sábado, 21 de novembro de 2020

Pandemia emergente

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, fez ontem uma comunicação ao país, apelando para a união na diversidade de opiniões, e para a compreensão do que é necessário todos fazermos para que os números da pandemia não aumentem de tal forma que o SNS sufoque. Na sua curta declaração, justificou a manutenção do estado de emergência, alertando de forma clara para o que está a surgir e o que pode chegar. 

Vivemos um momento no qual quem tem responsabilidades tem obrigações. De partidos a jornalistas, de governantes a opinadores, a hora é de ser mais cuidadoso, rigoroso e mobilizador, não cedendo ao facilitismo e à demagogia. Sintético e esclarecedor, crítico mas construtivo, transmitindo serenidade e esperança, se mais não fora pelo respeito que devem merecer os que partiram e aqueles que, nesta altura, quase esgotam os recursos dos hospitais.

Estamos em tempo de congregar atitudes em prol do bem comum, sem deixar de criticar quando a situação justifique, sempre com a perspectiva de ajudar a corrigir, antes que as vozes dos salvadores que por aí chegam se sobreponham às de quem acredita que só há futuro com a diversidade de opiniões e de ideias.

Talvez se justifique voltar a Camões e, nomeadamente, ao último verso da terceira estrofe do Canto I de Os Lusíadas, para não cansar muito. Se não o conseguirmos, corremos o risco de ver o país embarcar sem rumo, numa nau sem fundo e de a musa não cessar de cantar e continuar a apregoar os nossos (de)feitos.
(...)
Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram:
Cale-se de Alexandre e de Trajano,
A fama das vitórias que tiveram,
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram:
Cesse tudo o que a antiga Musa canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.
(...)

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Sentir & Saber

A propósito da publicação do livro Sentir & Saber - A caminho da consciência, editado pela Temas & Debates, o cientista António Damásio dá uma entrevista à Visão desta semana, na qual discorre sobre a actualidade, a política, o cérebro e o futuro. Dessa entrevista, copio e roubo uma pergunta e a respectiva resposta, por me parecerem, ambas, dignas de destaque, pela objectividade e actualidade.

(...) Visão - Tem esperança de que, desta experiência, possa surgir uma espécie de "homem novo", mais atento, como escreve no livro, à "inteligência, fenomenal e ainda incompreendida, da natureza"?

António Damásio - Não tenho qualquer dúvida. Vejo uma enorme mudança de atitudes. No espaço sociopolítico em que vivemos, existe a noção de que a Natureza está a ser agredida, temos plena consciência de que as alterações climáticas podem vir a comprometer o nosso futuro. Claro que há outros lugares onde as pessoas negam a existência dessas alterações climáticas, mas, quando se olha para os grandes números, para as principais sociedades, não tenho dúvidas de que a maioria da população acredita que estamos perante uma emergência climática. Quanto mais respeitarmos a vida noutros seres que não sejam apenas seres humanos, melhor estaremos no futuro. Mas, atenção: respeitar a Natureza não é respeitar os passarinhos, os cães e os gatos. De um modo geral, isso são espécies que as pessoas respeitam porque as consideram facilmente interligáveis com os seres humanos. O que é preciso é respeitar todas as outras espécies, até mesmo aquelas que não vemos claramente que nos dão vida, como as bactérias. (...)

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Rio

Corre um rio para o mar ...

E vai lá chegar, ultrapassando obstáculos, vencendo dificuldades, cursando o seu leito, da nascente até à foz, com ou sem afluentes e influentes. Tudo o que o rodeia contribui para o seu percurso, desde quem gosta de o ver limpo, garboso, contente, a muitos que o agridem, com lixo ou lixando-o, sem respeito pela sua natureza única e importante.

Cíclico, teimoso, lá segue por altos e baixos, estuários e veredas, curvas, rectas e encruzilhadas, percorrendo o trajecto que lhe surge determinado a cada momento, tentando sempre o melhor caminho para chegar a bom porto. Nem sempre o consegue. O trajecto, muitas vezes, torna-se mais longo, mais lento, mais exigente, mais penoso, mais difícil. Mas vai lá chegar, com mais ou menos escolhos, com erros de escolha e falhas na decisão.

Nem mesmo um rio consegue ser perfeito ...

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Tempo

Não chega para nada. Mal começou e a semana já está no fim. Tanta coisa para fazer e os dias como que desaparecem. Quarta passada, semana acabada, aprendi há muito tempo.

Não se compra nem se vende, nem mesmo nas grandes superfícies. Vive-se. Sem dramas nem sobressaltos, sem demasiada pressa nem lentidão em excesso. Tempo certo, à velocidade certa, com as certezas possíveis e as incertezas do costume.

De vento em popa, ao sabor da maré, como Deus quer, cá vamos indo com a cabeça entre as orelhas, à espera de melhores dias, é o destino, há quem esteja muito pior e muitos há que nem o sol vêem. Respaldamo-nos nas frases feitas, naquilo que sempre ouvimos e dissemos, sempre com a língua afiada para assinalar os defeitos dos outros e uns bolsos, enormes, para guardar, bem fundo, os nossos.

E adiamos, ou procrastinamos, como agora se diz para mostrar eloquência, não esquecendo a resiliência que nos é característica e também está na moda.

Amanhã também é dia, apesar de o dia, o mês ou o ano se aproximarem velozmente do fim. É sempre a mesma coisa ... mas melhores dias virão, não tenhas dúvidas!

terça-feira, 17 de novembro de 2020

Simpatia e burocracia

À entrada, o aviso manda aguardar pelo segurança naquele local, cumprindo o distanciamento determinado e indicado no chão, com circunferências coladas. O segurança está a atender três jovens ao balcão. Demorou muito pouco e dirigiu-se a mim, cumprimentando-me e perguntando em que pode ajudar.

- Venho tratar do assunto desta carta.

Verifica o papel que lhe exibo e, de imediato, informa:

- Vire ali à esquerda e, depois, entre na primeira porta. 

Assim faço. Logo à entrada, um cartaz, grande, identifica "BALCÃO +". Três postos de atendimento, vazios. Todos têm acrílico e um deles, que tem pendurado o aviso de ser destinado a grávidas, deficientes e idoso, tem uma cadeira. Na parte de dentro, um pouco ao lado dos postos de atendimento, uma senhora sentada na frente de uma secretária imersa em papéis. Lá ao fundo, dois funcionários já entradotes, discutem um problema informático, muito importante e difícil, pelo menos a julgar pelo que vou ouvindo.

- Bom dia.

Ninguém responde. A senhora da secretária, talvez incomodada com o meu olhar, entende, daí a algum tempo, que eu mereço uma explicação. Diz, de forma eloquente e esclarecedora:

- Aguarde um momento.

- Obrigado.

Passam mais uns minutos e eis que surge, da rua, um homem em passo vagaroso e ar contrariado. Com ar de quem sabe tudo, dirige-se ao posto onde aguardo, tranquilamente. Tenho tempo ...

- Diga!

- Bom dia.

Silêncio.

- Venho entregar esta carta, para responder a este ofício do Tribunal. Trago aqui uma cópia, para confirmar que recebeu o original.

Mira tudo com uns olhos experientes, de quem sabe daquilo a sério. Coloca a carta no monte dos assuntos  a tratar, presumo. Vai lá ao fundo buscar um carimbo que usa para certificar a cópia. Devolve-a sem uma palavra, um esgar, um sorriso.

- Bom dia e obrigado.

