terça-feira, 1 de junho de 2021

Fia-te na virgem ...

Trinta dias tem Novembro,
Abril, Junho e Setembro.
De vinte e oito (ou 29) há só um
E o resto é de trinta e um!

A cantilena, aprendida muito cedo, ensina a forma de decorar a duração dos meses, evitando o desconforto de sermos surpreendidos pela ignorância ou traídos pelo esquecimento, como tantas vezes se vê por aí.

Junho chegou ao Oeste, cinzento, com o borriço do costume, para que não haja tentações de encher as praias e sujeitar-se ao risco de surgir um polícia, com a fita métrica, a tirar as dúvidas sobre a distância, ou a policiar o início do areal, que determina a zona de colocar a máscara no bolso.

Ao que dizem (sim, sou antigo mas não desse tempo), na década de 40 do século passado, havia brigadas de costumes que circulavam pelas praias medindo os fatos de banho, certificando que o seu tamanho não ultrapassava a moral vigente, bem guardada e reprimida.

Conto começar a época balnear assim que o S.Pedro resolva determinar que o Oeste também é merecedor de algum sol e calor (pouco). Não vale a pena pedir água quentinha ou mesmo morninha, que essa, já se sabe, está sempre ausente destas paragens e em férias pelos Algarves ou pelas Caraíbas.

Espero encontrar amigos, ler, conversar, andar, mergulhar, com os cuidados recomendados e sem necessidade da companhia de qualquer polícia, munido de fita métrica ou de outro qualquer instrumento persuasivo. Se não tiverem mais nada para fazer, dediquem-se à pesca! A Foz é um bom lugar!

segunda-feira, 31 de maio de 2021

Livros (lidos ou em vias disso)

Outros tempos?!

Que país existiria hoje se, como se fantasia neste livro, o Botas tivesse morrido em 1940, trinta anos antes da "despedida" efectiva.

(...) Na entrada dos Armazéns do Chiado, um cavalheiro de chapéu proíbe a aproximação de um mendigo com uma cuspidela para a calçada e diz "Tenha paciência". Rebeca, que já se cansou dos elogios dos estrangeiros à magnífica luz de Lisboa, nunca ouviu ninguém falar dos roncos da cidade. Uma cacafonia de escarros, ganidos, buzinas de automóveis, atropelamentos, gaivotas esganiçadas que cagam as praças, pregões de gente descalça e tão desprovida de vocabulário como de meios para comer uma refeição quente por dia. Os homens açambarcam as ruas, esperam nas esquinas, acotovelam-se nas praças. Quando Rebeca tentou beber um chá na Pastelaria Suíça, disseram-lhe que não serviam senhoras desacompanhadas. As poucas mulheres que se apresentam em público carregam sempre alguma coisa - canastras de peixe e bilhas de água na cabeça, as compras da patroa, os filhos no colo, os chapéus finos das bem casadas, as ordens do pai ou do marido. Até a flauta do amolador parece a Rebeca um hino à resignação da tristezazinha portuguesa. Detesta diminutivos e o som dos lábios dos carroceiros a incitar as mulas, esse trapejar de cuspo que os homens também usam para chamá-la na rua. Despreza a minoria de ricos que desdenha a pedinchice da multidão de pobres. Não suporta os atrasos, os almoços de três horas e quatro garrafas de tinto, o vossa excelência, o nepotismo magnânimo, que não beneficia apenas o filho do arquitecto como ainda arranja um biscate ao sobrinho do caseiro.

A família desce pelas escadinhas da Rua de Santa Justa, dirige-se ao mercado da Praça da Figueira. Rebeca sabe que Paixão Leal escolheu a rota que foge ao Rossio, evitando os peregrinos que, desde o mais recente ataque dos terroristas judeus, acodem à Igreja de S. Domingos. O engenho explosivo deflagrou durante a missa, matando oito pessoas e ferindo dezenas. Movidos pela morbidez e ciosos de um milagre, os curiosos querem saber onde tombaram os mortos e ver a cratera da bomba, na qual acreditam ver a silhueta de Nossa Senhora esboçada a negro pelas chamas da fachada.(...)

Deus Pátria Família
Hugo Gonçalves
Companhia das Letras

domingo, 30 de maio de 2021

Vacina II

Já cá canta!

A partir de hoje, faço parte do grupo que contribui para a estatística da imunidade. Por antecipação em relação à data prevista, desloquei-me há pouco ao pavilhão de vacinação e recebi a segunda dose Pfizer, que estava marcada para amanhã.

Por um telefonema, simpático, foi questionada a minha disponibilidade para ir hoje, por terem pouca afluência e, naquele instante concreto, não haver ninguém à espera.

Lá fui e, ao contrário do que tinha acontecido na primeira vez, correu tudo "sobre rodas". Mal tive tempo de trocar meia dúzia de larachas com três amigos que já lá estavam e, entretanto, foram chamados para os respectivos gabinetes.

Quarenta minutos depois de ter entrado, estava na rua, a admirar o verde (este ano, o verde está sempre presente) da Mata Rainha D. Leonor e a saborear o ventinho oestino que, excepção à regra, não está confinado nem leva a vacina.

sábado, 29 de maio de 2021

Hora de fechar

As autoridades estão com imensa dificuldade em fazer com que as pessoas, cansadas de confinamento e de casa, saiam das esplanadas, bares e restaurantes, quando chega a hora legal para a folia terminar.

Os ingleses, que vieram para assistir à final da Liga dos Campeões de futebol, aproveitam, naturalmente, para se dessendentarem com as nossas cervejas, boas e baratas, compensando dessa forma a desidratação que o nosso sol lhes causa. A polícia não percebe estas necessidades e satisfações e quer que aquela gente se vá encerrar num quarto de hotel, quando a noite ainda é uma criança e se está tão bem junto ao rio. Francamente ...

Sem qualquer dúvida e mesmo antes de o jogo se disputar, o campeão europeu deste ano será inglês. Manchester City ou Chelsea, um dos dois vencerá, nem que seja necessário recorrer às grandes penalidades. 

Será um jogo disputado no estádio azul do Dragão, por duas equipas que usam habitualmente o azul nas suas camisolas. Se o tivessem marcado para a tarde, ficaria tudo, tudo azul, que até é uma cor bonita!

sexta-feira, 28 de maio de 2021

28 de Maio

Conheci-o em 1974, quando cumpria o serviço militar obrigatório. Nunca mais o vi e já por cá não deve estar, que os anos não contam só para mim. Teria, nessa altura, talvez 50 anos, idade que, para os jovens dessa altura, significava ser já um "velho do caraças".

Era um "cabo chico", lento de raciocínio, sempre pronto a fazer continência nem que, para isso, tivesse de ir buscar a boina ao cabide (a continência não se concretiza com a cabeça descoberta). Repetia, vezes sem conta, interrompendo conversas ou quando conseguia espaço para "botar faladura", a frase que lhe enchia a alma: eu estou com o MFA; sou militar das Forças Armadas!

Martelava a máquina de escrever Messa apenas com os dois indicadores e usando uma força tal que o papel tinha dificuldade em resistir. Estava sempre disponível, tinha sentido de humor e ficava visivelmente satisfeito quando conseguia ser útil, na vertigem dessa época. Na maior parte das vezes não percebia o que estava a acontecer, mas queria que o soubessem participativo e disponível para os novos tempos.

A mulher era telefonista num banco que, tal como a profissão, já não existe. Mal chegava, logo pela manhã, o "nosso cabo" levantava o auscultador do telefone e gritava para o telefonista, como se fosse necessário gritar para ele o ouvir, estando no último piso do edifício.

- Liga-me ao número ....

Aguardava a ligação e mal ouvia a voz esperada e conhecida, dizia:

- Olha, já cheguei. Até logo.

A cena repetia-se à saída para o almoço,

- Olha, vou almoçar. Até logo.

e de novo à chegada, já com a barriguinha cheia.

- Olha, já cheguei. Almocei .... Até logo.

Quando chegava a hora da saída, perguntava para a "geral":

- Alguém precisa de ajuda? Então até amanhã.

Mas antes, ainda tornava ao telefone, para informar que

- Olha, vou sair. Até já.

