssimo, porque o meu neto Duarte faz oito anos e, apesar de não ser possível fazer a festa que ele merece, continua a ser um dia memorável e especial porque, este, lhe ficará na memória para sempre.
Um dia, ele irá contar aos netos que, quando fez oito anos, não houve "parabéns a você" colectivo, mas que toda a gente cantou para ele.
Parabéns, meu querido DUDU.

terça-feira, 23 de junho de 2020

A bomba

A porta já tinha sido fechada há algum tempo e o último cliente já se fora. 
Viviam-se os momentos, poucos, de descontracção diária, antes de se iniciarem as tarefas do fecho do dia. Estes momentos eram aproveitados para contar a última anedota,
          - Já sabem a última?
comentar o último jogo do Benfica,
          - Não jogaram nada ... dizia um,
          - É o costume, concluía outro.
contar, em grupo mais reservado e para que as colegas não ouvissem, a última separação conhecida,
          - Parece que foi ela que saiu. Estava farta dele.

De repente, alguém exclama, num grito que tinha tanto de exaltado como de medroso:
          - Olha ali, naquela escrivaninha?!
          - É um embrulho ...
          - Vê lá se é uma bomba!?

Do lado de fora do balcão, fixadas à parede, existiam três ou quatro prateleiras de madeira, pequenas, que eram utilizadas pelos clientes para preencherem os cheques, talões de depósitos e outros documentos. Nesse tempo tudo se fazia "à mão" e preencher o documento antes de o entregar era sinal de sapiência e de disposição para colaborar e ser atendido de forma mais rápida. Muitos havia a quem era necessário preencher tudo e, no local reservado à assinatura, escrever "A rogo de F., por não saber assinar", com a rubrica de dois empregados e a impressão digital do indicador direito do cliente, cuja recolha tinha a sua ciência e nem todos conseguiam com o rigor necessário que a inspecção, mais tarde, iria averiguar. Pré-história!

Voltemos ao embrulho: viviam-se tempos complicados, havia atentados bombistas, não muitos mas alguns foram notícia, a luta de classes estava ao rubro, os partidos clamavam as suas verdades com veemência, comentavam-se hipóteses de golpes de estado, confrontos entre militares, enfim, condições criadas para se especular sobre tudo e para uma vivência com alguma ansiedade.
         - Eu vou lá ver, gritou o V.E., destemido e ainda cheio de episódios da guerra colonial na Guiné, cuja dureza era de todos conhecida e dele, em particular, por ter lá permanecido mais de dois anos e sempre "em zona 100%", como não se cansava de repetir.
E, se bem o disse, depressa o fez.
Chegado à escrivaninha, estacou e murmurou, em tom rouco e reservado, mas perfeitamente audível dado o silêncio instalado.
          - Faz tique-taque.
Recuou.
          - Tome cuidado, V.E., ouviu-se do gabinete.
Funcionou como incentivo. Determinado, avançou para o embrulho, puxou do canivete que sempre o acompanhava, cortou o cordão, rasgou o papel, pardo, e abriu a caixa.
Exibiu o achado bem alto, para todos apreciarem.
Era um enorme despertador, novinho em folha, azul celeste, que deveria ter sido adquirido nesse dia numa das várias ourivesarias existentes na cidade. Guardou-o na casa forte e, como todos os outros, dedicou-se ao fecho do dia, que já eram bem horas.
A campainha da porta tocou.
          - O que quer este a esta hora? Já estamos fechados há que tempos.
          - Vai lá, mas não abras a porta. 
A porta, de ferro, tinha uma janela que era possível abrir, deixando as grades a garantirem a segurança.
Não se ouviu nada do diálogo, mas o "porteiro", contrariando as ordens, abriu a porta e deixou o cliente entrar.
            - Ó V.E., é o dono do relógio!
            - Agora tem de esperar, que a casa forte demora cinco minutos a abrir!

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Palavras bonitas ... e actuais

Porque será que nós temos                                            Nas quadras que a gente vê,
na frente, aos montes, aos molhos,                               quase sempre o mais bonito
tantas coisas que não vemos                                         está guardado pr'a quem lê
nem mesmo perto dos olhos?                                        o que lá não 'stá escrito.