Ninguém me liga. Os dois mantêm a discussão informática, a senhora continua assoberbada nos papéis, o "atendedor" senta-se, por certo cansado com o trabalho que lhe dei, àquela hora da manhã. Sinto que fui perturbar o sossego de quem, com esta pandemia, ainda tem de trabalhar. E se o raio do velho nos traz o vírus, devem ter pensado aqueles pobres trabalhadores.

Voltei para casa e deliciei-me com as flores do meu jardim. Estão sempre a sorrir!



segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Barraca

Já por aqui falei dele, a propósito da sua eloquência com as flores, que adorava e tratava com um carinho inigualável.

Mimoso de apelido e Mário de nome, apenas estas duas palavras o identificavam. Nome curto tal como o tempo que a vida lhe reservou. Era homem humilde, quase analfabeto, mas sempre com uma graça, mesmo nas situações mais bizarras. O colete fazia parte da sua indumentária e trazia, preso no botão do meio por uma corrente, um relógio "cebola" no bolso do lado esquerdo. O colete acompanhava-o por todo o jardim e era pendurado no arbusto ou na árvore que estivesse mais perto do sítio onde decorria o  trabalho. Cabia-lhe a missão de tocar o sino e, por isso, tinha de ter horas certas e sempre à mão.

O jardim era (e é) enorme. Uma casa de madeira, com dois pisos, era o suporte logístico de todas as tarefas que por ali se desenvolviam. Era conhecida por todos como "A barraca do Mimoso". No rés-do-chão guardavam-se as ferramentas e os adubos. Havia uma mesa, grande e vários bancos, tudo de madeira maciça e sem uma ponta de caruncho. Era utilizada para os almoços e as merendas de quem ia trabalhar ao jardim, nos períodos de maior afã. O primeiro andar era a "estufa". Era lá que o Mimoso mantinha os vasos com as flores mais sensíveis, que só apareciam em ocasiões especiais, nomeadamente quando havia visitas importantes e o jardim tinha de ser apresentado num "brinquinho", para ser usufruído e gabado.

Sempre que o S. Pedro se lembrava de mandar chuva, o jardineiro, que dizia não ter "horta nas costas", acrescentava com um sorriso malandreco:

- Vai prá barraca, Mimoso!

E resguardava-se, sentado no banquinho, à espera que o tempo melhorasse. É o que tenho feito nestes últimos tempos, mesmo sem chuva: uma volta ou volta e meia e, recordando, digo para mim ou para quem está perto:

- Vai prá barraca, mimoso.

domingo, 15 de novembro de 2020

Gaivota

Uma gaivota voava, voava ...

Cansou-se. E nada melhor que o mastro - não o maior do mundo que esse é pertença dos Deolinda, mas o que assinala a escola de vela - para conceder a si própria o merecido descanso.

Pousou, bicou-se para ter a certeza de que tinha chegado a bom porto, e por ali ficou, extasiada com a paisagem, protegida do vento que não soprava, e com o mar, lá ao fundo, a marulhar, sem lhe causar qualquer incómodo mas não a deixando esquecer que, por lá, ficam os seus domínios.

Aprecia os passeantes, espreita os pescadores, mira o voo dos patos, tão diferente do seu. Agora tem mais um motivo para por ali ficar: chegou o paddle, essa nova actividade aquática que cada vez atrai mais pessoas, remando no remanso das águas, suando as estopinhas quando a maré tem força para contrariar os atletas. Mas parece valer a pena, a avaliar pela elegância que se vê nelas e pela peitaça que surge neles.

Estão na moda as pranchadas na lagoa ...

sábado, 14 de novembro de 2020

Pedincha ou necessidade

Dou, não dou? O dilema surge sempre e nunca sei o que fazer. A negativa, agora, prevalece quase sempre, porque deixei de andar com dinheiro no bolso, notas ou moedas. Facilita a decisão, mas deixa-me sempre constrangido e com um peso, grande, de culpa. 

Nestes anos todos, a andar e a conhecer mais ou menos bem tantos sítios, encontrei muita gente com necessidade real e também deparei com alguns que o faziam por vício, fingindo maleitas ou defeitos que não tinham, para depois irem depositar uns cobres na sua conta mais ou menos recheada. 

A pergunta surge-me sempre: não há forma de eliminar esta praga? Não há vacina que ponha cobro a esta miséria? E aparecem sempre inúmeras respostas que nem vale a pena enumerar. A verdade é que se mantêm muitos seres humanos a estender a mão, sérios ou fingidos, pouco importa. 

Não quero acreditar que o melhor seja não olhar, não ver nem reparar porque, como diz o ditado, penas que não se vêem não se sentem.

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

"A desconfinar"

"Vê lá se te sai o sábado à sexta-feira" era uma expressão usada muitas vezes por minha mãe, alertando-me para as surpresas, boas ou más, que a vida sempre nos reserva, por mais estranhas e inverosímeis que possam parecer.

Por força do malfadado vírus e das restrições em vigor, o Expresso antecipou a sua saída para hoje, sexta-feira, 13. Isso não impediu que o saco esteja cá em casa desde manhã e que a leitura do primeiro caderno já vá a meio.

O primor e a oportunidade do cartoon de António não é surpresa, nem mesmo à sexta-feira. Vamos ver se a fava açoriana não é o prenúncio de uma agricultura intensiva no continente ...

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Coisas de velhos

Como soe dizer-se, fui dar umas braçadas à piscina municipal, para exercitar o físico e manter alguma destreza muscular. Claro que também dei algumas pernadas ...

Conversa fiada. As adiposidades mantêm-se e a idade do condor acentua-se: hoje foi com dor no joelho a que faltam peças, na cervical que está cansada de segurar a coluna bem direita e, se calhar, em mais alguns locais dos quais nem dei nota. Tarefa concluída, sempre com os cuidados devidos.

A ida ao café foi rápida, como convém para não dar hipóteses ao bicho. Parece que, mesmo não lhe dando confiança nem lhe passando cartão, ele teima em querer entrar e nem precisa de convite. O resto das notícias vistas e ouvidas do sofá, local onde acontecem eclipses que nunca são noticiados.

Depois, a relva. Que mania, sempre a crescer e a gritar "corta-me". E tem atenção, porque não te deixo cortar-me se estiver a chover, acrescenta, soberba, determinando e exigindo sem qualquer pudor ou tolerância. Até parece patroa!

Está o dia ganho! Agora é fechar os estores, acender as luzes (apenas as necessárias, que a energia tem de ser poupada), pôr a mesa, comer a sopinha, uma peça de fruta, um café de cápsula, ir para a sala, sentar, ouvir, ler e dizer meia dúzia de palermices. Passado algum tempo, surgirá a sacramental pergunta:

- E se nos fôssemos deitar?!

Coisas de velhos! 

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Cão mole

Era um buldogue pachorrento e muito dorminhoco. Passava mais tempo deitado nas sombras do que a andar. Ao mínimo movimento por perto, abria um olho para reconhecer se a visita era conhecida, fechando-o de imediato após confirmar. Se não era dali, levantava-se, calmamente, aproximava-se, cheirava como que certificando que vinham por bem e voltava ao poiso de onde tinha saído.

Era enorme e dava pelo nome de Bob. A baba escorria-lhe da boca em quantidade e a língua estava quase sempre de fora. Parecia cansado, arfando de forma bem audível e movimentando-se em câmara lenta. Não fazia mal nem às moscas que, por vezes, passeavam pelo seu lombo castanho, bem nutrido. Passeava pelo jardim, mergulhava na piscina se não houvesse ninguém por perto a ralhar-lhe, deitava-se debaixo dum buxo ou no meio dos fetos, sempre numa mansidão de gestos que quase afligia. Os melros, os piscos, as felosas, os pardais e as, poucas, perdizes que por vezes apareciam, podiam estar junto a ele que nem se mexia.

