terça-feira, 13 de abril de 2021

Cara de pau

Cara fechada, sem quaisquer manifestações, um bom dia (mal) sussurrado, quase imperceptível. Tem aquele aspecto dos que se costumam definir como gente "a quem todos devem e ninguém paga". 

Não há sorrisos, nem sequer um simples esgar. Concentração máxima, sobrolho franzido, faz o seu trabalho sem uma fala, contraído, como se estivesse a aguardar o cadafalso ou a sentença de morte.

- Precisa de alguma coisa?

- Não.

E lá vai prosseguindo a tarefa, sem esforço físico mas com um peso na "pinha", que deve ser enorme. Nem os músculos da face mexem e até a "maçã do Adão" permanece imóvel.

Terminou. Baixinho, quase em murmúrio, duas palavras seguidas:

- Boa tarde.

- Uma boa tarde também para si e obrigado.

O objectivo é "fazer aquilo que se gosta e gostar daquilo que se faz", mas há pessoas que não conseguem. É a vida!

segunda-feira, 12 de abril de 2021

Sonhos

Esta noite tive pesadelos.

Sonhei que me tinham obrigado a ler as justificações do Juiz Ivo Rosa e o livro do ex-primeiro-ministro José Sócrates. Foi duro! Vi-me a braços com a fuga das folhas do Juiz, como tinha acontecido a Ricardo Araújo Pereira, no seu programa de ontem, e também com as letras muito pequeninas que, imagino, deve ter o novo livro candidato a best-seller. Tudo isto se deve à idade, acho eu, e o mais aborrecido é que os sonhos estão muito longe de ser o que eram ...

Feita a higiene da manhã, com o duche a lavar os devaneios sinistros da noite, tomado um bom pequeno almoço seguido da imprescindível "bica", um salto ao mercado semanal que, finalmente, voltou. Era preciso ir comprar uns morangueiros para "retanchar" os que não vingaram e aproveitar para "cuscar" como se estava a processar o regresso da vida ao espaço. As pessoas voltaram. Muitas. Os vendedores da zona dos produtos hortícolas estavam felizes e exibiam o sorriso correspondente. A avaliar pelo número de compradores, tudo indica que o coronavírus despertou o interesse pela agricultura em muita gente amadora.

Por aqui, as framboesas circundam o jacarandá (que já ultrapassou o telhado) e estão lindas, com o verde pintalgado do branco das flores. São agora a sala de visitas das abelhas e das borboletas, como esta que por lá estava hoje, ainda a manhã não ia a meio, e que nem sequer se assustou com a presença de quem lhe invadiu a privacidade, sem respeito nem autorização.

domingo, 11 de abril de 2021

Vícios ou ajudas

O pesadelo que nos acompanha há mais de um ano exige resistência e capacidade para conseguir manter o equilíbrio, limitando tanto quanto possível os estragos e tentando que a cabeça se mantenha a laborar com as peças todas, com sentido crítico e discernimento para que as parangonas noticiosas não provoquem pesadelos nocturnos.

A leitura e a música têm servido de companhia constante, "companheiras de jornada" que já eram e que agora reforçaram o seu compromisso, revelando-se fundamentais e imprescindíveis.

Três intervenientes de quem gosto bastante: Cristina Branco, Mário Laginha e António Lobo Antunes. Sem qualquer preocupação de ordem de preferência, representam a companhia que me têm feito o canto, a música e a leitura.


E, no fim, fica sempre a sensação de que, se gostássemos um pouco mais de nós, talvez conseguíssemos ser mais felizes e contrariar a "sina".


sábado, 10 de abril de 2021

Mentira

Corria o primeiro ano da década de setenta do século passado e as rotinas eram poucas e muito circunscritas.

- Há festa em ... e hoje o baile é com o Conjunto ... Vamos lá?

Uma colecta para a gasolina rendeu os 20$00 necessários para a viagem - cada litro da normal custava 5$30 - e quatro litros chegavam para quase 50 quilómetros. Não era tão longe ...

O empregado da bomba (nessa altura havia empregados nas bombas) ouviu, a brincar e entre risota:

- Ponha 20 paus para atestar ...

E lá foram quatro mariolas, numa noite de sexta-feira, à procura de música e da bailação. Havia muita gente, barulho, leilões para ajudar nas despesas, quermesse, muito vinho, já algumas bebedeiras, apesar de pouco passar das dez da noite. A música ainda era gravada e o conjunto preparava-se, no palco, para começar a tarefa de fazer bailar toda a gente, novos e velhos, que "só há festa uma vez por ano".

As meninas sorriam, a aguardar o convite feito com discrição. As mães controlavam o par e assim que as filhas se encaminhavam para o centro do arraial, seguiam o mesmo caminho, dançando umas com as outras, bem perto, para evitar as "indecências".

De repente, qual furacão, o homem surge a espumar de raiva e dirige-se a um dos do grupo. Todos os olhos caíram sobre ele e a menina, seu par.

- Larga! A minha filha não dança com "gajos" casados.

E, palavras não eram ditas, o braço forte puxou a filha e levou-a, apartando o par, sem ouvir a explicação dada entre dentes, com alguma aflição à mistura e um rubor na cara que quase parecia a camisola do Benfica:

- Não me conhece de lado nenhum ...

- Desaparece, antes que te faça a "tromba" num bolo!

O  conjunto parou de tocar. A multidão encarou os intrusos com ar de poucos amigos. A saída foi feita "de fininho", pela "esquerda baixa" e a festa deve ter continuado depois, sem valdevinos a perturbar. Já bem longe, uma paragem para recuperar o fôlego e controlar o medo e as emoções, e descobrir a origem do desacato.

- Estavas a ir longe demais? Ou a apertar muito?

- Não. Até estava a conversar, a dizer que era a primeira vez que vinha à festa e que a menina dançava muito bem.

- Mas o homem conhecia-te, de certeza.

- Nunca o tinha visto.

A entrada no café trouxe luz e mostrou a razão evidente da bronca. A aliança tinha sido escondida no bolso, mas a marca no anelar da mão esquerda traiu.

A mentira tem perna curta ... mesmo a bailar! 

sexta-feira, 9 de abril de 2021

Justiça

Quase sete anos depois, com a leitura de uma resma de folhas A4 que demorou mais de três horas, a "montanha pariu um rato".

Dir-se-á que é o tempo da justiça e o estado de direito a funcionar mas, para um leigo, ainda por cima com dificuldades no entendimento do "direitez", é triste ver o resultado, depois de todo este tempo na praça pública. 

Ficará para a história o falhanço da acusação e, como sempre, a culpa será apenas da interpretação e nunca da incompetência. O Ministério Público, depois deste atestado, vai por certo recorrer e procurar salvar a face com esse recurso. O Juiz teve o seu "tempo de antena", leu o "romance" de muitas centenas de páginas, que agora será escalpelizado e analisado por Departamentos superiores.

Veremos os desenvolvimentos futuros, com muitas dúvidas de que tudo se concluirá ainda na vida dos intervenientes.

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Miséria

A morada era um carro, velho, coberto por uns panos grandes, seguros por elásticos, que se encontrava estacionado junto a um, também velho, pinheiro manso.

Vieram as obras de requalificação das ruas e aquela foi uma das contempladas, decerto por fazer parte do plano previsto, reforçado agora por ter passado a ser um dos principais acessos ao enorme restaurante Mcdonalds, que por ali se instalou recentemente.

Abandonou o poiso e acomodou-se a algumas centenas de metros, agora numa carrinha grande, mais nova e mais discreta. Mesmo assim,  havia um pano por cima para assegurar, julgo, algum conforto, e fazer de cortina ao "quarto", protegendo as intimidades. Aqui, ainda mantinha a vista para o restaurante e, de lá, também era visível.