O mundo só pode ser                                                     A esmola não cura a chaga
melhor do que até aqui,                                                 mas quem a dá não percebe
- quando consigas fazer                                                 que ela avilta, que ela esmaga
mais p'los outros que por ti!                                          o infeliz que a recebe.

Sem que o discurso eu pedisse,                                     Chegasses onde pudesses;
ele falou; e eu escutei.                                                   mas nunca devias rir
Gostei do que ele não disse;                                          nem fingir que não conheces
do que disse não gostei.                                                 quem te ajudou a subir!

Julgando um dever cumprir,                                         Veste bem, já reparaste?
sem descer no meu critério                                           mas ele próprio ignora
- digo verdades a rir                                                      que, por dentro, é um contraste
aos que me mentem a sério!                                         com o que mostra por fora.

António Aleixo
Este livro que vos deixo ...
Edição, corrigida, de Vitalino Martins Aleixo (filho do poeta)
1975

domingo, 21 de junho de 2020

Beethoven animado

Há quatro anos, deixei aqui o Bolero, de Ravel, em animação, linda, partilhada por um amigo.
Hoje, numa pesquisa rápida, encontrei a Quinta Sinfonia de Beethoven, animada de forma idêntica e a provar que a união entre a boa música e o bom gosto da animação dá um resultado fantástico.

sábado, 20 de junho de 2020

Quotidiano

Telemóvel numa mão, um pequeno saco na outra, vestido comprido, branco, a companhia de alguém, família ou amiga, que mais parece sua serviçal.
Retira o vestido, branco, e surgem três ou quatro tatuagens, nas pernas e nos braços, vistosas, coloridas, e um biquini, não branco, vermelho forte.
Acciona o telemóvel em direcção ao mar, fotografa ou filma, enquadrando o poiso. Uns saltinhos a caminho da água, a companheira atrás, que fria, retira o pé, faz marcha-atrás, vira as costas ao azul esverdeado e à calmaria que o mar hoje nos entregava. 
O mar convida a entrar, calmo, bandeira verde, coisa estranha, sem as ondas do costume e com um sol radioso, sem nuvens nem nevoeiro nem sequer a nortada costumeira.
A mão disponível não larga o telemóvel. Ajeita o cabelo, faz pose, alisa o cabelo, faz pose, alinda-se , sorri, faz boquinhas, trejeitos, dobra-se, ergue-se, e o dedo frenético fixa o registo, para a posteridade, dos momentos "inesquecíveis".
Chama a companheira, dá-lhe o telefone e principia o desfile. Um passo para a frente, tomba a cabeça, segura o cabelo, levanta a perna, finge entrar no mar, mãos para cima, agora na cintura, espreita o mar, vira-lhe as costas, mexe na areia, segura os joelhos, agora a anca, mais uma volta, mais um pulinho, água não, só a fingir, e o mar espreita, tranquilo, esperando que a sereia entre.
Não entrou, mas as fotos hão-de ser "postadas" e registarem, para a posteridade, que foi uma grande manhã de praia ... sem banho. C'os diabos, a água está tão fria ... nem sei como é que aguentam!

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Carlos Ruiz Zafon

Chegou cá a casa nos primeiros anos do século XXI, com A sombra do vento. Vieram depois O jogo do anjo, O príncipe da neblina, O prisioneiro do céu, O palácio da meia-noite, As luzes de Setembro e O labirinto dos espíritos. Marina foi o último que li, mas não pertence ao acervo da "biblioteca".
Já não haverá mais. O grande escritor catalão morreu hoje, aos 55 anos, e, espero eu, que os seus livros não façam parte do Cemitério dos livros esquecidos.

quinta-feira, 18 de junho de 2020

Música popular

Partiu há três meses e, se já pouco era ouvido, desapareceu completamente dos meios de difusão pública.
Para mim continua a ser um dos grandes autores da música portuguesa, a quem ouço há cerca de 50 anos e a quem volto sempre com enorme prazer, como foi o caso de hoje, sugerido pelos automatismos dos meus arquivos digitais. Uma música tradicional, pouco conhecida, do álbum Cantos da borda d'água, de 1984.