Como ninguém é perfeito, o Bob tinha um ódio de estimação a gatos. Estes, talvez avisados, raramente por lá andavam. Se, porventura, isso acontecia, era quase certo que já não saíam pelas suas patas. Aquele corpanzil mole e dolente adquiria uma elasticidade e uma velocidade que ninguém imaginava pudesse ter.

O gato era apanhado a meio, o Bob abanava a cabeça duas ou três vezes, abria a boca e o que, até ali, era um gato, passava a ser apenas um corpo morto a pedir sepultura. 

Morreu de velho, o Bob. Quase no fim, já sem elasticidade nem força, as orelhas ainda se levantavam de cada vez que um bichano mais atrevido rondava os seus domínios.

Dizia-se que, lá no fundo, o Bob nem se apercebia do mal que fazia. Ele era tão bom e tão meigo ...

terça-feira, 10 de novembro de 2020

A forja

Até o carvão era especial. De hulha, comprado, vinha em sacas grandes, de serapilheira, e durava mais ou menos uma semana. A oficina era de tamanho reduzido, dava para o pátio, tinha uma bancada na entrada, o fole e a braseira lá ao fundo, a janela ao lado, sempre mascarrada de fumo e resíduos. A bigorna ficava logo a seguir à bancada, bem perto do calor da forja.

Tarefas: fazer ferramentas novas e manter as antigas em boas condições para o trabalho. E por lá se faziam enxadas, sachos, foices, gadanhas, podões, forquilhas e tantas outras, que haveriam de ser utilizadas pelos trabalhadores nas tarefas agrícolas de todo o ano.

A braseira era acesa todas as manhãs, sem grande dificuldade. O lume permanecia do dia anterior, ainda que brando, afrouxado e sem se notar. No final de cada dia era tapado com carvão novo e assim dormia. Mal o fole era accionado, à custa do braço, claro, surgiam as primeiras faúlhas e, daí a pouco, a temperatura já permitia entalar no carvão a peça que se desejava trabalhar, levando-a ao rubro. Depois, o martelo, a bigorna e a habilidade do ferreiro faziam o resto.

As peças habituais não suscitavam problemas e a sua realização era rotineira, com as marteladas a acontecerem quase sem olhar. O nervosismo, a exigência e a habilidade saltavam quando o pedido era mais elaborado, esquisito e vinha de quem mandava: uma ferramenta original, adaptada às necessidades, uma cabeceira de cama, uma varanda, uma vedação bonita, uma guarda de lareira, uma armação para o vaso da sala verde ...

- Não têm nada que fazer...só sabem chatear. Nunca fiz isto. Só me dá vontade de os mandar à .... 

E vinha um rosário de impropérios, com todas as letras, se não havia patrão ou senhora por perto. Puxava a onça do tabaco e o livrinho das folhas do papel. Encostava-se à bancada, enrolava o cigarro com toda a calma, coçava a cabeça levantando o boné, pensava e

- Sabes para quando é que é preciso?

- Dia tal ... 

- Vou ver, mas não prometo!

A peça aparecia, perfeita, e normalmente antes do prazo. 

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Caixa de Previdência

O assunto era importante e tinha que ser tratado directamente na Caixa de Previdência de Leiria, como, à época, se designava a actual Segurança Social. Havia sido feito um contacto telefónico, que redundou em fracasso e cuja resposta, áspera, foi que não era assunto para tratar pelo telefone. 

Embora, à socapa, já conduzisse, não havia o papelinho que desse legalidade a essa função. Estava fora de escolha a possibilidade de deslocação com motorista e, por isso, a opção foi a viagem de comboio, que partia de manhã, bem cedo, da estação das Caldas.

Não houve problemas na partida, mas o mesmo não iria acontecer para a vinda. Conhecia a cidade de Leiria, não muito bem, diga-se, mas nunca lá tinha ido de comboio. A chegada à estação foi uma surpresa: situava-se bem longe da cidade que eu conhecia e da qual não se vislumbrava nem um prédio. O homem que usava um boné da CP foi a solução para o esclarecimento necessário

- Apanha a camioneta da Leiriense e ela leva-o.

E assim foi, sem necessidade sequer de comprar bilhete. A Caixa de Previdência era quase em frente da garagem dos autocarros e, por isso, foi chegar, atravessar a avenida e subir ao primeiro andar, depois da devida identificação no piso térreo. O assunto foi começado a tratar de manhã e só foi terminado quase no encerramento dos serviços. Pelo meio, um almocito leve, num restaurante das imediações, numa cave meio escura e cheia de gente.

Para o regresso, já não foram precisas perguntas. A camioneta, azul, estava de motor a trabalhar, dizia "Estação" e estava quase completa. Ouviam-se comentários sobre o atraso e a hipótese de não chegar a tempo à estação. Partiu, finalmente, e chegou logo, logo, bem mais rápida do que tinha acontecido de manhã. Era a descer ...

A automotora, tal como tinham previsto os clientes habituais, já estava na gare, e toda a gente se precipitou, a correr, para a apanhar. Era leve e fui dos primeiros a entrar e a sentar-me, confortavelmente, no banco de napa. Ouviu-se o apito e o comboio iniciou a marcha.

- Está a andar para norte?! Mas eu vou para o sul ...

E estava. O revisor, com o boné da CP, confirmou e esclareceu:

- Vai ser complicado. O cruzamento com a que vem para baixo é feito na estação de Monte Real, mas quando esta chegar, a outra parte, e não dá tempo para a mudança.

- Mas eu tenho que ir para as Caldas!

- Vou dizer ao maquinista para parar no próximo apeadeiro e sai aí. Depois, terá que fazer sinal à automotora para parar, porque o apeadeiro não é de paragem obrigatória.

A ansiedade era muita. No meio do nada, sem ninguém por perto, mas ... eis que surge o bicho.

Os braços agitaram-se, com a pequena pasta numa mão e o jornal A Bola na outra. Notou-se a marcha a abrandar e parou, felizmente.

Julgo que voei lá para dentro sem sequer tocar com os pés nos degraus!

domingo, 8 de novembro de 2020

Língua

As  viagens  são assim, meu caro amigo, sabemos
do seu propósito apenas depois de regressarmos. 
Mia Couto
O mapeador de ausências

Por força das circunstâncias do trabalho paternal, conheci a cidade do Porto ainda bastante novinho e antes de visitar a capital.

As viagens, e foram várias, eram sempre uma aventura, com o caminho quase todo percorrido de noite, na maior parte do tempo a dormir enrolado na manta e a ser acordado com o clarear do dia, já quase a atravessar o Douro, pelo tabuleiro superior da Ponte D. Luís. As obras da Ponte da Arrábida já estavam a surgir lá ao fundo e, mal se avistavam, surgia a explicação, 

- qualquer dia, será por ali que passamos o rio.