Era um homem muito preocupado com os novos tempos e com o que lhe poderia acontecer, embora não causasse preocupação a ninguém e contasse apenas para algumas tarefas básicas. Por tudo e por nada repetia que nunca tinha feito nada de mal, nem sequer tinha ido à guerra. Cumpria todas as ordens, sem discussão. Fora sempre assim e assim iria morrer, dizia.

-  Não diga a ninguém, peço-lhe pela sua saúde, mas eu vivo sempre a pensar que podem correr comigo. Eu não sei fazer mais nada e a idade já não dá para aprender.

- Descanse, homem, ninguém lhe faz mal.

- A minha mulher é neta do Gomes da Costa ...

- O do 28 de Maio?

- Sim. O da revolução de Braga que abriu as portas ao Botas. Mas fique sabendo que ele, depois, arrependeu-se e até chegou a ser do contra.

quinta-feira, 27 de maio de 2021

Contratos

Nas pequenas notícias de hoje surge a informação de que as letras miudinhas e o exíguo espaçamento entre linhas que, actualmente, se verificam nos contratos, irão ser objecto de proibição, a partir de 25 de Agosto deste ano.

Não é, ainda, o que seria ideal e correcto, mas é um passo importante. Aplicar-se-á, tomando por certa a informação difundida, aos contratos dos bancos, seguradoras, telecomunicações e quejandos. 

Todavia, é meu convencimento que o certo seria que os contratos genéricos, tal como os anúncios que passam nas rádios e televisões a velocidade superior à normal, deveriam ser pura e simplesmente banidos. As actividades económicas que usam (e abusam) destes documentos têm supervisão de autoridades independentes e deveriam ser estas entidades a aprovar o texto dos contratos genéricos, garantindo a justeza e a equidade dos mesmos. Da forma como está, os contratos são "leoninos", tendo sempre algo que, em caso de litígio, "entala" a parte mais fraca. Acresce que, desta forma, se contribuiria para a diminuição do desperdício de papel, limitando os contratos a uma simples página, da qual constariam as assinaturas e a menção ao contrato genérico que regularia a relação e que estaria sempre disponível para consulta, na página oficial do regulador.

Ficamos pelos mínimos, com a esperança que, daqui a algum tempo, se concretize uma mudança radical e justa.

quarta-feira, 26 de maio de 2021

Caminhadas conversadas

As conversas da caminhada das manhãs das quartas-feiras caem, inevitavelmente, em dois grandes temas absolutamente essenciais e de fino recorte: a actualidade e a antiguidade.

Na primeira, fala-se sobre política, economia, futebol, presente, futuro, o que vai ser disto, porque não se faz assim ou assado, parece que têm medo de tomar decisões, querem agradar a todos e não agradam a ninguém, estão preocupados apenas com o voto e tratam-nos como completos anormais; é uma vergonha o que se passa com os caloteiros, bens todos "ao fresco" e com aquela carinha de enjoados, vítimas da injustiça, da incompreensão e do escárnio das gentes que não conhecem quão difícil é a vida (todos invejam o vinho que eu bebo, ninguém inveja os trambolhões que dou), são uns ingratos que nem valorizam os sacrifícios que fizemos para criar postos de trabalho, os tribunais demoram anos, há sempre mais um recurso, um apelo, um erro e o tempo a passar, já não vamos ver a solução; claro que foi penalty, viu-se bem na repetição, o árbitro estava a dormir e o VAR deve ter medo, não foi nada, o guarda-redes nem lhe tocou, ele mandou-se para o chão, ainda a perna vinha longe e já se ouvia o grito, gosto é de ver jogos estrangeiros, não há nada disto, afinal o Conceição já não vai para Itália e o Jesus vai ficar, que o "orelhas" já disse e o que ele diz é uma escritura ... sempre.

Ainda te lembras da loja, na esquina, junto onde é hoje o ..., quem lá trabalhou muito tempo foi o pai de Fulano, esse trabalhava no banco da rua das montras, não, no banco era outro, pai do Beltrano, lançava os movimentos nas fichas, à mão, claro, o caixa era o senhor M., enorme, sempre de pé, contava a "massa" e as anedotas ao mesmo tempo, não havia computadores, o primeiro que apareceu foi o Spectrum, programámos a bandeira desfraldada, lembras-te, e a seguir veio o, já não me lembro da marca, tinha disquetes de 5 1/4", era muito mais rápido, depois, bem, depois já foram tantos, cada um melhor que o anterior e olha que ainda me lembro de ir ao INE ver um enorme, na cave, que funcionava com cartões perfurados, trabalhava lá o Q., eu devia ter treze anos, se contares isto agora aos netos, dizem que és do tempo da pedra lascada ...

- Finalmente! Já estávamos fartas de esperar. Põem-se na conversa e nós aqui, temos mais que fazer. Param por tudo e por nada e a gente que espere ...

A caminhada chegou ao fim e as reprimendas também. Cada um foi para o seu carrinho e seguiu a vidinha, que se faz tarde para o almoço. 

Para a semana há mais ... do mesmo. Velhos!!!

terça-feira, 25 de maio de 2021

Gavetas

As gavetas das secretárias são, por norma, um poço sem fundo. Podem estar a abarrotar mas cabe sempre mais um papel, que se guarda, na certeza de que não será necessário e com a convicção de que pode vir a ser preciso.

Ainda não foi tudo destruído, mas já "marchou" muito lixo! Surgiram recordações pessoais, profissionais, de amigos, engraçadas, tristes, umas que foi difícil lembrar, outras que abriram logo a porta da memória.

De entre os muitos papéis que vão permanecer até que alguém, mais corajoso, lhes dê o destino devido, surgiram uns versos de "pé quebrado", feitos em 1991, para integrarem uma revista levada à cena nos Pimpões. Já não recordava nada daquilo e, confesso, senti alguma nostalgia que os trinta anos passados trouxeram à tona.

Se à noite TV não vejo 
Já não durmo descansado
Saindo, embora, o bocejo
Eu nunca perco o ensejo
De mirar aquele quadrado.
Vivo contente e feliz
Pelo menos até pró ano
Vejo o primeiro do Moniz
E o dois do Adriano!

Quando chego, é a rodinha 
do Herman, que sensação!
Com sua amiga Rutinha
Lá vai ganhando a vidinha
e gozando, o malandrão!
Depois, para m'actualizar
As notícias eu escuto.
São formas do verbo armar
São artes de guerrear
E é mais gente de luto!

Há guerra lá para o leste
Há fome na parte sul
No Biafra foi a peste
Houve revolta a sueste
Só aqui é tudo azul!
Sim, porque cá no cantinho
De novo, nada acontece
Em S. Bento há Cavaquinho
O Mário está bem gordinho
E o Álvaro não envelhece!

Telejornal terminado
Preparo olho e ouvido
Pra um prato recheado
De tudo o que é enlatado
E nos vai ser impingido!
Mas o Cavaco que olha
Por mim e por toda a gente
Acaba de fazer a escolha:
(Quase qu'ia dando trolha)
Vai haver TV diferente!

Não há fome sem fartura
Diz o povo em sua crença
Houve bastante soltura
Combinações de postura
Chuchou no dedo o Proença!
E eu contente e feliz
Agradeço a decisão
Já não é só o Moniz
Vou ter também Balsemão!

Que Deus me salve e proteja
(Não, não me levem a mal)
Que reze pela Merdaleja
Pra na TV da Igreja
Poder ver o Pantanal!
Oh! Não estão bem aferidos 
Os alqueires da minha mona
Se o Império dos Sentidos
Pôs padres, bispos, cabidos
A andarem numa fona,
Queria eu, um mortal,
Ver na TV da Igreja
As brasas do Pantanal! 

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Música

Os anos passam mas o que tem qualidade permanece, felizmente.