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Poesia racismo

Uma cabeça contra umas pedras bicudas

O meu patrão era taxeiro 
e eu moleque do seu bebé
chamado Constantino o tal bebé
e o patrão Machado
e ela D. Maria
ele era ateu
e muito vinhateiro
e ainda boxeur com os criados
um dos adversários sou eu
com o vencimento de vinte e cinco
com tanto trabalho que tinha
brincar com o menino branco
e ainda com o patrão em socos
socos só dele
eu sem me defender
sangue pelo nariz
sapatos nas costelas
eu caindo
assim nem vencia o tal Machado
este sou eu?
perguntava-me eu próprio
que recebo socos de um ser humano?
não devo ser, 
quando eu caía
este patrão tinha festa
lá no coração
pois era campião
dum K.O. falso
com este patrão
muito sofri
na avenida J. Serrão
em 1949
tanto levei
e tanto sangue saía
e criou-me um câncro
nas minhas unhas
veneno na língua
das dores dele
vivi doente
sem remédio, sofri
pois preto não precisa de remédio
dizia o senhor
autor do boxe.

terça-feira, 16 de junho de 2020

O jeito para línguas

Eram três jovens alunos da Escola, que todos os dias se deslocavam do Bombarral, onde residiam, para frequentarem as aulas nas Caldas. Eram cerca de dezoito quilómetros percorridos no ronceiro comboio do Oeste, apanhado bem cedo, depois de um périplo pelas ruas da vila até à estação da CP.
Naquele dia, a volta que precedia a chegada à estação foi mais longa e passou pelo Largo principal da urbe, onde se depararam com um casal de franceses, necessitado de ajuda para prosseguir o seu caminho, souberam depois, rumo à Nazaré.
Parado no meio da via, não causando, na época, qualquer estorvo ao diminuto trânsito, mas impressionando os olhos dos da terra, um carro vistoso, enorme e brilhante (seria talvez um "boca-de-sapo", mas nenhum deles conseguiu confirmar). 
Na mão do homem um mapa, onde era apontada a Nazaré e, por gestos, os dois cônjuges procuravam indagar o caminho da saída, perante a ausência de qualquer sinalética que fizesse luz. Os interlocutores eram dois ou três adultos, que não conseguiam entender patavina do que pretendiam aqueles seres vestidos de forma meio estranha e que, ainda por cima, falavam uma língua que nenhum deles entendia.
A aproximação dos três jovens foi a salvação ... c'os diabos, três jovens, ainda por cima estudantes nas Caldas (!), saberiam resolver o problema do entendimento e ajudar os franceses.
E assim aconteceu.
Os três já detinham alguns conhecimentos da língua francesa e, com facilidade, perceberam que o problema era o caminho de saída rumo à Nazaré. O L., mais afoito, conseguiu fazer-se entender e, de imediato e, para espanto dos adultos, os três entraram no belo automóvel, iniciando a viagem que, para eles, terminaria em Caldas de "La Reine", e, para os franceses, à custa das precisas indicações dos jovens, culminaria, por certo, num belo banho de mar na Nazaré ou na deslumbrante paisagem do Sítio.
Na viatura, de luxo, a conversa resumiu-se, diz quem participou, a monocórdicos "oui", "non", "à droite", "à gauche", até à Praça da República, em pleno centro das Caldas.
E aqui surgiu a grande dificuldade!
Era necessário transmitir aos franceses que chegara a hora de parar "la voiture", que a hora das aulas se aproximava e que nenhum dos três estava interessado em prosseguir até à Nazaré e qual o caminho que deveriam seguir.
Em vão, cada um buscava a frase necessária, o "abre-te Sésamo que parasse o carro", "o valor de xis desta difícil equação".
O nervosismo e a falta de conhecimentos entaramelavam a língua e a frase, quando parecia quase, quase a chegar, fugia num ápice.
Até que ... "nous ficarrons ici"!
Os franceses entenderam, pararam "la voiture", esmeraram-se em "merci, merci beaucoup" e "les élèves" encaminharam-se a passos rápidos para a escola, onde fizeram jus à sua capacidade de explanação, para espanto e gáudio dos privilegiados que a ouviram.
A aventura foi de tal maneira glosada e gozada que o pobre coitado, que tinha resolvido o problema, foi durante bastante tempo massacrado com o "ficarrons".