A travessia, no regresso, era efectuada pelo tabuleiro inferior, para que os olhos se espantassem com a altura da ponte e houvesse a sensação, estranha, de que, lá por cima, estavam carros a passar e nós também por lá tínhamos passado, bem cedo. O armazém de destino era na Rua Justino Teixeira e nele havia muita gente a trabalhar, descalça ou com tairocas. Falavam muito, e alto, e tinham sempre uma graça, com aquela pronúncia tão esquisita, para dizer ao puto que tinha bindo lá de vaixo. Como acontecia sempre, serviço terminado e regresso empreendido de imediato, que a jornada era longa e ainda havia a paragem para reconfortar o estômago, nessa época sempre carente e nunca saciado.

O restaurante escolhido foi o de Vendas de Grijó, terreola que, naquele tempo, já era bem fora da grande cidade. Julgo que se chamava Atlântico, mas não garanto. Lembro-me, sim, de ser num primeiro andar, ter muitas mesas e uma menina de avental a trazer a comida, sempre com um sorriso nos lábios. O prato do dia era língua de vaca estufada, com ervilhas. Não me recordava de alguma vez ter comido língua de vaca, estufada ou de qualquer outro jeito. Lembrava-me, sim, de muitas vezes me perguntarem

- o gato comeu-te a língua?

E de isso me perturbar bastante. Comi. E soube-me bem. Mas foi sol de pouca dura. Não passou muito tempo até surgirem primeiro, as náuseas, depois, suores frios, a seguir, dores na barriga. E houve carga ao mar, uma vez, duas vezes, várias vezes. Andavam-se meia dúzia de quilómetros e

- Pai, pára

Uma garrafa de Água das Pedras, num café habitual da Tocha, trouxe algum alívio e permitiu o resto da viagem sem novas paragens. O cházinho da mamã haveria de completar a cura.

Nunca mais comi língua, de vaca ou de qualquer outro animal. Ainda hoje me sinto agoniado só de pensar ... 

sábado, 7 de novembro de 2020

Livros (lidos ou em vias disso)

Mais um livro que, chegado há dois dias, já anda em bolandas da sala para o quarto, do escritório para o WC, numa vertigem que acabará daqui a pouco tempo, imagino. É uma viagem ao antes e ao depois da independência de Moçambique, com a habitual qualidade de um grande autor - Mia Couto - que, há já muito tempo, detém um espaço importante cá em casa.

(...) Vou confessar uma coisa, senhor inspector: esse Sandro vinha muitas vezes confidenciar com as minhas filhas. Não gosto muito daquilo, o bairro comenta, o meu marido chateia-se e eu, francamente, tenho receio que a doença dele seja contagiosa e passe para as meninas e lá acabo por ficar sem netos. Um certo dia surpreendi Sandro fechado com o Jerónimo na cubata do empregado. Pensei logo numa coisa escabrosa. Escutei atrás da porta, os tipos conversavam em voz abafada. Mas depois lá concluí que falavam de política, inspector. E não era coisa boa. A conversa deles era pior do que um pecado da carne, está-me a entender, senhor inspector?

Talvez seja útil o senhor interrogar o meu empregado, o Jerónimo. Mas o inspector terá que vir amanhã durante o dia. É que ele não dorme aqui. Temos uma cubata nas traseiras, mas usamo-la como armazém. Não quero nenhum empregado dentro de casa depois do sol posto. A gente nunca sabe quem eles são e que companhias podem trazer a meio da noite. Nas tardes em que o trabalho se prolonga, este meu Jerónimo suplica que o deixemos dormir num canto qualquer. Tem medo de cruzar a cidade à noite. A caderneta indígena não o livra de ser apanhado pela polícia, nas rusgas noturnas. Diz que, se isso acontecer, o prendem e lhe batem. Resultado: o rapazito acaba dormindo no galinheiro. Toma banho de madrugada para não cheirar nem a catinga nem a estrume. Mas lava-se na praia, nas águas do mar. Não quero que nos gaste a água, esta malta não tem noção do que custam as coisas, para eles é só abrir a torneira. E o Jerónimo até prefere assim, pois diz que, no mar, se lava da sujidade do corpo e dos demónios da alma.(...)

O Mapeador de Ausências
Mia Couto
Caminho(Out.2020)

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Covil ?

São estranhos, confusos, os tempos que estamos a viver. A pandemia mantém-se com números a aumentar diariamente, preocupando todos os que, mesmo não dominando quaisquer variáveis, têm a consciência de que os recursos não são ilimitados e que, a continuar assim, chegará a hora da ruptura.

Nos USA assiste-se a uma caricata demora na contagem dos votos, que há-de determinar quem se sentará na Casa Branca no início de 2021. O (ainda) presidente fala em fraudes de uma forma tão descarada e despudorada que as televisões lhe "cortam o pio", por não estarem disponíveis para difundir mentiras.

Nos Açores também se aguarda que as eleições regionais produzam um novo governo, parecendo não estar a ser fácil um acordo quer à direita quer à esquerda que permita a condução de uma terra tão bonita.

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Diplomacia

Está em análise a possibilidade de Trump fazer um curso intensivo para aprender a contar até dez. O governo português foi contactado para fazer deslocar aos USA uma professora primária, das mais competentes que por cá existam, com o objectivo de, tão breve quanto possível mas nunca depois de Dezembro deste ano, pôr o Donald a contar de forma escorreita, mesmo que, para isso, necessite de utilizar os dedos das mãos.

Contudo, parece que a Melanie estará a colocar alguns entraves ciumentos e o próprio também não se apresenta de acordo com a decisão dos serviços secretos, principalmente por o curso lhe poder exigir a utilização dos dedos das mãos e isso o impedir de alisar as louras melenas. Este argumento, considerado muito importante, está a obrigar a uma mais exigente ponderação, por Trump considerar que a utilização dos dedos para compor o cabelo é obrigatória para manter a sua imagem de mais apessoado exemplar da espécie humana.

Para dirimir o diferendo, não está excluída a hipótese de recurso ao Supremo Tribunal, com o argumento de que a Constituição dos USA não impõe, explicitamente, que o Presidente do país saiba contar até dez ...

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Meteorologia

A meteorologia sempre foi, e continua a ser, uma ciência que assenta nas previsões e na análise das probabilidades, mantendo a esperança de ajuizar, de forma correcta, os imponderáveis que irão surgir.

Muitas vezes prevê chuva e, afinal, nem sequer surge um aguaceirito para regar as plantas; outras há em que faz avisos de três cores - amarelo, laranja e vermelho - sobre o vento forte que se aproxima, com rajadas ou sem elas, e com velocidades acima das que, legalmente, estão autorizadas para as localidades. 

Deve ser muito difícil estudar esta matéria e apresentar resultados que antecipem as realidades que irão ocorrer em todo o mundo. Todavia, há alterações no tempo que se adivinham e nem é preciso consultar o IPMA ou as aplicações disponíveis no telemóvel. O tempo está cheio de nuvens covidianas e, do lado de lá do Atlântico, há fortes indícios de que o sol irá continuar muito encoberto.

Cá ficaremos à espera de que sejam só previsões e que o tempo melhore ...

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Nadar

Decorridos oito meses e ainda com muitos receios, voltei hoje à piscina para dar umas braçadas. Ao contrário do que se poderia esperar depois de tão longa ausência, ainda sei nadar e não me afoguei.

O corpo sentiu-se bem, sem dores nem grandes cansaços. Amanhã se verá o resultado do esforço, com as réplicas que o dia seguinte, e o outro, sempre trazem. 

Foi um regresso, confuso, à normalidade, com regras cumpridas, para que tudo corra bem. Pouca gente, distância social, a conversa limitada a um bom dia de longe, máscara quase até à água, entrada à hora, saída a correr, vestir a correr e o cabelo molhado, para enxugar em casa.