E como sabe bem ouvir, especialmente quando os dias amanhecem morrinhentos, ainda que estejamos no final de Maio. Isto anda tudo trocado ....

domingo, 23 de maio de 2021

Confusão

As noites de sábado eram as que não tinham relógio, permitindo alguns desvarios, por ser possível dormir a manhã na cama, no dia seguinte. Havia programa quase sempre combinado antecipadamente, para que todos estivessem preparados e o pudessem alterar livremente. Com alguns "cobres" na algibeira, poucos, mas suficientes para a gasolina e para beber uma cervejita ou duas, a noite era sempre um prodígio de sensações. Não havia muita escolha mas procurava-se uma aventura diferente e, tanto quanto possível, interessante para todos.

Dessa vez coube a Peniche ser distinguida com a presença do grupo. A ainda, nessa altura, vila, era um destino mais ou menos costumeiro, pelas diversões que a noite de lá proporcionava e pela qualidade dos camarões ou, em dia de festa, das sapateiras, que se podiam saborear, no Gaivota ou no Patriarca, "tascas" mais comuns para esses vadios.

O regresso já se deu a desoras, mas ainda longe do sol aparecer a iluminar os campos, situação que algumas vezes, poucas, aconteceu. A meio da viagem, um dos convivas sofreu o "ataque" da cerveja e pediu que o carro parasse, para libertar o líquido que lhe perturbava o bem-estar. Saltou a berma, para que o "assunto" tivesse alguma reserva e, logo de seguida, gritou:

- É um meloal!

- Apanha meia dúzia. Vou abrir a mala para os pores lá.

O frio da noite, tão comum no Oeste, de Verão e de Inverno, aconselhava o interior do carro. Aliviado, o companheiro apanhou quatro ou cinco melões ( ou seis ou sete, já não recordo) e colocou-os na mala do carro, tomando, de seguida, o seu lugar na viatura.

A viagem continuou até ao fim, sem quaisquer outros problemas ou necessidades.

No destino, a mala foi aberta para que cada um levasse um ou dois melões para sua casa, distribuindo-se, de forma equitativa, o produto do "rapinanço". Os candeeiros iluminavam bem o local da paragem e o conteúdo da mala saltou à vista de todos.

- Tens de ir ao médico da vista! São abóboras!

Imagino que o problema não foram os olhos e o mau funcionamento dos mesmos. Há líquidos que, bebidos em demasia, provocam a bexiga e, muitas vezes, algumas alucinações.

sábado, 22 de maio de 2021

Águias

A actualidade, a crítica, a arte de desenhar, da qual eu tenho tanta inveja (não sei fazer um risco direito), são bem mais elucidativas que mil palavras ditas ou escritas, e valem bem os 4,00 € que o Expresso custa.

sexta-feira, 21 de maio de 2021

Lirismo

Deram-me ganas de escrever sobre os direitos dos animais, que o PAN quer ver consagrados na Constituição da República; depois, pensei nas tragédias do Mediterrâneo, da Síria, da Palestina e de mais umas tantas que pululam por todo o mundo, sem direito a abordagem televisiva.

A seguir, o cérebro trouxe-me ao "écran" um caloteiro que, bem instalado lá pelo Brasil, se deu ao luxo de "gozar com quem trabalha". Senti-me nauseado, furibundo, arreliado, enervado, gozado, apalermado, aparvalhado, apatetado, e muitos outros adjectivos que surgiriam se continuasse.

Estás parvo ou quê? 

A resposta só pode ser "quê". Já não há parvoíce que me espante nem aldrabice que me comova ... e a culpa, claro, só pode ser minha.

quinta-feira, 20 de maio de 2021

Organização

Não fiz a guerra colonial, mas cumpri o serviço militar obrigatório, antes e depois do dia, sempre presente, em que completei 22 anos, e não mais esquecerei.

A experiência da "tropa" foi dura, algumas vezes deprimente, muitas outras "chata", incompreensível, idiota, principalmente nos três meses iniciais que me levaram a rebolar no monte, a agarrar o pinheiro com o alferes a gritar que era a Brigitte Bardot, a dar passos em frente na lagoa até a água chegar ao pescoço sem molhar a G-3, a correr no pórtico como se não houvesse amanhã, a passar na manilha com água até meio e teias de aranha no restante, sempre como a preocupação da salvaguarda da arma, a fazer e a ouvir discursos à lua durante uma noite inteira, a não poder sair do quartel por ter a barba mal feita, etc. etc..

Foi dura a recruta, a especialidade um pouco melhor, ambas com o fantasma da guerra sempre presente e a necessidade imperiosa de aplicação diária, para tentar que uma boa classificação impedisse a ida para a Guiné, anunciada pelo comandante na primeira "prédica" aos "maçaricos" formados na parada.

Depois, bem, depois foi diferente. A aprendizagem, o conhecimento próximo de muita gente boa (alguns com o nome na história), a organização na disciplina, o PIOL (planeamento, informação, organização e logística), que nunca mais esqueci e me ajudou muito na vida dita civil à qual, na maior parte das situações, falta tudo isso.

Cada vez que vejo o Almirante "das vacinas", dou por mim a recordar o que atrás ficou dito e muito, muito mais que guardo. É para fazer? Vamos a isso! Cada um sabe as funções, as atribuições, as tarefas, todos conhecem o objectivo e o caminho para lá chegar.

E é tão fácil! Só é preciso planear, informar, organizar e controlar.

quarta-feira, 19 de maio de 2021

Palavras bonitas

O FIDALGO E O LAVRADOR

É meia noute. No baile
Folga tudo e tudo dança.
Á mesm'hora o lavrador
No seu casebre descansa.

Uma hora. No palacio
Agora vae-se almoçar.
Na choupana o lavrador
Já terminou de jantar!

Dorme o fidalgo num leito
De pennas, sobressaltado.
Em taboas o lavrador
Repousa, mas socegado!

Poesia Completa
Mário de Sá-Carneiro
Tinta-da-China (MMXVII)

Mário de Sá-Carneiro nasceu no dia 19 de Maio de 1890 e faleceu em 26 de Abril de 1916.

Datou estes versos de 24 de Abril de 1903. Mudou muita coisa desde esse dia: a ortografia, o vocabulário, a vida ... mas ainda se mantêm muitas semelhanças. 

terça-feira, 18 de maio de 2021

Tranquilidade

Hoje foi dia de ir ao "Baeta". O cabelo cresce, apesar da pandemia e, a partir de certa altura torna-se incomodativo, começa a enrolar-se, a custar a secar, enfim, a dizer, claramente, que está chegada a hora de voltar à tesoura do mestre, agora não da barbearia mas da Barber Shop, que apresenta na entrada a moderna rotativa led, azul e vermelha, indicando que está ao serviço de quem precisa.

Tempos houve em que a presença de vários clientes dava lugar à cavaqueira, aos comentários das notícias dos jornais, à anedota picante ou de salão, à piada política, ao tempo que "está que nem se percebe", aquelas coisas que os teimosos frequentadores se lembram bem e que o corona levou. Agora, não há jornais nem clientes. A conversa fica apenas no diálogo com o barbeiro, acompanhado do som de fundo do aparelho de televisão pendurado na parede. Falou-se do "nosso" Benfica (ele também pertence aos desiludidos deste ano) e da justeza do campeão, verde, como convém a um país que se pretende virado para a ecologia e para o crescimento sustentado.

Quando a conversa estava a esgotar e o cabelo quase cortado, o relógio da televisão marcou 17H00 e surgiu o noticiário, que repetiu, uma vez mais, a notícia do dia: os ingleses regressaram em força ao Algarve!

E, logo a seguir, o Ministro Cabrita tranquilizou as massas, numa exposição clara e assertiva para todos os deputados que foram hoje trabalhar à casa da democracia: os turistas vão ter de cumprir as regras impostas por Portugal, sob pena de ... levarem "tau-tau".

Fiquei tranquilo!

segunda-feira, 17 de maio de 2021

Paciência (ou a falta dela)

Por muito que me custe, tenho de admitir que a idade me refinou a refilice e me subtraiu a falta de paciência para coisas comezinhas, às quais, noutro tempo, não ligava patavina.

Hoje, fazem-me confusão os erros ortográficos, as frases mal construídas, a mistura de palavras noutras línguas para "armar ao pingarelho", o uso sistemático de adjectivos muitas vezes redundantes, as exposições pomposas vazias de senso e de conteúdo, as palavras da moda e as conversas para "encher chouriços".