Partiu de novo, obrigado ou convidado a sair. Não o descortinei durante alguns dias e pensei que alguém lhe tinha resolvido o problema e arranjado um espaço para habitar. Surgiu-me hoje, de novo, num outro local, sem vista para o restaurante mas com porta para a rua e para o trânsito.

A carrinha está bem estacionada, não podendo ser legalmente removida nem multada. O "inquilino" por lá vive, sem quaisquer condições de salubridade e higiene. 

Será teimosia do próprio ou toda a gente assobia para o lado, como eu?

quarta-feira, 7 de abril de 2021

Caminhada

O "grupo" voltou hoje às caminhadas, com as cautelas devidas, "mascarados", a distância determinada mas não medida, as vozes bem altas, para nos fazermos ouvir. 

A conversa fluiu e os cinco quilómetros foram percorridos sem esforço e quase sem se dar por eles. O barulho dos carros, tão incomodativo no passado, passou hoje despercebido, tal a ansiedade do reencontro e a satisfação pelo regresso dos hábitos, bem sumidos pelo tempo decorrido sem quilómetros calcorreados em conjunto.

As notícias parecem ser animadoras, muito embora isso já tivesse acontecido noutros tempos e, depois, tudo regrediu e obrigou a reduzir o espaço de liberdade e a circunscrevê-lo à "casinha" e pouco mais.

O tempo ajuda e o azul do céu reforça o efeito da esperança, como se verde fosse. 

Talvez consigamos, desta vez, colocar o "bicho" em sentido e obrigá-lo a depor as armas. 

terça-feira, 6 de abril de 2021

Embirração

Há muitos anos, num colóquio sobre rádio, ouvi um conselho de Joaquim Furtado, dirigido a todos aqueles que faziam ou pretendiam fazer rádio:

"Se não tem nada para dizer ou não sabe o que há-de dizer, cale-se. Ponha música!"

Quase todos os dias isto me vem à lembrança quando vejo os telejornais das várias televisões, os quais, na maior parte do tempo, poderiam ser substituídos por música, que toda a gente ficava a ganhar e eram reduzidas as exibições de braços com agulhas.

Hoje vou seguir o conselho, embora o blogue não seja rádio, não tenha a pretensão de dar notícias e quem "rabisca" as palavras não pretenda ser outra coisa que não um "diaristazito", que tenta escrever sem erros. As imagens abaixo são da ópera La Traviata, representada em Março de 1958 no Teatro de S. Carlos, tendo Maria Callas como primeira figura. Claro que não recordo nada disto (nessa altura nem sonhava que havia S. Carlos quanto mais ópera), mas tenho uma vaga ideia das eleições de Humberto Delgado, que aconteceram em Junho do mesmo ano e deram a vitória ao candidato que ficou em segundo lugar.



segunda-feira, 5 de abril de 2021

Visita

Já por lá não passava há bastante tempo. Um mês, dois, talvez perto dos três, aconteceu a última vez. (rimou mas não foi de propósito)

Fui à Rua Almirante Cândido dos Reis, que toda a gente conhece por Rua das Montras, e a "montra" tinha uma boa exposição. A esplanada estava cheia e havia uma "reunião" de quatro conhecidos, em amena cavaqueira, bem no meio do caminho com, soube-o depois, dois deles a aguardar mesa vaga para voltarem a deliciar-se no poiso habitual e tão ausente nos últimos tempos.

Juntei-me à conversa e por ali estive, quinze, vinte minutos, talvez meia-hora, a falar sobre a cidade, eleições autárquicas, obras, governo, crise, Marcelo e Costa, o tudo e o nada, como convém nestas "tertúlias". Falámos ao mesmo tempo, depressa, gesticulámos muito, que a ânsia de mostrar que ainda sabemos conversar é enorme. Depois, bem, depois fomos cada um à sua vida, mais frescos, mais limpos e mais fortes.

Passaram inúmeras pessoas, o sorriso apenas nos olhos que a máscara não permite mais. Sentia-se o prazer, a boa disposição - quero que me vejam - uma satisfação imensa por parecer que o normal está em vias de regressar, como todos ansiamos.

domingo, 4 de abril de 2021

Páscoa

Uma rosa de uma roseira com mais de 40 anos e um jasmim, que esteve quase morto e surge agora a dar uns pequenos passos rumo à florescência normal.

Assim vai o jardim em mais um Domingo de Páscoa confinado.

sábado, 3 de abril de 2021

Palavras bonitas

ANJO INCOLOR 
 
Abri o livro na altura
em que o Anjo me sorria
e em vez de mel prometia
amor, descanso e ternura.

Falava como que a sós.
E as palavras flutuavam.
Eram pombas que poisavam
no fio da sua voz.

Escutei-o de olhos no chão
como se fosse o culpado,
como se o mundo enredado
estivesse na minha mão.

Abri o peito e mostrei-lhe
a areia, a pedra britada,
os planos da grande estrada
onde o Anjo se ajoelhe.

Ele fitou-me, de frente,
de olhos frios como brasas.
E abrindo e fechando as asas
rasgou o céu, lentamente.

Sobre a folha imaculada
por longo tempo nevou.
Sentei-me à beira da estrada
mas o Anjo não voltou.

Poesias Completas (1956-1967)
António Gedeão
Portugália (1975) 

sexta-feira, 2 de abril de 2021

quinta-feira, 1 de abril de 2021

IRS

Cumpri a obrigação de contribuinte cordato, fiel e legalista. 

Fi-lo na noite de ontem, ainda antes de o Dia das Mentiras se iniciar, embora fosse o dia 1 de Abril o determinado pelo Governo para o início das entregas. Espero que esta minha atitude não venha a ser declarada inconstitucional, porque foi eivada das melhores intenções e no pressuposto de facilitar a vida a quem cabe mandar processar os reembolsos.

Com receio das aglomerações e cumprindo o distanciamento, experimentei, a página abriu e ... foi rápido. Até já sei que vou receber, e quanto. Só desconheço quando. Tomando por certa a conversa de quem manda, vai ser muito em breve e mais cedo do que no ano passado. Dirão uns: "chico espertice"; acrescentarão outros: "pressa de velho"; determinarão, por fim, os mais sapientes e ocupados: "não tem mais nada para fazer, entretém-se".

Talvez todos tenham razão. Contudo, o lema aprendido há muitos, muitos anos, comanda sempre:

"Não guardes para amanhã o que podes fazer hoje."

quarta-feira, 31 de março de 2021

Vida(s)

Não sei, em concreto, onde vive. Ali para os lados do quartel, mas ao certo, certo, não consigo dizer. O antigo "bairro da lata", como era conhecido nos anos sessenta do século passado, é hoje o Bairro de S. Cristovão. Já não tem barracas, as ruas estão alcatroadas e têm nome, e está agora a sofrer uma intervenção municipal que tornará a sua entrada mais atraente para os que lá vivem e para os que por lá passam. Bem perto do Bairro fica o pinhal, antigo, onde fiz algumas simulações de combate quando a instrução militar me passou pelo corpo. Um pouco mais à frente (ou antes, dependendo do sentido), a ESAD, que aproveitou as instalações do antigo Hospital de Santo Isidoro, recuperou-as e ampliou-as, e fez uma escola de artes, hoje pólo conceituado e atractivo para muitos jovens artistas, que todos os anos trazem à cidade a sua irreverência e a sua especificidade de intervir. 