Boa notícia: consta que o coronavírus não sabe nadar, yo ...

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Visto e revisto

Estão os três "confinados" à mesa da esplanada. Fazem-lhe companhia dois cães, pequenos, a quem admoestam com frequência. Em cima da mesa estão, invariavelmente, três garrafas de cerveja, que vão sendo despejadas sem dificuldade e sem necessidade de copos. A manhã vai a meio. Conversam alto, embora o que dizem seja imperceptível para quem passa. Da voz, entaramelada pelo álcool e por outras substâncias, apenas se percebe, mal, os inúmeros "bué" e "tipo", que estão sempre a servir de muleta. 

Ela é a leader. Determina, manda, enerva-se. Dos três é a mais velha. Terá talvez 50 anos, julgo. Nasceu num bom berço mas perdeu-se, ou achou-se, quem sou eu para julgar. Por vezes, o trio ausenta-se durante uns tempos. Talvez o (pouco) dinheiro que devem ter desapareça. E o café vende cervejas, não as dá.

Raramente se vêem a comer. Alimentam-se da cerveja e do resto ...

domingo, 1 de novembro de 2020

Apetrechos

Guarda o que não presta e encontrarás o que te é preciso.

No poupar é que está o ganho.

Quem não inventa não é artista.


Tudo Reutilizado. Por este cesto já devem ter passado uns bons quilos de berbigão da lagoa, mantidos à tona por duas excelentes bóias.

sábado, 31 de outubro de 2020

Dia Mundial da Poupança

Hoje é o Dia Mundial da Poupança.

Tempos houve em que, no dia de hoje, havia um mealheiro de cerâmica, fabricado na Secla, para oferecer aos melhores clientes, com vista a estes irem poupando para o futuro dos filhos, colocando no recipiente, de vez em quando, uma moedinha. O objectivo era conseguir alguma poupança para abrir uma conta para a criança, lembrando sempre a entidade que lhe dava o "cofre".

Tal como agora, só conseguia encher o mealheiro quem tivesse alguma folga no orçamento, que lhe permitisse prescindir de uma moedinha de cinco, dez ou vinte cinco tostões. As moedas de cinco e de dez escudos eram mais bonitas, mal empregadas para serem escondidas, e suficientes para algumas compras já significativas. Outros tempos!

De manhã, no supermercado, meia dúzia de coisas custaram mais de cinquenta euros e a admiração foi quase nula. O cartão nem sente mas, nas contas dos tostões, foram mais de dez contos que lá ficaram!

Nem o mealheiro cheio de moedas chegava ...

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Mar sem fim

As ondas quebravam uma a uma

Eu estava só com a areia e com a espuma

Do mar que cantava só para mim. 

Dia do Mar
Sophia de Mello Breyner Andersen
Caminho

Não se desce nem se experimenta a água. Deve estar bem fria, para não variar. 

Olhar este mar e ouvir a sua música faz esquecer as notícias e o que elas transportam. É um privilégio poder dar um saltinho à Foz, apreciar esta maravilha, sem ninguém à volta, com apenas quatro ou cinco corajosos a apanhar sol como se fosse Agosto e dois ou três a tentar enganar os robalos que, com o mar tão forte, se põem a jeito e engolem um engodo saboroso. Pela boca morre o peixe ...

Confirma-se, também, que o mar continua a bater na rocha e o mexilhão, coitado, a sofrer as agruras das ondas sem ter por onde escapar. O que lhe vale (a ele, mexilhão) é ter a companhia das lapas, dos percebes, das algas e de tantos outros companheiros da desdita, para não se sentir discriminado, a pensar que o azar só a ele acontece. Como se pode ver, o mar não discrimina e bate em tudo o que lhe aparece pela frente, seja roto, nu, vestido, nobre ou plebeu, masculino ou feminino.

 

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Ondas

A cada dia que passa somos surpreendidos com o desleixo, a incúria, a falta de educação e a estupidez de muita gente. São lugares comuns, ditos e escritos milhares de vezes, mas dão jeito para começar. Não se trata de convencimento da infalibilidade, longe disso, da perfeição absoluta ou qualquer outra manifestação de egocentrismo, antes a constatação de que continua a haver gente, e muita, que, de forma egoísta, se esquece que estamos a viver um período muito especial,  que teve, tem e terá consequências terríveis para todos, mesmo para aqueles que apregoam a sua (in)capacidade de resistir a tudo, só porque sim. Mantém-se viva a esperança de não ser preciso montar nenhum estado policial, que controle tudo e todos, porque esse estado ainda está na memória de muitos e não se deseja aos que nunca o experimentaram, mesmo aqueles que continuam a agir sem respeito pelos outros seus semelhantes.

De toda a gente que hoje foi ao Sítio da Nazaré para espreitar as ondas da Praia do Norte, quantos, antes de se deslocarem,  cuidaram de pensar em si próprios, nos seus e em todos os que estão ou estarão à sua volta? A julgar pela aparência, não devem ter sido muitos ...

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Escolhas

Enquanto se aguarda que o telefone toque a marcar a hora e o dia da vacina para contrariar a gripe, enquanto se assiste a uma discussão, sobre o Orçamento do Estado, tão agitada que até parece que se analisam certezas, enquanto os números "covidais" não param de subir, liga-se a televisão e ouve-se, a abrir os telejornais, a notícia de que hoje têm lugar as eleições para a direcção do Sport Lisboa e Benfica.

Não há dúvida que sou adepto do maior clube do mundo ... qualquer coisa que por lá aconteça, por mais irrelevante que seja, é notícia de abertura, de meio, de fecho e, sobretudo, de enorme relevo, por dela depender o bem-estar e a felicidade de todos os que por aqui vivem e dos que a diáspora mantém por esse mundo fora.

Se dúvidas houvera, ficaram esclarecidas: o acto eleitoral do Benfica está bem acima das previsões orçamentais, da zanga das "meninas" com o PM, do resultado das eleições dos Açores, ou das restrições que já estão em vigor e das que se aproximam.

Valha-nos S. Luís, S. João ou S. Rui (não sei se existe), porque deles depende o futuro do maravilhoso rectângulo, mais dos que nele vivem.

terça-feira, 27 de outubro de 2020

Livros lidos (ou em vias disso)

Uma língua não tem necessidade de formatação obrigatória e só ganha com a diversidade.

(...) eu sei que muita gente diz que o camarada Jesus vive nos céus e que o paraíso e mesmo o inferno ficam lá em cima, mas para mim, assim de repente a olhar

aquela belezura

como o meu pai gosta de dizer

para mim o paraíso ficava dentro daquela caixa com cheiro de mil chocolates lindos que nem derretiam os formatos de conchas do mar, búzios, caranguejos, cores que imitavam o bolo mármore da tia Maria, creme a fingir que era castanho,  preto a  misturar-se com  um branco cor  de leite com  café e o cheiro também, todos de boca estávamos só com os olhos bem abertos que até o meu pai e a minha mãe riram quando eu a e mana Tchi, a olhar aquela quantidade de cores e cheiros, tivémos que iniciar de bater as palmas como se fosse comício do 1º de maio, e a Yala também nos imitou

- viva os camaradas vizinhos franceses!

eu gritei

- viva! 

todos responderam

- viva essa caixa de chocolate

- viva!