Tenho de meditar muito bem sobre este problema e procurar acertar o passo, sob pena de, um dia destes, dar comigo isolado e sem me conseguir fazer entender. Corro o risco de, se não alinhar, procrastinar a minha integração na sociedade, perder a resiliência e ainda me surgir alguma comorbilidade que me apague para sempre.

Não há pachorra! 

Mas não é nada que um sunset à beira-mar não ajude a resolver!!!

domingo, 16 de maio de 2021

Palavras bonitas

Em 1923, a poesia era rimada e a ortografia tinha diferenças substanciais para aquela que eu viria a aprender e mais ainda para a que, resultante do Acordo Ortográfico de 1990 e que não pratico, é hoje utilizada pelas novas gerações. 

O PALHAÇO

Anda-se a rir, a rir dentro de mim,
com as lividas faces desbotadas
um estranho palhaço de setim,
rasgando em dôr meu peito ás gargalhadas!

Sóbe aos meus olhos sempre a rir assim ...
espreitando as figuras malsinadas
que se não vestem nunca de arlequim,
mas que andam pela vida disfarçadas.

Na sombra dos meus cilios, embuscado,
ri, no meu olhar frio e desolado,
escondendo-se atonito e surpreso ...

E quando desce á triste moradia,
vem mais louco e soberbo de ironia
na irrisão dum sarcastico despreso!

Castelo de Sombras
Judith Teixeira
Imp. Libanio da Silva (MCMXXIII)

sábado, 15 de maio de 2021

Tempo

Há 15 anos, longe de ser sexagenário, e mais perto, ainda, dos cinquenta do que dos sessenta, iniciei aqui uma tentativa de deixar qualquer coisa que pudesse servir para um dia, alguém, tentar perceber o que me ia indo na alma, o que me tinha alegrado e o que me entristeceu, os bons e os maus momentos, a beleza das coisas e a fealdade de (algumas) pessoas, os meus gostos e desgostos, a fauna e a flora de uma vida que, desde sempre, se pautou por exigência e verticalidade, atitudes das quais não guardo o mínimo arrependimento, que me orgulham muito e procurarei manter.

No último ano, não falhei um dia, postando sempre qualquer coisa, às vezes não com dificuldade em encontrar assunto mas em conseguir colocá-lo de forma perceptível, sem lamechas nem convencimentos, claro e não enfadonho. Não sei se consegui, mas não fico preocupado com isso. 

Enquanto me der prazer e para isso tiver força, vou continuar "contra a corrente", seguindo sempre a máxima de José Régio: "Não sei para onde vou, não sei por onde vou. - Sei que não vou por aí" e tendo bem visível o querer de Cesário Verde:"Se eu não morresse nunca! E eternamente buscasse, e conseguisse, a perfeição das cousas!".

sexta-feira, 14 de maio de 2021

Eleições

Estão, finalmente, a decorrer as eleições para os Orgãos Sociais da mais antiga Associação da cidade e uma das mais antigas do país. Todos os Associados estão ansiosos para que acabe uma "disputa" que já leva quase seis meses e que tem desgastado uma instituição com mais de 161 anos de vida. Toda a gente espera um final feliz, numas atribuladas eleições contaminadas pela pandemia e por "habilidades" que não deveriam ter existido.

A participação dos sócios tem sido enorme e espera-se que a lista vencedora agregue e prestigie o Montepio Rainha D. Leonor, trabalhando em prol dos interesses colectivos, que sempre foram a pedra de toque, e combatendo os aproveitamentos individuais e o jogo de interesses. 

quinta-feira, 13 de maio de 2021

Aula de condução

A estrada era de terra, utilizada apenas, e pouco, pelos tractores agrícolas. Não parecia oferecer qualquer perigo. O carro entrou, sem quaisquer problemas, e internou-se no pinhal, percorrendo talvez uns duzentos metros. O sossego era total. Os pássaros já dormiam há muito e talvez se tivesse ouvido o pio de uma qualquer coruja assustada com a invasão de um objecto para ela muito estranho. Deve ter-se afastado e matutado no que viriam para ali fazer dois intrusos, ainda por cima instalados numa carripana metálica, com um barulho ensurdecedor para os ouvidos duma ave tão discreta. As dúvidas da coruja ainda hoje devem permanecer por esclarecer e assim vão ficar, não vá ela ter acesso à internet e ler estas palavras mal amanhadas.

Cumpridas as tarefas que justificaram a deslocação, houve necessidade de regressar e era imperioso voltar a viatura, por o percurso ser muito difícil de fazer em marcha-atrás. A manobra parecia fácil. Havia espaço entre os pinheiros que dava perfeitamente para, em três ou quatro viragens, conseguir a inversão necessária para o regresso. Com o que não se contou foi com a cobardia do piso, que cedeu ao peso das rodas traseiras ou ao incómodo da visita. E, de cada vez que se acelerava, as rodas mais se enterravam.

E o tempo passava ... Afinal, era Primavera, tinha chovido bem no dia anterior e, por debaixo da caruma, a terra não colaborava em aventuras de gente pouco cuidadosa e precavida. Partir troncos e colocá-los debaixo das rodas, empurrar com toda a força existente, ajudando o motor a conseguir safar a enrascada, era a solução. Dilema: empurras ou guias? As duas coisas ao mesmo tempo são impossíveis e inconciliáveis. 

O carro tinha um botão do ar, que ajudava a pegar em tempo frio e permitia acelerar o motor de forma permanente e sem recorrer ao pedal. 

- Carregas o pedal da embraiagem até lá abaixo e seguras o volante. Quando eu gritar, vais levantando o pé, devagar, e carregas outra vez assim que eu gritar de novo. Percebeste?

A aula de condução não resultou em pleno, mas o salto dado pela viatura com o levantamento brusco do pedal da embraiagem, aliado à muito força feita apesar da lama, permitiu que as rodas ficassem em terra firme.

O tempo prega-nos cada partida ...

quarta-feira, 12 de maio de 2021

Campeões

Ainda faltam duas jornadas e o campeonato nacional de futebol já terminou para o primeiro classificado. Os jogos que faltam - um deles é um Benfica-Sporting - já não contam para o primeiro lugar e a taça já foi levantada no final da noite passada. 

Após um jejum prolongado, de 19 anos, o Sporting voltou a ser campeão. E foi-o com toda a justiça e todo o mérito. Praticou quase sempre bom futebol, foi humilde, lutou e uniu-se, provando que um conjunto de bons jogadores pode não fazer uma equipa.

O "meu" Benfica jogou mal na grande maioria dos jogos e teve sempre uma desculpa estranha para a causa desse mau desempenho. O Porto foi fantástico na liga dos campeões e, talvez por isso, não foi tão eficaz internamente. Confirmou aquilo que um homem do futebol dizia há longos anos: por cá, é muito difícil ter "cu" para duas cadeiras.

Este campeonato e a forma como decorreu deixou claro que, na maioria das vezes, vale mais querer que poder. Parabéns ao Sporting e aos sportinguistas, apenas com um senão para a "festa", que não foi digna nem dos "verdes" que a fizeram nem dos "cinzentos" que a planearam e vigiaram.

terça-feira, 11 de maio de 2021

Televisão

A RTP 1 transmite, quinzenalmente, um programa de Fátima Campos Ferreira denominado "Primeira Pessoa". Ainda não perdi um, mesmo que seja necessário recorrer ao "volta atrás", que hoje a técnica permite com a maior facilidade. É bom ver o que nos interessa, à hora que temos disponibilidade ou paciência.

Ontem, saboreei a visita de um "rapaz" da minha geração, de uma qualidade ímpar e que manteve uma conversa gostosa, calma, sem presunção nem "bicos de pés", ao contrário dos muitos que por aí aparecem a gesticular e a vedetar.

Grande Fausto! Lembra-me um sonho lindo, quase acabado ...

segunda-feira, 10 de maio de 2021

Dúvida primaveril

A Primavera está ensombrada, confinada, envergonhada, embalada, acinzentada e muito pouco azulada. Que estopada!