Quase me perdi em divagações, quando o que pretendia era escrever duas linhas sobre ela. Terá quarenta, cinquenta anos, talvez menos. Mais não, que se assim acontecesse, atiraria para a minha geração e estaria no "arquivo". Tem problemas, visíveis, de álcool e outras adições, traz sempre um saco às costas, com um conteúdo que desconheço e nem faço a menor ideia qual seja. Já a encontrei sentada no estacionamento do supermercado, a dormitar e quase de certeza a sonhar. Hoje vinha andando, meia trôpega, com os olhos a quase saírem das órbitas e a olharem, perdidos, o infinito. A pele, acobreada, tem rugas bem marcadas do "castigo" que carrega. O corpo não é gingão mas abana como se a ventania o fustigasse sempre. Terá família? Recusará ajuda? Como sobrevive?

Lembro-me disso sempre que a vejo. E que faço? Nada! "Alguém" tem obrigação ... 

terça-feira, 30 de março de 2021

Encomenda

A compra foi feita há quase um mês. No correio electrónico de confirmação era dito que, face às circunstâncias que se vivem, a entrega só aconteceria no dia 30 de Março, entre as oito e as catorze horas. Sem problema, disse para mim. As obras vão demorar algum tempo e, nessa altura, ainda estarão a decorrer. A aplicação da placa é das últimas coisas a fazer.

Há três dias, uma mensagem confirmou a entrega entre as oito e as catorze, referindo que "em caso de ausência poderá ser cobrado valor para novo agendamento". Sem problema, pensei de novo. Nesta fase, não há obrigações que não possam ser alteradas ou adiadas, isto se existirem. Haverá alguém em casa, para evitar novo agendamento.

A manhã corre, sem novidades a não ser a do sol, que se esqueceu de aparecer. Deve ter ficado em casa a aguardar alguma encomenda ... Findo o almoço, o "postigo" chama para o café. Não hão-de chegar nestes dez minutos ... O telefone toca. Um número esquisito, começado por 300. Atendo uma senhora, com um português do Brasil bem acentuado.

- É o sinhô Orlando? Vou graváre a chamada.

- Sim, sou eu. E quem é a senhora? Vai gravar o quê?

- É sobre sua encomenda. Não vai chegá na hora, mas vamo entregá até às dezesseis. Pode sê?

- Sim, claro. Obrigado. 

- Obrigado nois.

Ainda aguardo, mas deve estar a chegar. Uma organização destas não falha! 

segunda-feira, 29 de março de 2021

Quotidiano

Como toda a gente, não tenho um passado imaculado e fiz muitas asneiras, algumas que recordo, muitas outras que caíram no arquivo impenetrável por vontade própria, auto-defesa ou mesmo esquecimento puro. Ainda hoje, com todo o saber da experiência feito, é raro o dia que não cometa erros, faça coisas indevidas ou das quais me arrependo mais tarde. 

Por isso, cada vez tenho mais dificuldade em suportar os que se consideram infalíveis, têm sempre a solução na ponta da língua e, cúmulo, dominam todos os temas. E também aqueles que, perante a evidência do erro cometido, procuram os argumentos mais incríveis que o justifiquem e lhe dêem, até, credibilidade. E ainda aqueles outros que, do alto da sua "sapiência", tentam mostrar à saciedade e à sociedade que a "divina providência" lhes facultou os recursos, únicos, para "pregarem" a forma e o conteúdo da vida dos outros, como se só a cabeça deles funcionasse e apenas os seus olhos vissem as cores do quotidiano, do passado e do futuro.

Quando isto me acontece e me surgem estes seres sobredotados a indicarem o caminho, o "computador" apela à memória e traz à tona o Cântico Negro, de José Régio:

(...) Não sei por onde vou, não sei para onde vou, sei que não vou por aí.

domingo, 28 de março de 2021

Livros lidos (ou em vias disso)

Chegou na quarta-feira passada, com a assinatura do autor, prémio por ter sido adquirido em pré-venda. Passou à frente dos que estão na fila por a chegada ter coincidido com o final de Tahirir, de Alexandra Lucas Coelho, e por o autor ser um dos meus preferidos da actual geração de escritores portugueses.

Está a justificar a ultrapassagem. É uma biografia romanceada de Rui Nabeiro, o homem de Campo Maior que hoje completa 90 anos. 

(...) Foi ao entregar a vasilha que a minha mãe me prometeu a nata. Eu conhecia já o desenvolvimento desse gesto, não era a primeira vez. Entrei em casa e sentei-me à mesa com as minhas irmãs, a pequena não estava ainda farta de brincadeira. Sopa de feijão com massa, a minha mãe sempre de pé, a ir de uma tarefa para outra, acabámos de comer em silêncio, as sombras engrossavam nos cantos. Mas a pequena ainda estava esperta, não pensava em sono, e a minha irmã Cremilde fazia-lhe a vontade, as suas vozes a desmontarem-se até serem risos e, sem esforço, a transformarem-se outra vez em vozes. Recolhida a loiça, quando fui buscar o caderno da escola e me sentei à mesa, arrumado ao candeeiro de petróleo, a minha mãe deu ordem às raparigas para irem para o quarto, não se importaram, sabiam que lá estariam mais soltas. O carvão do lápis, no papel, sob a luz do candeeiro, penumbra, era feito de sombra, escrevi letras com sombra. O tempo, a minha mãe e eu, todos os objectos de cozinha.

E, há poucos minutos, voltei a guardar o caderno, os trabalhos terminados, aptos para o olhar do professor e, imediatamente, os sons do alumínio e do esmalte, a vasilha de alumínio a verter o leite para o púcaro de esmalte. Apercebo-me ainda do momento em que arrumei o púcaro às brasas, a raspar o chão de cinzas, ao lado da cafeteira com água que está sempre encostada ao lume. Esse momento aconteceu e está ainda a acontecer, existiu o ponto em que tudo era nesse momento, e existe este ponto arrastado em que é um eco, imagem desfiada, composta por notícias em que só agora reparo.

Interrompendo um raciocínio, de repente, como se me quisesse apanhar desprevenido, o leite sopra um arrufo e lança-se; mas os meus reflexos são imediatos, inclino-me e puxo o púcaro. A minha mãe dá conta desse gesto. Tem tudo preparado, abre a lata do café. (...)

Almoço de Domingo
José Luís Peixoto
Quetzal (2021)

sábado, 27 de março de 2021

Dia Mundial do Teatro

Comemora-se hoje o Dia Mundial do Teatro apenas com as peças trazidas para o ecran, que funcionam por não ser possível outra usufruição. Sabe a sopa sem sal ou a torrada sem manteiga, mas é o possível. Há vários espectáculos que podem ser vistos a preços simbólicos e alguns, até, de forma gratuita. 

Mas o teatro precisa de público, do apagar das luzes, da entrada em cena, dos aplausos, do regresso dos actores ao palco, já "despidos". Hoje não pode haver nada disso. Acalenta-se a esperança de poder estar para breve o regresso ao teatro ao vivo, em sala ou em espaço aberto.

Para assinalar a data, fica um extracto da Farsa de Inês Pereira, escrita em 1523 por Gil Vicente, por muitos considerado o pai do teatro português. A grafia segue o acordo ortográfico da época e o conteúdo mantém a actualidade possível.

(...) Escudeiro

Antes que mais diga agora,
Deos vos salve, fresca rosa,
E vos dê por minha esposa,
Por molher e por senhora;
Que bem vejo
Nesse ar, nesse despejo,
Mui graciosa donzella,
Que vós sois, minha alma, aquella
Que eu busco e que desejo.

Obrou bem a natureza
Em vos dar tal condição,
Que amais a descrição
Muito mais que a riqueza.
Bem parece
Que a descrição merece
Gozar vossa fermosura,
Que he tal que da ventura
Outra tal não s'acontece.