segunda-feira, 15 de junho de 2020

FALU

Sendo importante fazer aquilo que se gosta, mais importante ainda é gostar daquilo que se faz.



domingo, 14 de junho de 2020

Quotidiano

Hoje é dia de descanso, cansado que estou dos feriados e da ponte que aconteceram nesta semana e me deixaram de rastos. O que vale é que, para a semana, estou de férias e posso recuperar.
Ironias à parte, já passei uma grande manhã de praia, com duas idas à aberta, o céu azul, sem vento e um mar à temperatura da ... Foz.
De tarde fui ver um artista a pintar, em cima de uma enorme grua, a primeira obra do FALU - Festival Artístico de Linguagens Urbanas. Amanhã espero dar um salto para, aqui bem perto de casa, na Rua Augusto Gil, ver começar a surgir a segunda obra.
Convenhamos que, com tanta coisa feita e a fazer, não há perigo de tédio, o cansaço tira a vontade de escrever e aponta que é melhor ir ler. É melhor para todos, eu incluído. 
Como dizia o outro: "para cúmulo da chatice, tanto falou e ... nada disse".

sábado, 13 de junho de 2020

Santo António

Porque a história também se aprende tentando interpretar os factos à luz da época e não com os olhos de hoje. 
Se assim não for, corremos o risco de sermos apenas ignorantes, que pretendem conduzir o automóvel puxando pelas rédeas.

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Santa Maria

No tempo da "outra senhora" as anedotas eram uma forma de o povo, à boca pequena, manifestar a sua crítica à política, aos costumes, à moral vigentes, uma vez que a televisão, ainda a dar os primeiros passos, a rádio e os jornais, eram formalistas e sujeitos a censura prévia e férrea.
Em Janeiro de 1961, o paquete Santa Maria foi tomado por um grupo de resistentes comandado pelo capitão Henrique Galvão que, durante cerca de 8 dias, conseguiu fazer tremer o regime e colocar Portugal e a sua política nas primeiras páginas dos jornais estrangeiros.
O Santa Maria dedicava-se a fazer cruzeiros com destino à América, dirigia-se a Miami, nos Estados Unidos e foi tomado em Curaçau, nas Antilhas, no dia 22 de Janeiro. Permaneceu em mãos rebeldes, navegando pelo Atlântico, até ao dia 2 de Fevereiro, data em que aportou no Recife, onde o Brasil concedeu asilo político aos intervenientes na aventura. 
De seguida, o Santa Maria voltou a Portugal e os portugueses ouviram de Salazar:
- Já temos o Santa Maria. Obrigado portugueses!
Pouco tempo depois, surgiu a anedota:

- Sabes quem é o homem que mais conviveu com santos?
- Não!?
- Henrique Galvão
- Porquê?
- Assaltou o Santa Maria, baptizou-o de Santa Liberdade por causa de um Santo António que é de Santa Comba e mora em São Bento.  

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Conversas de café

- Já foste hoje ao WhatsApp?
- Não tenho lá nada ...
 - Tens, tens, não viste a minha página? Já lá "postei" uma foto hoje.
 - Ah! isso foi no Face ... vi antes de sair de casa e até pus um "like".
- Faço sempre confusão. WhatsApp, Facebook, Instagram, para mim é tudo a mesma coisa, mas vou lá sempre.
- Eu todos os dias "posto" e faço comentários em tudo o que aparece.
- Aparecem coisas muit'a giras! 

Valha-nos isto. Como é que viveríamos sem estas publicações! Cá por mim, acho que até o Covid, se soubesse ler e tivesse telemóvel, se assustava e desaparecia.