O chapéu-de-chuva riu-se, fez birrinha, não se abriu de imediato, criou algum nervosismo e deixou que os grossos pingos caíssem, com estrondo e desconforto, sobre os brancos cabelos cuja proprietária cabeça já se tinha convencido que o tempo da chuva era passado ou teria feito a emigração costumeira para o outro hemisfério.

- Está tão negro! Parece Inverno! Que inferno!

O vento sopra, não com a intensidade de Dezembro mas, ainda assim, criando desconforto nos braços e no peito, zonas desprotegidas por ausência do "capote invernal".

A dúvida, metódica, instala-se: Estará o Verão com receio do coronavírus?

domingo, 9 de maio de 2021

Livros (lidos ou em vias disso)

Foi-me oferecido por um amigo, comemorando o meu recente aniversário. É um livro para quem tem "o vício dos livros" e, lido, vai juntar-se aos restantes do mesmo autor, escritor da "nova vaga" de quem já li vários e de quem gosto muito.

LIBERDADE

Num jardim público, na cidade do Kuwait, algumas mulheres completamente cobertas, vestidas de negro (de niqab) faziam jogging com uma pequena carteira a tiracolo e umas sapatilhas coloridas de marca (a única coisa visível, além da carteira). Habitualmente, o clima não é propício a qualquer actividade ao ar livre: no Verão chegam a estar sessenta graus. Estávamos em Dezembro, por isso, era possível correr nos jardins.

Ali, o ar livre é, durante uma boa parte do ano, uma miragem no deserto, e as pessoas vivem cercadas de ar condicionado, dentro de edifícios de escritórios, arranha-céus, centros comerciais, automóveis, por isso, andar pelas ruas é uma espécie de luxo confinado a uma temporada curta, tão curta que não é capaz de cimentar rotinas, apesar das tentativas.

Caminhei pelo centro da cidade com uma escritora, bastante famosa no mundo árabe, que havia conhecido dias antes e que, ao contrário da esmagadora maioria das mulheres suas conterrâneas, usava calças e os cabelos destapados. No souq, passamos por uma loja que tinha roupas penduradas à porta. Ela apontou para essas roupas, daquelas que tapam, todo o corpo, e disse: "já fui uma mulher destas".

Tinha sido casada, durante mais de uma década, com um homem de uma família muito conservadora, teve dois filhos e depois divorciou-se. O que aconteceu? perguntei eu, e ela respondeu que se libertou. Como? Insisti.

- Comecei a ler e libertei-me.

Afonso Cruz
O vício dos livros
Companhia das Letras (2021)

sexta-feira, 7 de maio de 2021

Providências

Uma providência cautelar permitiu a Ruben Amorim sentar-se no banco do "seu" Sporting, apesar  de ter sido suspenso, na sequência de um "crime" cometido em Outubro do ano passado; uma outra providência cautelar autorizou que Sérgio Conceição dirigisse o "seu" FCP, no jogo de ontem com o SLB, apesar de ter sido castigado por um "crime" praticado na semana passada; finalmente, uma providência cautelar deu razão aos proprietários das casas do resort de Odemira, determinando a "ilegalidade" da requisição civil das habitações, para serem ocupadas por trabalhadores migrantes.

A providência está instalada e determina, talvez por ser cautelar ou divinal, vá-se lá saber. Entretanto, o senhor Cabrita já esclareceu que os serviços jurídicos da Presidência do Conselho estão a preparar um recurso, com o qual demonstrarão a legalidade da decisão anterior e a inconveniência da providência.

O outro dizia: é a economia, estúpido. Ou será o direito?

quinta-feira, 6 de maio de 2021

Pela noite fora ...

Prossegue o "folhetim Odemira", apimentado com uma intervenção musculada da GNR, para transferir os trabalhadores dos tugúrios onde se encontravam para instalações condignas, situadas num empreendimento turístico, que foi objecto de requisição civil por parte do Governo.

Não tenho competência nem conhecimentos para apreciar a justeza da decisão governamental, e ainda menos, a sua legalidade. Sobre isso, aparecerão, como sempre, pelo menos duas opiniões acerrimamente defendidas por juristas, com argumentação sólida e alicerçada em  legislação tão clara e concisa que escapa ao comum dos mortais e exige intelecto de qualidade superior para ser entendida.

O que me desgosta é que as pessoas envolvidas (sim, são pessoas) tenham sido "raptadas" de noite e acompanhadas por um dispositivo policial que até incluía cães, parecendo que a transferência não era uma questão de justiça mas antes uma operação fora da lei, medrosa e envergonhada.

A calada da noite não é e não deve ser boa conselheira para a democracia e não prestigia nada quem a ordenou. 

quarta-feira, 5 de maio de 2021

Dia Mundial da Língua Portuguesa

Podia ser Eça, Camilo, Jorge Amado, Machado de Assis, Clarice Lispector, Mia Couto, Luandino Vieira, Germano de Almeida, Saramago, Lobo Antunes, Sophia, Natália, Gedeão, Pessoa, Camões, Bocage, Torga e tantos, tantos outros, que poriam o blogue a "deitar por fora".

No ano passado deixei por aqui uns pequenos excertos de livros de seis autores diferentes, mas todos,  claro, de língua portuguesa. Hoje apeteceu-me voltar a Aquilino e a um livro não muito conhecido, do qual possuo uma edição que me precedeu em 8 anos e onde, como sempre, sobressai a beleza e a riqueza da língua portuguesa.

"(...) - Estás a rezar? - ouviu dizer o irmão.

- Reza também. Por alma da nossa mãe ...

Passou o murmurinho pelos lábios do Duarte, pontuado de sibilos como do vento nos buracos do telhado, e ao cabo da oração tornou-lhe a ouvir:

- Darão os dois contos pela regadinha? O cão do Calhorra saiu-se a dizer que a não queria por quinhentos mil réis. Safado! Se me derem menos, grito ó da guarda!

- Se te derem os dois contos não fazem grande favor. Os palitos não custam a dois tostões a caixa? E os ovos? É verdade, tenho para ali duas dúzias, mas só os vendo na feira. À porta eram capazes de dizer que os roubei.

- Pois se me apanho com os dois pacotes!...

- Com que sonhas, porco!? Dorme.

Ficaram calados. Um espiche de ar atravessou a casa, bufou ao borralho, boliu com o quer que fôsse que tinha jeito de papel ou asa de noitibó, escamugiu-se pela gateira da porta depois de percorrer os cantos todos como uma doninha e deixar um frio mortal. Ouviu-se a chuva tamborilar no telhado e nas lajas do caminho. Ferrara-se a chover deveras. Extinguira-se na lata a trasbordar o batuque da gota de água. Tamancos apressados chocalhavam na calçada ... por lá gente que voltava do forno, único na terra, a cozer há oito dias sem interrupção ...

Aquilino Ribeiro
Volfrâmio
Livraria Bertrand (1944)

terça-feira, 4 de maio de 2021

"Gaibéus"

Para "alimentar" a hipocrisia e o desconhecimento do que se passa para as bandas de Odemira. 

Se procurarem (não é necessário lupa nem inquéritos), encontrarão mais "odemiras" por esse país fora.


segunda-feira, 3 de maio de 2021

"Ratinhos"

Com toda a gente perplexa, com investigações a arrancarem de imediato, requisição civil de habitações da zona e cerca sanitária em duas freguesias, a região de Odemira vive momentos difíceis, que geram pasmo e a admiração de muita gente, daqueles para quem Portugal é Lisboa e a capital, o Rossio.

As explorações agrícolas da zona são trabalhadas, nesta época do ano, por milhares de estrangeiros, na maior parte contratados por um "habilidoso" que os instala, lhes fornece comida e dormida e lhes paga uma "justa" remuneração. É um empresário de seres humanos, com três preocupações fundamentais: fornecer mão de obra às explorações agrícolas que dela necessitam, arranjar emprego para quem dele precisa, e conseguir um "lucrozito" para si próprio, o que ninguém pode levar a mal. Como os trabalhadores são muitos e não há casas nem hotéis para os alojar, o diligente empresário vira-se e lá arranja uns cómodos, "bons e baratos", que aquela malta não é muito exigente.