Senhora, eu me contento
Recebervos como estais;
Se vós não vos contentais,
O vosso contentamento
Póde falecer no mais.
(...)
Autos e Farsas
Gil Vicente
Colecção dirigida por Vasco da Graça Moura

sexta-feira, 26 de março de 2021

Atrás do tempo, tempo vem

Chega ao fim mais uma semana. A Páscoa está à porta, sem festas nem ajuntamentos, que as notícias chegadas "lá de fora" não são nada animadoras e o exemplo do Natal ainda está bem fresco na memória.

A caminhada não se afigura com fim à vista. Tem mais semelhanças a um percurso circular, sem meta marcada, do que à maratona sempre referida, mas da qual todos desconhecem a distância a percorrer.

Passado mais de um ano, continuamos a assistir a uma infinidade de opiniões, algumas com nexo, outras perfeitamente dispensáveis, por vazias de conteúdo ou por mais não serem do que tentativas de colocar "egos" em bicos de pés, procurando agarrar o "céu" a que nunca pensaram chegar. 

Tudo isto acontece, realçado pelo vigor frenético dos títulos e "apimentado" com imagens constantes da seringa a picar o braço e da zaragatoa a invadir o nariz.

Valha-nos a certeza de que o tempo não pára e o Verão está quase a chegar ...

quinta-feira, 25 de março de 2021

Liberdade escurecida

O sol já deverá estar a esconder-se no mar da Foz do Arelho, naquele movimento de luz alaranjada (não confundir com laranjinha) que, para quem sabe de fotografia, proporciona imagens lindíssimas. 

Como a partir da meia noite já não se poderá transitar entre concelhos, estou com algum receio que ele não arranje documento justificativo e, amanhã, não apareça e a escuridão nos atinja a todos. Claro que não vai acontecer, apesar das minhas dúvidas. O sol preocupa-se com todos nós, sabe da nossa necessidade de vitamina D, apesar da ocupação que carrega de andar lá nos céus noite e dia atrás da lua, como diz a cantiga. Ele anseia que as nuvens não o toldem, se ajustem e afastem, deixando-nos o azul e o quentinho, que bem merecemos, se nos portarmos bem.

E portar bem significa usufruir vibrantemente da nossa liberdade, cuidando sempre de a domar para que não prejudique nem colida com a dos outros.

De acordo com as notícias, ontem foi dia de escuridão completa no Tribunal de Odemira. Um julgamento foi adiado porque o pacóvio que presidia queria toda a gente sem máscara, por achar que o uso da dita lhe violava a liberdade. Felizmente, parece que já alguém se impôs e mandou a figurinha para casa aprender os ditâmes da função que lhe estava cometida.

Talvez ainda vá a tempo de fazer a quarta classe de adultos, para que não se diga que o analfabeto conseguiu chegar a juiz ...

quarta-feira, 24 de março de 2021

Primavera

O meu amigo ADS partilha comigo muitas coisas, de entre as quais algumas subtraídas desse grande armazém arquivador que é a Internet. A boa música faz muitas vezes parte dessas partilhas e eu, de tão habituado que já vou estando a esses mimos, cometo muitas vezes a indelicadeza de nem ops agradecer.

Ontem recebi uma animação da Primavera, de António Vivaldi, que muito me agradou. Entrei no arquivo, encontrei várias, mas não há amor como o primeiro ...

Aqui fica, para meu deleite e de todos os que apreciam boa música, acompanhado de expressivos desenhos "falantes".

terça-feira, 23 de março de 2021

Vícios

O café mantém-se "postigado" e a ida não é uma aventura embora ofereça sempre algumas curiosidades, impensáveis há uma ano. Já poucos se lembrarão, mas a entrada nos cafés era completamente livre e havia sempre clientes e conversas com fartura.

Estavam seis pessoas na fila, ainda que pouco passasse das 13 horas (os velhos refeiçoam cedo). Alguma impaciência na espera que o gong desse sinal de entrada. Dos seis, apenas dois beberam café. Os outros quatro procuraram a fortuna, adquirindo raspadinhas que a Santa Casa oferece, pagando, claro. A ansiedade era grande e a prática, via-se, imensa: já cá fora, na mão esquerda o segredo do papel ou o papel do segredo; na direita, a moeda que talvez descubra a sorte.

Ninguém voltou à fila, seguindo o seu caminho sem quaisquer manifestações de júbilo. Verdade se diga que também não me pareceu que ficassem muito desgostosos. Já devem estar habituados a que a sorte não os bafeje.

Amanhã voltarão e eu terei, de novo, companhia distanciada, como convém, e a fila a determinar a entrada para o café do "postigo". 

segunda-feira, 22 de março de 2021

Tempo

Já não lembro com precisão quando foi e porque foi, mas tive o primeiro relógio bastante novo. Talvez doze ou treze anos, o que, na época, era um grande privilégio. Foi oferta do meu pai, por certo para premiar algum feito escolar que devo ter realizado e mereceu a recompensa.

Nunca mais deixei de usar relógio, primeiro no braço esquerdo e aí por volta dos 18 anos, no braço direito, por me parecer mais fácil de consultar. Já passaram pelos meus braços muitos exemplares, desde os que exigiam corda manual, diária, aos que o balanço do braço mantinha "vivos", aos mais recentes, sofisticados e impiedosamente certos, desde que a pilha estivesse em condições, situação que se resolvia com uma simples ida ao relojoeiro, para substituir.

Esse instrumento arcaico chamado relógio foi substituído no passado dia 19, Dia do Pai ou dos Pais, como parece ser chique dizer agora. Os meus netos ofereceram-me um monitor de actividade física. Não é um relógio, mas dá as horas de todo o mundo; tem calendário perpétuo, que sabe quais são os meses de 30 e os de 31 e não tem dúvidas sobre quando o Fevereiro tem 29 dias; conta todos os passos que dou e transforma-os em distância, sem necessidade de agrimensor; mostra as pulsações e diz-me quantas horas dormi e destas, quantas foram de sono profundo; analisa o stress diário e ainda deve fazer mais coisas, que irei descobrindo. De tudo faz estatísticas e elabora gráficos. Se eu pretender, até me avisa quando o telefone toca ... sem o Matos Maia, claro, que esse era do antigamente!

E lembrar-me eu que o meu avô usava um "cebola" no bolso do colete, preso num botão do mesmo por uma corrente de "prata" e que o polegar e o indicador muito labutavam naquela carrapeta para o manter "vivo".

domingo, 21 de março de 2021

Primavera dominical

Dia da Árvore, Dia da Poesia e um dia de sol, lindo, e com pouco vento. Um passeio matinal, uns trabalhos em casa, umas páginas lidas de um dos (muitos) livros que ambicionam ser lidos, os olhos passados por alguns jornais. Paragem mais cuidada no P2 do Público e na habitual crónica de Carmen Garcia, com o título "O meu pai esteve na guerra" que, como sempre, vale a pena ser lida, pela objectividade, pela clareza e, sobretudo, pela sensibilidade que a autora coloca nos seus textos.