- obrigado, camaradas

eu imitei um camarada que sempre terminava os comícios com essa frase 

quando o pai deu o sinal de largada, depois de brindarmos àquela enorme caixa que tinha aparecido tão bem vinda no nosso natal, eu pensei que fôssemos comer bem rápido até a mãe nos mandar parar para respirar 

aquela caixa era quase de magia, não eram só as cores misturadas e os cheiros lindos; não era só o brilho do laço; o sabor, isso posso já jurar aqui pelo meu avô que tá debaixo da terra, o sabor era uma coisa do outro mundo, mas eu tou a falar de um outro mundo que fica ainda mais em cima do que as alturas do tal paraíso ,(...)

O livro do deslembramento
Ondjaki
Caminho (2020)

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

domingo, 25 de outubro de 2020

Técnica de Vendas

O título deste post era a designação de uma disciplina do meu ensino secundário, já lá vão bem mais de 50 anos. Nela se aprendiam conceitos de atendimento e de relações com os clientes, que deviam ser pautadas por uma linguagem de verdade, lisura de processos e tendo sempre em vista a máxima suprema: a razão de existência de qualquer empresa e, já agora, de qualquer serviço, é a satisfação dos seus clientes, sem peias nem jogos escondidos, e sempre com clareza de procedimentos e intenções.

- Recebi esta carta e não percebo bem isto. Pode ajudar-me?

A cena passou-se numa agência do banco onde, na altura, exercia funções. A senhora, viúva, já com alguma idade, era cliente, recebendo a reduzida reforma através de crédito na sua conta. Mantinha uma excelente relação com todos, por ser vizinha de um dos que lá trabalhavam e a quem conhecia desde menino, como não se cansava de referir. Era extrovertida, gostava de dar novidades - Fulano morreu, Sicrana separou-se - sem complexos nem vergonhas.

- Isto é a informação de que não pagou o cartão de crédito e que tem 10 dias para o fazer, sob pena de mandarem a dívida para cobrança coerciva, via Tribunal.

- Eu não tenho nada disso! Só tenho o vosso cartão, para levantar dinheiro na máquina ou pagar na loja, mas raramente o utilizo. Gosto mais de vir aqui visitá-los.

- ???

A minha cara deve ter sido elucidativa e reavivou-lhe a memória.

- Espera lá! Há talvez dois meses, no supermercado, dois senhores muito simpáticos ofereceram-me um cartão e disseram-me que podia gastar até 500 Euros nas lojas. Fiquei toda contente e, logo ali, comprei uma panela de pressão e um ferro eléctrico, que me deram um jeitão. Depois, comprei umas roupinhas para o Inverno. Também substituí o fogão a gás por um maior e mais moderno. Não cheguei aos 500 Euros, mas faltou pouco! Não me diga que agora tenho de pagar?

- Claro, respondi.

- Mas eles disseram que não tinha de pagar nada ... As lágrimas soltaram-se e a face corou. 

O marketing agressivo produz muitas situações destas. E agora nem rosto tem. Surge, inopinadamente, pelo telefone ou pelas redes ditas sociais, sempre com a "cenoura" ao alcance da mão, sem qualquer dificuldade e só para si, que é uma pessoa especial.

A última que soube foi a de um colchão oferecido, por ter sido "cliente eleito" ... apenas tinha de pagar um seguro de 35 Euros mensais, durante 36 meses. Coisa pouca, para um produto de excelência! E a venda concretizou-se e deve ter somado aos objectivos e às comissões do aldrabão que a promoveu. 

sábado, 24 de outubro de 2020

Quotidiano

Já não acontecia há algum tempo, mas hoje houve futebolada conjunta com os quatro netos. O tempo não ajudou, o jogo não durou os noventa minutos, que o corpo não o permite, mas o dia foi enorme.

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Dias ...

Está a terminar mais uma semana e a próxima decreta o final do mês, mais um a caminhar velozmente para o final do ano. Sempre foi assim desde que existe calendário, mas agora parece que se acentuou e dá mais nas vistas.

Não faço ideia (se calhar faço) porque acontece, mas, seguramente, não é pela pressão do trabalho, que não existe, nem pela ansiedade do fim de semana, que não deverá trazer grandes novidades, nem pela urgência de receber o ordenado, que já recebi, o que muitos, se calhar, não conseguem dizer.

Será da idade? Não acredito! O cérebro tem muitas mais coisas com que se preocupar e, digo eu, só tem noção de que os dias passam porque gosta de dormir e, por vezes, há sonhos que não o deixam.

Talvez seja a contradição diária a que somos expostos, com gente a afirmar que o branco é preto e, logo a seguir, exactamente o contrário, sem qualquer rigor nem vergonha.

Descobri agora: as semanas passam depressa, os meses correm e o raio da pandemia permanece, enquanto eu tenho pressa de sair, como dizia o Variações, desta penitência.

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Arte urbana

A arte urbana tem mais uma obra na cidade e esta, por várias razões, merece um registo especial.

Homenageia Ferreira da Silva, um grande artista que se destacou, principalmente, na área da cerâmica, com obras por todo o país. Na cidade, não terão merecido o destaque devido e, até, o cuidado obrigatório.

A obra foi concebida e executada por Filipa Morgado, filha do meu amigo Tó Morgado, na parede da que foi a "nossa" Escola, ali bem junto de uma obra monumental do Mestre.

O Mestre Ferreira da Silva, do alto daquela empena, está a olhar, pensativo, para o seu Jardim da Água, que tem muita erva, nenhuma água e pouca atenção de quem dele devia cuidar.

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Livros lidos (ou em vias disso)

Está quase no fim o Diccionario da Linguagem das Flores e, como sempre, é o melhor livro de António Lobo Antunes ... até chegar o próximo. 

A forma única de escrever está sempre presente e, neste, cada capítulo é dedicado à descrição de cada uma das personagens em toda a sua vida, com as contradições próprias, o trabalho e os sonhos, os amores e os pensamentos, os caminhos percorridos ou ambicionados, as diferenças, o vestir, as comidas, um retrato claro das diversas etapas, misturadas sempre, clarificadas no fim e sempre com ligação entre cada uma. Até os cisnes do parque têm direito a referência e participação assim como as folhas castanhas que, no chão, anunciam o Outono.  

14. O afinador do piano
(...) o médico a apontar-me análises que eu não entendia

- Ninguém fica cá para semente o que não falta são mortos

descrevendo círculos preocupados em torno de números

- Sobretudo isto aqui e isto aqui

a alojar-me o indicador no peito

- A partir dos sessenta cautela e caldos de galinha mulheres e maratonas nem sonhe

porque cá por dentro a traça não pára de roer, glândulas que coxeiam a custo atrás da saúde, olhando a vida cada vez mais distante

- Respirar meu amigo é um exercício que ajuda

com dificuldade em caminhar atrás do calendário porque este joelho coitado, porque o ar já não entra, só sai, enquanto o irmão da doutora, sem me ver ainda, raspava com a unha molhada na língua não sei quê no casaco, espreitando obliquamente a lapela para a verificar melhor, nunca entendi o motivo de se mirar o universo de esquina quando se quer dar por ele, o irmão da doutora apontou-me com o queixo o lugar ao seu lado continuando a observar a unha numa atenção de prestamista, como a vida é feita de pormenores, senhores, um dente, sempre tão pequeno, afinal gigantesco, um dedo subalterno maior que o pé todo, a casa da sala de música de repente ali mais as estátuas de loiça e os seus sorrisos herméticos, a doutora que caminhava à minha frente puxando a bagagem do próprio corpo cujas rodinhas tremiam, vamos arrastando o que éramos na direcção de nada até nos sumirmos nos bastidores e adeuzinho, o irmão da doutora para mim, a limpar a unha nas calças

- Muito bem muito bem (...)