E, por estranho que possa parecer, a situação, repetida há vários anos, não era conhecida de ninguém e surpreendeu toda a gente. Até as autoridades, tão pressurosas a controlar trânsitos e confinamentos, desconheciam, pelos vistos, onde eram alojados (e em que condições) milhares de trabalhadores que por ali apareciam. 

Já percebi. O número de habitantes da zona é de tal modo elevado que mais dez ou quinze mil pessoas passam perfeitamente despercebidas a toda a gente.

domingo, 2 de maio de 2021

Vacina

Uma manhã atribulada, com uma desorganização digna de reportagem da CMTV mas, finalmente, tudo acabou quando, quase à uma da tarde, o enfermeiro apalpou o meu braço esquerdo e aplicou a agulha, tal como eu estou farto de ver na televisão. Por isso, não olhei.

À chegada já havia uma fila enorme e gente a barafustar. A desorganização era evidente e as pessoas que, supostamente, eram as responsáveis de serviço, mais pareciam "baratas tontas", sem método visível nem qualquer linha coerente de trabalho. Duas listas de letras pequeninas, uma voz a chamar quem não estava presente e a continuar a insistir, apesar da evidência de que havia qualquer coisa de errado na listagem em seu poder. Na outra listagem, surgia uma pessoa talvez em cada dez nomes chamados e sem qualquer correspondência com a hora.

Ouviam-se vozes de contestação e a resposta dos ditos responsáveis era sempre a mesma:

- A culpa não é nossa. As listagens não estão bem ...

Depois de muitos protestos e da chegada da PSP para acautelar a ordem e manter o distanciamento, alguém teve a ideia brilhante de tomar uma decisão.

- Quem tinha a hora marcada para antes das dez, vai para ali.

Tinha marcação para as 10H01. Perdi a oportunidade por um minuto, mas ganhei a esperança de conseguir cumprir o que me tinham destinado para esta manhã de Domingo - ser vacinado. 

Daí a pouco, as "ovelhas" com marcação entre as dez e as dez e meia, foram mandadas para outro "redil" e receberam o papelucho para irem preenchendo. Os da primeira leva iniciaram a viagem para o interior do pavilhão, sempre com algumas dificuldades na descoberta do nome de cada um. Mas a fila foi-se movimentando ...

Finalmente, chegou a minha vez. O meu nome não foi fácil de encontrar, por as letras serem pequenas e ser um raio de um nome que não lembra ao diabo e se torna difícil de encontrar por quem tem dificuldades com o alfabeto e também não sabe bem como se escreve. (Não é com H, não!)

Vencidas as montanhas burocráticas, um minuto com o enfermeiro, com conversa sobre o acontecido pelo meio, meia hora sentado e rua, de papel passado, para não haver dúvidas.

Há gente tão complicada ... e como se julga importante. Quando saí já havia grades para acondicionar as "ovelhas" ...

Eficiência, mesmo ao Domingo!

sábado, 1 de maio de 2021

Lição

Tenho quase a certeza que já foi tema de "conversa" no blogue, mas não me dei ao trabalho de ir procurar em que altura isso aconteceu.

É cego, vive aqui perto e tem um cão-guia que o acompanha sempre. As obras, que decorrem nas ruas e não há meio de terem fim, tornam-lhe as passadas mais difíceis. O seu amigo e companheiro não o larga e condu-lo sempre pelo melhor caminho, sem se atrapalhar.

Como se tudo o que faz não fosse suficiente, hoje deu-me mais uma lição de vida e uma bofetada sem mão a tantos que por aí andam. O cão-guia, como qualquer ser vivo, precisou de fazer as suas necessidades e eu, um vulgar ser sem deficiência, não imagino como ele deu por isso. Mas deu! Esperou pacientemente que o "serviço" fosse executado; do bolso retirou um saco plástico preto e, "às apalpadelas", recolheu todo o produto resultante da função.

Não precisou de olhos. Bastou-lhe a educação e o respeito por si e pelos outros.

sexta-feira, 30 de abril de 2021

Maio, maduro Maio

Termina hoje o estado de emergência na quase totalidade dos concelhos do continente, sendo substituído pelo estado de calamidade. Como disse Salgueiro Maia, a propósito de uma necessidade imperiosa da época, "o estado a que isto chegou". É uma excelente notícia e o indício de que surgirá em breve o regresso à normalidade. E já não é sem tempo. Estamos todos fartos de condicionalismos, de não poder ir aqui ou ali, de viver com condições prévias, sujeitos a sanções, admoestações, recriminações e, por vezes, prepotências de quem, de forma inesperada, viu o seu poder reforçado e disso quer fazer gala.

Pelo que dizem os cientistas, ainda haverá muito caminho a percorrer e muitos cuidados a ter, mas a luzinha parece já tremelicar ao fundo do túnel.

Não vêm (ainda) os abraços, os beijinhos, as grandes festas, os espectáculos sem restrições. Não vamos ter o "prato" cheio, mas a "comiida" já terá mais quantidade e qualidade. Meio a sério, meio a brincar, poder-se-á dizer que posso viajar até Lisboa ou qualquer outro sítio; não posso ir a 120 mas já me deixam deslocar a 60 ...

Veremos o que nos reservará o mês das flores, que se inicia amanhã, com um dia no qual, de acordo com "regras" mais antigas do que eu, é fundamental levantar cedo para que o Maio não entre e, em consequência, se ande amarelo todo o ano ...

quinta-feira, 29 de abril de 2021

Dia Mundial da Dança

No Dia Mundial da Dança e quando se anseia pelo retorno dos espectáculos, o final sublime de O Lago dos Cisnes, expoente máximo da dança clássica, para manter viva a chama e esperar que, no próximo ano, a "nossa" Escola Vocacional da Dança possa voltar ao palco, com as salas cheias, como é (era) costume.

quarta-feira, 28 de abril de 2021

Filhos da madrugada

O 25 de Abril é uma data que me é muito querida, não por ser o dia do meu aniversário mas porque encerra uma transformação na qual, muito modestamente, participei, e que trouxe um país novo, abrindo portas que, até aí, permaneciam encerradas à grande maioria das gentes.

Decorridos quase cinquenta anos, é com muita alegria que vejo e ouço gente de elevada craveira, discutir com liberdade e participar activamente no desenvolvimento da ciência, da arte, da vida. Muitos dos que, hoje, fazem parte do escol da sociedade, teriam passado ao lado se aquele país fechado, falso moralista e enormemente elitista se tivesse mantido. O "ninho" determinava o destino e poucos "pássaros" conseguiam voar além de um horizonte muito limitado e previamente anunciado. O poder ser e depender apenas do querer não tem preço. Assim se mantenha ...

A RTP-3 transmitiu, durante o mês de Abril, 25 entrevistas de Anabela Mota Ribeiro a outras tantas pessoas, que têm em comum o facto de terem nascido depois de Abril de 1974. Chamou a essas entrevistas "Os filhos da madrugada". São conversas extraordinárias, com personalidades, as mais diversas, com histórias de vida e de antecedentes distintas, demonstrativas de que, ao contrário do que pensam muitos da minha geração, "os filhos da madrugada" são muito melhores do que foram os "pais" da dita. 

E tudo isto é o concretizar do sonho da grande maioria dos que viveram intensamente a madrugada do "dia inicial, inteiro e limpo", com tão bem o definiu Sophia.

terça-feira, 27 de abril de 2021

Fábula de trazer por casa

Era uma vez uma colmeia que existia há muitos anos nos campos da região. Destacava-se pela qualidade da sua edificação, pelos propósitos com que havia sido construída e pela qualidade do mel que produzia. A sua história era de todos conhecida e tinha tido a participação de muitas obreiras, lideradas por rainhas que iam mudando com o decorrer dos tempos. Todos juntos procuravam criar as melhores condições para quem frequentava a colmeia e tentavam produzir um mel da melhor qualidade.

Durante muitos anos assim foi acontecendo mas "não há mal que sempre dure nem bem que nunca acabe".