A ginjeira está em flor, bonita como são todas as flores, e até a abelha se aproveita disso. Os melros, visita assídua do quintal, já devem "lamber o bico" pelas ginjas que hão-de nascer e que irão saborear em primeira mão.

nada pode ser mais complexo que um poema

organismo superlativo absoluto vivo,

apenas com palavras,

apenas com palavras despropositadas,

movimentos milagrosos de míseras vogais e consoantes,

nada mais do que isso,

música,

e o silêncio por ela fora 

Servidões
Herberto Helder
Assírio & Alvim (2013)

sábado, 20 de março de 2021

Vocabulário

Sou "cliente" do blogue Duas ou três coisas, que o embaixador Francisco Seixas da Costa mantém com informações diárias, quase todas de excelente gosto e conteúdo. Ontem deparei-me com um conjunto de vocábulos, muitos deles que nunca tinha ouvido, publicados no jornal brasileiro Folha de S. Paulo, por Mariliz Pereira Jorge. O objectivo foi, julgo, encontrar palavras para definir aquele que preside ao país de Chico Buarque, de Machado de Assis, de Jorge Amado, de João Cabral de Melo Neto, de Clarice Linspector, de Caetano Veloso, de Maria Bethânia e tantos outros. 

"Ignóbil. Basculho. Baixo. Repugnante. Canalha. Deplorável. Mesquinho. Patife. Ordinário. Reles. Pulha.Sórdido. Torpe. Velhaco. Abominável. Detestável. Ralé. Biltre. Infame. Bandalho. Aberração. Calhorda. Desprezível. Pífio. Ignorante. Vil. Ribaldo. Soez. Jacodes. Cafajeste. Bronco. Inculto. Boçal. Néscio. Estúpido. Rude. Verme. Desgraçado. Maldito. Jumento. Monstruoso. Sádico. Burro. Insensível. Mentecapto. Demónio. Desalmado. Incapaz. Covarde. Crápula. Incompetente. Doentio. Sociopata. Peste. Idiota. Energúmeno. Reaça. Desequilibrado. Imoral. Rato. Mandrião. Beócio. Abjecto. Descarado. Pusilânime. Enxurro. Choldra. Gentalha. Labrusco. Desrespeitoso. Cruel. Facínora. Atroz. Maligno. Cafona. Execrável. Infando. Nefando. Abominável. Inclemente. Mau. Sicário. Viperino. Tirano. Impiedoso. Desumano. Malfeitor. Celerado. Estrupício. Chorume. Louco. Escroto. Lixo. Inútil. Escória. Ogro. Mitômano. Ególatra. Tosco. Verdugo. Mentiroso. Asno. Babaca. Déspota. Autoritário. Morte. Opressor. Tapado. Mandão. Autocrata. Desnecessário. Safardana. Prepotente. Abusivo. Injusto. Reacionário. Fascista. Cínico. Animal. Desaforado. Histrião. Grosseiro. Vulgar. Malandro. Inconveniente. Sujo. Sem-vergonha. Obsceno. Brega. Charlatão. Perverso. Monstro. Ditador. Embusteiro. Horrível. Desnaturado. Carrasco. Egocêntrico. Mariola. Salafrário. Imbecil. Lunático. Bufão- Garganta. Farofeiro. Farsante. Oportunista. Indefensável. Broxável. Carniceiro. Irresponsável. Excrementíssimo. Marginal. Praga. Traiçoeiro. Criminoso. Terrorista. Asqueroso. Cu de boi. Podre. Capiroto. Embuste. Lazarento. Indecoroso. Desmoralizado. Imprudente. Maléfico. Parasita. Delinquente. Seboso. Coisa-ruim. Quadrilheiro. Arrombado. Mau-carácter. Frouxo. Fracassado. Ressentido. Obtuso. Boçal. Brutamontes. Cavalgadura. Descortês. Lorpa. Pateta. Cretino. Parvo. Pacóvio. Inapto. Desqualificado. Pequi-roído. Genocida."

O português é uma língua riquíssima: tantas palavras para designar um parvalhão!

sexta-feira, 19 de março de 2021

Dia do Pai

O meu pai dizia. com frequência que:

- É bom chegar a velho mas não é bom ser velho.

Tinha toda a razão, acrescento eu. Faria hoje 99 anos.

quinta-feira, 18 de março de 2021

Devaneios assertivos

Da sabedoria popular:

Bem prega Frei Tomás. Faz sempre como ele diz, nunca como ele faz

Quem torto nasce, tarde ou nunca se endireita

Não basta à mulher de César ser séria, é preciso parecê-lo

Cão que ladra não morde

Livrar de cão que não ladra e de homem que não fala

Fui à minha vizinha, envergonhei-me. Vim para casa, remediei-me

Não se pode ter sol na eira e chuva no nabal

No poupar é que está o ganho

Quem muito dorme pouco aprende

Quem vê caras não vê corações

De Peter Drucker:

Gerir é fazer certas as coisas; liderar é fazer as coisas certas

quarta-feira, 17 de março de 2021

Barber Shop

A caminho do barbeiro, não encontro ninguém conhecido. Passam por mim meia dúzia de pessoas, bem mais novas e apressadas. No parque de estacionamento havia lugares "à fartazana". A actividade da cidade ainda está muito longe do normal. Muitas lojas do pequeno comércio ainda permanecem fechadas e isso causa algum desconforto ao passar, lembrando o Fulano, o Sicrano, o Beltrano que, à vista, estão "mortos".

O meu amigo C. está a funcionar "ao postigo" e falou comigo à porta. Ninguém entra para comprar nem para dois dedos de conversa. Estávamos nisto, enquanto eu aguardava a minha hora marcada e o barbeiro despachava o freguês anterior e desinfectava tudo, quando apareceu um cliente. Queria ver canas de pesca, embora a actividade de pescador amador ainda esteja interdita.

- Tem alguma ideia?, perguntou o C.

- Queria ver ...

- Não pode entrar. A polícia passa muitas vezes e, se estiver lá dentro, aplica-me uma multa. Vou trazendo para aqui, para ver se gosta ...

O barbeiro, que fica em frente da loja do C., chamou-me. Estava na hora de me sentar na cadeira e de cortar a guedelha.

Já mais leve, voltei à conversa com o C.

- Vendeste a cana ao homem?

- Não. Talvez volte quando a pesca voltar a ser permitida. Hoje até nem foi muito mau. Vendi um saco, entreguei quatro cofres (para as armas) e tive algumas promessas...

O dia está a acabar. As poucas pessoas que (ainda) andam na rua, vão recolhendo à casinha. Espera-se um amanhã melhor, mas não vai ser fácil ... 

terça-feira, 16 de março de 2021

Futuro

Faz hoje um ano que coloquei aqui o primeiro texto sobre o "bicho". Também passam hoje 47 anos do levantamento do "meu" RI5, que serviu de prólogo ao 25 de Abril. Uma poeta que muito admiro - Natália Correia - deixou-nos também neste dia, há 28 anos.

Porém, como a vida não é feita de passado e sim das portas abertas para o futuro, o meu neto GRANDE, que ainda não tem 15 anos, fez isto, apenas com um telemóvel.


E ainda há quem diga "no meu tempo" ...

segunda-feira, 15 de março de 2021

Ao postigo

Postigo - s.m. 1. pequena porta secundária, aberta numa muralha, fortificação, etc. 2. janelinha em portas ou janelas, para se olhar quem bate, sem as abrir; espreitadeira. 3. m.q. Guiché 4. m.q. Portinhola ('de coche') 5. pequena janela 6. abertura no tampo dianteiro de tonel ou pipa (pelo qual se faz a limpeza) 7. mar Tampa com que se fecham vigias, gateiras, etc., em embarcações 8. mar m.q. Gateira ('abertura') etm. lat. posticum 'a parte posterior de uma edificação, porta dos fundos, porta escusa, quarto dos fundos, latrina, traseiro, nádegas'.

Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa
2003

De acordo com as regras do confinamento, o café de hoje foi ao postigo, sem pecado e com chávena própria, que nos copos de papel o sabor é muito, muito diferente.