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Tempos

A idade, diz-se, faz-nos rezingões, rouba-nos a paciência, tira-nos o filtro, dá-nos certezas onde antes hesitávamos, leva-nos na senda do "nunca me engano e raramente tenho dúvidas" de triste memória.
Porém, quem vai estando atento ao que se diz e escreve por aí, chega à conclusão que a pandemia fez luz numa grande parte das mentes que grassam nos jornais, nas televisões, nas redes sociais, e formou "especialistas" em catadupa, talvez resultado de um trabalho profundo e de um estudo pormenorizado efectuados durante o confinamento.
E por aqui nos vemos a ouvir os ditos "especialistas" a perorarem sobre o vírus, a crise na TAP, o orçamento suplementar, o valor do PIB, a percentagem da dívida, o aumento do desemprego, os desafios que se colocam às empresas, a solução para eles, o futuro do teletrabalho, a melena do Trump. as baboseiras do Bolsonaro, o tempo que já fez e o que irá fazer, o buraco do ozono e as alterações climáticas, o TGV e a bitola europeia, os melros que cantam e os que grunhem, os passarinhos e os passarões, os loucos e os deprimidos, o fora de jogo e o penalty, a solução da Suécia e a decisão da Nova Zelândia, a fome e a fartura, o gasóleo e os eléctricos, o Camões e o Bocage, a ponte e os santos populares, o arraial e as sardinhas, a polícia e o ladrão.
E eu, pobre mortal, escondo-me no quadradinho da minha ignorância e fico quase deprimido. 
Estarei velho? Vou perguntar aos "achistas" e eles, provavelmente, dirão que velho é um vocábulo fora de moda, que já ninguém usa, mas idoso, é certo e sabido que sim. Acham eles!

terça-feira, 9 de junho de 2020

Quotidiano

Sai Centeno (Mário) entra Leão (João).
E, conotações futeboleiras à parte, é bom que o novo Ministro das Finanças faça jus ao seu nome e seja um leão a substituir a águia que esteve até agora no Terreiro do Paço e na Europa.
A memória é quase sempre curta mas na minha ainda permanecem os passos do Coelho, a magia do Gaspar e as certezas da Maria que também é Luís, tudo sob a visão sobranceira de um Cavaco que morava em Belém.

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Racismo

Se, como canta a Adriana Calcanhotto, "só a bailarina é que não tem" aquilo que todos temos e somos, porque há tantas diferenças entre gente que cá chegou, e há-de partir, nas mesmas circunstâncias? E porque não nos respeitamos todos? E porque morre gente de fome e tantos de fartura? E porque raio o preto há-de ser tratado de forma diferente do branco? E porque ... e porque ... e porque ...

domingo, 7 de junho de 2020

Vermelhinha

As cartas não eram o seu passatempo favorito e diziam-lhe pouco. Todavia, conhecia e sabia jogar à bisca, à sueca, ao burro (em pé e deitado) e até ao king. 
Os jogos de azar também lhe eram familiares, embora raramente praticasse. O dinheiro mal chegava para as despesas (sobrava mês) quanto mais para arriscar na lerpa, no montinho ou no sete e meio. A batota, designação por que eram conhecidos estes jogos, era um vício terrível, todos diziam, e por isso o melhor era não arriscar. Algumas vezes ainda jogava, desde que os parceiros acordassem em não o fazer a dinheiro e se limitassem ao prazer de ganhar ou perder sem dano na algibeira.
Estava na capital há muito pouco tempo e regressava a casa já a noite tinha assentado arraiais. A rua tinha tascas, casas de pasto e de passe, uma ou duas cervejarias, e, sempre, muito gente a ver "onde paravam as modas".
Junto a um candeeiro, daqueles que têm o corvo lá bem em cima, um monte de gente atenta e interessada. Que se passaria? 
Chegou-se e espreitou: uma pequena mesa, três cartas viradas para baixo, um figurão de cabelo comprido e bem regado a brilhantina, bigode fino, mangas arregaçadas e boné na cabeça, gritava:
- É sempre a vermelhinha que ganha.
- Esta perde, esta torna a perder, é sempre a vermelhinha que ganha.
Três quadras, uma de espadas, outra de paus e uma terceira de ouros, a tal que ganhava sempre.
O figurão passava as três cartas de um lado para o outro, num curto espaço e numa velocidade estonteante ia mostrando cada uma, sempre com a mesma lengalenga:
- Esta perde e esta torna a perder, é sempre a vermelhinha que ganha.
De repente, as mãos paravam e as cartas ficavam quietas.
- Está feito e não mexe mais!
A atenção e a perspicácia dos espectadores já tinha adivinhado onde estava a quadra de ouros, que dobraria a aposta. O dinheiro ia caindo em cima das cartas, até que o figurão decidia acabar.
- Esta perde, e arrecadava as moedas que os parolos tinham colocado em cima;
- Esta torna a perder, e mais umas moeditas faziam o percurso rápido para o bolso;
- É sempre a vermelhinha que ganha, eu avisei. Preparem-se para a próxima.
A vermelhinha estava no local que ninguém tinha adivinhado. 
E o jogo continuava, sempre com o mesmo resultado. 
 - Olh'ó chui, ouviu-se.
A mesa eclipsou-se num ápice, as cartas tinham desaparecido antes e o figurão, tão rápido a fugir como a jogar, enfiou-se pela primeira porta que encontrou aberta e ninguém mais o viu.
O polícia parou, disse boa noite e continuou a ronda pela rua fora, até ao mercado do Forno de Tijolo, subiu a Damasceno Monteiro e deve ter acabado na Parreirinha da Graça.
- Está feito e não vale ensinar. É sempre a vermelhinha que ganha! 