A construção, modelar em tempos idos, foi-se degradando; descuidou-se a manutenção, a produção baixou de qualidade. E quando tudo apontava e exigia a necessidade imperiosa de unir esforços, a rainha deixou de olhar para a colmeia como um património colectivo e começou a procurar os seus interesses específicos, tomando decisões autocráticas e contraditórias, fomentando que os interesses das partes se sobrepusessem aos do todo, criando uma situação insustentável na vida das obreiras e dos destinatários do mel.

As condições climatéricas do reino não têm permitido a realização do plenário de todos os interessados, aos quais cabe a decisão sobre o futuro da colmeia e a forma de o atingir.

Anseia-se que a decisão aponte para que o bom senso prevaleça e que a qualidade da colmeia possa melhorar, continuando a servir o bem de todos e não os interesses de alguns.

segunda-feira, 26 de abril de 2021

Livros (lidos ou em vias disso)

Não conhecia e nunca tinha ouvido falar do autor, William Melvin Kelley, nascido em 1937, em Nova Iorque, e falecido em Fevereiro de 2017. Fui sensível à publicidade do "gigante perdido da literatura americana" e comprei. Vou a meio de uma história sobre escravos e senhores, racismo e exploração, que me tem entusiasmado pela história em si e pela escrita escorreita. Deliciei-me com a descrição da "aula" do menino para aprender a andar de bicicleta. O regresso a casa do senhor e do servo trouxe o costume, nada agradável para o "professor". Fica aqui uma parte da aula ...

(...) O crepúsculo já pendia sobre as colinas e a força do vento era cada vez maior. Tinham tentado vezes sem conta.
- Será melhor que regressemos a casa, Dewey. 
- Só mais uma vez, Tucker, se fazes favor. Vá lá.  
- Vamos embora, Dewey, já sabe que o seu pai não ficaria contente se lhe atrasássemos o jantar. 
- Mas TENHO de aprender, Tucker. 
Sentiu lágrimas quentes no fundo dos olhos que talvez já brotassem, queimando-lhe a cara, porque Tucker olhou para ele e assentiu. Depois ajudou-o a montar, segurou com força o selim para que a bicicleta não tombasse e começou a empurrar. Dewey tentou sentir a máquina e, quando lhe pareceu que tinha conseguido, voltou-se para dizer a Tucker que o soltasse.
Tucker já não estava ali. Tinha deixado de correr sem aviso prévio e Dewey seguia sozinho, rolando, cavalgando, deslizando, navegando, voando sozinho, e sentiu a bicicleta em equilíbrio sobre estreitas rodas brancas e o orgulho que o inundava. E subitamente o medo surgiu do nada, um pânico escuro vitrificou-lhe os olhos e tapou-lhe os ouvidos, quase o impedindo de ouvir o que Tucker gritava:
- Siga a direito! Vire agora! Siga a direito!
Mas a confiança já o tinha abandonado em pequenas gotas oleosas; estava a perder o combate contra o insubmisso guiador. O pavimento escuro veio ao encontro dele, esfolando-lhe os joelhos, mas desmontado da bicicleta, de novo a salvo em terra firme, não sentiu dor e estava mais orgulhoso que nunca de si mesmo.
- Conseguiu! Conseguiu! Conseguiu!
Tucker correu até ele, levantou-o e deu-lhe uma palmada no ombro; dançaram em largos círculos ao redor da bicicleta. Tucker apertou-lhe a mão, abraçou-o, chegou mesmo a beijá-lo, e gritaram e vociferaram até ficarem cansados e roucos.
Depois empreenderam o regresso a casa pela estrada direita às escuras, com as caras iluminadas pelos faróis dos poucos veículos que passavam.
- Tucker, ensinas-me a arrancar sozinho?
- Quando tiver aprendido a parar sem cair.
- Tucker, ensinas ...? 
(...)
Quando pensou mais tarde nesse dia, Dewey apercebeu-se de que Tucker já devia saber o que aconteceria quando aceitara ficar. Foi a ele que atribuíram a responsabilidade, era ele que devia ter em conta as horas e não o tinha feito, ou assim parecera ao pai de Dewey, que falou a esse respeito com John, que por sua vez deu instruções à nora para que administrasse um castigo memorável. E por isso nessa noite, enquanto jantava, Dewey ouviu os estalidos da correia contra as nádegas do Tucker.
Mais tarde, Dewey contou ao pai que tinha aprendido a andar de bicicleta.(...)

Um tambor diferente
William Melvin Kelley
Quetzal (2021)

domingo, 25 de abril de 2021

25 de Abril

A liberdade, minha companheira de aniversário, comemora hoje 47 anos de uma vida difícil, com altos e baixos, com alegrias e tristezas, aberta a todos, mesmo aos que a não merecem.

E assim irá continuar, por muito que custe a alguns, que a não prestigiam nem defendem, mas a quem ela, superior a tudo isso, não liga e continua a permitir-lhes ter opinião, mesmo feita de barbaridades, aleivosias e estupidezes.

Viva, sempre, o 25 de Abril.

sábado, 24 de abril de 2021

Liberdade

Aquela "coisa" que mantinha a ordem em todo o país e que, em boa hora, sucumbiu em 25 de Abril de 1974, cuidava de todo o mundo com um desvelo e uma dedicação "louvável", controlando o que se dizia, escrevia ou lia, pretendendo determinar comportamentos e bons costumes, fomentando a denúncia e o afastamento, ostracizando ou perseguindo quem ousasse agir ou pensar de forma diferente.

No ano em que nasci, a Direcção dos Serviços de Censura "despachava" o livro de contos de José Cardoso Pires intitulado Histórias de Amor desta forma "brilhante e eloquente":

Imoral. Contos de misérias sociais e em que o aspecto sexual se revela indecorosamente. De proibir.

O Subdirector 
a) José da Silva Dias
Cap.

Em Janeiro de 1960, a Delegação de Angola da PIDE enviava à sede da mesma sinistra polícia em Lisboa, o ofício nº. 169/60, que dizia o seguinte:

A seguir tenho a honra de transcrever a V. Exª. parte da escuta feita pela Rádio Costeira ao noticiário da "Radio Brazaville", na sua emissão em língua portuguêsa: 
 
"Em Lisboa a polícia apreendeu todos os exemplares do último livro de Miguel Torga "O Tomo oito do seu diário" publicado há dias. Supõe-se que o motivo de tal atitude são as depreciações dadas pelo autor sobre alguns episódios da vida política portuguesa. Miguel Torga é um dos mais brilhantes escritores portugueses contemporâneos e a sociedade dos homens de letras portuguesas apresentou a candidatura do escritor ao Prémio Nobel de Literatura Portuguesa.
Foi levantada a apreensão que a polícia fêz em todas as Livrarias de Lisboa da última obra do célebre escritor português Miguel Torga. O próprio autor do livro tinha sido detido pela Polícia na véspera da confiscação do livro mas posto em liberdade pouco depois. Miguel Torga é candidato ao Prémio Nobel da Literatura de 1960. A sua candidatura foi apresentada pela Sociedade Portuguesa dos homens de letras. Julga-se que a atitude que a Polícia tomou foi devida a algumas apreciações contidas no livro sobre certos episódios da vida política portuguesa."
A Bem da Nação
O Subdirector, Intº
Aníbal de São José Lopes
Inspector-Adjunto

Muitos outros exemplos se poderiam dar do país que tínhamos e que, parece. alguns por aí querem fazer regressar.

sexta-feira, 23 de abril de 2021

quinta-feira, 22 de abril de 2021

Dias

Não é sexta-feira e nem sequer estamos a treze, mas o trabalho nas obras de hoje não correu como se esperava e estava planeado. Quando parece que estão reunidas as condições para ser um "passeio", surge um obstáculo, pequeno, que não se mostrou antes e surge como que a dizer :

- Esqueceram-se de mim, aguentem. Como vêem, sou fundamental e vocês não me valorizaram.

É a vida! Acontece muito. Desvaloriza-se e neglicencia-se a importância de quem não grita, não barafusta, não se põe em bicos de pés e, no fim, por muito que custe a alguns, todos somos importantes. 

quarta-feira, 21 de abril de 2021

Lícito

"Quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lado vem."