Uma maravilha ... e soube tão bem!

domingo, 14 de março de 2021

Sol

Um dia de sol tão bonito, a cheirar a Primavera, merece uma voz maravilhosa e uma música a condizer.

Razões que a razão desconhece fazem com que uma grande artista pareça "banida" dos holofotes e das rádios do seu (nosso) país, na certa por a sua qualidade não estar ao nível das piroseiras que, todos os dias, nos invadem a casa sem quaisquer escrúpulos.

O "Amor a Portugal", em cerca de cinco minutos, numa interpretação soberba de Dulce Pontes, acompanhada brilhantemente pela Banda da Armada.

sábado, 13 de março de 2021

(Des)Confinamento

Foi divulgado, pelo Primeiro-Ministro António Costa, o calendário que determina a forma como, se tudo correr bem, iremos voltar à vida (quase) normal. Aconteceu no final do dia de quinta-feira, deu origem a inúmeros comentários, apoios e críticas de quem sabe do assunto e disse-se até,  "malevolamente", que o Presidente da República teria aproveitado a viagem a Roma para não falar ao país e  se descartar da decisão, prevenindo a eventualidade de alguma coisa correr mal e haver necessidade de voltar atrás. António Costa chamaria a esses rumores pura especulação e Marcelo Rebelo de Sousa viria, mais tarde, garantir que tudo tinha sido combinado assim, para que o encontro com o Papa Francisco não saísse prejudicado e os quinze minutos de audiência fossem diminuídos.

Cá por mim, velho apressado, telefonei ao meu barbeiro no final do dia de ontem, para não o incomodar nos trabalhos de preparação da reabertura, que deveria estar a levar a cabo, criando as condições para segunda-feira.

- Vai reabrir na segunda, não é verdade?

- Claro! Finalmente ...

- Guarde uma hora para mim. O cabelo está enorme. Pode ser à sua escolha, não tenho preferência e a minha agenda tem o dia livre ...

- Só na quarta-feira. Segunda e terça já estão completas. E só pode ser às 17H30. Posso marcar? Já tenho outra chamada em espera.

- OK. Quarta-feira, às 17H30. Até lá.

Conclusão: o cabelo cresceu a muita gente e houve muitos mais apressados do que eu. Não devem ser só velhos!

sexta-feira, 12 de março de 2021

Dentista

De boca aberta, deitado na cadeira enervante da estomatologista, oiço a conversa que se vai desenrolando entre a técnica e a ajudante. São jovens e têm algumas recordações que me são familiares, criando-me a vontade de participar, mas não posso. A concentração e as alterações que o meu sistema nervoso produz assim que entro naquele consultório, impedem qualquer raciocínio ou frase, para além do "sim" ou do "não", do aceno, do esgar ou do gesto.

O rádio, sintonizado na Antena 2, emite um som meio esquisito, que desperta lembranças às conversadoras.

- Parece o amola-tesouras.

- A doutora lembra-se?

- Lembro-me bem. Era miúda e a minha mãe dava-lhe as facas para afiar.

- E o "pitrolino", recorda-se?

- Isso não. Nem sei o que é.

- Era o homem da carroça, que vendia o petróleo e o azeite, avulso.

- Já só me lembro do azeite engarrafado e petróleo acho que nem nunca vi ninguém comprar.

Silêncio. A concentração no dente é completa.

- Está quase. Deve estar cansado de ouvir estas conversas sem jeito nenhum.

A mão sai do cinto e faz sinal que não há cansaço. A médica continua a sua tarefa, fala dos discos de vinil que o pai ainda tem, diz que se habituou a ler livros digitais e já não quer o papel.

- Até comprei um "ipad" especial, um "kindle". É espectacular.

Acabou! Há que sair da cadeira, agradecer, pagar e desejar às duas a continuação de um bom dia. Mais uma vez, aquilo que para mim é ontem, afinal já nem faz parte do imaginário da grande maioria.

A ida ao dentista correu muito bem e volto lá na próxima semana, para acabar o tratamento ... e ouvir!

quinta-feira, 11 de março de 2021

Regresso ... ao futuro

É comum a muita gente o reivindicar da experiência, do passado, a excelência dos seus atributos e a obra que realizaram, em contraste com a "incapacidade" das gerações mais novas, que nada sabem do que custa a vida e não conseguem fazer nada de jeito.

- Se fosse no meu tempo ...

E ficam perorando por um passado que já foi e não voltará, por muito que lhes custe. Águas passadas não movem moinhos e ninguém se lava duas vezes nas águas do mesmo rio. O passado é importante para conhecermos a história, a sua evolução, os progressos realizados, e para aprendermos com os erros cometidos. Analisando assim, compreendemos que, se não houvesse arrojo e audácia (isto lembrou-me o arrojo, audácia e desprezo pela vida que se ouvia no "poço da morte" das feiras), ainda estaríamos na idade da pedra ou lá muito perto.

O tempo de fazer, de pular, de arriscar, passa depressa e não adianta que os mais velhos tentem condicionar o progresso do mundo com argumentos falaciosos de "eu fiz e fui o maior ... da minha rua". Os olhos evoluem e aquilo que viram há trinta anos já mudou, pelas deficiências visuais próprias do avançar da idade e porque, felizmente, outros surgiram com muito mais capacidade e muito melhor visão.

Até os automóveis caminham a passos largos para dispensarem os condutores! Ora eu, que tirei a carta há mais de meio século e decorei o código de trás para a frente e vice-versa, não quero crer que se possa conduzir sem a caixa de velocidades e, muito menos, sem colocar as mãos no volante ... Isso vai ser muito perigoso ... ou não!

quarta-feira, 10 de março de 2021

Vidas

- Não posso fazer muita força. Este dedo deve estar partido.

- E não foi ao médico?

- Não tenho tempo ... 

- Mas isso é perigoso, nunca mais cura e só piora.

- Um dia destes ... Há uns anos, estava a trabalhar na Áustria e caí. O braço esquerdo doeu-me muito, mas continuei. Passada uma semana, o braço estava inchado e não aguentava as dores. Fui ao hospital. O osso do pulso estava partido. Trataram-me, puseram uma tala e vim-me embora. No dia seguinte fui trabalhar. Era preciso!

Na maior parte das vezes, nem damos pelos sacrifícios dos outros e pelas dificuldades que têm para assegurar o dia a dia e os (poucos) proventos que auferem.

 - Tenho de trabalhar. Não sei fazer outra coisa e sempre assim foi, desde miúdo. Criei um filho sozinho, desde os seis meses. Ensinei-lhe cedo que temos de ser honestos e trabalhar para quem nos dá emprego e nos paga. 

Há muito tempo que não tinha esta experiência "auditiva". Aconteceu hoje e concluí, uma vez mais, que os meus problemas são ridículos quando comparados com situações destas. Apesar disto, está sempre bem disposto, com graça "malandreca" para aliviar a conversa.

terça-feira, 9 de março de 2021

Tributo

Neste dia, em 1841, estreou-se no Teatro alla Scala, de Milão, a ópera Nabucco, de Giuseppe Verdi. Em 1959, na grande cidade de Nova Iorque, foi apresentada a boneca Barbie. Os dois acontecimentos são hoje registados na comunicação social, com o destaque devido e para que conste.

Uns bons anos passados, não num teatro nem num salão mas no Montepio Rainha D. Leonor, nesta cidade de "águas mornas", nasceu a minha filha. Foi um acontecimento muito mais importante e, apesar disso, não há um único jornal que lhe dedique uma linha. Coisa estranha? Claro que não!

A discrição é uma grande qualidade e a minha bióloga tem-na.

segunda-feira, 8 de março de 2021

Chega?