Diccionario da linguagem das flores
António Lobo Antunes
D. Quixote (2020)

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Todos falam ...

Por o céu vai uma nuvem,
Todos dizem bem na vi,
Todos falam e murmuram,
Ninguém olha para si.
Cancioneiro tradicional de 
S. Jorge - Açores

As polémicas sobre a forma de agir perante a pandemia têm aumentado, nos últimos tempos, tanto ou mais que a própria doença.

De gente a fazer-se ouvir com a veemência de quem sabe, e divulga, o resultado depois do jogo realizado, de outros muito preocupados com a sua privacidade e a sua liberdade mas pouco com a dos outros, de alguns, com responsabilidades no sector da saúde, que gritam e avisam que vai tudo sucumbir por falta de recursos humanos e financeiros, somos inundados a toda a hora, correndo o risco de nos afogarem sem sequer vermos a onda.

Quem sabe, de ciência certa, refere com humildade que ainda se está longe de ter certezas, que os esforços são muitos e os resultados ainda poucos.

Entretanto, os cidadãos interventivos continuam a utilizar as redes ditas sociais para veicular as suas "verdades" e os seus "conhecimentos" profundos sobre o tema, sem cuidar de saber se, com as suas afirmações, não estarão a contribuir para a depressão de muitos, para quem tudo o que aparece é verdade, mesmo as asneiras.

Hoje, para além da máscara, teremos de usar chapéu de chuva ou não sair da casinha. A Protecção Civil manda mensagens a recomendar cuidado, que a depressão é Bárbara.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Quotidiano

O dia começou cedo, com trabalhos de jardinagem que tinham ficado por concluir, por força das circunstâncias e que se tinham tornado urgentes, por as previsões não serem nada animadoras.

O S. Pedro decretou o confinamento e a tarde, como se dizia antigamente, está feita. 

Vamos ler, ouvir o vento e espreitar a chuva. Só para quem pode ...

domingo, 18 de outubro de 2020

Palavras bonitas

 (Lembrança roubada à minha filha)

Horário do fim 

morre-se nada
quando chega a vez

é só um solavanco
na estrada por onde já não vamos

morre-se tudo
quando não é o justo momento

e não é nunca
esse momento

Raiz de orvalho e outros poemas
Mia Couto
Editorial Caminho (1999)

sábado, 17 de outubro de 2020

Partida

Hoje partiu uma mulher que teve uma vida cheia e a quem uns meros 8 dias negaram um século.

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Livros lidos (ou em vias disso)

Concluí ontem a leitura do Apelo da Noite, de Vergílio Ferreira, último livro da "biblioteca itinerante" que o meu amigo ADS fez o favor de enviar da capital para o Oeste. Já o arrumei no saco, verde, claro, (ou não fosse ADS do SCP), onde se juntou aos outros dez que fazem parte do lote disponibilizado. Ficam ali todos, sossegados, a aguardar que o Corona permita viagens sem receios e encontros sem condicionantes. Dar-se-ão bem, sem qualquer dúvida. São de gente importante das letras que, tirando alguns arrufos, se consideram ou toleram.

Nem de propósito, o carteiro, não o que toca sempre duas vezes, mas o que habitualmente vem à minha zona, uma boa zona, diga-se, entregou-me o último livro de António Lobo Antunes que, naturalmente, já comecei a ler. Ultrapassou os que aguardam na "pilha" da secretária, por ter sempre caminho aberto cá em casa, há já muitos anos. Todos compreenderam a urgência e se reduziram à sua insignificância perante quem não tem adjectivo que o qualifique.

Ninguém escreve como António Lobo Antunes. Exige concentração máxima, mas a escrita é irresistível, encadeada, pautada por apontamentos de ligação, recordações, evidências, diálogos simultâneos com o antes e o agora, pensamentos de clarificação, vozes de dentro, sempre uma delícia que se deseja não acabe.

Este começa assim:

"Quando acabei a tropa um colega ruço de olho esquerdo desviado que quase nunca andava conosco, sempre metido em assuntos lá dele, arranjou-me emprego na oficina de automóveis do pai no alto das Pedralvas, uma colina de pobres a norte de Lisboa com casas velhas e barracas e ruazitas estreitas, de modo que aluguei um quarto por ali com direito a banho duas vezes por semana, às terças e sábados, e um janelico para um quintalzinho vedado a tábuas de andaime no qual existia um limoeiro ferrugento onde nunca vi nenhum limão, só vespas desiludidas, inclinado sobre o pedaço de muro em que poisava o cotovelo, a senhoria, sempre de avental e chinelos que a adivinhar pelo tamanho deviam ter pertencido ao marido, evaporado há anos na confusão da cidade que não pára de engolir gente, também com tantas esquinas não admira, só não entendo como é que não nos devora a todos, chamava-me às vezes para uma sopita comida na cozinha minúscula sem olharmos um para o outro, ela no único banco que sobrava e eu encostado ao lava loiça, sob uma lâmpada insegura a pestanejar

(dava-me um piparote, melhorava num soslaio agudo para nós e recomeçava a tremer, que vida difícil têm as coisas sem uma alma caridosa que as ajude)

enquanto um cão ladrava num beco às escuras e calava-se sei lá onde num suspiro comprido em que agonizavam fogareiros, no fim da sopa a senhoria lavava os pratos com uma esponja sumária e fechava-se na salita porque de quando em quando lhe escutava a tosse, puxando pedaços de si mesma até à garganta de modo que os chinelos solitários lá em baixo e ela na alegria aflita de me saber por ali enquanto as acácias das redondezas se calavam uma a uma, mais longe do que os comboios no escuro, dava-me ideia que nas Pedralvas nós apenas, presos um ao outro por um fio de silêncio que apesar de tudo sempre diminuía a solidão, quase apostava que de tempos a tempos vinha espreitar-me a dormir, cobrindo-me um tornozelo com o fim do lençol a reprimir uma festa desajeitada com demasiados dedos que me tropeçavam na pele, deixando-me, depois de se ir embora, mais abandonado ainda, a lembrar-me da minha mãe nas Caldas da Rainha, debruçada para mim a apontar o queixo ao meu pai (...)

Diccionario da linguagem das flores
António Lobo Antunes
D. Quixote 2020

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Calamidade

Face à evolução, preocupante, do número de infectados e de óbitos resultantes desse vírus que nos bateu à porta e entrou sem ser convidado,  o Governo decidiu que o país passasse ao estado de calamidade, a partir das zero horas de hoje, com todas as restrições que isso implica e que já por cá passaram há uns meses.

Decidiu, também, propôr à Assembleia da República, a discussão de um diploma que torne obrigatório o uso de máscara em locais públicos e a instalação e utilização da aplicação Stayaway Covid. 

Estalou a polémica e com toda a razão. Porque "carga de água" se tem de recorrer à obrigação legal, com coimas e polícias a aplicar as ditas, se toda a população portuguesa é dotada de um civismo respeitador das liberdades, dos outros e das regras. Todos aprenderam em pequeninos como se deviam comportar e isso fica para toda a vida ...

Surgiu logo uma infinidade de gente preocupada com a violação da liberdade que o uso obrigatório de máscara pode causar, esquecendo-se que, em primeiro lugar estão as pessoas e a sua saúde, e que a minha liberdade termina quando colide (ou pode colidir) com a dos outros.