O adágio, como quase todos, é pleno de verdade e metaforiza o enriquecimento ilícito, tão glosado nos últimos tempos que até já vai tirando protagonismo ao coronavírus. Como é normal, lá voltamos a discutir novas leis, constitucionalidades, âmbitos, versões, propostas, textos, palavras, actos, omissões, penalizações, comissões, tudo nessa língua maravilhosa que chamo de "direitez", tão hermética quanto abrangente, onde cada termo tem, pelo menos, duas interpretações e milhentos significados.

Pretende-se, de acordo com o que é dito, criminalizar o enriquecimento ilícito de quem exerce cargos públicos. E os que usufruem de ganhos "pela porta do cavalo", não estando no poder, ficam impunes? O tema poderá ser melindroso, colidir com a liberdade de cada um, dar azo a devassa injustificada, proporcionar parangonas e vinganças, abrir portas aos populismos, mas ... quem não deve, não teme.

Mais importante, antes de legislar sobre tudo e sobre nada, seria tornar a justiça célere, garantindo os meios de defesa a todos por igual e acabando com os subterfúgios que adiam audiências, protelam julgamentos, atiram com as decisões para as calendas, em processos de milhares de páginas carregadas de citações, opiniões, deduções, afirmações, contradições, tudo, menos lições acessíveis ao comum dos mortais, que não teve a graça de aprender a tal língua de "meia dúzia".

Respeitar o outro é, também, cumprir regras, não usufruir sem contribuir, não usar o que é de todos em proveito próprio sem dar alguma coisa de si. E ganhar o euromilhões não é enriquecimento ilícito!

terça-feira, 20 de abril de 2021

Palavras bonitas

 MANIAS

O mundo é velha cena ensanguentada,
Coberta de remendos, picaresca;
A vida é chula farsa assobiada,
Ou selvagem tragédia romanesca.

Eu sei um bom rapaz - hoje uma ossada -
Que amava certa dama pedantesca,
Perversíssima, esquálida e chagada,
Mas cheia de jactância quixotesca.

Aos domingos a deia já rugosa
Concedia-lhe o braço, com preguiça
E o dengue, em atitude receosa,

Na sujeição canina mais submissa,
Levava na tremente mão nervosa
O livro com que a amante ia ouvir missa!

(Lisboa1874)
O livro de Cesário Verde
Cesário Verde
Editorial Minerva

segunda-feira, 19 de abril de 2021

Educação ou a falta dela

Por vezes parece que estamos mais rudes, menos educados, mais porcos. 

O novo MacDonald's da cidade tem sempre clientes, de manhã à noite, até ontem em regime de take-away e, a partir de hoje, em funcionamento normal, com restrições de número, como qualquer outro restaurante. Os clientes são muitos, sinal de que gostam da comida e são bem atendidos. Não posso fazer outra coisa que não seja conjecturar, por ainda lá não ter entrado e, aqui para nós, dificilmente isso irá acontecer. Mas não tenho nenhum preconceito. Não gosto, pronto.

A caminhada da manhã mostrou como há quem permaneça insensível ao espaço que o rodeia e faça lixo para outrem limpar. Em todo o estacionamento eram visíveis os restos de domingo e, num espaço em particular, havia restos de comida, embalagens e até fraldas de bebé.

Na volta, lá andava a empregada do restaurante, vassoura numa mão, pá na outra e saco às costas, a limpar a porcaria que um ou mais energúmenos, clientes da sua entidade patronal, tinham feito.

Nunca mais lá chegamos ...


domingo, 18 de abril de 2021

Incêndio

aqui falei dele. É um homem pequenino, tem pouco mais de 50 anos e uma dinâmica e uma agilidade que não é vulgar ver-se. Fala bastante, muitas vezes com ele próprio, tem sempre uma piada na ponta da língua e fuma muito, dizendo que vai deixar os cigarros porque o filho lhe pede.

Executa várias tarefas e, quando eu chego, brinca, dizendo:

- Hoje está cá o estucador ...

ou

- O pedreiro chegou agora. À tarde, vem o ladrilhador. Carpinteiro só na semana que vem. Tem muito trabalho. 

Um dia desta semana, questionou-me, com um olhar malandro,  como quem sabe a resposta que vai obter.

- Conhece a Igreja de S. Domingos, em Lisboa?

- Por acaso conheço bem.

- Sabe que a igreja, há muitos anos, foi destruída por um fogo?

- Tenho ideia disso, sim. Acho que ouvi ou li sobre o incêndio. (aconteceu em 13.08.1959)

- E sabe porquê?

- Não faço ideia ...

- Havia lá um padre que deitava as beatas no chão ...

Riu-se ... e acendeu um cigarro.

sábado, 17 de abril de 2021

Urgências

Há dias assim. Plenos de actividade, sem tempo para pausas, ocupação ininterrupta e, no fim, afinal que fiz eu? 

No tempo do trabalho (já lá vão quatro longos anos ociosos), havia um tableau de bord, escrito ou mental, que ia servindo de orientação e de lembrança. Assuntos urgentes, tarefas importantes, temas prioritários, tudo pensado de véspera para que o dia fosse o mais produtivo possível. Uma grande parte das vezes, o planeado ficava no tableau, adiado (se eu fosse moderno diria procrastinado) para o dia seguinte ou eliminado por, entretanto, ter perdido actualidade. O desconforto surgia com a vontade de mandar o planeamento "às malvas", deixar que tudo acontecesse e depois se veria.

Agora é muito mais fácil! Não fiz nada do que tinha pensado para hoje? E depois? Qual é o problema? E, como diria o outro, qual é a pressa?

Não há nenhuma urgência que não possa esperar 24 horas e só há dois tipos de problemas: aqueles que o tempo resolve e os outros que nem o tempo consegue resolver.

sexta-feira, 16 de abril de 2021

E ainda ...

O Oeste não vai à capital há "séculos", mas Lisboa desce à província e, atempadamente, graças ao serviço de entregas dos CTT, faz-me chegar o último álbum de Carlos do Carmo, posto à venda exactamente hoje. Sem pagamento nem filas, chegou, completo, numa caixa bem bonita e já foi ouvido na totalidade. Falta apenas ver o DVD que acompanha os dois CD's, mas isso acontecerá mais tarde, talvez à noite.

Para que a sua voz fique gravada na nossa memória e o seu gosto eternizado, Carlos do Carmo deixa-nos no seu último disco as palavras de Vasco Graça Moura, Hélia Correia, Jorge Palma, Herberto Helder, Júlio Pomar, José Saramago e Sophia de  Mello Breyner Andresen. Se outras razões não houvera, e há, bastavam estes nomes para se justificar a audição.

Um grande trabalho e uma grande recordação, para ficar em lugar de destaque, como é devido.

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Canalhices

Faz parte do álbum "Com as minhas tamanquinhas", gravado em 1976 pelo grande Zeca.

Tantos anos depois, surgem acontecimentos e ocasiões há em que as palavras são tão assertivas que parecem ter sido escolhidas propositadamente para esses momentos.

quarta-feira, 14 de abril de 2021

Natureza

Mais de um ano decorrido, vamos entrar num novo período de "estado de emergência", que os responsáveis querem e têm esperança que seja o último. Eu também ...

Há um ano, quando ainda se estava no princípio e se esperava que fosse "sol de pouca dura", divaguei aqui sobre o jardim e coloquei uma fotografia de um arbusto, que estava a evidenciar-se e a exibir-se, fanfarrão, com a esperança de ter toda a gente a apreciar a sua beleza. O tempo passou, as pessoas rarearam na rua, caíram as flores, mudou de tom, encolheu-se, perdeu as abelhas, deixou a exibição e de vedeta passou a ignorado.

Mas eis que a mãe natureza, prestimosa, não o deixou cair na amargura e trouxe-o de volta. Em dois dias, as flores surgiram, brilhantes, vaporosas, e chamaram as abelhinhas, para se deliciarem com o seu néctar. E o escovilhão, ou escova de garrafa, ou limpa-garrafas ou Callistenon voltou a exibir todo o seu esplendor e a despertar a curiosidade de quem passa na rua e o espreita, fascinado.