O Campeonato Europeu de Atletismo em pista coberta, disputado na Polónia neste fim de semana, confirmou que já chega de blasfemar contra os migrantes, os de etnia ou pele diferente, o sexo forte e o sexo fraco, e muitos outros preconceitos que ainda por aí prevalecem.

Portugal trouxe 3 medalhas de ouro, duas conquistadas por mulheres e uma por um atleta do sexo masculino. Auriol Dongmo nasceu nos Camarões e conquistou o ouro no lançamento do peso feminino; Patrícia Mamona, que já nasceu em Portugal mas é filha de angolanos, trouxe a medalha mais importante do triplo salto feminino; finalmente, na prova masculina de triplo salto, o ouro foi conquistado por Pedro Pichardo, atleta que nasceu em Cuba e se naturalizou português.

Não foi por serem isto ou aquilo, pretos ou brancos, diferentes ou iguais, que a bandeira subiu no mastro e o hino nacional se ouviu em todo o mundo. Foi "apenas" porque foram os melhores.

Há lugar para todos e todos têm lugar, com o respeito e a tolerância a que qualquer um tem direito.

Chega de parvoíces!!!

domingo, 7 de março de 2021

Recordando ...

A minha primeira professora vive hoje um dia especial. 

Apesar de já ter comemorado muitos aniversários, este é o primeiro que festeja confinada e sem os rituais do costume. "Não quero que me comprem nada ... já não faço anos". 

Fui o seu primeiro aluno, vim ao mundo no mesmo sítio, fruto dos mesmos pais, apenas com três anos de atraso. Este tempo, hoje pequeno, foi o suficiente para que os seus dotes didácticos se fizessem sentir precocemente e determinassem a carreira que escolheu e foi a sua vida.

sábado, 6 de março de 2021

Futuro?

Não vale a pena especular e pensar em agregar esta ideia. Apenas se aplica aos grandes actores Ruy de Carvalho e Eunice Munoz e não passa de uma representação teatral de dois grandes actores, bem longe da realidade ...

Será?

sexta-feira, 5 de março de 2021

Janelas

Nos últimos dias e muito por influência do jornalista (ainda) director da Gazeta, JLAS,  têm circulado pelas redes ditas sociais muitos recortes de notícias sobre professores da "minha" Escola, publicadas aquando das suas vindas para as Caldas, das nomeações e tomadas de posse ou de realizações que conceberam ou ajudaram a levar a cabo.

Os comentários que surgem são, como é normal, extremamente abonatórios para as pessoas "noticiadas", o que se compreende bem e segue a regra. Até hoje, sempre me tem sido difícil, para não dizer impossível, encontrar alguém desaparecido que, em vida, tenha sido uma peste.

"Lá no fundo, no fundo, até nem era mau diabo."

Um dos professores "noticiados" recentemente era conhecido por gostar demasiado das alunas, de disso fazer publicidade com galanteios frequentes, alguns de mau gosto mesmo para a época, e também por, no seu trabalho didáctico, não ser dos de primeira água. Era vítima de muitas tropelias por parte dos alunos, quer em "bocas" lançadas à sua passagem quer nas aulas, que podiam ir das abelhas levadas numa caixa a serem soltadas em plena sala às garrafinhas de mau cheiro, tão populares no Carnaval.

Num dia de muito calor e sem ar condicionado a funcionar ou a existir, uma aluna pediu para abrir uma janela, porque o ar estava muito "pesado", fruto, talvez, de algum "vapor" escapado por distracção ou mesmo por vontade. O professor teve resposta pronta:

"Ó menina, descasque-se, ponha-se à vontade. Abrir as janelas é que não!"

quinta-feira, 4 de março de 2021

Pecado

Eu, pecador, me confesso ...

Ontem carpi mágoas de saudade de um café do café. Hoje, a meio da manhã, um SMS "maroto" dava a sugestão de uma visita ao café habitual, antes das 14 horas, que é a hora do fecho. Talvez haja uma surpresa.

Almocei e fui até lá. Não havia ninguém à espera. Mostrei-me através da montra e aguardei que o sinal sonoro me desse indicação para entrar. Em vez de me dirigir à parte do take-away ou à do quiosque, foi-me indicado o acesso outrora livre e agora apenas destinado a quem lá trabalha.

No escuro, a chávena apareceu, por milagre, à minha frente. Quentinha, a chávena, e a bebida, cremosa, ainda a fumegar. Bebi. Nem saboreei, mas soube tão bem! Até a máscara gostou! Quando a voltei a colocar, passadas mais de duas horas, ainda havia o cheirinho maravilhoso daquela bica tão ansiada.

Sabe sempre bem pisar o risco ... mas não pode ser sempre nem se deve divulgar.

quarta-feira, 3 de março de 2021

Rotina ou talvez não ...

O drama da folha em branco ... não tenho nada para dizer e muito menos para escrever.

Não que o mundo tivesse parado, eu tivesse deixado de estar atento ou não estivessem a acontecer coisas que a todos interessam, como aquela do japonês que está a oferecer viagens à Lua, para concretizar em 2023. Só não me inscrevo porque ainda não tenho o "passaporte vacinal" e não arrisco ir lá e sujeitar-me a apanhar o "corona lunar".

Sinto falta de café do café, de andar por aí sem "rédeas", de ver gente, de conversar ou de estar calado, sem a isso ser obrigado. Não há meio, mas tudo indica que o dia vai chegar em breve. Já ninguém põe à janela o "vai ficar tudo bem" e deixou de ouvir-se o papagaio carioca falar do "resfriadinho". O das melenas já foi passear e estará agora a meditar sobre a cor da casa que substituirá a Branca, que não deverá ter Sala Oval. Pondera, também, se deve manter a cor do cabelo e a "brasa".

Cá pela cidade, tal como no país, começou a agitação dos candidatos a autarcas e já há um candidato perfilado. É edil de Junta e vai tentar ser promovido à governação principal do concelho.

"Cheira-me" que, este ano, as autárquicas vão ser diferentes ...

terça-feira, 2 de março de 2021

Mãe

- Vou buscar os medicamentos e volto já.

- Não vale a pena. Quando voltares já cá não estarei.

Era um final da tarde e estavas deitada na cama do hospital, com grandes dificuldades na respiração mas completamente lúcida. A percepção do que iria acontecer era muita mas, ainda assim, saí para satisfazer o pedido da enfermeira. Não cheguei a casa e os medicamentos por lá ficaram ... o telefone tocou antes e voltei pelo mesmo caminho. Tinhas razão ...

Foi há dezassete anos e continuas a ser a minha rosa, da noite, da tarde e da manhã.

segunda-feira, 1 de março de 2021

Palavras bonitas

 SERENATA DO ADOLESCENTE

Que doentia claridade
a que me invade e me obsidia,
durante a noite e à luz da tarde,
à luz da tarde, à luz do dia!
Que doentia aquela grade
de insone e ténue claridade,
sob a avançada gelosia!

Passo na rua e nada vejo
senão a luz, a luz e a grade, 
Ó lamparina do desejo,
porque ardes tu, até tão tarde?
E às vezes surge, entre a cortina,
aquela sombra vespertina
que me retém nesta ansiedade.

Se tens trint'anos? ou cinquenta?
Quis lá saber a tua idade!
Sei que em meus olhos se impacienta
fome de luz daquela grade!
Sei que sou novo, e que me odeio
porque me tarda - ante o teu seio -
queimar tão pobre mocidade!