Tendo sempre presente o alto grau de civismo que constatamos todos os dias por este país fora, talvez seja de acrescentar à Lei a proibição de cuspir para o chão, de passear o cãozinho e deixar os excrementos para alguém limpar, ou de deitar lixo pela rua fora, incluindo as máscaras.

Lembrei-me destes exemplos mas, se procurar bem, encontrarei outros que poderiam dar excelentes spots televisivos bem mais interessantes do que o lixo de linguagem que, muitas vezes, por lá se ouve com grande destaque.

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

FALU

A arte de rua chegou às Caldas e Bordalo II encerrou o festival de arte urbana denominado FALU. O conjunto de obras feitas no âmbito do festival passou a fazer parte do património cultural da cidade e a contribuir, de forma positiva, para a sua imagem.

Poder-se-á dizer que Bordalo voltou à cidade onde ainda tem uma grande e prestigiada fábrica de cerâmica - a Bordalo Pinheiro - , mas desta vez para utilizar materiais reciclados e muita imaginação.

A obra de Bordalo II é, de dia, espectacular. À noite, não me parece tão interessante, com cedências à luz artificial que talvez se dispensassem.

Ao final da manhã de hoje tentei perguntar a opinião ao lobo do "velho" Bordallo, que "vigia" a Praça 5 de Outubro. Irónico, foi lesto na resposta:

- Opinião é coisa que não tenhoO homónimo do meu criador colocou a obra tão longe e tão escondida que, daqui, nem a consigo ver quanto mais apreciar. Se me deixassem dar uma voltinha por aí, mas não, confinaram-me e não me autorizam sequer que desça daqui.


terça-feira, 13 de outubro de 2020

Coronavírus

Hoje não me apetece escrever, ou melhor, não me apetece fazer nada. Há dias assim, para quem pode ... e eu posso!

Escrever para quê? E porquê? E sobre?

Bom, à primeira pergunta a resposta é simples: para mim! Dá-me gozo, mas hoje a disposição não é grande.

Afiei o lápis (gosto de escrever com lápis bem afiado), peguei no papel, reutilizando aquele que só está escrito de um dos lados, e parei. Não com a perturbação da página em branco que só os grandes têm, mas com o cérebro parado pela falta de assunto, com tantos assuntos na primeira linha. Paradoxo!

Apenas uma nota para memória futura: o vírus não tem contemplações e infectou um terceiro elemento na selecção nacional de futebol. Amanhã há jogo com a Suécia e Cristiano Ronaldo, tal como aconteceu com José Fonte e Anthony Lopes, não irá jogar.

De acordo com os testes de hoje, todos os outros elementos estão negativos. Amanhã lá estarão todos e, entre eles, o meu filho, que fez "apenas" seis testes desde o início deste estágio, em nove dias.

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Mais de mil

Sempre tive uma relação ambivalente com o número mil, talvez por três zeros, mesmo à direita, trazerem à lembrança os "zeros à esquerda" que por aí pululam. 

Recordo, na minha infância, um caderno de problemas de matemática chamado 1111. Continha, como o próprio nome indica, 1111 problemas para resolver, os quais, na opinião de quem mo emprestou, eram essenciais para enfrentar o exame de admissão. Lembro-me, também, da Lenda de El-Rei D. Sebastião, criada pelo Quarteto 1111, cantada por todos os jovens daquela época e algumas vezes com letra adaptada a circunstâncias outras, que não vêm agora à colação. A memória também me diz que, no início da vida laboral, ganhar mais de mil escudos mensais não era para todos, quando a grande maioria ainda ganhava à semana e muitos só nos dias em que o tempo deixava trabalhar. Mais tarde, quando chegou o Euro, ter um ordenado superior a mil dos ditos também não estava ao alcance de qualquer um.

Os carros iam à primeira revisão quando atingiam os mil quilómetros, sabendo-se que só a partir dessa ida ao mecânico se podia acelerar, sem limites que não os policiais. Percorrer mais de mil quilómetros era quase como ir ao infinito, quando para ir ao Porto era preciso um dia bem comprido e a distância eram só duzentos e cinquenta. E o mil-folhas era um bolo de que eu gostava muito, mas que o estômago hoje detesta.

Agora há mil razões para estar preocupado por, há cinco dias seguidos, (e mais virão), o número de infectados com este malfadado vírus, que nos veio visitar sem convite, ultrapassar (e muito) os mil ... e pôr o velho no covil.

domingo, 11 de outubro de 2020

Quotidiano

Mais velho que eu, demorou a reformar-se, saindo apenas aos setenta, quando já não lhe era permitido continuar. Há uns anos disse-me achar-se a ser "empurrado", mas não sairia.

- Sinto-me bem. Não lhes faço a vontade. E depois, o que vou fazer?

(R)Encontrei-o hoje, com algumas dificuldades de locomoção, um olhar meio triste apesar de a paisagem  estar belíssima. De máscara colocada, tivemos um breve diálogo, que a caminhada era para ser feita.

- Então como vai? Dá-se bem com a nova situação?

- Eu ainda trabalho, replicou de pronto. Não lá, é óbvio. Dedico-me à consultoria, de segunda a quinta. Só regresso ao casal à sexta-feira.

Mudei de assunto. O tempo está óptimo, a lagoa uma maravilha, não há vento, nem parece Outono, está com um excelente aspecto, e mais uma série de lugares comuns, trocados para "encher chouriços".

- Bom, vou andando. Os meus companheiros de caminhada já vão longe e não esperam pelo "velho". Prazer em vê-lo e até um domingo destes. Ao domingo de manhã, ando sempre por aqui.

E lá fui fazer a caminhada, que também posso fazer de segunda a sábado, "consultando" os astros para ver se chove ... 

sábado, 10 de outubro de 2020

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Aprender sempre

Quase todos os dias me lembro de uma frase que ouvi, várias vezes, a um professor de há muitos anos, chamado Dragomir Knapic, natural da ex-Jugoslávia e refugiado em Portugal desde a 2ª. Guerra Mundial. Já deve ter partido há muito, porque, há mais de 40 anos, já não era jovem. Já por aqui falei nele e cada dia que passa vou confirmando quão verdadeira é a frase "quanto mais sei, maior é a minha ignorância". 

O meu amigo ADS presenteia-me, muitas vezes, utilizando esse novo modelo de carta sem envelope que se chama mail, com curiosidades, fotos, filmes, músicas. novidades, etc.. Hoje enviou-me um vídeo de uma canção napolitana, que ouvi pela primeira vez num "cartucho" na voz de Mário Lanza e que Luciano Pavarotti levou aos quatro cantos do mundo. Até aqui, nada de novo. Ó Sole Mio deve ser das músicas mais conhecidas em todo o mundo. Todavia, esta trazia um instrumento para mim novo e que, afinal, já é centenário.

Chama-se THEREMIN e é tocado sem ser tocado!

Fui à "central do esclarecimento" chamada Google e encontrei muitos tópicos para esclarecer a minha ignorância e uma "aula" oferecida pela Antena 3, que pode ser vista e ouvida aqui. Procurei, também, saber alguma coisa sobre a intérprete do Theremin que o vídeo mostrava e a "central" do costume esclareceu-me que KATICA ILLÉNYI é uma violinista, cantora, bailarina e tocadora de Theremin, nascida na Hungria em 1968.

Deixo o acesso ao Ó Sole Mio, que pode ser ouvido utilizando este link e, para demonstrar que há Theremin em muitos sítios (agora já sei!), a área da ópera cómica Gianni Schicci, de Puccini, O Mio Babbino Caro.