sábado, 6 de junho de 2020

Livros (lidos ou em vias disso)

Três dias depois de ter chegado, ei-lo que se vai encaminhar para a prateleira e juntar-se a todos os seus "irmãos" mais velhos, num sítio onde não há violência e antes muito carinho por todos. 

É o melhor!?

Não sei, mas quando o terminei pensei isso. Depois, olhei o mar e disse para comigo: estarás a ser influenciado pela memória que está tão presente no espanto da Margarida e já arrumou no cantinho mais fundo todos os outros. Podes estar a ser injusto. Diz só: é muito bom!

Lembro-me de, há bastantes anos e quando RGC ainda estava no começo, ter ouvido António Lobo Antunes dizer, sem papas na língua, que ele era um grande escritor. Os seus livros têm-no confirmado e o "Daqui a nada" já saiu em 1995. A minha opinião, que nada vale, é a mesma. 

Espero que o próximo não tarde e não sofra as vicissitudes que este teve no "parto".

Margarida espantada
Rodrigo Guedes de Carvalho
D. Quixote (2020)

sexta-feira, 5 de junho de 2020

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Caça

Voltava quase todos os dias.
Alquebrado, com visíveis dificuldades de locomoção, uns óculos, com uma haste partida, na ponta do nariz, ofegante, a espingarda a tiracolo, na mão esquerda uma bengala de madeira castanha que já deveria ter servido a um seu antepassado, os sapatos cambados, calças de cotim, camisa branca e um colete preto, com costas de cetim cinzento, de cujo bolso esquerdo saía a corrente de prata do velho relógio que lhe administrava o tempo. 
Atravessava o jardim, cumprimentava quem lhe surgia fazendo apenas o gesto de tirar o boné e ciciava
- Bom dia
seguindo o seu destino. Dizia-se que, no dia do casamento, teria dito à mulher, numa voz muito suave e de fraco volume
- Não gostava que alguém, nesta casa, falasse mais alto do que eu.
Nunca se lhe ouvia justificação para a vinda nem o que pretendia fazer, mas todos sabiam o destino e o objectivo.
Em marcha lenta, passava as árvores grandes que delimitavam o jardim e encostava-se ao muro que vedava o pomar. Ia andando, encostado e curvado e, daí a pouco, ouvia-se um tiro. Nunca demorava muito tempo e o regresso era feito pelo mesmo caminho.
- Já levo almoço, ciciava.
E mostrava, quase sempre um coelho, por vezes uma perdiz, mais raramente uma galinhola.
Para ele não havia época de caça. Tinha sido feitor na casa, um problema de saúde diminuíra-lhe muito as capacidades e desistira. Todos o respeitavam e ninguém lhe chamava a atenção para a ilegalidade cometida. A venatória não tentava sequer lá entrar, mesmo que, por um acaso, ouvisse o tiro.
Um dia, há sempre um dia, acabaram-se os tiros e, anos passados, os coelhos, as perdizes, as galinholas e tantos outros também deixaram de por lá aparecer.