Obra Poética
David Mourão-Ferreira
Editorial Presença (1997)

domingo, 28 de fevereiro de 2021

Sismo 1969

Não sou muito dado a efemérides. Os jornais e as televisões encarregam-se de nos trazer à lembrança coisas que, aos olhos de muitos, aconteceram há imenso tempo e das quais já poucos se lembrarão. A mim, parece que foi ontem ...

Ainda não tinha feito 17 anos e estava a dormir em casa, com apenas a minha mãe por companhia. O meu pai teria saído há pouco para o trabalho - começava bem cedo, quando a noite ainda estava no auge - e a minha irmã estava pela capital do distrito, a estudar. Só regressava ao fim-de-semana e aquela noite de 28 de Fevereiro de 1969 marcava o início de uma sexta-feira. Já não recordo bem a hora em que o sismo se deu, mas deverá ter sido por volta das quatro da manhã. O sono era profundo e a minha mãe abanou-me bastante para me acordar. Ainda ouvi os copos a tilintarem no armário da louça e vi a aflição dela, a gritar para sairmos, que a casa podia cair.

Viemos até à porta. Havia vizinhos aflitos, com medo, mas nenhuma casa tinha caído e não havia outros estragos. O susto foi grande. Dele restou um efeito: ainda hoje acordo sem dificuldade nenhuma e sem rabujice.

sábado, 27 de fevereiro de 2021

Magnólia

A Primavera está a chegar e o Inverno, que tanto nos tem torturado, parece finalmente disposto a partir, e a dar-nos possibilidade de voltarmos a ver o Sol e a rua, sem grandes receios mas com as cautelas que se impõem e, tudo o indica, vieram para ficar. 

A magnólia, que foi retirada do vaso já moribunda, adaptou-se ao espaço amplo, no meio da relva, renasceu e já floriu.

Por vezes o conforto não garante o bem-estar e liberdade rima sempre com felicidade, por pouca que seja. Foi o que aconteceu à magnólia: confinada ao espaço de um vaso, feneceu e manifestou claramente intenção de partir. O vaso dava-lhe algum espaço e conforto mas ela queria a liberdade, sem muros, para mostrar a sua graça, o seu contentamento e ... a mosca que dela muito gosta.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Palavras bonitas

CIRCULAMOS EMBOLSADOS

Circulamos embolsados
em automóveis de luxo

Nas portas surdas
os fechos
são linhas a níquel a traçar o limite
dos peões ocasionais

O espaldar desune
anula o solavanco
reduz a área exposta

Esguichos lavam
pára-brisas que a gargalhada abaula
Clareiam as estradas

Só o retrovisor
lembra o caminho andado
a um olho reflectindo
de quem guia

Trémulo o chassis
pressagia
as roturas
os sulcos dos freios
a divulgação do desastre

Mas real e criada
no bolso de Picasso
uma pomba de bico florido
suja por inocência os tejadilhos

A noite dividida
Sebastião Alba

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Tempos novos

Desde há um ano que vivemos tempos novos, inclementes para muitos, dificílimos e estranhos para todos. O malfadado bicho e as suas variantes têm azucrinado a vida, provocado nervosismo, aumentado a miséria, impedido os contactos, a diversão e o lazer, o descanso e o convívio, para além do trabalho da grande maioria.

A situação que temos vivido é inédita para as actuais gerações, sem qualquer semelhança com os ecos da guerra civil espanhola, a fome e as restrições da segunda grande guerra, a violência da ditadura e os tormentos da guerra colonial.

Apesar disso, numa altura em que o bom senso devia prevalecer e a união na diversidade de opiniões deveria estar sempre presente e ser obrigação de todos, assiste-se a um conjunto de barbaridades ditas, muitas vezes, por gente que deveria estar calada. Proliferam pelas redes ditas sociais "notícias" e "comentários" de arrepiar, algumas vezes com aproximações à verdade mas, na maior parte, com redondas mentiras e invenções.

Dir-se-á: é o produto do progresso e da evolução tecnológica! Não é nada! É o espalhar da burrice, da grosseria, da malcriadice, da insensatez, de muitos que, se estivessem "olhos nos "olhos", ficariam caladinhos a acenar a cabecinha e de "rabinho entre as pernas". 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Teatro

Apesar de continuar confinado no Oeste profundo, a dois passos do Atlântico e, longe, longe, da civilização que se desenrola pelos lados da capital, sob a supervisão do Marquês lá do seu alto "leonino", ontem fui ao teatro. 

Sem sair de casa, cumpridor que sou da lei e das recomendações, desloquei-me à secretária, liguei o computador - também podia ser no IPad ou no telemóvel, mas o conforto não seria o mesmo -, "abri" o Teatro D. Maria II, comprei o bilhete e assisti a um excelente espectáculo, de mais de três horas, com um pequeno intervalo quando eu o determinei.

A peça chama-se ÚLTIMA HORA, tem texto de Rui Cardoso Martins, encenação de Gonçalo Amorim e interpretação soberba de todos os actores, com destaque para José Neves, Maria Rueff e Miguel Guilherme. Aborda o tema do fim dos jornais "a sério", em época de redes sociais e de notícias de "sangue".

Vale a pena. O bilhete custa apenas 3,00 Euros, sim, não me enganei, 3,00 €, e a peça estará em cena até ao dia 26 deste mês.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Corrupção ou solidariedade

Um homem alto, espadaúdo, bem falante, capaz de manter uma conversa escorreita, quando não estava de serviço. Fardado, era intratável, roçando sempre a arrogância e a malcriadice. Agente da PVT, acrónimo de Polícia de Viação e Trânsito, designação oficial, à época, da autoridade a quem competia a fiscalização do trânsito e a aplicação das multas por excesso de velocidade, por peso a mais, por deficiente arrumação das mercadorias, e por muitas outras infracções, algumas "inventadas" à última da hora, para justificar o serviço e o "papelinho".

O posto dos "Provadores de Vinho Tinto", como eram conhecidos na gíria, funcionava à saída da cidade (ou à entrada, para quem vinha do sul), era dotado de uma balança de pesados e estava quase sempre aberto, mesmo a horas fora do comum. Paralelamente, havia agentes a deslocarem-se de mota, na procura de infracções protagonizadas por condutores que utilizavam outros caminhos que não os que passavam pelo posto. Muitas vezes, os veículos de mercadorias apanhados "por aí", eram obrigados a vir "à balança" por suspeitas de peso a mais, só possível de confirmação no tal equipamento situado nas traseiras do redondo edifício.

As empresas, ou melhor, os patrões, na linguagem comum à época, tinham receio da PVT  e procuravam ter com eles as melhores relações, distribuindo lembranças regularmente, em espécie ou mesmo em dinheiro vivo. Por vezes, eles apareciam, à civil, para cumprimentar e, com esse cumprimento, se fazerem notados e lembrados. Era sinal de que o abastecimento não tinha acontecido ou o gasto havia sido demasiado e era necessário reforçar o stock.

- Não precisa de nada? Uma caixinha branco, ou é melhor tinto?

- Já que insiste, pode ser uma de cada.

Daquela vez, o assunto era complicado, via-se bem, e a conversa tinha de ser com o patrão. Havia algum nervosismo, o que não era nada costume. O encontro foi proporcionado e a conversa deu-se.

- Sabe, decidi construir uma "barraquita" e, como o ordenado é pouco, conto com a ajuda dos amigos.

- E como posso eu ajudar? De que é que precisa mais?

- Tudo. Cimento, areia, madeira, tijolo, fretes, o que lhe for possível. Tudo faz jeito.

A "barraquita" ainda hoje existe, com um jardim frondoso à frente e um terreno extenso, nas traseiras. A "olho", deve ter mais de duzentos metros quadrados e desenvolve-se em dois pisos. Uma "barraquita" ...